sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O TESTAMENTO DE CONFÚCIO


Traduzido do Francês por Amadeu Duarte 2002

Introdução
              
A China, esse imenso Império do Meio, é considerado por todo o mundo como um gigante cultural, cuja coluna vertebral, segundo os próprios chineses, reside no Confucionismo. O apresentador dessa doutrina filosófica, Confúcio, foi no seu tempo venerado como o santo dos santos, e continua ainda hoje a sê-lo.

   Confúcio, nascido a 551 e falecido em 479 A.C., nasceu na família aristocrata de um reputado letrado, um alto funcionário do principado de Lu, actualmente situado na província do Shan-dong, no leste da China.

Viveu ele no final de uma época histórica chamada "Primaveras e Outonos", mesmo anterior ao longo período em que a China, vítima de múltiplas divisões em principados feudais, haveria de conhecer guerras incessantes que viriam a dar lugar a grandes perturbações sociais e profundas alterações culturais. Esse período foi chamado pelos historiadores chineses de época dos "Reinos Combatentes".

Confúcio situa-se nesse vórtice histórico, esse período dividido, extremamente propício ao desenvolvimento de todas as correntes de pensamento.

   Com a idade de trinta anos, fundou a primeira escola chinesa na província natal, o que lhe permitiu desenvolver um ensino da sua doutrina filosófica. Diante dos primeiros sinais da derrocada da estrutura tradicional da sociedade, esse seu sistema de pensamento tinha por missão a preservação dos ritos tradicionais, os ideais dos antigos e os valores sociais.

   Na sua escola, Confúcio Celebrava infatigavelmente o sistema ancestral das relações jurídicas e económicas da China feudal, dando enlevo à  concepção tradicional da natureza e do universo. Segundo o seu sistema de pensamento a ordem (da sociedade) humana deve harmonizar-se e conformar-se pela da natureza e do universo, e a menor perturbação dos comportamentos humanos influencia e compromete a estabilidade de próprio universo. Assim, ele encorajava os seus alunos a empenhar-se totalmente a fim de preservarem essa harmonia de ambas as ordens.
Confúcio formou pouco menos que três mil alunos, que se dispersaram pelos quatro cantos do império. Setenta e dois de entre os mais brilhantes deles, viriam a ocupar altas funções junto de monarcas regentes de múltiplos reinos e principados da época.

   Desde logo, não será difícil imaginar a influência e o papel que o confucionismo viria a desempenhar na sociedade e no espirito dos chineses, cimentando esse imenso território e servindo de base à psicologia, à ética e à política desse império. Mas quais são os pilares dessa famosa doutrina?


1

O Humanismo Colectivista


Se compararmos o humanismo ocidental com o chinês, ou mais exactamente o humanismo confuciano, constataremos facilmente que o primeiro trata da pessoa enquanto indivíduo e insiste no valor e na criação de cada um, enquanto que o segundo fala da pessoa enquanto membro de uma sociedade colectiva e insiste muito mais na existência da colectividade e nas relações entre os indivíduos. Procedendo desse humanismo caracterizado pelo colectivismo, o confucionismo exige de todo o  indivíduo a imposição de uma moral colectiva, bem como de uma consagração à justiça, à harmonia, aos deveres e à tolerância.
 
A tolerância constitui o núcleo da filosofia chinesa da antiguidade e é, ao mesmo tempo a essência do confucionismo.

Confúcio disse certa vez a seus discípulos: " Entre cem estratégias de conduta, a tolerância é a primeira." E acrescentou: "A falta de tolerância pelas coisas de pouca importância prejudicam os grandes projectos." A um discípulo que o interrogou sobre a chave do seu pensamento filosófico, Confúcio declarou:  "A tolerância; certamente a tolerância." Alimentado por tal qualidade, o conceito de colectividade dos chineses desenvolveu-se para se tornar de seguida aquilo que ainda hoje permanece um colectivismo sólido e um ardente nacionalismo. Essa formidável força de união soube preservar, através de séculos, e a despeito das múltiplas tentativas de divisão que se sucederam ao longo da sua história, a unificação do seu império.


