sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

WEN TZU (EXCERTOS)




A COMPREENSÃO DOS MISTÉRIOS

Ensinamentos da Escola de Lao Tzu (EXCERTOS)

Do trabalho de tradução de Thomas Cleary para o Inglês
Numa compilação e arranjo com apresentação aleatória de Amadeu Duarte      
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                   

Apresentação


O Wen-Tzu, também conhecido pelo título honorífico de “A Compreensão dos Mistérios”, constitui uma das grandes escrituras do taoísmo e foi escrito há mais de dois mil anos. Seguindo a tradição de Lao-Tzu, Chuang-Tzu e dos mestres de Huainan, o Wen-Tzu abrange todo o espectro do pensamento e da prática do taoísmo clássico. A obra, ignorada durante muito tempo por todos excepto os iniciados, encontra-se pela primeira vez disponível numa língua ocidental desde a sua tradução para o inglês.

O Wen-Tzu apresenta uma visão do taoísmo completamente diferente da projectada pelos eruditos ocidentais, estando mais de acordo com as concepções taoístas autênticas. A sua compilação é atribuída a um discípulo de Lao-Tzu, o conhecido autor do clássico Tao Te King. A maior parte do seu conteúdo é atribuída ao próprio Lao-Tzu. Contudo, a atribuição de autoria no antigo taoísmo é geralmente simbólica e não histórica. Os nomes podem referir-se não só às supostas pessoas individualmente, como também ás escolas e às tradições associadas ou aos seus círculos.

Supostamente, o autor do Wen-Tzu teria sido um concelheiro do rei P’ing, da dinastia Chou, que viveu no século oitavo a.C. Isto significa centenas de anos antes da época em que se acredita que Lao-Tzu viveu, mas essa data é atribuída ao texto apenas simbolicamente. Foi durante o reinado do rei P’ing que a casa governante de Chou se dividiu e começou a perder o resto da sua integridade dinástica. Depois do rei P’ing, os estados vassalos começaram a afirmar-se e a lutar pela hegemonia. Deste modo, a data simbólica da obra indica que ela aborda as necessidades e os problemas da uma época de transição e incerteza.


                                                        EXCERTOS


   Com relação à virtude, dizia Lao Tzu que devemos desenvolvê-la, alimentá-la e estimulá-la. Todo o benefício universal destituído de discriminação provém da unidade de Céu e Terra. A isso se chama virtude.

   Sobre o humanitarismo, ensinava que, se nos acharmos numa posição superior, não devemos tornar-se orgulhosos devido ao êxito; quando nos encontramos numa condição de subordinação, não devemos envergonhar-nos pelos próprios problemas. Se formos ricos, não devemos tornar-nos arrogantes; se formos pobres, não devemos roubar, mas é sempre preferível abrigarmos um amor universal sem deixarmos que esmoreça. A isso se chama humanitarismo.

   Sobre a justiça, dizia que quando nos encontramos numa posição de superioridade, não devemos esquecer-nos de ajudar os pobres; se nos acharmos numa posição subordinada, devemos preservar o controlo pessoal. Não devemos seguir os caprichos provenientes do êxito, nem a impaciência decorrente de uma qualquer posição difícil, mas seguir invariavelmente a razão, sem a distorcer com a nossa subjectividade. A tal coisa se chama justiça.

   Uma vez que se achem numa condição superior, sejam respeitadores mas dignos; uma vez que se achem numa posição subordinada, sejam humildes mas sérios. Sejam respeitadores e flexíveis, e actuem com relação ao mundo do mesmo modo que as mulheres.

   Adoptem o princípio de não criar suposições, mas estabeleçam uma base de ausência de domínio. Isso é chamado cortesia.
   Se praticardes tais virtudes, os vossos subordinados seguirão as vossas ordens.

   Se praticardes esse humanitarismo, os vossos subordinados não serão conflituosos. Se praticardes essa justiça, os vossos subordinados serão justos e correctos. Se praticardes essa cortesia, os vossos subordinados honrar-vos-ão e respeitarão.

   O Caminho confere vida às pessoas; a virtude amadurece-as; o humanitarismo incute-lhes sentido do amor; a justiça confere-lhes o sentido de correcção; a cortesia torna-as sérias. Sem alimentação e desenvolvimento correctos não poderá resultar crescimento adequado; sem correcção não se poderão preservar e expandir; sem respeito e atenção, não se poderá dar valor ao que é valioso. Essas são as marcas da civilização e os meios através dos quais os sábios poderão governar multidões.





   Palavras pomposas e altissonantes sempre são utilizadas com motivos gratificantes e parciais; as palavras simples podem ser empregues com objectivos elevados.
   As palavras altissonantes são de uso corrente; as simples são para uso estratégico.
   Somente os sábios são efectivamente capazes de conhecer estratégia; desse modo, as suas palavras demonstram ser autênticas e as suas expectativas, comprovadamente exactas.
   O comportamento mais elevado coloca a honestidade e a fiabilidade acima dos laços pessoais, mas quem dará valor a isso?
   Consequentemente, quando os sábios discutem o certo e o errado referentes aos acontecimentos, eles retraem-se e expandem-se de acordo com tais conceitos e não conseguem manter uma atitude externa fixa. Estratégia é o modo independente que os sábios adoptam a fim de fazer enxergar. Quando se gerar oposição no princípio mas concordância de seguida, isso será estratégia. Se houver concordância no início mas oposição mais tarde, isso revelará ignorância estratégica. E para aqueles que são estrategicamente ignorantes, o bom transforma-se em mau.





