terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

EM QUE É QUE ESTÃO A TRANSFORMAR A VOSSA VIDA?



Tradução e retracto: Amadeu António

A estatura de filósofo original e pouco tradicionalista  de que Krishnamurti gozava atraía pensadores  de todos os domínios da sociedade. Desde chefes de Estado até eminentes cientistas e líderes das Nações Unidas, psiquiatras, líderes religiosos e professores universitários, todos mantinham o privilégio de privar com ele. Estudantes, professores e milhões de outras pessoas de todas as esferas do viver tiveram a oportunidade de o escutar e ler.
   Ele estabeleceu uma ponte entre a ciência e a religião sem jamais fazer uso de clichés nem recorrer ao uso gratuito de lugares comuns, de forma que, actualmente, tanto cientistas como leigos podem compreender do mesmo modo os seus debates debruçados aos temas do tempo psicológico, do pensamento,  do insight ou da morte.
   K estabeleceu fundações nos EUA, na Inglaterra, no Canadá, na Espanha e na Índia com o propósito definido de proteger os ensinamentos de toda a distorção possível e para que o seu trabalho pudesse ser disseminado de forma destituída de qualquer autoridade, interpretação arbitrária nem a idolatria para com a sua pessoa. Ao estabelecer igualmente diversas escolas pelo mundo fora, ele foi não só movido pelo intuito de prover  recursos académicos e intelectuais ( alcance de habilitações como meio indispensável para assegurar meios de subsistência ) como igualmente pela percepção da importância que a educação  assume na compreensão da mente e do coração, necessária para uma arte de viver.

   "A escola é um local onde podemos aprender acerca da totalidade da vida. È claro que a excelência académica é absolutamente necessária, porém, a escola inclui muito mais do que isso, pois é o local apropriado para que, tanto o professor como o aluno, explorem não só o mundo exterior como também o seu próprio pensar e os seus comportamentos."

   Sobre o seu trabalho disse: "Não se deve fazer nenhuma exigência de crença, como de resto não se deve incutir cultos nem seguidores, nem forma de  persuasão nenhuma, seja em que sentido for, de modo a que, sempre possamos encontrar-nos num  plano e numa base comuns. Porquanto nesse caso, poderemos empreender juntos a observação do extraordinário fenómeno que constitui a existência humana".

"Poderá existir algum amor quando cada um de nós procura somente a própria segurança, tanto psicológica como mundana, externa? Não concordem nem discordem, pois vós estais presos nesse esquema. Não estou a referir-me a nenhuma forma abstracta de amor pois nada disso possui qualquer valor. Vós possuís muitas teorias a respeito dele, mas na verdade em que consistirá  essa coisa a que chamamos amor?"


Tradução de Amadeu António

"Os nossos problemas não se resolvem tentando solucioná-los."
Declarou K durante os últimos pronunciamentos anteriores à sua morte, ocorrida em 1986. "Ao invés," continuou ele, "quando não mais fazemos  que  observá-los com a mente livre de pensamentos  de solução ou de fuga, eles dissolvem-se. Fitá-los do mesmo modo como faríamos com uma jóia preciosa finamente trabalhada, na verdade conduz a uma total libertação daquilo que nos causava dor. Pelo esforço da resolução, contudo, só faremos aumentar a complexidade de qualquer problema. Se pudermos afastar-nos da luta e desprender o nosso egotismo intruso, então o sofrimento fenece para dar lugar ao amor."
Este conjunto de excertos sugere que o fazemos de modo efectivo unicamente quando soltamos tudo aquilo que sabemos ou damos a entender que somos, e meditamos - o que implica nada mais do que o abandono imediato das nossas mágoas, dos nossos medos, ansiedade, solidão, desespero e sofrimento. "Isso constitui a base que representará o primeiro passo. E o primeiro passo" – K. Insiste - "será o último."


" Todos os problemas se resolvem à luz do silêncio. Essa luz surge com a meditação. Com a meditação a linha divisória entre tu e eu desaparece; nela, a luz do silêncio destrói o conhecimento do "eu".
"Como estamos ansiosos por encontrar uma resposta para os nossos problemas! Temos tanta ansiedade que não podemos estudar o problema, e isso constitui um impedimento à observação silenciosa do problema. Mas o problema é importante e não a resposta. Se buscarmos a resposta achá-la-emos; porém o problema persistirá, pois a resposta é irrelevante para o problema. A nossa busca constitui uma fuga ao problema, e a resolução é um remédio superficial, de modo que não chega a haver compreensão do problema. Todos os nossos problemas têm origem numa fonte única, e se não compreendermos essa fonte, qualquer tentativa para  resolver esses problemas só conduzirá a maior confusão e infelicidade. Antes de mais, devemos estar muito seguros de que a nossa intenção subjacente à  compreensão é séria, e de que percebemos a necessidade de liberdade com relação a todos os problemas, porque somente então nos podemos aproximar daquele (...) que origina os problemas. Sem liberdade dos problemas não poderemos ter tranquilidade, e a tranquilidade é essencial para a felicidade- que não é um fim em si mesma. Do mesmo modo que  a agua do charco fica em repouso quando a brisa cessa de soprar, também a mente fica imóvel e serena com a cessação dos problemas. Todavia não podemos forçar a mente a permanecer imóvel, porque se o fizermos ela permanecerá morta, e o charco ficará estagnado. Quando percebemos isto, então podemos observar aquele que é a 'origem' dos problemas. Essa observação deve ser silenciosa e não estabelecida de acordo com um plano pré-determinado, baseado na dor ou no prazer."

"Ignorante não é aquele que não recebeu educação mas o que não conhece a si mesmo; do mesmo modo, quando o que é educado crê poder encontrar nos livros, conhecimento ou autoridade a fim de conquistar a compreensão, torna-se estúpido. A compreensão só pode advir do auto-conhecimento, que implica a atenção por todos os nossos processos psicológicos. Desse modo, a educação- no seu verdadeiro sentido- consiste na compreensão de nós próprios, pois é dentro de cada um de nós que havemos de acolher a totalidade da existência."

Desde os anos vinte do século passado até 1986, K viajou por todo o mundo até á idade madura de 91 anos, sempre a dar conferências, a escrever, a manter diálogos públicos com eruditos e religiosos, ou então a sentar-se em silêncio com homens e mulheres que buscavam a sua presença compassiva e curativa. A sua instrução não se baseava no conhecimento livresco nem na erudição mas na sua compreensão intuitiva da condição humana e na percepção do sagrado. Não expunha doutrinas nem teorias filosóficas  reportando-se antes a factos do viver diário que dizem respeito a todos nós- problemas concernentes ao nosso viver, numa sociedade moderna corrupta e violenta, à busca de segurança e felicidade individuais, e à necessidade do Homem se libertar dos jugos internos da raiva, da ganância, do medo e da tristeza. K viveu ao longo da mais tumultuosa parte de um século que assistiu à eclosão de duas guerras mundiais, ao despoletar do átomo, ao rompimento de diversas ideologias, à destruição selvagem da terra, e à degeneração de todos os aspectos do viver humano. Tratou-se igualmente de um século que foi capaz de reclamar um progresso fenomenal nos mais variados campos tecnológicos. A visão profética de K preveniu-nos com relação a eventos largamente adiantados no tempo. Décadas antes que pudéssemos ter noção do perigo que o planeta corria, ele já vinha a exortar as crianças da escola a cuidarem da terra e para agirem com delicadeza no que concerne à natureza. Lá pelos anos 70 ele perguntava:
" Que acontecerá aos seres humanos se o computador tomar a seu cargo as funções do cérebro?"

