quarta-feira, 28 de novembro de 2012

ESTRATÉGIAS DE TRANSFORMAÇÃO







(AUTORETRACTO AO ESPELHO)
COLECTÂNEA DE TEXTOS  
EXTRAÍDA DAS SEGUINTES OBRAS :
"O DESPERTAR PARA O TAO", DE LIU I-MING
"A ARTE DA LIDERANÇA", DE THOMAS CLEARY
"WEN-TZU", DE LAO TZU
"THE GATELESS BARRIER", SHIBAYAMA
"INTRODUÇÃO AO ZEN BUDISMO", DE D. T. SUZUKI
"THE ART OF WHEALTH", DE THOMAS CLEARY
"INSTANT ZEN", DE THOMAS CLEARY


Os Dois Acessos ao Caminho


   Muitas são as vias que conduzem ao Caminho, porém, existem basicamente duas: a via da sabedoria e a via da prática. Aceder ao Caminho pela sabedoria significa aceder à essência por meio da palavra escrita e acreditar que todos os seres sensitivos compartilham da mesma natureza verdadeira. Essa natureza só não é manifesta por se achar obscurecida pelas sensações e ilusão. Aqueles que abandonam a ilusão em busca da realidade, e meditam sobre a ausência do eu e do outro, a não-dualidade entre o efémero e a sabedoria, conservando-se inabaláveis mesmo diante das palavras, acham-se em completa harmonia com a Sabedoria. Livres do esforço do mesmo modo que da acção, acedem ao Caminho pela Sabedoria.

   Aceder através da prática refere as quatro condutas que incluem toda a acção: o sofrimento da injustiça, a adaptação às condições, nada desejar e praticar a Verdade.
   Primeiro, sofrer a injustiça: Quando aqueles que buscam o Caminho se deparam com condições adversas, deverão pensar que durante incontáveis eras vaguearam através de todas as formas de existência, se desviaram do essencial a fim de encontrar o trivial, e muitas vezes odiaram sem razão, tendo criado as situações mais negativas. Mesmo que nesta vida não pratiquem nenhum mal, devem dispor-se a sofrer as consequências das acções prejudiciais do passado, e aceitar os males que daí advierem com boa-vontade e paciência, sem lamentações.
Os Sutras (escrituras das tradições orientais) dizem que: “Quando te encontrares face à adversidade não te perturbes, pois há um sentido para todas as coisas”. Tal compreensão revela sabedoria e por meio do sofrimento acedes ao Caminho.

Segundo, adaptar-se às condições: enquanto seres sensitivos somos regidos pelas condições e não por nós mesmos. Todo o sofrimento e alegria que experimentamos se acham dependentes das condições. Se somos recompensados com a fama ou a riqueza, estas são o fruto de uma semente cultivada no passado. Uma vez esgotada a dinâmica de tais acções esses resultados positivos terminam. Por que razão, então, alegrar-se com eles? Todavia, enquanto o sucesso ou o fracasso depender de condições, a Mente não cresce nem diminui. Aqueles que não vacilam diante da corrente do prazer seguem silenciosamente o Caminho.

Terceiro: nada desejar. Os seres deste mundo vivem na ilusão, sempre a ansiar por algo e à procura. Os sábios despertam. Preferem a sabedoria aos hábitos. A mente repousa no Não-Criado, enquanto o corpo se move de acordo com a impermanência. Todos os fenómenos são vazios e não contêm nada que valha a pena desejar. A desgraça alterna com a fortuna e permanecer no reino da ilusão é permanecer numa casa em chamas. Possuir um corpo implica sofrer. Aqueles que entendem esta verdade não se apegam e deixam de procurar ou esperar algo. Os Sutras referem que: “quando o desejo se instala, passa a existir o sofrimento. Com a cessação do desejo surge a felicidade. Nada desejar é aceder ao Caminho.

Quarto, praticar a Verdade: O Dharma é intrinsecamente a verdade de que todas as naturezas são puras. Através desta verdade todas as aparências se manifestam como vacuidade. Máculas e apegos, o eu e o outro, é coisa que deixa de existir. No Dharma não existem seres, pois ele está livre da mácula do ego. Os que são suficientemente sensatos para compreender e confiar nestas verdades praticam de acordo com o Dharma. E como tudo o que é real não é digno de inveja, fazem oferenda do corpo, da vida e dos bens sem remorsos e sem a vaidade do doador, do que é dado ou recebido, sem parcialidade nem apego. A fim de limpar toda a obscuridade ensinam os demais, todavia, sem se apegarem à forma. Desse modo por meio da prática podem ajudar os outros e prestar homenagem ao Caminho da Iluminação. Da mesma forma que praticam a generosidade também praticam as outras virtudes. Mas praticam-nas sem esperar resultados. É isso o que significa “praticar a Verdade”.
Bodhidharma
  

