quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

KRISHNAMURTI - ENTREVISTAS E ENCONTROS



     


Proveniente do Livro: "Ultimes Paroles" de Lakshmi  Prasad     
                                    Tradução  de A. Duarte  2002




 
           ESTE LIVRO reúne seis entrevistas a Krishnamurti conduzidas por Lakshmi Prasad entre Jan. de 81 e Dez. 85, entrevistas essas que evidenciam um carácter completamente único. A abordagem de Prasad e a sua capacidade de formulação das questões no essencial ultrapassam largamente o campo de investigação habitual dos jornais e revistas. Além disso  raros são os jornalistas que tenham tido o privilégio de entrevistar K com regularidade. Contudo Prasad não é um jornalista no sentido estrito do termo, tendo, ao invés, sido chefe de redacção do Andhra Prabha Weekly, um jornal que, por partilhar de um vivo interesse nos ensinamentos de K, lhe sugeriu certo dia que empreendesse  uma série de entrevistas com ele. Com efeito, Prasad vinha já seguindo as suas conferências havia alguns anos e tinha conhecimento da maior parte das suas obras. Na verdade é como se ele tivesse sido magnetizado pelo carisma de Krishnamurti e isso tivesse tornado o seu encontro com ele uma consequência inevitável. Podemos constatar pela leitura destas entrevistas a extrema diversidade de questões que foram tratadas e a não menor clareza e simplicidade com que K. responde às perguntas de carácter pertinente, uma clareza que lança nova luz sobre vários aspectos dos seus ensinamentos.
      Interrogado acerca do progresso científico K faz acento sobre uma única questão de valor: terá a ciência contribuído de algum modo para tornar o homem melhor? Segundo o que lhe era dado perceber, ainda que se busque a natureza e a estrutura da matéria com maior profundidade "sempre se acaba negligenciando a dimensão não-material da energia". Ou seja, carecemos de uma abordagem humana.
     Evocando o porvir ele vai mais além, a ponto de afirmar que "a menos que mude radicalmente de perspectiva, a humanidade deverá fazer face a uma guerra nuclear."
K. questiona aqui a possibilidade da religião poder escapar à crença, ao dogma e ao ritual e fundamentar-se simplesmente numa ética de vida quotidiana. Ou seja, da possibilidade de existir algo de sagrado no seio do que possamos viver com autenticidade. K afirma que o cérebro é o centro dos sentidos e que, tentar destruir os sentidos pela supressão ou pelo controle é na verdade aniquilar o próprio cérebro. Não significa isso, todavia, que se deva perseguir o prazer gratuito. Mas se o coração chegar a definhar, de que forma poderemos p. ex. perceber a beleza?
A propósito da educação e dos valores morais K interroga: "Ensinais os vossos filhos a respeitar os pais, os vizinhos, as árvores, as plantas e o meio ambiente? Se existir amor, respeito e afeição, então haverá moral."  Segundo as suas palavras, "o importante não é espalhar os ensinamentos mas vive-los.                                                                                       
                                                                                                                H. Patwardhan
                                                                                                                           
 
 
 
Introdução


O Despertar Total do Homem



      Os investigadores académicos, como de resto os demais, têm a tendência de classificar comummente o conhecimento em diferentes disciplinas - física, matemática, filosofia, psicologia, etc., mas Jiddu Krishnamurti - pensador, filósofo e pedagogo - recusa abordar os diversos campos do saber separadamente e, ao contrário, esforça-se por os reunir colocando precisamente um acento naquilo que sustém as suas aparentes divisões. Assim, no domínio da arte por ex., K não fala de musica, dança ou teatro mas considera tais categorias sob o signo da unidade. Mais, ele procura acercar-se desse "qualquer coisa" de que brotam todas as formas de beleza.
Basicamente, parece que K rejeita a validade de um intelecto que a maior parte das pessoas percebe como ferramenta indispensável ao desenvolvimento da ciência, da tecnologia e do progresso da humanidade. Não que ele negue a utilidade da inteligência na realização e concretização de objectivos precisos, mas ao invés, sustenta que o progresso não resolveu nenhum problema relativo ao sofrimento, nem á solidão nem ao desequilíbrio psicológico. E apesar de toda a paleta de emoções que comporta, o coração também não constitui uma ferramenta adequada para poder sobrepujar esses problemas, que exigem uma abordagem que vá além tanto da inteligência como da emoção.
Krishnamurti conduz-nos das águas turvas do pensamento confuso e das emoções turbulentas de um coração imerso na ignorância para o interior de uma clareira onde podemos, a um só tempo ver e escutar para lá dos sentidos. Com efeito foram numerosos os mestres que neste nosso tempo se manifestaram já, mas K parece ser o único que ensina a humanidade como pensar e como se desembaraçar do intelecto a fim de descobrir algo de radicalmente diferente, possibilitando desse modo a imersão de uma faculdade nova que seja capaz de transcender as  nossas capacidades ordinárias, baseadas na trilogia do pensamento/emoção/experiência - possibilidade essa que, quando plenamente descoberta apaga toda a divisão e classificação a fim de se considerar o problema humano na totalidade.
A humanidade dilacerada pelas divisões de raça e língua prefere debruçar-se sobre categorias do tipo pensador, intuitivo, sábio e ignorante, grande e pequeno, etc. Mas todas elas K rejeita a fim de poder reunir o homem e a vida num todo indissociável.
Por todo o mundo o homem faz face a conflitos contínuos; isso é um facto indiscutível, tanto no plano íntimo como no exterior. Se a sorte lhe sorri certamente poderá escapar ao sofrimento corporal, mas o sofrimento da mente ninguém pode evitar. Todavia, segundo K, é possível pôr termo ao sofrimento psicológico e livrar-se desse fardo pesado para poder perceber a dimensão do sagrado na vida. E o mestre convida-nos a participar de todo o coração nessa tarefa afortunada.


             
                                                
Os  Diálogos
                       

Lutas e Conflitos



Prasad- Parece que as mais diversas comunidades estão a atravessar estados de dissensão e agressão  contínuos, pelo mundo todo. Como analisaria a situação?

Krishnamurti- Veja bem, os conflitos que separam o homem começam no nível individual, ou melhor, no seio da família. Com efeito a incompreensão já reina entre os membros do próprio lar; ambições, sonhos, aspirações- cada um sonha somente consigo próprio. Além disso, tudo o que caracteriza a família também se encontra no plano da comunidade e estende-se a toda a nação. Por isso, esses conflitos devem ser resolvidos com base no indivíduo, antes que se possa passar á etapa seguinte.


As Comunicações


- Penso que o rápido desenvolvimento das comunicações deveria motivar uma melhor compreensão entre os povos do mundo. Mas apesar disso observamos por todo o lado um recrudescer de conflitos ideológicos. Não existirá  uma relação qualquer entre o crescente aperfeiçoamento da tecnologia- ou a aceleração do progresso- e o declínio de certos valores que nos caracterizam como homens, tal como a generosidade? E, no caso de existir, qual será a sua razão?

K- É evidente que esses valores se enfraquecem dia após dia, à medida que se reforça o apego aos bens deste mundo- dinheiro, sexo e poder. Mas a sua questão toca o aspecto impossível de contornarmos  uma tal situação.
Na verdade a própria existência da tecnologia permitiu a expansão generalizada de todos esses desejos. Até o político de menor importância é movido, hoje, pela sede de  poder. Quanto ao dinheiro e ao sexo, eles representam os factores dominantes da vida quotidiana. Agora junte a isso a velocidade formidável das comunicações- que caracteriza a nossa época...Num contexto desses como esperar que o homem evolua de outro modo? O nosso avanço tecnológico situa-se na exacta medida da nossa derrota moral. E se bem que, numerosos gurus tratem das questões dos valores verdadeiros, nada fazem, por outro lado, para impedir que estes estejam em falta- para nada referir  sobre as religiões estabelecidas que geralmente confundem o discurso com a acção. Mas o que interessa aos gurus é o poder; eles não o encorajarão a ir mais longe.

- De um modo geral eles não convidam á discussão...

K-  Os gurus contentam-se em decretar aquilo que é conveniente fazer. Mas quando se trata de passar aos actos eles tornam-se ausentes. Ocupados que estão a reforçar as bases do seu poder, passam o seu tempo a avaliar a força numérica dos seus discípulos.
Assim, quem salvará o homem? Ninguém, excepto ele mesmo.

 

 

Disciplina



- Parece que o senhor, apesar de pregar o autocontrole, ao mesmo tempo luta contra toda a forma de disciplina imposta do exterior. Assim, se considerarmos o estado actual da Índia, não lhe parece que todas as camadas da população deviam ser submetidas a um mínimo de disciplina?

K- E quem deveria controlar quem? Será que todos esses governos corruptos se encontram à altura de poder ensinar o que quer que seja às pessoas? Será que as nossas instituições pedagógicas são susceptíveis de poder transmitir o mais pequeno valor que seja à nossa juventude? Por certo, numerosos adolescentes voltam-se para as drogas e adoptam comportamentos suicidas. Mas como é que os professores  universitários obtiveram os seus lugares senão pela corrupção?

- Preferiria que eles servissem de exemplo aos seus alunos. Não acredita que os jovens sejam um pouco desatentos? Eles conhecem muito bem a forma de agir dos seus pais, como eles vivem e que métodos empregam para abrir o seu caminho na sociedade. A que se deve essa rebelião levada a cabo pela maior parte deles? Em boa verdade os moços e as moças deviam receber uma educação adequada e tentar alcançar, por si mesmos, as exigências de uma vida correcta. Mas isso decide-se ao nível da escola.

Achyut Patwardhan- O que Prasad parece sugerir é que, aqui, como nos países comunistas, deveria existir uma censura que se exercesse sobre certas formas de literatura ou produção artística, ou por outras palavras, um controle mínimo imposto do exterior.

K- Quem me ensinou a mim a disciplina? A bem dizer, eu fui criado na maior liberdade e jamais alguém me proibiu de fumar, de beber álcool ou de comer carne, todavia esses desejos são-me desconhecidos.

AP-  Há a disciplina que é forjada por nós mesmos e a disciplina que a sociedade nos impõem

K- Essa última  não tem razão de ser. Lembre-se do caso de Bhagalpur...(K faz clara alusão ao caso dos ladrões a quem foram arrancados os olhos, após terem sido  detidos, por decisão das autoridades locais. Fez-se tanto alarido ao redor desse drama, na época, que choveram tempestades de protestos.)

- Então devemos deixar um tolo em liberdade?

K- E se aquele que o interna for ainda mais tolo?
              O que é a disciplina? É aprender. E cada um de nós deve aprender, de modo imperativo.
Sempre foram ministrados numerosos constrangimentos aos monges, às seitas e às ordens religiosas no decurso dos séculos. Agora veja o resultado. Hoje, é possível certos "homens de Deus" abandonarem o celibato. E não teriam obtido, por certo, o direito de se casarem se não o tivessem exigido por si mesmos.


 

Duas Gerações


- Você ensinou mais de duas gerações e agora, ao observar o modo como reagiram às suas palavras, será que descobre alguma diferença p. ex. entre a geração dos anos trinta e a dos oitenta? Não teremos perdido hoje, vitimas da superficialidade contemporânea, o fervor que caracterizou a época anterior?

