sexta-feira, 31 de agosto de 2012

MORTE





Tradução: Amadeu Duarte

Muita gente sente curiosidade quanto ao outro lado. Como será? Assemelhar-se-á ao que os ensinamentos querem que acreditemos, as várias tendências do pensamento do Catolicismo ou do Judaísmo ou do Hinduísmo? Como será?

Bom, antes de mais, existe um número incontável de "outros lados", decerto. Mas compreendemos que queirais referir-vos ao aspecto que a pós-vida apresenta. Mas sugeriríamos que isso corresponde ao seu próprio tipo, muito diferente da vastidão de "outros lados" que existem por aí ao dispor.

Tanto quanto podeis ouvir comentar e ler através daqueles que passaram por experiências de quase-morte, a primeira coisa que ocorre no processo do morrer é o facto de vislumbrardes uma luz branca. Existe verdadeiramente uma luz branca. E existe verdadeiramente um túnel de luz. E a luz parece chamar-vos. E clama uma simples frase - não por palavras - mas uma simples frase que se traduzirá por: "Volta a Casa." Agora, sem que importe o quão dispostos ou acolhedores ou compreensivos estejais em relação à compreensão do processo da morte em que vos encontrais, a vasta maioria das pessoas ainda considera esse derradeiro instante, o último momento que medeia a vida e a morte, um tanto como um trauma. Por isso, em meio a esse trauma surge de facto esta luz maravilhosa que se afeiçoa como uma luz muito tranquilizante, uma luz muito calmante, e uma luz muito reconfortante que clama: "Vem para Casa." E essa sensação de voltar a casa, de finalmente retornar ao ponto de onde começastes é de tal modo irresistível que todo o trauma é libertado.

Através desse túnel e no outro lado, vós encontrareis exactamente o que esperais encontrar. A realidade é toda um produto do desejo, da expectativa e da imaginação. Assim, nesse mundo do além, encontrais exactamente aquilo que esperais encontrar. Por isso, se pensardes que venha a ser o céu - com anjos dotados de asas e trajes compostos de penugem branca e halos ao redor das cabeças, a esvoaçar ao redor enquanto tocam as suas harpas e entoam as suas canções - se pensardes que Deus venha a estar sentado num trono no final de um longo corredor com Jesus e Maria junto dele à Sua direita e esquerda - então será exactamente aquilo que ireis ver. Se pensardes que o céu venha a ser um tipo qualquer de cidade pavimentada a ouro, com rubis e diamantes em uma pilha, nesse caso vereis cidades com ruas ornadas a ouro. A Bíblia descreve com toda a clareza o aspecto que o céu virá a ter (um local cheio de opulência, de acordo com a Bíblia) e um monte de cristão devotos hão-de descobrir esse mesmo local, tal qual a Bíblia o descreve, e sentir-se-ão cheios de júbilo.

É muito divertido assistir aos Cristãos muito Fundamentalistas, por que quando eles surgem têm que ter o seu pequeno confronto com o Inferno, sabem. Eles estudaram toda a sua vida, sabem, falando sobre esse lugar terrível para o qual tanto temem escorregar. Frequentemente, assim que surgem diante da luz branca, vão direitos até à extremidade, até à boca do Inferno e ficam lá a balançar durante uns segundos, e assustam-se um tanto. Mas, é claro, jamais chegam a cair nele. Jamais alguém caiu, por não existir Inferno. Mas de qualquer maneira, vacilam um pouco.

Alguns pensam ter sido muito maus, ou os seus parentes o esposas ter-lhes-ão dito que quando morrerem irão para o Inferno. E eles ouviram isso com tal frequência que realmente chegam a temer ir. "Oh Deus meu, eu vou para o inferno?" E eles chegarão a cambalear junto desse mesmo precipício também, mas tampouco chegam a cair nele.

Assim, é muito interessante, por nessa borda, talvez á direita junto uns dos outros, encontram-se o Fundamentalista Cristão - com toda uma vida de advertência contra o fogo e o enxofre - e uma pessoa que brincou com esse mesmo fogo e enxofre. Encontram-se ambos ali, a balançar, mas sem que nenhum deles caia.

E a seguir lá vão e dão com o céu, nesse particular sentido, tal como tinham pensado.
Agora, o que ocorre depois disso, é que se dá uma enorme celebração em que encontrais todos quantos sempre quisestes encontrar, todos os vossos amigos e colegas. A seguir cais num estado qualquer sonambulístico. Assemelha-se a um estado de sono, e permaneceis nesse estado durante um tempo. Não existe tempo, pelo que pelo tempo da Terra tanto poderão ser três semanas como três meses ou trezentos anos. Não tem qualquer importância, por se assemelhar a um sono nocturno.

Pela manhã lá ides à descoberta de que, embora a enorme celebração tenha sido agradável, deve existir trabalho a ser feito. A seguir é como se realmente os planos caíssem e os cenários descambem, o trono de papel mate volte para o armário, e toda a gente começa a trabalhar. O aspecto real do outro lado assemelha-se bastante ao da realidade física, por a estardes a criar. Por isso as pessoas criam edifícios e ruas e salas de aula. Eles começam muito mais a trabalhar e percebem muito mais que estão a operar numa ilusão, e que esse é simplesmente um veículo destinado ao seu próprio crescimento. São mais conhecedores disso do que o sois enquanto seres físicos.

Primeiro tratam de rever a vida que terão acabado de abandonar. Passou um filme do Albert Brooks chamado Em Defesa da Vida. "Bom, não se assemelha a isso, como se tivésseis que ser brilhantes e isentos de todo o medo. Mas dá-se esse sentido de revisão de todos aqueles anos que vivestes e de ver aquilo que aprendestes e experimentastes."

Depois disso, revêm todas as vidas que tiverem experimentado, e colocai-las todas juntas num contexto mais alargado. A seguir tomais decisões - montes de decisões. Pode levar séculos do tempo terreno, mas tomais decisões sobre se quereis voltar a uma encarnação terrena ou se quereis seguir em frente. Contudo, de forma diferente daquela do filme de Brooks, ninguém decide por vós. Não é como se o júri estivesse de fora. Não, vós decidis por vós próprios, após essas revisões.

"Eu gostaria de voltar e isto é aquilo em que gostaria de trabalhar, nestas três coisas, nestes cinco itens, nestas circunstâncias", e a seguir passa-se por uma triagem de múltiplas vidas de modo a descobrir uma que vos dê essas linhas gerais. Sempre se apresenta o livre arbítrio, a cada instante. Mas escolheis vidas que vos transmitam as linhas gerais daquilo que quereis que essa vida particular subentenda.

A outra decisão é: "Não, ainda tenho muito a aprender, só que posso fazê-lo sem um corpo. Por isso decido ir em frente, nesse sentido particular. Mas talvez numa direcção diferente, e sem o uso de um veículo físico para passar a colher lições similares.

Mas a escolha cabe-vos sempre a vós. E as decisões quanto à direcção a tomar cabem a vós do mesmo modo.

É o que sempre acontece. Não é feio, nem é doloroso. A tristeza da morte é para aqueles que não passam por ela. E não o referimos com leviandade: os que acolhem a tristeza são queles que são deixados para trás, por terem perdido alguém amado. Não os irão ver de novo até morrerem também. Por isso a tristeza e a repugnância causada pela morte é algo que sobrevém muito mais àqueles que vivem do que àqueles que tenham falecido.

Quando alguém morre, quer seja de forma trágica ou pacífica, sempre resulta de forma pacífica, sempre resulta maravilhosa, a menos - e aqui aplica-se uma excepção - a menos que o façam como uma forma de manipulação.

Se, no processo do morrer, tentardes punir alguém, ou tentais com que alguém se sinta culpado, ou tentais manipular alguém levando esse alguém a fazer alguma coisa, nesse caso ainda atravessareis a luz branca, mas por não vos encontrardes na disposição de celebrar, provavelmente não encontrareis nenhuma celebração do outro lado. Não ireis para o Inferno, não. Mas a grande celebração que podia ter lugar aí de outro modo terá sido "cancelada" por vós, na própria confusão em que vos encontrais.

É por isso que dizem que o suicídio é terrível. Dizem que caso cometais suicídio ireis para o Inferno ou para o Purgatório, ou atravessareis a grande confusão cósmica. Sugeriríamos que provavelmente isso seja certo, mas não por causa do suicídio. É por causa da manipulação. Frequentemente o objectivo do suicídio é o de castigardes alguém, de levar alguém a sentir culpa, ou de magoar alguém. "Vou-te mostrar. Vais-te sentir arrependido e passar o resto da tua vida a sentir culpado." E zum: cortam a cabeça. Aquilo que provoca a confusão na experiência do pós-vida não é o próprio acto do suicídio. O que provoca a confusão é o castigo que tentam infligir, e a manipulação que tentam fazer.