  Aquilo que mais impressiona na abordagem de k, contudo, é que ao mesmo tempo que se dirigia às questões sociais, políticas e económicas do seu tempo, as suas respostas sobre a vida e a verdade expressam uma visão destituída de tempo. Ele mostrava que, por detrás de cada problema reside o "criador" desse problema, e até que ponto a fonte de todo o conflito e violência residem na mente humana. Não apresentava soluções feitas por medida, pois percebia com clareza que não passavam de sintomas de um mal estar mais profundo que reside embutido na mente e no coração de todo o ser humano. Apesar de ser reconhecido tanto no Oriente como no Ocidente como um dos maiores líderes espirituais de todos os tempos, K não pertencia a nenhuma religião, seita nem país. Tampouco subscrevia ele qualquer escola de pensamento político ou ideológico. Ao contrário, sustentava que isso constitui justamente os factores que dividem o homem e produzem  conflito e guerra. Enfatizou repetidas vezes que, nós, seres humanos, somos a coisa primordial; que cada um de nós possui mais semelhanças que distinções, com o resto da humanidade. Salientou a importância de conferirmos à nossa vida diária uma qualidade profundamente meditativa e religiosa. Só assim uma mudança radical, dizia, poderão fazer emergir uma mentalidade e uma civilização novas. Desse modo o seu ensinamento transcende todas as fronteiras da crença religiosa, do sentimento nacionalista e de toda a perspectiva sectária criados pelo homem, e  conferem simultaneamente um novo significado e uma nova direcção à busca do Sentido e da Verdade. Além dos seus ensinamentos serem da máxima relevância para a era actual, são intemporais e universais.
A. D.


O Desenvolvimento Intelectual Não Significa Necessariamente Inteligência

   A inteligência não resulta do mero preparo intelectual. Ao invés, a inteligência passa a existir quando agimos numa perfeita harmonia, tanto intelectual como emocionalmente. O intelecto é simplesmente o funcionamento do pensamento de forma independente da emoção. Quando treinamos o intelecto num determinado sentido, sem prestarmos atenção à emoção, então podemos vir a ser dotados de uma grande capacidade intelectual, mas não possuiremos inteligência, porque a inteligência reside na capacidade inerente tanto de raciocinar como de sentir. Na inteligência encontram-se igualmente presentes ambas essas formas naturais da capacidade pessoal, de modo intenso e harmonioso. Mas a educação moderna desenvolve o intelecto ao oferecer cada vez mais explicações e teorias sobre a vida, sem essa harmoniosa qualidade da afeição. De modo que chegamos a desenvolver toda uma destreza mental para escaparmos ao conflito, mas dessa forma satisfazemo-nos facilmente com as explicações tanto dos cientistas como dos filósofos. A mente, o intelecto, satisfaz-se com essas inumeráveis explicações, porém não a inteligência, porque para podermos compreender qualquer coisa essa acção tem que proceder de uma completa unidade da mente e do coração. Ou seja, presentemente possuís uma mentalidade de negociantes, uma mentalidade de religiosos, uma mente sentimental. Mas as vossas paixões não têm qualquer relação com as vossas emoções. E depois dizem que esse estado de coisas não pode ser alterado.

Mas, direis vós,  se conduzirmos as nossas emoções para o campo dos negócios esses negócios deixarão de ser adequadamente geridos e honestos, de modo que assim dividem a mente em compartimentos; num desses compartimentos preservam os interesses religiosos, num outro as vossas emoções e num terceiro os vossos negócios, o que nada tem que ver com a vossa vida emocional e intelectual. A vossa mente  que vive para os negócios encara a vida como mero processo de ganhar dinheiro para poder viver. E assim, subsiste esta forma de vida caótica, e dividida. Se na realidade chegassem a utilizar a vossa inteligência nos negócios, ou melhor, se tanto as vossas emoções como o vosso pensamento funcionassem em harmonia, o vosso negócio podia tornar-se um fracasso- com toda a probabilidade mesmo! Mas se percebessem o absurdo e toda a crueldade e exploração que esse modo de vida envolve, vocês com certeza que não se importariam que isso ocorresse. Até que realmente abordem a totalidade da vida com inteligência- ao invés de o fazerem apenas com o intelecto- nenhum sistema no mundo vos salvará da labuta pelo pão.


Conhecimento, Sabedoria e Inteligência


O conhecimento não se compara à inteligência pois o conhecimento não representa sabedoria. A sabedoria não é produto negociável nem  mercantil que se possa trocar com o sacrifício do estudo ou da disciplina. A sabedoria não se encontra nos livros e não é passível de ser acumulada, memorizada nem armazenada, mas surge com a negação do "eu". É mais importante possuirmos uma mente aberta do que aprender; mas, se não a preenchermos de informação mas procurarmos ter percepção dos próprios pensamentos e sensações, observarmos cuidadosamente a nós mesmos e ao meio que nos rodeia, escutarmos os demais, observarmos o homem rico e o pobre, os poderosos e os indigentes, então possuiremos uma mente aberta. A sabedoria não sobrevem por intermédio do medo nem da opressão, mas  pela observação e compreensão dos incidentes do quotidiano afectos ao nosso relacionamento.
A inteligência é superior ao intelecto, pois consiste na integração da razão e do amor, porém só pode subsistir quando sobrevem o auto-conhecimento, a compreensão profunda dos processos completo do eu.
Temos de ter consciência do nosso condicionamento e das suas respostas, tanto colectivas como pessoais, porque somente quando tivermos inteira atenção pelas actividades do eu- com as suas ocupações e desejos contraditórios, os seus receios e esperanças- poderá haver possibilidade de transcender o eu.
Somente o amor e o pensamento correcto poderão produzir essa autêntica revolução em nós.


Toda a Análise Mutila a Inteligência


Pergunta:  Tenho a impressão de ter vindo a querer pôr as suas ideias em prática, todavia não possuo qualquer alegria nem entusiasmo por actividade nenhuma na vida. As tentativas que tenho feito no campo da tomada de consciência não me demoveram a confusão nem  trouxeram nenhuma mudança ou vitalidade alguma à minha vida, pelo que, presentemente, ela não faz mais sentido a meus olhos do que quando comecei a escutá-lo, há vários anos. O que é que se passa de errado comigo?

K-  Eu pergunto-me antes de mais se, o ouvinte compreendeu  aquilo que tenho vindo a dizer antes de procurar pôr as minhas ideias em prática. Além disso, porque deverá ele pô-las em prática? E, de que tratam essas ideias? Porque as refere como  "minhas ideias" ? Eu não lhes recomendo  nenhum molde nem código por que devam passar a viver, nem sistema que devam seguir. Tudo o que eu digo é que, para podermos viver de forma criativa, com entusiasmo, inteligente e vitalidade, temos que pôr a nossa inteligência a operar. Mas essa inteligência é corrompida e impedida por aquilo a que chamamos memória; já expliquei o que quero dizer com isso, de modo que não tenho por que me repetir. 

Enquanto vivermos nesta luta permanente para alcançar; enquanto a nossa mente permanecer influenciável, a dualidade terá de persistir e, portanto, a dor e a luta. A nossa busca pela verdade e pela realidade não passam de uma forma de evasão dessa dor. Por isso mesmo é que refiro que tomem consciência do vosso esforço, da vossa luta e das recordações que vos assolam a mente, de modo a perceberem se elas não destroem a vossa inteligência. Mas ter consciência não significa tornar-se meramente consciente num nível superficial mas antes penetrar  toda a extensão dessa consciência de modo que as nossas reacções inconscientes permaneçam  encobertas. E tudo isso exige reflexão e uma qualidade de vigilância por parte da mente e do coração- não uma mente que se ache a abarrotar de crenças e ideais, como a maioria das pessoas tem, com ânsia de se tornar adeptos. À medida que tomam consciência do vosso fardo, não se ponham a dizer que "têm de deixar de possuir ideais ou crenças" nem a repetir toda essa gíria. Porque nesse caso o "ter de" vai criar uma outra forma de credo e doutrina. Tornem-se simplesmente conscientes de que com essa mesma intensidade de consciência, com essa mesma intensidade de atenção e chama,  produzirão uma crise e um conflito tais que, por si mesmos, dissolverão o impedimento. Sei que algumas pessoas vêm aqui ano após ano e procuro explicar estas coisas por formas diversas de cada vez que cá vêm, mas receio bem que aqueles  que dizem "tenho vindo a escutá-lo há tanto tempo...", não tenham suficiente reflexão. Não me refiro à reflexão como uma forma de raciocínio intelectual, o que não passa de um punhado de cinzas; esse acto de sopesar não é influenciável nem afectado pelo conflito dos opostos. 

