sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

SOBRE A CONFIANÇA EM SI MESMO - EMERSON


Sobre a Confiança em Si Mesmo

         Seguido de excertos de A  Natureza



Em 1838 Emerson escreveu que parecia que a distinção da nova era deveria vir a assentar na recusa da autoridade. Nesse ano discursou na Universidade de Harvard em que confrontou e desafiou a autoridade estabelecida. O discurso causou uma enorme afronta e despertou uma feroz oposição. Apontava a escassez que grassava nas paróquias e a imobilidade da religião, e argumentava a favor da necessidade de todo um novo modo de revelação, o que, na circunstância da época e do local, representava um feito anarquista ímpar. Com isso deixou de ser convidado para discursar na Universidade de Harvard por trinta anos. Mas nessa altura desfechou a ruptura final com a Igreja. Já tinha resignado ao cargo que assumira de ministro em 1832, mas tinha continuado a pregar em Concórdia. Agora, porém, ele sentiu que tinha que se dissociar até mesmo da burocracia residual do púlpito.

   Hawthorne descreve-nos um gracioso retracto do sábio sereno e amistoso de Concord durante os seus passeios diários. Era bom encontrá-lo nos caminhos das florestas, ou, às vezes, na nossa avenida, com aquele puro brilho intelectual difundido em torno da sua presença, como brilhante vestidura; tão calmo, tão simples, tão despretensioso, indo ao encontro de cada homem vivo como se esperasse receber mais do que poderia dar...”

Não havia, na sua atitude, ódio, rancor ou desdém, mas apenas perdão e amor infinito.

   Os seus críticos caracterizavam a sua filosofia como uma “filosofia em que nada é tudo no geral, e tudo é nada em particular”- definição tão falsa quanto faceta: “Em todas as minhas conferências preguei uma doutrina, a da infinidade do homem particular.”

   Na verdade, porém, Emerson não possuía um sistema preciso de filosofia. O seu pensamento não tinha, propositadamente, consistência dogmática. “Uma tola Consistência”, observou, “é um fantasma para os espíritos tacanhos.” Para ele o poder constituía palavra-chave. "A Lei da Natureza diz para agirmos; assim se obterá o poder." (Compensação) "O poder constitui na natureza a medida essencial do correcto." E para ele o poder era inseparável do movimento.

   Não tinha ele pretensão de conhecer a verdade. A verdade, dizia, é tão difícil de agarrar e engarrafar quanto a luz. Tudo o que se esforçava por fazer era apanhar, aqui e ali, um fio isolado que lhe parecesse parte de um desenho intrincadamente tecido, porém definido, de uma Providência benevolente. Esses fios podem ser rapidamente reunidos da seguinte maneira: todos os homens são partes vitais de um organismo – a humanidade.

   “Estamos sempre à beira de tudo quanto é grande. Confiai em vós mesmos. Reclamai a vossa parte na grandeza da vida. Aprendei a relação entre que existe entre o humano e o divino. Entregai-vos à força que tendes dentro de vós – não à força de escravizar, mas à força para libertar, para ajudar. Ousai tornar-vos senhores dos vossos próprios destinos e ensinai toda a gente a ousar da mesma maneira.

   Sede joviais! Este mundo pertence aos alegres, aos enérgicos, aos ousados. Ousai afirmar-vos como cidadão acreditado da Humanidade. O vosso nascimento neste mundo não foi um erro. Sois um convidado para o banquete da vida. E aquele que vos enviou o convite não é hospedeiro mesquinho. A generosidade divina está oculta em algum lugar, atrás do mistério da criação. Há inteligência e boa vontade no coração das coisas.

   A vida do homem é uma busca pela amizade, uma luta pela reunião de classes da alma humana. Mas a verdadeira amizade não é apenas uma paixão, mas também um acto da alma. É um jogo divino de dar e receber. A única maneira de ter um amigo é ser um amigo. Devemos aprender a apertar mãos heróicas em mãos heróicas.”

   Essa concepção activa e heróica da amizade é, para Emerson, a única coisa verdadeira num mundo de sombras.

   “Cultivai a arte da amizade e vós vos aproximareis do coração da realidade. Deixareis de contemplar o arco-íris e vereis a verdadeira fonte de luz. Se o homem pudesse inspirar uma terna bondade em relação às almas dos homens e viesse a sentir que cada homem era uma outro eu... esse sentimento provocaria as mais impressionantes mudanças nas coisas externas.”            

   Dai voz às vossas convicções latentes e o seu sentido tornar-se-á universal; porque no devido tempo o que é interior se tornar exterior e o nosso primeiro pensamento nos vir a ser restituído pelas trombetas do Juízo Final. O maior mérito que conhecemos a Moisés, Platão ou Dante é o de não terem feito nenhum caso dos livros e das tradições e de terem dito, não o que pensavam os homens, mas o que eles próprios pensavam.

   O homem deveria aprender a detectar e a observar este vislumbre, que do interior atravessa o seu espírito como um raio, mais do que a cintilação do firmamento dos bardos e dos sábios. E no entanto, sem lhe dar importância, cada um afasta tal pensamento, por ele ser seu. Em toda a obra de génio reconhecemos os nossos próprios pensamentos rejeitados: eles regressam a nós com uma certa majestade alheia. As grandes obras de arte não nos dão lição mais válida que essa. Ensinam-nos a persistir nas nossas impressões genuínas com serena inflexibilidade, sobretudo quando o coro das opiniões se encontra no campo oposto. Assim, poderá ser um estranho, amanhã, a dizer-nos precisamente, e com magistral com senso, aquilo que sempre pensamos e sentimos, e ver-nos-emos constrangidos e envergonhados a receber de outro aquela que era a nossa própria opinião.

