domingo, 14 de julho de 2013

KRISHNAMURTI E A EDUCAÇÃO





Scott Forbes explora a importância que Jiddu Krishnamurti conferia à educação, como um acto religioso.



(Extraído de uma apresentação feita na primeira Conferência sobre Educação Holística, que teve lugar em Toronto, Canada, em 1997)



Tradução de A. Duarte





         Aquilo que Jiddu Krishnamurti referiu e escreveu, ao longo da maior parte da sua vida, suscitou simultaneamente tanto interesse quanto controvérsia, devido a que as suas observações sobre religião, nacionalismo, tradição, organizações e  relações, fossem, no geral, contra as convenções vigentes. E, se hoje elas são menos surpreendentes isso ficará certamente a dever-se quer ao efeito que a lucidez da sua percepção teve sobre a  consciência comum, quer à manifesta indicação do quanto ele estaria adiantado em relação ao seu tempo.

Todavia a percepção que tinha sobre a educação continua ainda radical e frequentemente  mal entendida porque tida na conta de impraticável, mas isso é justificado pelo facto de Krishnamurti representar a educação como uma acto religioso - numa era em que a maior parte ainda a encara como uma forma de preparo para o sucesso pessoal no mundo secular.




      Fomos advertidos por sábios de todas as eras de que, ainda que a verdade nos fosse colocada ao alcance da percepção, nós  seríamos incapazes de a vislumbrar por  não corresponder às nossas expectativas; porquanto aquilo que estamos preparados para defrontar não é o "real". E a representação simbólica disso está na escolha de Barrabás - a escolha do que nos é mais familiar ou se acha de acordo connosco ao invés do verdadeiro e do sagrado.


Isso é tão verdadeiro nas questões da educação quanto nas religiosas. A educação moderna é evidentemente falha na resolução dos problemas do mundo e  apropriadamente criticada por não ir ao encontro das aspirações da sociedade, do mesmo modo que é visivelmente incapaz de preparar as pessoas para as questões fundamentais do viver. Mas para podermos resolver tais problemas parece que necessitamos de uma clareza de percepção que  alie o mais profundo cultivo possível à aprendizagem comum do dia a dia, em toda a extensão da educação; que alie a aprendizagem subtil à  mundana ou, para o colocar  de outro modo, que coloque a aprendizagem do sagrado a par do que é laico.

Todavia  penso que a intuição de Krishnamurti, apesar de radical, constitui esse acordo, porquanto faz face aos desafios do viver a um nível bastante profundo, numa altura em que essa percepção é tão desesperadamente necessária.




      De todos os variados assuntos que Krishnamurti nos estendeu durante os seus mais de setenta anos a escrever e a falar em público, penso que seja a sua percepção sobre a educação que a maior parte das pessoas concordará ter sido o que maior efeito tenha exercido sobre este mundo.




O interesse que Krishnamurti mantinha pela educação, que vem de há muitos anos a esta parte, manteve-se sempre  apaixonante. Naquele que foi talvez o seu primeiro livro "A Educação como Serviço" (1912) podemos observar a sua paixão pelo educar e a introdução de uns quantos temas que prevaleceriam ao longo do seu trabalho. Podemos comprovar nesse livrinho a eloquência de um adolescente que escreve com base numa genuína experiência pessoal, como é  referido na introdução:





...Muitas das sugestões feitas neste livro procedem de

recordações da minha vida escolar vetusta. Eu próprio

experimentei tanto o método correcto de ensino

como o incorrecto, e por isso pretendo auxiliar os demais

a encontrar o modo correcto de o fazer.



(Veja-se o posfácio, no final do texto)





     Desse modo, e pelo resto da sua vida ele preocupou-se em ajudar os outros no sentido de ir ao encontro da implementação de um melhor  modo de educar...



