sexta-feira, 31 de agosto de 2012

NOTAS SOBRE AS ORIGENS DO CRISTIANISMO





Traduçao e retracto da autoria de Amadeu Duarte

Nos seus primórdios, o Cristianismo que não somente a facção representada pelo catolicismo Romano, mas todo o espectro de ramificações que envolvia, como um corpo ou instituição, era tudo na verdade menos sagrado ou tutelado pelo divino ou sequer predestinado pelo que podereis livremente designar por “Deus” ou a divindade.

Constantino foi quem literalmente promulgou esse particular conjunto de dados de carácter religiosos por meio da combinação dos princípios de várias filosofias e escolas de pensamento e quem basicamente decretou que esse corpo deveria tornar-se na religião oficial do Império, como uma forma de unir as inúmeras facções briguentas e mesmo belicosas existentes nos seus limites, numa tentativa de as unir. (1)

Tal esforço procedeu de uma tentativa de reunir vários receptáculos de conhecimento a fim de os preservar igualmente, o que constituiu também um acto de consciência. Mas, como em todas as coisas, subsistem interpretações de ordem variada, distorção e falsidades que frequentemente entram em questão.

Antes da amálgama patente entre pelo menos as três principais religiões daquele tempo, na época de Constantino, encontrava-se o principal corpo religioso conhecido por Mitraísmo, com a religião principal que os romanos praticavam, embora eles também adorassem Zeus e Júpiter assim como alguns outros deuses mitológicos. Mas dispunham igualmente de algo mais poderoso e unificador na pessoa do deus que conceberam a partir da figura de Júlio César, pois que o proclamaram literalmente como um deus, pelo que consequentemente, todos os imperadores que lhe sucederam se tornaram deuses vivos ou extensões de Júlio César, à semelhança dos antigos faraós – que também eram considerados a encarnação de deuses.

A segunda religião principal, a qual quase foi varrida da face da Terra à altura, após ter sido incluída no ideal de Constantino, era a que venerava o deus hindu Krishna. O decreto que promulgou a reunião dos princípios e das ideias desses três corpos principais numa nova religião criou um sistema unitário que não era perfeito mas que apesar disso foi bem-sucedido na contenção das massas do seu vasto Império.

A deificação de Júlio César foi usada para criar a deificação do homem num deus por que passou a perfilhar-se a figura principal das escrituras a que chamais Cristãs.

Além disso, “Julius” significava “salvador”, tal com Mitras e Krishna representam o termo sânscrito e hindu que é traduzido por Cristo, ou a sua versão grega, “Cristus”, o salvador, que acabou transformando-se no homem que se tornou deus.

Muitos gostariam verdadeiramente de acreditar, fervorosamente, existir um ser que venha como salvador e que literalmente redima o mundo e os seus pecadores e reine supremo sobre a mente e o coração da humanidade. E cada religião convence-se de que a sua versão ou interpretação que faz desse salvador divino venha a ser a que reine de modo absoluto, como se os erguesse ou pertencesse a uma elite ou a um clube em que, enquanto membros, formem os escolhidos. E cada instituição ou corpo religioso convencesse disso como fosse de facto um dado adquirido, em relação á qual nenhuma variação seja provável. Mas, como é claro, isso jamais acontece, pelo que deverá situar-se sempre num algures, no amanhã, mas sempre subsistem marcos ou sinalização a indicar o curso para isso.

Sob determinados pontos de vista, tratou-se de um golpe brilhante, de certo modo: a criação de uma religião co a intenção de instaurar a estabilidade política.

Há muitos exemplos de passagens bíblicas que constituem reconhecidamente cópias de ensinamentos sânscritos e que representam transliterações do Bhagavad-Gita e outras passagens dos Puranas, além de textos Védicos mais antigos. Outros segmentos passaram dos ensinamentos pertencentes às escrituras ou livros sagrados de Mitras. E outras passagens ainda tiveram proveniência nas elegias dedicadas ao Imperador divino Júlio César. Muitos dos livros das escrituras Cristãs foram compostos décadas ou mesmo séculos após o chamado evento do “homem-deus nascido entre os homens”.

