domingo, 15 de julho de 2012

SETH DISSERTA SOBRE A NATUREZA DO HOMEM, A SEGURANÇA E A INTEGRIDADE







Tradução: Amadeu Duarte

Percebeis que um tigre, ao seguir a própria natureza, não seja mau. Todavia, ao olhardes para a vossa própria espécie, é frequente inclinar-vos a ser menos generosos e compassivos, e menos compreensivos. Torna-se fácil condenar a vossa própria espécie. Pode ser-vos mais difícil compreender, mas a vossa espécie é bem-intencionada.

Compreendeis que o tigre tenha existência num certo ambiente e reaja de acordo com a sua natureza. Assim procede o homem. Até mesmo as atrocidades que comete são cometidas como uma tentativa distorcida de atingir o que considera como bons objectivos. Muitas vezes fracassa no alcance desses objectivos, ou mesmo na compreensão do modo como os próprios métodos que emprega o impedem de os alcançar.

O homem, todavia, é na verdade tão abençoado quanto os animais e os seus fracassos constituem o resultado da sua falta de compreensão. Ele acha-se confrontado com um mundo consciente de longe muito mais complexo do que o resto dos outros animais, e lida em particular com símbolos e ideias que em seguida são projectados externamente na realidade, ou que precisam ser testados. Se pudessem ser testados mentalmente no vosso contexto, não haveria necessidade da existência física.

Isso subentende muitos problemas complicados pelo que o melhor que terei a fazer é simplificar. É como se o homem dissesse: “E que tal esta ideia? Que poderemos fazer com ela? Que acontecerá se a jogarmos na realidade física? Onde poderemos nós chegar com qualquer das grandes ideias sociais, científicas, religiosas que constituem rebentos tão peculiares à mente do homem?” Se tais problemas fossem passíveis de ser elaborados num estirador não físico, uma vez mais, o grande desafio da existência física não seria nem necessário nem significativo.

Até que ponto poderá, digamos, o nacionalismo ser conduzido? Em que medida poderá o mundo ser tratado com se fosse exterior ao homem, como um objecto? Que poderá o homem aprender ao tratar o corpo como se fosse uma máquina? Como se fosse uma miragem? Como se fosse conduzido pelo instinto cego? Com se fosse possuído por uma alma? Em certa medida, essas são reflexões únicas e criativas que da parte exclusiva dos animais seriam consideradas como altamente curiosas e feitos intelectuais iluminados. Os animais precisam relacionar-se com a terra, e assim precisa também o homem.

Conforme os animais devem divertir-se, acasalar, caçar as suas presas, ou alimentar-se com as suas bagas num contexto físico composto de sol, solo, árvores, neve, vento e granizo, também de modo diferente o homem precisa perseguir as ideias que tece ao envolve-las nas realidades elementares da terra, e percebendo-as como acontecimentos.

Quando se revela destrutivo, o homem não é destrutivo com base na destruição; mas em resultado de um desejo de alcançar o que pensa constituir o objectivo particular que se lhe afeiçoa como bom, em resultado do que se esquece de examinar a bondade inerente aos métodos que emprega.

O animal que caça e mata a sua presa serve o propósito maior de preservar o equilíbrio da natureza, quer tenha ou não consciência disso – e uma vez mais, o objectivo com que o faz não é maldoso. O homem consome ideias. Ao proceder assim, contribui para um tipo de equilíbrio diferente, do qual em geral não tem consciência. Mas nenhum homem age verdadeiramente fora do contexto do objectivo puro, no sentido de agir de forma errada ou de ser depravado.

As tempestades rasgam o céu de Verão ao emitirem trovões e relâmpagos. Os terremotos devastam os campos e conquanto possais lastimar profundamente a destruição operada, tendes consciência de que nem o terramoto nem as tempestades constituem um mal. Não só são destituídos de propósitos errados como a condição generalizada que geram corrige o equilíbrio terreno.

Isto exige uma compreensão requintada, de que tenho consciência. Ainda assim, as tempestades destrutivas operadas pela humanidade não podem essencialmente ser levadas na conta de mais maldosas do que um terramoto. Enquanto os trabalhos do homem possam muitas vezes por certo parecer destrutivos, não deveis culpabilizar o objectivo do homem, nem deveis alguma vez cometer o erro de confundir o homem com os seus trabalhos. Porque muitos artistas bem-intencionados, imbuídos das melhores intenções, produzem por vezes trabalhos de qualidade inferior tanto o mais dececionantes e deploráveis para eles devido à benevolência original que tinham por objectivo.

