quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

SÉNECA - MÁXIMAS



Desenho da autoria de Amadeu Duarte



Procura não te intimidares diante da simples menção da morte. Familiariza-te com ela através da meditação constante, para que possas ir ao seu encontro quando as circunstâncias assim o exigirem.



Que coisa é verdadeiramente grandiosa?
Elevar-se acima das ameaças e promessas do destino e não considerar coisa nenhuma como desejável.
Que valor possui aquilo que ambicionas?
Quando voltas para as preocupações mundanas depois de te ocupares das divinas, sentir-te-ás ofuscado como quem saiu da luz do sol para a profunda sombra.



Não sopra nenhum vento favorável para quem não sabe aonde vai.


Reza um velho provérbio que é na arena que o gladiador deve aconselhar-se.


Mais importante do que apurar o que foi feito, será saber o que fazer.


Quando leve, uma carga faz do outro um devedor;
Pesada, faz dele um inimigo.


O que é grandioso? Suportar a desgraça com coragem e tenacidade.
Recusar o supérfluo quase com indignação.
Não ser audacioso nem covarde.
Não esperar pelos favores do destino, mas toma-lo decididamente nas próprias mãos.
Seguir avante nos bons e maus momentos sem temor nem hesitação.
Não se deixar perturbar nem pelo clamor da desgraça nem pelo esplendor da felicidade.


A consciência deve ser a linha de conduta dos nossos actos.
O falatório alheio deve deixar-nos indiferente.


O que me impede de considerar como futuro filósofo aquele que desconhece inteiramente a literatura específica? Pois a sabedoria não se baseia na literatura específica!


Creiam-me, a verdadeira alegria é uma coisa séria.


O destino guia os cordatos e arrasta consigo os obstinados.


Não deves amontoar pedras para erigir um templo à divindade
Vale mais consagrar-lhe um santuário em cada coração.


Qualquer um serve a si mesmo quando serve os outros.


A única forma condigna de venerar a Deus está em levar uma vida correcta.


Recolhe-te o mais possível em ti mesmo.
É preciso dispor de tempo para si próprio a fim de podermos contemplar-nos interiormente.



Procura apenas a companhia daqueles que possam contribuir para tornar-te melhor.
Permite apenas a aproximação de pessoas que tu possas melhorar.
Desse modo o estímulo interior será mútuo, pois aprendemos na medida em que ensinamos.


Esconde-te no teu ócio, mas ao mesmo tempo dissimula-o.


A fealdade do corpo não deve afectar a alma; uma bela alma enobrece o corpo.


Aprende a viver e a morrer,
E adquirirás uma serenidade sublime diante de todas as coisas terrenas.


Não devemos centrar a nossa preocupação em viver muito mas em viver o suficiente.
Para podermos viver muito tempo necessitamos da ajuda do destino;
Para vivermos o suficiente necessitamos apenas da correcta disposição de espírito.
Pois a vida é longa quando é plena.


Aquele que obedece a ordens de boa vontade exime-se na faceta mais amarga da dependência, isto é, não se vê obrigado a fazer o que não quer.
Infeliz não é quem executa ordens mas o que as cumpre de má vontade.
Portanto, é mais conveniente querer o que as circunstâncias exigem de nós.


Desperdiçamos demais o nosso tempo!
A vida é suficientemente longa e, bem aproveitada, chega até mesmo para concretizar a maior das tarefas...
Eu disponho de tempo, como qualquer um, desde que haja boa vontade.
Somos nós que nos sobrecarregamos de trabalho, julgando que a multiplicidade de empreendimentos contribui para a nossa felicidade.


Concentra-te, durante a tua curta vida, nas coisas essenciais, e vive em paz contigo próprio e com o mundo.
Providencia para que as pessoas te estimem enquanto vivas tu.
Em breve daremos um último suspiro porém, enquanto respirarmos, enquanto nos encontrarmos entre os homens façamos da bondade a nossa obrigação.
Ninguém te fará reviver os anos vividos; ninguém te devolverá a ti mesmo.
Da mesma forma, o teu tempo de vida decorrerá conforme começou
Sem traçar seu curso uma vez mais nem se deter
Não fará alarde de si nem te recordará do quanto passa depressa.
Fluirá simplesmente em silêncio.


Encara cada dia isolado como uma vida inteira.


Grande parte da liberdade consiste em ter estômago bem treinado
Capaz de suportar até maus tratos.


O que é mais importante na vida humana?
É tudo observar com os olhos do espírito e, sendo esta a maior de todas as vitorias
 Vencer os próprios vícios.
Não têm conta aqueles que exerceram domínio sobre os povos e sobre as cidades
Pouquíssimos são os que têm domínio sobre si mesmos.


O que será mais importante?
Elevar o espírito acima das ameaças e promessas do destino.
Considerar que nada é digno de ser objecto de esperança.
De facto, que coisa haverá que possas desejar?
Sempre que, do contacto com as coisas divinas, voltares a cair nas humanas, deixarás de ver, tal como sucede àqueles cujos olhos saem da luz brilhante do sol para a sombra densa.


O que é mais importante?
Poder sofrer a adversidade com alegria na alma
Suportar tudo o que acontecer como se tivésseis querido que acontecesse.
E, na verdade, deveríeis quere-lo se tivésseis em conta que tudo acontece por decisão de Deus: chorar, queixar-se e gemer é uma forma de rebelião.


O que será mais importante?
Um espírito forte e tenaz contra as desgraças, não apenas contrário aos prazeres mas seu inimigo, que não seja nem temerário nem cobarde diante do perigo
Que saiba que o destino não se espera mas constrói-se e, que,
Intrépido e imperturbável, vá ao seu encontro, seja ele mau ou bom
Sem se deixar atingir nem pela perturbação de um nem pelo fulgor do outro.


O que é mais importante?
Não consentir no espírito más intenções, erguer em direcção ao céu as mãos puras, não procurar nenhum bem que, para o obterdes, alguém tenha de o dar ou perder.
Desejar possuir uma consciência sã, coisa que se pode desejar sem que ninguém se nos oponha.
E, se, por algum acaso, vos couberem por sorte algumas dessas coisas que os homens tanto desejam, olhai-as tendo presente que hão-de ir-se embora pelo mesmo caminho por onde vieram.



O que é mais importante?
Elevar o espírito acima daquilo que depende do acaso
Lembrarmo-nos de que somos homens, para que saibais, se fordes felizes, que só o sereis se julgardes sê-lo.


O que será mais importante?
Estar preparado para morrer; é isso que vos tornará livres
Não mercê das leis do Estado mas pelo direito da natureza.
É livre o homem que recusa ser escravo de si mesmo.
Essa servidão constante e incontrolável esmaga, durante todo o dia e toda a noite sem qualquer intervalo nem descanso
Ser escravo de si mesmo é a mais pesada das servidões.
Mas fácil é rejeitá-la, se deixardes de exigir tanto de vós, se deixardes de procurar o lucro, e se puserdes diante dos vossos olhos a vossa natureza e idade, ainda que estejais no começo da vida, e a vós mesmos disserdes: "Porque me comporto como um louco? Porque me canso e suo? Porque dou voltas à terra e ao foro? Não preciso de muito nem por muito tempo.



Aquele que a si mesmo propôs o seguinte programa de vida:

"Eu encararei a morte com o mesmo semblante com que dela ouço falar.

Eu aceitarei as dificuldades, por maiores que sejam, encontrando no espírito forças para o corpo.

Eu desprezarei as riquezas as que estão diante de mim como as que eu não vejo, e não ficarei mais triste se elas estiverem longe de mim, nem mais exultante se refulgirem a meu lado.

Eu não me ressentirei coma sorte, quer ela venha quer ela me abandone.

Eu verei todas as terras como minhas e as minhas terras como as de todos.

Eu viverei sabendo que nasci para os outros e por essa razão ficarei grato à natureza...
Tudo o que tiver nem o pouparei com mesquinhez nem o esbanjarei com prodigalidade.

Não avaliarei os benefícios que prestar nem quaisquer outros bens em função da quantidade ou do valor mas sim do apreço que merece quem os recebe.
Para mim nunca será demais aquilo que dou a quem é digno de o receber.
Nada farei por causa do que os outros pensem de mim, tudo farei em função da minha consciência. Tudo aquilo que fizer, sendo só eu a sabê-lo, fá-lo-ei como se toda a gente visse.
Para mim, a finalidade de comer e de beber será a de apaziguar as necessidades da natureza, e não encher o ventre e esvaziá-lo.
Serei afável para com os amigos, brando e indulgente para com os inimigos. Concederei antes que me implorem e acudirei aos pedidos honestos.
Saberei que a minha pátria é o mundo e que os deuses o governam, eles que, acima de mim e a meu lado, são juizes do que faço e do que digo.
E quando um dia, a natureza me reclamar o sopro da vida ou a razão a ele me fizer renunciar, partirei testemunhando que amei a boa consciência, as ocupações honestas, que por minha causa ninguém viu a sua liberdade cerceada, e muito menos a minha".
   Quem se propuser ou tiver a intenção ou procurar fazer tais coisas estará a caminho dos deuses.







KRISHNAMURTI TAL COMO O CONHECI


                                                                                                  

      

                

                                           Traduzido do livro:  "Tel que je l'ai connu", de:

                                                                                Susunaga Weraperuma                                  

                                            Tradução e desenho da autoria de Amadeu Duarte  2001



Impressões Iniciais



        O meu interesse por Krishnamurti surgiu era eu ainda estudante, em 1949, altura em que o conheci pela primeira vez em Colombo, nesse mesmo ano. Lembro-me do modo surpreendente como dei por mim por entre uma multidão imensa e impaciente que aguardava a chegada de certo homem santo, de nome Krishnamurti, junto ao hotel da cidade. E assim que a viatura da prefeitura chegou deparamos com uma silhueta delgada  acondicionada de modo nervoso no banco de trás, junto do prefeito da época, o Dr.Kumaram Rutmam, um bem conhecido comunista.
Krishnamurti conservava ainda uma vasta cabeleira negra com algumas manchas acinzentadas situadas á altura das têmporas, e envergava um dhoty  de seda branco. Depois de sair vigorosamente da limusine encaminhou-se a passo rápido para a escadaria a fim de evitar os olhares ávidos daquelas centenas de fervorosos.
Essa primeira impressão que dele preservo nunca se apagou da minha memória, particularmente porque no decurso da minha juventude não tinha muito hábito de contemplar homens santos assim vestidos, de modo tão refinado, tendo, antes, sido condicionado por exemplos como o do Mahatma Gandhi, que vestiam uma simples tanga. Durante as reuniões públicas posteriores tive boas ocasiões de o observar de modo mais atento; mas o seu olhar aveludado e distante surpreendia-me pois estava á espera de encontrar o olhar  ardente de um yogue, e por essa altura já tinha tido a oportunidade de ver vários yogues indianos notáveis, como Sivananda, que, inclusive, me tinha estendido um convite para o seu ashram em Rishikesh, nos Himalaias. O olhar luminoso normalmente está associado ao ardor intelectual, ao passo que o olhar doce significa serenidade e compaixão.
...De certa feita um monge do templo budista de Colombo procurava dissuadir-me de assistir ás conferências de Krishnamurti dizendo-me que ninguém poderia suplantar Buda, e que esse K. pregava uma espécie de budismo desvirtuado. "Porque é ele tão emotivo?" perguntava-me. "Se ele é um arhat" não deveria preservar a sua serenidade?"
Numa outra altura, aquando de uma reunião pública, encontrava-se presente um eminente político que lançou formidáveis invectivas insultuosas, chegando mesmo a detratar Krishnamurti como impostor. Este, contudo, permaneceu calmo e prosseguiu o discurso como se nada se houvesse passado. Em outra ocasião um outro homem repreendeu Krishnamurti utilizando uma linguagem ordinária, ao que K. respondeu perguntando qual era o problema  que o cavalheiro tinha. Esse indivíduo acabou por se tornar alvo de riso por parte do auditório, pois tornou-se evidente que o recurso à utilização daqueles modos grosseiros e ofensivos se devia à profunda agitação em que se encontrava.
   No decurso de anos subsequentes em que pude observar atentamente Krishnamurti pude constatar que ele jamais sentia lisonja pelo louvor nem mágoa pelas críticas ou insultos que lhe endereçavam mas permanecia como uma árvore plácida diante de uma trovoada, sem jamais perder a sua dignidade e comportamento, mesmo em meio ás circunstâncias mais penosas.