Os académicos bem informados nesse campo descobriram que, à medida que os séculos se sucediam, muitas foram as coisas que foram removidas e, ou, acrescentadas, que não figuravam nas escrituras das tradições originais do cristianismo. Isso haveria de causar assombro em muito boa gente.

Antes da adopção dessa nova religião, e exactamente da mesma maneira por que actualmente as companhias se fundem em novas companhias, os credos então em voga, que foram empregados nessa nova religião, comportavam práticas que eram séculos mais velhas do que as da nova religião, a que chamavam de original, claro está. Mas esses princípios apresentavam uma particularidade que somente com o passar do tempo. e em especial as interpretações linguísticas, acabou maculada nas percepções resultantes dos ensinamentos dessa religião adoptada, ao apresentar conjuntos de dados religiosos que passaram a considerar o ser humano como uma criatura defeituosa e pecadora. Muitos dos antigos ensinamentos jamais advogavam que o homem fosse uma criatura pecadora e dotada de imperfeições, fosse de que modo fosse. Pelo menos não por um conceito tão manchado quanto esse, o que implicava no facto dos indivíduos poderem aderir com facilidade a uma religião particular qualquer sem recearem ser controlados para terem que andar constantemente a vigiar os próprios pensamentos e aquilo que sentiam, não fosse isso trai-los.

Não queria dizer que antes o mundo se assemelhasse a um pêssego côr-de-rosa, em termos históricos. Ainda reinava muita guerra além de outras coisas. Contudo, existia uma certa liberdade de pensamento e de expressão, e em particular um sentido de não serem expulsos de um local como o paraíso devido a algum pecado ou ofensa cometida contra a divindade. Eram, na verdade, uma parte dos mecanismos e da ordem das coisas, parte integral do sagrado, que podiam associar á vossa vida, e em que podiam interagir juntos, tanto como mortais como imortais.

Somente aos olhos dos académicos vitorianos é que as velhas culturas do mundo passariam a ser consideradas supersticiosas e tontas, mais ou menos com receio da própria sombra, em razão do que o velho nobre ideal de vida Britânico haveria de os poder libertar.

As referências do Velho Testamento alusivas à vinda do “salvador” retractado no Novo Testamento como profecias – torna-se por demais evidente até para o menos instruído que tais referências foram copiadas do Novo Testamento e inseridas no Velho. Todavia, muitas são as que ainda insistem em que o carácter fictício composto nesses moldes constituía um indivíduo real e histórico, e para justificarem a inexistência de referências históricas relativas a tal personagem em mais nenhuma outra era – tenhamos em mente que entre outros aspectos contundentes, após o novo Testamento deixaram de surgir profetas! - estão prontos a defender a existência de um ser diabólico qualquer, talvez satânico, como o autor da eliminação do salvador da memória. Isso não representa elocução nenhuma de tolos mas a de muitos dos padres fundadores da Igreja.

Esse corpo particular de ensinamentos que foi organizado para fins estritamente monetários e políticos, assim como de uma certa unificação do vasto domínio repleto de incontável número de credos religiosos, de certo modo perpetuaram uma enorme fraude e insinuaram um poderoso corpo de informação que reivindicavam ter tido origem divina, o que subjugou muitas gerações aos princípios que defendia que os crentes estavam proibidos de ler e de escrever, pelo que precisavam aceitar a palavra do pregador como se fosse proferida pelo próprio Deus – e sem questionar! Porque o questionamento poderia acarretar repercussões sórdidas, incluindo excomunhão e até mesmo a morte, conforme muitos experimentaram durante o período da Inquisição.

Isso produziu uma fundação em que, por um lado, se proclamava que o amor representava o poder, quando na realidade o poder assentava na instilação do medo, na imposição da institucionalização e do doutrinamento, cujos resultados postulavam – enquanto alinhassem pelo corpo desses ensinamentos – que haveriam de obter a salvação, mesmo que esses ensinamentos fossem contra tudo o que conhecessem.

