segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A SABEDORIA IMPLÍCITA AO KUNG FU (Série Televisiva)




Coletânea da autoria de Amadeu Duarte 


Consideras indigno de ti servir a alguém?

- "Não sei o que é ser servido. Como quer que lhe responda?"



Não dizem os antigos que origem e reconhecimento não seduzem o homem que é Um consigo próprio?

- "E no entanto o mestre é servido, e como tal sai engrandecido."

Diminuído! Recebi sem o verdadeiro respeito, aquilo que me deste. Temos ambos a aprender. Se servindo se é servido e ao ser-se servido também se serve, não serão ambas as coisas dobras da mesma franja?



- "Estou envergonhado por não ter feito o meu serviço."

Mais uma vez me ensinaste. O homem fiel a si próprio não cuida dos seus interesses e faz da pobreza uma virtude. Segue o seu caminho sem depender dos outros, mas sem a arrogância de julgar que não precisa de ninguém.








Tens percepção de ti próprio?

- "Bem demais, mestre. Sinto vergonha de querer ser mais do que aquilo que sou."

O sábio diz: O que se retrai teve primeiro que se expandir; O que fraqueja teve primeiro que ser forte; O que é derrubado teve primeiro que ser erguido; Antes de receber há que dar, primeiro.



- "Foi o orgulho que me impediu de me curvar diante de si."

Não será fácil curvarmo-nos e continuarmos a honrar-nos a nós próprios?

- "Será mesmo, para si?"

De verdade.

- "Mas você é importante e eu não."

Não seremos igualmente importantes e insignificantes?

-" Como é possível, sendo você o mestre?"

Sou velho- tu és novo. Tenho a pele engelhada e a tua é lisa.

Estas coisas mudarão a natureza que partilhamos? Olha além da superfície.












- "Esse homem traiu-me e no entanto o mestre alimenta-o e veste-o."

E tu não aprovas?

- "Diz-se que ele fez um voto, como qualquer um de nós, de nunca revelar os nossos segredos. Diz-se que quando nos deixou, ensinou os camponeses a serem soldados e que os conduziu para a morte, numa rebelião."

Estou consciente das suas desventuras.

E estou igualmente consciente da sua fome e frio.

- "Mas mestre, a comida e as roupas novas não o farão recuperar as forças, para partir novamente e continuar a causar sofrimento?"

Podem fazer. Mas, quando ele nos deixar, pela manhã, será que lhe faltará a terra debaixo dos pés? O sol que brilha em todo o lado esconderá dele a sua luz e calor? Transformar-se-á a água em lama quando ele a for beber?

Se o sol, a terra e a água se abstêm de o julgar, quem sou eu para lhe recusar um cobertor e uma taça de arroz?








Um veneno pode ser ministrado para curar, quando adequadamente combinado e doseado, como de resto tudo na natureza pode ser usado para o bem ou para o mal. Estuda esta erva cuidadosamente pois a diferença que nela há entre a vida e a morte pode ser avaliada num piscar de olhos.








O teu passo há-de ser leve e firme como de quem pisa papel de arroz. Diz-se que um monge de Shaolin pode caminhar através de paredes. Procurando não é visto; à escuta não o ouvem; tateando não o sentem. Frágil como as asas da libelinha, agarradiço como o casulo do bicho-da-seda, quando fores capaz de percorrer o papel de arroz sem deixar marca, terás aprendido.

- Talvez o mundo se componha de laços e mais laços.

Não discordaria.

- Acho...será possível que todos os homens estejam unidos...e todas as coisas?

Não há razão para crer nisso...nem para não crer.

- Como poderemos saber a resposta?

Não a buscando.








- Eu não entendo.

Também eu não. E no entanto, como isso é belo.










- Mestre, das raízes do homem, qual é a mais forte?

É crença de Shaolin que a linha paterna comanda.