Numa outra altura, os estudantes da Universidade de Ceylon comportaram-se de modo hostil e escandaloso, quando Krishnamurti foi convidado a dirigir-se-lhes; nessa mesma sala, em ocasiões de lugares lotados, pude assistir frequentes vezes à troça que os estudantes usaram contra  personalidades de Estado célebres e  políticos eminentes, bem como para com homens de letras, suponho que utilizando esses modos para dar prova da falta de confiança na autoridade e, quiçá, dando livre curso á sua própria frustração, á sua agressividade e violência.

Ao penetrar nessa sala Krishnamurti teve que fazer face a um acolhimento inexpressivo. Uns quantos bateram palmas mas a maioria vaiou-o ruidosamente. Essa conferência teve de ser interrompida por diversas vezes, e Krishnamurti foi importunado algumas outras, até acabar por lhes perguntar porque razão se comportavam eles daquele modo já que, antes de mais ele era um orador convidado especialmente para lhes dar uma conferência, mas a despeito da desordem instalada K. continuou a falar sem mesmo evidenciar o mais pequeno  traço de ressentimento na atitude que lhes evidenciou e chegou mesmo a unir-se a eles em risos, a certa altura, acabando por conseguir uma alocução eloquente e tocante.

Krishnamurti gostava particularmente de passear ao longo das margens de um lago magnífico que existe nas cercanias da Ilha do Escravo, nos arrabaldes plenos de animação de Colombo, especialmente á hora do poente quando o tempo se fazia mais fresco e agradável, mas por vezes caminhava tão apressado pelo estreito carreiro que ladeia o lago, que se chegava a temer a possibilidade de o ver tropeçar nalguma pedra e cair às águas cheias de cobras; esse temor justificou-se certa vez ao entardecer, durante uma dessas caminhadas em que, de cabeça erguida e num estado extático ele contemplava longamente o céu escarlate, parecendo esquecer-se completamente do carreiro estreito e do lago limítrofe, justo na iminência de um acidente; nessa altura um amigo comum, deu um salto e protegeu-o, mas Krishnamurti tomou-lhe a mão e disse: "Olhe que céu, senhor! Este céu expande-me a mente".
O significado daquilo que proferiu confundiu-nos; quereria ele dizer com aquilo que a contemplação atenta do céu contribuiria para a actividade da mente? Por acaso não tinha ele oposto a prática de ,métodos á tomada de consciência? Conquanto dissertássemos extensivamente sobre o tema nada conseguimos porém.

  Certa vez o grande filósofo E W Adikaram visitou Krishnamurti quando este permanecia  no quarto e foi incapaz de conter as lágrimas que lhe escorreram pelas faces, chorando por um bom período de tempo. K sentou-se junto a ele e ficou a observá-lo em silêncio sem pronunciar uma só palavra; tomando consciência de se tratar de um comportamento de algum modo infantil, Adikaram conteve então o choro, de certa forma intimidado pela circunstância.
K. tomou-lhe a mão e consolou-o dizendo que vários outros visitantes tinham passado pelo mesmo, ao fim de pouco tempo na sua presença. É uma espécie de delicadeza ou sensibilidade a que se desenvolve, como quando vemos algo extraordinariamente belo ou escutamos um canto melodioso em que somos vencidos pela comoção.
Adikaram considerava K. com o maior respeito e endereçava-se a ele com tal deferência que por vezes os lábios estremeciam de emoção e a sua voz tremia ao tentar conversar com ele. Numa outra vez, K. chamou-o á parte e questionou-o da razão da sua inquietação, ao que ele respondeu desculpando-se por o considerar pessoalmente como um Buda. Krishnamurti disse-lhe: "Senhor, eu até posso ser um Buda, mas que  coisa o levará a temer-me?"


         J. Krishnamurti foi uma personalidade única. Não foi um filósofo, no sentido de formular doutrinas ou crenças; isso ele não o fez. Tampouco foi poeta, se bem que tenha escrito alguma poesia refinada. Não foi um grande escritor nem fundador de uma nova religião, se bem que as religiões tenham surgido de homens semelhantes a ele. A verdade é que Krishnamurti é de tal modo universal que se situa além de toda a classificação. Que coisa é que nos subjuga nele, e nos confunde, e que estranha missão terá sida a sua, é o que não sei.
                              
                                                                                                                   Susunaga Weeraperuma



                                                

 

 

     O senhor refere que, no que concerne às questões espirituais, uma pessoa deve crer por si mesma. Se realmente é isso que defende, porque razão perde o seu tempo a dar conferências? 

 

Krishnamurti-   Senhor, porque razão derrama a flor o seu perfume? Ela não pode evitar de perfumar o ambiente. Quando percebe alguma coisa com clareza, não sentirá desejo de partilhar essa clareza com os demais? Eu refiro isto porque pessoalmente não posso impedir-me de o fazer. Eu não falo com a intenção de ajudar os outros; isso seria ser demasiado condescendente. Falo simplesmente porque existe uma canção no meu coração. E desejo expressar esse canto sem me preocupar em saber se alguém se esforça por escutar aquilo que digo. Uma flor desabrocha porque se regozija; trata-se da sua função, do seu dharma. A flor não se preocupa em saber se quem passa goza o seu perfume ou o ignora.

 

O seu ensinamento destina-se a uns quantos ou antes a todos? Acredita que a sua filosofia elitista se tornará popular junto das massas?

 

K-  Porque se distingue das massas? Você é o mundo e este é você. Pode ser muito dotado de sorte e viver num palácio, ter uma porção de empregados etc., porém, psicologicamente, será distinto das ditas massas? Quer seja rico ou pobre, quer viva no oriente ou no ocidente, no Ceilão ou na Sibéria, será que, fundamentalmente o nosso espírito é diferente? Qualquer que seja a nossa situação na vida, onde quer que vivamos, todos nós sofremos e morremos, não é? É importante que tenhamos consciência de que a nossa mente é semelhante. O espírito é a sua consciência e nada mais. E o seu espírito, será isso alguma outra coisa além dos seus medos, das suas esperanças, das suas ambições, das suas ofensas e das suas crenças?

Perguntou se o ensinamento será susceptível de atrair as ditas pessoas vulgares. Quererá dizer que um camponês não me consegue compreender? Será o camponês psicologicamente diferente de si? A inteligência não é um talento pois todo o indivíduo possui a capacidade de compreensão.

 

Mas tem vindo a falar à muitos anos e no entanto o mundo ainda não mudou. Comente esta reflexão, por favor.

 

K-  As pessoas vão junto do rio e tomam a água na quantidade que necessitam. Alguns vão lá com um jarro; outros não bebem mais do que uns goles. Por isso a questão não é realmente do quanto é oferecido mas sim tomado. O rio está cheio de água mas você só toma uma pequena quantidade, dependendo o facto da satisfação provisória das suas necessidades imediatas. Você satisfaz-se com facilidade e não sente aquele profundo descontentamento. Não tem a sede necessária para beber grandes quantidades de água pura.

 

Porque não reconhece discípulos à semelhança dos outros gurus?

 

K-  Não tem conhecimento do quanto os discípulos destroem o seu guru? Os discípulos exploram o seu guru enquanto este, por seu turno, explora aqueles e as suas relações tornam-se uma exploração recíproca. Por Deus! Eu não tenho discípulos. Antes de mais descubra a razão porque deseja seguir alguém. Dessa forma descobrirá qualquer outra coisa sobre si próprio. Porque seguir alguém, ou o orador, inclusive? Desejamos seguir por vivermos na ignorância. Mas quando nos tornamos um discípulo, não estaremos ainda na ignorância? Consequentemente, não deverá tornar-se uma luz em si mesmo?

 

Nós encontramo-nos de tal modo desarmados que temos necessidade de guias.

 

K-  Não será esse hábito de seguir alguém que enfraquece?

 

Dizem os jornais que o senhor não lê. É verdade?

 

K-  Por vezes leio o Times para me manter ao corrente dos acontecimentos do mundo. Leio também uns romances policiais mas é tudo.

 

Não crê que o seu espírito puro seja condicionado pela influência corruptiva da literatura evasiva tal como a dos romances policiais?

 

K-  Corromper o espírito?  (risos)  Santo Deus! Nada corrompe! O espírito permanece intacto, inocente, fresco e jovem.

 

E a literatura sagrada, o senhor estuda-a?

 

K-  Acho os livros religiosos e as filosofias aborrecidas e não leio essas coisas.

                                                                              

                                                                                 


Escrevi-lhe uma carta acerca de determinado problema. O senhor recebeu-a?

K-  Não me recordo; qual é o problema?

Não sei se será justo chamar a isso um problema. Na realidade encontro-me numa situação de indecisão. Após a leitura dos seus livros encontro-me diante de um dilema.

K-  Já o debateu com o doutor Adikaram?

Já, todavia ainda me encontro confuso. Recentemente terminei os meus estudos no colégio; fui um aluno bastante bom e obtive boas notas e fui bem sucedido nos exames. Mas agora devo decidir se devo frequentar a universidade ou abandonar os meus estudos. Estou persuadido de que se agir assim as chances de eu encontrar um emprego sejam muito fracas, a menos que obtenha um diploma universitário. Porém, se continuar a estudar com a intenção de obter um diploma não correrei o risco de tornar o meu espírito insensível? Desejo cultivar um espírito altamente sensível mas o facto de amontoar conhecimentos arrisca a que aumente a minha insensibilidade, coisa que tornará a mente menos flexível. Tirei muito proveito da leitura dos seus livros mas neles explica que o saber é um obstáculo. Eu próprio compreendo que o saber embota o espírito e torna-o opaco e obtuso.

K-  Antes pelo contrário! O conhecimento aguça o espírito e torna-o vigilante e desperto.

Descubro a cada passo que quanto mais conhecimentos adquiro  mais o meu carácter não pára de sofrer mudança. Mudam os meus gostos e do mesmo modo o meu aspecto. Desaparece o frescor inocente da minha infância por não cessar de me transformar. Isso não representará um dano?

K-  Aquilo que é passível de sofrer mudança não merece ser conservado.

Não sinto ter ficado absolutamente esclarecido. Que concelho me daria?

K-  Escute, não possui um pé-de-meia?

Não, não tenho.

K-  Gostaria de  usar a escudela de mendigo?

Claro que não!

K-  Então nesse caso deve completar a sua educação e empregar-se. Trate de obter todas as qualificações exigidas para a obtenção de um emprego. Suponhamos que completa os seus estudos de engenharia; não seja ambicioso e evite dizer: "Vou tratar de ser o melhor e o mais eficaz". É só isso. O desejo de brilhar na sociedade deve ser evitado pois é vulgar. O saber, por si mesmo, é destituído de perigo, mas utilizar o saber como meio de satisfação própria, isso torna a mente obtusa.

Então não é contra o saber?

K-  Senhor, porque razão não haveríamos de ter necessidade de mais e melhores conhecimentos? O verdadeiro cientista está constantemente a tentar alargar as fronteiras do conhecimento. Porém, quando um cientista trabalha duro com a intenção de obter o Nobel, isso não representará a busca da própria glória?

Eu nem sempre compreendo bem essa questão. Quando é que o saber é perigoso e em que circunstâncias será ele útil?

K-  O facto de utilizarmos o saber para tirar proveito psicológico é que é nocivo.

Nas suas conferências emprega a distinção entre a memória dos factos e a memória psicológica. Aquilo que é efectivo torna-se facilmente compreensível. Mas, por favor, explique o termo "memória psicológica".
K-  É um facto que o doutor Adikaram é doutor em filosofia, e a isso chamamos memória factual. Mas, no momento em que passa a considerá-lo uma pessoa socialmente útil só porque possui um título universitário criou uma memória psicológica; não será? Agora, será que consegue olhar directamente o seu amigo sem o ver através do écran das suas posições ou reputação?

Fico preocupado só mesmo de ver a minha insensibilidade diminuir à medida que envelheço.

K-  Seja vigilante e assegure-se de que tal não se produza. Eu sou obrigado a encontrar-me com as pessoas porém, velo para que não me torne insensível.



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Dr. Adikaram-  A minha dificuldade consiste em que, no decurso do período em que devia ter ganho a vida escrevendo artigos científicos, tive tendência a tornar-me insensível. Teria desejado não ter trabalhado a fim de manter o espírito livre para penetrar num estado constante de consciência superior. Se não tivesse gasto as minhas energias em busca de coisas materiais teria possuído mais energias para uma tomada de consciência e uma maior sensibilização.