   A essência do Caminho reside em não-ser; não podemos encarar a sua natureza se a olharmos directamente, nem perceber a sua harmonia se nos pusermos à escuta...
   A isso se chama "desconhecido e misterioso", todavia não revela o Caminho em si, mas tão só uma forma de o abordar.
   O Caminho está em olharmos a partir do interior e voltarmo-nos para nós mesmos, pois:
   Quando usamos de atenção, não sofremos desilusões; quando possuímos sabedoria, não atravessamos estados de loucura
   Ninguém deve usar a água corrente como um espelho, mas sim a que está imóvel. Pois é nesses moldes exactamente que devemos preservar o estado de observação interior. Se nos mantivermos imóveis, interiormente, também não dispersaremos as energias externas (e, consequentemente, poderemos obter lucidez).
   Nada poderá crescer para além do que a sua base (estatura) permite; os galhos da árvore não podem ser maiores do que o tronco; quando o que está acima é pesado e o que está abaixo é leve, a queda deverá ser provável.
   A pureza pode fazer resultar tal clareza que podemos mesmo vislumbrar uma coisa diminuta no simples reflexo da água; a perturbação é tanta que nos impossibilita mesmo de discernir o reflexo de uma montanha nas águas do rio.



   A orquídea não perde a sua fragrância só pelo facto de ninguém a cheirar; um barco não se afunda somente por não ter ninguém dentro dele. Do mesmo modo, a pessoa íntegra não deixa de praticar o Caminho apenas por ninguém ter consciência disso, mas por ser assim por natureza.



   Os sábios permanecem reservados no interior e não se manifestam; quando as coisas acontecem eles administram-nas; quando as pessoas os procuram, eles respondem.
   O caminho do céu consiste em reduzir ao muito para acrescentar ao pouco; o caminho da terra consiste em diminuir o que é elevado para aumentar o que é baixo. O caminho humanitário consiste em não dar àqueles que têm muito; o caminho dos sábios consiste numa humildade insuperável.
   O Grande Caminho é equânime e não está fora do alcance de ninguém. Cultivai-o em vós, e a vossa virtude será objectiva; cultivai-o nos outros e essa virtude será infinita.



   Acumular o que é refinado resulta no embotamento do que é grosseiro; acumular o baixo resulta em elevação; as pessoas exemplares trabalham duro e por tal razão tornam-se ilustres; as pessoas mesquinhas divertem-se e por tal razão enfrentam desgraças. Embora possa não parecer, essa é uma razão para ver o que é bom como se não fosse possível alcançá-lo e para nos afastarmos do que é mau como se fosse uma desgraça.

    Se nos voltarmos para a bondade, por mais que avancemos, não resultará ressentimento; se não nos voltarmos para a bondade, ainda que sejamos leais, atrairemos ódio. Por isso, o ressentimento contra os outros não é tão bom quanto aquele contra nós próprios; procurar nos outros não é tão bom quanto procurar em nós próprios. Assim, a natureza das coisas revela-se equânime pelos resultados: cada nome ou qualidade apela a si mesmo e à sua natureza; com base nisto as pessoas governam o seu destino porquanto tudo reside em nós próprios. Se brandirmos um instrumento pontiagudo e nos ferirmos, de nada adiantará abrigarmos ressentimento contra os outros. Assim, as pessoas de bem têm cuidado com as subtilezas. O nascimento e o desenvolvimento dos seres ocorrem por meio da sensibilidade.



   Quando as montanhas são elevadas, formam-se sobre elas nuvens e chuva; quando as águas são profundas, dão lugar à eclosão de transformações. Quando as pessoas inefáveis alcançam o caminho, a riqueza da virtude flui nelas. Aqueles que possuem virtudes ocultas certamente serão manifestamente recompensados; aqueles que fazem o bem em segredo, certamente adquirirão reputações ilustres. Aqueles que plantam trigo não colhem milho miúdo; aqueles que plantam ressentimento não podem ser recompensados com gratidão.



   O Caminho pode ser usado tanto para a fraqueza como para a força; para a flexibilidade ou para a firmeza; para a passividade ou para a actividade; para a escuridão ou para a luz. Ele pode ser usado para abraçar o céu e a terra, e pode ser usado para reagir aos tempos sem convenções fixas.
   Conhecer o Caminho é algo superficial, externo, grosseiro; não conhecê-lo é profundo, interno, subtil. Conhecê-lo é não conhecer, e não conhecê-lo é conhecer. Mas, quem o saberá?



   As pessoas podem falar do subtil somente quando conhecerem o significado das palavras. Aqueles que apreendem o seu significado abstêm-se de as aplicar. Aquilo que as pessoas de conhecimento superficial buscam obter, através da competição, é trivial. As palavras têm todas uma fonte; Os acontecimentos têm um líder: mas é porque a artificialidade não possui conhecimento que eu não tenho pretensão de conhecer.




   As pessoas apreciam a benevolência e o dever. Quando aqueles que as pessoas estimam perdem os seus haveres e as suas vidas, isso ocorre porque não compreenderam os tempos. Desse modo, aqueles que conhecem a benevolência e o dever, mas não conhecem a estratégia adequada para o tempo, não alcançam o Caminho.

   O bom e o mau são iguais no sentido de que o repúdio e o elogio dependem de tendências convencionais; as acções são iguais no sentido de que a oposição e a harmonia dependem do tempo. Quando conhecemos o modo como a Natureza e as pessoas agem, então dispomos dos meios para atravessar o mundo. Se conhecermos a Natureza mas não conhecermos as pessoas, não disporemos de meios para interagir com a sociedade. Se conhecermos as pessoas mas não conhecermos a Natureza, não disporemos dos meios para viajar pelo Caminho.