A falta de conhecimento e de técnicas e de métodos que têm podem, pois, tornar-se manifestas, Ao se concentrarem com demasiado afinco no mundo dos jornais e das reportagens negativas que dão conta das acções cometidas pelos homens, torna-se verdadeiramente fácil perder de vista aquilo que vos digo ser a boa intenção de todo o homem e de toda a mulher. Essa boa intenção pode ser confundida, mal executada e emaranhada em meio ao conflito de crenças, estrangulada pelas mãos ensanguentadas de assassinos e de guerras, e ainda assim nenhum homem ou mulher jamais a perder. Isso representa a esperança da espécie, e essa boa intenção é passada ou longo de gerações. Essa iluminação é muito mais potente do que os ódios e os rancores nacionais, que também podem ser passados adiante.

É um imperativo para toa e qualquer paz de espírito acreditar na existência da boa-intenção inata no homem. Ela é partilhada por todos os outros animais. Cada animal sabe que o outro poderá lutar ou mostrar posturas agressivas, ou defender o ninho. Todo o animal sabe que em tempos de escassez ele poderá ser presa de outro. Contudo, à excepção dessas situações, os animais não temem uns aos outros. Eles sabem que entre si, todos possuem uma boa-intenção. Concedei à vossa espécie o mesmo.

Ora bem; distingui, na vossa mente, o homem dos seus trabalhos. Discuti o quanto quiserdes os seus trabalhos ao lerdes sobre os erros e a estupidez, a perfídia que cometem ou a guerra que movem. Recolhei páginas e resmas de material desse se isso vos satisfizer o desejo, e ao dizer isto estou a dirigir-me a todo aquele que esperar descobrir uma pitada de verdadeira paz de espírito ou de criatividade. Recolhei livros de fracassos do homem. Pessoalmente, não tenho ideia da razão por que alguém se daria ao trabalho de recolher os piores trabalhos de uma artista qualquer e obter prazer em rasgá-los. O homem produziu alguns trabalhos estupendos. O elevado nível de comunicação verbal, as inumeráveis variedades de interacção emocional e de intercâmbio cultural, a facilidade com que exterioriza ideias e conceitos, o alcance da imaginação – tudo isso e muito mais, é único no universo.

Identificar o homem com os seus trabalhos mais pobres é buscar propositadamente os erros num bom artista, e em seguida passar a condená-lo. Faze-lo, significa condenar-vos a vós, pessoalmente.

Se um cientista afirmar que a consciência é o resultado do acaso, ou as teorias de Darwin disserem que o homem é um filho triunfador de assassinos, muitos serão os que refutarão isso. Se, contudo, disserdes que os homens são uns idiotas ou que não são dignos de pisar o chão que pisam, estareis a afirmar o mesmo. Por precisardes preocupar-vos com esta realidade conforme a conheceis; nesses termos, condenar o homem significa condenar a espécie conforme a conheceis, assim como os termos práticos do vosso mundo.

Dizer que as pessoas podem escapar para uma outra probabilidade constitui um pretexto pragmático – isso está afastado da realidade das probabilidades, por estar a falar do ponto de vista emocional. Agora; em termos físicos, o vosso corpo tem uma postura no tempo e no espaço. Vou referir-me à experiência primária e secundária. Chamemos experiência primária àquilo que tem existência imediata em termos dos sentidos do vosso momento no tempo – no contacto do corpo com o meio. Estou aqui a estabelecer certas distinções para tornar a nossa informação – ou monólogo - mais acessível.

Consequentemente, irei chamar experiência secundária àquela informação que vem ao vosso encontro, digamos, por intermédio da leitura, da televisão, do debate com outros, das cartas, etc. O tipo secundário de experiência é, em larga medida, simbólico. Isto deveria ficar claro. A leitura sobre cenários de guerra feita numa tarde sossegada não é o mesmo que estar presente, por mais vívida que seja a descrição. Ler sobre o corte de fornecimento de energia não é o mesmo que permanecer numa casa gelada. Ler sobre a possível aniquilação da humanidade por meio de uma destruição nuclear ou outras formas de estupidez, enquanto vos sentis relaxados na vossa sala de estar, acha-se obviamente muito distanciado da realidade descrita no artigo.

Nos níveis em que nos achamos interessados, o corpo deverá reagir primordialmente ao presente, á existência primária imediata situada no espaço e no tempo. Noutros níveis acha-se equipado para lidar com muitos tipos de informação, por ter mencionado anteriormente a faculdade de precognição de que as células gozam. Mas o corpo depende da mente consciente para lhe dar uma estimativa clara das exactas condições do espaço e tempo que ocupa. Depende desse conhecimento.

