sábado, 29 de junho de 2013

UMA SESSÃO COM SETH




Drª.Helen Wambach (Autora de “Recordando Vidas Passadas”)

Traduzido por Amadeu Duarte

(Originalmente publicado na Revista New Realities, Vol. 1, No.1, Março/Abril 1977)


Foi num dia brilhante de Março de 1973 em que o sol brilhava sobre o Rio Delaware, à medida que conduzia pela estrada estreita que atravessa o Condado de Bucks, na Pennsylvania, a caminho de Elmira, Nova York. Furtei-me à minha vida ocupada em Red Bank, Nova Jérsia, onde dirigia um programa de grupo dedicado a adolescentes que apresentavam distúrbios, e ao ensino que praticava no Colégio de Brookdale onde explorava psicologia com a minha classe de psicologia. Após ter lido o livro da Jane Roberts “O Material Seth” senti de imediato que muitas respostas que tinha procurado estavam contidas nas capas desse livro.


Num impulso, telefonei à Jane Roberts para lhe dizer que exercia psicologia clínica e que não pensava que o fenómeno de mediunidade dela devesse ser repudiado como um exemplo neurótico ou esquizofrénico da cisão mental. Ela mostrou-se cordial e amigável ao telefone, e convidou-me a assistir a uma das sessões deTerça-feira à noite de ESP (Percepção Extra-Sensorial) em Elmira. Já tinha iniciado a pesquisa sobre a recordação de vida passada, e quando pensei na viagem que ia fazer a Elmira, imaginei estar em busca de alguma orientação para o rumo que essa minha pesquisa tomava, mas eu sabia estar igualmente em busca de alguma para mim própria.


A mediunidade da Jane Roberts começou quando ela preparava um livro sobre “Como Desenvolver a ESP” (que foi reeditado sob o título de “A Chegada de Seth”, e quando experimentou o tabuleiro Ouija. O tabuleiro mostrou-se muito activo, ao soletrar muitas mensagens. Em breve ela adoptou o discurso enquanto se encontrava em transe. Em si mesmo, esse progresso do tabuleiro Ouija para a mediunidade de transe não é pouco usual entre os estudantes das questões psíquicas. O que é pouco habitual é a qualidade do material da entidade de transe chamada Seth que eclodiu da Jane. Aqueles que leram os livros da Jane, “O Material Seth”, “Fala Seth” e “A Natureza da Realidade Pessoal” estão a par da profunda natureza das explicações que o Seth dá sobre a experiência consciente que fazemos neste mundo tridimensional.

A baixa de Elmira tem uma atmosfera encardida dotada dos seus sólidos edifícios do século 19; um sítio pouco usual para um guru da Era de Aquário emergir, conforme me pareceu. Casas tranquilas e antigas cujo tempo passou e que agora se encontravam convertidas em apartamentos graças às ruas cobertas de olmos.


A Jane vive num apartamento, conforme o descobri nesse dia em que me abriu a porta de sua casa. O modo como se vestia nada apresentava de excêntrico, nem a cortesia sorridente que evidenciou ao me conduzir na sala de estar do apartamento que ela e o marido Rob partilhavam. Ofereceu-me uma chávena de café e conversamos de forma casual. Mencionei à Jane que era uma psicóloga que trabalhava com jovens, e ela expressou-me alguma da preocupação que tinha em relação às pessoas que a visitavam.


“Gostaria tanto de poder ajudar toda essa gente,” disse ela. “Não me tenho na conta de terapeuta, e por vezes, os problemas que me trazem afiguram-se-me deveras difíceis. Fico satisfeita pelo Seth se mostrar capaz de ajudar parte dessa gente, mas sinto que a habilidade que tenho reside na escrita e não no aconselhamento.” O Rob estava sentado tranquilamente no sofá a fazer mimos a um gato. Ele é um homem dotado de uma apresentação atraente que apresentava um ar de serenidade tranquila. Pensei que representava um contraste maravilhoso para a vívida energia que a Jane apresentava e que compunham uma excelente equipa.