   Seria bastante mais fácil  referir o que, na sua óptica, o aspecto religioso  não representa, do que dizer aquilo que representa. Mas em termos  bastante definidos, isso não faz parte de nenhuma religião. Krishnamurti sentia que aquilo que é realmente sagrado ou verdadeiramente religioso não pode ser condicional, nem pode estar ligado à cultura ou associado ao tempo. Consequentemente ele sentia que o aspecto religioso não pode ser contido nem sujeito a dogma, crença ou autoridade alguma. A abordagem que Krishnamurti faz de uma religiosidade livre de toda a religião deve constituir um tema interessante para todo aquele que se preocupe com o desafio dos valores morais e com a educação religiosa do mundo pluralista de hoje, porém não é coisa que  possamos tratar aqui. E se o sagrado não tem nenhuma relação com o ritual nem com templos, autoridades ou símbolos, então de que disporá o homem para poder estabelecer contacto com tal condição? Krishnamurti sentia que essa "ponte"  entre o mundo laico e o sagrado deveria constituir uma forma particular de consciência, uma consciência capaz de perceber as coisas tal como elas são, uma consciência livre das distorções do condicionamento e das limitações do pensamento (conquanto necessitemos fazer uso do pensamento). Tratar-se de uma consciência que deve transcender os imperativos do "eu" e conhecer, desse modo, uma compaixão e um amor destituídos de egoísmo; uma consciência que conheça o silêncio, que seja capaz de perceber a beleza  e de viver na alegria.




     Krishnamurti sentia que o sagrado prevalece como a fundação de todas as coisas e reside na origem de tudo; como tal, constitui uma condição irredutível e não pode ser dividido em nenhum outro elemento fundamental. Sentia  que todas as coisas fazem parte de uma unidade ou de um todo integrado e sagrado.

A palavra íntegro (ou integrado) é aqui empregue como adjectivo e não como verbo - não se trata de algo que possa ser  integrado ou reunido mas antes que todas as coisas representam partes constituintes ou componentes de algo que constitui esse todo, de tal modo que faz com que se torne condição sine qua non em relação à parte.

A analogia mais apropriada para o representar talvez seja a do holograma; se este for despedaçado cada fragmento conterá o holograma inteiro. Consequentemente não poderá haver desenvolvimento da parte que não afecte o todo, e a existir benefício (exclusivo) para a parte ele se exercerá em detrimento do todo.

Como esse todo integrado (ou aquilo que é religioso ou sagrado) sempre se acha envolvido, não faz sentido pensar num contínuo desenvolvimento de aspectos específicos, nem no posterior desenvolvimento do todo ( ou seja, no desenvolvimento intelectual primeiro e no sentido do sagrado à posteriori). Os  aspectos específicos são parte constituinte do todo e devem ser tratadas conjuntamente...




      A educação era encarada como um movimento na direcção do desenvolvimento completo do ser humano total. Do escopo total da sua obra pode concluir-se que, para Krishnamurti a educação consistia na educação da pessoa toda, na educação da pessoa como um todo ( e não como uma congregação de várias partes), na educação da pessoa inserida no todo (como parte intrínseca da sociedade, da humanidade, da natureza, etc.) pelo que não faz qualquer sentido referirmos a pessoa fora de qualquer destes contextos.

      Do que foi exposto restará provavelmente dizer (se bem que nunca será por demais repeti-lo) que a educação não consiste no preparo para apenas uma parte da vida - como a  do trabalho - mas no preparo para a vida toda e para os aspectos mais profundos do viver...




   Krishnamurti declarava repetidamente que as intenções da educação se concentram, segundo descobrira, em termos bastante inequívocos e religiosos.                              



As crianças... devem ser educadas correctamente...

Educadas de modo a tornar-se seres humanos religiosos...

                                                              (1979)




Certamente devem existir centros parao cultivo

de uma forma de viver que não se baseie (exclusivamente) no prazer

nem nas actividades egocêntricas mas sim na compreensão

da acção correcta, da profundidade e da beleza do

relacionamento, e do sagrado de uma vida religiosa...

(Em carta datada de 1980)





Estes locais existem para servir ao esclarecimento

do homem.         