Vulgaridade

   É perfeitamente comum que poucos sejam capazes de se libertar da ilusão. Normalmente deixam-se encobrir em suas crenças e obstruir pela dúvida acabando menosprezados pelo seu desdém e a afogar-se nas preferências. Se a crença se tornar parcial, as palavras proferidas não conduzirão a pensar na verdade e por fim, fará com que a palavra exceda a medida apropriada. Quando se leva a dúvida ao extremo as pessoas deixam de escutar a palavra, ainda que estas possam reflectir a verdade, até que por fim se escuta sem se entender a verdade do que se escuta. Quando as pessoas desrespeitam as outras perdem de vista as suas qualidades meritórias. Quando sustentam preferência por alguma coisa, mantêm-se juntos daqueles de quem se deviam afastar. Tudo isto consiste num acto de indulgência para com os sentimentos pessoais e de desconsideração da razão, o que eventualmente leva a esquecer o Caminho dos Iluminados e a distanciar-se do seio da comunidade. Portanto, aquilo que, pelo sentimento comum tomamos com ligeireza, é o que mais significativo tem para os sábios. Um venerável da antiguidade declarou certa vez:
   "Aqueles que planeiam o que está por vir, verificam, antes de mais, aquilo de que dispõem. Os que se esforçam por atingir o sublime, devem cuidar do insignificante." Tal deveria centrar-se com a questão de uma ampla gama de escolha e correspondente cuidado no seu uso, e não certamente um simples aspecto de apreciação do "superior" nem de admiração pelo "incomum".

                                                                                                  Jiantang        


Tornar-se um Verdadeiro Sucessor

   Os antigos serenavam a sua mente e anulavam a consciência de si próprios retirando-se para uma vida simples nas montanhas e vales, bebendo a água dos riachos e alimentando-se do que colhiam das árvores, à semelhança daqueles que eram despojados de pensamentos de fama e sucesso. No entanto acabavam sempre por ser encaminhados à presença do imperador. Ocultavam a sua luz e velavam os passos que davam por entre moinhos e outras formas de trabalho servil. Mas desde logo não alimentavam qualquer intenção de glória nem de realização. No final, eram tidos na conta de verdadeiros luminares, transmissores da luz. Portanto, quando se age sem propósito e sem pretensão, o Caminho torna-se franco e a Virtude ampla; quando se age com base na ambição, a fama torna-se vil e estreito o propósito.

                                                                                             Carta a Jiantang


Estreiteza de Visão e Indulgência

   A calamidade e a fortuna dependem uma da outra; a boa e a má sorte acham-se ambas na mesma aldeia, de igual modo. O facto puro e simples é que as pessoas é que as chamam a si. De que modo, então, será possível que não reflitamos nisto? Algumas pessoas têm atenção única e exclusivamente por aquilo que as delicia ou irrita e possuem estreiteza de visão, ou então tornam-se exageradamente pródigas na autoindulgência e submetem-se ás vontades alheias. Tal, todavia, não há-de ser o procedimento de um líder ou mentor, mas tão só um prolongamento da autoindulgência egoísta de todos os males do excesso.


Ganho e Perda

   O infortúnio pode gerar boa sorte e a sorte pode dar origem à desgraça! Isso deve-se a que quando nos encontramos numa situação de desventura ou de perigo desenvolvamos uma resoluta disposição para zelar pela segurança, e quando nos achamos profundamente empenhados em restabelecer a ordem sejamos capazes de alcançar seriedade e discernimento. Desse modo poderemos desenvolver apropriadamente a sorte.

    Quando as pessoas vivem na tranquilidade, se tornam complacentes com a própria ganância e indolência, desdenhosas e arrogantes, isso gera infortúnio.

   Alguém suficientemente possuidor de sabedoria declarou certa vez:
   "A suficiente existência de dificuldades aperfeiçoa a vontade; não ter dificuldades nenhumas leva à ruína do ser." O ganho é a moldura da perda e a perda é o coração do ganho. Assim, não podemos esperar que ocorram connosco somente bênçãos nem obter sempre ganho. Quando nos achamos numa situação afortunada e passamos a ter o infortúnio em mente, então seremos capazes de preservar a fortuna; quando se visa o ganho e se tem atenção pela perda, então esse ganho certamente sucederá.

   Desse modo, a pessoa de carácter é aquela que quando está segura não se esquece do perigo e quando se acha em meio à ordem, não perde de vista a desordem.
                                                                                              Lingyuhan


Desapego do Irrisório


   Zengetsu, um mestre chinês da dinastia T'ang, endereçou certa vez o seguinte conselho aos seus alunos:
"Viver no mundo sem criar formas de apego ao pó do mundo consiste no caminho do verdadeiro estudante do Zen.

   Se testemunhardes uma boa acção praticada por outro, encorajai-vos a seguir-lhe o exemplo. Se tomardes conhecimento de uma atitude errada praticada por outro, precavei-vos a vós próprios de não o imitar.

   Ainda que permaneçais sós num quarto escuro, comportai-vos como se recebêsseis um convidado nobre. Exprimi os vossos sentimentos, porém, não permitais que vos torneis expressivos para além da vossa natureza real.

   A pobreza deverá ser o vosso tesouro. Jamais a troqueis por uma vida fácil.