K-  Porque razão separa o chamado mundo material do dito "espiritual"? Não tentou transferir o seu interesse para o mundo material de modo a que não resultasse conflito entre ambos os dois domínios? O trabalho de um cientista autêntico não termina com o exame do mundo exterior. Ele deve examinar igualmente o seu mundo interior. Aquilo que descobriu sobre si próprio pode exprimir-se nos seus estudos científicos. Se, na sua vida quotidiana for bastante observador dos movimentos da sua mente descobrirá que não existe diferença de qualidade nos seus escritos. E pode tornar-se uma escritor mais competente; pode até mesmo aperfeiçoar o seu estilo.





              As    
  Entrevistas
 
 

 

 



                                                                                           





                               


Apreciação da Música Sacra




- Krishnaji, o concerto de ontem à noite foi muito apreciado. Vim á Índia a fim de escutar esse género de melodia; foi um prazer e tanto.

K- Sim, foi uma sessão maravilhosa.

- O que me intrigou foi a razão de ter tomado parte nos cantos de Bhajans. Observei-o muito atentamente, lá na primeira fila a cantar os hinos védicos. Não tenho nada contra os hinos védicos até porque muito os aprecio mas, posso perguntar-lhe porque razão tem manifestado tanto a sua desaprovação por toda a espécie de cultos? Aparentemente condena toda a adoração, todavia ontem juntou-se a eles  num acto inequívoco desses!

K- Podemos escutar um Bhajan encantador e no entanto não nos deixarmos influenciar  pelas suas ideias; é possível escutarmos um Sloka ou um Bhajan e  experimentarmos o efeito mágico do som sobre a mente  ignorando por completo todos os mitos, todas as lendas e crenças e conceitos que perfazem a essência da tradição indiana clássica. Já tentou obter o prazer de escutar um Meera Bhajan sem acreditar em Krishna nem em divindade nenhuma?

- Penso que um Bhajan se torna muito mais significativo quando se tem consciência de que ele se endereça a uma divindade particular. Um Bhajan constitui uma efusão de devoção que deve brotar do coração.

K- Ho, não! Eu não chamaria isso devoção. A verdadeira devoção não tem motivo mas é um estado de que não se espera nada. Mas quando nos prostramos diante de um altar e oferecemos um puja e em seguida pedimos favores em troca, isso procede da corrupção psicológica, não será? Procuramos negociar com o divino e dizemos á divindade: ”ofereço-vos isto e isto e espero que me proporcioneis tal ou tal coisa em troca”. A devoção autêntica é um estado no qual o espírito não está centrado sobre qualquer objecto particular, qualquer entidade, crença ou ideia.

- Quer dizer que um verdadeiro devoto deve possuir  um espirito destituído de objectivos?

K- Exactamente. Como disse, o modo correcto de escutar, não importa que hino ou canto religioso, consiste em experimentar somente o som- os seus assentos de súplica melancólica, de êxtase, de alegria, e permanecer simplesmente aí, não permitindo que a mente seja condicionada pelas ideias ou crenças religiosas particulares, que quase sempre acompanham a música. Então descobrirá que todos os géneros de  música religiosa são profundamente idênticos.
Gostaria que organizasse um concerto de música clássica ocidental para si?

K- Não se dê a tanta maçada. Terei muitas ocasiões para escutar música clássica ocidental quando for á Europa.

- Pessoalmente aprecio muito Bach, Beethoven e Haendel...

K- Também gosto desses compositores. Mas compreendeu o que eu disse? Se escutarmos atentamente, descobriremos que todo o género de música devota, qualquer que seja a sua origem, comporta certos elementos comuns. Nunca terá notado que toda a música religiosa constitui uma espécie de súplica e de lamentação pela existência?

- Essa qualidade torna essa música muito emotiva. Compreendo o que quer dizer.

K- Pergunto-me se alguma vez já deu atenção ao choro de uma criança. Já lhe aconteceu?

- O ruído que uma criança faz a chorar golpeia-me os nervos e dá-me vontade de fugir.

K- Se escutar de verdade a criança a chorar, com todo o coração e com toda a mente, como eu próprio já o fiz, sem escutar de modo distraído mas pleno de uma atenção sustentada, então experimentará também vontade de chorar; quererá pegar na mão da criança e juntar-se-lhe em lágrimas. Mas se não tiver um coração puro não o poderá experimentar.
Estou a tentar descrever o estado de verdadeira devoção- não a devoção absurda de uma mente estúpida que oferece flores e incenso a uma imagem fabricada pela mão ou pela mente.

- Chamaria a isso devoção pura?

K- O nome importa pouco. Pode dar-lhe o nome que quiser, o que importa é se possuímos esse sentimento.

- Pois é, eu vou frequentes vezes assistir a um concerto mas a minha dificuldade está em que após  escutar os primeiros compassos de um canto a minha mente começa a perambular.

K- Então vagabundeie junto com a mente e descubra porque razão a sua atenção salta de uma coisa para outra.

- Pois, isso que acaba de sugerir tem uma excelente aparência mas o facto é que já tentei praticar isso e falhei consecutivamente.

K- Então continue a tentar. Não abandone isso.

- Krishnaji, declarou em qualquer parte dos seus escritos que a música não reside nas notas musicais mas sim no intervalo entre elas. Confesso ainda não conseguir compreender o significado pleno dessa declaração.

K-  As notas são desprovidas de significado por si mesmas, não é mesmo? Assim também, quando lemos um livro não damos significado completamente nenhum ás palavras. As notas e as palavras são sons desprovidos de sentido; É no intervalo entre as palavras, é no estado de silêncio existente entre as palavras que se capta o significado daquilo que o escritor tentou expressar. Por isso não perca tempo com o aspecto técnico da música.
   Para apreciarmos um excerto de música não é absolutamente essencial que tenhamos a capacidade de a interpretar. A compreensão sucede se o espirito estiver silencioso, mas não considere a música como um meio de evasão ou uma droga  capaz de incitar ao silêncio; o silêncio sobrevem com naturalidade e sem esforço quando compreende. E a música nasce nesse silêncio. O silêncio é a fonte de toda a criação- esse silêncio primordial que não possui começo nem fim. Esse silêncio eterno está para além de todo o acesso por parte do intelecto.

 

 

 

Permaneça Toda a Vida Anónimo




- Krishnaji, acabei de ler uma notícia interessante no jornal desta tarde. Um membro do Concelho Municipal de Colombo vai apresentar, na próxima reunião do Concelho, um pedido respeitante ao senhor. Consta que se trata de um pedido para que lhe seja concedida uma recepção cívica.

K-  Em que consiste exactamente uma recepção cívica?

- Tais recepções são somente concedidas a indivíduos distintos nomeados pelo presidente da Câmara e pelos cidadãos eminentes.

K- Deus do céu! Eu sou um pobre tipo cujo sentido de individualidade foi extinto.(Risos)

- É provável que o Primeiro Ministro se enderece a si e lhe dê as boas vindas ,e pronunciem discursos em sua honra. Depois oferecem-lhe um rolo de pergaminho assinado pelos eminentes do Sri Lanka.

K- E que coisa virá incluída nesse pergaminho?

- Dará certamente testemunho das suas qualidades e espiritualidade.

K- Mas não ando á procura de certificado para o que quer que seja!

- Krishnaji, penso que será verdadeiramente uma pena que recuse tal convite pois seria uma bela ocasião para se nos dirigir num discurso. Pelo menos alguns dos políticos que o escutarem podem interessar-se de um outro modo pelos seus ensinamentos. Deverá privá-los desse benefício?

K- Se esses políticos estiverem seriamente interessados no que digo, que coisa os impedirá de assistir ás conferências públicas?
Senhor, será assim tão ingénuo que não reconheça as intenções dos políticos por entre as suas motivações? Não vê que as suas intenções são políticas? Eu evito-os.

- Diz que os evita, contudo esteve ligado à senhora Indira Gandhi!

K- Isso é diferente. Indira é uma velha amiga. O pai dela, o Pandit Nehru costumava fazer-nos visita, a mim e a Amma (Dr Annie Besant) quando nos encontrávamos em Benares.

- Mas peço-lhe que reconsidere o sugerido.

K- Estou desolado. Telefone, se faz favor, a esse membro do Concelho Municipal e peça-lhe para retirar essa proposta da ordem do dia. Vai-lhe telefonar imediatamente? Eu  peço-lhe que o faça.

- Sim eu faço isso, mas não estou certo de conseguir dissuadi-los de insistirem em efectuar uma cerimónia em sua honra.

K- Deixe que façam aquilo que quiserem mas eu não irei lá.

- Eu vou telefonar-lhes de seguida.

K- Faça você o que fizer na vida, onde quer que viva, evite sempre a publicidade. Não deseje ser vedeta. No outro dia disse a alguém que o desejo de ver a sua foto publicada nos jornais é uma coisa perfeitamente vulgar. Evite os ajuntamentos vulgares e conduza um tipo de vida correcta, desconhecido  dos seus amigos, parentes e associados. Tal qual uma árvore portentosa, oculta na floresta, assim permaneça anónimo toda a sua vida.

- Porque é tão hostil aos políticos? Certamente alguns deles devem ter um desejo sincero de ajudar a sociedade.

K- Quem quer que seja possuído pela ambição e avidez de poder não pode ser bom, muito simplesmente. Os políticos são responsáveis por muitos problemas no mundo. Veja que complicação as pessoas fazem por causa dos seus chefes políticos, na Índia! Milhares de pessoas esperam horas sob um sol abrasador, simplesmente para ver um político importante, como se  tratasse de qualquer espécie de animal estranha. Porquê conceder-lhes tal importância se sabemos que eles aspiram ao poder somente para guarnecer  os seus ninhos de penas? Os políticos espalham a corrupção. Consequentemente uma pessoa deve manter-se apartado dos políticos e das suas actividades. Se desejar ajudar os pobres a ver melhoradas as suas condições sociais então, a primeira etapa será tratar de fazer de si mesmo um homem de bem. A bondade autentica terá um impacto benéfico na sociedade.


A Paz num País Dilacerado por Conflitos



K- Pergunto-me por que razão chamam a essa ilha um país budista. Pode-se atribuir um carácter religioso a um território  ou a uma raça?

- Temos que levar em consideração que a grande maioria dos habitantes do Sri Lanka é budista. Podem ou não aderir estritamente aos ensinamentos de Buda mas consideram-se budistas.

K- Quer dizer, são budistas de nome?

- Infelizmente assim é.

K- Como era antes da introdução do Budismo?

- Não sou capaz de responder a essa pergunta. Segundo alguns historiadores, aquilo que predominava era uma espécie de animismo; cria-se que todos os objectos, mesmo os inanimados eram dotados de uma alma. Por isso as pessoas adoravam os espíritos que se supunha residirem nas árvores, nos animais e uma quantidade de outros objectos.

K- O Homem foi sempre adorador. Esse seu anseio remonta ao seu passado selvagem e estende-se até á época actual, sempre como um adorador.
Hoje é um conceito refinado de Deus que adora; trata-se de uma crença sofisticada que revela como a mente humana sempre foi e será perseguido pelo medo e pela ansiedade. É muito simples: o desejo ardente do adorador sobrevem somente em razão da existência do medo. Se puder afastar o medo da psique, o Homem deixará imediatamente de ser um adorador.

- Penso que se admite geralmente que o Budismo foi introduzido no Sri Lanka em 246 antes de Cristo.
O grande imperador budista Asoka terá persuadido o próprio filho, o monge Mahinda, a visitar o Sri Lanka e  converter o país. Segundo a tradição, este país foi visitado três vezes pelo próprio Buda.
K- Quer dizer que ele terá percorrido todo o caminho desde Benares, há dois mil e quinhentos anos? Acredita nisso?

- Supõe-se que ele tenha feito a viagem até aqui em levitação.

K- Ou seja, ergueu-se no ar e flutuou? Eu sei. O Buda deve ter tomado um avião da Air India para Colombo.(Risos)

- Percebo a graça da correcção, mas todos os anos, milhares de peregrinos budistas vêm a estes lugares que se supõe tenham sido pisados pelos pés de Buda. Justa ou injustamente os budistas do Sri Lanka têm a sensação de ser depositários, a justo título, da doutrina de Buda. Quando o Budismo desapareceu do seu país de nascimento, devido à acção da ortodoxia Hindu, os seus ensinamentos foram protegidos no Sri Lanka. Ao longo de séculos, vários reis cingaleses tomaram medidas a fim de assegurar a sobrevivência do Budismo, é por isso que os cingaleses se consideram, com altivez, como seus defensores.