O próprio conceito que está a ser alvo de exploração com relação à essência, á recordação e à compreensão das convicções que tendes, das percepções que tendes e do modo como criais e moldais a experiência da vossa realidade, assim como da própria realidade, por meio das vossas energias materiais, não representa conhecimento novo. Foi, durante muito tempo conhecimento proibido que quase foi apagado com sucesso. Mas afortunadamente vós conseguistes estabelecer uma época e um período histórico em que o vaticano e as doutrinas cristãs conseguem obter uma menor influência do que aquela que conseguiam exercer há umas poucas centenas de anos atrás. A intenção por detrás disso residia nas experiências inerentes aos conceitos de separação, por exemplo, e do bem e do mal.

Aqueles que passaram por tais experiências poderiam ser considerados almas corajosas, por terem posto pé no covil do lobo. Vós estais a sair dessa cova do lobo. Eles conjuraram o significado da sua existência por intermédio de tais experiências. Podíamos mesmo referir que tenha sido com o propósito de criar outros focos capazes de se libertarem, quando não seriam capazes disso, de certo modo. O que implica que até mesmo aqueles que conheceis como “canais” ou médiuns de um tipo qualquer, ainda empreguem os princípios de tais ensinamentos em particular, e os encorajem de forma distorcida em meio ao processo, decisão essa pela qual o indivíduo que toma parte no processo pode sentir extrema dificuldade em contornar esse “fundo religioso” imposto e se vejam incapazes de contornar a doutrina.

Mesmo que, aquele que foi concebido como Jesus Cristo se tenha, a vários títulos, formado num arquétipo. Mesmo independentemente do número daqueles que se concentram nessa direcção, o conceito original da entidade crística em nada se aproxima do conceito incorporado por Constantino. Por muitos presumirem ter conhecimento de que a entidade designada como Cristo ou Cristus, tenha que ver com tradições ou ensinamentos inerentes a esse corpo de conhecimento, embora o seu propósito original nada tivesse que ver e nada tem que ver com as tradições desse corpo de conhecimento; nada tem que ver com livros nem demais filosofias que tenham procedido disso como se se tratasse da derradeira tradição filosófica da sapiência espiritual e religiosa.

O propósito por detrás da entidade crística em termos que poderia ter-se manifestado no vosso mundo, estava relacionado com a assistência aos seres humanos prestada pelo reconhecimento do seu sentido de valor e da natureza grandiosa inerente ao seu ser, rompendo com as barreiras e limites atribuídos e comummente associados a ensinamentos e tentativas de resumo tais como muitas filosofias que incorporam a imagem do deus tornado homem, além dessa em particular. Tratou-se de um propósito que visava à ampliação da consciência pelo modo mais representativo e aprofundado por que muitas pequenas comunidades de seres humanos e filosofias tentaram manter como acto de paixão carregar a tocha, se quisermos, dos seus ensinamentos. Contudo, acabaram como heréticos e marginalizados de um ou de outro modo.

Esses pequenos núcleos habitualmente referidos como Gnósticos, podem não ter tido o corpo de conhecimentos completo ao seu dispor, contudo tinham mais a oferecer, por não contribuírem para a escravidão do indivíduo por intermédio do conceito da culpa, da vergonha e do pecado, e em vez disso procuravam libertar a mente do que os restringia, da sua conceptualização estreita, do que teria parecido limitar o ser humano, dando-lhe as chaves para a sua própria libertação.

A Mudança assemelha-se à Renascença da consciência.

A vários títulos, vós estais, pois, de uma forma ou de outra convencidos de que tendes que venerar um Deus. Não vos podeis considerar como esse Deus, por isso representar um convite à blasfémia, e a uma blasfémia do pior tipo. Assim vos é dito. É irónico que venereis, de muitos modos, as próprias criações em vez de compreenderdes que projectais os vossos ideais e a vossa própria essência - aprisionando-a – num símbolo que visa punir-vos pelos vossos actos, inclusive por serdes como sois! Isso sim, é que representa uma blasfémia! Existem cultos modernos votados à “ascensão” que albergam o propósito de se elevarem acima da natureza carnal e maculada, inferior e impura o adulterada, rumo a uma existência mais ampla, mas ainda assim tais declarações apresentam uma contradição abismal e baseada em ensinamentos imperfeitos, sem a menor compreensão quanto ao facto de serdes uma expressão da essência, um avatar do campo profundo das acções psicológicas, a crista da onda da consciência! Como poderão ser tão manchados pelo pecado e desprezíveis que preciseis afastar-vos rumo a uma forma mais pura?