 (Carta datada de 15 Out.1979)





   Parte dessa qualidade religiosa consiste na obtenção de uma consciência que faça face à realidade e que perceba aquilo que "já é". A diferença entre a compreensão do que se é, e o esforço para se tornar alguém que não somos, reflecte-se na diferença entre  o esforçar-se para mudar aquilo que "é" e o querer descobri-lo.

   Krishnamurti não negava  o crescimento nem a mudança e na verdade congratulava-se com isso. Porém, nem um crescimento significativo nem uma mudança material efectiva poderão ocorrer sem os demasiado frequentes e desafortunados efeitos colaterais, se nos certificarmos unicamente de que os jovens adquiram conhecimento e qualificações; tampouco poderemos consegui-lo ensinando-os meramente a ajustar-se aos rigores e exigências da sociedade, com o propósito de alcançarem sucesso na vida.



   Realçando este último aspecto, e com a ajuda que estendem a seus filhos para garantir a obtenção de segurança material, os pais podem conseguir  uma certa tranquilidade e as escolas poderão congratular-se com os resultados dos exames, porém, na perspectiva de Krishnamurti  isso só vem somar-se ao sofrimento e à violência do mundo. Pois ele depreciava o facto de a maior parte da educação se destinar...




À obtenção de um emprego ou utilização de conhecimentos

para satisfação própria, auto- engrandecimento ou obtenção

de sucesso. O mero cultivo das capacidades técnicas

destituído da compreensão do que é a verdadeira liberdade

conduz á destruição e à guerra; e isso é justamente o que

está a acontecer no mundo...

(1953)




Encher, simplesmente, a cabeça da criança com um monte de

informação e fazê-lo passar exames, constitui a forma

menos inteligente de educar...

(1948)




   Krishnamurti declarou repetidas vezes que o propósito da educação deve ser o de produzir liberdade, amor, o florescimento da bondade, e a completa transformação da sociedade. E isso contrasta especificamente com aquilo que sentia serem as intenções da maior parte das escolas, que enfatizam o preparo dos jovens para o sucesso material na sociedade actual (ou numa outra qualquer ligeiramente modificada).

   Conquanto esteja em voga as escolas enunciarem objectivos elevados, será deveras instrutivo examinarmos  quanta atenção não cindida dedicamos, durante todo o dia, a tais objectivos - e a quantidade de tempo despendida no preparo para ganhar a própria subsistência.

Seria igualmente instrutivo que examinássemos aquilo que sentimos serem os imperativos que moldam a experiência da educação - coisas como a utilização de espaço, quem e o que determina as actividades pedagógicas, a utilização do tempo e aquilo que é acedido - por quem e para quê.





   Conforme foi já mencionado, a liberdade é um tema recorrente nas declarações de Krishnamurti com respeito ao propósito da educação, mas esta, na sua perspectiva, é muito mais uma condição íntima do que política.

É claro que existe todo um nexo de causalidade entre liberdade psicológica e a compulsão externa - porquanto é difícil ajudar o estudante a encontrar a liberdade num ambiente dominado pela compulsão - todavia a liberdade política não interessava a Krishnamurti. Ao contrário, ele interessava-se por uma profunda liberdade da psique e da mente, e pela libertação interior que sentia constituir tanto o meio como o propósito da educação.




A liberdade é algo que se encontra no começo

e não uma coisa a ser obtida como um objectivo...  

(1953)



Não existe liberdade como objectivo para a compulsão;

o resultado da compulsão deverá ser sempre compulsão...

   (1953)



Se dominardes uma criança e a compelirdes a

enquadrar-se num modelo social ou individual,

por mais idealista que seja, poderá ela no final tornar-se livre?

Se quisermos  produzir uma verdadeira revolução na educação

teremos de estabelecer liberdade no próprio começo,

o que significa que tanto pais como professores devem

interessar-se pela liberdade e não começarmos pela equação do "como"

auxiliar a criança a tornar-se isto ou aquilo...

(1953)




       Para Krishnamurti o propósito da educação deve ser o da transformação interior e  da liberdade do ser humano - a partir do que a sociedade será transformada. A educação destina-se a ajudar as pessoas a tornar-se verdadeiramente religiosas.