Por isso, mesmo que uma pessoa que esteja com 90 morrer de causas naturais, se adoptar uma atitude manipuladora qualquer - do tipo: "Eu vou-te mostrar, eu vou-te ensinar, tu vais-te sentir culpada, vais desejar ter-me tratado melhor" - ela morre de causas naturais, só que isso vai criar o mesmo tipo de confusão com se encostassem o cano de uma arma à cabeça, por estarem a agir de uma forma manipuladora.

Por isso, não é o resultado final, mas os meios para atingir esse fim que contam. Se alguém morre em meio a um enorme sentimento de ódio e a uma enorme manipulação, então a pessoa gera confusão. Se alguém morrer de forma normal, seja por que meios for, então irá ser uma experiência completamente maravilhosa, isenta de ódio e de tristeza e de confusão. Vai decorrer maravilhosamente.

Por exemplo: Houve certa vez um casal idoso, ambos brilhantes, muito formais que eram altamente considerados pela sociedade e família em que se achavam inseridos. Eles tinham noção de estar a envelhecer, e um contraiu uma doença terminal. Perceberam que quando por fim um morresse, o outro seria colocado num lar, e seria apartado. E decidiu que não, não quereria fazer isso.

Por isso decidiram cometer suicídio conjuntamente de modo a poderem permanecer juntos. Deixaram uma nota adoravelmente escrita a descartar a culpa de toda a gente, por não quererem que ninguém se sentisse culpado. Disseram que ninguém poderia ter feito nada, que ninguém lhes poderia ter tornado aquilo melhor. E a seguir mataram-se. Bom, a sociedade sentiu-se indignada, mas de facto não, essa não foi uma morte terrível. Sugeriríamos que eles atravessaram a luz e tiveram a celebração mais gloriosa por terem tido uma morte consciente.

Faz toda a diferença o facto de ser uma escolha baseada no desenvolvimento ou uma escolha com base no medo. Se alguém souber que tem uma doença terminal e tomar uma opção com base no temor - "Tenho medo do tratamento, tenho medo da dor, tenho medo de me matar a mim próprio" - isso é uma questão diferente. Mas se se tratar de uma opção com base no desenvolvimento pela qual escolham suavemente pôr fim, e cuidarem de descartar toda a culpabilidade e manipulação que possa de outro modo ter lugar, nesse caso sugeriríamos que a sua experiência não deva ser de todo má. Não será de confusão.

Não advogamos o suicídio – claramente – mas sugeriríamos aqui que também não procuraremos convencer ou manipular quem quer que seja a abandoná-lo dizendo-lhe que vá a ser assustador ou que venham a ser punidos.

O resultado final – aquilo que fazeis, seja como for – não é tão importante quanto a atitude e a intenção com que o fizerdes. A atitude, a intenção. Isso é chave. Por isso, o suicídio em si mesmo e por si só não é errado nem pernicioso. Se alguém com uma doença terminal escolha genuinamente – como uma decisão amadurecida – pôr termos à vida, sugeriríamos que metafisica e espiritualmente – legalmente já é uma questão diferente – não irão sofrer no outro lado, claramente.

Pergunta: Não poderias falar-nos da morte, e se poderemos nos programar de modo a evitarmos certas realidades, tal como a morte dos pais e a nossa?

Resposta: Que dizer da morte? A afirmação ou suposição que a pergunta circunscreve é a seguinte: A morte é ruim. Mas a pergunta que colocaríamos de volta seria: Porquê? Que mal terá morrer? Bom, vamos falar de alguns dos problemas que se prendem com a morte, mas deixamos a interrogação: “Que mal tem?” Vejam bem, vós fostes orientados, condicionados a acreditar que seja uma coisa má, que a morte represente um fracasso, e que, se morrerdes, tereis de algum modo fracassado – a menos que vivais até... bom, até serdes bem velhinhos. Mas mesmo assim, as pessoas consideram isso um fracasso: “Oh, que pena.” Porquê? Que é que isso tem de mal?

O mundo para o qual ides, a realidade para que passais é de longe muito mais excitante, ousamos dizer, muito mais arrebatadora e muito mais ao vosso gosto do que aquele com que estais a lidar actualmente. A morte é uma coisa que pondes em acção, não por terdes de o fazer, mas por vos decidirdes a faze-lo.

O vosso corpo é um “veículo”. É tudo o que ele é. É uma ilusão, composta de luz e de som suficientemente densos para ser chamado de corpo. Quando assistis a um programa televisivo percebeis luz e som, e o que se assemelha a corpos por todo o lado, no ecrã. Vós sabeis que não são corpos. Quando ides ao cinema e assistis às figuras no vosso grande ecrã, elas também se assemelham a corpos em movimento por todo o lado, mas sabeis que não são. Sabeis que se trata de uma condensação de luz e som para criar a ilusão.

Bom, vós sois simplesmente uma ilusão tridimensional; o vosso corpo é um veículo. Ora bem; como é que vos iríeis sentir se vos fosse designado à nascença um automóvel co a condição de jamais vos poderdes ver livres deles? Tínheis que preservar esse mesmo automóvel, vejam bem... desde a nascença?! Bom, ainda que fosse até aos 16, certo? Agora pensai no primeiro automóvel que tivestes. Como vos sentiríeis se ainda tivésseis que o conduzir? “Queres dizer que não vou poder pôr esse veículo á troca?” Não, não podeis! Tendes que o preservar e estimar e programar para andar para sempre. Gostaríeis disso?

“Não, quero poder trocá-lo ser capaz de conseguir um modelo mais novo!” De qualquer maneira, alguns de vós trocam-nos a cada dois anos! Outros mantêm-nos um pouco mais, caso gostem dele em particular, mas ansiais sempre por um automóvel mais novo – o veículo novo.

Ora bem, do mesmo modo, a morte representa um processo de “dar a volta” ao veículo e de dizer: “este veículo está acabado. Estou pronto para seguir em frente sem nenhum veículo ou para obter um outro.” Assim... programar uma forma de não morrerem? Sugeriríamos que olhásseis mais a fundo. Porquê? Por que consideram a morte como um fracasso? Por que a consideram coisa má ou errada? Por que a encaram com uma coisa que jamais desejam fazer?

Reconhecidamente podereis não pretender morrer agora, nem no ano que vem nem seja quando for, mas numa altura qualquer ireis querer. Podeis programar ser saudáveis e viver tanto quanto o desejardes, e viver até serdes tão velhos quanto desejardes, mas eventualmente querereis morrer e preparar-vos e ansiar por o fazer. Sinceramente, não é “regra” inevitável, ou “lei”, mas sim algo que desejareis...um dia qualquer. Além disso, há o poder da crença. Fostes condicionados a crer que tendes que morrer numa determinada idade. Alguns acreditam que irão morrer aos cinquenta por a mãe, pai ou irmã terem todos morrido aos cinquenta, e desse modo: “Eu vou morrer aos cinquenta.” E muitas vezes assim o fazem. Outros, sentem que assim que se aposentarem e o “relógio” começar a deixar de trabalhar tão bem, já sabeis, a vida não apresentará muito mais utilidade.

Alguns de vós, completamente conduzidos pelo vosso segundo chakra, decidem que assim que não conseguirem mais ter relações sexuais, deixarão de ter razão para viver, e assim voltam-se para o processo do morrer. Fostes condicionados a acreditar que desde que nasceis começais a morrer... Que ideia mais assoladora, mas mesmo assim... Por isso há limites muito elevados, mas se realmente quisessem superar isso, podíeis. Fundamentalmente, porém, não pretendem superar esses limites. Haveis de sentir vontade de morrer em qualquer altura. Eventualmente, toda a gente optará por morrer.

Pergunta: Fala-nos da morte física.

Resposta: Bom, trata-se de um conceito interessante, sabem? Tendes sentido tanto medo disso, mas decerto que compreendemos os receios que sentem. Escutamos o vosso chamado. Mas sugeriríamos que de facto a morte constitui o agente curador, assim como o derradeiro término da vossa dor, o fim derradeiro da frustração que sentis em vida. Mas não os encorajamos a faze-lo com rapidez. Não os encorajamos a provocá-la antes de a desejardes por completo. Mas sugeriríamos que altura, de facto em que cada um optará por descartar ou largar essa forma que carregais. Esse descarte constitui o processo a que chamais de morte. Alguns optam por o enfrentar de olhos fechados e fingem não conseguir ver o que acontece. Outros, optam por o fazer de olhos abertos, e assim, de uma maneira mais consciente, selecionam a sua morte.