O que é um homem sem raízes? Que é uma árvore sem raízes? Quanto mais fundo mergulham as raízes mais forte será a árvore.

- Um rosto na memória, um nome, um lugar, é tudo quanto sei de meu pai. Metade de mim permanece uma incógnita, um mistério.

Tenta desvendá-lo, então, porque é esse fio que te liga ao passado e te prende ao futuro. A fim de te conferir um lugar permanente na Eternidade.

- Disse-me um dia que o meu presente está enraizado no passado...

E é por essas raízes que sugamos alimento e força.

- As raízes não dão também, forma ao futuro?

Arrancadas do solo, pode a árvore florescer e dar fruto? Sem fruto, de onde virão as sementes da geração futura para cumprir o ciclo ordenado da eternidade?








Não é melhor veres-te a ti próprio exactamente como és do que te preocupares em cuidar do que os outros vêem em ti?










Homem/ mundo. A inteireza de cada um deles parece ligada; compondo-se um, o outro segue-se-lhe em ordem.





Tenho, primeiro, que decidir quem e o quê quero ser...?

E depois, para concretizar esse ideal?

- Tenho de me tornar um com ele.

Possuir e ser possuído, até te tornares o que determinaste ser e não uma mera máscara, apostado em iludir a ti próprio e aos outros.










- Mestre, o que é que atormenta este homem?

Foi destinado a divagar interiormente, por e para além de uma terra tenebrosa e assustadora onde não há estradas nem tabuletas que indiquem o caminho.

- Mas porquê?

Quem saberá dize-lo?

- Não deveria ficar fechado no seu quarto?

E impedido da sua jornada? Se conseguir atravessar essa terra virgem encontrará a paz...a sua resposta, a cura.

Tanto quanto pudermos, devemos acompanhá-lo na sua viagem e ajudá-lo na sua caminhada.

- Mas como, se não há estradas nem tabuletas?

Há passadas; as dele e as nossas. Damos-las juntos. É o nosso dever para com todos os que estão marcados como ele. Amiúde, um viajante na terra virgem descobre aquilo que buscava e mais: algo de valor precioso para aquele que partilhou da sua jornada.

Podes arriscar a perda de tamanha bênção?










- Mestre, porque há estátuas medonhas á entrada do templo da paz?

São os guardiões do limiar aqui colocados para afastar os pouco preparados do silêncio do interior.

- Têm de ser tão horrendos?

Os incapazes de entender a via, vêm monstros nas coisas de Deus. É melhor para eles não entrar aqui.

- Mas o homem que não receia a pedra, pode passar sem que o estorve.

Fisicamente, pode passar o guardião, mas se a sua mente lhe  permanecer no mundo lá de fora, acabará por nos deixar para se lhe reunir.










Que foi que te sucedeu?

- Ouvi o som do silêncio, mestre. Senti todo o meu ser difuso como uma nuvem...Depois caiu chuva do céu através do meu ser... Era parte de tudo e no entanto era eu próprio.

Experimentaste a comunhão no Todo.

- Sim, mestre mas no meio dessa alegria senti-me como se estivesse a morrer. Foi o que me assustou.

Conheces a lição do bicho-da-seda?

- O bicho-da-seda morre e torna-se borboleta. Contudo não são dois seres distintos, mas um só e o mesmo.

Com o homem passa-se o mesmo. As suas falsas crenças têm que morrer para que ele possa conhecer a alegria da vida. Aquilo que sentiste no silêncio era real. Algo em ti está a morrer. Chama-se ignorância.








Que havemos de dizer do espelho que tranquilamente recebe e devolve a inquietação? O espelho de que falei eras tu. Olha a água a teus pés. O sábio diz: O que haverá de mais submisso que a água? Contudo é vê-la voltar à carga e desgastar a força inflexível que não logra resistir-lhe. Que há de mais enérgico que a água tranquila?










- Mestre, à muito que admiro fulano de tal.

Há muito nele digno de admiração.

