quarta-feira, 10 de outubro de 2012

ABORDANDO AS ESPECIFICIDADES DO SUCESSO







Transcrição e tradução: Amadeu Duarte

Vamos passar algum tempo juntos a ver se poderemos edificar novas fundações, a ver se poderemos construir uma nova estabilidade e uma nova aneira de tratar e de lidar com o sucesso, ao considerarmos, nesta noite convosco, ao explorarmos nesta noite convosco, não somente o sucesso e o ser bem-sucedido mas o verdadeiro poder em que o sucesso se pode tornar. O verdadeiro poder e a magia que poderá ter início e que poderá abrir uma porta para a obtenção de tudo.

Já falamos sobre o sucesso, o triunfo, ao longo de mais do que os últimos quinze anos em que temos vindo a falar, e sobre certos tópicos definitivos tal como o magnetismo do sucesso, da abundância como uma arte, da perícia, e até mesmo este ano, num tópico subordinado à renovação do poder, abordamos o sucesso que está associado a este jogo que é a manifestação.

O sucesso significa todo o género de coisas para todo o tipo de pessoas e varia de pessoa para pessoa. Através de workshops e seminários olhamos para trás numa reavaliação daquilo que o sucesso circunscreve. E ele também quer dizer uma miríade de coisas para cada pessoa, mas existe um certo número de denominadores comuns para todo o sucesso, quando ele se apresenta real.

Ora bem, no vosso mundo existe um monte de armadilhas para o sucesso, como bem sabeis, um monte de armadilhas, pessoas que dispõem do que aparenta ser sucesso, manifestações que parecerão para todos os propósitos e intenções ser sucesso, mas que não chegam verdadeiramente a senti-lo nem a experimentá-lo, nem chegam a mantê-lo em termos de sucesso.

Quando se trata de um sucesso verdadeiro que apresenta substância e profundidade, há certos denominadores comuns, o primeiro dos quais, se evidencia quando efectivamente existe sucesso, um sucesso verdadeiro, e se dá uma sensação, um sentimento, se evidencia um facto que tem que ver com acesso a recursos; não necessariamente posse nem propriedade mas acesso a recursos. Uma pessoa verdadeiramente bem-sucedida tem, pelo menos, como um denominador comum, um acesso total aos recursos necessários.

Em segundo lugar, envolve uma sensação de intimidade. Todo o nível de sucesso honesto e verdadeiro envolve intimidade, e é a falta de intimidade que quase sempre produz a fachada, as armadilhas – e não a realidade do sucesso! Porque, conforme falamos quando tratamos da Caminhada Gentil com o vosso Eu Superior, conforme foi referido nessa noite, para poderdes ir da posição em que vos encontrais até ao sucesso precisais ir até ao território, precisais ir até ao terreno da intimidade. Se não fordes íntimos, não obtereis sucesso.


A intimidade constitui uma parte integral e constitui o denominador comum; intimidade com as vossas matérias-primas, intimidade com as crenças, as atitudes, os pensamentos, os sentimentos, com as vossas escolhas e decisões, intimidade com as ferramentas da vossa criação, com os vossos desejos, expectativas e com as vossas imaginações; intimidade igualmente com as energias, tanto com as energias geradoras tais como a confiança e o valor e a felicidade e a alegria e o amor e a intimidade, como também com as energias de sustentação, a energia que, uma vez criado, sustenta esse sucesso: a determinação, a vontade, a visão, o sonhar. Para se ser bem-sucedido precisamos ter intimidade com essas matérias-primas, ferramentas, energias geradoras e as energias de sustentação.

Assim como também resulta a maravilha da diversão, ou como lhe chamamos, a comichão que a diversão provoca. As pessoas verdadeiramente bem-sucedidas sentem essa maravilha, que acham divertida, e permitem-se senti-la e reconhecem-lhe a admiração, o valor, a importância que a diversão tem. Também se dá uma sensação honesta de merecimento, uma disposição para sentir merecimento, por a despeito de não saberem muito bem o que é que sentem, o sentirem na mesma. Dispõem-se a sentir merecimento. Não por ter em demasia, não! “Eu tenho em demasia, por me dispor a senti-lo. Disponho-me a sentir que mereço.” E isso é comum a todo o sucesso, independentemente do quão grande ou reduzido seja, ou grandioso ou importante seja para o próprio apenas; há esse sentido de merecimento. Há igualmente a admiração inerente à responsabilidade e ao poder – não medo dele, nem necessidade de o possuir, nem a necessidade de procurar saber junto de toda a gente a maneira de o alcançar, mas a maravilha que encerra, a maravilha que é a responsabilidade e a admiração do poder como parte integrante de todo o sucesso, seja ele significativo ou diminuto.

Também resulta uma disposição para perceber – não para pensar que se conheça todas as respostas: “Ei, eu sou bem-sucedido, eu conheço todas as coisas; não há mais nada para eu conhecer, nem nada que não tenha experimentado. Quer quereis vós ensinar-me? Eu já sou bem-sucedido.” Não. Isso é um indicador de uma pessoa que tem armadilhas, ou ilusões, ou uma fachada, que teme mesmo olhar para mais longe de si própria. A verdadeira pessoa bem-sucedida é aquela que diz: “Eu estou na disposição de perceber mais; não sei o que tereis a ensinar-me, mas quero descobrir, quero aprender, mas não só aprender pela compreensão, como aprender a perceber de forma a poder conceber algo novo; não só imitar mas conceber algo novo.