   Chega um momento, na educação de todo o indivíduo, em que ele se convence de que a inveja é ignorância; de que a imitação é suicídio; de que deve procurar saber aceitar-se a si mesmo para o melhor e para o pior, conforme a sorte que lhe coube; de que mesmo que o bem abunde no universo nenhum grão nutriente poderá alcançar sem ser por intermédio do labor que consagre ao bocado de terra que lhe foi dado a cultivar. O poder que nele reside é, por natureza, novo, e ninguém senão ele próprio pode saber o que pode fazer; além disso não o saberá senão quando o experimentar.

   Não é por acaso que tal rosto, tal personalidade, tal acontecimento o impressionam fortemente enquanto outros o deixam indiferente. O que se agrava na  memória não existe sem harmonia pré-estabelecida. O olho foi posto aí onde devia cair um raio de luz a fim de que ele pudesse testemunhar da presença desse raio particular. Nós não nos exprimimos senão pela metade. e sentimos vergonha dessa ideia divina que cada um representa. Pode dizer-se, com toda a certeza e confiança que ela foi repartida de maneira justa e equitativa a fim de ser fielmente transmitida, mas a obra de Deus não pode ser testemunhada por covardes.

   Um homem torna-se assertivo e alegre se empenhar o coração em todo o seu trabalho e der o seu melhor; mas o que ele disser ou fizer de outro modo não lhe trará a paz. Será uma libertação que não liberta; e entretanto o seu génio abandoná-lo-á; nenhuma musa lhe sorri, nenhuma criação, nenhuma esperança.

   Confia em ti próprio: cada coração vibra através desta corda de aço. Aceita o lugar que a divina providência encontrou para ti, a sociedade dos teus contemporâneos, o encadeamento dos factos. Os grandes homens sempre fizeram assim e, tal como as crianças, abandonaram-se ao génio da sua época, testemunhando desse modo a sua percepção de que o absolutamente digno de confiança residia no seu coração, manifestando-se através das suas mãos e predominando em todo o seu ser. E somos nós agora também homens, e devemos acolher com a mais elevada convicção o nosso destino transcendente. Não sejamos menores e inválidos a um canto protegidos, nem covardes fugitivos diante duma revolução, mas guias, redentores e benfeitores, obedecendo ao esforço do Todo-Poderoso e triunfando sobre o Caos e as Trevas.

   Que belos oráculos a natureza nos estende sobre este assunto no rosto e comportamento das crianças, nos recém-nascidos e até nos animais. Eles não têm o espírito dividido e rebelde nem qualquer desconfiança com relação a um sentimento. Achando-se o seu espírito intacto, o seu olhar não se acha ainda vencido; quando fixamos o seu rosto ficamos desconsertados. A infância não se molda a ninguém, todos se lhe moldam. Assim, Deus, concedeu igualmente à juventude, à adolescência e à maturidade o seu próprio sabor e fascínio, tornando-as desejáveis e graciosas com as suas particulares exigências, na medida em que cada uma se afirma por si própria. Não pensem que o ser jovem não tenha força própria só por não ser capaz de articular uma conversa convosco ou comigo.

   O jovem representa o centro das atenções: independente, irresponsável, enquanto observa do seu canto o que acontece e as pessoas que passam, e julgando, e emitindo sentenças sobre os seus méritos no modo célere e sumário da juventude, achando-as boas, más, interessantes, estúpidas, eloquentes ou fastidiosas; sem jamais se preocupar com interesses ou consequências, emite ele um veredicto independente e autêntico. É a vós que cabe cortejá-lo, porque ele não os cortejará nunca. O homem maduro é como se estivesse encerrado na prisão pela sua consciência.

   Uma vez que tenha agido  ou falado com brilho, torna-se comprometido e os outros passam a reparar nele pela compaixão ou a raiva que apresenta, pelo que deve desde então tomar em conta os sentimentos. mas para isso não existe nenhum Lethes. Ah, se ele pudesse regressar à sua neutralidade anterior. Mas aquele que consegue também ditar os seus compromissos, e tendo observado, observar de novo com a mesma inocência imparcial, incorruptível, desprovida de medo e de afecção, esse não pode senão ser formidável. Poderia emitir opiniões sobre todos os assuntos, opiniões essas que, sendo consideradas não como pessoais mas como necessárias, penetrariam como dardos nos ouvidos dos outros e os encheriam de temor.

   São essas as vozes que ouvimos na solidão, mas que se tornam fracas e inaudíveis desde que entramos no mundo. Por todo o lado a sociedade conspira contra a virilidade de cada um dos seus membros. A virtude mais procurada é o conformismo. Pela confiança em si ela não tem senão aversão. Ela não ama as realidades e as criaturas mas os nomes e os costumes.

   Aquele que quiser ser um homem deverá ser não conformista. Aquele que quiser colher louros imortais não deve ser impedido disso em nome da bondade, mas deve indagar se se trata verdadeiramente de bondade. Nada em definitivo é sagrado senão a integridade do vosso espírito. Absolvei-vos a vós próprios e recebereis o sufrágio do mundo.

   Recordo-me da resposta que dei, quando bastante jovem, com prontidão a um estimado conselheiro que tinha o hábito de me importunar com as boas velhas doutrinas da Igreja. Enquanto eu lhe dizia "Que tenho eu que ver com as tradições, se vivo totalmente da minha interioridade?" ele respondia-me: "mas tais impulsos podem vir-te de baixo, e não do alto." Ao que eu retroquei: " Não me parece que sejam; mas se sou filho do demónio, pois bem, viverei segundo a lei do demónio." Nenhuma lei pode ser sagrada aos meus olhos, se não for a da minha própria natureza.