Tais ensinamentos não podem apresentar-se mais deformados. Assim, descartai a convicção de que, de outro modo sereis malvados por serdes quem sois e possais em vez disso considerar-vos como o próprio néctar da bênção do universo DEVIDO a serdes quem sois! E que por intermédio de vós, o universo – a Essência – pode contemplar-se através dos vossos olhos e maravilhar-se, seja por que tipo for de experiência que passeis, como o néctar efectivo de tal bênção. O ser divino não é aquele que permanece num castelo cósmico a dar ordens aos seus pequenos anjos para tocarem harpa. Essa é uma das distorções que se baseiam nesses ensinamentos. Um ser divino é aquilo que vós sois. No mundo antigo os aspectos divinos eram livres de afluir aos indivíduos antes da verificação de certos tipos de corrupção se estabelecerem. Na verdade, os sacerdotes e as sacerdotisas achavam-se empenhados no fenómeno da incorporação dos deuses e deusas, a fim de os partilharem com os demais, como por uma acto de encorajamento da bênção ou da recordação da vossa condição original. Algumas dessas práticas tinham igualmente um carácter tântrico, pelo que os sacerdotes e as sacerdotisas se envolviam em contactos íntimos com os seguidores, como um processo de alcançar o âmago profundo da união patente entre mortal e imortal. Mas tornou-se mais conveniente dar lugar á criação à imagem do “velho psicótico lá no céu”, que vos reduzisse a um carvão caso o ofendêsseis, por ser muito mais fácil controlar assim a populaça.

Kris


NOTAS:

(1) No concílio de Niceia, 325 dC, convocado por Constantino, foram as bases da doutrina da reencarnação condenadas, ao se definir dogmas que se prendiam com a consubstancialidade do Filho com o Pai, ou seja a realidade do homem-Deus, assim como o dogma do pecado original. Jesus não pregou dogmas metafísicos, nem escreveu tratados de teologia; tampouco disse ele: “Eu sou consubstancial, tenho duas vontades e duas naturezas numa só pessoa.” Os unitários, ou Socinianos, chamavam à doutrina do pecado original “o pecado original da Igreja”, um ultraje a Deus. Os Socinianos colocavam uma grande ênfase na fé dos primeiros “heréticos” que morreram pelos evangelhos apócrifos, e que constituíram as primeiras seitas cristãs, ao recusarem considerar os quatro evangelhos divinos algo mais do que trabalhos clandestinos: “Atrevermo-nos a dizer que o Criador terá criado todas as sucessivas gerações apenas para as submeter a um castigo externo, sob o pretexto de que os seus primeiros antecessores comeram de determinado fruto, é acusá-lo do mais absurdo barbarismo. Tal imputação sacrílega, é ainda mais imperdoável entre cristãos, visto não existir qualquer referência ao pecado original quer no Pentateuco quer nos Evangelhos, sejam eles apócrifos ou canónicos, ou de qualquer dos escritores chamados de primeiros Pais da Igreja.

Voltaire, 1964-1778, sabia que nenhum dos primeiros Pais da Igreja tinha redigido ou citado nada disso: “Eles não só não conseguiram citar os Evangelhos, como também aderiram a diversas passagens agora encontradas apenas nos Evangelhos Apócrifos rejeitados pelos cânones. Dado que muitos dos falsos evangelhos foram no início considerados verdadeiros, aqueles que hoje constituem os fundamentos da nossa fé podem muito bem ter também sido falsificados.”

Iso leva-nos logicamente aos ensinamentos de Orígenes 185dC-254C, em torno do qual se centra actualmente a controvérsia.