K- Nessa altura as pessoas acreditavam em qualquer coisa e não hesitavam em sacrificar as suas vidas por um ideal. Veja a guerra Civil de Espanha em que tanto os fascistas como os comunistas eram possuídos de uma fé irredutível.

- Do mesmo modo que neste país ao tempo do início da luta pela independência...

K- Sim, o nosso grande movimento pela libertação. Acontece o mesmo em cada país; primeiro o ideal e depois a queda. Assim são as coisas. Hoje toda a gente duvida. Mas, ainda recentemente o Papa disse que se deve reforçar a fé em Jesus Cristo e na Igreja. Que significa isso?

- Sem dúvida que nos devíamos aplicar no fortalecimento de uma fé, já de si enfraquecida.

K- Mas o homem não acredita em mais nada. Dito de outro modo, quanto mais humanos formos menos acreditareis. Em verdade, se não descobrirmos uma coisa por nós próprios não podemos crer- seja em que maravilha for. Mas assim que descobrirmos essa coisa não teremos mais necessidade de crenças. Então ninguém poderá impor- nos a fé a partir do exterior.


 

Língua Materna



- Gostaria agora de lhe colocar uma questão mais pessoal. Em criança, o senhor exprimia-se em télegu, que foi sem dúvida o seu idioma. Se lhe falar agora nessa língua será que me compreenderia? Poderia dizer algumas palavras em télegu para a satisfação dos nossos leitores?

K- Sinto-me desolado .Esqueci tudo .Ao jovem rapaz que eu fui ensinaram uma só coisa: aprender perfeitamente uma só língua- o inglês; ou seja a língua universal. Naturalmente possuo rudimentos de francês, de italiano e de espanhol. Mas quando era adolescente o meu círculo tinha a esperança que me endereçasse ao mundo inteiro. Na verdade cresci numa atmosfera quase aristocrática, entre pessoas que dominavam o inglês na perfeição.

- No entanto, vejo-me na obrigação de insistir, no interesse dos meus leitores...

K-  De acordo. Insista lá.(Com um sorriso)

- Talvez o tenham aconselhado unicamente a exprimir-se em inglês e não tenha aprendido outra...

AP- Prasad queria saber se ainda conserva algumas recordações do télegu.

K- Sem dúvida ainda posso contar até dez.

- Muito bem, isso chegará.
K-(de modo forçado) Okati, rendu, moodu, nalugu (após grande hesitação prossegue misturando os idiomas para terminar tudo numa explosão de riso)cinco, seis, etc.
É tudo. Veja, já estava a começar a deslizar para o italiano.

 

 

Uma Sondagem Profunda


- Em cada época surge um ser excepcional que escava um pouco, estanca a sua sede e partilha a água com os outros. Depois percorre o seu caminho. Os discípulos, por sua vez, não fazem o menor esforço por escavar- e o poço acaba por secar. Então constrói- se um santuário nesse local e transformam- no num local de culto. Porque não possuem a vontade de escavar por eles mesmos? Será esse o destino da humanidade?

AP-  Eis aí uma excelente questão.

K- (Observando o rosto do entrevistador com ar incrédulo, como lhe parecesse impossível que um jornalista possa ter tais preocupações) Com efeito trata-se de uma boa questão.(E, logo com um modo penetrante e inquiridor) Mas será você o seu autor?

- Naturalmente, senão veja: li numerosos livros sufis, particularmente Rumi. E agora, quando converso sobre estes assuntos com as pessoas, algumas chegam mesmo a exclamar: "Vejam, ele fala mesmo como Krishnamurti!"


K- Muito bem.(K pareceu mergulhar em si mesmo)Que coisa nos ensinaram os homens senão a seguir os maiores de entre nós? Não só no domínio espiritual como em toda a esfera de actividade.
Quer se trate de arte, de política ou de ciência, essa foi sempre a regra. Um desejará imitar Picasso, outro Bethoven. O homem foi condicionado a seguir o rasto dos outros e nesse conformismo que responde ao seu anseio profundo, ele encontra-se em segurança. Não queremos pensar por nossa cabeça porque fomos ensinados o que se deve pensar ao invés de como pensar. E a sociedade, a nossa educação, a nossa religião encorajam-nos a imitar e a obedecer; em resumo, encoraja em nós a conformação. Há milhares de anos que vêm incutindo a imitação; mas o meu cérebro resiste ás suas solicitações. Que outra coisa posso fazer?
Vejam, o homem não gosta de mudança.

- Assistiu ao encontro de ontem?

AP- Sim, assisti.

K- Como pode constatar exprimi-me diante de um grande número de pessoas. Mas, quantos me escutaram verdadeiramente, quantos me acompanharam no percurso, antes de voltar rapidamente para os seus caprichos? Assim são os seres humanos.

- Permiti que apresentemos agora as nossas despedidas.(Ergui-me com a minha filha Padmapriya. Krishnamurti desceu connosco as escadas da casa).

K- Sempre que nos encontremos em Vasanta Vihar não hesite em vir visitar-me.

A entrevista que não deveria exceder, á partida, os vinte minutos durou três quartos de hora. Daí em diante K teve sempre a atenção de me tratar como um amigo.


A Ciência e o Porvir


- O progresso científico encerra tanto o melhor como o pior. Que papel acha que desempenhará a ciência nos anos vindouros?

K- Que coisa é exactamente a ciência? O desenvolvimento da ciência e o avanço tecnológico apresentam seguramente um carácter positivo. Evidentemente o progresso alcançado no domínio da medicina da cirurgia e das comunicações- para não mencionar o da agricultura ou o da biologia prestou grandes serviços à humanidade, mas convém igualmente examinar os seus aspectos destrutivos.
Na verdade, são raros os cientistas, ou as instituições de que dependem, que se consagrem exclusivamente à felicidade do género humano. Perante a exigência dos governos, numerosos pesquisadores são, com efeito, conduzidos para fins destrutivos. Eis como vejo a ciência. Mas qual é a sua natureza profunda, qual é o seu sentido exacto?

- Temos por hábito apreciar a ciência segundo os moldes que ela tomou hoje, quer estes sejam benéficos ou não.

K- A forma como ela se apresenta é uma coisa mas a natureza dos seus objectivos e das suas perspectivas é outra. Contribui a ciência para tornar o homem melhor, ou para lhe ensinar o sentida da beleza?
Conduziu ela a alguma pesquisa nos domínios da ética ou da estética? Ou criou novos desejos no homem a fim de aumentar ainda mais a sua confusão? O que é a ciência? Qual é a verdadeira perspectiva? Não consiste ela em examinar as coisas sem opinião nem preconceitos, a fim de se revelarem os factos? Tal deveria ser, pelo menos, a vontade dos pesquisadores- que então poderiam utilizar as suas descobertas para um maior proveito por parte da humanidade. Não será essa a sua  função única?

- Os cientistas parecem fazer passar a impressão de que a sua tarefa consiste somente em fazer pesquisas e em descobrir os segredos da natureza. No fundo eles pensam que as suas descobertas enlevam o poder político.

K- É precisamente esse o seu erro. A ciência concentrou toda a sua atenção tanto na energia quanto na matéria e desse modo colocou um enorme poder destrutivo nas mãos do homem. Não é esse o género de pesquisa que deveria ter sido encorajado. Porque é que os cientistas negligenciaram as pesquisas concernentes á dimensão imaterial da energia? Essa força infinita teria então podido ser explorada em todas as suas implicações, mas os cientistas encontram-se limitados pela sua acção, na parte da energia contida na matéria. Porque têm eles tanta falta de abordagem humanitária? É culpa da ciência ou dos pesquisadores? Ou ela imputa  essa responsabilidade aos governos que,  a despeito disso encorajam os cientistas a criar instrumentos de destruição? Se é o homem que há que culpar então porque condenar a ciência?
Outro dia tomei, pela primeira vez um avião de Frankfurt para Madras sem escala...

- Com o mesmo tipo de aviões também se pode espalhar chuvas de bombas sobre pessoas inocentes. Só depende unicamente de nós que uma coisa possa ser utilizada com fins positivos ou negativos.

K- A questão é a seguinte: que função desempenhará a ciência nos anos vindouros? A menos que haja uma mudança radical de perspectiva a humanidade deverá enfrentar uma guerra atómica. Mas se os seres humanos forem tão só capazes de observar á sua volta, e tomar consciência, então poderão decidir de que modo utilizar a ciência e tomar as disposições que se impõem. Mas, por misericórdia, não esperemos que uma guerra atómica destrua a maior parte da humanidade para nos concentrarmos exclusivamente nos aspectos benéficos da ciência. Os pesquisadores, tanto quanto os governos preocupados com o bem-estar público deviam empenhar-se hoje- e não num futuro incerto- em não fabricar mais engenhos destrutivos e em suprimir desde logo os armamentos existentes. Se tais resoluções não forem tomadas hoje, elas deverão sê-lo pelos poucos sobreviventes do holocausto nuclear, se alguém sobreviver.
Porque não fazê-lo já?
Somos responsáveis pela totalidade do mundo e temos que encontrar uma aproximação mais sensata.


Sobre a Agressividade das Religiões Organizadas



- As  religiões estabelecidas adoptam posições cada vez mais agressivas e opõem- se umas ás outras com o fim de estender as suas esferas de influência, pondo assim em perigo a paz do mundo. Será que as mentes mais razoáveis não deveriam reunir-se para prevenir uma tal ameaça?

K- Com efeito, à excepção do Budismo, a maior parte das religiões actuam  desse modo. Na verdade, a religião actualmente tornou-se um gigantesco negócio; algumas Igrejas lidam com somas colossais- para não mencionar o poder político que arrecadam.
Mas acreditar cegamente em determinada coisa e impor essa crença aos outros, isso  é uma coisa verdadeiramente espantosa! Não é necessário nem fazer referência a  religiões como o Islão ou o Cristianismo, cujas actividades são bem conhecidas, mas presentemente esse fenómeno estende-se até ao Hinduismo. Imagine que essa gente até já começou a construir templos no estrangeiro, e em cidades como N.York, Milwaukee e Filadélfia. Haverá mesmo necessidade de exportar todo esse absurdo e o contra-senso decorrente sob a etiqueta do Hinduismo? Deve-se transmitir esse refugo de superstições aos outros países? Que se esperará exactamente ao mostrar essa algaraviada pomposa pelo mundo?
De uma maneira geral a religião perdeu o seu carácter profundo e actualmente é administrada como uma grande empresa, de cujos métodos, de resto, participa. Por detrás das suas hierarquias organizadas operam forças extremamente poderosas que possuem todo o dinheiro necessário e que não hesitam, se for caso disso, em recorrer á violência. Por seu turno, a maior parte dos jornais prefere  guardar silêncio sobre as suas actividades. Quem quererá, com efeito, criticar as religiões estabelecidas e assim habilitar-se a perder centenas de milhar de seguidores? De facto, as diferentes hierarquias clericais consagram-se principalmente ao reforço das suas instituições, e os gurus ao aumento do número dos seus discípulos. Tratar-se-á isso de religião ou simplesmente de fanatismo? E que diferença haverá entre religião e política?
Mas, para voltar à sua questão- "poderemos conceber que um certo número de mentes lúcidas se reunam a fim de prevenir um tal perigo"? Respondo-lhe que as "mentes razoáveis" são quase inexistentes no seio dos religiosos. A lucidez normalmente não liga bem com a superstição. Na verdade, a corrupção reina quase por todo o lado e os chamados religiosos também contribuem para ela. Senão veja esses adeptos que continuamente brigam e recorrem a argumentos do tipo: "o meu guru é melhor que o teu"! Onde estarão, pois, os homens lúcidos?
E como espera encontrá-los entre esses grupos ávidos de competição? E não esqueçamos os intelectuais. Esses dirão que nada têm a fazer com a religião. Até mesmo só a palavra já os deixa intimidados. Eles preferem nem tocar em tal questão; melhor- eles nem mesmo procuram saber se existe uma dimensão sagrada e se é possível explorá-la.
Considerando tudo isso como uma só coisa, salta-nos á evidência a questão: poderá a religião escapar á crença, ao dogma e ao ritual para se basear simplesmente na ética da vida quotidiana? Dito de um outro modo, existirá algo sagrado com que se possa viver em autenticidade? Mas, quem poderá entender uma tal questão?