2

A Harmonia entre Homem e Universo


No que respeita às relações entre os homens e a natureza, o confucionismo sustenta com vigor a harmonia entre as duas partes:  " Os homens e o universo deveriam fundir-se num só." Quanto á questão de saber como seria possível Confúcio  respondeu: "A sinceridade é o caminho do Céu." E esclareceu: "Os homens de virtude devem respeitar o caminho do Céu e tirar proveito disso..."

Nessa harmonia entre o homem e o Céu, os homens de bem não devem nunca desviar-se nunca do caminho do Céu, que consiste no justo meio termo.  O Caminho do Meio Termo era, e ainda é um critério de moral para os chineses, em que o menor desvio constitui um atentado contra o "Grande Caminho do Céu".


3

Os Rituais e a Cortesia


A primazia dada ao respeito pelos rituais (regras) na gestão do Estado, e à cortesia como virtude da humanidade, nas relações humanas, constitui um componente dos mais importantes no Confucionismo, à medida que foi estabelecendo as bases fundamentais das leis de boa conduta, cultivando sentimentos nobres e fortificando a capacidade de distinguir o verdadeiro do falso, o bem do mal.  À questão:  "Será assim difícil um príncipe governar o Estado com cortesia, segundo as regras?"  Confúcio replica:  "Na observância dos ritos, o bem mais precioso é o bom entendimento... é preciso nunca esquecer o papel primordial da cortesia... A cortesia é a virtude da humanidade, a compaixão; a cortesia está mesmo acima dos rituais."

E "Os homens de bem cultivam a sua personalidade através da prática da virtude da humanidade..."

Esses ensinamentos do mestre marcaram profundamente a personalidade chinesa, que se caracteriza, entre outras coisas, pela humanidade e pela benevolência.

   Confúcio deixou-nos um património inesgotável. As suas obras principais, que na verdade foram redigidas pelos seus discípulos - A Grande Escola, A Doutrina do Justo Meio-Termo e os Analectos (recolha dos diálogos de Confúcio com os seus discípulos) cristalizam a sua doutrina filosófica e tornaram-se clássicos inolvidáveis. Os nossos contemporâneos estudam o confucionismo através desses textos escritos numa língua muito antiga, de difícil compreensão. Essa dificuldade explica a enorme variedade de traduções em língua chinesa moderna, e a produção de análises diferentes mais ou menos pertinentes.

Contento-me aqui com uma breve análise da doutrina confucionista, sem me estender sobre as lacunas que, por certo existirão.

Portanto, para terminar tal desenvolvimento sucinto da influência exercida pelo confucionismo sobre a civilização e a personalidade chinesas, devo sublinhar o facto de essa "coluna vertebral" ter sido por duas vezes durante a sua história veementemente atacada e seriamente posta em questão.

Assim, a 4 de Maio de 1919, despontou em Pequim um movimento estudantil de grande amplidão, cujas bandeiras tinham por slogan "Abaixo a boutique de Confúcio". "Façamos tabula rasa dos rituais do confucionismo". Os jovens influenciados pelo comunismo soviético da época, livraram-se, por actos de destruição, dos livros de Confúcio, pela devastação das suas imagens e estátuas. Mas, à semelhança de um fogo de palha, esse movimento estendeu-se rapidamente e o confucionismo acabou intacto, senão reforçado, até.

A segunda vez, de 1966 a 1976, durante a Revolução Cultural, Mao Zedong, esse Estaline chinês, servindo-se de jovens estudantes, lançou várias ofensivas contra o confucionismo: Os ditos de Confúcio, tais como "o homem de virtude é aquele que se modera a fim de voltar aos rituais", "o homem de bem ajusta-se ao Correcto Meio Termo", "é preciso conduzir o povo com virtude, e puni-lo segundo os ritos e a justiça", e sei lá o que mais... foram postos no pelourinho da imprensa e nos dazibao, esses jornais moralistas afixados nos lugares públicos; a sepultura do filósofo, os templos e os museus erigidos em sua honra foram arrasados; os seus livros e os documentos históricos que lhes diziam respeito foram queimados...

