quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

SOBRE A CRIATIVIDADE

Transcrição e tradução: Amadeu Duarte
(Excerto)



...Se mais não for, podereis recuperar aquilo que perdestes da vossa criatividade. Podeis recuperar o que perdestes de capacidade e disposição, da criatividade assim como quaisquer das outras energias da possibilidade, energias da capacidade e da disponibilidade. Se por mais não for, existe mérito nesse componente único.



Cada um destes componentes é único pelo mérito que tem, e quando os combinais, quando os reunis, criais uma sinergia, um todo que é maior do que a soma das partes constituintes. Quando as combinais, quando as reunis, tem lugar uma complexidade. Estas abordagens e técnicas e componentes individuais juntam-se a fim de funcionarem como um só, sem perderem a integridade da individualidade que os caracteriza. Isso é complexidade.



Quando trabalhais com esses componentes juntos, eles criam tanto uma sinergia como uma complexidade, e a natureza da sinergia e da complexidade traduz-se pela possibilidade de elevardes a criação e a manifestação a novos níveis, a novas oitavas, a novas dimensões, a novas expressões.



A natureza a graça – o que vem com naturalidade, à sinergia e à complexidade, é o facto de também poderdes elevar a vossa magia a novos níveis, a novas oitavas, a novas dimensões, a novas expressões e reflexos. Assim como, ao elevardes a vossa manifestação e a vossa criação, e ao elevardes a vossa magia, podeis elevar-vos a vós próprios.

O vosso objectivo tem sido, não aprender sobre a criação e a manifestação – já sabíeis isso há anos, há décadas. Não só isso, mas na qualidade de magos, acrescentastes escolha à capacidade e à disposição, e dessa forma poder. Não, não se prende com a aprendizagem do que já era do vosso conhecimento há décadas, mas de as elevar a novos níveis, a novas oitavas. E dispondes de todas as ferramentas de que precisais - componentes que operam individualmente, que operam de forma independente que valem por si só e que quando os juntais, quando admitis a complexidade, a individualidade reunida de modo a operar como uma só coisa sem perder a integridade, vós haveis de elevar a criação e a manifestação a novos níveis, havereis de elevar a vossa magia a novos níveis e nesse processo, vireis a erguer-vos a novos níveis, novas dimensões, novas oitavas da expressão e do viver.

Assim, vamos olhar esses componentes e falar deles individualmente. O primeiro dos quais abordamos foi o dos depósitos da criatividade perdida. Uma verdade simples: a criatividade aumenta e diminui, e na fase do decréscimo, algo da vossa capacidade e vontade se perde. Uma vez mais, pode não passar de uma lasca e assim o aumento e o decréscimo sucessivos prosseguirem por muito tempo antes de a perda ser notada, dependendo do equilíbrio. Lembrai-vos que a criatividade permanece o mistério; é algo misterioso que emerge da energia feminina e das forças masculinas. A capacidade – feminina! A vontade ou disposição – masculina! E o equilíbrio!

Certas pessoas são espantosamente capazes mas têm falta de disposição; outras têm uma vontade fenomenal mas um acesso limitado à capacidade – devido ao relacionamento que têm com as próprias energias femininas e masculinas! E aqueles que são criativos descobrem um equilíbrio – não necessariamente um equilíbrio equitativo; nem todo aquele que é criativo tem cinquenta por cento de capacidade e cinquenta por cento de disposição, absolutamente. Mas descobrem um equilíbrio, por mais mesclado que possa parecer a outra pessoa, descobrem um equilíbrio. Há aqueles que têm milhares de ideias criativas e uma espantosa capacidade, um enorme talento e que produzem ou criam muito pouco. Por lhes faltar a disposição, por lhes faltar a focalização. Conheceis gente desse tipo que, caramba, fizeram isto e aquilo e mais aquele outro, e que desenvolveram dez ideias em torno disto e doze ideias em torno daquilo, dez coisas que pretendem fazer aqui, ali e acolá, pessoas tão criativas que conseguem visualizar tudo através da capacidade que têm por uma forma criativa inovadora e inventiva maravilhosa, mas que jamais chegam a fazer o que quer que seja com ela, e nunca chegam a coisa nenhuma. Ainda vão nos primeiros banhos, no primeiro livro, ou ainda estão a reunir as primeiras notas da sua primeira composição.