Se não tivermos nem a capacidade de pensar com clareza, nem  intensidade de sentir, como poderemos despertar ou chegar a ter firmeza; como poderemos manter essa vigilância e atenção? Desse modo a vida tornar-se-nos-á fútil, uma nulidade, uma coisa irremediável. De modo que, se me for permitido sugerir, a primeira coisa a fazer, consiste em tentarmos descobrir por que razão pensamos em determinados moldes e temos  inclinações para sentir de certa maneira. Não procurem alterar isso nem  analisar os vossos pensamentos e emoções, mas tornem-se, ao invés, conscientes da razão porque pensamos da forma habitual e rotineira, e por  que motivos somos levados a agir. Apesar da análise nos poder proporcionar a descoberta desses motivos, apesar de por meio da  análise sermos capazes de descobrir qualquer coisa, ainda assim isso deverá carecer de realidade, porque só poderá ser real quando disso se acharem intensamente cônscios- no exacto momento em que esse pensamento ou emoção se processarem; aí poderão perceber a sua extraordinária subtileza e refinada delicadeza. Porque enquanto sustentarem "dever" e "não dever",  nessa compulsão jamais poderão descobrir a natureza veloz e peregrina do pensamento e da emoção. Mas tenho a certeza  que é devido a que tenham sido criados nessa "escola" que chegaram a destruir o pensamento e a sensação. Foram tanto obrigados como mutilados por  sistemas e métodos e pelos professores. Por isso deixem todas essas noções de "dever" de lado. Não quero dizer que devam entregar-se a um tipo qualquer de licenciosidade, mas tornar-se conscientes da mente que diz "devo" e "não devo". Então, exactamente como uma flor que desabrocha pela manhã, também do mesmo modo ocorrerá com a inteligência, e ela poderá operar e dar origem à compreensão.


A Solidão
Resultado de um Viver Reduzido à Prisão do "Eu"


Não perguntem se eu pus fim á dor. Isso não é importante. Não importa quem o tenha conseguido ou não. O que importa é se estais a sofrer. Porque, seja porque razão ou causa for, por meio do sofrimento devereis tornar-vos desafortunados, infelizes, ansiosos e mergulhar no desespero; devereis ser isso mesmo. E é muito mais importante descobrir o modo de o terminardes do que indagar  se alguém mais lhe pôs término. Se dissesse que o consegui, isso não teria a menor importância. O que importa é a vossa vida e o modo como viveis. Além disso há o aspecto profundamente enraizado da dor- não somente relativo á raça ou à família mas também do homem que vive há dois milhões de anos no sofrimento, na agonia e num desespero interminável.
O fim do sofrimento é possível!

Depois há a dor  da solidão. Não sei se alguma vez sentiram solidão; não se trata de uma consciência intelectual mas de facto, uma coisa tão concreta como este microfone- como quando nos achámos completamente isolados, e qualquer tipo de pensamento ou emoção é bloqueado, sem que possamos voltar-nos para nenhum lado; não há ninguém a quem possamos fazê-lo- seja anjos, ou deuses; eles estão para lá das nuvens, e desde que as nuvens têm o costume de se desvanecer, eles também se desvanecem; e nós ficamos completamente sozinhos- não utilizarei a palavra "sós". Esse termo possui um sentido completamente diferente: "sós" possui beleza. Ser "" significa algo completamente diferente. E nós precisamos ficar  sós- quando uma pessoa se liberta da estrutura social da cobiça, da inveja, da ambição, da arrogância, da realização, da importância- quando se liberta disso tudo, então fica inteiramente só. Assim, é uma coisa completamente diferente. Nesse caso surge um enorme sentido de beleza e uma enorme vitalidade. Porém a solidão não é isso. A solidão é este sentido total de existência isolada de tudo. Não sei se alguma vez o sentistes, porque, quanto mais despertos fordes, quanto mais questionardes, observardes, perguntardes e exigirdes, mais estareis conscientes disso; e podeis chegar a sentir-vos completamente marginalizados. Isso constitui uma das maiores dores; a de não conseguir transpor esse isolamento; de nos encontrarmos presos nesse terrível sentimento de solidão com a imensa energia que isso adquire. Isso possui uma vitalidade, um vigor, uma insistência e até uma fealdade próprios. Mas nós procuramos escapar disso de todas as formas imagináveis; seja tornando-nos imensamente espertos, escrevendo livros acerca dessa solidão, tratando de a arredar, ou então tentando escapar-lhe pela diversão, sem jamais lhe tocarmos sequer.

 De modo que isso permanece em estado latente, escondido; porém, á semelhança de um tumor cancerígeno, isso subsiste num estado de espera. Temos de chegar a um contacto com isso, não de forma verbal mas real. Essa solidão constitui uma ausência de vida. Como tinha dito existe a morte não só quando a vida chega ao fim, mas também quando deixa de haver resposta ou saída; isso é igualmente uma forma de término de vida; acharmo-nos presos na nossa actividade auto-centrada e incessante. Quando ficamos retidos em meio aos próprios pensamentos, à própria agonia, às nossas superstições, à nossa rotina diária fatal dos hábitos e da irreflexão, isso também equivale á morte; não somente o findar do corpo. E temos de descobrir de que modo havemos de terminar isso. Não se trata de apelar para a teoria da reencarnação: "de nascermos numa vida futura". Quem se importará, meus amigos, que renasçam ou não numa próxima vez? Por acaso conhecem aquilo que a vida seja, ESTA VIDA? A infelicidade, o desespero, toda a ansiedade, os pequenos prazeres, a falta de afeição, os apetites sexuais, a confusão e toda a luta e conflito intermináveis - tudo isso perfaz a nossa vida. 

Mas vós dizeis: "eu vou prosseguir com a minha vida na próxima reencarnação" e entretanto, permanecem à espera da morte. Acreditam em tudo isso, e depois chegam a inventar a noção da evolução da alma, da evolução progressiva, gradual, interminável-  através do que havemos de nos ver livres da dor, do sofrimento, da luta árdua, da ansiedade. Inventamos o tempo como forma de nos vermos livres do sofrimento, ou então passamos a venerar esse sofrimento numa igreja! Mas se nós tomarmos consciência de que temos que enfrentar a morte, então entraremos em contacto com ela do mesmo modo que entramos em contacto com essa árvore, com o pôr do sol, com a beleza de um rosto, com toda a sordidez, com as aparências enganosas, com tudo o que a mente humana tem de ordinário. Temos de chegar a um contacto com esse morrer e não somente com o findar do corpo, o desgaste do organismo. Isso é passível de ser entendido. O organismo pode ser prolongado porquanto os cientistas estão a desenvolver a possibilidade do organismo poder gozar de um prolongamento de vida aí de uns cinquenta anos ou mais. E vós prolongareis a vida por mais cinquenta ou mais anos de vida- o mesmo tipo de actividades auto-centradas, brutais como a ambição, a competição, a busca de importância pessoal, a posição, o poder, a ganância, inveja, etc. Porém nunca chegamos a entrar em contacto com essa ausência de vida.