K- De modo que as pessoas deste país designaram-se a si mesmas como os protectores do  Budismo! Senhor, não vê o absurdo do que está a dizer?

- Pessoalmente, não creio nessa teoria de que os cingaleses estejam destinados a ser os protectores do Budismo. Só estou a participar-lhe a existência dessa crença.

K- Se o que o Buda pregou era a Verdade, então essa Verdade pode ocupar-se de si mesma; ela não pertence a pessoa ou nação nenhuma. Essa Verdade nem é sua nem minha. A Verdade está sempre aí, indiferente á vinda de um Buda ao mundo para a expressar. Não se pode roubar ou profanar a Verdade que é intemporal e indestrutível.

- Isso é bem verdade, mas eu comuniquei-lhe esses factos porque é necessário compreender os mitos que sustentam o nacionalismo cingalês.

K-  Ah, bem. Senhor, os cingaleses não são as únicas pessoas que têm crenças peculiares para fortificar as suas identidades.

- Os judeus, por exemplo, estão convencidos da ideia de que são o povo eleito e a Bíblia sustenta o seu racismo.

K- A Bíblia pode ser citada para apoiar toda a espécie de crenças e ideias contraditórias. Deixemos por isso a Bíblia de lado e todas as outras literaturas ditas sagradas. Se a mente possuir clareza não teremos nenhuma necessidade de nos apoiarmos em texto sagrado nenhum.

- Felizmente todos os ensinamentos atribuídos a Buda foram registados para benefício da posteridade. Os seus discursos foram escritos em páli, sânscrito e outras línguas.

K- Língua nenhuma, seja nobre ou ancestral, pode inscrever a Verdade; a Verdade que é viva e diferente de instante em instante não pode reduzir-se a simples escritos.
O meu amigo Aldous Huxley gostava muito de citar um aforismo cheio de sabedoria que dizia que o Buda nunca pregou a Verdade, por estar bastante consciente do facto de que a Verdade é inefável.
A Verdade deve ser experimentada pessoalmente, de instante a instante. É um movimento dinâmico, compreende? Aquilo que se pode registar nos livros é uma coisa morta.

- É muito fácil pôr os livros em questão mas, sem eles, teria podido alguma vez podido conhecer a vida do Buda e as suas elevadas concepções?

K-  O Buda jamais ensinou qualquer ideia; as ideias não têm qualquer relação com os iluminados. As ideias são as distracções dos intelectuais e dos sacerdotes. As ideias condicionam a mente. Uma pessoa verdadeiramente séria considera-as como inúteis. A mente que pulula de ideias não possui espaço em si e, consequentemente, é incapaz de obter clareza e inteligência.

- Peço-lhe que me desculpe por ter utilizado a expressão errada. Deveria ter empregado “percepções elevadas” em lugar de “elevadas concepções”.

K- Pensa que as profundas visões do Buda tornaram este país diferente do resto do mundo? Serão os cingaleses muito inteligentes? Serão conscientes da extraordinária beleza deste país? Este é um país muito belo; pode-se observar as maravilhosas nuvens brancas levadas pelo vento, a silhueta das enormes palmeiras projectando-se sobre o azul profundo do céu ou os pássaros e flores multicoloridos. Já observou esse tamarindeiro gigante, da janela?

- Não creio que as pessoas do Sri Lanka sejam fundamentalmente diferentes do resto da humanidade; ficaria chocado como a taxa de criminalidade aqui existente que é elevadíssima, e além disso a grande maioria dos budistas ingere carne e peixe, vergonhosamente.

K- E qualificam-se como budistas!

- O nossos país também está na proa em questão de conflitos raciais entre cingaleses e tamil; estes, que representam uma minoria de 18% da população, querem estabelecer o seu próprio estado separado por se queixarem de ser objecto de discriminação pela maioria cingaleza. Durante os últimos anos milhares de pessoas perderam a vida por causa da violência racial.

K- Qual é a raiz da violência?

- No que concerne ao Sri Lanka penso que a violência é engendrada por um medo recíproco. A minoria tamil teme a maioria cingalesa e estes por sua vez receiam os outros porque, durante séculos, o Sri Lanka foi frequentemente invadido por príncipes e exércitos tamil. Que solução terá esse problema, Krishnaji?

K- Os cingaleses e os tamil conviveram nesta bela ilha durante quase dois mil anos. Porque não poderá agora fundir-se um grupo com o outro? As duas comunidades são responsáveis por esse revés mas devem formar um todo homogéneo. Se um cingalês se identifica com a sua raça, terá certamente, o sentimento de ser diferente do seu vizinho tamil. Mas será possível deixar cair os rótulos “cingalês” e ”tamil”? Esses rótulos criam ódio. Que coisa somos nós, senhor? Nada mais que uma porção de pensamentos, de recordações, de desejos, de medos, ofensas e um milhar de influências condicionantes. Porque colocar um rótulo nesse pacote? Porquê dar-lhe um nome? E a “bagagem” que carrega na mente, será porventura isso diferente  daquela outra carregada por alguém que tenha a pretensão de pertencer a uma outra raça? Será você diferente do resto da humanidade?
Todo o ser humano é colocado numa corrente psicológica comum; se de algum modo for possível, tente consciencializar as pessoas dessa verdade óbvia e aí talvez possa haver paz neste país dilacerado pelo conflito.

- Não é de opinião que a violência possa ser também ocasionada pela ausência de compaixão no nosso coração?

K- É verdade mas não se pode cultivar a compaixão; a compaixão não pode ser posta em prática. Não se consegue fazer a experiência da fraternidade. Por essa razão falharam as religiões do mundo ao procurar transformar a natureza do homem. Essa qualidade da compaixão surge de modo inadvertido quando tiver clarificado toda essa desordem psicológica interior.

- A compaixão é um aspecto muito importante do ensinamento de Buda.

K- Pode ser que assim seja, mas não confine a compaixão ao Budismo ou a qualquer outro ensinamento. Senhor, tal como me é dado ver, um verdadeiro budista é alguém que possui benevolência constante, generoso, terno e que perdoa e usa de consideração por todos os seres vivos. Um verdadeiro budista não desejaria magoar nenhuma criatura viva. Mas não será possível possuir todas essas virtudes sem se dizer budista? No momento em que se identificar com algum grupo ou seita cria inevitavelmente conflito e divisão- não será assim?

-  Porque será que possuo o desejo de me identificar com qualquer outra coisa?

K- Em nós mesmos, nós não somos nada; se  nos despojarmos de todos os nossos pensamentos que restará? Você não é absolutamente nada. E como consideramos essa condição tão assustadora, pretendemos dissimulá-la identificando-nos com um guru, com uma religião, uma seita, uma raça ou país. Desde a antiguidade que o Homem vem tendo uma visão tribal, identificando-se com um grupo ou uma causa, procurando consolidar o sentimento de Eu, inexistente, através desse processo oblíquo da identificação.




Somente a Paz Interior Assegurará a Exterior



- Há algumas dezenas de anos, proclamou: "O problema do mundo é o problema do indivíduo e o problema do indivíduo é o problema do mundo". E um dos seus axiomas actuais é o de que "vós sois o mundo e o mundo é vós". Não vejo diferença fundamental entre as duas declarações. Afirmareis, no entanto, que o trabalho pelo bem estar social não criará uma sociedade melhor?

K- Não me oponho á melhoria do nível de vida das pessoas. É evidente que necessitamos de melhores casas, de melhores condições sanitárias, de um ambiente mais são e de uma alimentação correcta. Todo o governo decente deve possibilitar esses elementos essenciais.

-  Registo, consequentemente, que se opõe ao progresso material.

K- Porque deveria eu opor-me ao avanço tecnológico? Estamos na era do avião a reacção- quem quererá voltar à época do carro de bois?

- O ritmo do progresso material é tão acelerado que se chega a crer que dentro de pouco tempo se poderá erradicar completamente a pobreza. E nós seremos capazes de viver por mais tempo.
Como a prosperidade material está a aumentar não pensa que o homem possa perder as suas características anti-sociais? Cada um terá tudo aquilo que é fundamental á vida; não resultará disso que deixe de existir necessidade de roubar. Poderá ser que os países ricos não mais queiram conquistar e colonizar os países pobres, e haverá menos guerras.

K-  Você é um sonhador!

- Não será verdade que possui uma vida muito mais confortável que a que tiveram os seus avós? Ao contrário de si, os seus avós não eram nenhum  globe-trotter.

K- Não possuo nenhum prazer particular em viajar de avião. Só o suporto por ser o meio mais rápido de se deslocar entre dois países.

- Mas nega que tenhamos progredido de forma desmedida?

K- Tudo depende do que entende por "progredir". É certo que os bens materiais abundam, todavia psicologicamente nós estagnamos.

- Não poderá ser mais preciso com relação a essa declaração?

K- O homem primitivo atirava pedras ao seu inimigo; milhares de anos mais tarde o homem moderno combate os seus inimigos com fuzis e granadas e tudo o mais. O homem primitivo era violento e agressivo, mas nós continuamos a sê-lo do mesmo modo. Chamaria progresso a isso?

- Bem, aquilo que está a acusar é tema favorito dos moralistas e dos teólogos que não param de nos dizer que ainda nos encontramos na infância do plano espiritual.

K- Não na infância mas antes na meninice!

- Permita-me que examine a declaração "vós sois o mundo e o mundo é vós". Quererá dizer que, pessoalmente eu seja responsável pelos combates que prosseguem no Médio Oriente entre judeus e árabes? Creio nada ter feito para ocasionar ou agravar a desordem, os combates e o morticínio quotidiano que se dá nessas partes do mundo. Não vejo que nesse sentido pareça justo declarar que eu seja o mundo.

K- Posso colocar-lhe uma questão pessoal?

- Sim, pode colocar-me qualquer tipo de pergunta.

K- Possui uma mente e um coração purificados de toda a violência?

-  Eu não me considero uma pessoa violenta, mas, por vezes, perco a calma em situações difíceis.

K- A ira é uma forma de violência, não concorda?

- É uma forma benigna de violência.

K- É benigna no começo mas a seu tempo conduz á acção violenta.

- Talvez eu seja um pouco violento.

K- Isso é ridículo. Ou é violento ou então possui uma mente desprovida de violência. A distinção é bastante óbvia; não se pode ser violento e, ao mesmo tempo, ser desprovido de violência. Peço-lhe que escute com atenção o que estou a dizer. Ou você é honesto ou não. Não se pode dizer de modo algum que se é ligeiramente desonesto. Se for ligeiramente desonesto isso significará que possui uma mente desonesta; é como o ovo duvidoso- se o ovo for fresco, poderá ser comido, mas se estiver ligeiramente podre, então tem que ser rejeitado. Terá você suficiente  honestidade para reconhecer que é violento?

- Sim, sou violento. E depois?

K- Tem consciência de que a sua violência não é qualitativamente diferente da violência que enfurece o Médio Oriente?

- Sim, qualitativamente é a mesma coisa, mas não quantitativamente

K- O grau pouco importa. A amplitude da violência não modifica o facto de já padecer desse mal da violência. Olhe, senhor, um vírus microscópico e invisível pode ocasionar uma vasta epidemia capaz de matar milhões de pessoas. Do mesmo modo a mais pequena parcela de violência em nós pode desencadear uma guerra mundial.

- Krishnaji, ao escutá-lo não consigo deixar de sentir-me culpado.

K- Procure sondar as profundezas da mente e desenraizar todo o sentimento de afectação. Se não se modificar com que direito poderá falar de trazer paz ao Médio Oriente

- Certamente farei um esforço especial a fim de me desembaraçar da violência e transformar-me.

K- Espere aí. Será que fazer um esforço a fim de se livrar da violência não é, em si, uma forma de violência? Se utilizarmos a violência a fim de estabelecer o domínio isso gerará mais violência. Vê a complexidade da questão?

- Tudo aquilo que devo fazer é reconhecer a existência da violência. Se a violência for plenamente reconhecida como um facto, então o próprio acto de ver terá como resultado a dissolução do problema.

K- Inteiramente de acordo. O próprio facto de ver é fazer. Quando se observa a existência da violência essa observação será, em si mesma o factor que provocará o milagre da mudança.

- O número de estados soberanos aumenta rapidamente, no mundo.

K- Em consequência do que há mais armas, mais navios, mais forças aéreas, militares e generais. Qualquer presidente ou ministro mais doido pode atear o mundo em chamas.

-  Qual é o seu ponto de vista com relação ás campanhas para interditar as armas nucleares?