   Pode ser que uma pessoa possa ter a aparência de um tolo sem todavia o ser. Pode muito bem ser que ela preserve unicamente a sua sabedoria de forma cuidadosa.

   A virtude não cai do céu à semelhança da chuva nem da neve mas há-de ser o fruto da autodisciplina.

   A modéstia há-de ser a fundação de toda a forma de virtude. Deixai que sejam os vossos vizinhos a descobrir-vos antes de vos dardes a conhecer a eles.

   Se possuirdes nobreza de coração não vos forçareis a avançar e as vossas palavras serão como pedras preciosas que raramente se expõem devido ao grande valor que possuem.

   Para o estudante dotado de sinceridade todos os dias são um dia afortunado. O tempo bem que pode passar que ele não se deixará ficar para trás. Nem a glória nem a vergonha o incitarão.

   Censurai-vos sempre a vós próprios e não aos outros. Nunca discutam o certo ou o errado.

   Certas coisas, conquanto possam ser certas, foram durante muitas gerações consideradas erradas. Já que o valor do justo pode sempre ser devidamente considerado após séculos, não há necessidade de buscar a apreciação imediata.

   Vivei com a causa e deixai os resultados a cargo da venerável lei do universo. Passai cada dia em serena contemplação."


Carregar o Coração em Chama


   Soyen Shaku, o primeiro mestre a deslocar-se à América, proferiu assim:

   "O meu coração arde como um braseiro mas os meus olhos estão tão frios como cinzas mortas." Ele estabeleceu as seguintes regras que praticou cada dia da sua vida:

   "De manhã, antes de vos penteardes acendeu incenso e meditai.

   Retirai-vos com regularidade. Tomai refeições a intervalos de tempo regulares. Comei com moderação e jamais até ficardes satisfeitos.

   Recebei um convidado com a mesma atitude como quando estais sós. Quando estiverdes sós preservai a mesma atitude que tiverdes ao receber convidados.

   Tende atenção pelo que dizeis, e o que disserdes praticai-o.

   Não deixeis escapar a oportunidade assim que ela se apresentar, contudo, pensai sempre duas vezes antes de agir.

   Jamais vos arrependais do passado, mas tratai de encarar o futuro.

   Possuí a atitude destemida de um herói e o coração afectuoso de uma criança.

   Ao retirar-vos, dormi como se dormísseis o vosso último sono. Ao despertardes, deixai tão prontamente o leito para trás como se rejeitásseis um velho par de sapatos."




Ser Cuidadoso

   Aqueles que visam alcançar a aprendizagem da sabedoria devem ter atenção pelo que adoptam ou ignoram, e não devem ser imprudentes quanto ao que proferem ou fazem. As pessoas de poucas palavras não são necessariamente tolas; as que são loquazes e dotadas de facilidade de expressão não são forçosamente sábias. As pessoas rústicas e simples não são necessariamente insensatas nem rebeldes; as servis e obedientes não são necessariamente leais nem sinceras. Assim sendo, o mestre não interpreta o avanço dos alunos a partir das palavras que eles empregam nem os selecciona com base nas ideias que defendem.

    Quem, por entre todos os mendicantes do mundo não desejará buscar o esclarecimento? No entanto, os esclarecidos capazes de perceber a realidade não passam de um entre cem ou mil. Mesmo aqueles que, no cultivo de si próprios trabalham com uma prática diligente, acumulam aprendizagem e semeiam virtude, necessitam de 30 anos para o alcançar. Se acontece ocorrer determinada coisa de forma errada e a comunidade vos rejeitar, não serão capazes de se restabelecer em toda a vossa vida. Até mesmo os indicadores do caminho podem não ser correctos! Quando até a mais valiosa pedra preciosa pode não estar isenta de imperfeições, como esperar que os seres comuns, dotados de sentimentos contrastantes, sejam isentos de falhas?

   Certa escritura declarava assim:
"Não temam o surgimento dos pensamentos mas permaneçam unicamente alerta para não se precipitarem e serem, ao invés, capazes de se aperceberem deles." Como isso está certo!
Pois quem, de entre os sábios já se viu livre de erros? É uma questão de saber desenvolvê-los realmente e por inteiro- dessa forma a existência não será desperdiçada. Lá reza o ditado:
    "O entalhador mais habilidoso é aquele que acompanha as curvas e os ângulos; sejam tortuosos ou rectos, não deixará desperdiçar material. A boa cavalgada decorre da maneira adequada de se lidar com as situações de perigo e as tranquilas; nem o rápido nem o lento perdem a sua natureza de ser."

Como é assim com as coisas e com os animais, assim também deve ser com as pessoas. Se nos permitirmos que nas acções sejamos conduzidos por questões de agrado e desagrado e nos afastarmos daqueles que são diferentes de nós para nos juntarmos a quantos nos são iguais isso será equivalente a desenharmos curvas e linhas sem cordão nem marcador, ou determinar o peso sem fazer uso da balança. Ainda que tenhamos um porte fino um apurada intuição não poderemos ser completamente livres do erro.