Ligado a todo o sucesso, existe igualmente um acesso à espiritualidade. Todo aquele que é verdadeiramente bem-sucedido possui uma definição, e mais do que uma definição, a experiência de um relacionamento com Deus, ou conforme nós referimos, Deus, Deusa, O Todo, ou conforme dizem, um sem número de palavras ou termos que sintam vontade de aplicar. Mas a pessoa honestamente bem-sucedida tem acesso à espiritualidade e tem consciência disso, e não se envergonha disso nem se sente embaraçado por tal coisa, não tem necessidade de o ocultar nem de fingir que não tem lugar.

Estes são os denominadores comuns. Quando uma pessoa é bem-sucedida e vós ides e comprais um livro qualquer editado por uma verdadeira pessoa bem-sucedida que se debruça sobre o seu sucesso, ela poderá utilizar termos diferentes dos que nós usamos, mas eles dir-vos-ão serem essas mesmas coisas de que dispõem. Ou se lerdes uma biografia ou um trabalho biográfico dedicado a uma pessoa verdadeiramente bem-sucedida, mesmo que ela não entenda o que está a dizer, dir-vos-á que esses serão os denominadores comuns: acesso a recursos, intimidade com as matérias-primas, as ferramentas e as várias energias e com elas próprias, a maravilha da diversão, o merecimento, a admiração da responsabilidade e do poder, a disposição para perceber e para conceber, com base nisso. E elas acedem de uma forma consciente à espiritualidade. E é claro que a chave, conforme comummente referimos, quando procurais estabelecer sucesso, consiste em desejar, esperar e imaginar as coisas tangíveis que quereis. Realçamos ainda a necessidade de serdes específicos e de serdes claros e inequívocos. Mas também sugerimos, sem dúvida, e recordamos-vos que para criardes sucesso, desejai e esperai e imaginai a coisa que quereis, mas antes mesmo de o obterdes, estabeleceis esses denominadores comuns, criai esses denominadores comuns que são intangíveis, e consequentemente, para produzires a tangibilidade do sucesso, criai a sua qualidade intangível. Deslocai-vos para a posição de saber que tendes acesso a recursos, ainda que os não tenhais na vossa posse, mas que lhes tendes acesso. Permiti-vos obter intimidade, permiti-vos a admiração, permiti-vos o merecimento e a maravilha do poder e da responsabilidade, permiti-vos perceber e conceber, e permiti-vos aquele tesouro que é a espiritualidade consciente.

Se criardes o conteúdo intangível do sucesso, não tereis outra escolha senão criar a sua forma tangível. Mas para além do mero facto de serdes bem-sucedidos, existe um poder a que chamamos o poder do sucesso, o verdadeiro poder do sucesso, e nós acrescentamos esse termo em particular e especificamente de um modo deliberado. Porque, vejam bem, quando a maioria pensa no poder do sucesso, somos levados a pensar na imagem da realidade consensual instintiva. O poder do sucesso de acordo com a realidade consensual, suscita imagens e evoca sensações de manipulação e de intimidação.

A maioria no mundo consensual pensa que o poder do sucesso tenha que ver com a acção da manipulação, e até mesmo com o direito, a licença para manipular: “Eu tenho que o fazer, por ser bem-sucedido! Eu tenho que pisar em ti, por eu ser bem-sucedido e tu não seres, tenho que chegar ao topo às tuas custas, tenho que te usar, por ser bem-sucedido enquanto tu não.” É quase um direito inerente o que de algum modo está ligado a isso. Uma necessidade de responder, uma resposta instintiva em relação ao poder do sucesso. Resulta um certo sentido de: “Eu posso racionalizar, posso justificar, e repudiar o meu passado, numa espécie qualquer de filosofia “Os fins justificam os meios”. “Não importa o que tenha feito nem o impacto que isso tenha causado, sou bem-sucedido agora, e isso é tudo quanto importa. Não importa que tenhais ficado magoados, ou que eu tenha feito isto ou aquilo, eu sou bem-sucedido agora, podemos racionalizar isso dizendo que os meios justificam os fins a que se destinam, e não tem problema o facto de ter passado por tudo isso...” Do que resulta do sentido instintivo consensual ou da resposta instintiva, um certo sentimento de que o poder do sucesso constitua uma arma que usais para conquistar um mundo que vem no vosso encalço e um mundo que é hostil e que procura destruir-vos. Mas de facto nestes tempos que estais a atravessar isso vem mais à superfície do que conseguireis recordar.


Mas também este sentido de poder do sucesso, este poder instintivo, esta realidade consensual, de precisar culpar, e de precisar tirar, por de alguma maneira “ser meu por direito”, e assim, com esse poder do sucesso, sucede um culpar justo, uma tomada justa: “Eu tenho permissão.” Triste e ironicamente, este poder instintivo do sucesso nada tem que ver com o verdadeiro poder do sucesso. Triste e ironicamente, constitui a antítese daquilo que é o verdadeiro poder do sucesso. E quando vós penetrais, quando compreendeis e experimentais aquilo que esse poder verdadeiro é, jamais vos ocorre, nem sequer se vos propõe a opção de tirar partido desse poder instintivo que é assumido. Triste e ironicamente, essa resposta instintiva dada ao poder do sucesso impede, fecha a porta à descoberta do que o verdadeiro poder é; impede e fecha a porta à possibilidade de conseguir “tudo”.