Essa loucura, exactamente igual aos outros sobressaltos ocasionados por Mao no crepúsculo da sua vida, não durou muito; no entanto foi extremamente desastrosa. Após a tempestade lá sobrevirá a bonança. Hoje em dia, os chineses respeitam e honram mais que nunca a doutrina de Confúcio.

Após me ter exilado em França, sinto-me feliz por ler um sem número de publicações francesas referentes ao Mestre, comentando o seu pensamento filosófico; porém, algumas de entre elas deixam muito a desejar, seja pela imperfeição dos conhecimentos necessários, quer por causa de erros devidos a uma compreensão superficial ou parcial.

Solicitado e encorajado por meus amigos franceses apaixonados pela civilização chinesa, tive a ideia de escolher umas seis dezenas de citações de Confúcio, e classificá-las em seis respectivos capítulos.

1-    O Governo do Estado e do Povo
2-    Princípios Essenciais da Moral
3-    Virtude
4-    Caminho do Meio
5-    Cultivo da Pessoa
6-    Conduta do Homem de Bem


Espero que, por intermédio deste trabalho, possa oferecer a meus amigos franceses uma vista de olhos conjunta sobre o confucionismo e facilitar-lhe a sua compreensão, sem pretender, por essa via, fornecer um estudo completo dessa doutrina profunda.  
                                                                                                SHI BO
                                                                                      Inverno de 1998
                                                                                          Ivry-sur-Seine

                                     

 

                               Governo do Estado e do Povo



Há nove regras a seguir para governar correctamente um estado, a saber:
Cultivar a própria pessoa, honrar os indivíduos de talento, amar os semelhantes, respeitar os ministros, endereçar amabilidade ao conjunto dos funcionários de Estado, conquistar afeição pelo povo, encorajar o entusiasmo nos diferentes artesãos, tratar com indulgência os viajantes de longe e alcançar a estima dos príncipes e principados.

Estrela Polar


Se governardes o Estado com virtude, sereis considerado como a Estrela Polar em sua posição consolidada entre os outros astros.

Condução


É preciso conduzir o povo com virtude, puni-lo somente segundo o código de justiça; então o povo, com vergonha de errar, portar-se-á bem.

O Povo


Se elevardes aos lugares de responsabilidade os homens honestos, e não os pouco escrupulosos, o povo obedecer-vos-á. Se, pelo contrário, vos rodeardes de gente desonesta, o povo desobedecer-vos-á.

Afeição


Se fordes sério e consciencioso na conduta dos negócios do povo, o povo vos venerará. Se fordes respeitador para com os vossos pais e afeiçoado por vossos filhos, o povo vos será fiel. Se criardes homens de boa vontade e educardes os incompetentes, o povo motivar-se-á por si mesmo.


Justiça e Regras

 Um Príncipe deve governar o Estado com Justiça, segundo as regras. Será isso difícil? Se o Príncipe for incapaz de governar com benevolência, como poderá seguir as regras?

Ousar


Governar é corrigir. Se o governante se conduzir com correcção com relação ao seu povo, quem ousará comportar-se incorrectamente? É preciso governar o povo dando-lhe o exemplo a seguir, e só depois exigir-lhe esforço de cumprimento. Convém não negligenciar esse esforço.

Amizade


Servir o princípio com demasiado zelo conduz à desgraça. Tornar-se demasiado familiar com os amigos provocará o distanciamento.

Receio


Não temo que não exista um lugar para min, mas receio não ser suficientemente competente. Não temo ser desconhecido mas tenho por único cuidado saber se possuo qualquer competência a apresentar.