Ser religioso é ser sensível à realidade. Todo o vosso

ser - corpo, mente e coração - torna-se sensível à beleza

e à fealdade, ao burro atado àquele poste ou à pobreza

e imundície desta ou daquela cidade; sensível ao riso e às lágrimas

e a tudo o que a vós se refere. E dessa sensibilidade brotará

amor e bondade por toda a existência...  

( 1964)




   Ele próprio era extremamente cuidadoso com os detalhes e crítico em relação ao que era mal feito. Era igualmente bastante compreensivo quando via que as coisas não podiam sair melhor devido a impedimentos de natureza real e jamais forçava os administradores das suas escolas a produzir alguma coisa que se situasse fora dos seus intentos. Contudo, se as coisas resultavam mal por razões de falta de cuidado, desleixo, negligência ou falta de sensibilidade, aí ele sentia que isso atentava contra o elemento essencial da educação e contra a religiosidade que cada membro da equipa deveria desenvolver. E esperar desenvolver a sensibilidade numa criança com uma equipe insensível equivaleria a dar provas de hipocrisia.



   Do mesmo modo que outros educadores, antes dele, Krishnamurti sentia que algumas das coisas importantes não podem ser ensinadas pelo uso da proibição e precisam ser vividas na presença do principiante para que possam ser aprendidas. E, do mesmo modo que Keats - por quem  nutria enorme admiração - Krishnamurti sentia que a beleza existe numa relação com a verdade.




   Para Krishnamurti a natureza tinha tanto de belo quanto demonstrava em termos de ordem. Os centros de educação que ele fundou situam-se invariavelmente em parques ou em pleno campo, mas isso não se deve a que pensasse unicamente que a relação com a natureza tivesse significativas implicações numa forma de vida sã ou no relacionamento com o sagrado. Não condenava as escolas das cidades por serem destituídas de qualquer esperança ou não possuírem tais formas de luxo, pois a natureza está sempre totalmente disponível pelo que tem de mais insignificante; numa folha de relva, numa planta caseira ou no peixinho dourado do aquário.






Se ficardes a sós com a natureza, com essa laranja

na árvore ou a folha de relva que rebenta por entre

o cimento, ou por entre as colinas encobertas pelas nuvens

então a cura (da mente) ocorrerá de forma gradual.

Isso não é sentimentalismo nem imaginação romântica

mas a verdade de uma relação com tudo o que vive e

se move nesta terra...

(1987)




Se estabelecerdes uma relação com a natureza estareis

em relação com a humanidade...Mas se não sentirdes

relação com as coisas vivas desta terra, podereis perder

qualquer relação que tenhais com os seres humanos...




   Um outro aspecto tangível dos centros educacionais que Krishnamurti criou - que representa outra indicação do carácter religioso da educação - era a sua insistência para que as escolas albergassem lugares especiais adequados ao silêncio. Ele falava frequentemente aos estudantes sobre a importância de possuir uma mente serena e silenciosa, de forma que pudessem observar os próprios pensamentos.




Vejam bem, a meditação significa a posse de uma

mente serena e silenciosa; significa  conseguir que o

corpo permaneça verdadeiramente imóvel e silenciar a mente

para que ela se torne religiosa... 

(1981)




A mente do homem religioso tem de ser silenciosa

sã, racional e lógica - e nós precisamos disso...

(1962)




    Geralmente ele insistia para que esses lugares não se situassem na periferia das escolas mas no seu centro.

À semelhança de um santuário, esses espaços destinavam-se a ser um centro, um espaço que dinamizaria o resto da escola. E de modo contrário à maior parte das concepções do que uma escola deva ser, Krishnamurti sentia que a acção devia ocorrer na periferia enquanto que o conhecimento intuitivo nascido do silêncio deveria ocorrer nesse centro...

   A preocupação central da educação, que tem que ver com a libertação interior, compreende ambos, os  estudantes e os professores como aprendizes, e por conseguinte em par de igualdade, o que está ao abrigo de toda a autoridade inerente à função.