- Receio que ele se afaste de nós e se desvie do caminho.

Ele está inflamado por uma convicção profunda. Negar-lhe-ias essa verdade que ele sente tão fortemente?

- Se constituímos uma irmandade essa verdade não deveria ser única?

É isso que ele deseja tão fervorosamente. Ele gostaria que nós negássemos a nossa verdade e aceitássemos a dele. Quem tem razão?

- Não pode haver outro caminho senão o do Tao.

É o que acreditamos. E então? Devemos rejeitá-lo como um irmão?

- Mestre, em que reside a fraternidade?

É muito justo fazer essa pergunta, bem digna é de ser ponderada.












Não te poderás deixar dissuadir quanto à ideia de partir?

- Nunca. Não desperdiçarei nem mais um dia dentro destas paredes.

Desperdiçar?

- As pessoas vivem como escravos, morrem à fome e os mandarins continuam a pedir tributo para o imperador.

Rezamos, meditamos.

- Não fazemos nada. Como podem continuar cegos para com a miséria que vos cerca?

Vejo-a

- E não faz nada!

E tu, que coisa farás?

- Tudo! Defenderei a causa do povo! Chefiá-los-ei! Falarei por eles. Lutarei por eles.

Tarefa estranha essa!








- Ele foi ensinado a fluir com o Tao e agora põe-se contra a corrente.

Ele acredita que é a vontade do destino.

- E poderá ser?

Pode pedir-se a qualquer homem que seja mais que um homem?










O sábio diz:” O coração do homem sensato não se fecha sobre si mesmo mas permanece aberto ao coração dos outros”...

- Mas ele aceita a sua bondade e todavia ao mesmo tempo desafia-o.

Preferirias que ele escondesse esse desafio?

Seria honroso esse fingimento?

- Compreendo-vos, mas não será essa virtude que nele vedes limitada?

Mas ainda assim, está lá. E a nós, cabe reconhecê-la.










Sê inteiramente humilde e encontrarás a fundação da paz. Sê um com todas as coisas vivas que, tendo nascido e florescido regressam à sua tranquila origem...

- Peço-vos perdão mestre, pois na causa da defesa do povo escondia-se a minha glória.

Tens o meu amor.

- Perdão?

Se o encontrares ele terá de provir daquele que te condenou.






O homem, no seu melhor, à semelhança da água, serve ao longo do seu caminho; como a agua, procura o seu próprio nível, o nível comum a toda a vida.

Faz o que tem a fazer mas não por glória, não para se exibir, não por si próprio. Um homem são, que não se exibe, torna-se incessantemente ele próprio.












Não entender o propósito de alguém não o torna confuso...










- Mandaram-me seguir-vos, pois tendes algo a ensinar-me possuindo felicidade e sabedoria.

Eu que sou um velho que nada mais pode fazer, que vivo o dia desde o começo até ao fim, que posso ter que te ensinar?

- Mas, tem de haver algo mais.

Não há mais nada. Espero só que outro dia se siga àquele. Mas se preferires pensar que há, segue-me.








Acabarás o trabalho dele se ele morrer?

- Hesito, pois vejo que o trabalho é dele e só ele sabe a que se destina.

Então já não o consideras confuso?

- Não mestre, vejo agora uma grande claridade orientando o seu espírito.

Claridade, quando ele aprecia o que não tem valor?

- Cada pedaço velho adquire novo valor no seu trabalho.

Começaste a aprender.

- Mas este não é o grande conhecimento de que falou?

Alegra-te com o que ele conseguiu com um trabalho de tantos anos. Um pedaço aqui e mais outro...








Aprendeste disciplina e muitas novas habilidades. Contudo nunca esqueças que a vida de um sacerdote é simples e deve manter-se livre de ambição.

- Não possuís ambições, mestre?

Só uma, e ainda assim, externa, é uma ambição. Quem, de entre nós não tem imperfeições?