Mundo


Neste mundo, o homem de boa vontade não deve seguir regras que ditem aquilo que deve fazer ou não-fazer. Deve agir em conformidade à Justiça e ao Bom Senso.



                            Princípios Essenciais da Moral



Cavalo


A piedade filial de hoje consiste em assegurar a subsistência dos pais, quando até mesmo os cães e os cavalos são bem alimentados, presentemente. Se não respeitarmos os nossos pais, que diferença haverá entre alimentá-los e alimentar cães e cavalos?

Servir


O Príncipe deve empregar os seus ministros com justiça. Estes devem servir o seu Príncipe com fidelidade.

A Sobriedade do que é Parco

É um problema da maior importância: Para as festividades, importa mais que sejam antes parcas e simples que faustas e extravagantes. Para os funerais, é preferível que sejam marcadas de tristeza e lágrimas, muito mais do que minuciosas atenções e organização.


Ofender


Se ofendermos o céu, então as orações, quaisquer que sejam elas, de nada servirão.

Música


Sem a virtude humana, como poderemos conduzir-nos com justiça? Sem virtude humana, como poderemos compreender a música?

Aos Funerais


As pessoas de cargo elevado não fazem prova de generosidade; elas participam nas cerimónias rituais sem reverência, e nos funerais sem tristeza. Que se poderá pensar de tudo isso?

Desaconselhar


No serviço prestado aos pais, é preciso desaconselhá-los com gentileza no que for desarrazoado; se persistirem, sempre cumpre respeitá-los sem nunca os desobedecer nem murmurar contra eles, apesar da inquietação que se nutre na sua presença.

Julgar segundo a sua Vontade


Enquanto o pai for vivo, julgar-se-á o filho segundo a sua vontade. Quando o pai for falecido, julgar-se-á o filho segundo os actos. Se o filho puder continuar o seu caminho sem se desviar, poder-se-á afirmar tratar-se de filho piedoso.

Amar Indistintamente


Um jovem deve ser piedoso para com os pais e respeitador com relação aos mais velhos. Deve ser prudente e confiante nos seus propósitos. Deve amar indistintamente e ser amigo das pessoas de virtude. Em seguida, deve consagrar o resto da sua energia ao estudo.

Voltar aos Rituais


O homem de virtude é aquele que se esforça por voltar aos rituais. Se realmente vos esforçardes por regressar aos rituais, todo o mundo vos reconhecerá como homem de grande virtude.


                                    

 

                                          Virtude


Respeitar os sábios


A benevolência é um elemento característico da humanidade, e a sua prática traduz-se, antes que mais, pelo amor para com os semelhantes e os mais velhos. A correcção consiste em agir consoante a justiça e a sua prática traduz-se, antes que mais, pelo respeito pelos sábios.

Coragem


Sensatez, magnanimidade e coragem são três virtudes universais.

Valor


Não faças aos outros o que não quiseres que te façam.

Coisas Feitas


Das coisas já conseguidas não é preciso falar. Das já feitas, não é mais preciso desaconselhar. Das faltas do passado, não mais é necessário apurar a responsabilidade.

 

 

Paz


Os homens de virtude possuem a consciência em paz porque aplicam a virtude da humanidade, enquanto que as pessoas inteligentes trabalham no interesse da virtude.

Interesse


Os homens de virtude declarada compreendem bem a justiça. Os homens pouco escrupulosos visam o interesse pessoal.

Riqueza


Riqueza e dignidade, todo o mundo o deseja, mas os homens de virtude não procuram obtê-lo por uso dos meios ilegais e desonestos. Miséria e desonra, todos os rejeitam, mas os homens de virtude não procuram evitá-los pelos meios ilegais e desonestos. Como poderão os homens de virtude conseguir reputação se abandonarem a virtude humana?

Qualidade do que constitui um Bem


Das três pessoas que encontrei no meu caminho, há pelo menos uma a não duvidar, que poderá servir-me de mestre. Distingo-lhe as boas qualidades de que me sirvo como exemplo a seguir. Das suas más qualidades, o que posso tirar como lição.