Orígenes

Os ensinamentos de Orígenes foram vitais para a preservação dos Evangelhos originais. A sua pena foi tão fértil quanto a de Voltaire, mas de acordo com a Enciclopédia Britânica, os dez livros do Stromata, a sua obra mais provocadora, desapareceram quase não deixando rasto. Isso é de suprema importância, visto que Orígenes se ocupava aqui de correlacionar os ensinamentos cristãos estabelecidos com os dogmas “cristãos” de Platão, Aristóteles, Numénio e Corruto. Ele dedicou a sua vida à preservação dos Evangelhos originais.

“Não seria tanto a relação entre a fé e a sabedoria que ofendia, mas sim propostas bastante isoladas, tais como a doutrina sobre a preexistência das almas.”

Orígenes declara no seu Contra Celsus: “Não estará mais em conformidade com a razão que cada alma, por qualquer razão misteriosa (de acordo com a opinião de Pitágoras, Platão, e Empédocles, que Celso refere frequentemente) seja introduzida num corpo de acordo com a sua doçura e as acções anteriormente cometidas? Não será racional que as almas que usaram os seus corpos para fazer o máximo de bem que puderam devam gozar do direito a corpos dotados de qualidades superiores aos corpos das outras?

“A alma, que é na sua natureza imaterial e invisível, não tem existência num lugar material sem que tenha um corpo adequado à natureza desse lugar. Da mesma maneira pões de lado um corpo – que antes era necessário mas que não se encontra mais adequado ao seu estado modificado - e troca-o por um segundo.”

E no seu Principiis: “Cada alma (...) vem a este mundo fortalecida pelas vitórias ou enfraquecida pelas derrotas da sua vida anterior. O seu lugar neste mundo, tal como um navio apontado à honra ou à desonra, é determinado pelos seus anteriores méritos ou deméritos. O seu trabalho neste mundo determina o seu lugar no mundo que se seguirá a este.”

Deve ser aqui citado que São Jerónimo (340dC-400dC) certa vez saudou impulsivamente Orígenes como “o maior professor da Igreja desde os Apóstolos.” Isso é muito pouco plausível se considerarmos que o Novo Testamento era então tão ambíguo nas referências que fazia à reencarnação, como é agora. Certamente que, para Orígenes ter tido um lugar de destaque entre os primeiros Pais da Igreja durante quase quatro séculos, os seus dogmas devem ter sido solidamente baseados naquilo que era então aceite como os Verdadeiros Evangelhos.

Pitágoras e Platão

Como foi, exactamente que completaram as filosofias “pagãs” de Pitágoras e Platão (que subscreviam ambos a reencarnação) as crenças dos primeiros Pais da Igreja?

Os pontos de vista de Pitágoras (528aC-507aC) existem apenas nas suas biografias de Diógenes Laércio e Jâmblico, mas a primeira cita-o como afirmando que “ele recebera a memória de todas as transmigrações da sua alma como uma dádiva de Mercúrio, juntamente com o dom de se recordar daquilo que a sua alma, e a dos outros, haviam experimentado entre a morte e o renascimento.”

De Platão (427aC-374aC) obtemos o contexto directo: “A alma é mais antiga do que o corpo. As almas nascem continuamente uma e outra vez nesta vida.

“A alma do verdadeiro filósofo abstém-se tanto quanto possível de prazeres e desejos, de sofrimentos e receios (...) pois em consequência de formar as mesmas opiniões que o corpo, e de se deleitar com as mesmas coisas, nunca pode passar ao Hades num estado puro, mas jamais deve partir poluída pelo corpo e assim cai rapidamente noutro corpo, e é, consequentemente, proibida de se associar com o que é divino e puro e uniforme.

“Sabei que se vos tornardes piores ireis para as piores almas, se vos tornardes melhores, para as melhores almas, e em cada sucessão de vida e morte fareis e sofrereis como devereis sofrer às mãos do que fizerdes.”

S. Clemente de Alexandria (150-220), na sua Exortação aos Pagãos, é também claramente influenciado por Platão: “Nós existimos o princípio, muito antes das fundações do mundo, existimos nos olhos de Deus, por que é nosso destino viver n’Ele. Somos as criaturas racionais do Verbo Divino (acção). Portanto, existimos desde o princípio por que no princípio era o Verbo... Não é a primeira vez que Ele demonstra a Sua piedade por nós na nossa vida errante. Ele teve piedade de nós desde o princípio.