   Portanto, se tivermos um controle interno estável e formos capazes de nos expandir externamente, movendo-nos juntamente com as coisas, então poderemos evitar o fracasso em todos os nossos empreendimentos. Aquilo que se estima no Caminho é a capacidade de mudar. Se nos limitarmos a uma única disciplina e realizarmos uma só actividade, mesmo que alcancemos plena satisfação através dela, ainda deverá resultar um bloqueio ao Caminho, motivado por uma pequena preferência.

   Portanto, aqueles que são capazes de suportar o céu, são igualmente capazes de caminhar sobre a terra; aqueles que reflectem em si a pureza absoluta, possuem enorme clareza de discernimento; aqueles que estabelecem uma paz sólida, habitam vasta moradia; aqueles que podem afrontar o avanço em plena escuridão, possuem luz idêntica à do sol e da lua. Por isso, as pessoas verdadeiraS colocam as suas esperanças sobre a base da atenção e estabelecem-se no início das coisas. Atentam à mais profunda escuridão e escutam o que permanece silencioso. Em meio à mais completa escuridão só elas encontram a luz; em meio ao mais completo silêncio só elas encontram iluminação. O uso que tais pessoas fazem é um não-uso; só depois de não usar elas são capazes de usar. O seu conhecimento reside no não-conhecer; só depois de não conhecerem é que elas são capazes de conhecer.

   O Caminho é o que os seres seguem; a virtude é o que a vida apoia. A qualidade humanitária é uma prova da caridade acumulada; a justiça é o que está perto do coração e de acordo com o que é adequado para a comunidade. Quando o Caminho desaparece, aparece a virtude; quando a virtude declina, passam a prevalecer o humanitarismo e a justiça. Os antigos seguiam o Caminho ao invés da virtude; os que lhes sucederam passaram a seguir a virtude mas não o sentimento; recentemente, as pessoas são cautelosas e cuidadosas para não perderem o seu humanitarismo e justiça.

   Assim, se as pessoas perderem a justiça, perderão aquilo pelo qual vivem; se não tiverem lucros, as pessoas medianas não terão como viver e perderão o seu meio de vida. Por isso, as pessoas superiores temem a perda da justiça do mesmo modo que as demais temem a perda dos lucros. Observem aquilo que cada uma teme e perceberá a diferença entre o que será calamitoso e afortunado para ambas.




   As coisas que se pretende que sejam benéficas podem, na verdade, ser prejudiciais, ao passo que aquelas que se pretende que causem dano podem na verdade resultar em benefício.
   Comer comidas quentes quando se transpira e beber bebidas frias quando se tem muita sede são hábitos alimentares comuns, mas os médicos eficazes consideram-nos pouco saudáveis.
   Tudo o que é agradável para os olhos ou para as emoções é considerado proveitoso pelo ignorante, mas é evitado pelos mestres do Caminho.
   Os sábios primeiro levantam objecções e só depois cooperam; as pessoas comuns cooperam primeiro, e depois levantam objecções. É imperativo examinar os portais da calamidade e da boa sorte, e os opostos do lucro e do prejuízo.



   Aqueles que são bem-sucedidos sem ser humanitários nem justos inspiram desconfiança, enquanto que aqueles que falharam mas são humanitários inspiram confiança. Portanto, a qualidade humanitária e a justiça são normas constantes para todos os assuntos e são respeitadas pelo mundo.

   Mesmo que a estratégia seja calculada adequadamente, com preocupação pelo alívio do sofrimento e com planos para a sobrevivência da nação, se o assunto for encaminhado sem a qualidade humana e sem justiça, não poderá resultar em êxito.    Mesmo se o concelho não for adequado para a política pública e os planos não beneficiem o país, se a intenção for do interesse nacional e se harmonizar com o que for justo e humanitário, a sobrevivência estará assegurada.

   Por isso se diz que uma centena de concelhos e de planos nunca permitem atingir a meta e é melhor desistir do rumo da nossa acção e examinar a qualidade humanitária e da justiça.




   Quando a educação surge por parte das pessoas que possuem qualidades necessárias para liderar, as pessoas comuns saem beneficiadas com isso. Quando o lucro brota entre as pessoas comuns, a liderança sai beneficiada com o seu êxito. Consigam com que os líderes e as pessoas comuns obtenham o que é adequado para si, e o êxito comum deles será fácil de sustentar; desse modo o Caminho será alcançado.
   Quando as pessoas sustentam demasiadas vontades, isso prejudica a justiça; quando sustentam demasiada ansiedade, isso prejudica a sabedoria.
   A água que flui para baixo torna-se profunda e vasta; os governantes que se baixam diante dos seus súbditos alcançam percepção e tornam-se lúcidos. Desse modo o Caminho da Ordem terá lugar.



   Quando as pessoas confiam no seu próprio poder e são presunçosas em relação ao próprio mérito, chegam inevitavelmente a um impasse. Se houver qualquer superficialidade em qualquer aspecto, não poderá resultar nenhuma ligação com a graça. Assim, se usarmos o que as massas apreciam, conquistaremos o coração das massas. Desse modo se enxergarmos o início conheceremos o final.