Estará a Verdade Reservada Somente a Uns Quantos?



- Segundo aquilo que o senhor diz, o seu ensinamento não é endereçado a algumas pessoas cuidadosamente escolhidas mas sim ao maior número. Por intermédio das suas conferências milhares de pessoas por todo o mundo já puderam escutá-lo, mas essa equanimidade de oportunidades está longe de ter conseguido que todos despertassem pois só um pequeno número de adeptos parece ter atingido esse limiar decisivo. E eu penso que em todas as épocas acontece a mesma coisa. Como explica esse fenómeno?

K- Quebrar o rosário de hábitos que se possui não é uma coisa fácil; o homem submete-se a um modelo, cai numa espécie de letargia e evita cuidadosamente tudo o que possa pô-la em questão. No fundo, as pessoas cultivam a amargura e o cinismo.
Do ponto de vista psicológico são raros aqueles que procuram a liberdade. Certamente cada um gosta de ser livre para agir à sua maneira- mas, e a liberdade interior? Essa exige um longo e paciente trabalho de exploração de si. Destruir o velho casulo exige com efeito uma energia fenomenal.
   Na verdade a maior parte das pessoas que assiste às minhas conferências vão, sobretudo, possuídas de curiosidade. Quantas delas pretendem verdadeiramente levar uma vida justa e equilibrada? Quantas estão preparadas para fazer a experiência daquilo que lhes transmito e para o pôr em prática em suas vidas? O materialismo reina de modo exacerbado nestes dias, e á semelhança do futebol, na Europa, o dinheiro tornou-se o novo deus no panteão indiano. A "bondade" e o "bem" são valores considerados fora de moda. Mas o que é ser bom senão ser holístico- ou dito de outro modo, não viver em contradição consigo mesmo?
Mas a vida moderna mantém-nos sob uma pressão a que parecemos não poder escapar. Agora, como se poderá praticar o bem num tal contexto? O nosso país é confrontado com o problema do excesso de população de modo que a simples sobrevivência das pessoas se torna um jogo. Como quereis ensinar a bondade a uma pessoa submetida a tais contrições?
No fundo, a verdade não interessa á grande parte das pessoas. E se formos incapazes de transcender o jogo dos fenómenos para colocar o essencial em questão, permaneceremos prisioneiros do passado. Mas a maior parte das pessoas recusa-se a alcançar vistas mais longas; o que querem é divertir-se. Até a religião se tornou um divertimento!
Permita-me, a propósito, que conte uma pequena anedota. Certo dia viajava eu de Bombaim a Delhi e no meu compartimento viajavam alguns homens de negócios. Pois imagine o senhor que um deles me abordou, para me pedir se os distraía com algumas boas palavras espirituais!

- Eles queriam que lhes servisse de palhaço? (incrédulo)

K- Exactamente. Ora veja só. Assim estão as pessoas; as seitas, os gurus, os seus discípulos- esse é o grande divertimento da nossa época. Distrair o povo, fazer sempre mais adeptos, tornar-se cada vez mais forte- essa é a busca do mundo moderno. Quem quererá chegar á essência das coisas? Onde estão os verdadeiros fervorosos? Mas, que coisa podemos nós fazer? Semear o nosso grão e esperar que a terra seja fértil...


A Palavra Dá lugar à Vida



- Em razão da longa familiaridade que tenho com as suas obras, Krishnaji, acontece que, presentemente, sempre que me deparo com um texto religioso qualquer, reparo imediatamente nos aspectos fundamentais do mesmo ou seja, se possui características com algum cunho de autenticidade. Parece que me transmitiu uma espécie de chave que me permite abrir todas as portas da experiência humana, seja sagrada ou profana. Que pensa disso?

K- Essa é a sua percepção. Os cristãos, p. ex. referem que os meus ensinamentos lhes evocam os de Jesus. Outros ainda afirmam que estou próximo do Buda. Basicamente, cada um- seja budista, católico ou hinduista, reencontra o seu profeta ou o seu deus nas minhas palavras.
Já aquilo que experimenta parece ser um pouco diferente.

- Bem, é certo que na tentativa de expor a minha experiência pessoal, formulei mal a minha questão..

K- Seja como for, parece-me que podemos ficar por aqui e passar à questão seguinte.

 


Comunicar através da Meditação



- Parece que, de um modo geral, todos aqueles que foram tocados pelo "êxtase" ou pela graça perdem toda a consciência e parecem incapazes de dirigir os paços dos outros. Mas o senhor, ao contrário insiste na exaltação controlada como se quisesse alargar o círculo estreito dos "despertos".

AP-  Que entende por "exaltação controlada"?

K- Talvez não convenha aqui interpretar a expressão, mas Prasad parece querer dizer que...

AP- Como poderemos conceber essa mesma exaltação e ao mesmo tempo um sentido de profundidade? Não existirá contradição nesses termos?

P-  Muitos daqueles que conseguiram obter a percepção do "Outro" ficam abalados de terror. A palavra desses "loucos de Deus" passa a ser um balbucio. Na verdade elas escapam-lhes completamente e eles mostram-se  completamente incapazes de partilhar a sua experiência com os demais e, basicamente, pensam que nada mais têm a fazer neste mundo. Ao contrário, o senhor continua a comunicar mesmo quando mostra estar em profunda meditação.

K- Compreendo o que quer dizer, mas em lugar de falar de "exaltação controlada" abordemos a coisa por um ângulo diferente- o da paixão. Se estiver apaixonado de verdade por uma coisa então não sentirá agitação alguma. A paixão consome-se por si mesma como um fogo e só depende de vós utilizá-la ou não.
Pense na força de um rio; por certo o homem poderá controlar o seu débito, construindo barragens, mas a água continua sendo o que é, e continuará a obedecer á sua natureza indomável. É próprio dela que corra sem interrupção. Sim, a água permanece a mesma desde o começo até ao fim. Alguns utilizam-na enquanto que outros não.

 

 

Da Simplicidade das Palavras



- Tenho-o escutado e lido os seus livros com toda a atenção e percebo que não tem por hábito utilizar palavras abstractas nem complexas; quando fala, por vezes ocorre inesperadamente uma expressão difícil mas aí imediatamente a clarifica. Isso exige um esforço consciente?

K- Respondo-lhe muito simplesmente que, assim que me preparo para falar, não me ocorre a mais pequena ideia á mente. Se utilizo um termo que me parece inexacto não o corrijo de imediato mas procuro em mim mesmo. Por exemplo, o que é o cérebro e o que é a mente? Que diferença há entre os dois? O facto de clarificar essa diferença não implica nenhum esforço. Se tiver que mudar a palavra, faço-o, e quando estamos em diálogo aberto e alguém sugere uma palavra mais precisa eu aceito-a. Evidentemente as palavras simples revelam-se bem mais directas do que as complexas. Todavia essas devem brotar com naturalidade.
Ao tempo da minha adolescência, a senhora Besant aconselhou-me vivamente a ler o Antigo Testamento, por isso não é de todo impossível que esse tipo de leitura tenha influenciado o meu discurso.
 Seja como for, nada possui mais valor que a simplicidade. As palavras simples mergulham directamente no coração do auditório sem apelar a nenhuma forma de proselitismo nem evocar distorção.

 

 

Os Sentidos



- A cada vez que uma pessoa tenta praticar o bem parece que surge um obstáculo. Deveremos ver nisso uma consequência das nossas acções passadas?

K- Porque referir o passado? Observe as pessoas ao seu redor e veja as suas diferenças, a sua falta de inteligência e de sensibilidade. Eis o grande obstáculo. Mas os directores religiosos são, em grande parte, responsáveis por isso. Frequentemente dão eles relevo à destruição dos sentidos- o que constitui um erro grave! O cérebro é o centro dos sentidos mas destruir os sentidos é destruir o próprio cérebro. Naturalmente que uma condescendência exagerada para com os sentidos pode revelar-se perigosa mas, decidiremos destruí-los com base nesse único pressuposto? Se quisermos perceber a beleza deste mundo então precisamos que os sentidos funcionem correctamente. Suprimir a sensibilidade pela única razão de prevenir eventuais excessos pode conduzir a um perigo muito maior.
Imagine que tinha perdido o sentido da beleza. Naturalmente seria então incapaz de observar e apreciar o esplendor de uma simples flor. Somente quando a arranca da terra para a introduzir numa jarra é que o conflito tem início. Por outro lado, que mal haverá em contemplá-la e gozar a sua beleza? Se o coração se estiola como poderemos perceber o belo? Na verdade todos os sentidos devem florir. Se suprimir ou destruir os sentidos a mente mesma resultará opaca e perderá a sua sensibilidade para se tornar dura e rígida. Os vossos directores religiosos deviam reflectir atentamente nisso, mas ao invés são incapazes de descobrir a verdade e satisfazem-se com palavras e símbolos que ensinam aos seus discípulos, e assim esses discursos acabam substituindo a acção.




Do Conflito Entre o Bem e o Mal



- Considerando a forma como o mundo se encontra, parece que aqueles que são ímpios prosperam, enquanto que os justos continuam a sofrer. Como interpreta isso?

K- Que é ser ímpio? Que coisa chamaria de "mal"? Por outro lado, quantos praticarão verdadeiramente o "bem"? Se o bem for o contrário do mal então não será um bem verdadeiro mas uma pretensão  nascida  directamente do mal. A bondade autentica transcende a separação entre bem e mal. Uma pessoa  profundamente generosa é um ser integro e destituído de cisões de todo o tipo. Essa pessoa não dirá uma coisa para fazer o contrário mas tratará de fazer com que seus actos correspondam  àquilo que diz. O bem que vulgarmente se pratica neste mundo surge simplesmente como reacção ao mal, e brota  de um pensamento dominado pelo medo-  de modo muito particular do medo da sociedade. Aquele que o pratica, na verdade busca o reconhecimento do mundo, e além disso manifesta decepção quando é incapaz de o obter. Os seus actos envenenados por conflitos perpétuos são destituídos de todo o valor.
Na verdade, toda a forma de bem gerado pelo pensamento já contém em si as sementes do mal. Em compensação, nada se oporá à bondade autentica. Se uma pessoa pretender agir com justiça fá-lo-á, sem pensar nas consequências, agindo com liberdade dos próprios pensamentos e o julgamento dos outros.