Por isso afirmo que a autoridade tem o seu lugar

enquanto conhecimento, porém não existe

autoridade espiritual nenhuma seja em que circunstâncias for...

Quer dizer, a autoridade destroi a liberdade,

porém a autoridade do médico, do professor de

matemática e da forma como pratica o ensino,

isso não a destroi...

(1975)




Ao ajudar desse modo o estudante na direcção

da liberdade, o educador estará também a alterar

os seus próprios valores.

Também ele está a começar a ver-se livre do "eu" e do "meu",

também ele está a florescer para o amor e a bondade.

Esse processo de educação mútua cria um

relacionamento completamente diferente entre o

professor e o estudante...

(1953)




 Krishnamurti sentia que a qualidade primordial de um educador devia residir na espiritualidade.




Por se devotar unicamente à liberdade e à integridade

do indivíduo, o tipo apropriado de educador há de ser

profunda e verdadeiramente religioso, e não

adepto de qualquer seita ou religião organizada.

Deve ser livre de crenças e de rituais...

(1953)




   Por possuir uma índole religiosa o educador deve interessar-se primordialmente com os aspectos da existência, de forma que assim a 'correcção' do fazer, seguir-se-á de forma natural. Krishnamurti descreve com frequência esse tipo de relacionamento entre "ser" e "fazer" mas talvez em nenhum outro lugar de forma mais sucinta do que numa das suas conferências dadas em Bombay.




Não é que "fazer possa equivaler a ser"-  "Ser é fazer!"

(1956)




   Para Krishnamurti o "fazer" deriva do "ser" muito mais do que o contrário, como geralmente se convenciona. Tenhamos em conta a actual convenção de uma questão do género: "Quem é você?"- a pergunta sobre quem somos que geralmente é respondida nos seguintes termos: "Sou  juiz,  engenheiro, etc." ( ou seja, uma declaração sobre a função ou cargo que desempenhamos.)


Basta referir que este reverso ou confusão conduz geralmente a uma acção (fazer) altamente desenvolvida, a qual é facilmente alcançável - em detrimento do "ser", mas Krishnamurti sentia que esse desequilíbrio geralmente provoca uma disfunção consequente .



   Quando discutia o processo de selecção dos estudantes e dos membros candidatos para o centro educacional inglês Krishnamurti acentuava constantemente a importância do aspecto do "ser" desses futuros candidatos - como p. ex. a sua mais elevada sensibilidade, a sua bondade e inteligência (na  definição que dava à palavra, que nada tinha que ver com a moralidade nem o quociente de inteligência convencionais) e a profundidade do seu questionamento em relação tanto a si próprio como ao mundo.


Conquanto fosse do seu agrado que tanto estudantes como membros activos possuíssem um intelecto saudável, jamais realçou a destreza académica nem as habilitações culturais ou capacidades específicas, como sendo mais importantes que a boa vontade e a capacidade de levar aquilo a que chamava "uma vida religiosa".




     Nas  memoráveis discussões que manteve nesse âmbito a determinada altura ele questionou a equipa acerca de todas as qualidades que esperavam dos futuros estudantes (já que era toda a equipa do centro educacional que escolhia, em conjunto, os novos estudantes e membros) e depois descreveu o garoto que ele próprio fora;  o quanto tinha sido indeciso, tímido, sonhador e mau aluno em todas as disciplinas, todavia possuidor de sensibilidade, deslumbrado, confiante e afeiçoado. E perguntou se, de acordo com esse critério que tinham enunciado ele  teria sido aceite como aluno.


Seguiu-se um comovente silêncio. Como seria possível que a descrição dos estudantes que procurávamos para uma escola de Krishnamurti parecessem não poder incluir o jovem que ele fora? Enquanto membros directivos nós pensávamos demasiado em termos convencionais e tradicionalmente estávamos mais interessados em "fazer" do que em "ser"; mais interessados no mensurável  que no incomensurável, escolhendo aquilo que mais se assemelhava a nós  de forma que assim, estávamos de novo a escolher Barrabás...