   O benefício e o prejuízo passam pelo mesmo portal; a calamidade e a boa sorte estão na mesma vizinhança; no entanto só os sábios e os santos são capazes de os distinguir. Por isso se diz que a boa sorte depende da calamidade e a calamidade governa a boa sorte; quem poderá saber de que modo elas terminam?

   Antes de podermos governar um povo devemos saber cultivar-nos; se não vivermos de modo organizado e civilizado não poderemos transferir isso para a liderança oficial. Por isso se diz: "Cultivemos a virtude em nós próprios e ela será real; se a cultivarmos em casa, ela será abundante; se a cultivarmos no país essa virtude será farta."
   Quando avançamos em harmonia com o tempo mas não obtemos êxito, isso não muda o sistema; quando nos adaptamos ao tempo mas não colhemos sucesso, isso não muda a ordem. O tempo voltará; essa é a regra do Caminho.

   Os governantes magnânimos enriquecem os seus povos; os despóticos enriquecem as suas terras; as nações em perigo enriquecem os seus burocratas. As nações organizadas parecem passar necessidades ao passo que as nações perdidas têm os seus reservatórios vazios. Por isso se diz que quando os governantes não os exploram, os povos naturalmente tornam-se civilizados.

   O indivíduo mais elevado é do tipo espiritual, verdadeiro, aperfeiçoado no Caminho e sábio. Em seguida vem a pessoa possuidora de virtude, a pessoa que tem conhecimento, a pessoa boa e de discernimento. Depois aquele que é honesto, fiel, fiável, justo e cortês. Os sábios olham com os olhos, escutam com os ouvidos, falam com a boca e caminham por seus pés. As pessoas verdadeiras percebem sem olhar, ouvem sem escutar, avançam sem caminhar e são justas sem falar. Por isso, os meios pelos quais os sábios movimentam o mundo nunca foram usados pelas pessoas verdadeiras; os meios através dos quais as pessoas sensatas corrigem a moral da sociedade nunca foram observados pelos sábios.
   Aquilo que chamamos de Caminho não possui dianteira nem traseira: todas as coisas são misteriosamente iguais e não existe divisão entre o certo e o errado.




   O puro vazio é a claridade do céu; a ausência de artificialismos é a norma para governar. Livrem-se dos favores, abandonem a sabedoria, excluam a habilidade, rejeitem o dever humano, eliminem a racionalização, deixem de lado os sofismas e proibi os estratagemas e no final o inteligente e o grosseiro serão iguais no Caminho.
   Mantenham-se calmos e poderão ser equânimes; permaneçam vazios e poderão passar além. A perfeita virtude é destituída de artifícios e acomoda todas as coisas. A senda do vazio e da calma é tão eterna quanto o Céu e a Terra; a sua subtileza espiritual está em toda a parte, porém, não controla coisa nenhuma.

    Os meses do ano percorrem o seu ciclo e depois começam de novo. Os elementos vencem, com o seu poder, uns os outros, porém, os seus rumos dependem uns dos outros. O frio e o calor podem ferir, mas não pode haver ausência de frio nem de calor. Desse modo, o aceitável e o inaceitável são, ambos, aceitáveis; por tal motivo nada existe que não seja aceitável para o Grande Caminho.
   A aceitação é uma questão de lógica; se não buscarem o que é aceitável quando o percebem, e não fogem do inaceitável quando o enxergam, a aceitação e a rejeição são, com relação à outra, como a esquerda e a direita, como o interno e o externo.

   O que é essencial, em todos os casos, deve começar a partir de nós próprios; o tempo dá a ordem. Aquilo que, desde a antiguidade jamais mudou até aos dias de hoje, isso é chamado de Princípio Natural.
   Mantenham-se em contacto com a grande luz acima; usem a vossa luz abaixo.

O Caminho produz miríades de coisas, governa os contrários, transforma-os nas quatro estações e divide-os nos cinco elementos, encontrando, cada um, o seu lugar. Ao acompanharem o tempo, as leis encontram as suas constantes. Quando o caminho daqueles que estão acima chega aos que estão abaixo e aos destituídos de poder, ele não destrói, e todos os cidadãos mantêm uma só mente.
   O Caminho do Céu e da terra é obtido sem estratagemas, e alcançado sem buscar. Desse modo nós sabemos que ele é livre de artificialidade e é benéfico.




    A natureza dos sentimentos humanos faz com que as pessoas se submetam mais à virtude do que à força. A virtude está no que você dá e não no que você obtém. Portanto, quando os sábios querem ser valorizados pelos outros, primeiro eles dão valor aos outros; quando querem ser respeitados pelos outros, primeiro eles respeitam-nos. Quando pretendem vencer os outros, primeiro tratam de vencer a si mesmos; quando querem dar aos outros uma lição de humildade, primeiro eles tornam-se humildes. Assim, eles são do mesmo modo nobres e de posição inferior, e fazem uso do Caminho para controlar tal situação.
   Portanto, se estiverem certos de que o facto de dar se transforma em receber, e que o respeito se torna privilégio, então estarão perto do Caminho.


   Ajude os pobres e ganhará boa reputação; promovam o que é benéfico e eliminem aquilo que for prejudicial e estabelecerão mérito pessoal. Quando o mundo se acha em apuros e confusão, até mesmo os sábios não encontram por onde espalhar as suas benesses. Quando as classes altas e as baixas mantêm relações de cordialidade entre si, até mesmo os filantropos e humanistas deixam de ter projectos a realizar. Consequentemente, o governo de um povo completo permanece imbuído de virtude e adopta o Caminho, promove a sinceridade e distribui com alegria o conhecimento inesgotável. A retórica é colocada de lado e deixada em silêncio, porém, o mundo não sabe estimar aqueles que não falam.