 

A Degeneração da Cultura



- Trinta e cinco anos de independência chegaram já, por certo, para destruir muito mais a cultura indiana do que aquilo que séculos de invasões sucessivas e colonialismo foram capazes. Como pôde  tal coisa acontecer?

K- Venho a este país quase todos os anos e penso que é bastante evidente que a sua cultura não tem parado de se deteriorar ao longo dos tempos. Mas isso é da responsabilidade de todos. Anteriormente havia ordem- ou melhor, existia medo na nossa península e isso erradicava o conflito e toda a irregularidade de comportamento. Hoje ninguém tem medo, e desde que ele desapareceu as pessoas agem como bem entendem.
Sete séculos de domínio muçulmano não chegaram para aniquilar a nossa civilização e mesmo os dois séculos de colonialismo inglês deixaram-na incólume em grande parte. No entanto trinta e cinco anos de independência...

AP-  Quando os indianos se encontravam sob o jugo dos estrangeiros, alguns deles reuniram-se para combater o invasor e na sua luta contra os ocupantes voltaram-se naturalmente para os fundamentos da sua civilização, encontrando nisso reforço e sustentação. E, como consequência, velavam por preservá-los de forma ciosa. Nos nossos dias as pessoas são incapazes de identificar o inimigo interior que as aniquila. Para cúmulo, a liberdade permitiu que esse espectro voltasse à superfície. Enquanto não compreendermos com clareza que é esse inimigo que destroi a civilização, essa carência completa de noções e o próprio facto de sermos  a causa da nossa queda...

K- Vejam o que ocorreu assim que o medo desapareceu. Porque razão a cultura desabou? Como conseguimos isso em tão pouco tempo? Sim, porque é que os nossos valores morais periclitaram? Estaria a nossa civilização desprovida de  força interior? Ou deveremos acreditar que a sua disciplina repousasse, em grande parte, sobre o receio da administração colonial? Haverá algum lugar ainda, onde se reconheça o mérito, neste país? Haverá ainda alguém que admire do mesmo modo tanto  a honestidade como a eficácia? Ou temos que admitir que os mais inteligentes de nós emigraram para o ocidente? Quando me encontro com esses que partiram o que é que me contam? Contam que lá, não há nada que entrave a sua realização e que o êxito que alcançam é completo sob todos os aspectos.
Será que as universidades indianas ainda são capazes de dispensar um ensino digno do nome? Será que elas encorajam a prática das nossas artes clássicas ou, pelo contrário, favorecem a  difusão da cultura pelo  menor custo?

AP-  Enquanto por um lado cultivamos um interesse activo pela exploração de recursos naturais- conquanto isso seja da menor importância- e pelo melhoramento do nível de vida das pessoas, por outro parece que negligenciamos o desenvolvimento dos nossos próprios recursos humanos...

K-  Trinta e cinco anos foram suficientes para deixar em pedaços uma cultura três vezes milenar! Destruímos a matriz e os próprios fundamentos deste país. Que nos reserva o porvir? Se o dinheiro e o poder se tornam os únicos mestres, que será das nossas crianças? Alguma vez reflectiram nisso? Mas vocês contentam-se com a adoração dos deuses nas colinas, com a récita de alguns fragmentos tirados de pretensos livros sagrados e em continuar a viver como se nada fosse...
Que se poderá justamente pensar dos vossos gurus e das suas hordas de discípulos cegos? Na verdade, se os melhores de entre nós não se unirem numa tomada de consciência da extensão do desastre, ninguém poderá dizer o que acontecerá à nossa civilização.

 

 

Não Pertenço a Classe Nenhuma



- É bastante evidente que o estilo de vida que o senhor leva revela uma grande burguesia. Como é que uma pessoa preocupada com as necessidades da vida quotidiana pode aceitar o seu ensinamento?

K- Burguesia? É verdade que beneficio de uma posição privilegiada. Viajo de avião de um para outro continente e em cada paz é colocada á minha disposição uma viatura.
Mas, acredita que faço isso para minha distracção? Do mesmo modo como vós aguardais a minha visita á Índia, outros pelo mundo fora, aguardam todos os anos que lá me  desloque. Mas, a bem dizer, percorrer o mundo a tal velocidade não é grande coisa para a saúde.
Como vê, quando me encontro na Índia visto-me com quase nada, o que não acontece no ocidente, onde vulgarmente trago roupas muito mais caras. Mas de facto esse aspecto não representa qualquer interesse a meus olhos. Os meus amigos ocupam-se das minhas despesas de viagens. No fundo, tudo aquilo de que o meu corpo tem necessidade para sobreviver é fornecido por aqueles mais próximos. Uso as roupas que eles me oferecem e como a comida que me apresentam, e faço-o há já meio século.
Classificar-me como "burguês" significaria que disponho de uma renda regular, ou sequer de uma renda. Mas eu não possuo nem um cêntimo nem  tenho conta bancária. Onde quer que vá não peço nada que não seja abrigo, um pouco de comida e com o que me vestir. Não como carne, não bebo nem fumo, e fui sempre assim. Nunca contraí o mais pequeno hábito. Trabalhei toda a minha vida. E foi o sustento dos meus amigos que me permitiu levar a bom termo esse trabalho.
Intimamente, nada tenho a ver com a burguesia; de facto não pertenço a classe nenhuma. Pelo menos assim penso.
          Perguntou como é que uma pessoa confrontada com as necessidades do quotidiano poderá tirar algum proveito do meu ensinamento. Cada um possui os seus próprios problemas e deve resolvê-los no nível apropriado. Mas as dificuldades às quais um homem tem de fazer face no mundo exterior não são da mesma natureza dos conflitos interiores que o opõe a si mesmo. A cada questão diferente cabe uma  resposta diferente. Todavia, quando acrescentamos  uma dimensão psicológica a esses problemas, não fazemos mais do que agravá-los. E não é suficiente resolver as dificuldades económicas para superar os conflitos psicológicos. Aquilo que estou a tentar dizer-lhes é que existe uma saída para esses conflitos.
Sim, podemos libertar-nos desse jugo e descobrir a dimensão do sagrado. Mas isso depende unicamente de nós, e nessa área ninguém pode influenciar- nos. Não se trata aqui de moral mas de uma descoberta estritamente individual que nos traga serenidade ao coração e crie ordem no mundo.
Não vos peço outra coisa. Cumpre somente a vós fazer tal descoberta.

- Com toda a certeza, esta foi a primeira vez que o senhor deu uma conferência em Calcutá, uma cidade dirigida por comunistas. Como reagiram as pessoas às suas palavras?

AP-  Por altura dos quatro encontros organizados em Calcutá as pessoas acorreram aos milhares. Talvez tenham mesmo escutado com mais atenção que noutras cidades.

- No entanto as pessoas de Calcutá são bem conhecidas pelas suas posições ideológicas. Em uma palavra só- são decididamente ateístas! Isso não constituirá um obstáculo á compreensão dos ensinamentos?

AP- Se levarmos em consideração as numerosas questões que lhe foram colocadas parece bem que os seus discursos terão suscitado reflexões fecundas junto desses auditórios.
Quando o país suportou o jugo estrangeiro, os Bengális não foram os primeiros a abraçar a causa do renascimento cultural e da revolução política? Animados de uma coragem formidável suportaram as piores provas para defenderem os seus ideais, e isso quase até à morte, quando as circunstâncias o exigiam.
Quando acreditaram que o marxismo era capaz de resolver o problema das disparidades económicas, adoptaram essa ideologia. Para logo renunciar bem depressa, quando perceberam o abismo que separava a teoria da prática, nos países ditos "socialistas"...
Hoje em dia, a necessidade de uma nova abordagem com relação a todas as ideologias políticas e económicas revela-se indispensável e urgente.
Como se haverá de transformar a condição humana, ou como alcançar uma liberdade autêntica? Essas são as questões fundamentais da nossa época, às quais Krishnaji se esforça por responder. E espero que alguém mais o siga nessa via.
As sementes que K plantou em certos espíritos um dia haverão de florir. Quem estiver à esperar de abordar hoje, de modo frontal os problemas da vida, deve escutar K com a máxima atenção.

- A maior parte das pessoas considera, vulgarmente, esses problemas sob o ângulo da economia. A ser assim, que proveito poderão pois tirar dos ensinamentos?

AP-  De facto, todos acreditamos que era suficiente suprimir a pobreza para mudar profundamente as coisas, e dirigimos todos os esforços nesse sentido, mas hoje a questão é de natureza inteiramente diversa; será que o homem melhorará de verdade se abandonar a condição de pobreza?
Aquele que antes bebia álcool de fraca qualidade não passará muito simplesmente a consumir whisky? E o que antes suportava a exploração não se tornará, por seu turno, um explorador? Na verdade, a miséria não é redutível ao campo económico. A pobreza moral, sabemos bem, pode conduzir o ser humano ás piores formas de decadência. Consequentemente, o melhoramento das condições de vida deve imperativamente fazer-se acompanhar de um longo e paciente trabalho de restabelecimento dos valores éticos. Se falharmos em atingir esse objectivo então a independência do nosso país- fruto de inúmeros sacrifícios- de nada terá servido. Raros são os pensadores capazes de nos revelar o estado a que estamos reduzidos e de reactivar o melhor de nós próprios. Mas eles sempre aparecem a semear um grão novo, e nada querem com a adulação nem a bajulação mas procuram simplesmente suscitar um estado de verdadeira atenção e uma mudança da pessoa, não menos radical. O país tem necessidade deles.
Escutamos o que Krishnamurti diz ,com atenção. Não estamos á espera nem de chefes nem de messias mas agimos com fé e sinceridade.



Ciência e Superstição



- O progresso alcançado no domínio do conhecimento científico, deveria, ao que parece, reduzir substancialmente o campo da superstição. Mas ao contrário somos forçados a constatar que numerosos cultos estranhos e práticas mágicas beneficiam de uma popularidade crescente. Como interpreta o senhor esse paradoxo?

K- Crê que a ciência tenha ajudado o homem verdadeiramente, salvo no plano tecnológico? Certamente que os nossos meios de transporte são mais rápidos, os nossos quartos de banho são maiores, bem como é melhor a nossa higiene. Por outro lado, beneficiamos de avanços na medicina e tiramos proveito de novas formas de comunicação. Mas a ciência alimenta de igual modo a guerra, e desenvolve o caos no mundo. As nossas condições de existência melhoraram mas em contrapartida temos que fazer face ao enorme perigo que constitui a invenção das armas nucleares.
Quando o homem olha em redor, não sabe o que fazer. Que busca ele, então? A evasão e o conforto. E precipitar-se para o primeiro guru que aparecer, que terá certamente prazer em burlá-lo...
Tais mestres, com sua magia de dez vinténs, enganam deliberadamente os seus adeptos, levando-os a crer que podem escapar ao seu ambiente por qualquer truque de mágica, mas na verdade eles não hesitam nunca em enganar os seus discípulos, se com isso puderem tirar algum proveito. De resto, nesse plano os políticos nada têm a invejar- eles que se mostram incapazes de garantir a segurança dos mais fracos de entre os nossos concidadãos.
    Para onde quer que nos voltemos podemos ver como o arbítrio parece reinar. As pessoas são capazes de se prender não importa ao quê para obter conforto mental. Daí o retorno às boas velhas superstições....
Hoje em dia, os vossos gurus vão mesmo até á construção de templos nos Estados Unidos.
    Vejam a forma como cada um tenta escapar aos seus problemas fundamentais refugiando-se nos desportos ou em outras actividades do mesmo tipo. O desporto, expressão por excelência da alegria de jogar, tornou-se uma industria enorme que atrai multidões imensas. Mas o sexo e as diversas drogas fazem ainda mais adeptos e para coroar tudo, têm os deuses, sempre os deuses! Prometei a salvação em três dias e suscitareis imediatamente a adesão do maior número...
     Enquanto as pessoas seguirem tais ilusões e não fizerem o esforço por uma transformação radical e interior, as coisas manter-se-ão assim.