                                                                                                         Lingyuan


A Pureza é a fonte do turvo
O movimento é a raiz da tranquilidade
Preservai a pureza e a tranquilidade, e a união de Céu e Terra
Retornai ao primordial
O espírito humano tem anseio pela pureza, porém, a mente perturba-o
A mente humana anseia pela tranquilidade, porém, os desejos intrometem-se.

                                                                                        Chingjing Jing


Zen como uma Afirmação Superior

   Shou-shan empunhou certa vez o seu bastão, numa reunião com os discípulos, e declarou: "Chamai a isto um bastão e afirmareis; dizei que isto não é um bastão e negareis. Agora, sem afirmardes nem negardes, como o chamareis? Falem, falem!
Um dos discípulos saiu das fileiras, tomou o bastão das mãos do mestre e quebrando-o em dois, exclamou: "O que é isto agora?"

   Se compreendermos realmente o estado mental com que ele propôs a questão, teremos transposto a primeira entrada no reino do Zen. A ideia é a de alcançarmos uma afirmação mais elevada que a antítese lógica da afirmação e da negação. Ordinariamente não ousamos ir além de uma antítese por pensarmos não possuirmos forças para tal. A lógica intimida-nos de tal modo que chegamos a tremer ao escutar o seu nome. A mente habituada a trabalhar no desenvolvimento do intelecto, sob a estrita disciplina do dualismo lógico, recusa-se a sacudir a sua canga imaginária.

   Na verdade, a não ser que quebremos a antítese do sim e do não, nunca poderemos esperar viver uma vida de real liberdade. A alma reclama essa liberdade, esquecendo-se de que, apesar de tudo, não é tão difícil atingir uma afirmação superior onde não existam distinções contraditórias entre o afirmar e o negar. Neste bastão encontramos todas as existências, e também se concentram nele todas as nossas experiências possíveis. Quando conhecemos esse pedacinho de bambu caseiro, compreendemos de modo o mais completo tudo o mais. Ao sustentá-lo nas mãos, sustentamos todo o universo. Quando um aspecto é conquistado, todos os outros aspectos o são também.

   A filosofia Avatamsaka diz que "O Um abraça tudo, e tudo está enraizado no Um" Isso é assim com cada objecto e com toda a existência. Mas cuidado, pois não se trata de panteísmo nem de uma teoria de identidade. Quando o bastão é sustentado diante de vós é somente um bastão- em que não se resume o universo, nem o Todo, tampouco o Um. Mesmo quando dizemos perceber o bastão como um bastão, perdemos o alvo. O zen não está mais lá, e muito menos a filosofia Avatamsaka.

   Não é objectivo do zen parecer ilógico por interesse, mas sim fazer com que possamos saber que a consciência lógica não é definitiva e que existe uma certa afirmação transcendental que não pode ser obtida através da sagacidade intelectual. A bitola intelectual do sim e do não mostra-se completamente satisfatória quando as coisas seguem o seu curso regular, mas tão prontamente as questões definitivas da vida são focadas, o intelecto fracassa na resposta. Quando dizemos sim concordamos, mas com essa concordância nos limitamos; quando dizemos não negamos, e negar é excluir.

   Exclusão e limitação, em última análise constituem um impedimento para a alma. Não é a vida da alma que vive em perfeita unidade e liberdade? Mas não há unidade nem liberdade na exclusão nem na limitação. E o zen tem plena consciência disso, e conduz-nos de acordo com as necessidades da nossa vida interna até a um reino absoluto em que não exista nenhuma sorte de antítese. 

Temos de nos recordar que só vivemos em afirmação e não pela negação. A vida é uma afirmação em si mesma, mas esta afirmação não deve ser acompanhada nem condicionada pela negação, porque esta é relativa e jamais absoluta. Com tal afirmação a vida acaba por perder a sua originalidade criativa e transforma-se num processo mecânico de pulverização da carne e dos ossos, sem alma. Para sermos livres, a nossa vida tem de ser uma afirmação absoluta. Tem de transcender todas as condições passivas e limitações e antíteses que impedem a sua livre actividade.

   Quando Shu-shan empunhou o bastão esperava que os discípulos compreendessem e visualizassem esta afirmação absoluta. Qualquer resposta seria satisfatória, desde que fluísse do âmago do ser. Desse modo sempre constitui uma afirmação absoluta. O zen não significa simples fuga da prisão intelectual, que algumas vezes pode terminar num completo desregramento.

Há algo no zen que nos liberta dos condicionamentos mas ao mesmo tempo nos dá um apoio firme que, entretanto, não é um apoio no sentido relativo.

   O mestre zen procura tirar todos os apoios ao discípulo, já que este nasceu na terra. E em troca oferece um "apoio" para coisa nenhuma. E se o bastão de bambu não servir o propósito, pode fazer uso de qualquer coisa que tenha à mão. Niilismo não é zen, porque não podemos desembaraçar-nos do bambu nem das demais coisas como podemos fazer com as palavras e a lógica. Essa é uma questão que não devemos subestimar no estudo do zen.