Quando decidem morrer – seja por que meios forem, cedo ou tarde da vida – o que acontece é que deslizais para fora do corpo, tanto quanto deslizais para fora de uma peça de vestuário que deixais cair ao chão, à noite, onde parece ficar sem vida. Mas vós, enquanto a centelha que sois ainda permaneceis vivos, a pulsar com vida, e a continuar. Que é que percebeis diante de vós? O quê? A luz mais gloriosa, a luz mais gloriosa a atrair-vos, luz essa que vos conduz a ela, de modo que quereis alcançá-la. Ides até ela, e a certa altura, quando a estais a alcançar, ela chama-vos a ela. Quando sois chamados percebeis o quão sois amados por Deus, pela Deusa, pelo Todo, e o quão capazes sereis de amar. É na direcção desse amor, desse amor e dessa luz que é Deus, que sois chamados.

Pergunta: Teremos a oportunidade concreta de voltar?

Resposta: Ah, com certeza. Após terdes atravessado a luz e procederdes à mais gloriosa das celebrações, certamente fazeis um bocado de repouso, sabeis? Carregais convosco a maior parte do desejo físico, pelo que os vossos corpos e tornam mais jovens e mais magros e atléticos e por fim lá conseguis o corpo que sempre tereis querido - ou que pelo menos tereis desejado durante um certo tempo. Atravessais esse incrível estado sonambúlico em que permaneceis meio-acordados e meio a dormir. E quando acordais observais a vida que levastes, examinai-la e passai-la em revista a ver o que fizestes e o que conseguistes – sem ser de uma forma condenatória nem rigorosa, mas de uma forma judiciosa. Depois, decidis.

Vejam bem, o poder da escolha é eficaz não só no mundo físico como no além também. Decidis: Quereis voltar à vida física ou não? Estareis mais adaptados a aprender por meio de uma nova entrada nesta densidade a que chamais fisicalidade, ou estareis mais adaptados para aprender sem ela? A escolha cabe-vos com toda a clareza a vós, em absoluto. Não existe árbitro; não existe juiz algum; não existe lá ninguém a dizer: ”Ah, tu fizeste isto, tu fizeste aquilo...” Não. Sois vós quem decide. Por vezes, quase pareceria ser preferível que mais alguém decidisse por vós e deliberasse as escolhas no vosso lugar, por serdes muito mais severos em relação a vós próprios do que quem quer que fosse, contudo, sois sempre vós quem decide e escolhe.

Pergunta: Descreveste a experiência da morte como uma passagem por um túnel com o som do vento a correr nos nossos ouvidos. Que acontece quando se emerge desse túnel?

Resposta: Coisas maravilhosas! Que acontece quando faleceis? Bom, não vamos abusar disso por termos falado do tema frequentemente. Quando morreis deixais o corpo físico – deixais o vosso corpo para trás. Saís do corpo, e é uma experiência aterradora por terdes sido condicionados na crença de que assim seja, por chegardes perto disso e vos assustardes. “Que acontecerá se não estiver lá? E se não existir um céu? E se os existencialistas tiverem razão e o nosso corpo físico ficar a apodrecer no chão, e nós mergulharmos num tipo qualquer de esquecimento?”

No entanto, deparais-vos com todo o tipo de resistências nesse mesmo instante. Por isso, vós mergulhais numa espécie de desmaio quando saís dos vossos corpos. É um trauma, sabem? Nasceis em meio a um acto traumático, e morreis num acto traumático, muitos de vós. E quando nasceis, admirais-vos de estar confinados a este pequeno corpo que nem sequer opera de modo funcional! E interrogais-vos: “Ter-me-ei inscrito para isto?”

A seguir passais a faze-lo funcionar: “Muito bem, se isto é tudo quanto tenho, o melhor é arregaçar as mangas e fazer este corpo crescer e funcionar de modo a ser capaz de caminhar e de falar, e de fazer ambas essas coisas ao mesmo tempo!” Depois prosseguis para outras coisas mais sofisticadas, para por fim, atingirdes esse ponto da morte em que por fim ides ser libertados deste corpo e dizeis: “Ena pá! Espera aí! Precisarei realmente de me livrar dele?”

Por isso, quando morreis, muitos “desmaiam” e sofrem uma ausência. Bom, muito rapidamente voltais a reavivar-vos, seja qual for a duração que durar, no tempo da Terra, por vos situardes fora do tempo, por essa altura. Mas depois sois reavivados e sois atraídos para um túnel de luz, decerto. Na outra extremidade desse túnel encontrareis toda a gente que quiserdes lá encontrar... Todos os familiares de quem sentis saudades, aqueles que morreram antes de vós... Nenhum daqueles por quem não sentis interesse... E como a consciência é multidimensional, toda essa gente que ainda se encontra viva e que gostaríeis de encontrar lá, encontra-se igualmente lá. Assim, os vossos filhos, amigos, todos quantos deixastes para trás se encontram lá.

É uma enorme celebração, uma festa enorme! Agora, alguns que abraçam uma crença fundamentalista, têm crenças de poderem esquivar-se a irem para o Inferno, e começarão a deslizar no sentido desse Inferno, percebem? Irão até à borda, balançam na borda, mas infelizmente ninguém vai lá parar!... (Riso) Alguns fundamentalistas chegam bem perto, não por pertencerem lá, mas por temerem tanto a ponto de chegarem à boca e: “Ena lá! Vislumbrei o Inferno Vi o Diabo a encarar-me de frente! E ordenei-lhe para ase afastar!” De modo que escovam o medo que têm do Diabo, e a seguir passam pela luz para o céu, onde sabiam pertencer desde sempre... (Riso)

Assim, ides para o céu. Ides para esse lugar maravilhoso que representa aquela enorme celebração com toda a gente que quereis lá ver... Incluindo os personagens históricos que sempre quisestes conhecer. Toda a gente vem ao vosso encontro para vos saudar. Passais por essa enorme celebração e depois mergulhais no sono. Mergulhais num estado sonambúlico que pode durar, no tempo terreno, uns simples minutos, umas poucas horas, uns anos, assim como algumas décadas.

É como aquele maravilhoso período em que acordais pela manhã e voltais a adormecer por uma meia hora adicional – aquele período em que vos encontrais meio acordados e meio a dormir, em que podeis mesmo aconchegar-vos quando faz um frio de morrer lá fora, ou escutar o chilrear dos pássaros quando faz uma manhã primaveril. Mergulhais num estado maravilhoso de sonambulismo, de oscilação.

Depois acordais e experimentais o céu que tiverdes antecipado, caso tenhais esperado que esse céu tenha ruas pavimentadas a outro, anjos com harpas, e criaturas maravilhosas desse tipo, e desenvolvereis esse céu durante um certo tempo. A determinada altura direis: “Será isto tudo quanto existe?” E então, os cenários desmoronam e vós voltais-vos para o trabalho sério de crescimento e da revisão da vida que tiverdes experimentado, colocando-a no contexto das outras vidas que tiverdes experimentado, coo uma ida às aulas. Conversais com amigos, envolveis-vos em actividades e fazeis todo o género de coisas no processo da revisão a que procedeis. Por fim, lá tomais uma decisão adicional: “Quero voltar ao físico? Quero assumir uma outra vida?” Existe uma ampla gama delas. Vós decidis: “Eu quero aprender isto, aquilo e aqueloutro. Aquela serve. Aquela, vou assumir aquela.” A seguir, ordenais tudo para voltardes a entrar na encarnação física. Ou decidis: “Não, terminei. Não necessito passar por mais vidas. Terminei com o crescimento, mas aprendi tudo quanto havia a aprender no Plano Físico.” Duas afirmações: Poder aprender e querer aprender.

“Por isso, vou desenvolver-me sem um corpo, agora, pelo que vou seguir em frente.” É a isso que a experiência da morte se assemelha. É bastante bela, maravilhosa, representa a derradeira cura. Torna-se, talvez, importante levar isso em linha de conta. A morte constitui a derradeira cura. Ela põe termo à infelicidade física; põe cobro à limitação física.