   O bem e o mal não são senão nomes que podemos facilmente transpor; só é bom o que é conforme à minha natureza e só é mau o que vai contra ela. Diante de cada obstáculo, cada um deve comportar-se como se todas as coisas fossem aparentes e efémeras, salvo ele próprio. Sinto vergonha quando penso na facilidade com a qual capitulamos diante das insígnias, os nomes, a importância das sociedades e as instituições mortas. Todo o indivíduo decente e capaz de articular a fala me toca e comove mais do que convém. Eu deveria erguer-me, cheio de um impulso vital, e em todos os casos, pronunciar a linguagem crua da verdade.

   Caso a malignidade e a vaidade usam a veste da filantropia, será preciso aceitá-lo? Se um fanático abraça a causa generosa da abolição da escravatura e vem visitar-me trazendo-me as últimas notícias de Barbados, porque não deverei eu dizer-lhe: "Ama o teu filho, ama o lenhador que trabalha para ti e não disfarces a ambição dura e egoísta que sentes com o verniz dessa incrível ternura que nutres por negros que se encontram distantes daqui por milhares de quilómetros. O amor que nutres pelo que está distante não é senão o desprezo que sentes pelo que se encontra próximo. Decerto que essa seria uma abordagem fracassada e destituída de graça, mas a verdade é mais elegante que a afectação do amor. A bondade que sentes deve traduzir alguma verdade - ou será nula. A doutrina do ódio deve ser pregada como oposição à doutrina do amor sempre que isso geme e choraminga. Eu evito pai e mãe, esposa e irmão sempre que o génio clama por mim. Escreverei, de bom grado, no frontão da sua entrada: "Capricho."

   Não esperem que eu aponte as razões por que procuro ou rejeito a companhia. Não se me dirijam conforme o fez hoje um bom homem, do dever que me cabe de pôr todos os pobres em melhores condições. Serão eles os meus pobres? Digo-te, filantropo estúpido, que lamento os cobres que dou àqueles que não estão do meu lado e do lado dos quais não estou. Mas existe, pelo contrário, uma categoria de pessoas, à qual, em virtude de afinidades espirituais, eu pertenço totalmente; por elas eu iria para a prisão, se fosse preciso; mas a vossa promíscua caricatura popular, o ensino universitário para imbecis, a construção de salas de reuniões para fins completamente vãos para a qual muitos contribuem, as esmolas dadas a embrutecidos, e as sociedades de socorro muitas vezes falidas; embora deva confessar com um certo embaraço que, se algumas vezes também eu sucumbo e dou o meu cobre, não se trata senão de um dinheiro culpado que pouco a pouco terei a coragem viril de nunca mais dar.

   As virtudes são, segundo a opinião geral, mais a excepção do que a regra. Há o homem e há as suas virtudes. Os homens fazem o que se chama uma boa acção, como um acto de coragem e de caridade, como se tivessem que expiar com alguma multa a sua ausência à exibição diária no passeio público. As obras que pratica fazem-nas como uma desculpa ou circunstâncias atenuantes ao que é a sua vida no mundo - assim como os inválidos e os loucos pagam um tributo elevado. As suas virtudes mais se parecem com penitências. Eu não quero expiar mas viver. A minha vida existe para si própria e não para o passeio público. Prefiro de longe que ela exista num modo menor a fim de ser justa e autêntica, do que ela brilhe de um fulgor instável. Quero que ela seja doce e sã, e não tenha qualquer necessidade de dieta ou de sangrias. Peço antes de mais que demonstreis ser homem e recuso-me a transferir tais atributos do homem para as suas acções. Para mim, quer realize, quer rejeite essas acções que são tidas como excelentes, isso não faz nenhuma diferença. Por pouco numerosos e humildes que sejam os talentos que possuo, eu existo realmente, e para minha própria garantia ou dos meus concidadãos, não tenho necessidade de nenhum outro testemunho.

   O que eu devo fazer é tudo quanto me diz respeito, e não o que as pessoas pensam. Esta regra, igualmente árdua na vida prática e na vida intelectual, pode servir para medir toda a diferença entre a grandeza e a baixeza. Tanto mais árdua será quanto encontrareis constantemente pessoas que pensam saber qual será o dever que vos cabe melhor do que o sabeis vós próprios. É fácil, estando no mundo, viver segundo a opinião do mundo; é fácil, na solidão, viver segundo a nossa, mas tem grandeza aquele que no meio da multidão guarda com uma serenidade perfeita a independência da solidão.

   A objecção a fazer quanto ao respeito de usos tornados para vós letra morta repousa no facto de que isso delapida as vossas forças. Isso dissipa-vos o tempo e ofusca a marca do vosso carácter. Se cada um apoiar uma Igreja morta, se aderir a uma sociedade bíblica morta, se votar num grande partido, quer ele seja por ou contra o governo, se puser a mesa como o faz uma vulgar dona de casa - por detrás de todas essas cortinas difícil se tornará captar o homem que ele é, assim como obviamente representa uma enorme quantidade de energia retirada à suas vida própria. Faz o teu trabalho e eu reconhecer-te-ei. Faz o teu trabalho e sairás fortificado. O homem deve dar-se conta de que o jogo do conformismo não é senão um jogo de cabra cega.

   Se eu souber a que seita pertences, conhecerei antecipadamente os teus argumentos. Ouço um pregador anunciar os seus textos e o assunto: a utilidade de uma das instituições da Igreja. Não saberei portanto antecipadamente que será impossível que ele pronuncie palavras novas e espontâneas? Não saberei eu que, com toda a ostentação que coloca na disponibilidade para examinar os fundamentos da instituição, ele não o fará? Não saberei eu que ele se encontra comprometido a não considerar senão um aspecto (aquele que é autorizado), não enquanto homem mas enquanto ministro da paróquia a que pertence? Ele é como um mandatário dotado de uma retribuição, e os seus ares de livre tribuno não são senão afectação vazia.

