quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

SÉNECA - MÁXIMAS



Desenho da autoria de Amadeu Duarte



Procura não te intimidares diante da simples menção da morte. Familiariza-te com ela através da meditação constante, para que possas ir ao seu encontro quando as circunstâncias assim o exigirem.



Que coisa é verdadeiramente grandiosa?
Elevar-se acima das ameaças e promessas do destino e não considerar coisa nenhuma como desejável.
Que valor possui aquilo que ambicionas?
Quando voltas para as preocupações mundanas depois de te ocupares das divinas, sentir-te-ás ofuscado como quem saiu da luz do sol para a profunda sombra.



Não sopra nenhum vento favorável para quem não sabe aonde vai.


Reza um velho provérbio que é na arena que o gladiador deve aconselhar-se.


Mais importante do que apurar o que foi feito, será saber o que fazer.


Quando leve, uma carga faz do outro um devedor;
Pesada, faz dele um inimigo.


O que é grandioso? Suportar a desgraça com coragem e tenacidade.
Recusar o supérfluo quase com indignação.
Não ser audacioso nem covarde.
Não esperar pelos favores do destino, mas toma-lo decididamente nas próprias mãos.
Seguir avante nos bons e maus momentos sem temor nem hesitação.
Não se deixar perturbar nem pelo clamor da desgraça nem pelo esplendor da felicidade.


A consciência deve ser a linha de conduta dos nossos actos.
O falatório alheio deve deixar-nos indiferente.


O que me impede de considerar como futuro filósofo aquele que desconhece inteiramente a literatura específica? Pois a sabedoria não se baseia na literatura específica!


Creiam-me, a verdadeira alegria é uma coisa séria.


O destino guia os cordatos e arrasta consigo os obstinados.


Não deves amontoar pedras para erigir um templo à divindade
Vale mais consagrar-lhe um santuário em cada coração.


Qualquer um serve a si mesmo quando serve os outros.


A única forma condigna de venerar a Deus está em levar uma vida correcta.


Recolhe-te o mais possível em ti mesmo.
É preciso dispor de tempo para si próprio a fim de podermos contemplar-nos interiormente.



Procura apenas a companhia daqueles que possam contribuir para tornar-te melhor.
Permite apenas a aproximação de pessoas que tu possas melhorar.
Desse modo o estímulo interior será mútuo, pois aprendemos na medida em que ensinamos.


Esconde-te no teu ócio, mas ao mesmo tempo dissimula-o.


A fealdade do corpo não deve afectar a alma; uma bela alma enobrece o corpo.


Aprende a viver e a morrer,
E adquirirás uma serenidade sublime diante de todas as coisas terrenas.


Não devemos centrar a nossa preocupação em viver muito mas em viver o suficiente.
Para podermos viver muito tempo necessitamos da ajuda do destino;
Para vivermos o suficiente necessitamos apenas da correcta disposição de espírito.
Pois a vida é longa quando é plena.


Aquele que obedece a ordens de boa vontade exime-se na faceta mais amarga da dependência, isto é, não se vê obrigado a fazer o que não quer.
Infeliz não é quem executa ordens mas o que as cumpre de má vontade.
Portanto, é mais conveniente querer o que as circunstâncias exigem de nós.


Desperdiçamos demais o nosso tempo!
A vida é suficientemente longa e, bem aproveitada, chega até mesmo para concretizar a maior das tarefas...
Eu disponho de tempo, como qualquer um, desde que haja boa vontade.
Somos nós que nos sobrecarregamos de trabalho, julgando que a multiplicidade de empreendimentos contribui para a nossa felicidade.


Concentra-te, durante a tua curta vida, nas coisas essenciais, e vive em paz contigo próprio e com o mundo.
Providencia para que as pessoas te estimem enquanto vivas tu.
Em breve daremos um último suspiro porém, enquanto respirarmos, enquanto nos encontrarmos entre os homens façamos da bondade a nossa obrigação.
Ninguém te fará reviver os anos vividos; ninguém te devolverá a ti mesmo.
Da mesma forma, o teu tempo de vida decorrerá conforme começou
Sem traçar seu curso uma vez mais nem se deter
Não fará alarde de si nem te recordará do quanto passa depressa.
Fluirá simplesmente em silêncio.


Encara cada dia isolado como uma vida inteira.


Grande parte da liberdade consiste em ter estômago bem treinado
Capaz de suportar até maus tratos.


O que é mais importante na vida humana?
É tudo observar com os olhos do espírito e, sendo esta a maior de todas as vitorias
 Vencer os próprios vícios.
Não têm conta aqueles que exerceram domínio sobre os povos e sobre as cidades
Pouquíssimos são os que têm domínio sobre si mesmos.