K- Por que razão não se fazem campanhas pelo extermínio de todas as formas de armas? Não é suficiente excitar-se por causa do perigo das radiações. O que é necessário é a eliminação de todas as formas de violência.

- Mas, não será responsabilidade de todo o governo preservar a paz dentro das suas fronteiras nacionais?

K- Não se deve fazer confiança no Estado. Ele instala a violência e sustente-a recorrendo a ela. Cada Estado é fundado na própria violência porque é preciso conservar um exército e um corpo de polícia para assegurar o respeito das suas leis e decretos. E depois toda a nação se prepara para se defender quando é atacada por invasores e agressores. Não se esqueça que todo o Estado é um instrumento de violência. Isto não é uma teoria mas um facto histórico. Daí, porque esperar que o Estado seja capaz de banir a violência se ele mesmo é um instrumento seu? Compreende a questão? Já alguma vez pensou em limpar um assoalho com água suja? Por isso não ponha a sua esperança no Estado se procura seriamente a paz, porque, como expliquei, o Estado é o próprio inimigo da paz ao sustentar financeiramente a instituição da guerra.

-  Parece que estamos de volta á sua tese principal, de que não haver paz no mundo se não tivermos paz interior, paz que deveria resultar consequentemente de uma profunda transformação pessoal. Tal visão implica necessariamente que é insensato fazer confiança nos governos ou nas Nações Unidas a fim de se estabelecer a paz.

K-  Assim como você é assim será o seu governo; só poderá reflectir aquilo que for de verdade.

-  Daí a razão da questão primordial: porque fará a violência parte integral da nossa natureza?

K- Enquanto o Homem for escravo do "eu", do seu ego, quererá afirmar-se sempre. E todas as afirmações do ego são uma forma de violência. Por certo já não teve ocasião de notar as formas que o ego adopta para se afirmar? O "meu país", "a minha família", as "minhas crenças", a "minha reputação"-  tantas e tão variadas formas de auto-afirmação! Se colher uma grande satisfação da sua realização pessoal e de certos actos não utilizará então, essa actividade para reforçar o seu ego? E, como acabei de dizer, quem quer que se afirme a si mesmo é responsável pela violência no mundo. Os beneméritos que se empenham nas mais diversas actividades no auxílio social, os políticos, os filantropos, todos se fazem valer subtilmente do seu ego. O ego não se preocupa com o bem estar da sociedade; ele só se interessa pela sua sobrevivência e pela sua sede de poder. Consequentemente, o ego abandona-se á crueldade e á violência.

-  Não poderá haver paz sobre a terra se não tomarmos o cuidado de aniquilar o ego.

K-  O ego não pode aniquilar-se a si mesmo porque ele luta eternamente para se afirmar, seja consciente ou inconscientemente.

- Não haverá paz na terra se o nosso ego não for eliminado.

K- Exactamente.

-  Por fim, desejo colocar-lhe a seguinte questão: qual será a melhor forma de governo?

K- Uma vez mais, isso afasta-o da questão essencial; desde tempos imemoriais que os filósofos vêem apresentando projectos para um mundo novo. Os antigos gregos acreditavam que a sua Cidade-Estado representava a forma de governo ideal. Hoje, os capitalistas e os comunistas sustentam do mesmo modo que o seu sistema particular de governo é o melhor. Enquanto o Homem permanecer no estado animal, jamais existirá um sistema perfeito. Mas se chegarem a mudar a psique do Homem, então isso conduzirá seguramente a sociedade ao estado de perfeição.



A  Acção Destituída de Pensamento



- Numa das suas conferências públicas pareceu que desaprovava fortemente os desportos de competição. Se o compreendi correctamente dissestes que aquilo de que o mundo moderno tem mais necessidade não é do espírito de competição mas de cooperação.

K-  A função da competição na fragmentação do mundo parece bastante óbvia. Podemos ver como o mundo é despedaçado económica, social e politicamente pela divisão do planeta em Nações e Estados. E quando os países entram em concorrência entre si isso inevitavelmente gera tensões, suspeita, inimizade, incompreensão e, por fim, a guerra.

- Parece que condena toda a manifestação de espírito competitivo quer seja na área dos jogos ou nas salas de exames das escolas e universidades e, no entanto, a título privado, parece obter prazer com os desportos de competição. Por exemplo, depois do almoço pude vê-lo com um grupo de estudantes na sala de televisão, e o senhor esteve colado ao televisor durante horas, a observar com prazer Cassius Clay Mohamed Ali, o boxer de pesos pesados americano a defender o título mundial. Quando um dos desafortunados boxers recebia um daqueles rudes golpes que o punha K.O. e incapaz de se erguer os estudantes aplaudiam calorosamente. E lá estava você entre toda essa gente, nos seus blue-jeans a gritar "bravo, bravo"! Isso chocou-me.

K- Bem, ao longo destes anos criaram uma imagem de mim e agora descobrem que ela não corresponde á realidade. Vós acreditastes que K se vestia e agia sempre de acordo com um modelo e agora ficam desapontados. Por que possuem vocês uma imagem de K.? Não compreenderão que, ao formar uma imagem, em breve tornar-se-ão sua presa? Deixe que a imagem caia por terra; eu não possuo nenhuma imagem de mim próprio. Alguma vez tentou já despojar a mente de todas as suas imagens acumuladas?

- Para si é fácil filosofar mas não sentirá qualquer tipo de simpatia pelo pobre coitado que foi abatido e ficou inconsciente? Krishnaji, suponho que estará ao corrente dos factos médicos relativos ao boxe e aos combates. Na Inglaterra existe uma campanha para interditar esses jogos porque os riscos de sérias lesões cerebrais para os participantes são bastantes elevados.

K- E que acção empreendem para impedir o desgaste psicológico provocado pelo facto de manter imagens? Senhor,  peço-lhe que se sente e não permaneça de pé. Sente-se no sofá para falarmos das coisas que o inquietam. Deveremos começar pelos blue-jeans?(ri-se) Ofereceram-me vários pares e acho-os excelentes para andar pelos bosques. Gostaria de ter uns?

- É muita amabilidade da sua parte, Krishnaji, mas eu não visto o seu número. Sou forçado a recusar a generosa oferta.

K- Outro dia, um cavalheiro indiano que assistia a uma conferência perguntou-me, em estado de cólera, porque razão eu não usava kurta e pyjama em Inglaterra.

- E qual foi a sua resposta?

K- Creio que ele estava a par da razão por que não uso vestimentas indianas em Inglaterra. É um país frio e nós devemos vestir-nos de acordo com o clima. Por outro lado, as vestimentas indianas atrairiam muita atenção aqui. E viver correctamente é uma grande arte. Devemos viver de modo que a nossa presença não se imponha. Viver com virtude mas sem a fixar na lapela.


- Podemos falar do boxe?

K- Pessoalmente, oponho-me a qualquer desporto sanguinário tal como a caça á raposa p. ex. Certa vez vi na televisão, um pobre gamo impotente perante a tortura dos caçadores, e apressei-me a afastar-me com repulsa apagando a televisão; quem  tiver sensibilidade reagirá do mesmo modo. No seu íntimo, o Homem é um selvagem que nutre prazer em todas as formas de crueldade que são cometidas no mundo, em nome do desporto.

- Suponho que temos prazer em assistir a actividades sádicas usadas por qualquer um; tememos as consequências do nosso mau comportamento e por isso gostamos de ver as acções más dos outros.

K- Não é só isso, como também a insaciável necessidade de excitações contínuas. Não podemos conviver connosco próprios nem afrontar a nossa vida interior. Consequentemente, esta dita civilização fornece-nos todas as espécies de evasões tais como o desporto, a droga, o sexo ou a religião.

-  Já tive ocasião de notar a forma como as multidões que assistem a uma partida de futebol e dão vivas selvagens, dão livre curso às suas emoções recalcadas, às suas frustrações, à sua agressividade, etc.

K- Na minha juventude era um bom jogador de ténis e pude constatar que os jogadores profissionais tinham uma certa arrogância devido ás suas proezas. Advém-nos grande satisfação ao mostrarmos o que só nós podemos fazer e os outros não. E a menos que um campeão de boxe seja fortemente motivado e possua um ego realçado em termos de importância, ele não poderá aguentar todas as provas que representam essas longas horas de disciplina e treino. O ser humano aceita suportar qualquer sofrimento se for para  levar qualquer causa a termo. O sentimento de "eu" está sempre em busca da sua expansão, seja na área do desporto ou do chamado mundo espiritual. Quanta austeridade praticam os yogues para adquirir poderes psíquicos. E, uma vez tenham conseguido esses poderes ou tenham aprendido a executar essas habilidades estúpidas de magia, gostam de as ostentar.

-  Compreendo o que diz, mas posso colocar uma questão pessoal? Sente alguma espécie de excitação em assistir a um desafio de boxe?

K- Um boxer, ou um lutador deve agir com espontaneidade se quiser ganhar. Ele não pode prever a direcção ou de que lado virá o ataque, num desafio, mas tem que agir com rapidez; não tem tempo para reflectir cuidadosamente antes de agir. Deve, por isso, calar todo o mecanismo da sua mente e agir sem pensar.
Quando o comportamento é governado pelas exigências do pensamento, então só reagimos ás provocações da vida. E a nossa vida não é, nesse caso nada além dessa cadeia de reacções de todo tipo.
Mas existe um modo completamente diferente de enfrentar os desafios da vida, e se pararmos de reagir de acordo com o pensamento e começarmos a responder á vida, a despeito das circunstâncias, isso fará resultar uma grande alegria.




A Natureza da Memória



- Parece-me que estou a perder a memória á medida que envelheço mas não sei se as falhas de memória dependem da idade.

K- Os problemas da memória não estão ligados á idade. As crianças podem também ser tão esquecidas quanto os adultos. Essa questão interessa-lhe fundamentalmente?

-  Isso interessa-me particularmente pois tenho uma profissão de universitário e na função de bibliotecário que exerço tenho que memorizar montes de factos e algarismos e, recentemente notei que já não sou um trabalhador tão rápido e eficaz por sofrer do handicap de falha de memória.

K- Penso que devemos, desde logo, distinguir dois tipos de memória; existe a memória dos factos e a memória psicológica.

- Considera-se que a memória dos factos é formada pela informação e os dados técnicos. É um conhecimento do género factual.

K- Sim, a memória factual consiste das informações de todo o género. Na escola deve ter aprendido história e geografia e tudo isso faz parte da memória factual. Essa memória é, obviamente importante; necessitamos dela para podermos viver. Se, da próxima vez que o encontrar não conseguir lembrar-me do seu rosto, não poderei reconhecê-lo. Um engenheiro deve adquirir muitos conhecimentos antes de poder construir uma ponte ou edificar uma casa. E o saber não pára de aumentar a um ritmo muito acelerado.

- É o efeito bola de neve.

K- Os engenheiros do futuro deverão estudar mais que os do presente. A mente possui uma grande capacidade para acumular ensinamentos e podemos mesmo desenvolver faculdades extraordinárias que não utilizamos.

- Está a insinuar  que esbanjamos devido à sub-exploração do nosso potencial cerebral?

K- Pode expressá-lo assim, se quiser, mas criamos uma certa apatia por não utilizarmos o nosso cérebro em pleno.

- Fez uma descrição acertada da memória factual, e nunca tive dificuldades em compreender isso mas, já do significado de "memória psicológica" só tenho uma vaga noção. Será que com essa expressão refere uma memória destituída de factos ?

K-  A memória psicológica não é destituída de factos; ela é muito factual.

- Suponho que quer dizer que a memória psicológica é indesejável e que a memória factual não o é.

K- Sejamos claros quanto ao que quer dizer "memória psicológica". Eu recordo a sua expressão: e chamámos a isso memória factual. Agora, suponha que eu goste do aspecto da sua expressão, ou que detesto- isso influenciará naturalmente a minha atitude com relação a si. Os nossos gostos e antipatias constituem a memória psicológica, compreende? Senhor, todos os nossos ódios, os nossos medos, ansiedades, todas as nossas esperanças, as bênçãos, ambições- tudo isso é a memória psicológica.

-  Compreendo a estreita correlação entre os dois tipos de memória. Não sei exactamente onde acaba uma e começa a outra, mas no exemplo que deu, a impressão que recebeu do meu aspecto e se encontra registada na sua mente chama-se memória factual. A sua antipatia por esse aspecto chama-se memória psicológica. Mas, não será a vossa antipatia igualmente um facto?