   A perspectiva que Krishnamurti tinha de que o ser humano possui tanto um cérebro como uma mente deixavam-no em pé de desigualdade com as mais modernas teorias e perspectivas sobre a aprendizagem. Em tom de justiça para com este tópico simplificaremos do seguinte modo: o cérebro é o centro físico do sistema nervoso e o órgão central da cognição. E de facto é responsável pela coordenação dos sentidos, da memória, da razão, do conhecimento intelectual, etc. A mente, como imaterial que é, está relacionada com o discernimento (ou a percepção não visual), com a compaixão e a inteligência profunda (que Krishnamurti sustentava ser o propósito autêntico da vida) e, consequentemente, com a educação.


 Obviamente necessitamos possuir um cérebro que funcione em boas condições (do mesmo modo que necessitamos de um coração e um fígado funcionais); porém, a fonte genuína de toda a acção correcta,  bondade e vida religiosa reside na mente. E numa relação desigual entre ambas, um cérebro excelente não poderá beneficiar a mente.

Todavia, uma mente sensível pode aperfeiçoar o cérebro. O cérebro possui uma função importante a desempenhar na mente, a qual consiste em livrar-se do seu condicionamento bem como das actividades que inibem o funcionamento saudável da mente (i.e. ódio, medo, orgulho, etc.); proporcionar tal coisa ao cérebro é uma das principais funções da educação- ao invés de acumular conhecimento.




A questão primordial reside na qualidade da mente

Não nos seus conhecimentos mas

na profundidade da abordagem dessa mente no

confronto com o conhecimento.

A mente é infinita e estende-se à própria natureza do universo

Que possui a sua ordem e é comporta por

uma energia imensa...




A mente é permanentemente livre

O cérebro, tal qual se encontra actualmente,

tornou-se escravo do conhecimento

e por isso é limitado, finito e acha-se fragmentado.

Quando o cérebro se libertar do seu condicionamento,

então será infinito e somente então

deixará de existir divisão entre mente e cérebro.

Então a educação representará uma libertação dos

condicionamentos e dos vastos conhecimentos que possui,

acumulados enquanto tradição.



Mas isso não pretende negar as disciplinas académicas,

que têm o seu devido lugar estabelecido na vida...

(Carta de 1 Out 1982)




   Contrariamente à perspectiva que moldou a maior parte da educação convencional, Krishnamurti sentia que cada pessoa necessita explorar-se e revelar-se a si mesma ao invés de ser moldada pelos outros. Esta perspectiva não é nova e mais uma vez possui elos com as teorias de educação de Rousseau, Pestalozzi, Frobel e Montessori.

                                               


A função da educação consiste, pois, em ajudar-vos

desde a infância, a não imitar ninguém, mas a serdes

vós mesmos constantemente...



Assim, a liberdade reside... na compreensão daquilo

que sois a todo o momento. Vocês (normalmente) não são

educados nesse sentido, entendam; a vossa educação

encoraja-vos a vos tornardes uma ou outra coisa...

(1953)




  Krishnamurti sentia que não só os aspectos mais profundos da pessoa precisavam ser descobertos como também a vocação única de cada pessoa; aquilo que se gosta de fazer tem de ser descoberto e perseguido - pelo que, fazer outra coisa qualquer constitui uma privação da pior espécie, especialmente se essa perda se ficar a dever à busca do sucesso ou qualquer outra aspiração cultural.

   A descoberta da vocação natural do estudante e da compreensão de si - do que ele realmente gosta de fazer - não pode ter cabimento nos planos dos pais nem da sociedade; todavia constitui uma peça importante na compreensão de si próprio, e, consequentemente, da educação.




A educação moderna está a tornar-nos entidades

irreflectidas, e faz muito pouco com respeito a

auxiliar-nos a descobrir a nossa vocação individual...

(1964)



Descobrir aquilo que realmente gostais de fazer é

uma das coisas mais difíceis.

Mas isso faz parte justamente da educação...

(1974)





A educação correcta consiste em auxiliar-vos a descobrir

por vós próprios aquilo que gostais realmente de fazer -

de todo o coração. Não importa o que seja;

cozinheiro ou jardineiro, mas deverá ser alguma coisa em

que depositareis a vossa mente e o vosso coração.