O que será mais importante?
Elevar o espírito acima das ameaças e promessas do destino.
Considerar que nada é digno de ser objecto de esperança.
De facto, que coisa haverá que possas desejar?
Sempre que, do contacto com as coisas divinas, voltares a cair nas humanas, deixarás de ver, tal como sucede àqueles cujos olhos saem da luz brilhante do sol para a sombra densa.


O que é mais importante?
Poder sofrer a adversidade com alegria na alma
Suportar tudo o que acontecer como se tivésseis querido que acontecesse.
E, na verdade, deveríeis quere-lo se tivésseis em conta que tudo acontece por decisão de Deus: chorar, queixar-se e gemer é uma forma de rebelião.


O que será mais importante?
Um espírito forte e tenaz contra as desgraças, não apenas contrário aos prazeres mas seu inimigo, que não seja nem temerário nem cobarde diante do perigo
Que saiba que o destino não se espera mas constrói-se e, que,
Intrépido e imperturbável, vá ao seu encontro, seja ele mau ou bom
Sem se deixar atingir nem pela perturbação de um nem pelo fulgor do outro.


O que é mais importante?
Não consentir no espírito más intenções, erguer em direcção ao céu as mãos puras, não procurar nenhum bem que, para o obterdes, alguém tenha de o dar ou perder.
Desejar possuir uma consciência sã, coisa que se pode desejar sem que ninguém se nos oponha.
E, se, por algum acaso, vos couberem por sorte algumas dessas coisas que os homens tanto desejam, olhai-as tendo presente que hão-de ir-se embora pelo mesmo caminho por onde vieram.



O que é mais importante?
Elevar o espírito acima daquilo que depende do acaso
Lembrarmo-nos de que somos homens, para que saibais, se fordes felizes, que só o sereis se julgardes sê-lo.


O que será mais importante?
Estar preparado para morrer; é isso que vos tornará livres
Não mercê das leis do Estado mas pelo direito da natureza.
É livre o homem que recusa ser escravo de si mesmo.
Essa servidão constante e incontrolável esmaga, durante todo o dia e toda a noite sem qualquer intervalo nem descanso
Ser escravo de si mesmo é a mais pesada das servidões.
Mas fácil é rejeitá-la, se deixardes de exigir tanto de vós, se deixardes de procurar o lucro, e se puserdes diante dos vossos olhos a vossa natureza e idade, ainda que estejais no começo da vida, e a vós mesmos disserdes: "Porque me comporto como um louco? Porque me canso e suo? Porque dou voltas à terra e ao foro? Não preciso de muito nem por muito tempo.



Aquele que a si mesmo propôs o seguinte programa de vida:

"Eu encararei a morte com o mesmo semblante com que dela ouço falar.

Eu aceitarei as dificuldades, por maiores que sejam, encontrando no espírito forças para o corpo.

Eu desprezarei as riquezas as que estão diante de mim como as que eu não vejo, e não ficarei mais triste se elas estiverem longe de mim, nem mais exultante se refulgirem a meu lado.

Eu não me ressentirei coma sorte, quer ela venha quer ela me abandone.

Eu verei todas as terras como minhas e as minhas terras como as de todos.

Eu viverei sabendo que nasci para os outros e por essa razão ficarei grato à natureza...
Tudo o que tiver nem o pouparei com mesquinhez nem o esbanjarei com prodigalidade.

Não avaliarei os benefícios que prestar nem quaisquer outros bens em função da quantidade ou do valor mas sim do apreço que merece quem os recebe.
Para mim nunca será demais aquilo que dou a quem é digno de o receber.
Nada farei por causa do que os outros pensem de mim, tudo farei em função da minha consciência. Tudo aquilo que fizer, sendo só eu a sabê-lo, fá-lo-ei como se toda a gente visse.
Para mim, a finalidade de comer e de beber será a de apaziguar as necessidades da natureza, e não encher o ventre e esvaziá-lo.
Serei afável para com os amigos, brando e indulgente para com os inimigos. Concederei antes que me implorem e acudirei aos pedidos honestos.
Saberei que a minha pátria é o mundo e que os deuses o governam, eles que, acima de mim e a meu lado, são juizes do que faço e do que digo.
E quando um dia, a natureza me reclamar o sopro da vida ou a razão a ele me fizer renunciar, partirei testemunhando que amei a boa consciência, as ocupações honestas, que por minha causa ninguém viu a sua liberdade cerceada, e muito menos a minha".
   Quem se propuser ou tiver a intenção ou procurar fazer tais coisas estará a caminho dos deuses.







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