K-  Certamente é um facto e não algo de imaginário. Mas no momento em que permito que essa antipatia influencie a minha atitude com relação a vós então encontro-me sob controle da memória psicológica. Será, pois, possível possuirmos uma mente que opere ao mesmo tempo no nível da memória factual e no da memória psicológica? Porque é esta que condiciona a mente e deforma a percepção.

- Poderemos aprofundar essa questão? Penso que tenho que clarificar este assunto.
Acontece que o meu aspecto é feio; essa fealdade é um facto.

K- Eu recordo uma face exactamente tal qual ela é, sem  a qualificar de feia ou bonita.

- Mas a fealdade é um facto.

K- É o modo como reage á sua face que forma a memória psicológica.

- Mas, não sente repulsa pela fealdade e atracção pela beleza?
K- Deve observar as suas emoções à medida que  elas surgem. Quando percebe uma reacção na sua totalidade, ela consome-se num piscar de olhos.

-  E desse modo a mente permanecerá constantemente pura...

K- É exacto. Eu disse que a reacção se apaga quando a mente permanece vigilante e tranquila. Mas já observou que a mente não reage em absoluto se não emprestar um nome ás suas reacções?
Quando se qualifica um rosto como feio ou belo não estaremos a deformar a percepção ao introduzir-lhe o passado? No momento em que verbalizamos ressuscitamos o passado. As palavras pertencem ao passado, logo, se eu evitar qualificar de feio ou bonito evitarei as associações passadas- por outras palavras, torna-se possível ver o rosto tal qual ele é. Desse modo não desenvolvo um sentimento nem de atracção nem de repulsão, e, nesse caso a mente permanece livre.

- É, isso é extremamente importante, se bem que a conversa se tenha desviado do aspecto da falta de memória

K- Você falava de esquecimento...

- Sim, as minhas capacidades de reter dados factuais parece estar a declinar.

K- Que é que fez a respeito?

- Ah, bem. Todas as noites, antes de adormecer memorizo em detalhe, as minhas experiências do dia. É um exercício mental de yoga. Eu li que a capacidade que o cérebro tem para reter os factos pode sair reforçada pela prática desse exercício. Essa teoria significa que os músculos da memória, por assim dizer, saem fortalecidos se os fizermos trabalhar com frequência. Deveríamos trazer constantemente á memória aquilo que a mente aprendeu, e consequentemente, passa-lo em revista de novo. Porque quando não praticamos uma língua estrangeira durante um tempo considerável, esquecemo-la. Já vi monges, nos templos budistas que, não só aprendiam laboriosamente as Escrituras como também as recitavam regularmente para não as esquecer.

K- Eu conheci um sannyasi que aprendeu de cor o Bhagavad Gita inteiro. Ele podia mesmo recitá-lo do avesso porém isso não tinha qualquer significado. Mas as pessoas rodeavam-no a admirar a sua ginástica mental! Podíamos treinar, do mesmo modo, um papagaio a executar essas habilidades.

- Mas é importante possuir uma boa memória na vida!

K- E a sua memória, melhorou em resultado desse exercício?

- Ao rememorar os acontecimentos do dia descobri que a mente se tornou mais metódica, mas não havia nenhuma melhora significativa na capacidade de memorizar.

K-  Já conheci pessoas com o dom da mente fotográfica, pessoas que podiam recordar quase tudo com uma exactidão extraordinária. Mas descobri que elas não são tão prontas a tomar nota do que se passa com elas nem ao seu redor. Não são muito observadoras.

- Seria excelente possuir a um só tempo espirito de observação e mente fotográfica.

K- Nunca notei uma pessoa que fosse assim dotada.

-  Todas as manhãs pratico sisshasana durante cinco minutos (permanecer sobre a cabeça) porque aprendi com o swami Sivananda de Rishikesh que essa asana é particularmente benéfica para o cérebro. Segundo o que dizia, a memória pode considerar consideravelmente.

K- Eu também pratico essa asana porém não com a intenção de adquirir uma boa memória. Essa asana é boa para os nervos.

-  Então deve ser boa para o cérebro.

K- Costuma dormir bem?

-  Tenho dias em que não durmo bem.

K- Quando o cérebro não se encontra correctamente em repouso o corpo fica tenso e irritadiço. Mas quando o organismo estiver todo em descanso, as recordações aparecerão facilmente.
Tem uma boa alimentação? Disseram-me que uma insuficiência de proteínas pode alterar o funcionamento do cérebro. Deve encarar essa possibilidade porque sei que as pessoas de origem asiática sofrem frequentemente de falta de proteínas. Posso fazer um teste ligeiro de memória?

- Claro.

K- Então diga-me, como passou a tarde do último sábado?

- Não me recordo dos detalhes Talvez tenha ido passear mas não me lembro mais onde.

K- Qual é o título do último best-seller?

- Não sei, há vários.

K- Mas que títulos têm?

- Esqueci.

K- Lembra-se do nome do seu melhor amigo?

- Certamente.

K- É muito simples, senhor. A mente recorda o que lhe agrada e rejeita as lembranças desagradáveis. Não quererá esquecer os insultos e as críticas que o incomodam? E não é amável para com todos os que tecem cumprimentos elogiosos acerca do seu trabalho? Se realmente tivesse prazer com o seu trabalho teria esses problemas? Você está satisfeito com o seu emprego?

- Gostei muito do meu trabalho até certa altura mas actualmente detesto ter a quantidade de trabalho que me cabe lá na repartição.

K- A aversão ao seu trabalho e ao patrão são naturalmente, um obstáculo que inibe a recordação. Todas as formas de agitação, aborrecimento e inquietude impedem o inconsciente de comunicar com a consciência. Está ciente de ter esse tipo de antipatia? Examine-o detidamente e após ter exercitado isso durante algumas semanas faça-me saber se a sua memória melhorou.

-  Krishnaji, os seus amigos conhecem muito bem a sua fraca memória.

K- É verdade. Se deixo de ver uma pessoa aí uns dez anos esqueço-a completamente. Algumas ficaram muito ofendidas por não as reconhecer, mas não posso evitá-lo, eu sou assim mesmo.

- Mas, seguiu algum tratamento para melhorar a memória?

K- Eu não tenho a vontade de a melhorar. Simplesmente não me interessa atingir qualquer coisa. Conhecer o estado daquilo que é e viver o agora é imensamente mais importante que o atormentar-se com o que deveria ser.

- Fico intrigado pelo facto de ter perdido tanto tempo a sugerir meios de melhorar a minha memória e descobrir que não está minimamente interessado em melhorar a sua.

K- Certos filósofos e educadores de antigamente consideravam a mente como o receptáculo do saber. A mente era percebida como um entreposto do conhecimento. Actualmente temos os ordenadores capazes de armazenar ensinamentos, não só de modo mais rápido que a mente humana mas com muita mais precisão. Porque empecilhar a mente com conhecimentos quando temos os ordenadores capazes de o fazer? Para que serve, então, a mente?
É certo que a devemos utilizar como um instrumento de observação devendo evitar deformações. Uma percepção correcta, uma observação inteligente, sem observador- essa é a sua função. O mundo é um lugar tão maravilhoso, cheio de cor e de luz, formas e sombras profundas! Observe simplesmente essas coisas sem criar imagens do que observa para que a mente permaneça sempre nova, fresca, inocente e jovem.

- Soube que perdeu a maior parte da memória por altura dos anos vinte, quando passou por uma experiência de grande iluminação espiritual.

K-  Sim, a memória psicológica desapareceu completamente.

- E que é feito da memória factual?

K- Muito do meu passado apagou-se, todavia não esqueci tudo pois ainda lembro o modo de contar e de utilizar correctamente as palavras.

- Descreveria  a experiência por que passou como uma forma de amnésia, se me é permitido o emprego de um termo médico?

K- Não, não sei o que causa a amnésia; não sei se a amnésia resulta da deterioração do cérebro. Mas não lhe chame isso, porque o que se passou não foi amnésia. Alguém lhe chamou o despertar da kundalini ou outra parvoíce qualquer. Os responsáveis pelo movimento Teosófico ficaram preocupados e propuseram toda a sorte de explicações.
As células do cérebro armazenam a memória mas quando a mente sofre uma transformação completa, as células do cérebro passam também por uma mutação. Trata-se de uma alteração fundamental que não pode ser explicada em termos científicos. E a menos que, pessoalmente, você tenha experimentado essa mutação, não poderá saber do que estou a falar.


                                  
Em que Consiste a Clarividência



- Peço-lhe que me perdoe por lhe colocar uma questão sobre um assunto que abeira o terreno do oculto, pois vi-o frequentemente a recusar questões que referiam os poderes ocultos.

K- Estamos a conversar juntos, como dois amigos sem qualquer barreira. Qual é a pergunta?

- Eu li aquele livro notável de Leadbeater intitulado Clarividência. Conhece-o?

K- Conheço a sua publicação mas não o li. A literatura teosófica não me é familiar. Os livros filosóficos, religiosos e espirituais aborrecem-me e não os leio.

- Pois, mas com razão ou falta dela esses livros fascinam-me Krishnaji. Você não tem necessidade de os ler por ter a sorte de ser uma espécie de sábio mas eu preciso lê-los porque sou um pobre ignorante desafortunado.

K- Qual é a sua dúvida?

-  Clarividência significa ver claro mas faz igualmente alusão à capacidade de ver o que está oculto  à visão ordinária. Certas pessoas têm a capacidade de conhecer sem utilizar nenhum dos seus sentidos e por várias vezes já tive experiências dessa natureza. P. ex., visitei recentemente a casa dos seus pais pois tinha o desejo e a curiosidade de ver o quarto de orações, sagrado no qual nasceu. Então alguns amigos conduziram-me amavelmente a visitar a sua antiga residência em Madanapalle. Fui entre eles até essa pequena aldeia e, se bem nunca tivesse visto nenhuma fotografia da casa, identifiquei-a sem engano assim que a vi. Além disso conhecia todos os detalhes do interior da casa antes mesmo de lá entrar; toda a casa me era estranhamente familiar. Subi a escada, em transe, á procura de um quadro religioso num quarto mas, para meu grande pesar, ele estava em falta por ter sido retirado. Mas o ocupante da casa confirmou que eu indicara correctamente, na parede, o local exacto onde a pintura estivera pendurada outrora.

K- Muitas pessoas têm experiências desse género. Está insinuar que passou por  uma experiência misteriosa e extraordinária?

- Em certo sentido tratou-se de uma experiência completamente inusual.

K-  Mas porque liga tanta importância a essa experiência ou a qualquer outra? A experiência terminou mas você continua ligado a ela.

- Mas, que mal tem conservar uma experiência maravilhosa como um tesouro?

K- Toda a experiência que é retida obstrui a mente e impede a clareza.

- Será que a experiência assombra a mente à semelhança de uma bruma espessa?

K- Exactamente.

- Tenho consciência que o apego ás experiências impede a receptividade de outras experiências, mesmo se desejámos saber  se a faculdade de clarividência age no interior do campo da mente ou fora. Podemos aprofundar essa questão?

K- Façamo-lo imediatamente, senhor. Você pode ou não possuir poderes de clarividência, eu não sei- e descobri-lo é a última coisa que me importa. O que realmente importa não é que seja clarividente mas se possui a imagem de si mesmo nos moldes de um super-homem que detém o poder da clarividência-    possui ? E, por que possui uma imagem- qualquer que ela seja?

- Bem, fico com vontade de saber se a clarividência funciona no processo do pensar.

K- Nós temos suspeitas naturais com relação a tudo o que é produto do pensamento.

- Está a insinuar que a clarividência não seja fiável por se poder tratar de uma acção mantida no domínio da consciência?

K- Tudo o que surge do interior da consciência é o conhecido. Consequentemente a nossa consciência não poderá  jamais entrar em contacto com o desconhecido. Mas estará seriamente interessado na questão de descobrir se a clarividência está além dos limites do pensamento?

- Realmente estou.

K- Mantenha sempre um certo cepticismo diante das pessoas que fingem possuir o dom da clarividência. Não é que a clarividência não exista. Certamente que existe; mas não será alimentar a vaidade pessoal crer-se investido de dons que os outros não possuem?
Certa vez fui visitado por um guru que tentou impressionar-me de modo forçado, dizendo, entre outras coisas que tinha diagnosticado, por clarividência que eu sofria da febre do feno. Qual era o segredo da clarividência dele? É que, antes de me visitar ele tinha-se encontrado com um amigo meu e tinha ficado a saber, de forma reservada, um tipo qualquer de informação referente a essa febre de que padeço. Hoje, esse guru faz-se passar habilmente por um clarividente.