Essas são as maneiras mais óbvias, mas as menos óbvias do mesmo modo ainda estão a trabalhar nisso, ainda vão tratar de dar a volta, tremendas ideias criativas; não se trata de mera carência de seguimento nem de produtividade, mas de uma falta de disposição. Mas depois há aqueles que, conforme sabeis, inclinam para o lado oposto. Têm tanta vontade, que as capacidades de que dispõem parecem limitadas. Parecem muito pouco. Procedem a todo o tipo de projectos criativos, o único problema é... (Riso) De alguma forma é verdadeiramente difícil pensar que pintar por números seja criativo. (Riso) Mas o que fizestes é o mesmo, uma e outra e outra vez, apenas numa cor diferente. É muito bonito e apresentais montes de vontade e desenvolveis uma habilidade agradável, mas, não apresenta muita expressão de capacidade artística. E confere-vos ego, e experimentam ânsia de seguir em frente... Uma falta de capacidade aqui. “Que pena!” Não, perdeu-se.

Mas aquela pessoa criativa que descobre o seu equilíbrio, é espantosa, é maravilhosa. Já sabeis, por já o terdes experimentado. Mas sempre que se der uma maré baixa, e ela virá, algo se perde; e após várias marés dessas muitas vezes isso é notado. Agora; entendam que existe uma diferença entre decréscimo e uma pausa. Um decréscimo não é uma pausa. E do mesmo modo, uma pausa não representa um decréscimo, ambos são completamente diferentes, embora à superfície podem parecer muito semelhantes.

E quando a criatividade decresce, quando sofre um declínio, parte dela perde-se. Todavia, quando fazeis uma pausa, não é a criatividade que pausa, mas vós. Quando pausais, a criatividade sofre um acréscimo e aumenta, a partir dessa pausa. Portanto, não estamos aqui a falar da pausa feita na criatividade mas antes do decréscimo. Quando sofre um decréscimo, algo dela se perde sempre, mesmo “entre os melhores”, algo se perde. Na vossa realidade consensual isso frequentemente pode ser expresso pelo que é chamado de “maravilhas de um só sucesso”, em que essa capacidade e disposição se combinam, atingem um equilíbrio e “zás trás”, algo incrível é criado! E a seguir a criatividade sofre outro decréscimo, e não volta mais a atingir esse pico, esse nível. Demasiado foi perdido, e essa maravilha de um único sucesso, muitas vezes gasta o resto do tempo a tentar recrear e a tentar reproduzir, a tentar alcançar esse nível, enquanto no processo vai perdendo progressivamente mais para esse depósito.

Como é que isso tem lugar no caso do que obtém um só sucesso? O livro, a canção, a ideia que teve no trabalho, que não tem que ser nada que seja visível ao exterior. Criou algo verdadeiramente brilhante. E sofre um decréscimo. Mas digamos que um depósito particular, para o nosso exemplo, seja o medo e a culpa.

Aquela pessoa criativa que atingiu um sucesso maravilhoso e fenomenal, agora torna-se assustada e sente-se culpada. A criatividade que tinha sofre uma diminuição, e no medo e culpa que sente, algo da capacidade que tinha, ou algo da disposição que sentia, ou algo de ambos, foi arrancado. Agora, a criatividade sofre um acréscimo, mas é uma criatividade diferente; já não consegue mobilizá-la, e o que acontece é que fica assustado (e começa a duvidar): “Ah Deus, e se o próximo não for tão bom? E se as vendas não forem tão boas? E se eu for criticado? E se eu não conseguir corresponder?” Começa a penetrar no medo:”Aaah! É preciso mais habilidade, mais disposição. Tenta de novo. Não estou a chegar a lado nenhum? Oh meu Deus, sinto-me aterrado! Agora sinto-me verdadeiramente embaraçado. Não posso repousar sobre os meus louros para sempre. Não existe! Aaah! Agora as pessoas recordar-me-ão: Ah, pois, tu fizeste isso, tu escreveste aquilo, uma conquista criativa, não foi? Oh meu Deus, sinto-me desequilibrado!” A arrancá-la, a arrancá-la. Porque a criatividade continua a produzir sem prender a respiração, e cada vez mais se perder nesse medo e nessa culpa. Aquele que conquistou um só êxito.

Para outros, dotados de uma criatividade porventura de uma natureza diferente, produzem e criam, produzem e criam e continuam a avançar em grande repetidamente e com consistência, mas até para uma pessoa criativa dessas, o acréscimo e o decréscimo, o fluxo e o refluxo, mesmo com as pausas estratégicas que aumentam a criatividade, o decréscimo leva-a para longe, e com o tempo, é referido que a criatividade “sofre uma diminuição”, e muitas vezes justificado com explicações com base na idade: “Bem sabes, teve dez, doze êxitos incríveis e agora está a começar a perdê-la por estar velho. Talvez tenha sido o dinheiro, talvez tenha sido o sucesso que lhe tenha subido a cabeça ou seja lá o que for, mas agora está a perde-la. Não foi bem o material, foi? Deve ser por estar a envelhecer; deve ser por a estar a perder, seja por que forma for.”