   Pois bem, a maior parte dos homens vendou os olhos com um lenço e ligou-se a uma outra dessas comunidades de opinião. Tal conformismo faz com que eles se enganem não em certos pontos, tornando-se autores de certas mentiras, mas em todos os pontos. Nenhuma das suas verdades é totalmente verdadeira. O que eles chamam de dois não é o mesmo que dois, e o mesmo sucede com o que chamam de quatro, de tal modo que cada palavras que pronunciam nos mortifica e não sabemos por onde começar para as endireitar. E durante esse tempo a natureza não demora a fazer-nos envergar a vestimenta de prisioneiro do partido a que aderimos. Chegamos todos a adoptar um único padrão de rosto e figura e adquirimos gradualmente a mais mole expressão de estupidez. Mas há uma experiência particularmente mortificante que se produz também na história geral; estou a referir-me ao ar estúpido do elogio, o sorriso forçado que arvoramos quando nos encontramos á vontade em sociedade, em resposta a uma conversa que não nos interessa. Os músculos, não movidos pela espontaneidade mas, no lugar dela, por uma obstinação de ordem inferior, apertam-se sob os contornos do rosto com um efeito dos mais desagradáveis.

   Em resposta ao não conformismo, o mundo castiga-nos com o seu desprazer. Por conseguinte, é preciso saber em que conta se deve ter uma expressão amarga. No salão de um amigo ou na rua, os espectadores olham de soslaio. Se tal hostilidade tivesse origem no mesmo desdém e na mesma obstinação que ele experimenta, poder-se-ia muito bem regressar a casa com uma contenção triste; mas as faces amargas ou benévolas da multidão não têm nenhuma causa profunda: são postas e retiradas ao sabor da maré ou por instigação de um jornal qualquer. E no entanto, o descontentamento da multidão é mais forte do que o do senado ou o da universidade. É suficientemente fácil para o indivíduo seguro, conhecedor do mundo, suportar a cólera das classes mais cultivadas. A sua cólera é cortês e prudente porque os seus membros são reservados, sabendo-se eles próprios muito vulneráveis, mas quando à sua cólera um pouco feminina se acrescenta a indignação do povo, quando o pobre e o ignorante se erguem, quando a força bruta e animal que jaze no mais baixo da sociedade ruge e devasta, ocorre então o hábito da religião e da magnanimidade para a tratar soberanamente como um objecto sem importância que não nos diz respeito.

   Há uma outra coisa que nos leva a desviar com terror da confiança que temos em nós mesmos - é a nossa coerência; um respeito pelas nossas palavras ou pelos nossos actos passados para calcular a nossa própria órbita, e repugna-nos desiludi-los.

   Para que é que é preciso manter a cabeça sobre os ombros? Para quê passear esse cadáver da memória com medo de contradizer o que se afirmou em tal ou qual local público? Suponhamos que se contradizem; e depois? A mim, parece-me uma regra de sabedoria nunca contar unicamente com a memória, ainda menos quando se trata de actos de pura memória, mas submeter o passado ao juízo dos múltiplos olhos do presente e viver de cada vez um dia novo. Nas teorias metafísicas negou-se personalidade à divindade, e no entanto, quando os devotos impulsos da alma os surpreendem, concedem-lhes coração e vida, ainda que ao preço de revestir Deus de formas e cores. Tal como José que deixou as suas vestes nas mãos da prostituta, abandonai as vossas teorias e fugi.

   A coerência estúpida perfaz a obsessão das pequenas mentes, adorada pelos mesquinhos homens da política, da filosofia e da teologia.

   Com a coerência, uma grande alma não tem simplesmente nada a fazer. Seria o mesmo que preocupar-se com a própria sombra projectada na parede. Exprimi o que sentis hoje em palavras fortes e dizei amanhã aquilo que pensais com palavras igualmente fortes, mesmo que isso contradiga aquilo que dissestes hoje. "Ah, mas assim serei certamente incompreendido"- será assim tão mau ser incompreendido? Pitágoras foi incompreendido, e Sócrates e Jesus e Lutero e Copérnico e Galileu, e Newton e todo puro e grande génio que alguma vez tenha encarnado foi incompreendido. Ser grande é ser incompreendido. Suponho que nenhum homem pode violentar a sua natureza. Todos os ímpetos da sua vontade são esbatidos pela lei do seu ser, tal como as asperezas dos Andes e dos Himalaias se tornam insignificantes sobre a curvatura do globo terrestre.

   Um carácter é como um acróstico (repetição poética) ou uma estrofe alexandrina: leia-se de trás para a frente, da frente para trás ou de través, ele dirá sempre a mesma coisa...

   Nós passamos por aquilo que somos. O carácter ensina-nos mais do que a vontade. Os homens imaginam que comunicam as suas virtudes ou vícios apenas através de acções claras e não veem que a cada instante tal virtude ou tal vício exala o seu próprio sopro.

   Haverá um acordo entre todas as acções, por mais variadas que sejam, desde que sejam apropriadas e naturais, cada uma no seu momento. Derivando todas de uma única vontade, as acções harmonizar-se-ão entre si, por muito dissemelhantes que possam parecer. Tal variedade perde-se de vista a uma distância mínima, a uma elevação mínima do pensamento. Elas sãi unificadas por uma só e mesma tendência. O trajecto do melhor dos navios não é senão uma linha quebrada formada por centenas de traços enviesados. Observai esse percurso a uma distância suficiente e vereis que ele se endireita, ao se cingir à tendência média.