S. Gregório (257-332) afirmava que era absolutamente necessário que a alma seja aperfeiçoada e purificada, e se isso não acontece durante a sua estadia na Terra, deve ser conseguido em vidas futuras.

S. Agostinho (354-430) venerava de tal modo Platão que escreve no seu Contra Académicos: “A mensagem de Platão, a mais pura e mais luminosa de toda a filosofia, afastou pelo menos a escuridão do erro, e brilha agora para o porvir especialmente em Plotino, um platonista tão parecido com o seu mestre que se poderia pensar terem vivido juntos ou então – dado que os separa um longo período de tempo – que Platão voltara a nascer em Plotino.

Plotino

Plotino foi, juntamente com Orígenes, discípulo de Amónio Sacas, que fundou a famosa Escola de Neoplatonismo de Alexandria no Egipto, em 193dC. Plotino em A Descida da Alma, é talvez o mais claro e o mais expressivo: “Assim a alma, embora de origem divina, procedente das alturas, submerge no mundo sombrio do receptáculo do corpo, e sendo naturalmente um deus pós-diluviano, desce para mais perto de nós através de uma certa inclinação voluntária pelo poder e pelo enaltecimento de interesses inferiores...

“ No entanto, as nossas almas são capazes, alternadamente, de se erguer trazendo consigo a experiência daquilo que conheceram e sofreram durante a sua queda, com a qual aprenderão a bênção que é habitar o mundo inteligível e, por compaixão dos contrários, compreender mais claramente a excelência de um estado superior.

“Pois a experiência do mal produz uma consciência mais clara do bem (...) que é a totalidade da nossa alma que entra o corpo, uma parte dela permanece no mundo inteligível, que é algo diferente do mundo sensível, e aquela que habita no mundo dos sentidos não nos permite compreender aquilo que a parte suprema da alma contempla.”

Estes testemunhos de quatro Padres da Igreja dos primeiros tempos denotam não ser possível que todos regulassem mal da cabeça, ao adoptar crenças contrárias e hostis aos dogmas da sua própria Igreja. O facto de terem repetidamente aderido aos dogmas “cristãos” de Platão aponta para a sua convicção de que Cristo havia incluído essa mesma parte na Sua própria filosofia.

Em 553dC, Justiniano, o imperador bizantino, convocou a V Conferência Ecuménica de Constantinopla para pedir a condenação das obras de Orígenes inspiradas em Platão. Contrariamente ao que as Igrejas contemporâneas defendem, esta conferência foi laica. O papar foi proibido de participar e a sua denúncia foi ostensiva. Foi instigada pelo mesmo substracto de bárbaros mentalmente retardados que se haviam “convertido” ao cristianismo no tempo de Constantino. Os acontecimento que conduziram à V Conferência representam praticamente a única prova que terá sobrevivido quanto à razão pela qual a reencarnação desaparecer da Bíblia.

A doutrina monofisista (uma única natureza)

Essa doutrina é, como foi, a má da fita. Foi essa seita que viria ais tarde a desacreditar todas as alusões à reencarnação nos Primeiros Evangelhos e que dividiu a Igreja em duas facções antagónicas. A solidariedade da Igreja Cristã não só fora infestada por uma interminável série de cismas a partir de cerca do ano 300dC., como teve que fazer frente a uma resistência activa e à vigorosa competição das religiões pagãs, que não conseguir ainda suplantar, muitas das quais eram não só mais alegres e mais afastadas da realidade como incluíam também as extravagantes saturnálias (celebrações em honra do deus romano saturno). Os monofisitas continuaram a provocar distúrbios e desacatos até ao ano de 451, em que um concílio ecuménico especialmente reunido, leal aos ensinamentos de Orígenes, dividiu Cristo em duas naturezas separadas, a humana e a divina.

O Decreto de Calcedónia 451dC.