O que procuras tu para além do mar?

- A parte de mim sobre a qual pouco sei. O passado que me deu a vida. É bom procurar o passado? Isso não rouba o presente?

Se um homem vive no passado isso rouba o presente. Mas se um homem ignora o passado, isso pode roubar-lhe o futuro. As sementes do nosso destino são alimentadas pelas raízes do nosso passado.










Diz-se frequentemente que para se ser eficiente, é necessário agir com grande rectidão e determinação. Mas que se ganha num caminho desses? Se nos empenhámos, isso será uma acção correcta?

Permite ao Tao fluir. Há forças em movimento às quais nada podemos acrescentar e às quais nada podemos subtrair. Se o teu percurso for correcto só há um caminho a seguir. A acção correcta é não fazer nada. E tudo será feito.










- Mestre, estas coisas existem?

São criações do homem. Cada homem tem de começar por si mesmo, de dentro de si, forjando lentamente a sua energia (Chi),a ligação entre o finito e o infinito, a essência interior do seu espírito e o poder ilimitado do universo. Só então se pode vencer o poder e a presença do mal.










Tu és o inimigo que não é inimigo. Nós pertencemos aos muitos e não aos poucos. Há vida em nós.

...O sábio diz: ”Um homem nasce suave e fraco; quando morre está duro e frio. As plantas verdes são tenras e estão cheias de suco; quando morrem são retorcidas e secas. Por isso a rigidez e a inflexibilidade são as discípulas da morte. A gentileza e a indulgência são as discípulas da vida.










- Por vezes, mestre, parece que um muro se ergue entre mim e os outros. Um muro através do qual posso ser visto mas não tocado.

Sentes a falha dentro de ti?

- Não sei onde está a falha. Mas sinto-me dividido.

Na tua conversa com esse outro é mais o que não se diz que aquilo que é dito. Mas quem se conhece o suficiente para sobre tudo poder falar? Quem se vê tão bem para tudo ouvir? Diz o sábio: ”No barro molda um vaso. Faz as portas e as janelas de um quarto. Mas os espaços dentro é que os tornam úteis”. Temos que escutar os espaços que existem entre nós. Temos de ouvir os silêncios.










- Mestre, como encontrar o nosso caminho nas trevas?

O caminho percorre as trevas e a sombra e nada disso é causa de desespero. Diz o sábio que as cinco cores cegam os olhos. Os cinco tons atordoam o escutar . Os cinco aromas atenuam o paladar. Portanto, o sábio é guiado pelo que sente e não pelo que vê. Quando os nossos sentidos estão sobrecarregados e confusos, os nossos sentimentos mais profundos podem ainda manter-nos no caminho

- Mestre, observo os outros e eles parecem saber o caminho.

E tu, sabes?

- Sinto-me perplexo e inseguro. Ando de um lado para o outro sem um fim definido.

E, portanto, afliges-te? Diz o sábio: ”Os outros estão tranquilos, só eu ando á deriva. Não sabendo onde estou, estou só, sem saber para onde ir. Sou diferente. ”Numa hora incerta, o sábio reconhece a incerteza.










- A fraqueza leva a melhor sobre a força; a suavidade e a delicadeza vencem a tempestade.

Acalma-te e torna-te na brisa que rodeia o mar agitado.

O medo gera a vítima.

Ocultar uma verdade humana é dar-lhe força para além da resistência. Negar a natureza humana é negar a particularidade de ser homem.

Conhecer a natureza é estar em harmonia perfeita com o universo.

O salgueiro, sendo flexível, resiste aos ventos do inverno.

Aspiro não a saber todas as respostas, mas a conhecer todas as perguntas.

Um facto é um facto mas não é a verdade.

Após cada findar, há um novo começo.

Perdendo, sempre se ganha algo; Ganhando, também se perde.

Para aceitarmos a morte devemos aceitar que somos humanos; aceitar os outros, estar em comunhão com eles.



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