Não é que estejam a perder a criatividade mas mais o facto da capacidade e da disposição estarem a ser arrancadas, pouco a pouco, com cada uma dessas experiências minguantes. E é aí que o papel da luta é glorificado e nobilizado: “Aqui está uma pessoa criativa que agora sabe que precisais lutar com a vossa criatividade, que precisais lutar com a musa.” 

Porque, o que aqui aconteceu foi que a necessidade desencadeou uma renovação numa certa gente criativa: “Eu tenho um prazo; preciso criar alguma coisa.” E vão e começam a esforçar-se, e nessa luta, para onde se endereçam? Podem endereçar-se na direcção do medo e da culpa, assim como podem voltar-se na direcção da sua prisão: “Estou a lutar; sinto cá um desassossego por me sentir sem inspiração que sou acometido por esta fúria. Sinto uma enorme vergonha, por ser tão imperfeito e incompleto. É tão doloroso! Não consigo criar; não me vem nada, e eu tenho que criar!” 

E nessa condição gera-se uma luta, que entra do depósito, no reservatório, e por sorte desencadeia o que aí tenham perdido – não em todas as situações nem no caso de todas as pessoas criativas, é verdade. Mas é isso que acontece no senso comum. A necessidade de criar gera esforço, luta. E nessa luta fico tão aterrado que penetro nas profundezas do meu medo, mas – Bang! – de súbito a capacidade, tudo o que tinha perdido, regressa. De repente a disposição regressa.

Bom; não é necessariamente um processo consciente mas estamos a descrever o que acontece, um tanto depois do facto consumado, mas surge de volta e – Bang! – aqui está a criatividade. “Caramba! Aquela luta foi impecável! Está bem, vamos fundo no fluxo e no refluxo, no aumento e no decréscimo, para voltarmos a perdê-la. Que é que faço a seguir?”

Por uma segunda vez, “a necessidade golpeia, leva-me a acabar na luta, e uma vez mais, fico tão aterrado que volto a esse reservatório, por ser onde isso se perdeu, no medo que eu sentia. Perdeu-se e eu regresso a ele e faço-o ressoar, e de repente está de volta uma vez mais, e eu: Caramba. Estou com a veia!” E após duas ou três vezes, sabem: “Agrada-me essa luta. Ah, enquanto decorre é uma confusão, mas caramba, é justamente aquilo de que preciso para criar, enquanto outra pessoa na luta que empreende pode voltar à raiva: “Estou tão carente de inspiração que só me sinto enfurecido.”

E por acaso – a necessidade levou-os a esse estado! – mas por “acaso”, recuperam e desse modo chegam a valorizar a fúria: “Não me quero livrar da fúria que me invade, entendem? Por saber que é onde descubro a minha criatividade. Não me quero submeter a terapias, não quero mudar isto, não quero corrigir-me. O facto de me estar a sentir enfurecido torna-me criativo. E se quiserdes sentir-vos criativos, enfurecei-vos.”
“Penetra, ” diz ao outro, “no medo que sentes. “Deixa-te invadir pelo terror que sentes em relação à vida. Se quiseres fazer isso pela entrega á bebida, então bebe. Se preferires entrar nas drogas deixa-te entrar nas drogas.”

“Onde será que a vou descobrir? Eu volto para ela. Luto com a musa nos abismos do medo ou nos abismos da fúria ou da vergonha, da dor. Qualquer verdadeiro artista se sente em agonia. De facto não terão escrito um livro sobre a agonia e o êxtase? É o que acontece com os artistas! Têm que se sentir na dor; se não sentirem dor como poderá resultar criatividade alguma? Ou precisam estar repletos de tristeza ou de humilhação, ou no processo autodestrutivo de se humilharem a eles próprios.”

Agora se  não for nisso que a tiverdes depositado, se não for nesse reservatório, então vai ser somente na humilhação, e nada de bom resultará disso, em absoluto. Estão a entender a questão? Mas o que se passa aqui, é que vários artistas, várias pessoas criativas que perderam ou viram a sua criatividade diminuída voltam-se para a luta por uma questão de necessidade, ou voltam-se para o álcool ou voltam-se para as drogas ou para uma actividade viciante qualquer que os conduza ao reservatório e nesse reservatório – por acaso – recuperaram-na. E fizeram-no vezes suficientes para descobrir que essa é a forma de o conseguir, e que é assim que deve ser feito! E a seguir, com toda a consciência, mantiveram esse reservatório com vida: “Preciso sentir a minha fúria, preciso sentir a minha vergonha, preciso sentir a dor. E quando essa criatividade estava em falta, saem fora e de uma forma forçada e propositada enfurecem-se; fazem algo de vergonhoso, infligem dor, cometem algo de que sentirão um imenso remorso, humilham-se, ou deixam-se perder no narcisismo. Muitas vezes com uma autocomiseração maciça. Numa dessas prisões, acidentalmente despoletam-na – por acaso! – e acontece uma vez, e duas vezes e acaba por se tornar num padrão, numa maneira bem conquistada. E torna-se institucionalizado: “Como foi que o conseguiste, como foi que o conseguiste?” “Bem... (Riso) Embebedei-me a valer e fiz papel de tolo, e acordei na manhã seguinte com um vómito tão desagradável. Mas, a minha criatividade está de volta! E é isso que toda a gente deve fazer. Descobri a vossa forma de humilhação, e a vossa criatividade permanecerá viva.”