Conseguirão aprender a transcender a morte? Poderão tornar-se imortais? Bom, existem duas formas de abordagem à imortalidade. Uma delas, que manifestamente diríamos ser bastante adolescente, é a abordagem da imortalidade que refere que deveis conservar o mesmo corpo que possuís: “Eu quero viver até aos duzentos ou trezentos – quero viver para sempre neste corpo.” Por que diabo quereríeis tal coisa? Porquê? Isso deixa-nos verdadeiramente espantados, tal como ficaríamos se dissésseis querer manter o mesmo automóvel para todo o sempre.

Mas sugeriríamos com relação a isso, que alguns tentam tal façanha, mas com toda a sinceridade não irão ter êxito. Com toda a sinceridade, a estrutura das crenças que têm, a importância de desistirem do corpo e o valor inerente ao desapego dele são de tal monta que o valor desse desapego que não serão bem-sucedidos com esse tipo de imortalidade.

Ah, sim, a consciência humana irá tornar-se capaz de viver até aos 100, 120, 130 anos. Dentro de alguns anos isso não será difícil. A partir de um monte de doenças correntes que se encontram actualmente em vigor, um dos resultados irá ser um tremendo conhecimento da longevidade, de tal modo que as pessoas serão capazes de viver até aos 100, 120, 130 anos – e sem substituírem os órgãos. Cada vez mais as pessoas chegarão a essas idades. Isso tornar-se-á muito mais viável, muito mais possível – mas não viver para sempre.

Existe, contudo, uma forma de transcender, e dessa forma – a forma adulta, conforme a chamamos – consiste em morrer de modo consciente, morrer de modo consciente! Nós conduzimo-los em meditações, não? Nessas meditações cerrais os olhos, descontraís, e elevais-vos para fora dos vossos corpos. Por vezes, flutuais para o exterior, e ides aqui e acolá. Bom, a imortalidade, no verdadeiro sentido do termo, pode ser alcançada. Podeis decidir: “Hoje é um excelente dia para morrer”, e deitar-vos de olhos fechados. Entrais numa “meditação” e o vosso corpo de luz eleva-se, de modo completamente consciente e sai do corpo e abandona-o de vez.

Ora bem, sugeriríamos que isso representa a verdadeira imortalidade, a imortalidade em que jamais chegais a morrer, por estardes completamente conscientes ao longo de toda a experiência. O filme Cocoon é um filme que apela a um monte de gente, por eles chegarem quase; jamais chegam a faze-lo, mas chegam quase a retratar a morte consciente, a imortalidade, em que toda aquela gente idosa a certa altura decide conjuntamente ascender, não é? Vós podeis abordar a morte dizendo: “Hoje é um excelente dia para morrer, por isso vou-me deitar esta noite e vou morrer de forma consciente.” E podeis decidir não “desmaiar”.

Pergunta: A maioria dos comentários que fazes sobre a morte parecem dirigir-se para aquele que está a morrer. Poderás apresentar alguns conhecimentos para aqueles que ficam do lado de cá a lidar com esse fenómeno?

Resposta: Sim, é importante. Sem dúvida, dirigimo-nos primeiro àqueles que estão a morrer por ser terminal, nesse contexto, para muitos de vós, e torna-se importante que queirais informação sobre isso.

Para aqueles que ficam, o que é importante é que percebam por que sentem tristeza. Nós afirmamos que é maravilhoso, sabem, é belo, consiste numa enorme celebração, e que experimentais o céu, e que ninguém alguma vez é mandado para o Inferno, ninguém atravessa nenhum mau bocado, e que é sempre maravilhoso, e que aprendeis e que evoluís e que é estupendo – é fantástico! Significa ser capazes de programar a vossa realidade, e de obter essa capacidade a cada passo. É na direcção disso que vos encaminhais, aqui, não será? Quando morreis não vos encontrais entristecidos. Por que razão havereis de vos sentir tristes quando alguém morre?

Por irdes sentir saudade da pessoa. Não vos sentis realmente tão entristecidos com o facto de estarem a morrer quando sentis pesar pelo facto de estarem de partida.

Pensai no caso de um amigo. Tivestes uma amiga de toda uma vida, e de súbito anuncia-vos que ela ou ele está de partida para Hong Kong. Ides sentir-vos tristes. Agora imaginai que ele ou ela vos diga: “ Vou-me mudar para Hong Kong e não vou poder escrever, telefonar mais, e jamais me irás voltar a ver.” É claro que vos ides sentir tristes.

A morte representa a intensificação desse quadro, um expoente disso, por a pessoa se ir embora. Na perspectiva que tendes, ela jamais irá regressar. E não tendes a certeza absoluta do sítio para onde ela vai nem para o quê.

Podeis escutar as minhas palavras, mas precisais passar mais ou menos pela experiência para saberdes que é real. E se estivermos errados? Isso seria mais do que lastimável. Seria assustador. De modo que, quando alguém morre, gera-se uma sensação natural de perda, uma sensação natural de saudade. Não vos sentis realmente enlutados pelo facto de a pessoa ter morrido. Estais enlutados por ficardes sós, por terdes sido deixados para trás.

Também sugeriríamos que muitas vezes vos sentireis furiosos: “Como foi ele ou ela atrever-se a deixar-me? Como foi capaz!” Em particular no caso de um conjugue. Estais casados com alguém, ou estivestes junto com alguém anos a fio como amigos, como companheiros, e de súbito ele ou ela parte, sem vos consultar. Fazem-no por iniciativa própria e vós ficais furiosos.

Mas, entendam, não é presumível que fiqueis furiosos. Interrogai-vos: “Não será uma coisa terrível de dizer? Sinto-me tão zangado com ele ou ela por me ter morrido. É cá um transtorno!” De modo que converteis isso num outro sentimento. Sentis-vos culpados, sentis-vos mal, sentis uma vaga indefinida de sentimentos. O que é importante em torno da questão da morte é perceber que independentemente do quão compreenderdes a que se assemelha ou não, ides sentir-vos mal. Não negueis esse sentir. Independentemente do quão consigais compreender o sentimento, ides sentir-vos zangados, tal como vos sentiríeis zangados com um amigo que se candidatasse a ser transferido e fosse mudar-se para milhares de milhas à distância sem vos dar conta disso. Ides a casa dele um belo dia, e ele não se encontra mais lá, ou está a fazer as malas, ou já está de malas aviadas. Não conseguis fazer nada para o deter. Ides embora furiosos. Ides-vos sentir magoados. Ides sentir-vos traídos. Ides sentir medo.

O que é importante para os que cá ficam: Quando alguém morre, permiti-vos fazer o luto. Não adopteis um comportamento metafísico “refinado” do tipo: Bom, eu sei o que significa a morte, e sei isto e sei aquilo, e não vou fazer pranto. Fazei pranto. Chorai. Lamentai-vos. Agitai-vos. Senti-vos magoados. Senti remorso. Senti a sensação de perda e de solidão. Senti isso, mas senti-o com intensidade. Não arrasteis a coisa. Não leveis um ano ou dois a sentir. Senti isso com intensidade. Não escondam.

Quando conseguirdes sentir isso com intensidade, podereis libertar isso. Conseguis libertar isso. Se o sentirdes de uma forma medíocre, então ides prolongar isso, e quando supuserdes ter suplantado isso, a coisa voltará a irromper de novo, e ireis sentir isso novamente. E a coisa pode prolongar-se por anos a fio. E se vos recusardes a sentir em absoluto... “Recuso-me a lidar com isso...” Precisais entorpecer-vos. Por isso, fechais-vos e haveis de fechar outras partes de vós do mesmo modo.

Quando alguém morre, senti a extensão completa da emoção e permiti-vos sentir essa gama completa com tanta intensidade quanta puderdes. Tirai um dia de folga, se precisardes. Afastai-vos durante algum tempo. Não vos armeis em grande em relação à coisa. Sejam emotivos!

Toda a gente sabe que, eventualmente – quando as pessoas começam a morrer, e elas irão fazê-lo algum dia! – isso irá tornar-se num processo difícil. Mas a forma de lidar com isso é sentindo-o. Senti-lo em toda a extensão do seu alcance. Ides sentir-vos furiosos com Deus por vos ter levado a pessoa. Ides sentir-vos zangados com o mundo, pelo que quer que vos tenha feito. Sentireis vontade de atacar o mundo. Bom, fazei isso de forma apropriada. Senti-o com tanta intensidade e de maneira tão definitiva quanto fordes capazes por ser assim que o extirpareis e o libertareis.