E assim, aquilo com que queremos trabalhar juntamente convosco nesta noite, é ir além do consensual, ir além do instinto a fim de descobrirmos, sentirmos e aprendermos a utilizar – não apenas o poder do sucesso, mas o verdadeiro poder do sucesso. E para podermos fazer isso precisamos olhar certas coisas primeiro. Para podermos ir de onde nos encontramos até onde queremos ir precisamos olhar certas coisas, em primeiro lugar. Primeiro, precisamos considerar a razão por que esqueceis; Por que é que esqueceis? Vejam bem, ao nível celular, sabeis que podeis ter tudo. Vós sabeis disso; isso faz parte daquele que sois. Mas quando referimos “nível celular”, não estamos a querer referir-nos às células de ciclos de sete anos de vida do vosso corpo, mas estamos a querer dizer... talvez um outro modo de o dizer seja que ao nível inconsciente vós o saibas.

Vejam bem, vós possuís uma vida consciente, já sabeis disso; tendes montes delas, se considerardes a filosofia das vidas passadas, e cada uma dessas vidas possui uma mente subconsciente, conforme já debatemos muitas vezes antes. Assim, existe uma miríade de vidas conscientes e de mentes subconscientes, mas apenas uma mente inconsciente, que a seu modo “serve” ou trabalha com todas essas fisicalidades. É por isso que sois capazes de experimentar, através da meditação, ir a uma vida passada, ou a experiências futuras, e viajar daqui acolá, à boleia daquilo a que Jung chamou de Inconsciente Colectivo. Possuís uma mente inconsciente e essa mente inconsciente possui um certo saber, um certo conhecimento.

Nós concluímos um seminário que lidava com o conhecimento interno, que em muitos aspectos é o saber que procede da mente inconsciente, que todos vós conheceis, que vós em todas as vossas vidas conheceis. Nessa mente inconsciente vós sabeis que podeis ter tudo, e antes de virdes a este corpo, enquanto ainda não passáveis de uma consciência que tinha o desejo de entrar, vós sabíeis que podíeis ter tudo. Desde que sois um garoto que o sabeis. Toda a criança tem esse conhecimento e não o questiona. Uma criança não questiona isso: “Poderei ter tudo o que quero?” “Bom, tudo o que tens a fazer é tentar.” E ela lá vem a correr, e toda a gente verifica a fralda para ter a certeza de que está limpa, e alimenta-a, e faz-lhe isto e aquilo; de facto só precisa chorar e logo vão verificar o que é que quer. (Riso) “Eu consigo ter tudo! Eu sei! O problema é eu não dispor da facilidade de falar sobre isso. E não ter um corpo para poder fazer alguma coisa acerca disso! Não compreendo muito bem por que criei tudo isto se nem consigo caminhar direito para ter que me pôr aos gritos, mas eu sei que posso ter tudo!” (Riso)


"Mas quando gozar da possibilidade de fazer alguma coisa a respeito... já terei esquecido!" (Riso) Portanto, aí estais vós, capazes de falar, de caminhar, de funcionar, capazes de fazer seja o que for, mas esquecestes que podeis ter tudo. Porquê, por que é que esquecestes? Bom, por uma multiplicidade de razões; em primeiro lugar por vos ter sido inculcado - foi-vos inculcado!

Podeis ter tudo; podeis ter tudo. "Talvez a certa altura neste país possais ter tudo; mas como tendes que pagar impostos e sindicatos, não podeis ter tudo; esquecei isso, não podeis tornar-vos ricos, não podeis ter tudo o que quereis. A esse respeito os Rockefeller, os Vanderbilt, os Carnegie, esses podem ter tudo o que quiserem, mas vós não podeis ter tudo; além disso, ter tudo é só para os que são especiais e os que nasceram em “berço de oiro”; os sobredotados, os que são especiais, os que foram de algum modo escolhidos; vós não sois desses. Vós saístes, tornastes-vos numa confusão mas não nascestes em “berço de ouro”, pelo que não o conseguis, não é?”

Ou então, a única maneira de conseguir tudo é enganando: “Pois é, pois é, olhai para aqueles que têm tudo; como foi que o conseguiram? Os barões do furto, os aventureiros, os traficantes de droga actuais e os contrabandistas de outrora; pois é, têm tudo o que querem agora, mas como foi que o obtiveram? Por meio do crime, da ilegalidade e do logro. A única maneira de se obter tudo, provavelmente é tornando-vos traficante de droga; essa é a única maneira, actualmente. E ao vos sentardes à mesa de jantar e escutardes os vossos pais com os seus modos pomposos e a proferir todos os seus decretos, etc., vós ficais a saber: “Eu posso ter tudo; eu posso ter tudo!” E ser o melhor de todos também, não é? Ao conversardes com os vossos amigos ou com alguém da escola, vem à baila o: “Ele parece ser dos que tem tudo!” “Pois, mas será feliz?” (Riso) Nunca ninguém respondeu a essa questão, sabem? A resposta é sempre dada em moldes de: “Oh, pois é.” Enquanto deixa cair cinza sobre a mesa a cada decreto que profere. E diz: “Tu já sabes que podes ter tudo!”