   A questão está em obrigar o indivíduo a realizar aquilo que chamo uma afirmação absoluta. Não significa somente um escape da antítese do sim e do não, mas encontrar um caminho positivo, no qual os opostos existam em profunda harmonia.

   O mestre pretende libertar a mente do discípulo, com relação à escravização da lógica, como ruína que tem sido para a humanidade. Pretenderemos ficar escravizados para sempre às próprias leis do pensamento ou quereremos viver uma vida de liberdade, desconhecendo as limitações de princípio e fim? Não podemos hesitar. Só podemos capturar o facto ou deixá-lo fugir; nisso não há alternativa. O método da disciplina zen consiste em colocar o indivíduo diante de um dilema, do qual deve tentar escapar, não através da lógica mas sim de uma mente de alto nível.

   Se abrirmos a boca para fazer uma afirmação ou negação estaremos perdidos. O zen não está mais aí. Tampouco estará se ficarmos silenciosos. Há uma certa maneira de ser, e de "reposta", na qual silêncio e eloquência se identificam, e onde a afirmação e a negação como aspectos indissociáveis se unem numa forma superior de afirmação.

                                                                                         D T Susuki

   Porém, digo-vos: aceitai este cajado simplesmente como um cajado; o movimento é movimento; sentar-se é sentar-se, porém, não oscilem, seja em que circunstância for! 

   O meu cajado transformou-se num dragão que engole o mundo inteiro. Onde param agora os rios e os montes de pouca monta e a "terra sublime"? Vasubhandhu acabou por se transformar a si próprio num cajado de castanheiro e depois, golpeando a terra de um só golpe, libertou todos os inumeráveis Budas do emaranhado das coisas proferidas...
                                                                                               Ummon


   Não existem estudantes sábios nem tolos; trata-se unicamente de uma questão de o professor os refinar e despertar as suas acções virtuosas e testá-los a fim de lhes descobrir as capacidades potenciais, expô-los e encoraja-los, dar consistência às suas palavras e zelar por eles para que possam completar a sua prática. Ao fim de alguns meses ou anos, tanto a palavra como a realidade sairão enriquecidas.

Todos possuem o espírito- trata-se unicamente de uma questão de orientação cuidadosa. É como o jade na sua forma original- se não lhe dermos qualquer importância, ele não passará de um pedaço de rocha, mas se o lapidarmos e polirmos ele tornar-se-á uma pedra preciosa.

Assemelha-se isso, de igual modo, à água que jorra da fonte; se a bloquearmos e formarmos uma poça, e depois abrirmos um canal fundo para que corra, ela torna-se um rio.

   É, portanto, do conhecimento de toda a gente que, num tempo em que se encoraja a imitação e em que a aprendizagem assume fins parciais não é tanto que a inteligência seja propriamente perdida ou caia em desuso; antes, falta algo no modo de educar e criar os jovens.

   Quando as escolas Chan se achavam em pleno florescimento as pessoas que as compunham consistiam numa espécie de sobras da era anteriormente finalizada do Budismo. Aqueles que permaneceram na decadência foram tolos, ao passo que os que assumiram a responsabilidade pelo seu próprio desenvolvimento foram sensatos. É por isso que digo que todos possuem o espírito; só que ele necessita de uma orientação cuidadosa. Ficamos, portanto, conscientes das habilidades dos estudantes bem como dos altos e baixos dos diferentes momentos; saberemos igualmente que eles atingirão o seu máximo se forem devidamente tratados e que, se forem incentivados, sairão enobrecidos; mas se oprimidos, sairão fracassados e se forem renegados fenecerão. Isto forma a base tanto da dissipação como do desenvolvimento das virtudes e qualidades do estudante.
                                                                                            Carta de Gaoan


   Quando nos viramos para o sul damos as costas ao norte; passamos a encarar o sul e não o norte.
   Quando nos voltamos para o norte, damos as costas ao sul; encaramos o norte e deixamos de encarar o sul.

   Tal procedimento simples evoca a virtude da escolha do bem e da fidelidade que devemos preservar para com ele. Se a mente das pessoas for boa, aquilo que objectivarem,  pensarem e disserem bem como aquilo a que se associam deverá ser bom. Todas as suas acções diurnas ou nocturnas serão boas. Só conhecerão o bem e desconhecerão qualquer existência de mal. Se a mente deles for má, aquilo que perceberem será mau, assim como o que pensarem e disserem, bem como aquilo a que se associarem. Todas as suas acções serão más. Elas só conhecerão o mal e desconhecerão qualquer existência de bem.

   Se percebemos o bem não percebemos o mal; se vemos o mal não vemos o bem. A falsidade e a verdade não andam juntos; lealdade e traição não podem coexistir.

Portanto, as pessoas desenvolvidas vêem o bem como algo ainda por atingir, e percebem aquilo que não é um bem como mergulhar em água a ferver. Elas preservam a verdade como se zelassem por um tesouro, com férrea determinação. Mesmo que tropecem um milhar de vezes não mudam de atitude. Não se modificam mais até morrer e não param de se esforçar até alcançarem a mais profunda auto-realização.
                                                                                                  Liu I-Ming


   As flores vermelhas podem ser belas, porém, a sua beleza carece do suporte das folhas verdes. Se tivermos flores sem folhas, aquelas não adquirirão brilho; quando combinadas, tornam-se mais coloridas.

