sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

O PASTOREIO DO BOI


De Kakuan Shien
Edição de Amadeu Duarte - 2002
 

Apresentação 


Os dez quadros do Pastoreio do Boi contêm um significado abrangente que manifesta o drama humano no seu todo. O seu significado está intimamente associado aos mitos do Filho Pródigo e Prometeu, e representa o abandono da verdadeira condição ou natureza das coisas. O seu autor, que foi um mestre zen durante a dinastia Sung, não foi o primeiro a tentar ilustrar as diferentes etapas da condição de realização do homem, tendo até sido precedido por um outro, de nome Seykio, que desenvolvera as cinco etapas preliminares que culminavam com o quadro referente ao Vazio. Não achando tal facto satisfatório, por induzir demasiado no conceptualismo - por podermos julgar o mero vazio de importância vital - acrescentou-lhe as restantes, designando, no conjunto - de forma categórica e abrangente - que o Caminho se acha intimamente associado à experiência, e ligado ao desenvolvimento interior.

Com esta compilação, procura-se contribuir para o esclarecimento pessoal e prover os meios adequados para alicerçar uma correcta autoinvestigação e indagar e romper com a estrutura da confusão e da desilusão. Não sendo prática a facilitação das imagens correspondentes aos "quadros" ilustrativos - aliás já de si bastante transparentes nas referências utilizadas, resta esperar que o seu desenvolvimento surta o suficiente esclarecimento do conteúdo.



Metáfora da Libertação



Imagem 1  
Procurando o Touro

Na verdade, o touro nunca esteve perdido. Por que razão procurá-lo então? Desolado, através da floresta, cheio de medo pelas selvas, ele procura o touro e não o encontra. Para um lado e para o outro correm enormes rios sem nome. Nas profundezas e nos ermos dos montes ele segue muitas veredas. Cansado de corpo e coração ele continua a sua busca daquilo que não deve, ainda, encontrar. À tardinha escuta as cigarras a cantar.

Comentário

Tendo dado as costas à sua verdadeira natureza, o homem encontra-se impossibilitado de a perceber. Por causa da confusão dos sentidos perdeu-a de vista. Repentinamente, acha-se confrontado por um labirinto de encruzilhadas. Desejo de ganho e medo de perda emergem como chamas. Ideias de certo e errado surgem como punhais.



Imagem 2 
Encontrando a Pista

Ele percebeu inumeráveis pegadas nas florestas e à beira das aguas. Não será aquilo que ele percebe adiante mato pisoteado? Mesmo nas grutas mais profundas e nos mais elevados picos não pode o nariz do touro esconder-se.

Comentário

Através dos textos sagrados e ensinamentos, ele vislumbra as pegadas do touro. Foi informado de que, assim como diferentes vasos de ouro são formados essencialmente do mesmo ouro, assim também cada coisa é uma manifestação do próprio ser. Mas ainda é incapaz de distinguir o bem do mal, a verdade da falsidade. Não entrou ainda pelo portão, mas percebe, numa simples tentativa, a pista do Ser.




Imagem 3 
O Primeiro Vislumbre do Touro

Canta o rouxinol num galho. O sol quente brilha nos salgueiros ondulantes e o vento é suave. Ali está o touro; onde poderia esconder-se? A sua esplendida cabeça, os majestosos chifres; que artista poderia retratá-lo? Quando escutamos o seu rugido podemos perceber a sua essência.

Comentário

Se ele ao menos escutar o som de cada pegada chegará à realização, e nesse instante, perceberá a própria origem. Os seis sentidos não diferem dessa origem verdadeira. Assim que eles se fundem, o portão é franqueado. Em todas as actividades a origem acha-se manifestamente presente. É análoga ao sal que se acha na água, ou à liga na composição da tinta. Quando a visão interna é correctamente focada, realiza-se que, o que é percebido é idêntico à origem.



Imagem 4 
Segurando o Touro

Ele deve segurar firmemente a corda sem deixar soltar. Ele ora corre para as terras altas, ora demora-se nas ravinas enevoadas.

Comentário

Hoje, ele encontrou o touro que andava a vadiar pelos campos selvagens e pegou-o verdadeiramente. Satisfez-se por tanto tempo nestes arrabaldes que agora, quebrar os seus velhos hábitos não é fácil. Continua a querer o capim cheiroso. A sua mente ainda está indócil e teimosa. Para domesticá-lo completamente, o homem deve usar o chicote.