Agora, para além daquilo que vos foi ensinado existe igualmente o sentido do saber lógico: “Não me estás a ensinar nada, eu sei que posso conseguir todo o dinheiro que quiser. Posso ter os carros todos; mais do que alguns que por vezes conseguem ter 38 ou 48 ou 50. Mas ainda assim, eles não possuem os carros todos! E eu posso ter todas as casas que quiser.”

“Mas e que irão as pessoas fazer? Que tolice é essa de querer ter tudo? Cai na real, sim? Estamos no mundo real. De que é que estás a falar? Ninguém pode ter tudo o que quer!”

“Eu posso ter tudo!”

“Não podes! E que será dos outros? Ficarão sem casa e sem carro? Sem dinheiro? Que prazer será que isso traz? Não, eu não quero ter tudo. Pela lógica, sei que é uma impossibilidade!”

Em terceiro lugar só porque muitos têm medo do sucesso – só! – mas realmente temem o sucesso: “Eu nem quero pensar em ter tudo. O sucesso? Só de o mencionar já me assusta, quanto mais falar em conseguir ter tudo; tens ideia do quão aterrador isso é? Deixa que te conte um que tive. Eu não pretendo exceder a medida dos meus pais, não quero dar demasiado nas vistas, a muito menos  tornar-me vulnerável. Não me quero aventurar demasiado por essas andanças, não quero tornar-me num dos “cães de topo” para a seguir ser abatido, por ser isso que na vossa cultura Americana fazeis a um “cão de topo”: elevar os explorados até se tornarem em “cães de topo” para a seguir procurardes abatê-los. É esse o jogo que jogais: Criais uma espécie de equipa dos oprimidos e a seguir: “Aah! Nós vamos... nós vamos...Espero que ele perca!”

Ouvistes falar do negócio que se passou com o Donald Trump e dizeis: “Espero que tenha o que merece!” Não que ele alguma vez tenha sido um oprimido mas de qualquer modo sugeriríamos aqui que decerto na mente de muitos ele é um “cão de topo” – mas de qualquer modo sugeriríamos: “Não me quero meter nisso; tenho demasiado medo de ter sucesso; não me venhas falar em ter tudo.”

E assim o medo que sinto do sucesso produz a falta de conhecimento: “Eu não quero saber. Assim também como a dependência que crio em relação às compensações (subornos). Torna-se demasiado fácil para mim culpar e ser reto; não me fales em ter tudo. Sabes, se passasse a ter tudo eu não poderia tornar-me num mártir; podia passar a não sentir autocomiseração por mim próprio, sem qualquer razão; e eu prefiro sentir autocomiseração e sentir-me um mártir além da presunção me agradar; gosto de ser justo, reto, honesto (hipócrita) e de culpar, gosto de compensações – Oh, eu sou de tal modo dependente delas que quer goste ou não tenho que aceitá-las. E desse modo, a preferência que tenho por compensações produz amnésia, tal como um anestésico produz amnésia. Assim, não me lembro – não me quero lembrar que posso ter tudo.”

Também o medo do fracasso – o medo do fracasso: “Olha, tenho a minha vida apenas no começo, não me venhas falar em conseguir tudo!” É quase como: “Finalmente consegui um B, não me venhas perguntar porquê, não? Eu não quero ouvir isso!”

Isso arremessa-vos de volta para a criança ou para o adolescente: “Não sei como o conseguiste! Até que enfim!” não é? “Agora, dizer-me que tenho que conseguir tudo, não me fales disso. Já é muito bom manter a cabeça fora da água tal como estou. Estou a correr tanto quanto posso, não me venhas falar em correr mais.”

Há uma história maravilhosa da Alice do Outro Lado do Espelho. A Alice conhece a Rainha Vermelha, e corre tanto quanto pode, e a Alice nota que não está a conseguir chegar a lado nenhum, e diz isso: “Porque não estamos a chegar a parte nenhuma? Ah, ouve cá, tens que correr tanto quanto puderes para permaneceres onde estás!” (Riso) “Se quiseres conseguir avançar, precisas correr duas vezes mais do que consegues.” E é isso que muita gente sente: “Não me venhas falar nisso; ter tudo significa correr duas vezes mais do que consigo. É coisa que não pode ser feita. Não o quero fazer, e nem pode ser conseguido.” Tanto por medo do sucesso como também por medo do fracasso.