Se vos encontrardes abrigados em segurança num aposento confortável sem incorrerdes em perigo algum, os vossos sentidos deverão transmitir-vos essa informação com precisão. A vossa mente consciente deverá assimilá-la e olhar ao vosso redor e constatar que não incorrereis em perigo algum deverá representar uma realização suficientemente fácil. A vossa mente consciente é destinada a fornecer ao vosso corpo uma avaliação do que passarei a designar por condições culturais., por existirem formas de sofisticação e de especificidade que no vosso entendimento só a consciência poderá avaliar.

Se for em condições naturalmente seguras em termos de experiência primária, vós ficareis sobrecarregados com sinais de ausência de segurança provenientes da experiencia secundária – ou seja, a partir da vossa leitura ou lá o que for em relação ao que estiverdes a usar da incapacidade de discriminação. Não sereis capazes de diferenciar entre a situação segura presente e a imaginada, que talvez seja de insegurança a suscitar o alarme de perigo.

Os mecanismos corporais ficam altamente desorientados. Os sinais transmitidos ao corpo tornam-se muito contraditórios, de modo que após algum tempo, e caso tais condições prossigam, não mais sereis capazes de dizer se incorreis num perigo real ou num perigo imaginário. A vossa mente força o corpo a permanecer num estado de alerta permanente – mas para maior infelicidade, treinais-vos no sentido de ignorar a resposta sensual directa que gerais no presente instante.

O vosso corpo poderá dizer-vos que vos encontrais a salvo, e os vossos sentidos mostrar-vos que não estais diante de qualquer perigo presente, mas ainda assim tereis começado de tal forma a depender da consciência secundária que deixais de confiar nas reacções do vosso ser.

Contudo, devido ao enorme dom que o homem tem na imaginação, os sinais de alarme não só invadem o momento de segurança presente como vão repercutir no próximo e no seguinte, e são infinitamente projectados no futuro. Seja em que medida for, e de que maneira for, cada um vê-se assim furtado na sua crença na capacidade pessoal para agir com significado ou com um propósito no presente. O corpo não pode agir sobre o amanhã enquanto permanece no dia de hoje. Os dados de informação que recebe precisam ser claros.

Esse sentimento resultante da impotência conduz a um estado de desespero em grau variado, e um ânimo desses não se enquadra em nenhuns detalhes específicos mas invade a vida emocional caso seja permitido. Em qualquer grau que seja, o material crítico de cariz condenatório torna-se muitas vezes numa profecia pessoal, pois aqueles que lhe atribuem mérito permitem que lhes tolha as reacções.

Nos vossos termos, e nos termos pertinentes à sensação íntima, enquanto viveis, a vossa realidade deve corresponder ao que percebeis no quadro do vosso tempo e do que criais nesse enquadramento conforme é experimentado. Portanto, eu peço-vos para não vos comportardes como se o homem venha a destruir-se em algum momento futuro e a não vos portardes como se o homem fosse um imbecil condenado á extinção, um animal burro obtuso e meio louco possuidor de um cérebro descontrolado.

Nenhuma das destruições profetizadas que o homem tanto teme constitui uma realidade no vosso tempo; nem tampouco por todos os profetas críticos de todas as eras, e todos os precursores da condenação terá a criatividade do homem destruído a si própria nesses termos. Há aqueles que fazem carreira com base na condenação das falhas e dos fracassos dos outros ou da própria espécie, e por causa de tal atitude, a enorme energia e boa-intenção do homem permanece invisível.

O homem encontra-se num processo de transformação. Os seus trabalhos são deficientes, mas constituem os trabalhos deficientes de aprendizes de génios, artistas em construção, cujos fracassos são na verdade importantes e grotescos apenas à luz do sentido de génio que possuem, que sempre o conduzirão directamente em frente. Quando considerais o futuro, nos vossos termos, as realizações construtivas mostram-se tão realistas quanto as destrutivas. Nesses termos, cada ano da existência do homem de facto justifica uma perspectiva mais optimista do que pessimista.

Não podeis situar a boa-intenção do homem fora do contexto físico, porque fora desse contexto não tendes a criatura que conheceis! Não podeis afirmar que a natureza seja boa e que tenha gerado o homem, que constitui como que um cancro nela, por a natureza poder fazer mais sentido. Tampouco podereis dizer que a Natureza destrua o homem caso ele a ofenda, ou que a Natureza apresente muito pouca utilidade para a sua própria espécie, mas que só pretende promover a Vida, por a Natureza se achar em cada membro de cada espécie; e sem cada membro de cada espécie, a Natureza, com letra maiúscula ou minúscula, não teria existência.

Por serdes criaturas naturais, existe em vós um estado natural de ser. E esse estado pode representar um estado onipresente de paz, de vitalidade e de compreensão. O que quer que os vossos cientistas pensem, o vosso corpo e a vossa consciência e o vosso universo brotam consequentemente, constantemente na actualização por meio do cultivo da experiência clara da vossa própria consciência e ser com tempo e com o momento conforme o sentis. Podereis tirar partido de uma maior vitalidade e poder que tendes ao vosso dispor, para por fim confiardes nos dados da informação imediata e não na experiência secundária, conforme foi descrito.