Imagem 5 
Domesticando o Touro

Ele deve segurar o touro com força, pela corda do nariz, e não permitir que vadie sem cuidado. Desse modo tornar-se-á claro e límpido, e seguirá o dono sem uso de cabresto, mas por sua própria vontade.



Comentário

Com o surgimento de um pensamento, logo surgem mais. A iluminação conduz à realização; então, todos os pensamentos subsequentes são verdadeiros. Somente porque a ilusão permanece tornamos tudo não-verdadeiro. Este estado de ilusão tem origem na subjectividade; não no mundo objectivo mas em nossas próprias mentes.



Imagem 6 
Regressando a Casa Montado no Touro

Usando um grande chapéu de palha e uma capa, ele volta para casa tão livre como o vento, alegremente montado, por entre as neblinas do entardecer. Aonde quer que vá, cria uma brisa fresca e carrega no coração uma profunda tranquilidade. O touro não exige nem um talo de capim.

Comentário

A luta acabou. Ganho e perda não mais afectam. Ele murmura canções rústicas e canta cantigas simples de meninada de aldeia. Montado no lombo do touro, olha serenamente as  nuvens que passam. A sua cabeça não se vira no sentida das tentações. Procure-se aborrecê-lo como se quiser que ele permanece imperturbável.



Imagem 7 
O Touro Esquecido- O homem Só

Somente com o touro pode ele chegar a casa, mas agora o touro desapareceu e o homem senta-se só e sereno. A aurora despontou. Lá embaixo, sob o telhado de sapé, permanece em bem aventurado repouso. Chicote e corda jazem aparte, sem uso.

Comentário

Na verdade não existem duas coisas; tudo é uma lei. Só fazemos do touro um sujeito temporário, porém o touro é a sua natureza original. È como a relação do coelho com a armadilha; do peixe com a rede. A armadilha deixa de ser necessária quando o coelho é capturado, e a rede torna-se inútil quando o peixe foi apanhado. Como o ouro separado da escória, como a lua que surge por entre as nuvens, brilha um raio de luz eterno.


Imagem 8 
O Touro e o Homem são Esquecidos

Chicote, corda, touro e homem permanecem de igual modo no vazio de Coisa-Nenhuma. Tão vasto e infinito é o céu azul que não há conceitos que o alcancem. Um floco de neve funde-se sobre o fogo flamejante. Quando este estágio é realizado chega finalmente a compreensão do espirito dos antigos patriarcas.

Comentário

Sumiram todos os sentimentos ilusórios e desaparecidas estão também as ideias de santidade. Ele não procura nenhum estado de iluminação nem permanece  onde ela não existe. Como não se fica em nenhuma condição, os olhos não o podem perceber. Se centenas de pássaros lhe jogassem flores, só conseguiriam que se sentisse envergonhado.



Imagem 9 
Regressando à Origem

Ele regressa à origem, retornou à fonte primeira, porém os seus passos foram em vão. Foram demasiados para chegar à raiz. É como se agora estivesse cego e surdo, sendo melhor que o tivesse sido desde o início. Sentado em sua palhoça, não procura coisas de fora. Fluem por si mesmas as águas correntes e flores vermelhas desabrocham naturalmente vermelhas.

Comentário

Desde o começo que a verdade é transparente e nem mesmo um grão de poeira bloqueia a sua pureza intrínseca. Ele observa o crescimento e decrescimento das coisas do mundo enquanto permanece, sem esforço, num estado de inalterada tranquilidade. Crescimento e decrescimento não é ilusório nem fantasmagórico mas a manifestação da origem. Porque, então, será preciso lutar por algum objectivo? As águas são azuis e as montanhas são verdes. A sós consigo mesmo, ele observa o mudar sem fim das coisas.




Imagem 10 
Entrando na Praça do Mercado Com Mãos de Ajuda.

De peito nu e descalço entra ele no mercado. Como sorri amplamente sem recorrer a estratégias faz com que as árvores vivas voltem à vida.

Comentário

O portão da sua palhoça está fechado. Nem o mais sábio será capaz de o encontrar. A sua mente desapareceu e a beleza do seu jardim tornou-se invisível. Ele prossegue no seu caminho sem tentar seguir os passos dos antigos mestres. Carregando uma garrafa, passeia pelo mercado. Apoiado num bordão, volta para casa. Todos quantos ele contempla ficam iluminados.




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