Para outros é por um outro sentido do conhecimento. Nós mencionamos o saber lógico, mas há o saber mais profundo, que é o emocional. Aqueles de vós que sentem ser indignos – não em termos de manipulação mas como um facto; a culpa, a depressão, os segredos, e mais profundamente a vergonha que sentis, dizem: “Eu sei que não mereço tudo. Não mereço tudo pelo que não posso ter tudo. Podes falar nisso que eu escuto e tomo nota, mas eu sei que não posso. Não eu, pois estás a ver, eu não o mereço; e se me conhecesses tal como me conheço a mim próprio, saberias que não mereço isso. E por uma questão de delicadeza deixas-me assistir ao seminário, mas se me conhecesses, saberias que não pertenço aqui, por não poder ter tudo. Os segredos, as coisas que fiz ou que pensei poder fazer: as culpas, as depressões, e a vergonha, vergonha resultante do que fiz, e para alguns “só por existir”, e para a maioria “por tudo de mal que me foi feito”. Não tenho resposta para esse mal, pelo que sinto vergonha, não tenho qualquer sentido nem explicação a dar, pelo que sou levado a sentir culpa e daí não mereço. E assim, não importa o que digas, não importa o quão convincente possas conseguir ser, não importa o quão claro isso possa parecer, eu sei que não posso ter tudo; não me pressiones em relação a isso; não me leves a ter que te dizer porquê.” E essa sensação de saber, esse saber emocional também é verdadeiro para muitos de vós - razão porque esquecestes.

E por último – tal como a primeira – é algo que vos foi inculcado. Muitos foram ensinados que é moralmente e espiritualmente errado, e que é uma completa abominação querer ter tudo. Mas ir ainda mais longe e ter a audácia de tentar conseguir tudo, é ainda um pecado maior, um mal e um erro maior. É moralmente errado querer tudo – é ganância! – por não saberdes quando deveis parar, não é? “Todas as coisas boas devem ter um fim; os bons morrem jovens.” (Riso) “O problema é que não sabemos quando devemos parar! Isso é errado; jamais deveriam querer mais, não deveriam sentir-se felizes nem satisfeitos, não deviam sentir-se decididos, não deviam comprometer-se, não deviam sentir-se gratos por aquilo que têm. Quem disse que não se sentiriam?!” Entendem?

Mas há essa moralidade que diz: “Não, precisais desistir; todas as coisas boas devem ter um fim. Os bons morrem jovens. Nem sequer lhes dizem o que isso significa, mas de qualquer maneira - nada disso faz qualquer sentido de qualquer modo - e assim porque revelar-lhes isso, não é? Prolongamos isso no tempo e tudo o mais.” Mas de qualquer maneira, sugeriríamos, que se alguém considerar a origem, e disser: “Olha, onde é que isso vem escrito? Que verdade cósmica é essa que dita que todas as coisas boas têm que ter um fim? Isso não passa de uma lenda sagaz, não é? É algo que repetis, mas que poucos conhecem. (Riso) Mas quem tornou isso numa lei cósmica? Ou numa lei moral? Ou numa lei religiosa? Isso faz tinir uma coisa qualquer, tem uma certa qualidade rítmica (riso). Mas a vida não é um chocalho! (Riso) Uma ilusão, sem dúvida, mas não um chocalho. (Riso) “Ah, mas serão felizes? Todas as coisas boas têm um fim.”

Oh! Pois é, eu creio que têm.”

Mas porque é que concordas com isso? “Por parecer tão... Provavelmente por ser verdade, e por rimar.” (Riso) “Nada se consegue sem trabalho, não é?”

Ah, verdadeiramente profundo! (Riso) Todavia, fará algum sentido? Será verdadeiro? Terá alguma base, seja a que nível for: físico, mental, emocional ou espiritual? Não! Mas é que soa tão bem! Mas por ser a moralidade que faz esse tipo de declarações: “Oh, provavelmente nem sequer devo pensar em ter tudo, e depois tentar isso está fora de questão por ser uma coisa bem pior. Mas espiritualmente também é encarado dessa forma. Espiritualmente é completamente errado querer ter tudo, quanto mais pensar que podeis. De facto para provardes a vossa espiritualidade, para provardes que o plano físico não significa coisa nenhuma para vós, precisais negá-lo. Não devíeis querer nada dessas casas de luxo, e coisas caras, e montes disto e daquilo, e férias e divertir-vos, e fazer isto e mais aquilo, sentir prazer com o trabalho que realizais. Isso não é ser espiritual! Isso não é ser espiritual! Para serdes espirituais é suposto serdes desapegados e demonstrar tal desapego recusando as posses – o que de facto constitui um enorme sentido de apego!


Por aquele que diz “Eu sou espiritual por não ter” estar a dar mais sentido a esse objecto; estar a utilizar esse objecto como uma demonstração da espiritualidade que tem, que é a mais bela coisa que tendes em relação a vós - a vossa espiritualidade. Qual será a medida da espiritualidade que tendes? “A falta de posses que evidencio?” Que valor terão nesse caso tais posses? Um valor intenso! “Prova a espiritualidade que tenho. Eu deposito um enorme peso, em termos de significado, nessa posse. Por estar a dar a entender que a ausência dela prova que sou melhor, que sou uma pessoa mais evoluída, mais espiritual, que me encontro mais próximo de Deus.” Pois sim... isso tem cá um valor... sem sombra de dúvida!

O outro tipo que não padece de apegos poderá dizer: “Bom, eu tenho dois ou três carros; e depois? Não quer dizer que seja uma pessoa melhor. Não quer dizer que seja mais espiritual. Não quer dizer nada disso, por não passar de uma ilusão.” Agora, isso já demonstra desapego. Isso é o que o desapego envolve. “Eu consigo ter isso. Mas não, não significa nada sobre aquele que sou.”