Sabem o que significa chegar a entrar em contacto com essa estiolamento e morrer sem argumentar coisa nenhuma em contrário? Quando a morte sobrevier, ela não vai propor nenhum acordo convosco. E para a enfrentar, tendes de morrer a cada dia, para todas as coisas- para a vossa agonia, para a vossa solidão e para as relações a que estão agarrados; têm de morrer para o vosso pensar, morrer para o vosso hábito, morrer para a vossa mulher de modo a poderem olhá-la de novo; tendes de morrer para a sociedade de forma que, como ser humano, possais revigorar-vos, rejuvenescer-vos- e de forma a podê-la encarar. Porém, se não o fizerdes não podereis enfrentar a morte. Somente quando morremos pode o amor passar a existir. Uma mente apavorada não possui amor- possui hábitos, possui simpatia e pode forçar-se a ser amável e superficialmente atenciosa. Porém o medo cria a dor, e a dor é tempo na qualidade do pensamento. Portanto, terminar com o pensamento equivale a entrar em contacto com a morte em vida, morrendo para o nosso nome, para a nossa casa, para a nossa propriedade, para a nossa causa, de modo que possamos sair rejuvenescidos, perfeitamente lúcidos, e possamos perceber as coisas do modo que elas são sem distorção nenhuma. Isso é o que irá suceder quando morrermos. Todavia, o aspecto da morte física acha-se limitado; sabemos muito bem, de forma lógica, sensata, que o organismo vai alcançar um término; de modo que inventamos uma concepção de vida através do qual vivemos numa agonia e insensibilidade diária, com todo o incremento de problemas e estupidez, e depois queremos prolongar essa vida a que chamamos "alma"- coisa que dizemos ser o mais sagrado, parte indissociável da divindade. Contudo ainda pertence ao vosso pensamento e como tal não tem nada a ver com a divindade. Trata-se da vossa vida!

Assim, temos que viver morrendo para cada dia- porque nesse morrer entraremos em contacto com a vida. E temos de entrar em contacto com a nossa vida diária- (não uma forma sublime qualquer, o que seria um perfeito disparate) com todos os movimentos do pensamento, com cada palavra, com todo o sentimento, com a agonia, o desespero, a solidão, os medos, as dores, de forma que a nossa mente seja altamente sensitiva. Porém, a mente não o poderá ser se carregar todo o passado.

Somente quando a mente souber morrer para si mesma, poderá chegar a existir amor. O amor será então muito simples. É a única coisa que trará harmonia à vida- e não os vossos argumentos intelectuais, nem as vossas filosofias nem os livros sagrados e profanos. Uma mente que compreender tudo isto, que  tiver terminado com isso tudo e o enfrentar a cada minuto do dia- unicamente uma mente assim poderá conhecer a essência do amor. Quando houver amor, façam o que fizerem, existirá virtude, bondade e beleza.

A Compreensão Sobrevem
Quando o Cérebro Permanece em Silêncio


Pergunta:  Diz que tanto os processos da mente como os da memória e do pensamento devem sofrer um término para podermos obter compreensão; no entanto o senhor está a comunicar connosco. Será que aquilo que diz é alguma coisa do passado ou algo que experimenta à medida que se comunica connosco?

K- Quando é que chegamos a comunicar? Será quando exprimimos a nossa experiência a alguém? Certamente, há de ser quando fizemos a experiência de determinada coisa e não enquanto estamos a experimentá-la! Tal comunicação  constitui somente um produto posterior. Além do mais, para podermos comunicar uma dada experiência por que tenhamos passado temos de usar a memória, as palavras, os gestos, de modo que a comunicação torna-se expressão de uma experiência que já terminara. Agora, em que circunstâncias é que compreendemos uma dada coisa? Não sei se já notaram  que a compreensão surge quando a mente está silenciosa, ainda que seja por um só segundo; quando a verbalização do pensamento se encontra ausente surge um clarão de compreensão.  Experimentem isso e verão por si próprios se não experimentarão um clarão de compreensão, a percepção extraordinariamente rápida que sucede quando a mente está bastante imóvel e não mais sobrecarregada com o ruído que gera, quando o pensamento está ausente.

Portanto, a compreensão de uma coisa qualquer- seja uma pintura moderna,  a compreensão de uma criança, da nossa esposa, do nosso vizinho ou a compreensão da verdade contida em cada coisa- essa compreensão só pode surgir quando se a mente encontra bastante quieta. Porém essa imobilidade não pode ser objecto de nenhum cultivo porque se cultivarmos uma mente imóvel só poderá resultar uma mente sem vida. Mas é essencial que tenhamos uma mente imóvel, uma mente silenciosa, a fim de sermos capazes de compreensão- o que, para quem experimentou tudo isto, é bastante evidente.    Quanto mais nos interessamos por determinada coisa mais empenho teremos por compreendê-la, e mais simples, clara e liberta a mente se torna. Então, a verbalização cessa toda. Afinal de contas o pensamento é a palavra, porém, é justamente a palavra que interfere; é o ecrã formado pelas palavras, que constitui a memória e intervém entre o desafio e a resposta. È a palavra que responde diante do desafio, processo a que chamamos intelecto. A mente que está sempre a tagarelar e a verbalizar não poderá compreender a verdade- a verdade do relacionamento, e não uma verdade qualquer abstracta. Mas essa verdade é muito subtil, e é justamente essa sua subtileza que se torna difícil de acompanhar; ela não é abstracta. A compreensão surge tão rapidamente e de modo tão sombrio que não pode ser sustentada pela mente. Semelhante a um ladrão na noite, sobrevem ela de um modo obscuro; não quando nos preparamos para a receber. A recepção de que podemos usar não passa de um convite da ganância. Por isso, a mente que se acha presa na rede da palavra, essa mente não pode compreender a verdade.


A Ignorância Consiste
na Falta de Auto-Conhecimento


A ignorância representa a falta de conhecimento das expressões do eu, porém, tal ignorância não pode ser dissipada através de nenhuma reforma nem actividade superficial. Pode ser unicamente  dissipada através da consciência sistemática dos movimentos e das respostas do eu, em todos os seus relacionamentos. Aquilo de que devemos ter consciência é  que não somos somente condicionados pelo meio mas que somos o próprio meio; não somos uma coisa separada dele. Os nossos pensamentos e as nossas respostas são condicionados pelos valores que a sociedade- de que fazemos parte- nos impôs. A consciência da atenção é todo o processo (consciente ou inconsciente) que perfaz a meditação. O "eu", com os seus desejos e conflitos, pode ser transcendido por meio dessa meditação.
O auto-conhecimento é necessário para podermos ser livres das influências e dos valores que dão cobertura ao "eu"; nessa liberdade unicamente reside a criatividade ou  Verdade, Deus; tudo o que lhe quiserdes chamar.


Libertação  do “Eu”


É óbvio que os desafios da vida são demasiado exigentes, demasiado enormes e extraordinariamente complexos para serem resolvidos unicamente ao nível de uma questão particular. Eles têm de ser enfrentados na sua totalidade, como uma coisa inteira. Não podem ser enfrentados meramente do ponto de vista científico nem do ponto de vista romântico nem do chamado aspecto religioso- os quais, afinal, mais não são do que uma série de dogmas, crenças e cerimónias. Vós e eu podemos, certamente perceber o modo como a vida é extraordinariamente bela, profunda e intensa para ser entendida com facilidade, mas a despeito disso procuramos descobri-lo com a nossa mente estreita. A nossa mente torna-se amedrontada, ansiosa, aquisitiva, violenta e possui determinadas sanções sociais e religiosas de acordo com o que deve viver, de modo que sempre subsiste contradição entre o que "é" e aquilo que pensa que deveria ser...