Por isso, um caminho que pode ser articulado com palavras não é um Caminho permanente, e os nomes que podem ser pronunciados não servem como títulos permanentes. Aquilo que pode ser passado ao papel e transmitido às pessoas não passa de uma generalização grosseira.

   Os líderes ideais da antiguidade procediam de modo diverso: procediam de modo diverso mas com a mesma intenção; tomavam rumos diferentes para chegar à mesma meta. Os eruditos actuais, desconhecedores da unidade do Caminho e da totalidade da virtude, observam os vestígios das coisas que ocorreram e sentam-se ao redor a discuti-las. Mesmo quando são bastante estudiosos e cultos, não conseguem evitar a confusão.


   Aquilo que torna possível a sobrevivência de uma nação é a obtenção do Caminho; o que provoca a sua queda é a obstrução da razão. Por isso, os sábios percebem o desenvolvimento da sociedade pela observação dos seus sinais. A virtude floresce e declina, e os costumes do povo constituem os primeiros indicadores disso.

   Assim, aqueles que alcançam o Caminho da Vida tornar-se-ão, inevitavelmente, grandes, ainda que sejam pequenos; aqueles que detêm os sinais da morbidez deverão, inevitavelmente, fracassar, ainda que por ora sejam muito bem-sucedidos. Quando uma nação se encontra moribunda, a grandeza não é suficiente e não se pode depender dela; mas se o Caminho for posto em prática, nem mesmo uma pequena nação poderá ser ignorada.

   Portanto, a sobrevivência está na obtenção do Caminho e não na grandeza; a ruína está em perder contacto com o Caminho e não no tamanho. Os governantes de um país mergulhado na confusão exercem esforços no sentido da expansão do território, ao invés do humanitarismo e da justiça; desse modo, buscam as posições elevadas ao invés do Caminho e da virtude. Isso equivale a abandonar os instrumentos de sobrevivência e a criar causas de destruição.

   Quando os líderes ancestrais praticavam o Caminho, chamavam à sua prática virtude; quando a sua prática era superficial, chamavam à sua prática humanitarismo e justiça; quando praticavam externamente chamavam à sua prática cortesia e conhecimento. Nos tempos idos o cultivo do Caminho e da sua virtude podia trazer ordem para toda a Terra; o cultivo do humanitarismo e da justiça podia trazer ordem para o Estado; o cultivo da cortesia e do conhecimento podia trazer ordem para uma localidade. Aqueles cuja virtude era ampla eram grandes, e aqueles cuja virtude era menor eram pequenos.

   Assim, o Caminho está em não estabelecer-se por meio da agressividade, não vencer pela força nem ganhar pela competição. Estabelecer-se assim equivale a ser promovido pelo mundo; a vitória está na harmonia espontânea com o mundo, e o ganho está na conquista pela cedência que nos é estendida, ao invés de tomarmos algo em proveito próprio. Desse modo, se formos destituídos de agressividade haveremos de nos estabelecer; se formos flexíveis e tolerantes sairemos vitoriosos; se formos humanitários e justos obteremos verdadeiro ganho; se não alimentarmos querelas nem intrigas, ninguém criará conflitos connosco. Por isso, o Caminho está para o mundo como o oceano para os rios.

   O Caminho da Natureza sai prejudicado por quem elabora estratagemas, e perdido por quem tenta pegar algo à força. Olhem aqueles que buscam uma enorme reputação e se esforçam no seu sentido; eles são incapazes de se conter, e mesmo quando obtêm a vitória à força, essa vitória não dura.

A reputação não pode ser obtida procurando por ela mas deve ser conferida pelo mundo. Aqueles que a estendem recorrem a ela. Aquilo a que o mundo recorre é a virtude. Por isso diz-se que o mundo recorre aos que detêm a mais elevada virtude; a Terra recorre àqueles que detêm o mais elevado humanitarismo; um Estado recorre àqueles que detêm a mais elevada justiça; uma localidade recorre àqueles que detêm a mais elevada cortesia.

   Não se recorre a quem não possua essas quatro qualidades, porquanto é perigoso armar e mobilizar pessoas que não sejam detentoras de confiança no seu governo. Por isso se diz que as armas são instrumentos de mau agouro, e só deverão ser usadas em caso de inevitabilidade. Quando, para vencer tiver de matar e ferir, não glorifique o facto. Por isso se diz que num terreno juncado de cadáveres crescem sarças; chore as mortes cometidas com mágoa e celebre ritos fúnebres. É por isso que os pessoas superiores buscam a virtude do Caminho e não dão grande atenção à actividade militar.


Aqueles que alcançam o Caminho são fracos em ambição mas fortes no trabalho; as suas mentes são abertas e as suas respostas adequadas. Todavia, os que são fracos em ambição são flexíveis e tolerantes, pacíficos e sossegados; ocultam-se por detrás da ausência de possessividade e fingem ser inábeis. São tranquilos e destituídos de toda artificialidade, contudo, quando agem, não o fazem sem o sentido do tempo.