Homem de Virtude


Os homens de virtude pronunciam enunciados, certamente. Os homens que os enunciam, não são forçosamente virtuosos. Os homens de carácter humanitário possuirão certamente coragem. Os que possuem coragem não são forçosamente humanitários.


Projecto


Por entre as múltiplas regras fundamentais de conduta, a mais importante é a da tolerância. As palavras bajuladoras corrompem a virtude. A falta de tolerância para com as coisas de pouca monta arruínam os projectos importantes.

A Voz do Justo Meio sem Escrúpulos


 O homem de bem pratica o justo meio, enquanto que os "pouco homens" se lhe opõem. O homem de bem que aplica o justo meio termo, respeita-o, não importando quanto seja, ao passo que o outro que se lhe opõe, age sem escrúpulos.

 

Deixar-se Levar


O homem de virtude cultiva uma amizade harmoniosa sem se deixar levar pela opinião geral, tal é a verdadeira força do seu  carácter. Permanece no justo meio termo sem se colocar a um ou outro lado, tal é igualmente a verdadeira força do seu carácter.

Retirar-se do Mundo


O homem de boa vontade concilia-se com o justo meio termo. Por isso não terá remorsos, mesmo que se retire do mundo e permaneça ignorado. Isso, só os sábios poderão fazer.


                                                  

                                 O Caminho do Meio



O Caminho do Justo Meio Termos Não está Afastado do Homem


O caminho do justo meio-termo não se encontra distanciado do homem. Se pensarmos que está demasiado distante, não mais se tratará do caminho do justo meio-termo.

As palavras devem respeitar as acções e as acções devem reflectir essas palavras. Porque não aplica o homem de bem esses dois princípios com a maior sinceridade?

A inteligência nasce da sinceridade; a natureza assim o decide. A sinceridade nasce da inteligência; a educação assim o determina.
Com sinceridade tornamo-nos inteligentes; com inteligência também.




Dignidade e salário Elevado


O Império, o Estado e a Família, bem que os posso governar. A dignidade e o elevado salário, bem que posso declinar sobre eles. A lamina cortante de um machado, posso eu bem desafiar. Mas o caminho do justo meio, não chego eu a atingir verdadeiramente.

Sinceridade


A sinceridade é o caminho do universo. Alcançar a sinceridade é o caminho do homem.

Raro


O caminho do justo meio é o mais perfeito de todos! Raros são aqueles que podem atingi-lo; isso só poderá ser verdadeiro passado muito tempo.

Tolo


O caminho do justo meio não pode ser bem praticado e conheço a razão porquê: os inteligentes agem com exagero e os tolos com insuficiência.
O caminho do justo meio não pode ser bem cumprido e eu conheço o porquê: os sábios falam de mais e os indigentes, de menos. Toda a gente come e bebe, mas muito raros são aqueles que conhecem verdadeiramente o sabor do que comem e bebem.



                                    O Cultivo da Pessoa



Aprender com Entusiasmo


Aprender com empenho conduz ao saber. Fazer bem e com perseverança, conduzirá á magnanimidade. Reconhecer a própria vergonha quase é ser-se corajoso. Aquele que compreende esses três princípios, já saberá como aperfeiçoar-se.

Prazer


Não será um prazer rever com perseverança o conhecimento já aprendido? Não será um prazer receber em sua casa os amigos vindos de longe?

 

 

Rever o que se Aprendeu


Aqueles que sabem adquirir novos conhecimentos, ao rever o que aprenderam, podem ser mestres dos outros.


Conhecer

Se conhecerdes uma coisa, dizeis conhecê-la. Se não conhecerdes essa determinada coisa, confessais não conhecê-la. Tratar-se-á então de uma atitude inteligente.

Manter a Palavra


Não sei como um homem que não mantenha a palavra poderá singrar na sociedade.