Logo se juntou uma multidão. Havia dezoito pessoas espalhadas ao longo da ampla sala do apartamento contíguo aos aposentos da Jane. Ela sentou-se numa cadeira de balanço de madeira, a conversar e a a rir com os recém-chegados.  A atmosfera existente na sala era de simpatia e de expectativa. Alguns dos membros da aula residiam na área de Elmira e vinham a assistir às aulas desde que tinham tido início em 1971. Outros tinham ouvido falar dessas aulas através dos livros publicados pela Jane e tinham-se-lhe juntado mais recentemente. A maioria dos membros das aulas tinham-se deslocado muitos quilómetros para assistirem a essas sessões; um grupo de cinco ou de seis tinha vindo de Nova York justamente para a noite.

A aula teve início com a Jane a debater parte do material apresentado no livro que o Seth ditava à altura, “A Natureza da Realidade Pessoal”, o que deu lugar a um certo debate de grupo. Quando a Jane fala por ela própria, a sua voz revela-se suave e rápida e ela prescruta-nos através de um óculos de forte graduação. Subitamente surgiu o Seth.


Os óculos dela foram lançados para a mesinha do café que se situava à frente dela. A sua cabeça ergueu-se e as pupilas dilataram-se amplamente. Olhei aquelas pupilas e elas pareceram-me muito mais dilatadas e enegrecidas do que antes. A postura que adoptou foi incrivelmente recta e deu a impressão de ter aumentado dez quilos em dois segundos. Quando o Seth eclodiu através da Jane, tivemos a impressão de que um carácter masculino usava o corpo de uma mulher feminina. O Seth olhou ao redor da sala e começou a falar.

Eu estava atônita com a mudança que se tinha operado na voz da Jane. A tonalidade da voz que o Seth usava era profunda e estrondosa e a pronúncia que usava acrescentava-lhe uma sabor estranho. “Trata-se de um acento de um tipo qualquer,” lembro-me de ter pensado com os meus botões, “mas qual será? Escandinavo? Indiano?” Jamais descobri o tipo de acento, mas apresentava-se de forma evidente sempre que o Seth falava pela Jane. A Jane tem uma fala rápida, mas o Seth fala lentamente e usa uma pronúncia cuidada. O tom vocal da voz que o Seth utiliza apresenta uma enorme variedade quando realça uma questão. O Seth deu início à porção da nossa sessão da classe com o seguinte exercício em que queria que todos participássemos.


“Por ora, gostaria que todos fizessem uma coisa,” disse. “Fechem os olhos ou deixem-nos abertos se o preferirem, mas quero que sintam em vós mesmos a vida que está a ter lugar dentro de vós. Quero que sintam essa energia que representa a vossa própria vida a fluir com vitalidade através do vosso ser e que a acompanhem. Ela canta através do vosso próprio corpo e flui através da criatura que sois. Pode ser difícil escutar a voz que utilizo enquanto sentis essa vitalidade dentro de vós, mas a minha voz pode igualmente servir de veículo que vos permita experimentar o sentimento subjectivo único de cada um de vós.

“Mergulhastes na natureza de criaturas ao nascerdes. Ela mantém-vos os olhos abertos e os lábios num sorriso ao olhardes para mim. Mantém-vos as pernas sobre a mesa; mantém-vos os olhos a pestanejar e prossegue dentro de vós o tempo todo. É a essência do vosso ser, que vos mantém vivos. Se não conseguirdes confiar naquilo que vos mantém vivos, então em que podereis confiar? Mantém-vos os dedos a mexer. É o saber desconhecido que corre dentro de vós a todo o instante e em que podeis confiar acima de todas as coisas. É o conhecimento desconhecido de que também vós podeis tomar consciência, e constitui o vosso ser mais íntimo.

“Não procede da parte de ninguém. Não a encontrareis nos livros, nem nos conceitos, nem tampouco nos preceitos.
Procede das experiências íntimas do vosso próprio ser. Quando estiverdes sós, senti-a. Acompanhai-a co alegria, e dizei: “Entrego-me à minha vida.” Com uma atitude dessas, tudo o mais de que precisardes saber virá a vós.”


A voz que o Seth usou ao proferir estas palavras exerceu um efeito estranho no meu sistema nervoso. A voz dele pareceu ecoar, não só nos meus ouvidos, mas em todo o meu corpo. Escutar o Seth constituiu uma experiência dinâmica diferente em comparação com a leitura do seu material.