Portanto, a nobreza deve enraizar-se na humildade; o que é elevado deve basear-se no que é inferior. Utilizai o pequeno a fim de conter o grande; permaneçam no central a fim de poderem controlar o periférico. Comportai-vos com flexibilidade e permaneçam interiormente firmes, e não haverá poder que não sejam capazes de vencer, inimigo algum acima do qual não possam erguer-se. Respondei aos desafios que se vos apresentam, avaliai o momento e ninguém será capaz de vos prejudicar. Aqueles que quiserem permanecer firmes devem preservar a firmeza recorrendo à flexibilidade; aqueles que quiserem ser fortes devem preservar a força recorrendo à fraqueza. Acumulai flexibilidade e conseguireis firmeza, acumulai fraqueza e sereis fortes. Observai aquilo que os outros acumulam e sabereis quem sobreviverá e quem perecerá.

Aqueles que vencem os menores pela força chegam a um impasse quando encontram outros cuja força é igual à sua. Aqueles que vencem os que são maiores pela flexibilidade têm um poder que não pode ser medido. Portanto, quando um exército é forte é derrotado; quando uma árvore é forte, quebra-se; quando o couro é forte, rasga-se; os dentes são mais fortes que a língua, todavia são os primeiros a morrer.

Assim, a flexibilidade e a tolerância são os factores que administram a vida; a dureza e a força são os arautos da morte. Encetar caminho é a via que conduz à exaustão; agir mais tarde é a fonte do êxito.

Manter-se em estreito contacto com o Caminho para se ser parceiro da evolução implica liderar para regular os que seguem, e avançar para regular os que lideram. Tal significa não perder os meios de regular as pessoas que não são capazes de controlar a si mesmas.

Avançar significa combinar os elementos dos acontecimentos de modo que se harmonizem com o momento. As mudanças no momento não permitem intervalos de descanso; se agirmos antecipadamente, iremos demasiado longe; se agirmos tarde demais, não seremos capazes de acompanhar os factos.

À medida que os dias passam e os meses se sucedem, o tempo esvai-se. É por isso que os sábios dão mais valor a uma pequena porção de tempo do que a uma enorme pedra preciosa. O tempo é difícil de obter e fácil de perder. Por isso os sábios realizam os seus objectivos de acordo com o tempo de que dispõem e levam adiante as suas obras de acordo com os recursos disponíveis. Mantêm-se no caminho da pureza e são fiéis à disciplina do feminino. À medida que avançam e respondem às mudanças, sempre seguem e jamais precedem. Sendo flexíveis e tolerantes, são, por isso, calmos. Pacíficos e despreocupados, encontram-se em segurança. Aqueles que atacam os grandes e derrubam os poderosos não podem entrar em conflito com eles.


Falar é um meio de nos expressarmos para os outros, ouvir é um meio de os compreender dentro de nós. Nem os cegos nem os surdos experimentam tal coisa, razão porque existem coisas que eles desconhecem. Porém, a cegueira e a surdez não são apenas condições físicas; a mente também pode ter tais deficiências - ninguém sabe como superar isso; é como ser cego e surdo.
Tudo o que tem forma procede do Caminho; por isso, qual pai ou mãe, ele está bem perto. Todo o conhecimento é aprendido a partir dele; por isso ele assemelha-se a um professor brilhante.
Todos prejudicam o que é útil com o que inútil é; por essa razão o seu conhecimento permanece estreito e os seus dias pequenos. Se as pessoas utilizassem os eu tempo para pesquisar o Caminho, incrementariam a sua capacidade de ver e ouvir. Porque, não escutar nem investigar é como permanecer cego e surdo na companhia dos outros.


Os indivíduos ordinários dedicam-se a empreendimentos sob a premissa do lucro ao passo que os exemplares se dedicam a empreendimentos sob a premissa da justiça. Fazer o bem não deve estar em função da reputação, pois a reputação acompanha o facto. A antecipação não antecipa o lucro; o lucro conduz a ela. Aquilo que se busca pode ser o mesmo, mas a meta última difere. Por isso mesmo, o que ocorre a seguir ao ganho é a perda. Aqueles cujas palavras não são verdadeiras e cujo comportamento não é coerentemente adequado, não passam de indivíduos ordinários. Aqueles que são perceptivos numa só questão e possuem grande habilidade numa só actividade, são indivíduos medianos. Aqueles que possuem tudo e fazem uso das suas habilidades de maneira equilibrada, são sábios.


Posição hierárquica, poder e riqueza são coisas que as pessoas ambicionam, mas que quando comparadas ao corpo, são insignificantes. Portanto, os sábios ingerem o suficiente para preencher o vazio e manter a energia, e vestem o suficiente para cobrir os seus corpos e evitar o frio. Ajustam-se às suas condições reais e recusam o descanso, não ambicionam ganhos e não acumulam muito.

Clareando a visão eles deixam de olhar; aquietando os seus ouvidos, deixam de escutar. Fechando a boca, não falam; acalmando a mente, eles não pensam. Abandonando o intelectualismo, retornam eles à absoluta simplicidade. Descansando o seu espírito vital, eles desapegam-se do conhecimento. Por isso eles não têm preferências nem aversões. Chama-se a isso grande vitória.
Libertar-se da poluição e eliminar os fardos; nada pode ser comparado a permanecer junto à fonte. Assim, que acção não sairá vitoriosa?

Aqueles que sabem como alimentar a harmonia da vida não podem ser dominados pelo lucro. Os que sabem como obter a unidade interna e externa não podem ser seduzidos pelo poder. O lugar do que fica além de onde não há lugar é bastante vasto; o interior daquilo que nada tem dentro de si, é extremamente precioso. Se conhecermos o que é grande e precioso, onde poderíamos ir sem ter êxito?