 

A Natureza do Homem



- Será a natureza original do homem boa ou má? Ou existirá nele uma predisposição inata  para o bem ou para o mal?

K- Segundo os biologistas e os antropologistas o homem descende do macaco. Aceitar esse facto representa tomar consciência da violência animal que trazemos em nossa natureza. Além dessa forma de violência que subjaz na memória biológica, o homem aprendeu igualmente a guerra. E a humanidade, como vos dirá qualquer historiador, já conheceu milhares de guerras, desde a sua origem.
Todos sabem que a guerra constitui a mais pavorosa das calamidades, e, no entanto ela continua a causar estragos- hoje como sempre- com a ajuda de novas armas, mais modernas e destrutivas que as do passado. Todos repetem oportunamente que a guerra é uma coisa horrível mas por acaso teremos parado de matar e de cometer  assassinatos neste planeta?
Assentes  nessa pesada herança ancestral, evidenciam-se também, para cúmulo, problemas especificamente humanos que se fundamentam principalmente na nossa incapacidade de conciliar os nossos actos com as  palavras.
   Quanto á luta entre os chamados bons e os maus, essa prossegue até ao infinito. Vós colocais de um lado o santo e do outro o diabo e assim não mais fazeis que uma representação, pela enésima vez, da luta do bem contra o mal. Se quisermos crer em algumas pinturas rupestres, então os nossos ancestrais já partilhavam dessa concepção maniqueísta (herege). Mas existirá realmente tal dualidade? O homem considera que o bem é o oposto do mal, mas se esse pretenso bem é a consequência do mal então nada tem a ver com o bem autentico. Um " bem " assim, contém já em si as sementes do mal e, cedo ou tarde, haverá de revelar- se como uma forma do mal, num contexto diverso.
    Observe-se aqueles que reclamam pertencer à não- violência. De facto eles buscam a violência e a ela reagem opondo, em princípio, um pretenso ideal de não- violência. Isso é uma forma de supressão da violência no íntimo da pessoa, ou seja, um recalcamento.
Essa forma de não-violência aparece como uma construção simples da mente, e não como um valor em si. A violência é um facto enquanto que a não-violência é uma ideia. É a violência que é preciso enfrentar porque só ela é real. Uma vez que nos encontremos livres poderemos aceder a um mundo completamente diferente.

- Mas, existe o bem e o mal  em termos absolutos?

K- Não, o bem autentico não tem nenhuma relação com o mal, mas brota, literalmente, para lá de "bem" e "mal". Aquele que chega a tocar na fonte dessa bondade perfeita, esse é justo e livre de todo o conflito.

 

 

O Homem É O Mesmo Por Toda A Parte



- Será que o homem partilha de uma mesma substância em toda a parte do mundo, à excepção da sua diversidade?

K- Primeiro, que entende por "substância"? Certos cristãos interpretam isso a seu modo, e os fundamentalistas propõem uma versão ainda diferente.
Veja como as pessoas na América se voltam para a Bíblia...A consciência da humanidade é a mesma em toda a parte; onde quer que se encontre o homem é presa dos mesmos medos, da mesma angústia e do mesmo sofrimento. As suas superstições, a sua fé cega, os seus tormentos, o seu sentimento de insegurança, a sua busca de prazer, tudo isso constitui traços universais.
   De um ponto de vista fundamental, a consciência permanece a mesma onde quer que seja, ou se preferir, nós partilhamos de uma mesma consciência. Essa universalidade pode ser moldada segundo a época e as circunstâncias. Mas a sua consciência não é diferente  da minha. O mesmo acontece com o pensamento que essa consciência cria.
   Sim, o funcionamento do pensamento é o mesmo, quer seja o de um caseiro no seu campo ou o de um cientista no seu laboratório. O nosso pensamento não pode ser dividido em categorias tal como "o meu pensamento" ou o "vosso pensamento". Segundo certos parâmetros- geográficos, pedagógicos ou sociais- o homem pensa de modo definido. Mas isso não significa de modo nenhum que o seu pensamento seja único em si mesmo. O pensamento, quaisquer que sejam as suas circunstâncias, permanece sempre o mesmo. Você comporta-se de certo modo por ter crescido em certo meio e ter vivido certo número de experiências. E eu comporto-me de um outro modo em razão de um diferente condicionamento. O meio ambiente exerce, naturalmente, uma influência sobre nós. Aquilo que um ama outro detesta.
Mas essa diferença não passa de um epifenómeno.
A sua classe social é elevada  e você possui sabedoria. É tratado com respeito por todos. Todo o mundo o adula e lhe faz vénia. Mas eu que sou um homem comum, não tenho nada disso. Por isso o seu comportamento é diferente do meu.

- Mas, se ambos somos homens comuns...

K- Você pode ser honesto e eu cupido. Você não manifesta espirito de competição ao passo que eu sinto uma ambição devoradora. Você é abnegado enquanto eu sou vítima de todo sentimento de apego. Nesse caso o seu modo de agir difere do meu. Mas se os seus actos forem perfeitamente justos eles não deixarão de me influenciar. Quando, na nossa vida, atingimos esse plano de absoluta justeza que diferença poderá subsistir entre si e eu? Então a bondade pessoal não é mais divisiva; ela diz respeito a todos.

 

 

 Uma Vida de Seriedade


                   
- Porque é que essa sede profunda parece reservada  apenas a alguns?

K- Ou seja, dito de outro modo, porque é que alguns são sérios e outros não? Antes de mais, porque procurar separar-nos  desse modo? Porque não haveremos de dar prova de ternura e amor pelos nossos semelhantes? Sim, porque lutamos uns contra os outros? Qual a razão de tanta hostilidade? Não vê em que triste estado nos encontramos?
    Que é que interessa ao homem, de verdade? O conforto mental, a busca de prazer e o divertimento.
Sem dúvida, podemos constatar  nisso mesmo a sua falta de seriedade. Mas olhe ao seu redor...Quem se mostrará verdadeiramente sério, hoje em dia? Os políticos? Os ricos? Os pobres? No fundo, quantos de nós levam uma vida realmente séria?
    De tempos a tempos alguém como eu aparece e diz: "Considerai a vida com seriedade". E todos respondem em coro: "Tem razão, tem razão"! Mas imediatamente se voltam para o habitual...Quase não acabou o entusiasmo  e eis que retomam a rotina tranquilamente. Não há um só que diga: "não entendo nada daquilo que diz, mas hei de descobrir por mim se há alguma verdade nisso". Quantos de nós possuem essa energia? O Buda falou durante quarenta anos mas só dois dos seus discípulos compreenderam plenamente a sua mensagem. E esses dois precederam-no na morte! Isso não será terrivelmente trágico?

 

 

Eu Sou a Humanidade



- Poderá esclarecer uma afirmação singular que em tempos proferiu: "Eu sou a humanidade e não o colectivo"?

K- Todos nós somos humanos e devemos ser considerados como tal. Mas cada um de nós é, no entanto, tratado de forma geral como um simples elemento da  massa social e percebido sob o aspecto único da colectividade. Por todo o lado os nossos semelhantes são sacrificados no altar das ideologias, mas de facto, toda a verdadeira solução deve ser formulada ao nível da pessoa.
   Tratar as pessoas como um rebanho ou uma entidade colectiva e utilizá-los para fins políticos ou económicos conduz inevitavelmente aos piores horrores. Veja a nossa escola em Rishi Valley. Cada uma das nossas classes conta mais ou menos vinte alunos- o que é bastante pouco comparado com outras escolas. Contudo, sugeri que esse número fosse reduzido para doze alunos por classe. E creio que os professores estão de pleno acordo comigo.
A minha intenção é a de que cada criança possa ser seguida com extrema atenção. Assim ela poderá seguramente desabrochar.
Se considerarmos o homem segundo o plano unilateral da colectividade perderemos automaticamente toda a compaixão e não poderemos ser bons. Pior. Até nos tornamos mesmo indiferentes ou cruéis.
   Mas, ao contrário, se eu souber que a minha consciência é a consciência de todos os seres humanos então encontro-me em posição de tratar o indivíduo como pessoa e não mais como um elemento anónimo perdido na massa social. Compreende agora porque é que afirmo ser a humanidade?


A Consciência Humana


- Segundo diz: "Se um só ser humano compreende radicalmente o medo e o transcende, o seu comportamento influencia  a consciência global da humanidade". Mas, como é que uma realização pode afectar o resto, o conjunto da humanidade? Alguma vez isso se terá produzido?

K- Tem de compreender que a consciência humana é a mesma por todo o lado. E, se o "mal" a pode conduzir, não poderá ela ser igualmente sensível ao bem? Como sabe Hitler e Staline exerceram uma influência nefasta sobre a consciência dos seus povos. Mas não transformou Buda, também, a história do oriente? Por isso é que afirmo que se uma pessoa for capaz de transcender completamente o medo e o reduzir a nada, ela será capaz de modificar de modo duradouro a consciência da humanidade.

- Hitler e Staline tinham por único objectivo atiçar as paixões das pessoas e gerar o ódio no seio do povo. E isso não parece ser de uma extrema dificuldade. Mas a tarefa do justo não será extraordinariamente mais complexa?

K- É verdade que são raros aqueles que se empenham nessa direcção. Mas é suficiente que um só saia da rota traçada para que alguns o sigam; então, tudo poderá mudar. Isso é um facto e não uma vaga teoria sentimental.

- Mas, isso já se produziu?

K- Cabe a si julgá-lo. Cada um deve decidir por si mesmo, mas permita-me aqui abrir um parêntesis.
   Já ouviu falar das experiências levadas a cabo sobre a consciência de grupo dos ratos? Tanto nos Estados  Unidos como na Austrália houve pesquisadores que trabalharam nessa questão sem que tivessem efectuado a mais pequena consulta entre si e construíram enormes caixas divididas em duas partes, uma iluminada e a outra mergulhada na obscuridade. Se um rato se dirigia para a zona iluminada recebia um choque eléctrico; se ele se orientasse para a zona sombreada, recebia comida. Dito de outro modo, esses cientistas puseram em prática um sistema baseado na relação punição- recompensa.
   Assim que um rato compreendia o jogo, dirigia-se naturalmente para a zona escura e tinha muito cuidado em evitar a luz. Mas a coisa mais singular é que os outros ratos do mesmo grupo pareciam compreender imediatamente a mesma coisa.
   Segundo os postulados da genética, a transmissão de uma informação nova entre um rato e a sua prole, exige uma geração inteira. Mas aqui, por intermédio tão só da consciência de grupo, a informação era transmitida imediatamente aos outros ratos.
   Essas experiências foram conduzidas ao longo de vinte e cinco gerações de ratos. Não falo aqui do aspecto genético da questão mas tão só da velocidade a que os conhecimentos eram transmitidos ao grupo. E quer tenha sido nos EUA ou na Austrália, o certo é que os pesquisadores que trabalhavam em separado chegaram a resultado idêntico; a consciência de um grupo influencia de modo inevitável cada um dos elementos que o compõe. E, quer isso constitua ou não uma prova suficiente face ao comportamento humano, não é menos verdade que a consciência e a conduta de um homem pode exercer uma enorme influência sobre o seu meio. Isso é um facto inegável. Se a consciência do homem pode ser orientada para o "mal", ninguém negará que também possa ser dirigida para o caminho correcto.
   É suficiente que alguns dêem o exemplo para que a consciência social seja transformada. Mas onde estão esses poucos capazes de mudar o curso da coisa, hoje? Quantos estarão prontos a não seguir o rumo da corrente dominante?