Toda a nossa vida é gerada na contradição, do mesmo modo que todo o nosso ser- não somente a mente consciente como também a inconsciente, mas apesar disso percebo que, se quiser pensar com clareza, para daí resultar alguma compreensão do que seja verdadeiro, a mente tem de ser livre para  obter lucidez. Desse modo, de que forma poderemos tornar-nos livres da contradição? Poderei olhar alguma coisa sem com esse acto suscitar o seu oposto? Porque, afinal de contas, poderemos conhecer o amor meramente passando pela experiência do ódio? Não serei capaz de encarar essa dualidade de um modo completo, investido duma compreensão total e empenhar-me completamente na compreensão dela a fim de lhe entender a verdade?

Terão consciência de si mesmos e daquilo que são? É certo que sabemos estar em contradição-  dizemos uma coisa e fazemos outra; temos de ter consciência deste sorvedouro! Mas, com respeito a tal situação que coisa fazemos? Procuramos ver-nos livres dela pela execução de algum tipo de acção a respeito- o que significa que não lidamos com o próprio problema mas tentamos encobri-lo com uma outra série de ideias. Portanto, não seremos capazes de encarar a questão do orgulho pessoal sem encobrirmos o problema com pensamentos? Não serão capazes de olhar uma flor sem lhe designar um nome, ou uma qualidade de que tenham consciência de possuir, nem tentar fazer nada a respeito? Alguma vez encararam a ira pessoal sem dizer para convosco que deviam deixar de a sentir? Pergunto-me se já lhes ocorreu a dificuldade de olhar simplesmente o facto devido a que a mente esteja constantemente a interferir com ele, evocando a recordação daquilo que "devia" ser. O que eu digo é que, se a mente for capaz de encarar o facto sem suscitar experiências nem recordações do passado, obtendo simplesmente consciência do facto, então essa mesma consciência modificá-la-á inteiramente. Porque a consciência do facto produz a cessação do conflito.

Se tiver consciência de ser mentiroso e não procurar alterar meramente essa ordem de coisas (dizendo para comigo mesmo que devo passar a dizer a verdade) nesse caso interessar-me-ei por toda a questão da razão por que sou levado a mentir. E, devido a me interessar por conhecer a origem do meu comportamento e o significado da razão de eu ser levado a mentir, eu investigo-o. E então percebo que minto por uma questão de medo. Sinto medo, quer a um nível superficial quer a um mais profundo, por aquilo que disse ou fiz; medo que possam descobri-lo; ou então tenho medo de perder o emprego e uma infinidade de outras coisas mais. Assim, de que forma será possível libertar a mente do medo? Porque se eu fizer alguma coisa com relação a isso então haverá contradição, e consequente resultará conflito e uma batalha íntima interminável. Portanto, não digamos que devemos deixar de sentir temor mas encaremos, ao invés, todo o processo daquilo que produziu esse medo.

Agora analisemos um outro facto; o de evitarmos o aspecto do que é feio e preservarmos o belo. Pensamos que conhecemos o belo devido à presunção do "feio"; temos consciência da beleza como uma coisa manifestada ou expressa. Comentamos tratar-se de um edifício belo ou feio mas, como saberemos se é feio ou belo? Será devido às opiniões, ou porque nos disseram que assim é? Não será? A minha mente foi treinada e condicionada de acordo com a tradição do que seja belo ou feio; mas terá a beleza um oposto?

Por favor, não procurem uma resposta; apenas escutem. Terá a beleza um oposto, como o da fealdade? Se tiver poderá tratar-se de beleza? Podem muito bem argumentar que a vida é feita tanto de falsidade como de verdade e que nos é dado conhecer o frio por experimentarmos também o calor; que conhecemos a dor pela sua recordação; da existência do homem e da mulher. Talvez o estado de dualidade tão amplamente conhecido seja de certa forma inevitável, mas então porque criamos conflito com relação a isso? A questão que estamos a investigar não diz respeito á mera existência ou inexistência do belo ou do feio mas da razão do conflito e destas tensões, todo esse amontoado de preocupações baseadas na sobreposição. Não surgirão a preocupação e o conflito por querermos ser isto, ao invés daquilo? Devido a que um aspecto seja proveitoso ao invés do outro? Devido a que queiramos identificar-nos com um estado e afastar o outro? Dessa forma a identificação com um e o impedimento do outro forma todo o centro da contradição. Mas tal contradição não poderá ser ultrapassada por meio de nenhuma disciplina; façam o que fizerem, seja qual for o sistema que sigam, nós não transporemos os seus limites. Aquilo que poderá libertar a mente de toda a contradição é o acto de enfrentarmos a própria consciência, de forma a descobrirmos porque razão ela se apega a um estado e evita outro. Isso requer auto-conhecimento, investigação de nós mesmos, estudar-nos com aprofundada paciência. Porém, ao exigirmos resultados imediatos recusamo-nos a empreendê-lo.

Assim, a questão consiste em sabermos porque razão opera a mente nessa divisão; o que implica que abordemos a questão do que seja  o pensar- porque nós sempre pensamos em termos de existência do belo e do feio e queremos um aspecto em vez do outro. De modo que digo de mim para comigo: "Em que consistirá esse processo mecânico do pensar que é responsável por eu querer possuir um aspecto ao contrário do outro, criando desse modo contradição em mim próprio? " Pergunto: " o que será esta coisa a que chamamos pensar? " O pensar, com certeza, é uma reacção- se não existisse resposta nenhuma a um dado estímulo não existiria pensar nenhum. Estou inteiramente ao corrente do modo como os chamados "santos" empreendem determinadas atitudes de forma a não reagirem destruindo-se, desse modo, mas isso não vem ao caso.

O pensar consiste numa reacção; eu pergunto-lhes onde moram e vocês respondem sem hesitação, por conhecerem muito bem a resposta. Se os interrogar sobre uma questão mais complexa, levarão certamente mais tempo a responder. E o espaço de tempo existente entre a pergunta e a resposta é originado pelo pensar, não será assim? Acompanhem-me por favor. Esse espaço de tempo existente entre a pergunta e a resposta significa que estão a pesquisar, a operar a recordação, de modo que essa recordação responda pelo conhecimento. Se lhes colocar uma questão ainda mais complexa, esse intervalo de tempo será ainda maior e nele a mente deverá achar-se bastante activa com a investigação e a procura por entre as recordações, lembranças,  livros ou conhecimentos acumulados, de modo que quando tiver encontrado o que procura seja capaz de responder. Por fim, se lhes colocar uma questão bastante difícil, esse intervalo será ainda mais alargado e, após o que, tendo pesquisado, a vossa mente dirá desconhecer a resposta.  (risos)

Por favor, isto não é para rir. Dizemos: "não sei" mas isso não passa de uma hesitação, um intervalo de tempo em que ainda se acham a pesquisar, à espera que a mente encontre a resposta, o que uma vez mais significa que a mente está ainda a operar e a buscar, a exigir uma resposta, em estado de espera; todas as nossas respostas constituem uma  reacção. Com certeza que isso ficou claro, não? Isso é tudo o que conhecemos sobre o modo de funcionamento do nosso pensar- ou seja, que se trata de uma reacção mais ou menos complexa, mais ou menos subtil, desonesta e refinada. Porém, todo esse processo é mecânico. O pensar não passa de uma reacção a determinada coisa que conheço ou desconheço; porém posso sempre descobri-lo. Isso é o que os computadores fazem. São capazes de responder a qualquer questão que se lhes coloque baseados no mesmo princípio de associação e recordação. Desse modo, o nosso pensar é inteiramente mecânico, mas o facto é que nós pretendemos abeirar-nos da vida através desse hábito mecânico. A vida não consiste somente nas notícias do dia impressas nos jornais. Portanto, na posse de uma mente mecânica procuro abordar a vida que não-mecânica, facto de que,
consequentemente, só pode resultar contradição. E depois procuramos ultrapassar essa contradição por meio do processo do pensar, desse mesmo hábito mecânico, de modo que a contradição entre mim e o mundo persiste.  Será portanto, que poderei abordar a vida de diferente forma?