Ponham fim a isso. Então, quando estiver acabado, podereis sentar-vos e falar mais filosoficamente sobre aquilo a que se assemelhará o estar morto. Nos lidamos com muita gente que obviamente está a fazer face à morte. Lidamos com muitos que estão a morrer. Dizemos-lhes ao que se assemelha e descrevemos-lhes o processo e estamos ao dispor delas e o desejarem, e trabalhamos com elas como que ao longo dessa fase.

É triste, não há dúvida, por irdes ficar sós e serdes deixados para trás – o que é triste. Assim, compreendei a razão por que sentis o luto. Sentis o luto por causa do sentimento de perda e não pelo sentimento de ganho delas. Se conseguirdes pôr isso em perspectiva desse modo, tornar-se-vos-á muito mais fácil lidar com isso.

NOTA DO TRADUTOR:

O leitor poderá por aqui constatar a importância de que se reveste o sentir em todas as esferas do viver, como meio de pôr cobro e suplantar verdadeiramente os factores "negativos"; assim como passar pelas experiências directamente. Aliás, a regressão de memória visa justamente trazer ao de cima conteúdos psicológicos inconscientes que, de outro modo, tendem a perpetuar as dificuldades que instigam por via da influência.  A sua exteriorização, mais do que a realidade da "memória" que indicia extirpa o incómodo causado  ao exteriorizar o conteúdo psíquico e emocional. Tal é a função do reconhecimento como passo antecessor da aceitação e da neutralização do que nos incomoda, que aqui é também realçado.  Para se obter paz de espírito deve-se sentir em profundidade aquilo que recusamos terminantemente sentir, por ser religiosa ou culturalmente incorrecto. Mas não importa, porque se o não sentirmos ou exteriorizarmos, isso pode ocultar-se no subsconsciente e minar a saúde e manifestar-se - por que sempre se manifesta - em doenças sérias e ruins. E não teremos suplantado as barreiras que nos separam do semelhante ou do mundo.

NOTAS SOBRE AS ORIGENS DO CRISTIANISMO





Traduçao e retracto da autoria de Amadeu Duarte

Nos seus primórdios, o Cristianismo que não somente a facção representada pelo catolicismo Romano, mas todo o espectro de ramificações que envolvia, como um corpo ou instituição, era tudo na verdade menos sagrado ou tutelado pelo divino ou sequer predestinado pelo que podereis livremente designar por “Deus” ou a divindade.

Constantino foi quem literalmente promulgou esse particular conjunto de dados de carácter religiosos por meio da combinação dos princípios de várias filosofias e escolas de pensamento e quem basicamente decretou que esse corpo deveria tornar-se na religião oficial do Império, como uma forma de unir as inúmeras facções briguentas e mesmo belicosas existentes nos seus limites, numa tentativa de as unir. (1)

Tal esforço procedeu de uma tentativa de reunir vários receptáculos de conhecimento a fim de os preservar igualmente, o que constituiu também um acto de consciência. Mas, como em todas as coisas, subsistem interpretações de ordem variada, distorção e falsidades que frequentemente entram em questão.

Antes da amálgama patente entre pelo menos as três principais religiões daquele tempo, na época de Constantino, encontrava-se o principal corpo religioso conhecido por Mitraísmo, com a religião principal que os romanos praticavam, embora eles também adorassem Zeus e Júpiter assim como alguns outros deuses mitológicos. Mas dispunham igualmente de algo mais poderoso e unificador na pessoa do deus que conceberam a partir da figura de Júlio César, pois que o proclamaram literalmente como um deus, pelo que consequentemente, todos os imperadores que lhe sucederam se tornaram deuses vivos ou extensões de Júlio César, à semelhança dos antigos faraós – que também eram considerados a encarnação de deuses.

A segunda religião principal, a qual quase foi varrida da face da Terra à altura, após ter sido incluída no ideal de Constantino, era a que venerava o deus hindu Krishna. O decreto que promulgou a reunião dos princípios e das ideias desses três corpos principais numa nova religião criou um sistema unitário que não era perfeito mas que apesar disso foi bem-sucedido na contenção das massas do seu vasto Império.

A deificação de Júlio César foi usada para criar a deificação do homem num deus por que passou a perfilhar-se a figura principal das escrituras a que chamais Cristãs.

Além disso, “Julius” significava “salvador”, tal com Mitras e Krishna representam o termo sânscrito e hindu que é traduzido por Cristo, ou a sua versão grega, “Cristus”, o salvador, que acabou transformando-se no homem que se tornou deus.

Muitos gostariam verdadeiramente de acreditar, fervorosamente, existir um ser que venha como salvador e que literalmente redima o mundo e os seus pecadores e reine supremo sobre a mente e o coração da humanidade. E cada religião convence-se de que a sua versão ou interpretação que faz desse salvador divino venha a ser a que reine de modo absoluto, como se os erguesse ou pertencesse a uma elite ou a um clube em que, enquanto membros, formem os escolhidos. E cada instituição ou corpo religioso convencesse disso como fosse de facto um dado adquirido, em relação á qual nenhuma variação seja provável. Mas, como é claro, isso jamais acontece, pelo que deverá situar-se sempre num algures, no amanhã, mas sempre subsistem marcos ou sinalização a indicar o curso para isso.

Sob determinados pontos de vista, tratou-se de um golpe brilhante, de certo modo: a criação de uma religião co a intenção de instaurar a estabilidade política.

Há muitos exemplos de passagens bíblicas que constituem reconhecidamente cópias de ensinamentos sânscritos e que representam transliterações do Bhagavad-Gita e outras passagens dos Puranas, além de textos Védicos mais antigos. Outros segmentos passaram dos ensinamentos pertencentes às escrituras ou livros sagrados de Mitras. E outras passagens ainda tiveram proveniência nas elegias dedicadas ao Imperador divino Júlio César. Muitos dos livros das escrituras Cristãs foram compostos décadas ou mesmo séculos após o chamado evento do “homem-deus nascido entre os homens”.

Os académicos bem informados nesse campo descobriram que, à medida que os séculos se sucediam, muitas foram as coisas que foram removidas e, ou, acrescentadas, que não figuravam nas escrituras das tradições originais do cristianismo. Isso haveria de causar assombro em muito boa gente.

Antes da adopção dessa nova religião, e exactamente da mesma maneira por que actualmente as companhias se fundem em novas companhias, os credos então em voga, que foram empregados nessa nova religião, comportavam práticas que eram séculos mais velhas do que as da nova religião, a que chamavam de original, claro está. Mas esses princípios apresentavam uma particularidade que somente com o passar do tempo. e em especial as interpretações linguísticas, acabou maculada nas percepções resultantes dos ensinamentos dessa religião adoptada, ao apresentar conjuntos de dados religiosos que passaram a considerar o ser humano como uma criatura defeituosa e pecadora. Muitos dos antigos ensinamentos jamais advogavam que o homem fosse uma criatura pecadora e dotada de imperfeições, fosse de que modo fosse. Pelo menos não por um conceito tão manchado quanto esse, o que implicava no facto dos indivíduos poderem aderir com facilidade a uma religião particular qualquer sem recearem ser controlados para terem que andar constantemente a vigiar os próprios pensamentos e aquilo que sentiam, não fosse isso trai-los.

Não queria dizer que antes o mundo se assemelhasse a um pêssego côr-de-rosa, em termos históricos. Ainda reinava muita guerra além de outras coisas. Contudo, existia uma certa liberdade de pensamento e de expressão, e em particular um sentido de não serem expulsos de um local como o paraíso devido a algum pecado ou ofensa cometida contra a divindade. Eram, na verdade, uma parte dos mecanismos e da ordem das coisas, parte integral do sagrado, que podiam associar á vossa vida, e em que podiam interagir juntos, tanto como mortais como imortais.

Somente aos olhos dos académicos vitorianos é que as velhas culturas do mundo passariam a ser consideradas supersticiosas e tontas, mais ou menos com receio da própria sombra, em razão do que o velho nobre ideal de vida Britânico haveria de os poder libertar.

As referências do Velho Testamento alusivas à vinda do “salvador” retractado no Novo Testamento como profecias – torna-se por demais evidente até para o menos instruído que tais referências foram copiadas do Novo Testamento e inseridas no Velho. Todavia, muitas são as que ainda insistem em que o carácter fictício composto nesses moldes constituía um indivíduo real e histórico, e para justificarem a inexistência de referências históricas relativas a tal personagem em mais nenhuma outra era – tenhamos em mente que entre outros aspectos contundentes, após o novo Testamento deixaram de surgir profetas! - estão prontos a defender a existência de um ser diabólico qualquer, talvez satânico, como o autor da eliminação do salvador da memória. Isso não representa elocução nenhuma de tolos mas a de muitos dos padres fundadores da Igreja.