Ajudar os Outros


- Para possibilitar que uma pessoa obtenha consciência não será preciso que esta seja já um pouco consciente? Poderemos esperar que com o tempo essa pessoa obtenha por si mesma a compreensão?

K- Porque pensa que me pode ajudar? E em que nível acredita que poderá ajudar-me? Antes de mais, será você consciente? Se não for não fale de consciência. Evocar a consciência quando se é totalmente desprovido dela é comprazer-se na hipocrisia. Se, em compensação, você for consciente, acredita que eu seja tão estúpido que não possa ter percepção e não veja como se comporta com a sua esposa, filhos, amigos e todos os demais?
Se você vive com consciência como poderei ser cego? E como poderei eu não sofrer a sua influência? A sua atitude, os seus gestos, as suas palavras revelar-me-ão aquilo que preciso aprender. E então, tudo dependerá do modo como receberei aquilo que me transmitir.

- Não se deve dar o exemplo?

K- Não. Principalmente isso. Jamais nos devemos erigir como modelo.

- Não é isso que quero dizer. A conduta de um homem consciente não exercerá efeito sobre os outros, que podem ser susceptíveis, por seu turno, de uma transformação profunda?

K- Sem sombra de dúvida.



O Despertar da Inteligência


- Uma vez desperta, a inteligência desenvolve-se? E adquire profundidade? Senão, de que valerá viver tanto?

K- O que é importante é o despertar de uma inteligência autentica. Mas não creia que esta obedeça às leis da física...Na verdade uma inteligência mensurável não é inteligência. Bem longe de ser procedente do pensamento, a inteligência surge por intermédio da visão interior. Ela não decorre nem da habilidade nem da acumulação do saber. Numa palavra, ela não mantém nenhuma relação com o pensamento. A capacidade de construir pontes ou ordenadores é desenvolvimento de conhecimentos; mas o saber em que resulta, isso nada tem a ver com a inteligência.
Falo de uma inteligência nascida da visão interior. E quando se desperta essa inteligência, então surge a autêntica compaixão. E todas as nossas capacidades devem agir em harmonia com essa compaixão, porque esta possui a sua própria inteligência.

- Se despertarmos a inteligência mas não a desenvolvermos então a vida não perderá todo o sentido?
K- Quando a inteligência desperta, a compaixão impregna completamente todo o ser. E isso não significa que acabemos ligando-nos a uma associação religiosa qualquer porque, enraizar-se numa fé, qualquer que ela seja, e consagrar-se às obras sociais, não conduz á compaixão.
Em boa verdade, a compaixão não brota por intermédio do pensamento. Ela não estabelece nenhuma distinção entre si e os demais. Em si, ela não é nem medo nem sofrimento; e a dualidade não tem lugar nela. Quando nos encontramos prenhes dessa compaixão como poderemos atormentar-nos com respeito á vida e á morte? São a ansiedade e a satisfação que fazem surgir esses problemas. Mas se vivêssemos plenamente  que necessidade teríamos de os remoer sem fim? O medo insinua-se sempre na mente ocupada a remoer o passado ou angustiada pelo seu vir-a-ser. Mas se o medo inerente ao "eu" ou ao "meu" desaparecer, desaparecerá imediatamente a dualidade do desejável e do indesejável. E nesse estágio que diferença poderá subsistir entre a vida e a morte? Viver com compaixão é viver com liberdade.

 
Mestre / Discípulo


- O senhor nega a dualidade de mestre e discípulo, todavia, quando se exprime, suscita qualquer coisa da classe da revelação, ao clarificar as coisas que nos atormentam.

K- Se eu disser que, quando fala resolve o meu problema, então eu dependo de si. E toda a forma de dependência constitui uma falta de liberdade. Assim que se puser a estudar-se será a um só tempo mestre e discípulo. E nesse tipo de aprendizagem ninguém tem necessidade do outro. Se tiver necessidade de mim então eu tornar-me-ei seu guia e a sua autoridade. E como sabe eu lutei sempre contra a autoridade, desde a minha mais tenra infância.
O discípulo é aquele que aprende. E o que é que ele aprende? O conhecimento de si. E para aprender a conhecer-se, precisa observar.

- Eu já li e escutei muitos mestres, mas você é o único que me abriu o caminho.

K- Quando recupera a saúde, porque razão se apegará ao remédio que o curou?

- O senhor vê, eu já passei por toda a espécie de gurus e foram tantos os livros que li...

K- Isso parece óbvio.

- Mas a verdadeira clareza só surgiu através do seu ensinamento.

K- Contudo o processo repousa no seu íntimo. Outros estudaram os autores que mencionou, e leram igualmente os meus livros. Porque não fizeram eles nota da diferença que acusa?
Se você entendeu isso deve-se à sua evolução íntima. Consequentemente, é você e não eu, que é a um só tempo aquele que ensina e é ensinado. Se um indivíduo for bom observador evoluirá continuamente até ser um com a corrente.

- Então não permite que subsista a menor imagem do senhor em nossas mentes...

K- Isso só conduziria á sua dependência.


 
Cultura e Tradição Religiosa



- Parece-me que a cultura e a tradição religiosa da Índia estão ligados de modo indissociável. Não deveríamos conservar alguns elementos dessa cultura?

K- Posso exprimir-me com franqueza?

- Peço-lhe que o faça.

K- A meu ver não há nada a aproveitar dessa condição dual. Quando falamos de tradição perdemos a própria essência da religião. E o espírito religioso autentico não pode surgir em meio á tradição, mas aparece sempre sob o signo da novidade radical; não mantém relação nenhuma com a perpetuação de uma tradição qualquer. Quanto á cultura, essa desapareceu completamente do nosso país. Os indianos correm todos atrás do dinheiro e chegam a votar-lhe um verdadeiro culto. É forçoso reconhecer que a nossa tradição braman, quatro vezes milenária- que eu não preservo nem denuncio com isto- desagregou-se literalmente. No fundo não há nada a preservar de tudo isso, absolutamente nada.

- Deveremos então recomeçar da estaca zero?

K- Sim, façam tabula rasa. De outro modo cairão automaticamente na repetição. Veja, o espirito comercial invadiu todas as esferas da actividade e até os templos se tornaram uma fonte de proveito! Até já ouvi dizer que certo templo da região, chega a recolher a bagatela de um milhão de rupias a cada três dias.
Na semana passada, em Delhi, soube da boca de um alto funcionário que um homem de negócios rico, do sul, se especializou na construção de templos para mais poder prover á sua fortuna. Poderemos, com decência, chamar a isso religião? Será essa a nossa tradição? Ou devemos falar antes de cinismo, e admitir que a religião se tornou uma forma de modelo industrial? Deus, que imbróglio assombroso!




Sobre a Educação Moral


- Não deveríamos incutir certos valores morais na nossa juventude? Ou devemos simplesmente ensiná-los a observar?

K- Que entende por "valores morais"? Suponha que tem um filho. Que é que irá ensinar-lhe? Ensina-lhe a respeitar os pais, os vizinhos, as árvores, as plantas e o meio ambiente? Se houver amor, respeito e afeição então haverá moral. Mas isso torna-se cada vez mais raro. Assim, pois, que entende por valores morais?

- Ensinar aos nossos filhos sobre a vida dos santos?

K- Acredita mesmo que os santos eram todos seres realizados? A maior parte deles, ao contrário, passou por graves crises psicológicas em grande parte devidas ao desenvolvimento unilateral do seu espirito.
Ensine aos jovens a arte de escutar e de observar, e se for capaz disso, então terá conseguido ensinar-lhes o essencial.



O Ensino da História


- Em que medida ou de que forma devemos ensinar história aos estudantes?

K- Que coisa é a história? Será a récita das arrecadações levadas a cabo por alguns reis ávidos de despojos, conquistas e carnificina? Serão as datas de sua chegada ao poder ou da sua destituição? Será o nome dos soberanos que já reinaram no nosso planeta? Poder-se-á  verdadeiramente chamar história a isso?
Além disso, se um indiano rescreve a historia, ele o fará do ponto de vista  indiano. A saber, ele tomará partido pelo seu próprio país, naturalmente. Porém se um historiador de uma outra nacionalidade narrar os mesmos acontecimentos, dar-lhe-á uma apresentação diferente, devido ao seu próprio condicionamento.
A história é, antes de mais, a história do homem. E a história da humanidade não é outra senão a sua.


- Não se pode certamente dizer que a universidade realize verdadeiramente esse objectivo...

K- Precisamente! E é justamente por isso que é necessário ensinar aos nossos estudantes a história da humanidade e não a do "meu" povo contra o dos outros. Sim, mostrem-lhes como os povos foram esmagados e como as divisões criadas pelo nacionalismo  sempre conduziram á guerra...

 
 
A Causa Original


- Existirá uma causa primeira, para lá dos fenómenos deste mundo?

K- Nós, indianos, temos um talento particular para multiplicar as teorias. Depois analisámo-las e elaboramos comentários com vista a perpetuá-las até ao infinito. E cada um empresta o seu contributo a esse amálgama. Terá o universo tido uma origem? O mundo dos homens, a natureza, todas as espécies que vivem sobre a terra ou no seio dos oceanos, as florestas, as arvores, as flores- será que tudo isso teve uma origem? Não sei se é essa a sua questão...
   Como abordaremos tema tão vasto? Abordámo-lo do ponto de vista da nossa existência humana? A nossa existência está intimamente ligada á natureza. Destruir a natureza é destruir a nós próprios. E é isso precisamente o que estamos a fazer. Nós não percebemos a vida como um todo e jamais nos aproximamos dela na sua globalidade. Mas a sua questão é se terá havido uma causa primeira.

- Sim, porque o senhor afirma que tudo o que tem uma causa tem que ter necessariamente um fim...

K- Pois, tudo tem uma causa. O carvalho nasce da bolota e essa é a sua causa, consequentemente. Se eu comer comida estragada sofrerei do estômago. A fome do tigre provoca a morte do antílope. Ou então ligue o interruptor e a luz se acenderá. Neste mundo há uma causa para cada coisa e os seres humanos não escapam á regra, explorando-se, como fazem, uns aos outros com vista a fins pessoais. Porquê? Por não conhecermos o amor.
   Segundo a fé cristã essa primeira causa não é outra que além do pecado original. Se for muçulmano atribuirá, ao contrário, a grandeza deste mundo á grandeza de Allah. E mesmo se for ateu terá o clássico esquema da evolução- desde a primeira célula até ao homem- a ocupar a posição da "verdade".