   A vossa acção autêntica justificar-se-á por si e justificará as vossas demais acções autênticas, enquanto o vosso conformismo não explica nada. Agi com singularidade, e o que já fizestes de modo singular vos deverá justificar-vos-á agora. Aquilo que é grande interpela o futuro. Se eu puder ser suficientemente firme para agir de maneira justa e desprezar o olhar dos outros, devo ter agido de modo suficientemente justo antes para que os meus actos me defendam agora. Aconteça o que acontecer, agi de maneira justa agora. Não tenhais senão desprezo pelas aparências, e isso tornar-se-á sempre possível. A força de um carácter constrói-se por acumulação. Todos os dias passados sob o signo da virtude contribuem para ele com todo o seu vigor.

   O que é que faz a majestade dos heróis o senado ou dos campos de batalha, que assim marcam a imaginação? É uma sequência de dias gloriosos e de vitórias consecutivas. São eles que difundem uma luz harmoniosa sobre aquele que avança. É como se os anjos o acompanhassem com uma escolta visível. É isso que faz vibrar o trovão na voz de Chatham, confere dignidade ao porte de Washington e faz brilhar a própria América no olhar de Adams. Achamos a honra venerável por não ser efémera. É sempre uma virtude antiga. Celebrámo-las hoje por ela não ser dos dias de hoje. Amámo-la e prestámos-lhe homenagem por ela não ser uma armadilha para a nossa afeição e a nossa homenagem, mas depender unicamente de si mesma, provir unicamente de si mesma, e ser consequentemente de uma origem antiga e imaculada, mesmo que se manifeste num ser jovem.

Afrontemos e debelemos as mórbida mediocridade e a abjecta satisfação da nossa época, e lacemos na face do Hábito, do Comércio e da Burocracia aquilo para que tende toda a história, a saber que, onde quer que o homem aja, há um grande responsável a Pensar e a Agir; que um homem verdadeiro não pertence a nenhum outro lugar ou nenhuma outra época, mas constitui o centro das coisas. Onde ele se encontra, encontra-se a natureza. Ele avalia-vos tal como avalia todo o homem e todo o acontecimento. Habitualmente, cada um na sociedade nos lembra algum outro ou alguma coisa. O carácter, a realidade, não nos recordam nada; remetem a toda a criação. O homem tem de ser tão intenso que torne todas as circunstâncias indiferentes. Cada homem verdadeiro é ao mesmo tempo causa, país e época. Ele necessita dos espaços, dos números infinitos e do infinito do tempo para realizar plenamente o seu desígnio - e a posteridade parece seguir os seus passos como um cortejo servil...

   Que cada homem conheça, pois, o seu valor e mantenha estas coisas sob controlo o que ele não vá de modo nenhum espiar nem roubar, esconder-se como um covarde, um bastardo ou um intruso, num mundo que existe para ele. Mas o homem da rua, não encontrando em si nenhuma valor correspondente à força que construiu uma torre ou esculpiu um deus de mármore, sente-se miserável quando os contempla. Para ele, um palácio, uma estátua ou um livro caro parecerão dissuasivos e estranhos, e parecerão dizer-lhe: "Quem é que você pensa que é?" E no entanto eles são seus, ao aspirarem à sua atenção e ao anunciarem por uma petição endereçada às suas faculdades, que elas vão vir ao de cima e tomar posse do que lhes pertence. O quadro aguarda o meu veredicto; ele não está ali para me impor a sua pretensão ao aplauso. A fábula popular do imbecil que foi apanhado a cair de bêbado na rua, levado para o palácio do duque, lavado, vestido e deitado na cama do duque, e que ao acordar tratado com todo o cerimonial e reverência reservados àquele, e a quem asseguraram que tinha perdido a razão, tal fábula deve a popularidade de que goza ao facto de simbolizar na perfeição a condição do homem que no mundo representa uma espécie de imbecil, que ao exercer a sua razão descobre ser um verdadeiro príncipe.

   Aquele que quiser ser um homem não deve tornar-se conformista. Aquele que quiser colher louros imortais não deve ser impedido disso em nome da bondade, mas indagar se se tratará verdadeiramente de bondade. Nada em definitivo é sagrado senão a integridade do vosso espírito. Absolvei-vos a vós próprios e recebereis o sufrágio do mundo. Nenhuma lei pode ser sagrada a meus olhos, se não for a da minha natureza. O bem e o mal não são senão nomes que podemos facilmente transpor; só é bom o que é conforme à minha natureza e só é mau o que concorre contra ela. Diante de qualquer obstáculo deve cada um comportar-se como se todas as coisas fossem aparentes e efémeras, salvo ele próprio. Sinto vergonha quando penso na facilidade com a qual capitulamos diante das insígnias, dos nomes, a importância das sociedades e as instituições destituídas de vida. Todo o indivíduo decente e bem-falante me toca e comove mais do que convém. Sinto vontade de me erguer, imbuído dum impulso vital e, em todos os casos, falar a linguagem crua da verdade.

   É sós que devemos seguir!

   Todos os homens participam do meu sangue e eu do seu...

   Este isolamento não deve ser maquinal mas espiritual; ele deve constituir uma elevação. Por vezes o mundo inteiro parece aliar-se contra ti e insistir para te importunar com enfáticas ninharias. Mas permanece na posição em que te encontras; não te reunas a eles na sua confusão.

   O que nós amamos nós possuímos, mas por causa do desejo privamo-nos desse amor. Se não podemos no imediato elevar-nos até à santificação de um estado de obediência e fé, resistamos ao menos às nossas tentações; entremos em guerra e despertemos a coragem e a tenacidade no nosso coração.