O Seth desapareceu e a Jane retornou ao seu corpo. Ela pestanejou, procurou os óculos, inclinou-se para a frente na cadeira em que estava sentada e pediu a um membro da aula para lhe descrever o que o Seth tinha dito. A Jane não tem consciência das palavras do Seth quando ele fala por intermédio dela, e precisa descobrir o conteúdo dos reparos dele nas transcrições que um membro da aula tenha feito a partir das cassetes de cada sessão. É interessante assistir ao facto da Jane indagar sobre o que tinha dito. As palavras que o Seth profere parecem ser tão belamente empregues que se torna bastante difícil expressá-las por nossas próprias palavras. Quando a Jane me pediu para explicar, eu gaguejei ao tentar parafrasear o Seth. Em meio à explicação que eu estava a dar, os óculos da Jane voaram de novo. Ela sentou-se erecta, enquanto a voz do Seth entoava de forma estridente: “Não era bem isso que eu queria dizer.”

O Seth debateu a natureza das crenças e pediu à classe para olhar cuidadosamente para as crenças que tinha. Pediu-lhes para debaterem algumas das crenças que tinham. Eu mencionei um problema que tinha no trato do dinheiro. Eu gosto do dinheiro e das coisas que pode comprar, mas tenho a sensação de que a riqueza seja sinónimo de corrupção. A postura que adopto é basicamente de esquerda, e aprendi a associar os bens materiais ao que pensei ser opressão dos outros. Ao examinar isso, o Seth irrompeu na conversa.




Todos vós, conforme direi no actual livro que estou a ditar – propaganda - (o Seth referia-se à “Natureza da Realidade Pessoal que estava a ditar ao Rob por intermédio da Jane. O humor manifesto referia-se ao facto de se tratar de uma operação de produção de dinheiro) estais relacionados com problemas de bem e de mal; os juízos de valor que atribuís a coisas como saúde, riqueza, cor da pele, e raça. Alguns de vós consideram a pobreza um sinal de virtude e um bem,” fez uma pausa e olhou directamente para mim, e continuou, “De modo que, quando olhais para alguém que tem dinheiro, pensais que não esteja em sintonia com a espiritualidade; que haja algo de errado com ele, e deva aproveitar-se de alguém, deva ser desagradável, capitalista. Pensais que alguém que seja pobre seja espiritual.” A esta altura o Seth voltou-se e olhou-me directamente nos olhos, “Ou que seja estúpido.”
Eu ri, ao pensar que efectivamente o Seth tinha razão. Espera-se que as pessoas pobres sejam pobres, de forma que criam essa realidade. O Seth prosseguiu dizendo, todavia, que as coisas não são tão simples para cada um de nós. “Se acreditardes que as crenças que abrigais causam a realidade - e fazem-no - que atitude tereis em relação aos pobres? Direis: “Eles provocaram essa realidade, temos pena, isso é sinal da pouca sorte de que gozam?” Essas são questões que eu quero que considereis.


A Jane juntava-se frequentemente à nossa conversa à medida que debatíamos as crenças que tínhamos. No decurso da conversa acabou por se saber que três dos jovens que tinham vindo assistir às sessões estavam envolvidos num triângulo amoroso. Isso gerou sentimentos intensos, e a Jane ficou preocupada à medida que a conversa ficava quente. Parecia que o melhor amigo do marido tinha sido bem-sucedido a seduzir a mulher, o que provocou sentimentos muito ruins ao redor.  A preocupação da Jane foi crescendo ao tentar responder à raiva e à dor que emergiu durante a conversa. Em breve irrompeu num cantarolar a que chama Sumari. (NT: Devo referir tratar-se de uma espécie de canto de embalar dotado de poderosa energia terapêutica, que reitero facilmente por  ter experimentado em primeira mão durante o estado do sonho. É qualquer coisa de único que a sociedade contemporãnea parece ter perdido dos usos e costumes, mas que todavia é dotado, repito de poderosa qualidade terapêutica)