Aquele que invoca o desapego, dirá: “Olha para aquele, a andar por aí naquele Mercedes, olha bem para ele, não será isso uma coisa terrível?” Esse é quem deposita um enorme sentido no Mercedes. O que diz: “Ei, este carro é um carro respeitável. Eu gosto dele.” É uma ilusão divertida. Esse é o que alcança o desapego. Onde reside o peso do significado é onde assenta o apego!

Os juízos de valor procedem de seguinte: “Hmm, olha para ela, vestida com aquelas roupas extravagantes; é óbvio que não é evoluída.” Assim, a espiritualidade que diz - no sentido puramente adolescente podíamos acrescentar: “Vou provar que o mundo é uma ilusão, não possuindo coisa alguma,” está ironicamente a provar que não acreditais ser realmente uma ilusão. Estais a torná-la de longe muito mais real.

Bom, de modo notório, há aqueles que têm posses e que pensam ser superiores aos outros, conforme já referi, mas a ausência de posses não vos torna superiores. E gostaríamos de sugerir que, se aquele que for desapegado desses anelos perceber que se trata de uma ilusão e que podeis ter tantas ilusões quantas quiserdes... Quanto de coisa nenhuma estareis dispostos a querer? (Riso) Não deveria querer ter mais de coisa nenhuma? (Riso) É como quando sois garotos, sabeis, e estais à mesa: “Olha lá, deixa que te faça o prato. Queres mais? Anda lá, come mais. “Ah não, para mim já chega.” (Riso) Quanto da ilusão pretendeis ter? “Quanto poderei ter?” “Podes ter a ilusão toda!” Por não passar de uma ilusão.


Lembrais-vos de em garotos brincardes ao Monopólio? E das regras do jogo: “Quantas notas de quinhentos diziam as regras que devíeis ter? Duas! E quantas davam a vós próprios? Quatro! (Riso) “Bom, vamos simplesmente mudar as regras, está bem? Doravante, no jogo do monopólio começamos por ter quatro notas de quinhentos. Certo? Qual é o prejuízo? Ei, não passa de um jogo! Não se trata verdadeiramente de notas de quinhentos, mas de pedaços de papel colorido! (Riso) É uma ilusão com que brincamos, de modo que podemos mudar as regras.” “Queres começar com cinco notas de quinhentos? Óptimo!” “Não, só podemos ter duas!” (Riso)

Quanto da ilusão desejareis possuir? A resposta espiritual dirá: “Olha cá, tudo quanto posso querer é uma ilusão, por mais que queira, e tu podes ter tanto quanto quiseres, e tu podes ter tanto quanto quiseres, de modo que nem sequer precisamos competir se terás mais de coisa nenhuma do que eu terei de coisa nenhuma; nem tampouco isso nos tornará inferiores nem superiores, nem mais afastados nem mais próximos, isso não passa de uma ilusão!” Mas por tais razões é que esqueceis! Mas, entendam, se o esquecimento envolvesse tudo o que fazer quanto a isso, deveria ser fácil consegui-lo, não? “Podes ter tudo!” “Ah, agora recordo! Obrigado.”

Mas foi-vos incutido que podeis ter tudo. Ter tudo o que quiserdes não constitui nenhum conceito exclusivamente metafísico. Não é um conceito espiritual e nem sequer constitui um conceito da Nova Era; é um conceito inerente à humanidade, de que se tem falado em todos os círculos – podeis ler: “Aventurai-vos”; podeis ler: “Sucesso”; podeis ler todo o tipo de revistas que falam de ter tudo quanto quiserdes. E participar em todo o género de seminários que dizem: “Também você pode ter tudo quanto quiser!” Sim, absolutamente!

Infelizmente, as coisas acabam dizendo-vos quarenta e cinco vezes como haveis de o fazer: “Podes ter tudo; podes ter tudo; podes ter tudo.” Ou “Tudo quanto podeis ter,” para variar um pouco. (Riso) E vós saís a dizer por aí: “Eu consigo alcançar tudo, hurra, hurra, hurra, eu consigo ter tudo, queres que te mostre como? Mas esse tipo de coisa simplesmente não funciona. Não funciona porque o conhecimento de poderdes ter tudo não é suficiente. Tivésseis vós tudo agora por o terdes escutado algures no vosso passado que o teríeis recordado. Portanto, envolve mais do que a recordação.

O que também acontece é que vós resistis ao facto de ter tudo; resistis à posse desse poder, ao verdadeiro poder do sucesso. Agora, por que é que lhe resistis? Porque lhe resistis? Bom, resistis-lhe por várias razões, conforme deveis suspeitar. (Riso)

Antes de mais, simplesmente pelas mesmas razões por que o esquecestes. “Eu resisto por mo terem ensinado; quer à mesa de jantar ou na minha espiritualidade, por mo terem ensinado. Ah, por eu saber, quer logica quer emocionalmente. Eu sei. Ou pelos receios que sinto em relação ao fracasso. Ou pelas preferências que tenho em relação às recompensas que pretendo obter. É por isso que lhe resisto. É igualmente a razão por que o terei esquecido, mas é também a razão pessoal por que lhe resisto.”