   Quando contemplo isso percebo a verdade da necessidade mútua entre vida e virtude. A vida consiste em completar-se a si mesmo; a virtude, em beneficiar os outros. O cultivo do Caminho consiste no trabalho interior; o cultivo da virtude, no trabalho exterior. Entre aqueles que abraçaram o Caminho, desde os tempos mais remotos, não existiu um único que não cultivasse a virtude.
   O Caminho assemelha-se às flores; a virtude, às folhas. Do mesmo modo como as flores são sustentadas pelas folhas, o Caminho encontra na virtude o seu complemento. Assim como flores e folhas são inseparáveis, também o Caminho e a Virtude necessitam um do outro.

Os sábios da antiguidade praticavam primeiro o Caminho para depois se dedicarem ao cultivo da Virtude. Os notáveis da antiguidade cultivavam primeiro a virtude para então praticarem o Caminho. Os sábios compunham a mais elevada categoria enquanto que os notáveis e eruditos eram medianos.

   Os sábios alcançavam uma compreensão abrangente e, pela transcendência directa, chegavam às margens do Caminho. Para eles a prática do Caminho era fácil, de modo que assim procediam, cultivando mais tarde a virtude, para com ela completarem o Caminho.

   Os eruditos e respeitáveis tinham de se esforçar antes de poderem chegar ao não-agir; para eles a prática do Caminho era difícil, razão por que primeiro cultivavam a virtude e mais tarde praticavam o Caminho- para sustentar essa prática com a virtude.

   São muito raros os estudiosos do Caminho dotados de sabedoria superior; as pessoas de sabedoria mediana e inferior contam-se aos magotes. De entre estas, as que estabeleceram alicerces inconsistentes e de pouca percepção, que sustentam grandes aflições e profundos sentimentos de apego, devem, antes de mais, acumular virtude. Uma boa prática da virtude pode vencer espectros e espíritos e mover céus e terras, assim como exercer influência sobre pessoas e animais. Utilizando-se esse cultivo para aprender sobre o Caminho, ele torna-se fácil de aprender; se o utilizarmos para atingir o Caminho, ele será fácil de alcançar. Isso acontece porque o Caminho é a substância da virtude, e a virtude a função do Caminho. O grau mais elevado da virtude é a chamada virtude mística, que profunda e indevassável, se aproxima do Caminho, com base no que, fácil se torna aprender sobre o Caminho e realizá-lo.

   Os discípulos da actualidade não fomentam a virtude nem praticam boas obras; quando acontece escutarem um pronunciamento apressam-se a praticá-lo, esperando alcançar a imortalidade, sem discernirem se o que ouviram é ou não correcto. Preciso nem será dizer que eles não atingem a realidade.

   O Caminho Sublime não é transmitido a pessoas sem consciência social, nem passado a quem carece de bondade ou virtude. A clareza cristalina de um orientador autentico tudo reflecte- como poderia um tesouro assim ser dado a alguém indigno dele?

   Existe um outro tipo de tolo, que se acha em confusão, e não sabe trilhar caminho firme nem trabalhar com afinco. Tolos assim podem deparar com verdadeiros mestres sem procurar respeitosamente o seu ensinamento. Desse modo tornam-se incapazes de perseverar. Pessoas com uma mentalidade assim, correm de um lado para o outro e desperdiçam a vida à toa com recriminações e queixumes, sem jamais realizarem coisa alguma. São incapazes de perceber que o Caminho não está separado da virtude, nem esta apartada daquela. Como se poderá ignorar a virtude e falar só do Caminho? Como se poderá omitir o Caminho e praticar somente a virtude? Quem pretender praticar o Caminho deve acumular também virtude.
                                                                                               Liu I-Ming

Aquele que desejar empenhar-se no comércio deve primeiro reunir capital, e então procurar saber empregá-lo. Somente se souber reunir capital  e souber empregá-lo poderá obter lucros; se detiver capital mas não o souber empregar, ou se souber operar mas não dispuser de capital, não poderá fazer negócios. Isso leva-me a perceber a harmonia da função conjugada entre método e riqueza. Aqueles que cultivam a realidade criam virtude, realizam empreendimentos, acumulam vitalidade e cultivam o espírito, permanecendo consistentes, firmes e estáveis, e tornam-se tanto mais fortes quanto mais perseveram, sem modificarem a sua vida na sua integridade mas aplicando-se com sinceridade de coração.

Ter método significa buscar instrução pessoal junto a um guia, a fim de obter conhecimento sobre o começo e fim das coisas e das atitudes; compreender quando se deve avençar e quando recuar; reconhecer quando devemos apressar-nos e quando devemos relaxar; entender o que perfaz um bom e um mau augúrio e saber quando temos o suficiente para nos determos; para agir ordenadamente e encontrar o verdadeiro ingrediente medicinal, sem nos desviarmos do processo de cozinhar o "processo".