   Nestes tempos sem relevo, isso deve fazer-se dizendo a verdade. Reprime o teu gesto de hospitalidade e afeição sem autenticidade. Não vivas mais segundo o que esperam os seres decepcionados e decepcionantes com quem conversamos.

   Diz-lhes: “Pai, mãe, esposa, irmão, amigo, até aqui vivi convosco segundo as aparências. Doravante pertenço à verdade. Eu não quero de modo nenhum outras obrigações senão as da proximidade. Devo ser eu próprio. Não posso continuar a dividir-me por tal ou qual. Se puderem amar-me pelo que sou, não seremos senão mais felizes.

   Não esconderei de modo nenhum os meus gostos nem as minhas aversões. Depositarei uma tal confiança no facto de que o que é profundo é igualmente santo, que quer ao sol quer sob o luar empreenderei com vigor o que interiormente me agrada e o que o meu coração designa.
Se fordes nobres, amar-vos-ei; se não o forem, não vos farei sofrer nem a mim, com atenções hipócritas.

   Se forem sinceros mas não partilharem da minha verdade, permanecei com os vossos companheiros; eu procurarei os meus. Isso, não o faço com egoísmo mas com humildade e na verdade.
  
     Qualquer que seja o tempo durante o qual tenhamos vivido na mentira, é do vosso interesse, tal como é do meu e do de todos os homens viver na verdade.
Parecer-vos-á isso hoje demasiado duro?
Bem depressa amareis o que é ditado pela vossa natureza, tal como eu pela minha, e se seguirmos a verdade, isso salvar-nos-á finalmente”.

   Agindo desse modo, talvez possais causar desgosto aos vossos amigos. “Certamente, mas não posso negociar a minha liberdade e a minha potência com a sua sensibilidade. Por outro lado, todos os seres são dotados de razão quando perscrutam o domínio da verdade absoluta; por isso, prestar-me-ão justiça e farão o mesmo”.

   A massa das pessoas pensa que rejeitar os critérios reconhecidos pela multidão seja equivalente a rejeitar a totalidade dos critérios e que essa não seja senão uma atitude de contradição. O sensualista audacioso fará também uso do nome da filosofia para enfeitar os seus crimes. Mas a lei da consciência permanece. Existem duas espécies de confessionário, num ou noutro devemos ser absolvidos. Podeis cumprir as vossas obrigações fazendo luz sob vós próprios, directamente ou de modo reflexo. Indagai se satisfizestes as vossas obrigações para com pais, vizinhos, cidade, cão e gato; se algum destes pode dirigir-vos censuras. Mas eu posso igualmente negligenciar este critério indirecto e absolver-me a mim próprio.
  
   Possuo o rigor das minhas próprias exigências e conheço a perfeição do círculo que nega a perfeição do dever (relativo) a muitos serviços qualificados como tais. Mas se eu posso libertar-me dessas dívidas, isso permite-me não levar em conta o código da moral corrente. Se alguém imagina que esta lei careça de firmeza, que um dia ele observe os seus mandamentos.
  
   Isso exige qualquer coisa de verdadeiramente divino naquele que rejeitou as motivações comuns da humanidade e se arriscou a tomar-se por mestre e a confiar em si como tal. Que o seu coração possa sentir-se pleno de elevação, a sua vontade permaneça constante e o seu olhar lúcido, a fim de que possa, com ardor, ser para si próprio doutrina, lei, sociedade, e que esse singular objectivo seja para ele tão forte quanto a necessidade férrea o é para os demais.

   Quem quer que considere os aspectos actuais daquela que, para a distinguir, nós chamamos de sociedade, perceberá a necessidade de uma tal ética. O coração e os músculos do homem parecem ter sido extirpados, tornámo-nos timoratos, choramingas e desencorajados. Temos medo da verdade, medo do destino, medo da morte e medo uns dos outros. A nossa época não produz grandes seres nem perfeitos. Precisamos de homens e mulheres que renovem a vida e o estado da sociedade, mas vemos que a maior parte das pessoas é de uma natureza insolvente, não sendo capazes de satisfazer as próprias necessidades; têm um sentido de ambição desproporcionado com relação à sua força real, e não deixam de se inclinar e mendigar noite e dia. Conduzimos as questões domésticas de um modo miserável, não escolhemos as nossas actividades, a vocação para belas artes, o casamento, a religião, foi a sociedade que fez a escolha por nós. Tornámo-nos soldados de salão. Esquivamo-nos á difícil batalha do destino, aí precisamente onde nasce a força.

   Se os nossos jovens falham nos seus primeiros empreendimentos, perdem toda a coragem. Se o jovem comerciante falha, os homens dizem que ele está arruinado. Se um espirito dos mais finos estuda numa das nossas universidades e no ano seguinte não ocupa uma função no centro ou subúrbios de uma grande cidade, parece-lhe, tal como aos seus amigos, que tem razão para se sentir desencorajado e queixar-se para o resto da vida sobre a sua existência. Um rapaz vigoroso que experimente à vez todos os ofícios, que seja dado a fazer equipa, que trabalha numa quinta, que se torna vendedor ambulante, que mantém uma escola, que prega, que edita um jornal, que se faz eleger para o Congresso ou ganha um município, e por aí adiante no decurso dos anos, e que, à semelhança do gato, cai sempre de pé, vale cem vezes mais do que um desses fantoches das cidades. Caminha de frente e não experimenta qualquer vergonha por não ter feito estudos que lhe permitissem abraçar uma profissão liberal, porque ele não difere o momento de viver mas vive já. Não tem uma hipótese mas centenas delas.