A bem intencionada decisão conhecida como p decreto de Calcedónia que protegia os ensinamentos de Orígenes, tornou-se, de facto, na rampa de lançamento para todos os sombrios acontecimentos que se seguiram. Na realidade, a divisão entre os monofisitas e o Vaticano acabou por atingir proporções de tal modo violentas, que um dos primeiros actos públicos de Justiniano foi obrigar o Patriarca de Constantinopla a declarar a sua total adesão ao credo calcedoniano” (Enciclopédia Britânica) Isso constitui sólida evidência de que antes, Justiniano se encontrava em total acordo com as tendências origenistas da Igreja de Roma. No entanto, em 543, por insistência de Teodora, sua mulher, permitiu que um sínodo local desacreditasse e condenasse as obras de Orígenes.

Extraído da pesquisa de N. Langley

Nota do tradutor:

Qualquer que seja o teor apresentado por mim em associação com este tema, quero deixar bem claro que o chamado mito Cristão se reporta a uma grandeza que não pretendo minimizar nem rejeitar minimamente, por representar uma metáfora – EM TODA A EXTENSÃO DA REPRESENTAÇÃO QUE ASSUME – de resto à semelhança de muitas outras anteriores, da alma e das suas potencialidades, natureza, características e evolução; sim, porque a alma não é uma coisa estática, apesar de ser “una com Deus”, conforme é referido comummente. Por isso, não, esse não é o móbil que me impele.
Trata-se de uma grandeza psicológica, sem dúvida, mas útil e necessária ainda, por necessitarmos de uma vida simbólica rica, que as várias ciências modernas não oferecem, apesar dos muitos mitos e dogmas que também produz e apregoa.


Senão vejamos alguns pontos de concordância que estabeleço com esta minha premissa; a consciência de Cristo representa o alinhamento da mente, do corpo e do espírito, ou seja, a consciência, o subconsciente e a supraconsciência.


A fé, representa não a crença cega nem a crendice nas figuras tutelares tais como o Buda ou o Cristo, que devem ser reverenciados mas sim a evidência das coisas não vistas (1 Hebreus Cap. 11) ou seja, a constatação da ordem natural do ser através da intuição, para que concorrem muitas vezes metáforas como a do grão de mostarda, que significa o valor dos pequenos passos das pequenas acções de reconhecimento e validação  e familiarização pessoal que edificam a confiança e  a integridade.

Portanto, a fé reporta-se à confiança que o indivíduo deve edificar em si, senão directamente por via da intuição, pela constatação do que incomoda o homem, do papel que exerce na apresentação disso na sua realidade e na transformação pela apreensão de outros sentidos que concorrem junto com os cinco habituais, para uma compreensão holística, ou a totalidade daquilo que ele representa, que é comummente referido como divindade, só que sempre posicionado adiante num futuro que é objecto de promessa, e jamais está ao seu alcance por se apresentar como uma antinomia, um paradoxo em meio à noção da culpa em que radica toda a ideia do pecado.


Outra metáfora que alude ao mesmo significado é a das dez virgens que aguardavam o noivo (1 Cor 8-10) que deixa antever a importância da atenção ou familiarização connosco próprios como meio para erguermos a confiança que resulta da integração (alinhamento) de mente corpo e espírito. Outro ainda, o caso figurado da mulher gentia que buscava a cura para a filha atormentada, e da fé de que dera prova, deixando o mestre surpreendido com o esclarecimento e a integridade que revelara ao satisfazer-se com “migalhas” por não ser bom costume “dar o pão aos cães”, naquele tempo (por cães referiam-se aos gentios, claro está). Ao que o mestre responde: “Não é senão por tua fé que ela é curada!” referindo a força do conceito que ela fazia do outro como pedra basilar da ”salvação” e não preponderância do poder miraculoso da parte do mestre!


Por exemplo, (Mat 6-6) quando Jesus recomendava que orassem em segredo, para se verem recompensados abertamente, referia-se à abertura da nossa parte para com o cristo interior, a seguir ao que, o meio externo, ou sociedade, seria transformada, ele referia a qualidade da transformação que é igualmente citada no Budismo como a qualidade da realização do amor e da beleza que procedem de dentro como ordem natural das coisas e do ser, e não brotam da distinção externa e arbitrária nem do julgamento em termos de bem e mal, certo e errado.