Se possuirmos riqueza e método, e utilizarmos a riqueza para obtermos uma provisão para obter o Caminho e método para o praticar, através do uso conjugado de método e riqueza, veremos o efeito do nosso esforço, passo a passo, até que por fim, alcançamos a sublime realização.
Quem detiver riqueza e falta de método, ou detiver método sem ter riqueza, e imaginar ilusoriamente que se vai alçar às alturas- ao tentar seguir em frente encontrará empecilhos e ficará para trás. Ainda que tenha a Verdade Sublime no encalço, ver-se-á incapaz de a atingir.
Por conseguinte, os verdadeiros aspirantes à Realidade, primeiro buscam em si mesmos e depois então recorrem a outros, de modo a conseguirem tanto o método como a riqueza completos. Só assim evitarão o erro.
                                                                                             Liu-I-Ming

Quando uma panela se quebra e nós a reparamos, podemos sempre voltar a utilizá-la para cozer. Quando um jarro se racha e o consertamos, podemos utilizá-lo para guardar água com dantes.
Isso leva-me a perceber a virtude da recuperação do que foi arruinado. Quando as pessoas nascem, os seus três tesouros- a vitalidade, a energia e o espírito formam um todo consolidado. Mas, à medida que a consciência cognitiva floresce, esses tesouros extraviam-se, por acção dos sentidos e tornam-se infectados pelos germes da acção emotiva, e tornam-se joguetes de parasitas. As experiências sensoriais desgastam-nos e a atracção dos estímulos iludem-lhes a natureza; a cobiça, a raiva, a loucura e o apego privam da realidade.

Dilapidados dia e noite, esses três tesouros exaurem-se; o corpo torna-se inteiramente sujeito à doença e espoliado por dentro e por fora. E esse tesouro objectivo original torna-se um objecto podre e destituído de valor - tal qual a panela quebrada ou o jarro rachado, torna-se um recipiente inútil.

Se ainda assim nos tornarmos suficientemente conscientes para nos observarmos com seriedade, e mudarmos de atitude, então devemos desdenhar tudo, excepto a restauração do que é nosso por direito- a cada coisa mais importante que existe para cada um e matéria essencial de vida; devemos actuar de modo genuíno nesse sentido, varrendo de nós, uma a uma, todas as coisas adquiridas e salvaguardando a aura, controlando os pensamentos, abandonando o falso e conservando o verdadeiro, eliminando o que é aberrante e sustentando o que é adequado, aumentando assim a cada dia em realização, enquanto diminuímos diariamente em benefício do Caminho.

Incremente-se o que deve ser incrementado e diminua-se o que deve ser diminuído até que alcancemos o ponto em que não subsiste mais nada para aumentar nem diminuir. Então, e de forma natural, a vossa vontade perderá vitalidade e esta tornar-se-á íntegra; deixaremos de desperdiçar energia e ela tornar-se-á íntegra; deixaremos de sobrecarregar o nosso espírito e ele tornar-se-á íntegro. Recuperaremos o que tivermos perdido e restauraremos o que tiver sido arruinado. Desse modo tornar-nos-emos como anteriormente: íntegros e completos, exactamente como uma panela quebrada reparada volta a ser uma boa panela e um jarro rachado, uma vez reparado, volta a ter utilidade. Contudo, as pessoas alquebradas e exauridas não se apercebem da sua miséria e tomam o falso por real, solapando assim, a própria vida dia e noite e abalando-se a si mesmos até ao dia em que os pilares apodrecem e as paredes ruem, e elas deixam de ter onde descansar.
                                                                                            Liu-I-Ming

Espírito Crítico


Numa era de imitação, muitos avançam na aparência, porém, interiormente, permanecem num estado mental de confusão. Ainda que realizem nobres feitos nunca chegam a ser completos. Em geral, o facto de serem assim deve-se à mesquinhez e à vulgaridade das suas companhias.

Quando um enxame de insectos se agrupa junto a um boi não pode esperar esvoaçar para além de uns poucos passos, todavia, se pousar num cavalo veloz, podem mesmo correr contra o vento ou na direcção do sol, simplesmente devido à superioridade daquilo de que se aproximam. Desse modo, os estudantes deveriam sempre escolher com cuidado aqueles com quem andam e optar sempre pelas pessoas de carácter libérrimo. Assim procedendo, poderão chegar a eliminar o erro e a parcialidade e aproximar-se do equilíbrio e da correcção e escutar palavras verdadeiras.
                                                                                          Zhantang

Falsa Instrução


   Sempre que nos deparamos com uma prática ou comunidade em que predomina uma forma de ensino que dispensa a disciplina, a meditação e o conhecimento, a libertação dos desejos mundanos e o cultivo da virtude, esse tipo de consideração não apenas vai prejudicar as actuais práticas como irá verdadeiramente arruinar o ensino por um longo período de tempo.