Outro, cujo depósito é o medo e a culpa, usa a luta e mergulha fundo nela – uma vez mais por acidente ou por sorte – desperta-a e a seguir, com o tempo institucionaliza-a. E uma maneira que caiu do céu, torna-se no preceito a recomendar aos outros quanto ao que devem fazer: “Precisais sentir-vos num medo terrível o tempo todo, se fordes realmente uma pessoa criativa; precisais sentir-vos retidos nesses sítios enegrecidos e terrivelmente sombrios, precisais sentir-vos no dor do amor perdido e na angústia do temor. Precisais sentir-vos em estados de desespero, porque mesmo além dessa fronteira situa-se o desespero, e o desespero constitui uma esperança retorcida, e o que acidentalmente pode ter-se perdido pode ser recuperado.”

Diferentes modos, dependendo do reservatório, mas é isso que acontece no consensual, de tal modo que acabou por suscitar a ideia de que, para serdes uma pessoa verdadeiramente criativa, precisareis debater-vos na luta, manter os vossos temores vivos e as vossas prisões – não que lhes chameis isso – mas as vossas prisões, ou a vossa dor, ou a vossa esperança retorcida.

Agora, os venenos muitas vezes não resultam, embora possivelmente pudessem resultar, mas muito raramente uma pessoa que tenha perdido a criatividade volta ao orgulho ou ao auto-engano ou à inveja e a recupera, embora pudesse acontecer, no caso da inveja, porventura. Mais frequentemente, o primeiro reservatório reside no medo, enquanto o segundo reside na prisão, ou na esperança retorcida, que tem acesso por intermédio do desespero, o quinto reservatório; ou nas agendas veladas – o sexto. Ou na dor do amor perdido – o sétimo. Esses são os reservatórios particulares que mais contribuem : “Perdi a criatividade que tinha, e a forma que conheço de a descobrir é recorrendo à luta, ou às drogas, ou ao álcool para recuperar a minha criatividade de volta. O que sentem falta é de usar isso para entrar no reservatório em que a criatividade que tinham se perdeu. E a seguir, contando com a sorte, despoletar o retorno daquilo que perderam.

Para o artista: “Eu não sei o que está a acontecer, é um mistério.” E por isso, é poderoso e mágico.” Não o tipo de magia de que quereis tratar, mas poderoso e mágico: “Deixa-me em paz. Não quero saber do que trata. Deixa-me em paz, deixa-me a sós com a minha luta e com o meu vício, porque por intermédio dele eu consigo recuperar a minha criatividade. Não quero saber onde isso me conduzirá nem o que está a acontecer; não quero conhecer os detalhes, só quero recuperá-la.”

Mas, para poderdes olhar isso e compreender, por ser muito importante que compreendais, a partir da vossa própria perspectiva, isto é o que está a acontecer: nesses reservatórios podeis recobrar o que tiverdes perdido. E o artista, a pessoa criativa fazem isso, por meio do emprego do modo, por meio do uso da necessidade a fim de abrir a porta, e uma vez lá – e a contar com o acaso – produzirem a disposição e a capacidade.
A criatividade regressa e eles criam de uma forma brilhante, talvez durante um certo tempo, mas depois dá-se um refluxo: “Tudo bem, não é grave o bastante para ter importância, é só mais um declínio,” mas após dois ou três declínios, começa a ter importância e a criatividade deixa de se fazer presente, e eles regressam de novo, e volta acontecer tudo de novo, mas o acaso, da vez seguinte que repetem isso e entram naquela prisão ou naquele medo e culpa, ou naquela dor da perda do amor, desta vez não acontece e não a conseguem reaver, não a recuperam, e precisam ir cada vez mais fundo e permanecer nesse estado por mais tempo, algumas vezes para não mais retornarem.

(Material sujeito a Direitos de Autor)

Sem comentários:

Enviar um comentário