- Mas Krishnaji, já pude notar, em duas ocasiões diferentes, por altura de uma conferência, que possui poder clarividente.
Numa reunião o senhor criticou o auditório por aquele não escutar atentamente. Eu estava sentado atrás de um pilar e minha presença não era notada. Eu estava com dificuldade de concentração por estar com uma cãibra dolorosa numa perna. Lembro que pensei para comigo que se K fosse clarividente seguramente me desculparia pela falta de atenção, e a verdade é que fiquei surpreendido quando, depois da reunião veio ao meu encontro perguntar-me se estava melhor da perna.

K- Por vezes acontece ter expressões sem conhecimento de causa. Creio que uma outra fonte qualquer pode expressar-se através de mim...

- Quando o encontrei em Vasanta Vihar, Madras, após o meu voo de retorno da Austrália, cumprimentou-me e exclamou ter conhecimento do conteúdo da minha mala: " Traz-me queijo e um policial da Agatha Christie". E tinha razão em dize-lo porque era exactamente isso que eu lhe trazia.

K- Provavelmente era uma forma de alocução astuta que se provou exacta.

- Mas, explique-me em que consiste a autêntica clarividência.

K- Uma mente não condicionada, sem imagem de si nem pensamento é capaz de obter uma grande clareza, uma clareza intemporal que pode mergulhar no futuro e permitir predize-lo. E para uma mente assim livre, essa clareza pode manifestar-se mesmo durante o sono. Pode-se chamar  essa clareza de clarividência, o nome pouco importa, pois o nome nunca é a própria coisa.



O Mistério da Morte



K- Porque está com esse ar tão triste? Porque é que está tão infeliz? Que coisa o preocupa?
Diga-me porque me veio ver.

- Morreu um amigo meu na semana passada vitimado pelo cancro. Foi uma morte atroz. Passou por um sofrimento insuportável. O médico teve de lhe dar drogas para combater a dor e devido a isso esteve semiconsciente durante os últimos dias da sua vida.

K- Com cancro de quê?

- Cancro do pulmão. É por isso que tenho meditado sobre o facto de as nossas vidas também terminarem um dia.

K-  Não se trata de a vida poder terminar. A vida terminará; mais tarde ou mais cedo todos morreremos.

- Mas dado o formidável progresso da medicina não é impossível que o homem chegue a vencer a morte num futuro longínquo. Até agora sempre se presumiu que somos mortais, mas a afirmação disso assenta na experiência passada; no futuro poderemos atingir a imortalidade física.

K- Essas especulações têm, seguramente, origem no medo de morrer. Se não tivesse medo da morte não diria tais coisas.

- Está a insinuar que as teorias concernentes à reincarnação e á vida além desta sejam consequências do medo da morte?

K- O homem ou mulher, que vivem intensamente no presente- no instante intemporal, não terão interesse nenhum pelo amanhã; o amanhã torna-se importante quando se procura evitar o que acontece no presente. Os idosos voltam-se para o passado e os jovens para o porvir. Mas, toda a pessoa que vive de instante a instante, no eterno presente não terá nem tempo nem vontade de se distrair com pensamentos respeitantes ao passado nem ao futuro.

-  Os livros religiosos estão cheios de teorias sobre o destino que se segue á morte, mas o senhor insinua que todas essas teorias são destituídas de fundamento e dá a entender que se tenha inventado tais teorias por medo da velhice e da morte. Contudo tenho consciência de que essas teorias  respondem a uma certa necessidade psicológica. A crença numa possibilidade de vida após a morte reduz consideravelmente o nosso medo.

K- É reconfortante pensar que quando morrer encontrará o avô falecido, no paraíso ou algures. Quando morre alguém que ama, provavelmente não sentirá a angústia da separação por experimentar um sentimento de segurança ao saber que um dia se reunirá a essa pessoa.

- Depois de ter desligado a teoria da reincarnação das suas origens psicológicas podemos reexaminá-la? Esqueçamos temporariamente as razões psicológicas que lhe conferem predomínio sobre as mentes e examinemo-la.

K-  Mas senhor, essa é uma abordagem errada. Se conhecer o plano psicológico actual de uma crença e puder constatar que uma crença particular é fruto de uma mente apavorada, não rejeitará, então essa crença? E porque ter uma crença, senhor? Não poderemos viver sem crenças? Uma mente sã não terá necessidade de sustentação.

- Se os médicos me dissessem que contraíra uma doença incurável e que me restaria apenas alguns dias de vida, seria justo pedir-lhes calmantes para evitar o sofrimento? Recomendaria a eutanásia? E a que propósito se deve prolongar a vida por métodos artificiais se estivermos reduzidos a um estado vegetativo, vitimados por algum acidente?

K- Talvez os homens gostem de ser considerados como muito inteligentes e maravilhosos mas a verdade é que ainda somos bárbaros. O Homem é violento. Isso é um facto. E ele dá livre curso a essa violência utilizando uma palavra de falta de cortesia ou torturando um ser que detesta. Matar é a expressão extrema de violência, quer cometamos nós mesmos esse trabalho sujo ou encarreguemos alguém, isso sempre resulta na destruição da vida. Não sou partidário desse modo de trazer a morte mesmo que seja para  evitar o sofrimento, nem tolero a auto- mutilação. O suicídio é uma manifestação de violência contra si próprio.

- Porque razão somos nós violentos?

K- Somos violentos porque somos egoístas. A perseguição implacável do interesse pessoal significa violência. O eu é insaciável e os seus desejos e buscas são infinitos, e assim o eu só pode comportar-se de modo egoísta- o que representa dizer que só se comporta com violência.

- Lembro-me vivamente da forma como reagiu à vinda de um telegrama de além-mar, quando vivíamos em Colombo. Um amigo seu que se encontrava a morrer telegrafava-lhe e você enviou-lhe um telegrama de resposta, exprimindo a sua afeição com as palavras: "penso em si".

K-  Se desejar sinceramente ajudar uma pessoa, então deve agir durante a vida dessa pessoa, porque fazer funerais grandiosos ou erguer um monumento comemorativo, são representações de afecto que não significam nada. É totalmente hipócrita cumular um adversário de desprezo durante a sua vida para depois render-lhe homenagem após a morte do pobre tipo.

- Porque entramos em pranto com a morte de um amigo próximo?

K- Quando uma pessoa amiga nos morre é normal que seus pais e amigos chorem de aflição. Chorará por compaixão por essa pessoa falecida ou porque toma consciência da vossa própria perda? O morto partiu para sempre e vós ficais confrontado com uma terrível solidão e um doloroso vazio impossível de preencher? Chorando saireis aliviados mas quantidade nenhuma de lágrimas ou orações ressuscitarão o morto.

- Penso que seja a irrevogabilidade da morte que a torne uma experiência tão temível.

K- Quando a morte bate á nossa porta não adianta dizer: "Peço-vos, senhora que tenha a bondade de esperar uma semana para que termine o meu trabalho". Quando a morte sobrevem temos de abandonar tudo e partir; não podemos carregar os móveis connosco. Quando ela chega perdemos tudo o que possuímos e seremos definitivamente separados da família e dos amigos. Será o fim de tudo aquilo que tivermos feito, da nossa celebridade, da nossa simpatia e antipatia e havemos de partir de mão tão vazias como quando nascemos.

-  Diz que, no momento da morte somos obrigados a abandonar tudo e a partir...Posso colocar-vos uma questão clara? Para onde vai o falecido?

K- Olhe, senhor, quem somos nós? Eu  possuo um nome, uma conta bancária e isso dá-me a sensação de ser um indivíduo. Mas existirei realmente enquanto pessoa distinta, separada? Que coisa é você além dessa colecção de pensamentos, emoções e tendências, predileções, ódios, pesar, medo, ambições, desejos, crenças e ideias? Nós somos toda essa combinação de características. Se retirarmos essas qualidades uma a uma, que é que ficará? Nada. Consequentemente não existe  coisa tal como "si mesmo" ou "eu". Não lhe parece que nenhuma dessas características é fixa nem permanente?
Nesse complexo tudo- incluindo o pensamento e o sentimento, está sujeito á mudança. Pode gostar de pensar que, escondido de algum modo em si, existe uma substância imutável chamada alma, mas descobrirei que a alma ou atman não passa de um conceito, uma criação da mente, resultante do seu desejo de permanência e segurança, mas, à semelhança dos demais conceitos, também este é mutável. Quando percebo, deste modo, não existir em mim nada que seja permanente e que o mundo interior e o exterior estão sempre em movimento, então estarei em posição de examinar a questão da reincarnação.
Tudo o que perfaz a sua consciência, inclusive o nosso corpo, está em transformação contínua, pois o processo do pensar consiste numa cadeia sucessiva de pensamentos e ideias  num estado de instabilidade. Assim, o meu corpo diferirá do meu espírito? Os pensamentos surgem e desaparecem; o próprio corpo está constantemente a passar por um processo de morte e renascimento. Ficará claro que não existe nada permanente? E se não existe nada de permanente então não existe coisa alguma permanente que reincarna. Compreende a questão?
A reincarnação só se torna possível se existir uma entidade permanente, imutável, que puder passar, por si, de uma vida a outra, como um passageiro que viaja de uma estação a outra. Mas, se tal entidade ou passageiro não existir então não haverá nada a reincarnar. A reincarnação é uma teoria nascida do desejo de continuidade do homem.

- Estou a par dos seus escritos acerca desse tema tão importante como é o da morte. E neles declara que a morte psicológica deveria preceder a morte corporal.

K- Justamente. Poderá o "eu" morrer antes que morra?

- Antes da morte física espero poder morrer para todas as minhas simpatias, antipatias, para os meus cuidados, os meus medos e por aí fora. Seria agradável poder morrer para todo o meu passado

K-  Quando estiver morto para todo o seu passado descobrirá um novo começo.

- Isso será tudo?

K- Quando a mente estiver purificada do passado e liberta do tempo poderá apreender qualquer coisa de indestrutível.

-Krishnaji, está preparado  para separar-se do seu corpo?

K- Quando soar a  hora de partida, entrarei na casa da morte com um sorriso.




O Que é a Sanidade Mental?



- Estive de visita, ontem, a uma pessoa que sofreu tratamento num hospital psiquiátrico e o encontro com tantos homens e mulheres, doentes mentais, foi uma das experiências mais deprimentes. Já alguma vez procurou ajudar um internado num desses hospitais?

K- Em certa altura desloquei-me a um asilo de alienados em visita a um paciente que me tinha sido dado a conhecer e tomei então consciência de que os dementes que residiam nesse asilo não diferiam essencialmente das pessoas ditas "sãs" que vivem no exterior.

- É, já ouvi comentar que o que separa aqueles que são sãos de espirito dos que não são é uma linha muito fina.

K-  Não é questão disso. Talvez essa fronteira não exista. Será que a pessoa dita sã de espirito terá mais clareza que a dita insana? Nos hospitais psiquiátricos encontrareis homens que acreditam seriamente serem reis ou ditadores e mulheres que se tomam por princesas e rainhas. Considera-se uma pessoa como alienada quando essa pessoa crê em coisas sem nexo de causalidade nem relação com a realidade.
Não faz parte da pura demência acreditar em deuses fantásticos, deuses imaginários com numerosos braços e cabeças?

- Os filósofos Indianos consideram o acto de confundir uma corda com uma serpente como um exemplo de percepção deformada.

K- Nesse caso a nossa percepção é obscurecida pelo véu das imagens. Nós possuímos imagens das pessoas com quem nos encontramos. Os pais têm imagens dos seus filhos e os filhos têm imagens dos seus pais.
Muitas pessoas que assistem ás minhas conferências possuem uma certa imagem de mim. É lamentável que tenha a reputação de mestre espiritual. Mas desse modo as pessoas vêem mais nas palavras do que o que elas querem dizer. E assim enganam-se sobre o sentido das verdades simples e evidentes de que falo. Essa imagem de mim prejudica a compreensão correcta do que é dito nas conferências. Uma mente sã não possui imagens.

- Será então que formar imagens  é sinal de potencial demência?

K- Certamente

- E não haverá graus nessa demência?

K-  Não há diferença qualitativa entre uma mente que nutre algumas imagens e  uma outra que as possui em abundância. Não notou já como, mesmo um simples preconceito torna a mente deformada?
Imaginar que as pessoas de uma raça ou de uma religião particular sejam inferiores e malévolas cria sentimentos de ódio a respeito. E o ódio, de facto, termina na intolerância, no terrorismo e na guerra. Mas as imagens que possuímos dos outros não correspondem ao que eles são de verdade. Dessas imagens à realidade vai muito. Mas nós estamos presos a isso e assim isso acaba por constituir uma das nossas maiores dificuldades.