Para podermos libertar a mente de todo o condicionamento devemos considerar a sua totalidade da coisa, sem o concurso do pensamento. Não se trata de nenhum enigma; experimentem e verão. Será que podem perceber alguma coisa sem a actividade do pensamento? Alguma vez escutaram ou olharam, sem suscitar todo esse processo de reacção? Dirão que é impossível observar sem o pensamento; dirão que nenhuma parte da mente poderá ser descondicionada. Mas ao dizer isso na realidade já se bloquearam pela acção do pensamento, porque na realidade vós não sabeis. Portanto, será que posso olhar, será que a mente pode ter consciência do seu condicionamento? Eu penso que sim. Experimentem. Podereis ter consciência de ser hindus, socialistas, comunistas, isto e mais aquilo, ter unicamente consciência sem dizer que seja certo ou errado? Devido a que a simples observação seja tão difícil é que dizemos ser impossível. Mas eu digo-lhes que somente quando tiverem consciência dessa totalidade do vosso ser, sem reacção nenhuma, é que o condicionamento de dissipará, inteira e profundamente- o que na verdade constitui a liberdade do "eu".


O Pensamento vê-se Impotente Perante a
Resolução da Questão "Eu"


Quanto mais reflectimos sobre um problema, quanto mais o investigamos, analisamos e discutimos, mais complexo ele tende a tornar-se. Assim, não será possível encarar o problema de modo compreensivo e global? De que forma será isso possível? Porque nisso reside, parece-me a mim, a nossa maior dificuldade. Os problemas multiplicam-se; existe o perigo eminente de guerra, os nossos relacionamentos estão cheios de todo o tipo de perturbações - e desse modo, como haveremos de compreender tudo isso de forma compreensiva,  num todo? É evidente que só poderá ser solucionado quando pudermos olhá-lo como uma coisa total-  não de forma compartimentada nem dividida. Mas de que modo será isso possível? Com certeza que será somente possível quando o processo do pensar- que tem a sua origem no "eu", no mim- que tem assento na tradição e no condicionamento, no preconceito, na esperança, no desespero- quando o processo do pensar, dizia, tiver alcançado um término. Não poderemos procurar entender este "eu" (sem ser por intermédio da análise mas olhando a coisa tal como ela é, tomando consciência dela como  facto ao invés da teoria) sem o procurarmos dissolver a fim de obter algum resultado ou efeito, mas antes com a percepção da sua actividade constante? Não poderemos olhá-lo sem movimento nenhum no sentido de o destruir ou encorajar? Essa é a questão, não será? Porque, se em cada um de nós esse centro do "eu" não se achar em actividade- em meio aos seus desejos de poder, prestígio, autoridade, continuidade, auto-preservação, etc.- com certeza os nossos problemas alcançarão um findar!

O Eu é uma questão que o pensamento é incapaz de solucionar. Tem que ocorrer um tipo de atenção que não proceda do pensamento. Estar atento às actividades do "eu", sem condenação nem justificação mas procurando simplesmente dar atenção, é quanto basta. Se usarmos da atenção a fim de descobrir o modo de solucionar o problema, ou de o transformar, tentar encontrar um resultado, etc., então isso ainda se circunscreverá no círculo do "eu", do mim. Enquanto buscarmos um resultado, seja através da análise ou da atenção, do exame sistemático de cada pensamento, ainda nos situaremos no campo do pensamento, o que implica que estejamos dentro do campo do "mim", do "eu", do ego, ou como quiserdes chamar-lhe.

Enquanto subsistir a actividade da mente,  certo é que não poderá existir amor. E quando sentirmos amor, não subsistirão problemas sociais.

A Vossa Luta é a Luta da Humanidade


A menos que nos compreendamos como um processo total não poderá ocorrer revolução nenhuma enriquecedora nem completa. Nem vós nem eu somos indivíduos isolados mas o resultado de toda a luta humana, com as suas ilusões, os seus caprichos, objectivos, ignorância, esforço, conflito e infelicidade. Não podemos começar a alterar a condição do mundo sem nos compreendermos a nós mesmos. Se percebermos isso, dar-se-á imediatamente uma completa revolução no nosso íntimo, não será? E nesse caso não necessitaremos de nenhum guru porque o conhecimento de nós mesmos dá-se de momento a momento, e não brota da acumulação do que ouvimos dizer, nem está encerrado nos preceitos dos preceptores religiosos. Devido a que nos descubramos através do relacionamento com o próximo, momento a momento, o relacionamento passa a adquirir um sentido completamente diferente. Então a relação consistirá num processo de revelação, um processo constante de auto-descoberta, e a partir dessa descoberta, ocorre a acção. Assim, o auto-conhecimento só pode ocorrer por intermédio do relacionamento, e não no isolamento. O relacionamento é acção, e o auto-conhecimento é o resultado da atenção em meio a essa acção.

O Pensar Correcto e o Conhecimento


O pensar correctamente e o "pensamento recto" são dois aspectos completamente diferentes. O pensamento recto não passa de uma forma de ajustamento a determinado padrão ou sistema; é um processo estático que envolve a constante fricção da escolha. Mas o pensar correcto, ou verdadeiro, tem que ser descoberto e não pode ser aprendido nem praticado. O pensar correcto constitui um movimento de auto-conhecimento que ocorre a cada momento. Tal movimento de auto-conhecimento existe na atenção do relacionamento...

O pensar correcto só poderá chegar a eclodir onde houver consciência de cada pensamento e sensação que tenhamos, uma consciência não só pertinente a um determinado conjunto de pensamentos e sensações mas para com todos eles.

Conhecimento por Intermédio da Atenção


Penso que a nossa investigação não deve preocupar-se com a resolução dos nossos problemas imediatos mas em procurar descobrir a possibilidade da mente- tanto a consciente como a profundamente inconsciente que aloja a tradição, as recordações e a herança do conhecimento racial- descobrir se tudo isso não poderá ser deixado de lado. Eu penso que pode, mas unicamente se a mente for capaz de  tomar consciência disso sem nenhuma forma de exigência nem pressão- e permanecer exclusivamente consciente. Todavia, penso que isso é uma das coisas mais difíceis  de conseguir (tomar, assim, consciência) devido a que nos deixemos apanhar pelo imediato do problema e da solução, de forma que a nossa vida chega a tornar-se bastante superficial.

A Natureza da Observação


Fui informado de que a natureza do eléctron, quando medido com  instrumentos adequado, comporta-se de tal forma que não pode ser mostrado num gráfico, porém, quando esse mesmo eléctron é observado ao microscópio, essa mesma observação altera-lhe o comportamento. Ou seja, que a observação humana desse eléctron provoca no próprio um comportamento diferente, comportamento esse que é distinto daquele que sucede quando a mente humana não está a observá-lo. (Do mesmo modo) quando observamos simplesmente um facto, então perceberemos todo um padrão comportamental diferente, á semelhança daquele do eléctron quando está a ser observado. Quando olhamos um determinado facto sem qualquer pressão, então esse facto passa por uma mutação completa sem esforço algum.