Esse corpo particular de ensinamentos que foi organizado para fins estritamente monetários e políticos, assim como de uma certa unificação do vasto domínio repleto de incontável número de credos religiosos, de certo modo perpetuaram uma enorme fraude e insinuaram um poderoso corpo de informação que reivindicavam ter tido origem divina, o que subjugou muitas gerações aos princípios que defendia que os crentes estavam proibidos de ler e de escrever, pelo que precisavam aceitar a palavra do pregador como se fosse proferida pelo próprio Deus – e sem questionar! Porque o questionamento poderia acarretar repercussões sórdidas, incluindo excomunhão e até mesmo a morte, conforme muitos experimentaram durante o período da Inquisição.

Isso produziu uma fundação em que, por um lado, se proclamava que o amor representava o poder, quando na realidade o poder assentava na instilação do medo, na imposição da institucionalização e do doutrinamento, cujos resultados postulavam – enquanto alinhassem pelo corpo desses ensinamentos – que haveriam de obter a salvação, mesmo que esses ensinamentos fossem contra tudo o que conhecessem.

O próprio conceito que está a ser alvo de exploração com relação à essência, á recordação e à compreensão das convicções que tendes, das percepções que tendes e do modo como criais e moldais a experiência da vossa realidade, assim como da própria realidade, por meio das vossas energias materiais, não representa conhecimento novo. Foi, durante muito tempo conhecimento proibido que quase foi apagado com sucesso. Mas afortunadamente vós conseguistes estabelecer uma época e um período histórico em que o vaticano e as doutrinas cristãs conseguem obter uma menor influência do que aquela que conseguiam exercer há umas poucas centenas de anos atrás. A intenção por detrás disso residia nas experiências inerentes aos conceitos de separação, por exemplo, e do bem e do mal.

Aqueles que passaram por tais experiências poderiam ser considerados almas corajosas, por terem posto pé no covil do lobo. Vós estais a sair dessa cova do lobo. Eles conjuraram o significado da sua existência por intermédio de tais experiências. Podíamos mesmo referir que tenha sido com o propósito de criar outros focos capazes de se libertarem, quando não seriam capazes disso, de certo modo. O que implica que até mesmo aqueles que conheceis como “canais” ou médiuns de um tipo qualquer, ainda empreguem os princípios de tais ensinamentos em particular, e os encorajem de forma distorcida em meio ao processo, decisão essa pela qual o indivíduo que toma parte no processo pode sentir extrema dificuldade em contornar esse “fundo religioso” imposto e se vejam incapazes de contornar a doutrina.

Mesmo que, aquele que foi concebido como Jesus Cristo se tenha, a vários títulos, formado num arquétipo. Mesmo independentemente do número daqueles que se concentram nessa direcção, o conceito original da entidade crística em nada se aproxima do conceito incorporado por Constantino. Por muitos presumirem ter conhecimento de que a entidade designada como Cristo ou Cristus, tenha que ver com tradições ou ensinamentos inerentes a esse corpo de conhecimento, embora o seu propósito original nada tivesse que ver e nada tem que ver com as tradições desse corpo de conhecimento; nada tem que ver com livros nem demais filosofias que tenham procedido disso como se se tratasse da derradeira tradição filosófica da sapiência espiritual e religiosa.

O propósito por detrás da entidade crística em termos que poderia ter-se manifestado no vosso mundo, estava relacionado com a assistência aos seres humanos prestada pelo reconhecimento do seu sentido de valor e da natureza grandiosa inerente ao seu ser, rompendo com as barreiras e limites atribuídos e comummente associados a ensinamentos e tentativas de resumo tais como muitas filosofias que incorporam a imagem do deus tornado homem, além dessa em particular. Tratou-se de um propósito que visava à ampliação da consciência pelo modo mais representativo e aprofundado por que muitas pequenas comunidades de seres humanos e filosofias tentaram manter como acto de paixão carregar a tocha, se quisermos, dos seus ensinamentos. Contudo, acabaram como heréticos e marginalizados de um ou de outro modo.

Esses pequenos núcleos habitualmente referidos como Gnósticos, podem não ter tido o corpo de conhecimentos completo ao seu dispor, contudo tinham mais a oferecer, por não contribuírem para a escravidão do indivíduo por intermédio do conceito da culpa, da vergonha e do pecado, e em vez disso procuravam libertar a mente do que os restringia, da sua conceptualização estreita, do que teria parecido limitar o ser humano, dando-lhe as chaves para a sua própria libertação.

A Mudança assemelha-se à Renascença da consciência.

A vários títulos, vós estais, pois, de uma forma ou de outra convencidos de que tendes que venerar um Deus. Não vos podeis considerar como esse Deus, por isso representar um convite à blasfémia, e a uma blasfémia do pior tipo. Assim vos é dito. É irónico que venereis, de muitos modos, as próprias criações em vez de compreenderdes que projectais os vossos ideais e a vossa própria essência - aprisionando-a – num símbolo que visa punir-vos pelos vossos actos, inclusive por serdes como sois! Isso sim, é que representa uma blasfémia! Existem cultos modernos votados à “ascensão” que albergam o propósito de se elevarem acima da natureza carnal e maculada, inferior e impura o adulterada, rumo a uma existência mais ampla, mas ainda assim tais declarações apresentam uma contradição abismal e baseada em ensinamentos imperfeitos, sem a menor compreensão quanto ao facto de serdes uma expressão da essência, um avatar do campo profundo das acções psicológicas, a crista da onda da consciência! Como poderão ser tão manchados pelo pecado e desprezíveis que preciseis afastar-vos rumo a uma forma mais pura?

Tais ensinamentos não podem apresentar-se mais deformados. Assim, descartai a convicção de que, de outro modo sereis malvados por serdes quem sois e possais em vez disso considerar-vos como o próprio néctar da bênção do universo DEVIDO a serdes quem sois! E que por intermédio de vós, o universo – a Essência – pode contemplar-se através dos vossos olhos e maravilhar-se, seja por que tipo for de experiência que passeis, como o néctar efectivo de tal bênção. O ser divino não é aquele que permanece num castelo cósmico a dar ordens aos seus pequenos anjos para tocarem harpa. Essa é uma das distorções que se baseiam nesses ensinamentos. Um ser divino é aquilo que vós sois. No mundo antigo os aspectos divinos eram livres de afluir aos indivíduos antes da verificação de certos tipos de corrupção se estabelecerem. Na verdade, os sacerdotes e as sacerdotisas achavam-se empenhados no fenómeno da incorporação dos deuses e deusas, a fim de os partilharem com os demais, como por uma acto de encorajamento da bênção ou da recordação da vossa condição original. Algumas dessas práticas tinham igualmente um carácter tântrico, pelo que os sacerdotes e as sacerdotisas se envolviam em contactos íntimos com os seguidores, como um processo de alcançar o âmago profundo da união patente entre mortal e imortal. Mas tornou-se mais conveniente dar lugar á criação à imagem do “velho psicótico lá no céu”, que vos reduzisse a um carvão caso o ofendêsseis, por ser muito mais fácil controlar assim a populaça.

Kris


NOTAS:

(1) No concílio de Niceia, 325 dC, convocado por Constantino, foram as bases da doutrina da reencarnação condenadas, ao se definir dogmas que se prendiam com a consubstancialidade do Filho com o Pai, ou seja a realidade do homem-Deus, assim como o dogma do pecado original. Jesus não pregou dogmas metafísicos, nem escreveu tratados de teologia; tampouco disse ele: “Eu sou consubstancial, tenho duas vontades e duas naturezas numa só pessoa.” Os unitários, ou Socinianos, chamavam à doutrina do pecado original “o pecado original da Igreja”, um ultraje a Deus. Os Socinianos colocavam uma grande ênfase na fé dos primeiros “heréticos” que morreram pelos evangelhos apócrifos, e que constituíram as primeiras seitas cristãs, ao recusarem considerar os quatro evangelhos divinos algo mais do que trabalhos clandestinos: “Atrevermo-nos a dizer que o Criador terá criado todas as sucessivas gerações apenas para as submeter a um castigo externo, sob o pretexto de que os seus primeiros antecessores comeram de determinado fruto, é acusá-lo do mais absurdo barbarismo. Tal imputação sacrílega, é ainda mais imperdoável entre cristãos, visto não existir qualquer referência ao pecado original quer no Pentateuco quer nos Evangelhos, sejam eles apócrifos ou canónicos, ou de qualquer dos escritores chamados de primeiros Pais da Igreja.