- Pensa que a psicanálise possa ser útil no tratamento de certas desordens mentais?

K- Terão os próprios psicanalistas libertado a mente de imagens? E em caso contrário, não procurarão impor as suas próprias imagens aos seus pobres pacientes? Os psicanalistas podem chegar a fazer dos seus pacientes membros disciplinados da sociedade, possuidores de um comportamento correcto. Mas os psicanalistas deveriam colocar em questão os próprios fundamentos da sociedade. Qual o interesse de ajustar os pacientes às regras da sociedade, de modo a tornarem-se cidadãos respeitáveis se na essência a sociedade é corrompida? Não estará a sociedade assente na competição, na ambição e no egoísmo?
E quem é o "analista" que emprega a análise; será ele diferente do analisado? Ele é produto da confusão da mente. O que quer que o analista faça resultará, por isso, em mais confusão.
Como frequentemente venho dizendo, a análise representa uma  paralisia. Porque haveremos de depender de alguém para cavar em nós próprios. Não devemos ser uma luz para nós mesmos?
Uma pessoa que explora constantemente a própria mente e que observa vigilantemente os seus próprios movimentos e possui confiança em si mesma, não necessita de frequentar os psicanalistas.
Tenho que lhe contar uma história. Um interno de certo hospício tinha o costume de passar horas na tentativa de pescar uma truta na sua chávena de café e para o efeito, utilizava um cigarro como anzol. Um psicanalista, que se divertia com a cena, perguntou-lhe: "então, apanhou muitos peixes hoje?"
O paciente respondeu: "Você é tolo ou quê? Não vê que se trata somente de uma chávena de café?"



Energia para uma Auto-análise



- Recentemente aconselhei um colega acerca de um problema sexual mas ele desejaria que o discutisse convosco.

K- Porque razão não o acompanhou aqui?

-  Bem, ele hesita em encontrar-se convosco por poder sentir-se intimidado diante de si.

K- Eu não o mordia. Diga-lhe que ele será benvindo aqui. Que é que o perturba?

- Ele procura ultrapassar a sua homossexualidade.

K- Mas, senhor, esse termo é um tanto descortês. Não poderá referir a questão sem empregar esse termo?

- Mas é um termo científico neutro.

K- Talvez até seja mas em nossos dias, muitas pessoas ainda mantêm uma atitude de desaprovação com relação á homossexualidade. O próprio facto de ele querer vencer a sua homossexualidade mostra que ele já possui uma prevenção contra ela.
Não estou a dizer que seja ou não desejável, mas se quisermos compreender um problema não devemos condená-lo, em absoluto. E se formos hostis para com ele não haverá frescura no modo de o abordar. É que uma atitude de desaprovação irá impedi-lo de observar de um modo renovado. E nós devemos afrontar o problema exactamente tal qual ele é, sem querer modificá-lo de qualquer forma.
As palavras comportam diferentes associações. As palavras evocam o passado; elas representam o passado. Será pois, possível considerar o problema directamente sem termos que ver através do nosso ecrã?

-  Se não utilizar a palavra "homossexualidade" como haverei de me referir á coisa?

K- Terá que lhe dar um nome?

- Então, chamo-lhe X ?

K- Tem consciência de que a solução de um problema está nele próprio? Os termos afastarão essa solução.

- Mas, Krishnaji, peço-lhe que estabeleça uma linha de conduta sobre como ajudar uma pessoa assim em aflição.

K- Temo que não exista um método. A arte de ver correctamente resolverá todos os problemas. Não se trata de ver primeiro e em seguida agir, pois é o próprio acto de ver que é a acção.

- Eu sugeri-lhe que deveria abordar o problema sem qualquer sentimento de condenação ou justificação.
K- Antes de mais, é necessário despojar a mente de todo o sentimento de pecado. Enquanto o seu espírito for atormentado pelo temor ou pelo sentimento de culpabilidade, ser-lhe-á impossível afrontar honestamente o problema. Quando a mente estiver livre desses fardos, então já terá inteligência.

- Esse indivíduo é um poeta e um romancista altamente inteligente e sensível.

K- O acto sexual é passageiro; é uma experiência furtiva, mas porque será que as pessoas se preocupam tanto com ele? O sexo não é puro nem impuro mas o pensamento amplifica-o para além de toda a medida quando a mente lhe confere uma importância excessiva, e ou obtemos prazer pelo simples pensar no acto sexual passado ou então fantasiamos sobre as futuras experiências sexuais.

- Mas a mente é que tem culpa. Um homem superior fará notar que a sexualidade não se situa nos órgãos genitais mas sim na cabeça. A obsessão do homem diante do sexo é o preço que ele deve pagar por possuir uma imaginação demasiado desenvolvida.

K- São os intelectuais que deturpam o sexo; as pessoas de conduta e índole amável e benevolente, cujas vidas não são dominadas pelo intelecto não chegam a fazer do sexo um problema.

- Existe uma outra categoria de pessoas que fizeram do sexo um problema. Estou a referir-me aos puritanos- homens e mulheres, que foram formados a combater o sexo como se  tratasse de uma espécie de monstro.

K- Conheci na Índia um sanyasin que vivia em luta com os seus impulsos sexuais e quanto mais ele tentava reprimi-los mais eles se tornavam incontroláveis. Ele não percebia que realçar o seu instinto sexual era o meio mais seguro de o reforçar, e em lugar de procurar compreender esse forte impulso da natureza humana, observando-o atentamente, ele tentava intensamente delapidá-lo, sem sucesso todavia.
Foi então que, de uma forma insensata acabou por se submeter a uma remoção cirúrgica dos órgãos.
Um dia, quando me veio ver em lagrimas, queixou-se que o seu corpo desenvolvia o peito e outras características femininas como resultado da operação.

- As tradições religiosas da Índia realçam a importância de preservar as energias como condição cine  qua non para a iluminação espiritual.

K-  Da busca de prazer sexual resulta um evidente esbanjamento de energia. Mas da supressão sexual também resulta um desperdício de energia igual porque isso coloca a mente em estado de conflito. E o conflito, essa luta entre o desejo poderoso que exige a nossa entrega, e o pensamento oposto que diz: "não deves ceder"- ocasiona uma perda de energia. A auto-observação requer energia porém, não podemos acumulá-la por meio de recalcamento sexual.
Só teremos abundância de energia se a mente se encontrar livre de conflito. E quando compreendermos que o eu, a entidade que até agora procurou o controle dos movimentos do pensamento é igualmente oriundo do pensamento, então o conflito entre aquele que pensa e o pensamento terá um fim imediato. Observe a natureza ilusória daquele que "controla" o pensamento e então os conflitos cessarão e a mente resultará revivificada por uma nova energia.

- Em certos templos do sul da Índia, o linga, o falo do Senhor Shiva é adorado. Que significado esotérico- se houver algum, terá essa prática?

K- O homem primitivo não compreendia o funcionamento do instinto procriador. Esse mistério derrotava-o completamente e, como consequência ficava assustado. Por isso começou a adorá-lo da mesma forma como adorava os elementos. Quando a mente não compreende teme, e tanto suprime como adora o objecto do seu temor. Todas as formas de adoração ou de culto têm origem comum no medo.

- Mas, certa vez proferiu que a sede de actividade sexual tem lugar como um meio de auto-esquecimento.
K- Evidentemente, a nossa vida centra-se no "eu". Quase tudo do que fazemos pensamos ou experimentamos está, de uma forma ou de outra, associada ao eu. E pelo sexo procuramos um momento de libertação deste mundo estreito e triste. É por isso que a nossa cultura confere tão extraordinária importância ao sexo.

-  Suponho que um indivíduo absolutamente livre viveria de forma magnânime e com independência em relação ao sexo, tanto em pensamento como pela palavra e acção.

K- Nem o sexo nem problema nenhum perturbará tal indivíduo. Quando o eu cessar de existir de bom grado, isso resultará em felicidade.


                   
A Tomada de Consciência Constitui um Jogo



- Após todos esses anos de auto-observação não será vergonhoso que ainda comportemos esse processo de criação de imagens? Parece que aquela torrente de pensamentos não para de se disseminar e desse modo acabámos sentindo-nos deprimidos com o revés.

K- Porque se condena? Você deve ter jogado os jogos de criança. Pois bem, a tomada de consciência assemelha-se, do mesmo modo, a um jogo. Se o jogar por prazer será importante ganhar ou perder?

- Pois é, percebo que a tomada de consciência não é um acto contínuo. Pelo meio há percepções fulgurantes e esses clarões de consciência cessam para dar lugar a estados de estagnação; logo, de súbito encontrámo-nos conscientes de novo. E essa particularidade intermitente e descontínua do processo de percepção torna-se um problema.

K-  Veja bem, a tomada de consciência não deve ser contínua; raramente o é. Mas quando se censura dizendo não ser ela contínua, isso só revela que já formou um conceito sobre essa tomada de consciência, um ideal, um critério. E em seguida procura adaptar-se a esse critério estabelecido por si.
Mas, senhor, a tomada de consciência não é um exercício que  imponhamos a nós mesmo, porque nós não a podemos praticar. Quando perceber o modo de funcionamento da sua mente não ficará mais ávido de percepção profunda nem dirá que a mente deve procurar ser consciente sem cessar.

- Se tentar ficar consciente, experimento uma sensação de fadiga no mesmo instante.

K- Se se sentir fatigado então repouse. Então, após esse descanso talvez esteja em condições de retomar a tarefa. Sem energia não se pode trabalhar e quando ela se esgota como resultado do trabalho, faz-se necessário novo repouso.

- Tenho a sensação de despender mais energia quando a mente se esforça por ficar vigilante.

K- Esforçar-se por ficar vigilante é um desperdício de energia ao passo que permanecer vigilante gera energia. Já notou como a energia cresce verdadeiramente quando está em coerência consigo próprio?
Examinemos o medo; a mente gosta de escapar ao medo pela justificação ou então descartando-o. Mas fugindo-lhe não o elimina. Contudo, no momento em que o defrontar e a sua existência for aceite na sua totalidade- sem lhe fugir, o seu desaparecimento dará lugar a uma nova energia




- Frequentes vezes experimentamos o retorno das experiências agradáveis ou desagradáveis e, certos pensamentos encontram-se tão profundamente entrelaçados na consciência que até parece que residem lá permanentemente.

K- Toda a vez que um pensamento volta deve procurar observá-lo de novo. Todo o pensamento aborrecedor ou agradável que persiste em emergir tem uma história a contar. Porque não permitirmos a esse companheiro que revele a sua própria história? Não poderá descobrir um pouco mais sobre ele de cada vez que ele vem á superfície?

-  A minha outra dificuldade visa a rapidez do processo do pensamento. Ele decorre de modo tão rápido que eu não consigo segui-lo.

K- Mas isso acalmará quando descobrir as camadas profundas do inconsciente. Deve pôr o inconsciente a nu de modo que ele não mais possua zonas de sombra.

- Eu conheço períodos de tranquilidade, quando o pensamento se afasta por momentos. Mas acho que possa considerar-se prejudicial que tais momentos não tenham duração mais prolongada.

K- Mas, porque exigir mais? É certo que é o pensamento que reclama a tranquilidade. Mas esta não se instalará por certo, enquanto o pensamento estiver a funcionar.
Certo dia, um amigo muito erudito observou que tinha lido muito e como resultado não tinha mais disponibilidade mental. Será que uma mente demasiado activa e repleta do seu próprio ruído poderá alguma vez obter silêncio para poder receber uma coisa que o pensamento deixou intacta?
Senhor, se posso sugeri-lo, tente permanecer só, pelo menos uma hora por dia. Durante esse período não deve trabalhar nem ler nem desfrutar da companhia dos amigos mas consagrará esse tempo a dar um passeio solitário ou a observar a natureza. A observação do voo das aves pode causar um arrebatamento puro, a percepção do arvoredo verde ou o vasto céu azul. Cada vez que a mente deixa de comungar com a natureza perde a sua sensibilidade. Viva próximo a ela.

- Mas, não será necessário conhecermos todos os pensamentos?

K-  Não pode conhecer todos os pensamentos; eles são demasiado numerosos e o fluxo da consciência é vasto e poderoso. Além disso, somente pela compreensão das limitações do pensamento chegará a poder transcendê-lo. O próprio acto de compreender, será também o acto de atravessar esse fluxo.
                                                                                                                       
            
                                                  
                                       Susunaga Weeraperuma 1988