(1974)




   Tenho consciência de nada ter dito sobre o modo como Krishnamurti sentia que qualquer coisa referente ao previamente enunciado poderia ser posto em prática... Talvez isso fosse impossível de apresentar de um modo facilmente digerível, devido à extensão que comporta. Eu tive o cuidado e a vontade de revelar como, para ele, a educação era antes de mais e acima de tudo, uma actividade religiosa.

Em 1929 ele declarou  ser a intenção central da sua vida...





Levar a cabo certa tarefa no mundo e fazê-lo com

inamovível empenho. Interessa-me somente uma

questão essencial; libertar o homem...

(1929)




   Para o efeito fundou escolas movido unicamente por esse anelo. Podemos constatar isso nas palavras do adolescente de dezassete anos  que  foi, se expressou pelos seguintes termos:




Se a unidade da vida e a singularidade de objectivos

pudesse ser ensinada com clareza nas escolas, quanto

mais brilhantes não poderiam ser as nossas esperanças

para o futuro!




Quarenta e um anos mais tarde escreveria:




Se tomarmos consciência de que só poderá haver paz

e harmonia entre os homens através da educação correcta

então daremos toda a nossa vida 

e todo o nosso interesse por isso, de modo natural...

(1953)





POSFÁCIO




    Krishnamurti experimentou, ao tempo de aluno na escola primária, os métodos de educação autoritários.  Jamais conseguiu passar nos exames de aprovação para ingressar na universidade. Por intermédio de diversas citações de terceiros, e de recordações pessoais, podemos perceber o quanto era tímido e desatento: 

 

"Era quase diariamente espancado de um modo brutal, na escola, por uma questão de estupidez e incapacidade de aprender"...

  

"Revelava-se tão tacanho na escola que o professor o enviava constantemente para fora da sala,  e frequentemente acabava por se esquecer dele. Quase todos os dias apanhava com a régua por incapacidade de aprender as lições. Passou metade do seu tempo a chorar à varanda, e se o professor se esquecesse dele, podia lá passar toda a noite, se o seu irmão, que era mais brilhante do que ele, não o levasse de volta pela mão"...

 

 "Era habitual, o rapaz ficar durante as lições de boca aberta diante da janela escancarada,  sem encarar coisa nenhuma em particular. Repetidamente lhe diziam para fechar a boca, o que fazia, para logo a seguir voltar a ficar com ela aberta"...



       Mas Krishnamurti possuía uma naturalidade e uma ânsia afectiva sem qualquer traço de afectação e era dotado de uma natureza modesta e retraída, sempre deferente para com os mais velhos e cortês para com todos. Era dotado de uma serena ausência de egoísmo,  parecendo  não se preocupar  minimamente consigo próprio. Vejam-se estes exemplos da realização que se seguiu:




  "A determinada altura estava um homem a consertar a estrada; eu era ele, a picareta que utilizava e a arvore junto dele; eu era isso tudo. Eu podia sentir o vento por entre as árvores e a pequena formiga  na relva; podia sentir os pássaros, a poeira, e todo o ruído fazia parte de mim.  Um carro acabava de passar a alguma distância e eu era o condutor, o motor, os pneus, e à medida que ele se afastava, era eu que me afastava de mim próprio. Eu encontrava-me em tudo, ou melhor, tudo fazia parte de mim.  Sentia uma  suprema felicidade, e nada poderia voltar a ser o mesmo. Eu tinha bebido das águas puras e cristalinas da fonte de toda a vida e aplacara a minha sede. Jamais voltaria a sentir sede de novo; jamais poderia voltar a cair nas trevas, pois tinha tocado aquela imensa compaixão que cura toda a infelicidade e sofrimento. Não  por mim, mas pelo mundo"...