Uma outra razão deve-se ao temor da mágoa. “Já corri atrás disso tudo uma vez, já acreditei no discurso da propaganda, já participei nos encontros da manhã dos hurra, hurra, no emprego de Verão que tinha, já corri isso tudo, e cheguei a pensar que se vendesse suficientes produtos de limpeza poderia chegar a governar o mundo. (Riso) Ou se fizesse a coisa de modo acertado teria tudo; era disso que eu andei em busca, certa vez, e não o consegui. E isso dói. Dói de verdade. E eu não quero sentir-me outra vez magoado; quero dizer, não quero pôr-me com tentativas e falhar de novo. Por ser demasiado doloroso e humilhante; por isso, não, muito obrigado. Não tenho a pretensão de ter tudo; não quero saber como o conseguir nem ouvir nada disso, só quero esquecer tudo isso, por doer demais.”

Outra razão: “Não sei o que fazer com o resto da minha vida. (Riso) A adversidade motiva-me de tal modo, o esforço motiva-me de tal forma, a aquisição daquilo que não tenho motiva-me tanto que se alcançasse tudo, não saberia ao que me dedicar pela manhã. Não saberia por que ir para o trabalho. Não sei por que razão haveria de funcionar. Que haveria de fazer com o resto da minha vida, caso alcançasse tudo? Muito disso, muito do condicionamento provém do ganho. “Não vás de férias já; poupa isso para mais tarde. Se fores gozar as férias dos teus sonhos já, que haverás de fazer no ano que vem? Poupa-as. Vai fazer as férias que não querias fazer agora.” (Riso) “Para mais tarde poderes ir gozas as que queres. Poupa as mais importantes para o fim.” O que constitui uma ideia terrivelmente mórbida se pensarem nisso. “Finalmente vamos à Europa, por irmos morrer dentro de pouco tempo.” Por isso, vamos pôr os motores das cadeiras de rodas eléctricas em movimento e vamos lá. (Riso) “Não compres o carro caro já, deixa para mais tarde, quando tiveres que olhar pelo volante, em vez de o fazeres por cima dele, não é? (Riso) Olha como eles passam! (Riso) Caramba, é óptimo poder poupar todas essas coisas para mais tarde, não? (Riso) Não compreis o mais caro; não compreis a casa extravagante; não façais... deixai para mais tarde, esperai por uma outra altura. Afinal de contas, que haveríeis de fazer com o resto das vossas vidas?” Descobrir coisas novas para fazer, porventura, descobrir mais sobre o que ter tudo significa; entendam que o significado disso brota do desconhecimento, mas de qualquer forma: “Eu não sei o que haveria de fazer caso não tivesse adversidade e esforço e carência; se eu tivesse tudo...” E isso leva-vos a resistir: “Ainda não, ainda não, eu vou esperar ter tudo quando for velho. Quando estiver às portas da morte então permitir-me-ei ter tudo.” (Riso)

Também uma vez mais, a vergonha; a falta de mérito. Destaca-se, não somente como algo que vos leva aesquecer mas como algo que vos leva a resistir. “Não quero forçar a questão, não quero expor essa vergonha, ou ter de lidar com ela, de modo que não vou tratar de ter tudo, vou resistir a isso.”


Uma quinta razão deve-se ao facto de não confiardes que conseguis tratar disso. “Quero dizer, se tivesse tudo podia tornar-me num desses imbecis ricos, podia tornar-me num desses fulanos de tal arrogantes e podia ganhar uma verdadeira voracidade por tudo. É a falta de tudo de que padeço que me mantém a casa limpa e que me faz trabalhar obstinadamente, dar no duro, ou o que seja suposto fazer. “Se eu tivesse tudo, quem sabe, talvez eu me tornasse decadente, talvez me tornasse arrogante, talvez me tornasse um verdadeiro pateta. Vós podeis vê-los, podeis ver essa gente que pensa ter tudo. Oh Deus do céu. Quero dizer, se eu tivesse que me tornar num desses - não quero de todo, por ser isso que ter tudo significa. São arrogantes, rudes, insistentes, exigentes, ruidosos, barulhentos, desagradáveis. E se eu tivesse tudo, podia tornar-me num desses, e por mais que me agrade pensar que não me tornaria, não posso ter a certeza.” A única maneira por que posso ter a certeza é não dispondo de todas as coisas. Por isso resisto a ter tudo, por não confiar que tenha o carácter, para ser aquele que sou.”
 

“Tem cuidado! Podes-te tornar demasiado rígido; não deves deixar-te tornar arrogante a esse ponto. Precisas ter as tuas raízes em mente, e lembrar-te de onde vieste. Não deves voltar as costas aos teus velhos amigos assim que tiveres mais do que tendes agora – tudo!” (Riso)

“Claro, essa podia ser a minha posição; eu podia andar de nariz empinado em relação aos meus amigos e não mais... Oh Deus meu...” Por isso: “Eu não sei se terei carácter para ter tudo,” Mas talvez não tenhais, ainda. Em todo o caso, é por isso que resistis a isso. “Eu não confio no carácter que tenho, não confio em mim.”