Voltaire, 1964-1778, sabia que nenhum dos primeiros Pais da Igreja tinha redigido ou citado nada disso: “Eles não só não conseguiram citar os Evangelhos, como também aderiram a diversas passagens agora encontradas apenas nos Evangelhos Apócrifos rejeitados pelos cânones. Dado que muitos dos falsos evangelhos foram no início considerados verdadeiros, aqueles que hoje constituem os fundamentos da nossa fé podem muito bem ter também sido falsificados.”

Iso leva-nos logicamente aos ensinamentos de Orígenes 185dC-254C, em torno do qual se centra actualmente a controvérsia.


Orígenes

Os ensinamentos de Orígenes foram vitais para a preservação dos Evangelhos originais. A sua pena foi tão fértil quanto a de Voltaire, mas de acordo com a Enciclopédia Britânica, os dez livros do Stromata, a sua obra mais provocadora, desapareceram quase não deixando rasto. Isso é de suprema importância, visto que Orígenes se ocupava aqui de correlacionar os ensinamentos cristãos estabelecidos com os dogmas “cristãos” de Platão, Aristóteles, Numénio e Corruto. Ele dedicou a sua vida à preservação dos Evangelhos originais.

“Não seria tanto a relação entre a fé e a sabedoria que ofendia, mas sim propostas bastante isoladas, tais como a doutrina sobre a preexistência das almas.”

Orígenes declara no seu Contra Celsus: “Não estará mais em conformidade com a razão que cada alma, por qualquer razão misteriosa (de acordo com a opinião de Pitágoras, Platão, e Empédocles, que Celso refere frequentemente) seja introduzida num corpo de acordo com a sua doçura e as acções anteriormente cometidas? Não será racional que as almas que usaram os seus corpos para fazer o máximo de bem que puderam devam gozar do direito a corpos dotados de qualidades superiores aos corpos das outras?

“A alma, que é na sua natureza imaterial e invisível, não tem existência num lugar material sem que tenha um corpo adequado à natureza desse lugar. Da mesma maneira pões de lado um corpo – que antes era necessário mas que não se encontra mais adequado ao seu estado modificado - e troca-o por um segundo.”

E no seu Principiis: “Cada alma (...) vem a este mundo fortalecida pelas vitórias ou enfraquecida pelas derrotas da sua vida anterior. O seu lugar neste mundo, tal como um navio apontado à honra ou à desonra, é determinado pelos seus anteriores méritos ou deméritos. O seu trabalho neste mundo determina o seu lugar no mundo que se seguirá a este.”

Deve ser aqui citado que São Jerónimo (340dC-400dC) certa vez saudou impulsivamente Orígenes como “o maior professor da Igreja desde os Apóstolos.” Isso é muito pouco plausível se considerarmos que o Novo Testamento era então tão ambíguo nas referências que fazia à reencarnação, como é agora. Certamente que, para Orígenes ter tido um lugar de destaque entre os primeiros Pais da Igreja durante quase quatro séculos, os seus dogmas devem ter sido solidamente baseados naquilo que era então aceite como os Verdadeiros Evangelhos.

Pitágoras e Platão

Como foi, exactamente que completaram as filosofias “pagãs” de Pitágoras e Platão (que subscreviam ambos a reencarnação) as crenças dos primeiros Pais da Igreja?

Os pontos de vista de Pitágoras (528aC-507aC) existem apenas nas suas biografias de Diógenes Laércio e Jâmblico, mas a primeira cita-o como afirmando que “ele recebera a memória de todas as transmigrações da sua alma como uma dádiva de Mercúrio, juntamente com o dom de se recordar daquilo que a sua alma, e a dos outros, haviam experimentado entre a morte e o renascimento.”

De Platão (427aC-374aC) obtemos o contexto directo: “A alma é mais antiga do que o corpo. As almas nascem continuamente uma e outra vez nesta vida.

“A alma do verdadeiro filósofo abstém-se tanto quanto possível de prazeres e desejos, de sofrimentos e receios (...) pois em consequência de formar as mesmas opiniões que o corpo, e de se deleitar com as mesmas coisas, nunca pode passar ao Hades num estado puro, mas jamais deve partir poluída pelo corpo e assim cai rapidamente noutro corpo, e é, consequentemente, proibida de se associar com o que é divino e puro e uniforme.

“Sabei que se vos tornardes piores ireis para as piores almas, se vos tornardes melhores, para as melhores almas, e em cada sucessão de vida e morte fareis e sofrereis como devereis sofrer às mãos do que fizerdes.”

S. Clemente de Alexandria (150-220), na sua Exortação aos Pagãos, é também claramente influenciado por Platão: “Nós existimos o princípio, muito antes das fundações do mundo, existimos nos olhos de Deus, por que é nosso destino viver n’Ele. Somos as criaturas racionais do Verbo Divino (acção). Portanto, existimos desde o princípio por que no princípio era o Verbo... Não é a primeira vez que Ele demonstra a Sua piedade por nós na nossa vida errante. Ele teve piedade de nós desde o princípio.

S. Gregório (257-332) afirmava que era absolutamente necessário que a alma seja aperfeiçoada e purificada, e se isso não acontece durante a sua estadia na Terra, deve ser conseguido em vidas futuras.

S. Agostinho (354-430) venerava de tal modo Platão que escreve no seu Contra Académicos: “A mensagem de Platão, a mais pura e mais luminosa de toda a filosofia, afastou pelo menos a escuridão do erro, e brilha agora para o porvir especialmente em Plotino, um platonista tão parecido com o seu mestre que se poderia pensar terem vivido juntos ou então – dado que os separa um longo período de tempo – que Platão voltara a nascer em Plotino.

Plotino

Plotino foi, juntamente com Orígenes, discípulo de Amónio Sacas, que fundou a famosa Escola de Neoplatonismo de Alexandria no Egipto, em 193dC. Plotino em A Descida da Alma, é talvez o mais claro e o mais expressivo: “Assim a alma, embora de origem divina, procedente das alturas, submerge no mundo sombrio do receptáculo do corpo, e sendo naturalmente um deus pós-diluviano, desce para mais perto de nós através de uma certa inclinação voluntária pelo poder e pelo enaltecimento de interesses inferiores...

“ No entanto, as nossas almas são capazes, alternadamente, de se erguer trazendo consigo a experiência daquilo que conheceram e sofreram durante a sua queda, com a qual aprenderão a bênção que é habitar o mundo inteligível e, por compaixão dos contrários, compreender mais claramente a excelência de um estado superior.

“Pois a experiência do mal produz uma consciência mais clara do bem (...) que é a totalidade da nossa alma que entra o corpo, uma parte dela permanece no mundo inteligível, que é algo diferente do mundo sensível, e aquela que habita no mundo dos sentidos não nos permite compreender aquilo que a parte suprema da alma contempla.”

Estes testemunhos de quatro Padres da Igreja dos primeiros tempos denotam não ser possível que todos regulassem mal da cabeça, ao adoptar crenças contrárias e hostis aos dogmas da sua própria Igreja. O facto de terem repetidamente aderido aos dogmas “cristãos” de Platão aponta para a sua convicção de que Cristo havia incluído essa mesma parte na Sua própria filosofia.

Em 553dC, Justiniano, o imperador bizantino, convocou a V Conferência Ecuménica de Constantinopla para pedir a condenação das obras de Orígenes inspiradas em Platão. Contrariamente ao que as Igrejas contemporâneas defendem, esta conferência foi laica. O papar foi proibido de participar e a sua denúncia foi ostensiva. Foi instigada pelo mesmo substracto de bárbaros mentalmente retardados que se haviam “convertido” ao cristianismo no tempo de Constantino. Os acontecimento que conduziram à V Conferência representam praticamente a única prova que terá sobrevivido quanto à razão pela qual a reencarnação desaparecer da Bíblia.

A doutrina monofisista (uma única natureza)

Essa doutrina é, como foi, a má da fita. Foi essa seita que viria ais tarde a desacreditar todas as alusões à reencarnação nos Primeiros Evangelhos e que dividiu a Igreja em duas facções antagónicas. A solidariedade da Igreja Cristã não só fora infestada por uma interminável série de cismas a partir de cerca do ano 300dC., como teve que fazer frente a uma resistência activa e à vigorosa competição das religiões pagãs, que não conseguir ainda suplantar, muitas das quais eram não só mais alegres e mais afastadas da realidade como incluíam também as extravagantes saturnálias (celebrações em honra do deus romano saturno). Os monofisitas continuaram a provocar distúrbios e desacatos até ao ano de 451, em que um concílio ecuménico especialmente reunido, leal aos ensinamentos de Orígenes, dividiu Cristo em duas naturezas separadas, a humana e a divina.