       "A dada altura fui até  à varanda e sentei-me durante alguns momentos, exausto mas ligeiramente acalmado. Indicaram-me que me devia sentar sob a árvore da pimenta que havia junto à casa, o que acabei por fazer, numa postura de pernas cruzadas, característica da meditação, após o que, algum tempo decorrido, senti o meu ser desprender-se e pude observar o corpo sentado por entre as delicadas folhas da árvore, com o rosto voltado para nascente. Podia contemplar o meu corpo, como se me encontrasse a pairar junto dele, e consegui perceber um ponto radiante exactamente por cima da minha cabeça. Eu podia sentir uma profunda tranquilidade tanto no ar ao meu redor, como dentro de mim; a tranquilidade do fundo de um lago profundo e impenetrável. E tal como esse lago, eu podia sentir que o meu corpo físico, a minha mente e emoções, podiam sempre sofrer perturbação à superfície; porém, nada - nada mesmo - poderia perturbar a tranquilidade da minha alma. Eu sentia-me supremamente feliz por ter contemplado tal coisa"... 




         Após o culminar de experiências  que o levaram a romper com o estabelecido e a espalhar a sua visão do significado da liberdade, Krishnamurti pôde professar com absoluta certeza:

  

   "Agora sei como jamais soube, da existência de um autentico sentido de beleza na vida, da existência de uma verdadeira felicidade, que não nos pode ser vedada por nenhum acontecimento físico; da existência de uma enorme força que não pode ser enfraquecida por nenhuma ocorrência passageira, e de um enorme sentimento de amor que é permanente, imperecível e indomável"...




       Mais tarde haveria de revelar uma grande preocupação pela questão da educação, que levava na linha de conta de ser a pedra fulcral na transformação do cérebro condicionado. Questionando sempre as raízes da nossa cultura procurou fazer emergir uma nova compreensão da vida global, absoluta. Nas suas palavras, o despertar de uma percepção autentica assemelha-se a um inteiro florescimento:




"Se escutarem, observarem e compreenderem de verdade, então ocorrerá um florescimento. E se isso ocorrer, então as outras questões serão muito simples de comunicar a uma criança."




        Subsiste nos dias de hoje um crescente questionamento sobre o postulado básico da estrutura da educação, nos sistemas vigentes espalhados pelo mundo fora. E está a ocorrer uma crescente tomada de consciência do quanto os presentes modelos falharam, a par com a noção da existência de uma total falta de relação entre o homem e a complexa sociedade contemporânea. A crise ecológica, a crescente pobreza, a crescente segregação, a raiva e a violência estão a forçar-nos a enfrentar a realidade dessa situação em que nos encontramos. Numa época assim, necessitamos de uma abordagem aos postulados da educação completamente nova, e Krishnamurti endereça o desafio não somente à estrutura da educação como também à natureza e à qualidade da nossa mente e vida. Para ele a eclosão de uma mente nova só será possível quando a consciência reunir  tanto o espirito religioso como a atitude científica num só movimento. Conquanto enfatize o cultivo do intelecto, necessário à posse de clareza mental e de  aguçada capacidade analítica, ele realça de longe muito mais a importância de uma consciência crítica, tanto para com o interior de nós como para com o exterior, e recusa-se a aceitar a autoridade a todos os níveis, realçando a necessidade de um equilíbrio harmonioso entre o intelecto e a sensibilidade.

    

        Uma das principais tarefas da educação para K. reside em ajudar a descobrir as áreas em que o conhecimento e as habilitações técnicas são necessárias, e onde elas podem ser irrelevantes senão mesmo prejudiciais, porque somente quando a mente for capaz de apreender o significado da existência de áreas em que o conhecimento é completamente irrelevante, é que tomaremos consciência de uma dimensão completamente nova e poderemos desenvolver o potencial da mente humana.



         "Interessa-nos o desenvolvimento total do ser humano, ajudá-lo a compreender as  plenas capacidades mais elevadas e não de um tipo qualquer fictício que o educador tenha em mente, sob a forma de conceito ou ideal."

         "O pleno desenvolvimento do indivíduo é que criará uma sociedade equalitária. Através de uma educação correcta não haverá necessidade de lutar por uma igualdade por meio das reformas sociais, porque então a inveja, a competitividade e a comparação deixarão de existir."   


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