As pessoas comuns detêm desejos mundanos; elas amam, odeiam e anseiam; são egoístas e ignorantes e todos os seus pensamentos se acham ligados a algo, à semelhança de bolhas num jarro de água a ferver. Como esclarecê-los e serená-los? Era a tais questões que os antigos sábios destinavam grande parte do seu pensamento. Tanto assim que criaram três vertentes de estudo e aplicação: o da disciplina, o da meditação e o do conhecimento, a fim de orientar as pessoas de modo a poderem modificar-se e desenvolver-se.

Nos tempos actuais os estudantes deixam de seguir os preceitos  de praticar a meditação e de cultivar o conhecimento e tampouco desenvolvem a virtude e conduzem-se apenas com base no aprendizado amplo e no poder intelectual e procedem de modo vulgar e comum, de forma que tornam a sua recuperação impossível. Somente aqueles de mente elevada, que se conduzem de modo correcto e permanecem sinceros e fieis ao entendimento e ao esclarecimento da questão da vida e da morte, não se deixarão engolfar em métodos.
                                                                                                       Wanan

   "Diz-me", inquiriu Lao Tzu, "em que consiste a caridade e o dever para com o nosso vizinho?"
"Consistem", respondeu Confúcio, "na capacidade de nos regozijarmos em todas as coisas: e no amor universal, destituído do elemento da própria pessoa. São estas as características do dever e da caridade para com o nosso vizinho."

"Que baralhada!" proferiu Lao Tzu. "Não será o amor universal uma contradição em si mesmo? Não será aquilo que chamas de eliminação da própria pessoa uma manifestação positiva da própria pessoa? Ah, senhor, se ao menos fizéssemos com que o império perca a sua fonte de alimento - aí está o universo cuja regularidade é incessante; aí estão o sol e a lua, cujo brilho é incessante; aí estão as estrelas, cujo agrupamento é invariável; aí estão as aves e os animais, que se juntam invariavelmente; aí estão as árvores e os arbustos, crescendo para o alto sem excepção. Sê como estes: segue o Tao e serás perfeito.

Pois para que servem estas vãs pesquisas da caridade e do dever para com o nosso vizinho como quem bata um tambor ao procurar um fugitivo? Ai de nós, senhor, que muita confusão trouxestes à alma do Homem."
                                                                                                  Lao Tzu

   Depois de ter servido, pelo espaço de três anos, meu mestre Lao Chang, a minha mente não se atrevia a reflectir sobre certo nem errado e os meus lábios não se atreviam a falar de lucros e perdas. Então, pela primeira vez, o meu mestre concedeu-me um olhar- e isso foi tudo.
   Ao fim de cinco anos houvera uma mudança; a minha mente reflectia agora sobre certo e errado e os meus lábios falavam de lucros e perdas. Então, pela primeira vez, afrouxou a severidade do seu semblante e sorriu.

   Ao fim de sete anos, ouve outra mudança. Deixei que a minha mente pensasse o que lhe aprouvesse, mas ela deixou de se preocupar com o certo e errado; deixei que os meus lábios pronunciassem o que lhes apetecesse, mas eles deixaram de falar em lucros e perdas. Então, finalmente, o meu mestre conduziu-me a um lugar sobre a esteira, a seu lado.

   Ao fim de nove anos, a minha mente soltou as rédeas às suas reflexões, a minha boca deu livre passagem ao seu discurso. De certo e errado, lucros e perdas, não tinha eu conhecimento, tanto no que a min se referia como no que dizia respeito aos outros... O interno e o externo tinham-se fundido na unidade. Daí em diante não havia já distinção entre olho e ouvido, ouvido e nariz, nariz e boca: todos eram o mesmo. A minha mente estava gelada, o meu corpo dissolvido, carne e ossos fundidos numa só substância. Não tinha a menor consciência daquilo sobre que o meu corpo repousava, ou do que havia sob os meus pés. Era transportado para um lado e outro, na asa do vento, como palha seca ou folhas caindo de uma árvore. Em verdade, não sabia se o vento me cavalgava ou se era eu que, cavalgava o vento
                                                                                                    Lie Tzu

Bassui escreveu a seguinte carta a um dos seus discípulos que se encontrava na eminência de morrer:
   “A essência da tua mente é inata, de modo que não será capaz de findar com a morte. Não possui existência passível de perecer. Não consta de nenhum vazio, o que não passaria de um nada existencial. Não possui cor nem forma. Não experimenta prazer nem é capaz de sofrer dor. Agora, tendo conhecimento da gravidade do teu estado de saúde, recomendo-te que, como um bom aluno do Zen, faças face à tua doença, por inteiro. Pode ocorrer que não tenhas consciência de quem é que se acha a padecer verdadeiramente; por isso apelo a que te interrogues sobre isso. Em que consistirá a essência da tua mente? Pensa sobretudo nisso. De nada mais precisarás. Não ambiciones coisa nenhuma. O término da tua vida, que é infinito, assemelha-se a um floco de neve que se dissolve no contacto com o ar puro.”
                                                                 Carta a um Moribundo
(Continua)

Sem comentários:

Enviar um comentário