    Que o estóico possa fazer descerrar os recursos do homem e diga a todos que eles não são salgueiros inclinados, mas que podem e devem praticar o desapego; que com o exercício da confiança em si novos poderes aparecerão; que o homem é o verbo feito carne, nascido para difundir a cura pelas nações; que ele deveria ter vergonha da vulgar compaixão, e que no instante em que age por si mesmo, proclamando leis, editando livros, e lançando idolatrias e costumes pela janela, nós deixamos de experimentar piedade por ele, mas gratidão e respeito; esse mestre devolverá o esplendor à vida do homem, e fará com que o seu nome seja querido por toda a história.
  
   É fácil perceber que uma maior confiança em si deve ser capaz de operar uma revolução nas relações entre os homens e em todas as suas funções; na sua religião; na sua instrução; nos seus objectivos; nos seus modos de vida; na maneira como se associam; nas suas propriedades e nas suas especulações.

A que tipo de orações os homens se entregam! Aquilo a que chamam um serviço religioso não tem nada de coragem, nem de virilidade. A oração dirige-se ao longe e pede que algum enriquecimento estranho intervenha graças a alguma virtude estranha, e perde-se nos meandros infinitos do natural e do sobrenatural, da mediação e do milagre.

     A oração que espera alcançar um favor particular - ou tudo que vai além de toda a medida do bem - tem qualquer coisa de vicioso. A oração é a contemplação dos factos da vida do ponto de vista mais elevado. A contemplação é o monólogo de uma alma radiosa. É o espírito de Deus declarando que as suas obras são boas. Mas a oração como meio de chegar a fins pessoais não passa de roubo e baixeza que deixa supor o dualismo ao invés de unidade entre a natureza e a consciência. Quando o homem for um com o espírito de Deus ele não mendigará. Então, ele perceberá a oração em toda a acção.

 "É nos nossos esforços que reside o sentido oculto da oração. Os nossos melhores deuses estão na nossa valentia." como afirma Catarath.

   O lamento é ainda outra forma de falsa oração. O descontentamento vem da falta de confiança em si e constitui uma enfermidade da vontade. Deplorai as calamidades, se, ao fazê-lo, poderdes ajudar aquele que sofre. Senão, regressai às vossas próprias ocupações, e o mal começará a ser reparado.

 Também a nossa compaixão se revela igualmente vil. Voltamo-nos para aqueles que estupidamente choram e choramos com eles, em vez de lhes transmitir a verdade e a saúde (vigor) por intermédio de bruscos choques eléctricos, colocando-os desse modo, uma vez mais, em ligação com a sua própria razão. A alegria das nossas mãos é o segredo do nosso destino.
  
   Aquele que se ajuda a si mesmo será para sempre bem-vindo entre os deuses e os homens. Diante dele as portas abrem-se de par em par, todas as línguas o saúdam, é cumulado de honras e todos os olhos o seguem sedentos de desejo. Para ele vai toda a nossa afeição mas ele não tem necessidade dela. Louvamo-lo e celebramo-lo com solicitude e desfazemo-nos em desculpas porque ele persistiu no seu caminho e desprezou a nossa desaprovação. Os deuses amam-no porque os homens o odiaram. "Ao mortal que persevera", diz Zoroastro, " são os imortais sagrados favoráveis."

   Tal como as orações dos homens são uma doença da vontade, as suas crenças são uma doença do intelecto. Eles dizem: "Que Deus não nos fale, pois nesse caso morreríamos. Fala tu, fale-nos qualquer homem, e nós obedecer-lhe-emos." Por todo o lado sou impedido de perceber Deus no meu irmão, porque este último fechou as portas do seu templo e não faz mais do que recitar as fábulas que vêm do Deus do irmão dele ou do irmão daquele. A sua suficiência é proporcional à profundidade do seu pensamento e, portanto, ao número de objectos que ela toca e põe, desse modo, ao alcance do discípulo.

   Mas isso faz-se particularmente notável nas crenças e nas igrejas, que são igualmente classificações nascidas de um espírito potente que age sobre o pensamento original do dever e da relação do homem com o Altíssimo.

   Durante um certo tempo passar-se-á isto: o discípulo achará que a sua potência intelectual terá sido acrescida graças ao estudo do espírito do seu mestre. Mas nos espíritos pouco equilibrados a classificação torna-se idolatria, um fim em vez dum meio rapidamente exaurível, de modo que ante o seu olhar os muros do sistema tendem a confundir-se, no horizonte longínquo, com os próprios limites do universo; e os grandes luminares celestes parecerão, a tais mentes, como que suspensas do arco que os seus mestres ergueram. Eles não conseguem imaginar como vós, estrangeiros, tendes o direito de perceber - como ousais ver: "Evidentemente, de um modo ou de outro, roubaste-nos a luz".

   Ainda não compreenderam que a luz indomável, rejeitando todo o sistema, penetrará em qualquer cabana, mesmo na deles. Deixem que espreitem e digam que se trata da sua luz. Se forem honestos e agirem segundo o bem, bem depressa o seu novo estábulo bem cuidado se mostrará demasiado exíguo, demasiado baixo, irá rebentar, tombar, apodrecer e desaparecer, e a luz imortal, em toda a sua alegria e juventude, a luz de milhões de cores e milhões de círculos, irradiará no universo como durante a primeira manhã.

   Os partidos políticos reúnem-se frequentemente em assembleias; quanto maior for o afluxo, mais estrepitoso é o anúncio que fazem. Da mesma forma os reformadores têm as suas convenções e votam, e tomam decisões em massa. Mas ah, meus amigos, não é assim, que o divino se dignará entrar em vós e habitar-vos, mas por um método precisamente inverso. Somente na medida em que o homem rejeita todo o apoio exterior e permanece só é que eu o vejo forte e capaz de vencer. Mas é enfraquecido por cada novo recruta que se vem juntar à sua bandeira...
  