Conviver com Aquilo que É


Quero dizer, será possível olharmos a coisa sem a presença do pensamento? Não quer isso dizer que deixemos  a mente em branco, mas que tratemos de  olhar a coisa. Mas, isso só poderá tornar-se possível quando não subsistir nenhuma sensação de "eu" a interferir na observação. Compreendem? Ou seja, existe a minha violência como um facto e eu afastei de mim a ideia tola de não ser violento, por ser demasiado infantil, absurdo e destituído de sentido. Aquilo que é, é o facto de eu ser violento. E percebo igualmente que, toda a luta para me ver livre disso, e  produzir uma mudança  exige esforço, porém,  esse mesmo esforço faz parte da violência. No entanto, percebo que a violência tem de sofrer uma mudança e uma transformação completas; tem que sofrer uma mutação. Bom, mas como deverá isso processar-se? Se nos limitarmos a pôr o assunto de lado por ser de modo assaz difícil, nesse caso perderemos um extraordinário estado da existência: um estado de vida isento de esforço e, como tal, uma vivência imbuída da mais elevada forma de sensibilidade, e  igualmente a mais elevada forma de inteligência. E somente essa extraordinária estatura de inteligência poderá descobrir os limites e a medida exactos do tempo, e transcendê-lo. Será que entendem a questão, o problema?

Até agora, temos utilizado a ideia como um meio ou um incentivo para nos vermos livres do "que é", o que gera contradição, hipocrisia, rudeza e brutalidade. Mas se pusermos tal ideal de lado, então ficaremos  unicamente com o facto. Então perceberemos de que forma o facto deve sofrer uma alteração, sem a menor fricção. Porque toda a forma de fricção ou esforço, luta, destruirá a sensibilidade da mente e do coração. Assim, que havemos de fazer? O que podemos fazer é observar o facto- e faze-lo sem nenhuma tradução, interpretação, condenação nem avaliação- somente observar.

A Acção do Pensamento não Pode
Terminar por Intermédio da Mágoa


O homem sempre utilizou o pensamento como um meio para se livrar da mágoa, pelo emprego do esforço justo, pensar correcto, o viver moral, etc. Esse exercício do pensar tem sido a sua orientação, tanto através da acção do intelecto como em tudo o mais. Porém, o pensamento é um produto do tempo e o tempo é esta consciência presente. E o que quer que façamos neste campo da consciência, jamais poderá acabar com a mágoa ou a dor. Quer vamos à Igreja ou nos inclinemos para a bebida, tem que dar no mesmo. Portanto, se alcançarmos alguma aprendizagem perceberemos que por intermédio do pensamento jamais obteremos qualquer possibilidade de mudarmos radicalmente de forma que a mágoa deverá persistir. Se percebermos isso, então poderemos mover-nos numa dimensão diferente. Estou a empregar a palavra "perceber" não no sentido intelectual nem verbal, mas no da compreensão total deste facto- do facto de que o pensamento não poderá terminar através da sua acção.

Sermos Aquilo que Somos


Como este desejo de exibicionismo e de nos tornarmos alguém é estranho! A inveja é ódio. A vaidade corrompe. Parece completamente difícil sermos simples, sermos aquilo que somos, sem fingimento. O "ser o que se é", em si mesmo- sem querermos ser alguma outra coisa, não é uma coisa demasiado difícil. Podemos sempre fingir, e usar uma máscara porém, ser o que se é, é coisa extremamente complexa; essencialmente porque estamos constantemente a mudar, e jamais permanecemos os mesmos pois a cada passo se revela um aspecto desconhecido, de intensidade e aspecto diferente. E nós não podemos ser tudo isso num a um só tempo, porque  cada momento comporta a sua própria mudança. Por isso, ser formos realmente inteligentes, não quereremos tornar-nos "alguém".

Julgamos ser muito sensíveis mas eis que ocorre um incidente ou um pensamento fugaz, e isso vem revelar-nos que não o somos. Julgamo-nos  muito espertos, que possuímos um espírito sagaz e artístico, e moral, mas dobramos a esquina e eis que percebemos que não somos nada disso mas sim profundamente ambiciosos, invejosos, dependentes, cruéis e agoniados. Somos cada uma dessas coisas a seu turno porém, esperamos ser alguma coisa permanente e contínua, e claro, ansiamos sempre por aquilo que seja mais proveitoso e nos dê mais prazer. De modo que corremos permanentemente atrás disso, enquanto as mais diversas outras formas de "eu" clamam por satisfação e uma chance de se manifestar. E assim tornamo-nos no campo de batalha da ambição, com todo o seu cortejo de prazer e dor, ganho, inveja e temor.

O termo "amor" é empregue em meio a tudo isso em nome da respeitabilidade, e a fim de mantermos a família unida enquanto, por outro lado, continuamos presos a compromissos e actividades isoladas a clamar por reconhecimento e fama, para nós ou para a nossa pátria, nós e o nosso partido, nós e o deus que nos dá conforto.

Assim, "ser o que somos" é tarefa extremamente árdua. Se formos verdadeiramente despertos, teremos consciência disso tudo, e de toda a tristeza que comporta. Mas nós entregamo-nos ao trabalho ou a uma crença ou a ideias fantásticas e meditações. E a certa altura achamo-nos demasiado velhos e prontos para a cova, se já não nos encontrarmos interiormente estiolados.

Deixar isso tudo de lado, com toda a contradição e crescente tristeza que comporta, e não sermos ninguém distinto parece ser a coisa mais natural e inteligente que se pode fazer. Todavia, antes de sermos capazes de ser coisa nenhuma, devemos ter podido desenterrar todas estas coisas ocultas, ser capazes de as expor e  compreender. Mas para podermos compreender esses desejos e impulsos, temos de ter consciência deles, consciência sem escolha, do mesmo modo que a morte. Então, nesse acto de percepção pura, a vontade esvanecer-se-á e não sentiremos mais tristeza; nesse acto não seremos coisa nenhuma. Não ser coisa nenhuma- ou ninguém- não constitui um estado negativo; a própria negação de uma coisa qualquer que tenhamos vindo a ser consiste no mais positivo tipo de acção- não se trata da positivismo da reacção, a qual consiste na inacção; essa inacção  provoca a infelicidade. Porém, esta forma de negação a que me refiro consiste num acto de liberdade. Essa acção positiva confere energia, enquanto que as meras ideias só servem para a dissipar. Toda a ideia é tempo, mas viver no tempo conduz à desintegração e à tristeza.

Solidão

Que coisa estranha é a solidão, e como é assustadora! Jamais nos permitimos chegar demasiado perto dela; e se por acaso o fazemos, apressamo-nos a fugir. Fazemos tudo para escapar à solidão, para a encobrir. A nossa preocupação, tanto consciente como inconsciente parece ser a de a evitar ou superar. Mas tanto evitar como superar a solidão são atitudes igualmente fúteis; embora suprimida ou deixada de lado, a dor, o problema, ainda está presente. Pode ver-se perdido no meio de uma multidão e ainda assim sentir-se solitário ao extremo; pode manter-se intensamente activo, mas a solidão, em silêncio, apossasse de si; pouse o livro que está a ler sobre a mesa e eis que ela está diante de si. Nem as diversões nem a bebida podem afogar a solidão; podemos fugir temporariamente dela, mas quando o riso e o efeito do álcool acabarem, o medo da solidão reaparece. Podemos ser ambiciosos e bem-sucedidos, podemos exercer vasto poder sobre os outros, podemos ser ricos em conhecimento, dedicarmo-nos ao culto e esquecermo-nos de nós próprios no palavrório dos rituais; porém, faça o que fizer, a dor da solidão permanecerá. Podemos viver só para o nosso filho, para o Mestre, para a expressão do nosso talento; e mesmo assim, tal como as trevas, a solidão nos cobrirá. Podemos amar ou odiar, fugir dela de acordo com o nosso temperamento e exigências psicológicas; mas a solidão está sempre presente, esperando e observando, afastando-se somente para voltar a aproximar-se.