Além disso, uma outra razão por que temeis as profundezas - por que temeis as profundezas! O vosso mundo, sabem, na arena do sucesso, por exemplo, permite que tenhais altura (estatura), permite que tenhais montes de altura no que diz respeito ao sucesso. De facto, o melhor é que o vosso sucesso tenha altura (proeminência). “Quanto? És bem-sucedido? Quanto? Quanto ganhas?” É assim que medis o sucesso, não é? Ah, vós não sois assim tão abertos: “Quanto? Que fazes, qual é o cargo que ocupas? Quantas iniciais tem o nome que tens afixado à porta do teu escritório? O que é que fazes? Eu descubro logo o teu salário. Dá-me somente esses detalhes, não é?” (Riso) “Quanto, quanto, quanto? Quão alto na colina fica a tua casa?” Não é? “Vives no vale? Oh, bem...”

E alguns jamais chegam a obter sucesso, mas dizem: “Muito sucesso, um sucesso muito elevado!” Um cargo superior, mas o resto da vida está lá no fundo, não é? Isso não é muito aceite no vosso mundo, por representar um “Sim, mas...” 

“Claro, a vida é «Sim, mas...» mas olha o sucesso que alcancei! Olha para quanto dinheiro, olha para a posição que ocupo, olha a importância que adquiri, olha o que eu faço, olha para o génio que tenho, olha o quão brilhante, olha como sou nascido antes do meu tempo...” Não. Sem dúvida, “antes do tempo”, ou seja o que for, etc. (Riso) A sociedade admite altura e encoraja o elevado sucesso. Também permite largura (amplidão); a largura do sucesso. Em quantas áreas da vida sois bem-sucedidos? Muita gente tem largura na vida que tem, e normalmente altura, como uma espécie de “pau para toda a colher”, e isso é admissível: Se não tiverdes muita estatura, o melhor será que tenhais largura (expansão).” Diz a sociedade.

Mas a sociedade medirá, e admitirá e encorajará a altura e a largura do sucesso, mas nada fará em relação à profundidade; não quererá fazer nada em relação à profundidade do sucesso, como todas as lagoas estão, normalmente, mas nadais na lagoa, que por acaso tem três metros de profundidade: “Tudo, bem não tem problema. Sou capaz de nadar.” Já se for três quilómetros:


 “Ena pá!”


“Que é, já não te sentes capaz de nadar?” (Riso)


“É demasiado fundo!”


“Porquê? Podes-te afogar em três metros de água! Morres à mesma!”


“Pois é, mas entendes, são só três metros de profundidade, e eu tenho pé, e sempre tenho oportunidade de vir ao de cima, e além disso, com três metros sempre sou capaz de lidar, mas três quilómetros! Não sei o que possa lá estar no fundo!” (Riso)


“Também não sabes o que esteja no fundo da lagoa de três metros! Mais gente morre de mordidas de turbões a três metros de água do que a três quilómetros de profundidade. É mais perigoso, nesse sentido. O melhor é que seja assim fundo, por causa das coisas ruins que se podem encontrar à profundida de três metros.”


“Não, é demasiado assustador. É aterrador.” (Riso)


E é assim que lidais com as emoções: 


“Está bem, eu vou sentir a raiva; eu vou-me deixar perturbar, ficar chateado, corado, irritado, mas não me vou permitir sentir verdadeiramente furioso. É demasiado assustador mergulhar fundo na raiva que sinto, mergulhar fundo na ofensa que sinto; posso-me perder, posso penetrar nelas e não regressar (igual), posso perder o controlo.” 


“Oh, por Deus, nós não queremos perder o controlo!” 


“Eu sinto profunda e intensamente, e isso seria terrível, etc.”


“O que é que se revelaria assim tão terrível?”


“Eu não sei, eu não sei; é demasiado aterrador descobrir; eu não quero ir tão fundo.”


O problema, entendem, é que o profundo vale para todas as situações!


Isto é raso; isto é fundo. Agora, onde tem lugar a raiva pouco funda? Aqui em cima (escreve no quadro). Onde tem lugar o amor pouco fundo? Aqui em cima. Onde tem lugar a raiva profunda? Aqui em baixo. Onde tem lugar o amor profundo? Também é aqui em baixo! 


“Eu temo esta posição – a da minha raiva profunda. E assim, jamais toco na outra. Jamais chego a descobrir o amor profundo que tenho.”


Ou, como ironicamente é mais frequente: 

“Tenho medo do amor profundo que tenho, e como tal jamais chego a sentir a raiva profunda.” As emoções positivas, ironicamente, também se situam aqui no fundo; as profundas, as intensas, as poderosas. E muitas vezes tendes medo delas. E há muito mais gente com medo do amor o que há com medo da raiva.

“Como é que hei-de saber disso?”


Olhai para o vosso mundo; quantas pessoas se revelam zangadas? E quantas revelam estar a amar? A raiva não vos assusta tanto quanto pensais assustar.


Mas entendam, vós não ides ao encontro de ninguém a dizer: “Sinto-me aterrado, por estar a sentir amor profundo. E é por isso que não sinto a raiva profunda que tenho.” Isso socialmente não é tão aceitável. Mas se for ao contrário já se torna socialmente aceitável: 

“Sinto medo da raiva que tenho; por ser demasiado intensa e me poder levar a destruir, e me poder levar a despedaçar e retalhar o mundo.” (Riso)




Sem comentários:

Enviar um comentário