   Um homem não valerá mais do que uma cidade? Não peças nada aos homens, e na mutação infinita serás tu, único pilar sólido, que resplandecerás como suporte de tudo o que te rodeia. Aquele que tem consciência de que o poder é inato, e que permanece fraco por ter procurado o poder por toda a parte em vez de si próprio, percebendo isso lança-se sem hesitações sobre o próprio pensamento; esse ergue-se imediatamente, mantém-se em pé, comanda os membros e realiza milagres; tal como aquele que se mantém sobre os pés é mais forte do que aquele que se mantém sobre a cabeça.

   Sabe, portanto, usar daquilo a que se chama a Fortuna. Com ela, a maior parte dos homens entrega-se aos jogos do acaso, e à medida que a sua roda gira, eles tudo ganham ou perdem. Mas tu, deixa esses ganhos como contrários à lei e não te preocupes senão com a Causa e o Efeito, chanceleres do Divino. Pela vontade trabalha e adquire, e então terás desencadeado a roda da sorte e em seguida não temerás mais as suas variações. Uma vitória política, uma subida dos alugueres, a cura de uma pessoa próxima, o retorno de um amigo, ou qualquer outro acontecimento favorável dar-te-ão coragem e tu pensarás que se preparam dias felizes para ti. Não creias nisso. Nada, fora de ti próprio te pode trazer a paz. Nada te poderá trazer a paz, excepto o triunfo dos princípios.

         Para se isolar, o Homem necessita retirar-se a um tempo dos seus aposentos e da sociedade. Não me sinto solitário enquanto leio ou escrevo, ainda que mais ninguém esteja junto de mim. Mas, se um homem quiser permanecer só, que contemple as estrelas. Os raios que provêm desses mundos celestiais farão a distinção entre si mesmos e aquilo que tocam.

   As estrelas suscitam uma certa reverência porque apesar de presentes são sempre inacessíveis; no entanto, todos os objectos naturais causam uma impressão semelhante, se a mente se achar aberta à sua influência. A natureza jamais enverga qualquer aparência malévola. O homem mais sábio é incapaz de apreender o seu segredo e perde a curiosidade ao descobrir toda a sua perfeição. Para a mente sábia jamais a natureza se transformou num mero brinquedo. As flores, os animais, as montanhas, reflectem a sabedoria da sua melhor idade, do mesmo modo que deliciaram a simplicidade da sua infância.

   Quando falamos da natureza deste modo, não deixamos de ter em mente um sentido distinto mas bastante poético: pretendemos significar a integridade da sensação provocada pelos multifacetados objectos naturais. É esta que distingue o toro de madeira do cortador de lenha da árvore do poeta.

   A encantadora paisagem que vi esta manhã é, indubitavelmente, constituída por vinte ou trinta quintas. Este é o campo do Miller, aquele do Locke e a mata mais além é do Manning. Mas nenhum deles é dono da paisagem. Há no horizonte uma paisagem que nenhum homem possui, excepto aquele cujo olhar for capaz de integrar todas as partes, ou seja, o poeta. É essa a melhor parcela das quintas de tais indivíduos, no entanto é justamente essa que não é nomeada nos títulos de propriedade.

   Para dizer a verdade, poucos adultos conseguem perceber a Natureza. A maior parte das pessoas não vêem o sol. Pelo menos têm um ver bastante superficial. O sol ilumina apenas, aos olhos dos homens, mas brilha aos olhos e no coração da criança. O amante da natureza é aquele cujos sentidos exteriores e interiores se acham ainda verdadeiramente ajustados uns aos outros; o que preservou o espírito da infância mesmo na idade adulta. A sua relação com o céu e a terra é parte da nua nutrição diária. Na presença da Natureza, um incontrolável deleite percorre este homem, apesar dos desgostos que sofre. A Natureza afirma: - “ele é criatura minha, e malgrado todo o seu sofrimento importuno, sentir-se-á feliz comigo”.

   Já uma vez, ao crepúsculo, quando atravessava um campo aberto coberto de charcos de neve derretida sob um céu nublado, sem que os meus pensamentos se achassem ocupados com qualquer acontecimento especialmente feliz, senti tal exaltação completa. Senti-me satisfeito até ao limite do medo. Também nos bosques um homem se despe dos anos como a cobra da pele, permanecendo sempre criança, qualquer que seja a sua idade. Existe nos bosques uma juventude perpétua. Nestas plantações divinas onde reinam decoro e santidade, está sempre preparado um perene festim de tal modo que, o convidado não vê que se possa fartar ainda que passem mil anos. Nos bosques voltamos à razão e á fé. Aí sinto que nada me pode acontecer na vida - nem desgraça nem calamidade - que a natureza não possa reparar. De pé sobre a terra nua, com a cabeça banhada pelo ar festivo e transportada ao espaço infinito, todo o egoísmo mesquinho se desvanece. Transformo-me num globo ocular transparente; não sou nada mas tudo percebo; as correntes do Ser Universal circulam através de mim; sou parte ou parcela de Deus. Sou o amante da beleza livre e imortal. No deserto encontro algo mais caro e mais inato do que nas ruas e aldeias. Na paisagem tranquila, especialmente na distante linha do horizonte, o Homem vislumbra algo tão belo quanto a sua própria natureza.

   O maior prazer que os campos e os bosques podem proporcionar é o da sugestão de uma relação oculta entre o homem e as plantas. Não me encontro só sem reconhecimento. Elas cumprimentam-me e eu a elas. O agitar dos rebentos na tempestade é para mim, a um só tempo novo e velho. Surpreende-me e no entanto não me é desconhecido. O seu efeito é como se sobre mim descesse um pensamento mais elevado ou uma emoção mais apurada, quando supunha estar a pensar com justeza ou a actuar com exactidão...

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