A solidão é a consciência do completo isolamento; não será verdade que as nossas actividades se encerram sobre si mesmas? Embora expansivos, os nossos pensamentos e emoções não serão excludentes e divisivos? Não estamos procurando o domínio através dos nossos relacionamentos, com os nossos direitos e posses, criando assim resistência? Não consideramos o trabalho "vosso" e "meu"? Não nos identificamos com o colectivo, com o país ou com os poucos? Não será toda a nossa tendência a de nos isolarmos, dividir, separarmos? A própria actividade do eu, em todos os níveis, caminha para o isolamento; e a solidão é a consciência do eu inactivo. A actividade, seja física ou psicológica, torna-se um meio de auto-expansão; e quando não sucede nenhum tipo de actividade, subsiste uma consciência do vazio do eu. E é esse vazio que procuramos preencher, e preenchendo-o passamos a vida num nível nobre ou ignóbil. Pode não haver nenhum dano sociológico em preencher esse vazio a um nível nobre; mas a ilusão gera uma angústia e uma destruição insuspeitas, que podem não ser imediatas.. O anseio de preencher esse vazio- de fugir dele, o que é a mesma coisa- não pode ser sublimado nem suprimido; pois quem será a entidade que o fará? Não será essa mesma entidade outra forma de anseio? Os objectos do anseio podem variar, mas não será todo o anseio semelhante? Podemos alterar o objecto do nosso anseio, deixando a bebida e passando à idealização; contudo, sem a compreensão do processo do anseio, a ilusão é inevitável.

A entidade que procura preencher o vazio, o estado de se ser incompleto, a solidão- ou disso fugir – não é diferente daquilo que está a procurar evitar; ela é isso. Essa entidade não pode fugir de si mesma; tudo o que pode fazer é compreender-se a si mesma. Ela é a sua solidão, o seu vazio; mas, enquanto os julgar algo separado de si mesma, estará na ilusão e no conflito interminável. Quando essa entidade vivência directamente o facto de ser a sua própria solidão, só então pode haver liberdade com relação ao medo. O medo só existe em relação a uma ideia, e a ideia é a resposta da memória como pensamento. O pensamento é o resultado da experiência; e embora possa ponderar sobre o vazio, ter sensações a ele vinculadas, o pensamento não consegue conhecer directamente a solidão. A palavra solidão, com as suas lembranças de dor e de medo, impede que a vivenciemos como uma coisa nova. A palavra é memória, mas quando a palavra deixa de ter importância, o relacionamento entre quem vivência e aquilo que é vivenciado assume um carácter completamente diferente; nesse caso, o relacionamento é directo e não mediado por uma palavra, pela lembrança; nessa circunstância, aquele que vivência é a própria vivência- e isso é a única coisa que traz a liberdade com relação ao medo.

Questões da Educação

Os professores e educadores são como vós e eu: seres humanos com as suas próprias dificuldades, os seus próprios problemas, e além disso os estudantes já chegam a estas escolas condicionados pelos pais, vizinhos ou companheiros. Mas os professores também se acham condicionados, infelizmente. E vocês perguntam sobre a total compreensão da vida, sobre a imensidão da existência humana e as suas vastas possibilidades.

Antes de mais, desejarão isso os pais? Entendem a pergunta? Geralmente os pais esperam que os seus filhos alcancem algum tipo- ou vários- de formação académica, de forma a poderem obter um bom emprego, ser bem colocados na vida, casar, ter filhos, etc. Geralmente é o que os pais querem. E como os filhos sentem certa responsabilidade para com os pais, eles conformam-se; especialmente no mundo asiático.

O orador encontrou-se com grande parte dos pais- aqui, na Califórnia- e alguns revelam um completo desinteresse por que os filhos passem os exames ou não, conquanto  se possam ver livres deles. Mandam-nos para colégios internos- até mesmo na Inglaterra- e dificilmente mantêm qualquer relacionamento com eles, excepto nas férias de verão ou de inverno. Desse modo a responsabilidade do educador torna-se imensa. Para poder ensiná-los e ajudá-los a compreender a imensidão da vida humana- a imensidão da existência- não só da nossa, pessoal como também da natureza, dos animais, do universo todo- requer-se não só uma mente capaz e um bom cérebro que seja capaz de investigar como também o ensino de uma matéria qualquer. Entendem? Porque, da forma como presentemente a sociedade está, se fordes um bom engenheiro obtereis um trabalho melhor. E como os estudante não desejam tornar-se vendedores de balcão mas sim conseguir um bom emprego, dedicam toda a sua concentração na obtenção de uma boa nota e formação. Depois há toda a pressão da sociedade que ajudaram a criar, a pressão dos pais, etc. Entendem as dificuldades inerentes a tudo isso? Se o entenderem com clareza e com profundeza, querereis juntar-vos a nós? Mas cuidado! Não poderão juntar-se a nós só por querer fazer parte da equipa. Têm que fazer determinadas coisas; tereis de ser bons cozinheiros, bons jardineiros, sim, bons professores, bons pais. Querereis ser assim. Não deixem isso a nosso cargo. Da mesma forma que o educador necessita de educação, também os pais e os estudantes precisam de educação. Trata-se de um processo de viver e trabalhar em cooperação com um sentimento de conjunto, sem guerrear por causa de opiniões. Mas isso exige uma enorme dose de energia. Mas que pai fará isso?

E há bastantes pais- na escola de Brockwood creio existirem quinze a dezanove nacionalidades, e essa escola ainda está a trabalhar no sentido do que deve tornar-se- e ainda não é! Estamos a trabalhar para isso, entendem? Ajudem-nos. Não estou a pedir dinheiro. Isso é coisa fácil! Unam-se e criem qualquer coisa juntos.

A Verdade

Para mim, não existe caminho nenhum que conduza à verdade. A verdade não poderá ser compreendida por nenhum sistema nem caminho. Porque todo o caminho implica um propósito e um objectivo estático, desse modo garantindo um condicionamento da mente e do coração, o que exige necessariamente certa disciplina, controle e propensão para adquirir. Mas tal controle e disciplina logo se tornam um fardo que nos priva qualquer liberdade efectiva e condiciona as nossas acções no viver diário.

A ESCOLA É UM LOCAL DE APRENDIZAGEM E COMO TAL É SAGRADO. Os templos, as Igrejas e mesquitas deixaram de o ser, devido a que tenham detido tal aprendizagem. Elas acreditam; possuem fé, que é justamente o que nega completamente a sublime arte de aprender, ao passo que as escolas- à semelhança daquelas para onde dirijo esta carta- devem devotar-se completamente à aprendizagem, não só no que concerne ao mundo ao nosso redor como, essencialmente, também no que diz respeito aquilo que nós somos enquanto seres humanos- porque nos comportamos da forma que o fazemos, e sobre a complexidade do pensamento. A aprendizagem tem sido a mais ancestral das tradições do homem, não só sobre o conteúdo dos livros como também sobre a natureza e estrutura da psicologia do ser humano. Devido a que tenhamos negligenciado completamente esse aspecto, sucedeu enorme desordem no mundo, terror, violência e todas as coisas cruéis que sucedem continuamente. Colocamos os assuntos do mundo em primeiro lugar, ao invés dos de carácter interior. Mas, se o íntimo não for compreendido,   educado e transformado, acabará sempre por suplantar o exterior, conquanto bem organizado política, económica e socialmente. Trata-se de uma verdade que muitos parecem esquecer. Política, legal e socialmente procuramos implantar ordem no mundo exterior em que vivemos, e enquanto isso, permanecemos intimamente mergulhados na confusão, na incerteza, na ansiedade e no conflito. Se não possuirmos ordem interior sempre subsistirá o perigo para a vida humana.

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