Essa informação primária dos sentidos, conquanto localizada no presente, e vos proporcione a necessária postura no tempo, ainda poderá abrir-vos a intemporalidade de que todo o tempo emerge, poderá trazer-vos intimações intuitivas que sugiram a natureza constante do estado de vir-a-ser do universo. Esse tipo de experiência permitir-vos-á um vislumbre dos padrões mais vastos da criatividade humana e da parte que vos cabe nela.

Na vossa sociedade fostes ensinados a concentrar-vos nas críticas e nas falhas; e na vossa época parece que tudo venha a operar de modo errado, e que abandonado à sua sorte, o mundo se venha a arruinar e o universo venha a fenecer e o homem se destrua a si próprio; e essas crenças infiltraram-se de tal modo nas vossas crenças e comportamentos que passaram a organizar muita da vossa experiência e a furtar-vos os benefícios que a própria natureza ministra em toda a parte através da experiência primária directa. Frequentemente ignorais a realidade dos vossos sentidos no mundo da vitalidade e conforto exuberante do momento diário, ao exagerardes a importância da experiência secundária conforme definida nos termos deste debate.

A profecia ou projecção mais negativa parecerá ser a mais prática; quando ledes sobre as mentiras do mundo direis com toda a honestidade e sem qualquer sentido de humor: “Com poderei eu ignorar a realidade, a realidade destrutiva do presente?” Contudo, nos termos mais práticos e imediatos, mundanos, vós e o vosso mundo encontrais-vos naturalmente fisicamente seguros, conforme os vossos sentidos corporais imediatamente podem perceber. No mais básico dos termos corporais, não estais a reagir às condições do presente. Isso seria por demais evidente caso experimentásseis fisicamente as condições sobre as quais podereis estar a ler. Se o mundo desabasse sobre os vossos ombros, tornar-se-ia por demais evidente que compreenderíeis que “antes” estaríeis a reagir a uma situação imaginada e não real.

Receio que parte disto ainda escape à vossa compreensão. Mas embora possam vir a ocorrer desastres, imaginários ou defrontados em segunda mão mais tarde, eles diferirão de longe daqueles que são defrontados em termos físicos.

Ao cismardes em termos negativos sobre o que posa vir a acontecer no futuro, só agravais a sua natureza infeliz, e destruis a vossa própria posição. A posição que assumis no tempo é altamente importante, por constituir a vossa base prática de operações. Com respeito a isso, deveis confiar nas informações dos vossos sentidos. De outra forma confundireis a vossa posição psicológica e corporal, pois o corpo não poderá permanecer numa condição de segurança e de perigo ao mesmo tempo, e desperdiçar os seus recursos em lutas imaginárias.

Para certos indivíduos, a pobreza, o assassínio, a traição, a corrupção, constituem uma experiência primária e precisa ser lidado por exigirem uma acçao imediata. O corpo precisa reagir. Tais indivíduos são espancados ou roubados. Essas são informações provenientes dos sentidos imediatos. E, de uma forma ou de outra, reagem. Conquanto débeis, o ponto de poder delas corresponde de imediato ao seu ponto de perigo. Não podeis reagir fisicamente da mesma forma com que tiverdes projectado ou imaginado perigos. Pareceis não ter qualquer reacção possível. Sentis-vos frustrados.

Fostes feitos para lidar com a vossa experiência primária, imediata, e ao agirdes assim, cuidais da responsabilidade que vos cabe. Sereis capazes de assumir a acção na vossa própria experiência, e desse modo afectar outros. Não precisais ignorar guerras que se estejam a travar noutros pontos do vosso globo, nem fechar os olhos a elas. Mas, se permitirdes que essas experiências vos turbem a vossa intersecção presente válida que estabeleceis com a realidade, então falareis e agireis a partir de uma posição que não vos pertence, e negareis ao mundo todo e qualquer benefício que a vossa versão da realidade presente possa permitir-vos dar.

A realidade natural de criaturas dos vossos sentidos deve permanecer clara, e só então podereis colher total vantagem dessas intuições e visões que deverão advir através da intersecção privada que estabeleceis com o espaço e com o tempo. Nesses termos, a integridade constante da natureza rodear-vos-á em toda a parte. Ela representa a vossa experiência directa e propicia-vos um conforto, criatividade e inspiração que só impedireis se permitirdes que a experiência secundária suplante o vosso confronto diário com a terra física.
In Nature of the Psyche; It’s Human Experience Sessão 799

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