- Mas terá havido uma causa original? Um facto e não uma forma de fé...

K- Porque tem que saber de que modo foi?

- De outro modo o mundo será destituído de sentido...

K- Mas tal e qual ele é, o mundo já é efectivamente destituído de sentido. Você educa o seu filho e envia-o para o liceu. Ele arranja um trabalho, casa-se e constrói um lar. Veja as coisas tal qual são e atenha-se aos factos. Nós passamos por altos e baixos neste mundo em que tudo é pesar ou alegria.

- Mas alguém deve dizer-nos se tudo isso possui um sentido...

K- Antes de mais, observe os factos. Do ponto de vista tecnológico, nós criamos verdadeiras maravilhas; recusamo-nos a negá-lo. Mas veja como o dinheiro invadiu tudo. Na verdade o dinheiro constitui a forma de poder absoluto. Que sentido pode ter todo o lucro?
Mas vamos mais longe e perguntemos qual é o significado verdadeiro dessa perpétua luta, desse mal estar a que chamamos vida? Nós somos a causa de tudo isso.
Extraviados num mundo completamente absurdo supomos existir um sentido oculto em qualquer lado; e porque esta existência não possui sentido nenhum inventamos um deus que temos na conta de nos ter criado, e que deve possuir o segredo de todo esse absurdo. Mas essa invenção não faz sentido nenhum. Veja se a sua vida, aqui e agora, tem sentido e então conhecerá a resposta.
Enquanto o pensamento estiver em acção nada poderá fazer sentido.




Como Descobrir a Inteligência


- Segundo aquilo que diz, a inteligência impregna todas as coisas e não se reduz nem ao coração nem á mente. Todavia, a tradição afirma que ela reside sobretudo no coração dos justos. Como interpreta essa contradição?

K- O que é a inteligência? Ir á lua ou construir um automóvel exige, dizemos nós, uma certa inteligência. Mas a inteligência autentica não tem nada que ver com o engenho; e não realça nem o intelecto nem o pensamento. Ou seja, a actividade do cérebro, a conquista da lua, o desenvolvimento rápido das comunicações- para não fazer nenhuma menção  à busca egotista de todo o indivíduo- são aspectos ordinariamente considerados como manifestações da inteligência...Para não mencionar todas essas guerras que são elaboradas com "inteligência"...
    A verdadeira inteligência, todavia, não poderia ser assimilada pelo funcionamento da mente, como também não pela acumulação limitada de conhecimentos. Então o que é a inteligência? Ser inteligente, segundo o sentido etimológico da palavra latina, consiste em reunir informações e agir correctamente com base nestas. Mas, a meu ver, a inteligência remete também para o amor e a compaixão. Mas essa inteligência não pode ser um produto do tempo nem do pensamento.
Segundo a tradição, pelo que diz, a inteligência reside no coração dos justos. Mas o que é ser justo? Será que eu sei se sou justo? E se eu o soubesse, poderia  eu ainda ser justo?

- Mas nós sabemos o que o senhor é...

K- Como poderão saber se sou justo se não forem, vós próprios, justos? E se não o forem, como me compreenderão? Como reconhecemos um homem justo? Reflitam nisso.



 

O Funcionamento dos Sentidos



- Segundo aquilo que refere, os sentidos devem funcionar todos no seu nível mais elevado. Mas tratar-se-á simplesmente de desenvolver a sua receptividade ou de mudar radicalmente a qualidade da percepção? Poderia esclarecer-nos neste ponto?

K- Como sabe, os cientistas dividiram o cérebro em duas zonas. Mas, poderemos imaginar o que seja o funcionamento total do cérebro, funcionamento não fragmentado? Porque utilizamos nós, de ordinário, um só ou dois sentidos quando o nosso cérebro é capaz de os comandar todos? Na verdade, nós não sabemos nada do estado perfeito em que todos os sentidos estariam plenamente despertos e funcionariam ao seu mais alto nível. Por outro lado, os seres humanos só sabem funcionar de um modo fragmentado. Mas se o cérebro operar para lá desta fragmentação, quando todos os sentidos serão postos em movimento, o "eu" desaparece completamente, e a nossa qualidade de percepção é radicalmente transformada.

 

 

A Função da Experiência na Busca da Verdade



- O que é a experiência? Será que a experiência tem alguma função na busca do conhecimento da Verdade? Nós seremos levados a viver as experiências por que desejamos fervorosamente passar?

K- Sim, o que é a experiência? Tudo é experiência: o sexo, a ida á lua, um acidente de viatura etc.
Ao caminhar pela rua deparo com um cão esfomeado- isso também é uma experiência; mas essa experiência torna-se uma forma de saber, e essa forma de saber socorre-me.
   A experiência desempenhará alguma função no conhecimento da verdade? Nenhuma! Porque a Verdade não confere relevo ao saber. Propriamente falando a verdade não pode ser reconhecida nem fazer parte de uma "experiência". Mas viveremos as experiências que desejamos conhecer? Naturalmente; nós criamos todas as nossas experiências. Se quisermos conhecer a embriaguez bastar-nos-á beber. E acontece o mesmo em todos os outros domínios.

- Mas obteremos nós aquilo que merecemos?

K- Não o que merecemos mas o que desejamos.


 

Conversões Religiosas



- No contexto da propaganda religiosa o hinduismo parece permanecer na defensiva e busca meios para se organizar. Mas certos fanáticos estão já a passar ao ataque. Como interpreta esse fenómeno?

K- A meus olhos, toda a organização clerical- quer seja cristã, hindu, budista ou o que for, nada tem a ver com a religião autentica. Crer em conformidade com tal ou qual concepção religiosa é querer já converter os outros. Porque, veja bem, se guardar a minha religião para mim, sinto-me só e perdido... O hinduismo diz uma coisa, o islão diz outra- cada uma lança a sua guerra santa, a sua jihad a fim de converter as pessoas de arma em punho. Um espirito dogmático entende, por natureza, que deve converter todos os que o rodeiam. E face às intenções expansionistas do islão o hinduismo  por seu turno, reagiu do modo mais violento. E isso é o ciclo interminável da agressão e da resposta...
   Mas qual é, pois, a causa de tudo isso? O dogma, a fé esclerosada e os pretensos livros sagrados! Na verdade, nenhum livro do mundo é sagrado. No dia em que nos aceitarmos como seres humanos e não como simples máquinas catalogadas  sob o título de hinduistas, muçulmanos ou cristãos, e no dia em que compreendermos até que ponto somos modelados pela propaganda religiosa, então assistiremos a uma mudança radical. Mas da mesma forma enquanto esse condicionamento fundado no dogma e no medo for perpetuado, haverá divisões e guerras.
Não seja hindu, nem muçulmano; não pertença a nenhuma nação- é isso  que lhe aconselho! Mas o senhor persiste no erro e agarra-se ás suas crenças; permanecer ancorado em tais posições, contudo, é uma coisa perfeitamente insensata. Cada lado busca a segurança, mas como poderá esta existir se o espirito é dividido? Veja a profunda estupidez de tudo isso!




Ciência e Tecnologia



- As sociedades ocidentais desenvolveram a ciência e a tecnologia de um modo tão anárquico que parecem estar no ponto de se destruírem mutuamente. De resto isso explica o crescente sucesso da ecologia.
Mas  na Índia, por ora, conseguimos evitar esse risco. Considerando a experiência do ocidente, que concelho daria aos indianos?

K- Se acreditarmos nos cientistas, o mundo será aniquilado em caso de guerra nuclear. Não somente o ocidente mas o planeta inteiro. E o nosso país, como o sabemos, também possui a bomba atómica. Na verdade não se trata mais da questão de ocidente ou oriente; não existe diferença de monta entre essas duas posições, para a questão. Só existe o homem a contas com o seu pensar, a caminho de se destruir a si mesmo, vitima da maior cegueira.
Você pede-me um concelho, mas só os tolos dão concelhos. Veja como a tecnologia ocidental penetrou progressivamente no oriente. Não é mais o ocidente ou o oriente que reina, mas antes a tecnologia.
Certamente o ocidente criou a bomba atómica, mas inventou igualmente novos meios de comunicação e extraordinárias técnicas médicas- tudo aquilo que hoje contribui para o bem estar do nosso país. Na verdade a tecnologia é necessária; não estaria aqui a falar comigo se tivesse que viajar de carro de bois. E sem o progresso realizado na medicina, as epidemias continuariam a fazer devastações.
   Mas a tecnologia é também responsável pelas armas terríveis que engendrou. Dito de outro modo, ela contém em si tanto a possibilidade para o bem como para o mal. Consequentemente o que importa não é tanto restringir o desenvolvimento da tecnologia mas antes transformar a consciência humana que utiliza essa tecnologia. Na qualidade de seres humanos nós constituímos uma unidade. Nós somos a humanidade. Destruir um só dos nossos semelhantes é destruir-nos a todos.




Educação Correcta



- Como poderemos incitar os jovens a descobrir o sentido último da vida?

K- Bem, se eles forem muito novos, a questão nem se deve colocar. Mas veja como as crianças são tratadas. Que pretendem os seus pais? Que encontrem um bom trabalho, que se casem e criem um lar. Veja a que ponto a sociedade está corrompida. Como esperar que num tal contexto as crianças encontrem o seu caminho?
   Assim que eles penetrarem no mundo do trabalho a sua mente será inteiramente absorvida por uma vaga de problemas materiais- emprego, casamento, etc. Mas eles seguirão, de modo inconsciente, o caminho traçado pelos seus pais.
Portanto, tudo depende da educação. Além disso é preciso que a sociedade não esteja minada nos seus fundamentos... Sabe que neste país (Índia) as pessoas não querem mais trabalhar com as mãos?
Recentemente, oferecemos alguns hectares de terra fértil a um grupo de adolescentes, com todo o equipamento necessário para cultivo. Pois imagine que eles recusaram a oferta por não quererem sujar as mãos!
          No decurso da minha vida eu plantei toda a espécie de legumes, tratei das vacas, nos montes da Califórnia, e aprendi a fazer tudo por mim próprio, mesmo na cozinha. Hoje em dia os jovens nem mesmo sabem cozinhar. Numa sociedade assim, como esperar que eles descubram o "sentido último da vida"?
Daí a importância de uma educação correcta.



Amor e Conhecimento



- Que é o conhecimento? Ele estará na base da experiência ou da compreensão?

K- Que significa essa palavra para si? (K olha pela janela e aponta uma flor com o dedo)
Veja aquela flor. Da perspectiva da botânica conhecemos as suas características principais, mas estas constituem uma parte ínfima somente, da sua natureza. Na verdade, quando vejo a flor não a acolho realmente na sua totalidade. Do mesmo modo, ainda que nos tenhamos encontrado ocasionalmente nos últimos anos, não poderei afirmar que o conheço em profundidade. Não, eu só o conheço em parte.
Quem pretenderia poder apreender uma criatura viva, qualquer que seja, na sua totalidade? Não obedece tudo o que é vivo á mudança e á transformação? Quando refiro que o conheço, de facto estou a instaurar uma divisão, porque não posso apreendê-lo na sua inteireza. Todo o conhecimento é parcial.