Sumari é a designação que a Jane e o Seth deram a um fenómeno muito pouco usual. Quando o Seth se manifesta por intermédio da Jane, os olhos dela tornam-se brilhantes e alargam as pupilas e adopta gestos abruptos e masculinos. Noutras alturas, a Jane entra em transe e estranhas notas musicais sobrevêm dela. No caso da Jane, o canto constitui a menor das habilidades de que dispõe. Certa noite ela demonstrou a forma carente como consegue entoar um canto e como é fraca a capacidade vocal que tem quando canta na qualidade de Jane. Quando entoa o Sumari, a sua voz ganha uma surpreendente profundidade e riqueza, e cobre uma vasta gama desde o soprano até ao baixo. Quando escutamos os sons, parece que são entoados numa língua estrangeira, embora nenhum idioma nos ocorra à mente. É a qualidade do tom e a riqueza emocional dos tons que parecem carregar o peso do significado. O Seth disse que o Sumari tocava em profundidade a mente de forma como as palavras não conseguem produzir e que o sentido das palavras se gera nas reacções que a pessoa adopta em reposta ao som que gera em cada um de nós. O Sumari fluiu sem esforço por intermédio da Jane à medida que cantava uma cantiga para cada membro do triângulo amoroso. Eles não pareciam sentir-se muito afectados pelo canto, todavia, e os olhares carregados prosseguiram. Por fim, o amante do trio explodiu com o sentimento de que se consegue sexo onde quer que seja e que os costumes culturais constituíam uma negação da nossa natureza básica.

A essa altura, o Seth irrompeu na discussão. A voz dele ressoou: “Não quero ofender os preconceitos de ninguém,” disse ao olhar para os amantes, e continuou: “O Homem é humano, todavia, e o impulso sexual que sente está ligado ao amor que sente, ainda que os costumes culturais que adoptais sirvam para o proteger da percepção da capacidade enorme de amor que tem, por na vossa sociedade, o amor representar uma característica feminina – e ai do macho que o evidenciar. Na vossa sociedade não é masculino mas feminino, na vossa maneira de pensar em sociedade. Frequentemente o homem oculta o próprio amor que sente dele próprio. Mas o homem não sai por aí avidamente para fo... quem puder, nesses termos, sem sentimentos; por esperar no enorme requinte que expressa que possa obter algum amor, e que algum sabor da sua natureza de criatura possa tornar-se posse sua.”



De seguida o Seth voltou a sua atenção para o marido e para a esposa. A voz dele tornou-se um tanto mais branda ao lhes dizer: “Isto não envolve questões de moralidade, mas apenas mal-entendidos e confusão de crenças que acabarão por se resolver. E parece somente natural que aqui o nosso Pan,” e o Seth olhou a sorrir para o amante, “serve como um catalisador. E ambos sabiam disso com antecedência. Agora vou-vos endereçar à presente situação, e à alegria e à agonia que sentis no lombo!”

A exclamação que o Seth fez a esta altura alterou o tom da discussão. Todos rimos com a identificação que fez do amante como Pan. De facto, ele era um jovem com um ligeiro brilho de alegria no olho e tornava-se fácil imaginá-lo a passear pelas colinas de flauta em punho.



Um dos membros das aulas dela explicou à Jane o que o Seth tinha dito. Aparentemente o Seth achou que essa explicação não seria adequada de modo que retornou. A mudança da personalidade da Jane para a do Seth era qualquer coisa de surpreendente. A Jane tinha estado a perscrutar atentamente através das lentes grossas dos óculos os membros da classe e a escutar a explicação. Num piscar de olhos, os óculos foram arremessados, o corpo reclinou-se na cadeira e os olhos azuis abriram-se por completo.

O Seth falou novamente. “Na vasta realidade do vosso ser e na alegria da vossa existência, tudo isso constitui um aspecto do vosso viver, e da sensação, e do conhecimento da vida que está dentro de vós.” E reiterou novamente para o esposo e a mulher, olhando-os fixamente enquanto dizia: “Vós escolhestes esse curso pelas vossas razões. Estabelecestes essa situação e vós mesmos sabeis que ela será resolvida. Assim, brincais convosco próprios, por vos parecer que não conheceis as respostas. Se examinardes a mente consciente, ambos, e as crenças conscientes que tendes, a decisão tornar-se-á bastante evidente.”