Não empreenda acções que podem ser repudiadas, mas não fique ressentido se as pessoas o repudiarem. Cultive virtudes dignas de elogio, mas não espere que as pessoas o elogiem.
Não poderá impedir a ocorrência de uma calamidade, porém, confie em si mesmo a fim de não a atrair. Poderá nada fazer para que a boa sorte chegue, mas confie em si mesmo para não a afastar. Quando a calamidade ocorre, como não foi seu causador, não se aflige por se achar em dificuldades. Quando a boa sorte sucede, já que não é por conquista sua, não fica presunçoso por estar a obter vitórias.
Desse modo vive em paz, aproveita a ausência de esforço, e no entanto há ordem.


A sabedoria nada tem a ver com governar os outros, mas é uma questão de ordenar a si mesmo. A nobreza nada tem a ver com posição social nem poder, mas é uma questão de autorrealização; obtenha essa autorrealização e o mundo inteiro poderá encontrar dentro de si. A felicidade nada tem a ver com poder nem posição social, mas é uma questão de harmonia.

Aqueles que sabem o suficiente para considerar o ser interior como importante e o mundo como secundário estão perto do Caminho. Portanto, eu digo: “Alcançando o extremo do vazio, mantendo-se completamente imóvel enquanto miríades de seres agem em concerto, desse modo observo eu o retorno.”

O Caminho molda miríades de seres, mas sempre é destituído de forma. Silencioso e imóvel, ele inclui totalmente o desconhecido indiferenciado. Nenhuma vastidão é suficientemente grande para se achar no exterior dele, nenhuma pequenez é suficientemente pequena para estar dentro dele. Ele não tem abrigo mas dá origem a todos os nomes do que existe e do que não existe.

Os indivíduos autênticos corporificam isso através de uma vacuidade aberta, através de um sossego equânime, uma clareza higiénica, uma tolerância flexível, uma pureza não-adulterada e uma plena simplicidade, sem se confundir com as coisas. A sua perfeita virtude é o Caminho do céu e da terra, razão porque são chamados indivíduos autênticos. As pessoas verdadeiras sabem de que modo considerar o ser interior como grande e o mundo como pequeno. Elas preferem o autogoverno e desprezam o acto de governar os outros. Não permitem que as coisas perturbem a sua harmonia, nem deixam que os seus desejos desorganizem os seus sentimentos. Ocultando os seus nomes, escondem-se quando o Caminho é atacado e expõem-se quando não é. Agem sem artifícios, trabalham sem esforço e conhecem sem intelectualizar.
Apreciando o Caminho do céu, aceitando o coração do céu, as pessoas verdadeiras respiram escuridão e luz, exalam o velho e inalam o novo. Fecham-se com a escuridão e abrem-se com a luz. Enrolam-se com a firmeza e desenrolam-se com a flexibilidade, contraem-se com a escuridão e expandem-se com a luz. Possuem a mesma mente que o céu, o mesmo corpo que o Caminho.
Nada as agrada, nada é penoso para elas, nada as delicia nem irrita. Todas as coisas são misteriosamente iguais, sem que exista certo nem errado.

Aqueles que são fisicamente feridos pela tortura das condições climáticas extremas percebem que o espírito é sufocado quando o corpo se torna exausto. Aqueles que são psicologicamente feridos pela aflição das emoções e dos pensamentos, percebem que o corpo é abandonado quando o espírito se torna exausto. Portanto, os indivíduos autênticos retornam deliberadamente à essência, confiam no apoio do espírito e assim alcançam a plenitude. Desse modo, dormem sem sonhos e despertam sem preocupações.


   Ao longo de toda a vida humana a atenção deve raiar o detalhe, enquanto que a aspiração deve ser nobre; o conhecimento deve ser perfeito, ao passo que a acção deve ser recta; Devemos cultivar o talento e albergar poucas preocupações.
Atenção detalhada significa avaliar os problemas antes de surgirem, precavendo-nos contra a calamidade pelo uso do cuidado com as coisas pequenas e subtis, sem se ousar tornar autoindulgente.

 Grandiosidade na aspiração significa abarcar diferentes nações e unificar diferentes culturas, colocando-nos, qual eixo,  no centro dos diferentes juízos acerca de “certo e errado”.
Conhecimento perfeito implica ausência de começo ou fim, mas fluindo em todas as direcções e brotando de forma inesgotável de fonte profunda.
Acção recta significa permanecer erguido imperturbável, conservar-se puro e sem manchas, manter o autocontrole quando se está em dificuldades e abster-se da autoindulgência quando se é bem sucedido.

Cultivar o talento significa tornar-se competente tanto na cultura como na defesa, e agir deforma correcta tanto na acção como no repouso, no que se aceita ou rejeita, no que se dispensa ou estabelece.
Sustentar poucas preocupações significa ter consciência do que é essencial a fim de se compreender o múltiplo, ater-se ao mínimo a fim de governar o máximo, viver com tranquilidade a fim de ser capaz de suster a actividade.
Desse modo, aqueles que são capazes de exercer uma atenção pelo detalhe tornam-se capacitados a exercer um controle subtil; aqueles cuja aspiração é nobre fazem tudo com um sentimento do coração; aqueles que possuem um conhecimento perfeito, tudo conhecem; aqueles cuja acção é recta são capazes de empreender qualquer coisa; aqueles que são detentores de habilidade e talento dominam qualquer coisa que empreendam; por fim, aqueles que detêm poucas preocupações minimizam o que possuem.