O Decreto de Calcedónia 451dC.

A bem intencionada decisão conhecida como p decreto de Calcedónia que protegia os ensinamentos de Orígenes, tornou-se, de facto, na rampa de lançamento para todos os sombrios acontecimentos que se seguiram. Na realidade, a divisão entre os monofisitas e o Vaticano acabou por atingir proporções de tal modo violentas, que um dos primeiros actos públicos de Justiniano foi obrigar o Patriarca de Constantinopla a declarar a sua total adesão ao credo calcedoniano” (Enciclopédia Britânica) Isso constitui sólida evidência de que antes, Justiniano se encontrava em total acordo com as tendências origenistas da Igreja de Roma. No entanto, em 543, por insistência de Teodora, sua mulher, permitiu que um sínodo local desacreditasse e condenasse as obras de Orígenes.

Extraído da pesquisa de N. Langley

Nota do tradutor:

Qualquer que seja o teor apresentado por mim em associação com este tema, quero deixar bem claro que o chamado mito Cristão se reporta a uma grandeza que não pretendo minimizar nem rejeitar minimamente, por representar uma metáfora – EM TODA A EXTENSÃO DA REPRESENTAÇÃO QUE ASSUME – de resto à semelhança de muitas outras anteriores, da alma e das suas potencialidades, natureza, características e evolução; sim, porque a alma não é uma coisa estática, apesar de ser “una com Deus”, conforme é referido comummente. Por isso, não, esse não é o móbil que me impele.
Trata-se de uma grandeza psicológica, sem dúvida, mas útil e necessária ainda, por necessitarmos de uma vida simbólica rica, que as várias ciências modernas não oferecem, apesar dos muitos mitos e dogmas que também produz e apregoa.


Senão vejamos alguns pontos de concordância que estabeleço com esta minha premissa; a consciência de Cristo representa o alinhamento da mente, do corpo e do espírito, ou seja, a consciência, o subconsciente e a supraconsciência.


A fé, representa não a crença cega nem a crendice nas figuras tutelares tais como o Buda ou o Cristo, que devem ser reverenciados mas sim a evidência das coisas não vistas (1 Hebreus Cap. 11) ou seja, a constatação da ordem natural do ser através da intuição, para que concorrem muitas vezes metáforas como a do grão de mostarda, que significa o valor dos pequenos passos das pequenas acções de reconhecimento e validação  e familiarização pessoal que edificam a confiança e  a integridade.

Portanto, a fé reporta-se à confiança que o indivíduo deve edificar em si, senão directamente por via da intuição, pela constatação do que incomoda o homem, do papel que exerce na apresentação disso na sua realidade e na transformação pela apreensão de outros sentidos que concorrem junto com os cinco habituais, para uma compreensão holística, ou a totalidade daquilo que ele representa, que é comummente referido como divindade, só que sempre posicionado adiante num futuro que é objecto de promessa, e jamais está ao seu alcance por se apresentar como uma antinomia, um paradoxo em meio à noção da culpa em que radica toda a ideia do pecado.


Outra metáfora que alude ao mesmo significado é a das dez virgens que aguardavam o noivo (1 Cor 8-10) que deixa antever a importância da atenção ou familiarização connosco próprios como meio para erguermos a confiança que resulta da integração (alinhamento) de mente corpo e espírito. Outro ainda, o caso figurado da mulher gentia que buscava a cura para a filha atormentada, e da fé de que dera prova, deixando o mestre surpreendido com o esclarecimento e a integridade que revelara ao satisfazer-se com “migalhas” por não ser bom costume “dar o pão aos cães”, naquele tempo (por cães referiam-se aos gentios, claro está). Ao que o mestre responde: “Não é senão por tua fé que ela é curada!” referindo a força do conceito que ela fazia do outro como pedra basilar da ”salvação” e não preponderância do poder miraculoso da parte do mestre!


Por exemplo, (Mat 6-6) quando Jesus recomendava que orassem em segredo, para se verem recompensados abertamente, referia-se à abertura da nossa parte para com o cristo interior, a seguir ao que, o meio externo, ou sociedade, seria transformada, ele referia a qualidade da transformação que é igualmente citada no Budismo como a qualidade da realização do amor e da beleza que procedem de dentro como ordem natural das coisas e do ser, e não brotam da distinção externa e arbitrária nem do julgamento em termos de bem e mal, certo e errado.


A salvação é outro conceito erróneo resultante de grosseiras distorções que evoca a libertação do erro (pecado), como processo implicitamente individual, ou seja que está ao alcance de cada um, e que passa pela realização (consciencialização) da unidade interior que preside a essa ordem. Era tendência generalizada procurar tornar o Divino exterior e por isso mesmo, inatingível. Depois, as organizações e infraestruturas políticas frequentemente manipulam o conceito da salvação externa de modo a obterem controlo sobre as forças políticas – de notar que à época, a religião presidia como uma teocracia, e por isso mesmo um regime político, que traçava os ditames a que as maiorias deviam obedecer, de modo não muito diferente de hoje. O factor que mais pesava na formação e sustentação do conceito de salvação – como de resto ainda nos nossos dias – radicava na culpa e na condenação pessoal que era encorajada pelos diferentes dogmas. É claro que também se procurava salvação para o sofrimento, e por fim, para a morte, que percebiam como total aniquilação ou julgamento e condenação decisivos dos pecados, tão cegamente anunciada como medida profilática – como se a punição possa constitui medida profilática alguma! Mas isso correspondia efectivamente a um fardo real, que era criado pela percepção e mentalidade dos homens daqueles tempos. E quem poderia fornecer tal salvação senão um deus externo, conforme projectavam o conceito de um deus à altura.


João Baptista oferecia (propunha) um conceito diferente, que passava pela purificação batismal, ou um começar de novo sem o peso-morto do passado e da preocupação e ansiedade resultante. Jesus sugeria uma possibilidade ainda mais avançada nesse camo ao propor acesso ao reino dos céus, e por isso mesmo total perdão e libertação de todo o fardo, facto esse que os primeiros padres da Igreja não perceberam bem ao se agarrarem às noções do pecado, da culpa e da expiação, pelo que fizeram da figura de Jesus um salvador ao identificá-lo com o próprio Deus. Assim, a original doutrina da “salvação” proclamada por jesus foi convertida numa doutrina relativamente superficial de autoridade baseada em crenças.


A metáfora da crucificação, representa a conquista da morte, alcançada por toda a alma que, ao partir dos confins da carne, espera com confiança e abertura o que pertence ao domínio do mistério por ser factor desconhecido, mas o faz com aceitação, não provando ou melhor, conquistando assim o ferrão da morte. Representa sobretudo igualmente uma forma de aceitação que anula a diáspora imposta pela dualidade psicológica dos estados antagónicos e assentes no paradoxo por que todo indivíduo que visa suplantar a dor deve seguir de forma a conquistá-la na raiz, ou seja na negação da dicotomia em que assenta que faz florescer toda a gravidade, e não no sentido subjectivo que atribui à dor. Numa palavra, aceitação pela perspectiva serena e por isso mais avalizada e mais alargada da percepção da realidade.


Posto isto, o que me motiva todos os esclarecimentos que faculto nesse sentido junto do leitor porventura mais desejoso de conhecimento ou esclarecido, é desenquadrar o mito da área em que foi “encarcerado” estritamente simbólico e, por isso mesmo, sujeito a ritualização e compreensão mais ou menos distorcida e supersticiosa, que relega a autoridade do indivíduo a terceiros, aos peritos e aos que se arvoram como detentores do conhecimento da verdade, em oposição à massa amorfa dos ignorantes que precisam ser salvos pela estrita obediência.


O polo da intenção por detrás deste esforço centra-se, pois, em devolver o poder pela percepção e de realização de volta ao indivíduo – para quem de resto está já a mudar, pelo que muito importa que se desmistifique, de forma a possibilitar que o indivíduo obtenha uma noção do poder que facto lhe assiste, e passe a usufruir de uma faculdade de o utilizar criativamente e de uma forma bem-sucedida, contornando desse modo o temor e o sofrimento gerados pela falta de conhecimento.