O Seth então voltou-se e varreu o grupo com os olhos. Fez-se uma pausa, mas todos sabíamos que era o Seth quem estava presente e não a Jane. O Seth retomou de novo, falando com mais calma desta vez. “Se uma vida em si mesma parecer não proporcionar excitação suficiente, aí fornecê-la-eis por intermédio do vosso viver e aprendereis com isso e apreciareis todas as ramificações. E assim, nesses termos, nada disso é trágico. E ter-se-á prestado ,e prestar-se-á, a todos vós, a propósitos que vós próprios tereis definido,” e volta-se para a mulher, “e que tu armaste,” e voltou-se de novo para o grupo ao redor, olhando-nos sorridente a todos. A sala ficou em completo silêncio à medida que prestávamos atenção às palavras que proferia.

“Assim, a questão suscitada esta noite aplica-se a todos vós a seu modo. Sois criaturas, apesar de existir uma diferença entre vós e os animais. E a sexualidade pode conduzir a dimensões que, nos vossos termos, os animais não conhecem. Certos animais – quase, mas não tanto como vós, sentem a natureza da sua imortalidade. Eles reúnem-se com uma enorme espiritualidade biológica na profundidade da paixão que sentem, e assim o fazeis vós. Com base nessa vossa sexualidade podeis moldar grandes enquadramentos espirituais biológicos de afirmação, e elevar-vos nesses enquadramentos além da natureza do que pensais ser a condição da criatura, e esse conhecimento situa-se dentro de vós. Dispondes de livre-arbítreo, de modo que podeis fazer como quiserdes. Podeis criar um incessante esplendor, ou deixar-vos perder na desorientação. Mas mesmo essas formas de desorientação são criativas, e a partir delas atingis novos níveis de condição de criatura e de moralidade e ides além deles. Mas precisais, cada um de vós, descobrir o vosso próprio caminho.” O Seth voltou-se de novo para o marido e a esposa
e disse: “E o teu e o teu caminho devem ser o vosso próprio caminho.”

A tensão criada no grupo atingiu um ponto de relaxamento, o grupo permaneceu sossegado, e vários de nós reflectimos nas palavras que o Seth empregou de podermos criar incessante esplendor ou deixar-nos perder na confusão. Pensei para comigo própria que tinha assistido ao mais espectacular dos aconselhamentos conjugais da minha experiência profissional. Marido e mulher estavam a sorrir um para o outro, enquanto amante se tinha afastado em silêncio e conversava com outros na sala. A Jane pode ter dúvidas quanto à habilidade de lidar com os problemas humanos com que se depara, mas decerto que por intermédio do Seth ela podia proceder a um magnífico trabalho de resolução.

Pouco tempo depois a classe terminou. As pessoas sorriam e riam e sentia-se uma atmosfera de enorme afabilidade na sala. Esta certamente tinha sido a aula mais singular a que tinha assistido na minha vida.

Posteriormente a Jane disse-me que o Seth desejava falar comigo. Pensei que o Seth quisesse discutir comigo o experimento que eu conduzia de regressão a vidas passadas, por ter contado à Jane em detalhe o trabalho que estava a fazer. A jane convidou-me para me sentar e tomar uma chávena de café e começamos a falar sobre a hipnose e a reencarnação.