Por isso, a atitude dos sábios com relação ao bem é a de que ninguém é tão insignificante que a não possa praticar; com relação ao erro, e a de que ninguém é tão impotente que não possa corrigi-lo; Não é preciso recorrer a adivinhos a fim de apurar as acções a tomar. No entanto nem espíritos nem fantasmas se atrevem a avançar; isso é considerado extremamente valioso. A despeito disso mantêm-se extremamente cautelosos e alerta, e são cuidadosos com os assuntos do quotidiano. É assim que alcançam a unidade espontânea.

 O conhecimento das pessoas comuns é limitado, no entanto as coisas que empreendem são incontáveis. Por isso os seus empreendimentos esgotam-se após algum tempo. Desse modo, torna-se fácil melhorar a tendência dos acontecimentos por meio da educação correcta, o que conduzirá ao sucesso, enquanto que é difícil melhorar a tendência dos acontecimentos por meio de uma educação equivocada, do que, inevitavelmente resulta fracasso. Abandonar aquilo que é fácil e certo de ser bem-sucedido, e empreender aquilo que é difícil e certo de fracassar, é conduta de ignorância e confusão.


   Os começos da boa sorte são subtis; as origens da calamidade são confusas. Os factores determinantes da calamidade e da boa sorte são tão subtis que podem resultar imperceptíveis. Os sábios interpretam os seus indícios, razão por que devem ser incessantemente observados.

As recompensas e castigos decididos pelo governante iluminado não se definem em função do que eles fizeram com relação ao país. Não designam recompensas para quantos procuram agradar os próprios governantes e nada fazem pelo país; tampouco punem aqueles que atacam os governantes mas por seu lado se revelam úteis ao país.

Portanto, quando a justiça e o dever têm por base o que é apropriado, aquele que corporifica tal condição é tratado como exemplar. Aqueles que negligenciam a justiça e o dever apropriados são chamados de menores.

O conhecimento penetrante vence sem esforço. O tipo de conhecimento que se lhe segue é empreendedor mas isento de sofrimento. Os tipos inferiores desconhecimento implicam esforço e sofrimento.

As pessoas de antigamente eram sensíveis, porém, não possessivas; as de hoje são possessivas e não sensíveis.





   Não há, no mundo, julgamento fixo sobre o que seja certo ou errado. Cada pessoa julga correcto aquilo que considera agradável e errado o que considera desagradável. Desse modo, a busca do “correcto”  não é uma busca da verdade mas tão só uma busca da concordância; do mesmo modo, não consiste, no abandono do “errado” mas tão só no abandono daqueles que discordam nos nossos pontos de vista, sentimentos e ideias. Se quiser escolher o que seja certo e deixar-me guiar por isso (do mesmo modo que afastar-me do “errado”) não devo considerar aquilo que a sociedade preza como certo e errado.

   Aqueles que buscam o consenso são cada vez mais apreciados à medida que as suas palavras produzem resultados; os que se mostram indiferentes são encarados com desconfiança à medida que as suas estratégias alcançam os seus objectivos. Mas se quiser ser pessoalmente correcto em relação aos outros, como deverei considerar o modo como a sociedade me encara? Se participar na “corrida desenfreada” comum, isso será como tentar fugir dum aguaceiro súbito; seja para onde for que me volte não deixarei de ser atingido pela chuva.

Quando o sábio cumpre o Caminho, ele adopta a imutabilidade a fim de administrar a mudança; permanece naturalmente vazio, sem forçar. Isso produz toda a diferença. Ele age mas não usa do artifício.



   Se não estudarem com sinceridade não serão capazes de escutar adequadamente o Caminho. Escutar é transmitir sabedoria, estimular a atenção e conduzir à realização e à honra. Se não forem sinceros não produzirão a clareza, a profundidade nem a eficiência necessárias; desse modo, a aprendizagem mais elevada envolve a escuta do espírito; a aprendizagem média inclui a escuta da mente e a aprendizagem inferior corresponde à escuta do ouvido.

O aprendizado daqueles que escutam com o ouvido fica-se pela superfície; o aprendizado daqueles que escutam com a mente penetra até à carne; o daqueles que escutam com o espírito penetra até aos ossos e à medula.

   Se não escutarem algo com profundidade não poderão conhecê-lo com clareza nem mergulhar na sua essência; se não conseguirem mergulhar na sua essência, não poderão aperfeiçoar a sua aplicação prática. Os princípios gerais da escuta consistem em esvaziar a mente de modo que permaneça calma e com clareza; não se deixar conduzir pelos humores (estados de espírito) e não entreter preocupações nem cismas. Não observem de forma aleatória nem escutem de modo casual. Concentrem a vitalidade da mente de forma a poder desenvolver-se e a atenção interior se consolide. Uma vez isso alcançado, deve estabilizá-lo e preservá-lo, expandindo-o e perpetuando-o.

   A obtenção do Caminho tem um começo, que se inicia na fraqueza e se transforma na força; tem início na leveza e transforma-se em grandeza; uma grande árvore começa com uma pequena muda; um prédio gigantesco tem início nos alicerces. Tal é o modo de ser natural. O sábio imola-se nessa natureza, rebaixando-se com humildade e retirando-se para último lugar e diminuindo-se a si mesmos através da frugalidade e do desapego. Permanecendo humildes serão honrados; sendo retraídos, precedem os demais; sendo frugais tornam-se repletos; sendo diminuídos tornam-se grandes. Tudo isso é realizado pelo Caminho Natural.

Esse Caminho é a base da virtude, a raiz do céu, a porta da fortuna. Todos os seres dependem dele para chegar a ter vida, crescer e alcançar estabilidade.

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