 

Manhã


Se de manhã escutar a verdade, aceitarei morrer à noite, sem arrependimento.

Manter por muito Tempo


Não possuímos nada mas fingimos possuir muito. Temos a cabeça vazia, mas fingimos possuir uma cabeça bem cheia. Somos pobres, mas fingimos ser ricos. Todo esse estado de coisas é difícil de manter por muito tempo.


Não Merecer


Um letrado deve ter a ambição nobre de procurar a verdade. Se ele se sentir envergonhado por envergar roupas fracas e tomar refeições medíocres, não merece que lhe falem.

Ser Deferente


Ser deferente sem conhecer as regras, isso equivale a um trabalho penoso; ser prudente sem conhecer as regras  equivale à timidez. Ser corajoso sem conhecer as regras equivale à insubordinação. Ser franco e directo sem conhecer as regras equivale à acrimónia.

Exame de Consciência


Com as pessoas de virtude é preciso rivalizar na virtude. Com as pessoas pouco virtuosas é preciso colher da sua conduta o exemplo a não seguir, fazendo o próprio exame de consciência.


                                                              

                          A Conduta do Homem de Bem



Franco e Sereno


O homem de bem é sempre franco e sereno, enquanto que o homem de menos bem é triste e ansioso.

Exigir


 O homem de virtude exige tudo de si mesmo, ao passo que o homem de poucos escrúpulos tudo espera dos outros.

Preparo


O sucesso de todas as coisas depende do preparo; sem preparo, o revés é certo. As palavras bem calculadas, com o tempo tornam-se certamente infalíveis. O negócio bem preparado com avanço, não encontrará dificuldades. A acção bem determinada com tempo, não se tornará fruto de arrependimento. Os princípios de conduta bem estabelecidos, com tempo, não acabarão em impasse.

Hipocrisia e Palavras Maldosas


Aqueles que possuem um aspecto hipócrita e proferem palavras de maledicência, possuem pouca virtude.

Temor


É preciso dar prova das virtudes próprias primordiais. Lealdade e sinceridade... Não é necessário ter medo de corrigir as suas faltas.

Receio de não Compreender os Outros


 Não temo ser incompreendido; o que receio é não compreender os outros.

Solidário


O homem virtuoso é solidário mas não partidário, enquanto que o outro é partidário e não solidário.

Favor


O homem de bem pensa na virtude enquanto que o outro pensa no seu pais natal.
O homem de bem pensa na sanção da lei enquanto que o outro só pensa em obter o favor dos outros.
Os homens virtuosos não são nunca isolados, mas certamente serão rodeados por amigos.

Prontidão


Os homens de bom senso devem ser lentos nas palavras e prontos nos actos.  







"O homem superior é aquele que começa por pôr em prática as suas palavras e em seguida fala de acordo com as suas acções".

"Quem não conhece o valor das palavras não saberá conhecer os homens".


 
   Confúcio, na sua aldeia, tinha um aspecto franco e simples, como se não fosse capaz de falar.

   Quando se achava no Templo Ancestral do Príncipe, ou na corte, falava  de modo minucioso sobre cada questão porém,  com precaução.
   Quando se detinha a falar com os oficiais de baixo escalão, da corte, ele falava de modo livre mas de maneira directa; quando falava para os de mais elevada escala, fazia-o com brandura porém, com precisão. Quando o ministro se achava presente, os seus modos manifestavam um ar de respeitosa inquietação.

   Assumia um ar sério mas era devidamente contido.
   Quando o Príncipe o mandava chamar para lhe entregar um cargo de recepção de visitas a sua expressão pereceu alterar-se e as pernas encontraram dificuldade em avançar.

   Fazia as vénias diante dos outros oficiais por entre quem se movia, empregando quer o braço direito quer o esquerdo, de acordo com o que a sua posição requeria, mantendo as dobras do seu manto dobradas para dentro e para fora, correctamente ajustadas.
   Caminhava com os braços de uma forma que os fazia parecer as asas de um pássaro.