Após uns três minutos de conversa, a chávena do café da Jane foi pousada no pires com um estalar distinto, os óculos dela foram retirados e o Seth sentou-se ali diante de mim. Eu tive um sentimento de reverência – um sentimento que intelectualmente tendo a rejeitar com base no facto de eu ser sofisticada enquanto psicóloga. Não obstante, essa primitiva sensação de temor sobreveio e não pude negar o sucedido. O Seth entoou uma voz retumbante, e para minha surpresa, ele começou a falar do grupo de acolhimento de adolescentes que eu dirigia em Red Bank, Nova Jérsia.
Ele começou por me apoiar os princípios básicos, que eram proporcionar a esses jovens tanta liberdade quanta possível dentro dos limites do estabelecimento de acolhimento. “Tens razão ao presumir que esses jovens não consigam expressar um “comportamento apropriado” até terem tido uma oportunidade para permitirem os sentimentos negativos na sua expressão.” Eu expliquei ao Seth que era muito difícil levar as autoridades competentes a dar prosseguimento ao plano que tinha de permitir que esses jovens estabelecessem as suas próprias regras. O Seth manifestou simpatia pelo ponto de vista que eu defendia e disse que essa era uma boa maneira de fornecer a margem de manobra psicológica necessaria para esses adolescentes revoltados.
O Seth apresentou um brilhozinho nos olhos ao dizer: “Lembra-te, Helen, que não estás a salvar ninguém. Tens a ideia de que esses jovens sejam vítimas e que te caiba a função de os salvar.” É bem verdade que a um nível qualquer eu pensava em mim própria como um anjo que se ocupava das pobres crianças maltratadas, uma ilusão que o Seth estava agora a desfazer. O Seth prosseguiu: “Recorda que cada uma dessas pobres crianças escolheu o próprio rumo.” Eu senti como se estivesse a discutir com o grande mestre. “Mas eles foram maltratadas e abusadas enquanto pequenas, pelo que certamente não poderão ser responsabilizadas por isso nem pelo efeito que isso provocou neles.”
O Seth respondeu: “Ah, mas eles escolheram os pais, e escolheram os estilos de vida a experimentar nesta encarnação.” O Seth prosseguiu fornecendo-me os nomes e as origens de vários desses jovens que se encontravam sob os meus cuidados. Isso decerto foi surpreendente, por a Jane não ter podido conhecer os nomes nem as origens dessas moças- O Seth levou-me compreender que esses jovens tinham estabelecido vidas problemáticas para eles próprios de forma a ultrapassarem medos e resistências passadas.
“Num certo sentido eles necessitam de ti e do grupo de acolhimento neste momento. Mas também tu precisas deles como parte do teu desenvolvimento. Lembra-te que, quando sentes ser o médico que administra ao paciente, que todos somos buscadores e que todos aprendemos uns com os outros.” Eu tinha expressado uma excessiva preocupação em relação a uma das minhas meninas. Tinha necessidade de manter todas aquelas garotas na casa junto de mim, a fim de evitar que retornassem aos hospitais psiquiátricos ou às cadeias. O Seth parecia ter conhecimento disso, e invadido o meu pensamento.

“A Diane não voltará para a casa de acolhimento. Ela vai ficar bem, mas não necessitas devotar tanta preocupação por essa criança. Centra a tua preocupação nas outras.” O Seth tinha razão, por mais tarde se ter descoberto que a Diane não regressou à casa de acolhimento.  O Seth parecia tão interessado na casa de acolhimento que dei sugestões sobre como organizar a disposição física. “Precisas reservar um quarto – talvez a sala de jantar – como local onde o exercício físico deve ser disponibilizado. Esses jovens precisam expressar corporalmente parte dessa revolta, algumas das emoções mais poderosas que carregam. Dá-lhes uma oportunidade de conseguirem isso por intermédio do exercício.” Como poderia o Seth saber que um compartimento desses estava ao dispor na minha casa de acolhimento? E como soube que a Diane não retornaria?

A experiência que tive com o Seth constituiu um “abrir de olhos” sob muitos aspectos. O conhecimento que tinha do trabalho que exercia em Red Bank era definitivamente sobrenatural; a Jane não poderia ter tido conhecimento dos detalhes. Mas para além disso, o sentido de respeito que tive na presença do Seth, e a forma como a sua voz parecia elevar-me e recarregar-me o pensamento - alargar-me os horizontes - era algo que estava além de todas as experiência por que passei. Descobri que tinha encontrado um guru. Mas o Seth era contra os gurus. Conforme tinha dito nessa tarde: “Não o descobrireis nos livros, nem nos conceitos nem nos preceitos; não procede dos outros, mas da experiência íntima do vosso próprio ser.”

Existiria um nível equivalente ao do Seth em mim, em todos nós, conforme existia na Jane? O Seth da Jane era um professor maravilhoso. Seria isso devido ao facto da própria Jane ser uma mulher brilhante, perspicaz, e bem-educada? Decerto que isso representava uma parte no rico vocabulário que o Seth utilizava. Nenhum médium consiste exclusivamente num canal, mas num participante activo na tradução da consciência mais vasta para o mundo do aqui e agora.

A experiência que tive de escutar o Seth a ensinar nas aulas de ESP foi inesquecível. Felizmente, eu fui capaz de escutar quase todas as aulas gravadas em cassete, e elas aprofundaram-me e enriqueceram-me a vida.
As sessões da classe foram interrompidas em 1975 e a experiência de grupo para aqueles de nós que tivemos o privilégio de observar, em Elmira, tornou-se agora parte do passado. Vive unicamente nas gravações e nas transcrições que foram feitas.


Na foto: Helen Wambach

 

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