A salvação é outro conceito erróneo resultante de grosseiras distorções que evoca a libertação do erro (pecado), como processo implicitamente individual, ou seja que está ao alcance de cada um, e que passa pela realização (consciencialização) da unidade interior que preside a essa ordem. Era tendência generalizada procurar tornar o Divino exterior e por isso mesmo, inatingível. Depois, as organizações e infraestruturas políticas frequentemente manipulam o conceito da salvação externa de modo a obterem controlo sobre as forças políticas – de notar que à época, a religião presidia como uma teocracia, e por isso mesmo um regime político, que traçava os ditames a que as maiorias deviam obedecer, de modo não muito diferente de hoje. O factor que mais pesava na formação e sustentação do conceito de salvação – como de resto ainda nos nossos dias – radicava na culpa e na condenação pessoal que era encorajada pelos diferentes dogmas. É claro que também se procurava salvação para o sofrimento, e por fim, para a morte, que percebiam como total aniquilação ou julgamento e condenação decisivos dos pecados, tão cegamente anunciada como medida profilática – como se a punição possa constitui medida profilática alguma! Mas isso correspondia efectivamente a um fardo real, que era criado pela percepção e mentalidade dos homens daqueles tempos. E quem poderia fornecer tal salvação senão um deus externo, conforme projectavam o conceito de um deus à altura.


João Baptista oferecia (propunha) um conceito diferente, que passava pela purificação batismal, ou um começar de novo sem o peso-morto do passado e da preocupação e ansiedade resultante. Jesus sugeria uma possibilidade ainda mais avançada nesse camo ao propor acesso ao reino dos céus, e por isso mesmo total perdão e libertação de todo o fardo, facto esse que os primeiros padres da Igreja não perceberam bem ao se agarrarem às noções do pecado, da culpa e da expiação, pelo que fizeram da figura de Jesus um salvador ao identificá-lo com o próprio Deus. Assim, a original doutrina da “salvação” proclamada por jesus foi convertida numa doutrina relativamente superficial de autoridade baseada em crenças.


A metáfora da crucificação, representa a conquista da morte, alcançada por toda a alma que, ao partir dos confins da carne, espera com confiança e abertura o que pertence ao domínio do mistério por ser factor desconhecido, mas o faz com aceitação, não provando ou melhor, conquistando assim o ferrão da morte. Representa sobretudo igualmente uma forma de aceitação que anula a diáspora imposta pela dualidade psicológica dos estados antagónicos e assentes no paradoxo por que todo indivíduo que visa suplantar a dor deve seguir de forma a conquistá-la na raiz, ou seja na negação da dicotomia em que assenta que faz florescer toda a gravidade, e não no sentido subjectivo que atribui à dor. Numa palavra, aceitação pela perspectiva serena e por isso mais avalizada e mais alargada da percepção da realidade.


Posto isto, o que me motiva todos os esclarecimentos que faculto nesse sentido junto do leitor porventura mais desejoso de conhecimento ou esclarecido, é desenquadrar o mito da área em que foi “encarcerado” estritamente simbólico e, por isso mesmo, sujeito a ritualização e compreensão mais ou menos distorcida e supersticiosa, que relega a autoridade do indivíduo a terceiros, aos peritos e aos que se arvoram como detentores do conhecimento da verdade, em oposição à massa amorfa dos ignorantes que precisam ser salvos pela estrita obediência.


O polo da intenção por detrás deste esforço centra-se, pois, em devolver o poder pela percepção e de realização de volta ao indivíduo – para quem de resto está já a mudar, pelo que muito importa que se desmistifique, de forma a possibilitar que o indivíduo obtenha uma noção do poder que facto lhe assiste, e passe a usufruir de uma faculdade de o utilizar criativamente e de uma forma bem-sucedida, contornando desse modo o temor e o sofrimento gerados pela falta de conhecimento.





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