   Quando o convidado se retirava, ele relatava ao príncipe: "O visitante não sustenta mais uma opinião contrária."
   Quando penetrava o portão do palácio parecia curvar-se como se o portão não fosse suficientemente grande para lhe garantir o acesso.
   Quando permanecia de pé, não ocupava o meio da passagem; quando o atravessava quer para o interior quer para o exterior, não pisava a soleira.
   Quando passava pela dependência de retiro do príncipe a sua postura parecia mudar, como se as pernas se lhe dobrassem, e as palavras saiam-lhe da boca como se ele não tivesse folgo para as pronunciar.

   Acedia ao hall de recepção sustentando o seu manto com ambas as mãos e o corpo inclinado, sustentando a respiração, como se não atrevesse a respirar.

   Ao sair de uma audiência, assim que descia um degrau, começava a relaxar a expressão, e assumia uma aspecto de satisfação. Assim que alcançava o fundo das escadas, avançava rapidamente para o seu posto, com os braços a balançar-se como asas, e ao ocupá-lo os seus modos revelavam um ar de inquietação contida.

   Quando usava o ceptro do seu soberano, parecia curvar o seu corpo, como se não fosse capaz de suportar o seu peso. Não o elevava mais alto que a posição das mãos quando fazemos um gesto de reverência, nem mais baixo que a posição destas ao estender algo a uma pessoa.
   O seu aspecto parecia mudar e tornar-se apreensivo e ele  arrastava os pés como se estes estivessem presos ao chão por alguma coisa.
   Ao presentear as ofertas de que estava encarregado mantinha um aspecto plácido.
   Nas audiências privadas parecia imensamente grato.

    

A educação mais elevada resulta do cultivo e da pratica
da manifestação de um carácter de elevado esclarecimento  espiritual,
Do amor pelas pessoas na sua multiplicidade, e por uma vida de bondade .

Se vivermos na bondade facilmente a intenção correcta será dirigida
Quando a intenção é dirigida, nós tornamo-nos calmos
Quando ficamos calmos podemos restabelecer a paz
Pela paz pode-se alcançar a contemplação, e por meio desta chegamos a atingir os objectivos
Todas as coisas vivas têm as suas raízes e ramos
Assim como os acontecimentos têm princípio e fim
Mas a compreensão do que vem antes e vem depois há de conduzir-nos próximo do Caminho.

Os antigos que tinham desejo de revelar ao mundo
Um carácter de elevado esclarecimento espiritual,
Primeiro estabeleciam ordem no seu governo
Para estabelecer ordem no seu governo,
Começando por reger as suas comunidades
Para regularem as suas comunidades,
Antes de mais tratavam de cultivar a sua vida pessoal
Para poderem cultivar a sua vida pessoal,
Tinham de trazer correcção ao coração
Para trazerem ordem ao coração,
Antes de mais, tinham que ter sinceridade de propósitos
Para terem sinceridade de propósitos,
Desde logo tinham que expandir o seu conhecimento.

A expansão do conhecimento provém da investigação das coisas
Quando se investiga, o conhecimento sofre expansão.
Quando o conhecimento é expandido tornámo-nos sinceros nos propósitos.
Quando formos sinceros nos propósitos, o coração poderá ser corrigido
Quando este for dotado de correcção a vida pessoal poderá ser cultivada.
Quando a vida pessoal for cultivada, a comunidade poderá ser regida
Quando a comunidade for regida poderemos governar com ordem
Quando se puder governar com ordem resultará paz no mundo.

Desde o Filho do Céu até ao mais comum dos mortais,
Todos devem ter atenção pelo cultivo  da vida pessoal como a raiz.
Nenhuma raiz desordenada poderá fazer brotar ramos ordenados.
Se negligenciarmos o que nos é imediato
Como poderemos zelar pelo que nos está distante?
Nisto reside a raiz e a fundação do conhecimento.




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