- Pode dizer-se que o ser vivo comporta a característica do imprevisível?

K- Exactamente. Porque toda a criatura segue uma evolução específica. Mas vamos mais longe; que relação existe entre o conhecimento e o amor? O amor não é conhecimento.

- Mas nós não procuramos conhecer aquilo que amamos?

K- O saber fundamenta-se na experiência e põe em movimento milhares de recordações registradas no cérebro.
O amor animará o saber? Não, porque o saber sempre provém do pensamento. E o amor nunca é o resultado de um pensamento. O amor nada tem a ver com o desejo ou o prazer. Se eu o amo, não é porque me dá dinheiro ou prazer; tudo isso faz parte do triste cálculo.
Enquanto for assim, o saber será aditivo e fundamentar-se-á essencialmente na experiência. Você cria uma hipótese e submete-a à prova dos factos, e se ela não convém arrisca uma outra. Procedendo desse modo acumula saber. Consequentemente, essa forma de saber revela-se sempre limitada.
   O que é a compreensão? Imaginemos que não sei o que é uma viatura, e então decido desmontar uma, completamente. Mas será que vou compreendê-la por isso? Não, porque essa abordagem ainda participa do saber e da habilidade. O nosso cérebro governa completamente a paleta das nossas sensações- com o prazer incluído- que dependem todas do campo do pensamento. Como se pode encontrar o amor aí? Se ele estiver em alguma parte será no exterior do pensamento. A mente difere do cérebro. De facto a mente está no exterior do cérebro.



Aquilo que Conhece



- O que é "aquilo" que conhece se não se trata do intelecto nem da emoção? Será um modo específico de inteligência?

K- Que entende por inteligência?

- Além do intelecto e da emoção bem que deve existir qualquer coisa através do que nós apreendemos o sentido daquilo que diz.

K- Esclareçamos definitivamente esse termo. A inteligência tal como a compreendemos vulgarmente é a capacidade de reunir e distinguir, analisar e racionalizar a informação. Refiro-me á inteligência do pensamento. O pensamento criou a totalidade deste mundo tecnológico. Mas ele é limitado, como a inteligência que dele depende. A clareza intelectual, como sabemos, não acarreta automaticamente a serenidade mental. O cérebro é a séde da inteligência; consequentemente é susceptível de conceber o "real", o Brahman e todos os seus atributos. Mas tal concepção nasce ainda do pensamento. Será a pessoa, o "eu", as minhas qualidades, diferente do pensamento? O cérebro excita a matéria e o pensamento aparece como um processo material que criou a sua própria inteligência. Mas fora do cérebro há uma outra forma de inteligência que não conhece limites. É a inteligência do amor e da compaixão, que não tem nada a ver com o mundo do pensamento.

 

 

O Aroma da Flor



- Segundo o célebre aforismo:" aquele que não sabe não fala", quem fala não sabe. Mas você sabe e fala. Mas não será essa sua eloquência um processo mecânico congregado pelo conhecimento?

K- Examinemos as coisas com simplicidade. Vê ali fora aquela flor de jasmim? Ela possui um aroma sem paralelo. Na verdade o seu perfume é a sua eloquência. Não poderíamos separá-los. O perfume não é diferente da flor.


 

Explorar o Próprio Potencial



- Quando escutamos o seu pensamento ou ensinamentos e lemos nas entrelinhas, muitas coisas nos são reveladas, todavia isso convida a mente  a tomar um rumo muito mais vasto. Como poderemos penetrar nisso?

K- Quando cavamos um poço encontramos água a partir de certa profundidade. Mas geralmente a maior parte das pessoas satisfaz-se com essa primeira descoberta. Assim essa primeira água acabará inevitavelmente por se evaporar com o calor do sol. Se quiser ir até á fonte necessita cavar muito mais fundo. Tem que ter a vontade de ir mais além. Mas isso só depende de si.

- Isso implica um grande trabalho sobre si mesmo...

K- Sim. Enquanto cava não é o poço que lhe dá a água. É o próprio facto de cavar, ou por outras palavras, é o seu trabalho pessoal!

 


Os Ritmos do Cérebro e o Universo


 

- Habitualmente refere que o cérebro possui o seu próprio ritmo e que o universo obedece a um ritmo do mesmo modo. Não serão esses ritmos idênticos?

K- Quando se tem a mente tranquila e se respira com profundidade, até chegarmos a tomar consciência de todo o nosso corpo, então compreendemos que o cérebro possui o seu próprio movimento e o seu próprio ritmo. Com relação ao universo, ele contém uma ordem perfeita; o sol eleva-se a uma certa hora, a lua obedece a um ciclo regular...O universo inteiro com os seus buracos negros...

- E os seus vulcões...

K- Sim, o universo possui ordem. Mas o homem não. Quando nos encontramos calmos podemos prestar atenção à respiração e ter consciência dos ritmos biológicos, porém o nosso pensamento cria desordem.
A bem dizer a consciência  encontra-se em perpetuo conflito com os seus impulsos: ambição, cupidez, etc.; impulsos esses que nos são lançados pelo pensamento. E esse fluxo contínuo cria um estado de desordem. A ordem efectiva liberta de todos os contingentes e não é outra que a do universo.



A Mulher e a Espiritualidade


- A acreditar na tradição os homens serão mais aptos no campo espiritual que as mulheres. Pelo que lhe é dado compreender nota alguma diferença entre os dois sexos?
K- Nem a menor, sequer. Evidentemente, a mulher possui certas peculiaridades biológicas; compete-lhe a tarefa de colocar as crianças no mundo e a não menos difícil de lhes dar uma educação digna do nome.
Quanto ao homem, as suas dificuldades são de outra natureza. Deve ele assegurar o bem-estar material essencial para a sua família. Mas para lá dessas diferenças evidentes, quem é ele? A meu ver a mulher parece bem mais receptiva que o homem, na medida em que o seu ego se revela menos invasor...

Mas quando a mulher encobre os filhos não se revela egoísta?

K- Essa necessidade de proteger não conterá uma dose de altruísmo? O que quer que seja todavia, tanto o homem como a mulher devem fazer face aos respectivos problemas. O importante é não cair na cilada do jogo das aparências.




Orientais e Ocidentais


- Sabemos como recusa o conceito de nacionalidade. Porém, ao nível dos seus ensinamentos, será que nota alguma diferença entre os orientais e os ocidentais?

K- A mente indiana sempre possuiu fascínio pela filosofia. Na sua origem, encontramos entre outras a casta dos brâmanes. Estes geralmente emprestam grande importância ao saber, á aprendizagem de textos e rituais bem como á vida espiritual. Eles adoram os jogos do intelecto, as explicações engenhosas e as teorias metafísicas, mas estão longe de as praticar. E, se as minhas observações são correctas, a sua percepção intelectual não tem qualquer relação com a sua vida quotidiana.

- Parece haver aqui um completo divórcio entre a reflexão e a acção...

K-  Tratar-se-á de hipocrisia? Talvez não, mas de qualquer modo, esse comportamento nada tem que ver com a religião autentica. O ocidental, por seu turno, mostra-se a um só tempo mais lógico e mais céptico. Mas quando compreende qualquer coisa, ainda que seja lentamente, ele põe-no em prática. No fundo ele não pode passar sem a acção, e quase não tem tempo para parar e comprazer-se em análises estéreis como nós, na altura da estação das chuvas. A monção que nos retarda  consideravelmente toda a actividade  alguns meses por ano, exercerá alguma influência no nosso modo de ver as coisas? Qualquer que seja a diferença existente entre orientais e ocidentais isso terá certamente alguma coisa a ver com o clima.




Propaganda Religiosa


- O desenvolvimento da fé efectua-se sempre através de compromissos com os poderes locais. E assim sendo ele pode tornar-se um verdadeiro movimento de massas. Mas os ensinamentos de Krishnamurti, que se baseiam na essência real da religião não permitem nenhum compromisso e restringem-se necessariamente a alguns grupos atentos. Como resolveremos a dificuldade que isso acarreta e transmitiremos a sua palavra mais longe?

K- Antes de mais devemos estabelecer a diferença entre a propaganda e o ensinamento.

- Quer dizer que é preciso viver directamente o ensinamento?

K- Se fizer propaganda, contento-me em repetir as palavras de outra pessoa, e assim tropeço no compromisso.
Veja o cristianismo; os ensinamentos de Cristo foram "revelados" alguns sessenta anos após a sua morte, mas devemos poder interrogar-nos, por direito, sobre o seu grau de exactidão. Depois os discípulos procuraram propagá-los. Mas, não se trata de uma questão de propaganda mas de destino pessoal.
Eu nunca me preocupei em disseminar o ensinamento, como de resto não o fez Buda. Porém os budistas começaram a pregar e assim destruíram o próprio sentido das suas palavras. Aquilo que aconteceu aos ensinamentos de Cristo aconteceu com as palavras de Buda; os seus discípulos traíram-nas fazendo propaganda. Ora, a questão não está em fazer espalhar o ensinamento mas em vivê-lo.
Você estava na sala quando me enderecei àquele grupo. (K faz alusão aos ensinamentos dispensados nas escolas de Rishi Valley e de Bangalore Valley) Imagine que aquelas cinquenta pessoas fossem realmente capazes de viver aquilo de que falo...

- O ensinamento tornava-se então por si mesmo...

K- Se viver a verdade no seu íntimo, uma só pessoa pode mudar a consciência de todos. A meus olhos a propaganda não passa de um processo de destruição da verdade.




Será Necessário Retirar-se do Mundo?


- Já alguma vez sentiu necessidade de um retiro completo? E, em caso afirmativo, que é que o levou a permanecer entre nós?

K- Já tive esse sentimento muitas vezes. Quando fazemos a profunda experiência da miséria e da violência do mundo como não haveremos de sentir vontade de pôr cobro a toda essa loucura?

- De nos fecharmos em nós próprios...

K- Mas qual será a utilidade de um tal retiro? O monge ou o santo que se retiram do mundo, permanecem prisioneiros da sua crença e dos seus rituais e obedecem ainda a um dogma. Em poucas palavras, o seu desprendimento não é completo.

- O senhor continua a viver entre nós, ainda que por vezes denuncie a nossa futilidade...

K- Mas eu nada espero. Qualquer que seja o número daqueles que vêm escutar-me- dez, cem ou mil, eu não me deixo arrastar para o entusiasmo nem para a depressão. Esse é o desprendimento do sanyasin.


Egocentrismo


- O instinto de conservação parece engendrar  egoísmo em todos os domínios. Como haveremos de evitar essa armadilha?

K- Porque colocamos sempre o assento no ego ou na existência de uma consciência separada? A estrutura social, no seu conjunto, encoraja o interesse pessoal e esse é um problema de que trata a nossa história - como criar uma sociedade em que o interesse pessoal não seja dominante! Terão as religiões e as seitas, os gurus, ultrapassado, eles próprios, o seu egoísmo? A bem dizer creio que todas as formas de poder, bem longe de acometer esse mal, favorecem a sua expansão.

- Sem dúvida, no interesse do maior número...

K- Sim, o pretenso interesse geral. Um logro destinado a esconder a face daqueles que detêm o poder.
Quer saber como sair dessa armadilha? Muito bem. Cada um deve observar-se a si mesmo e descobrir como é que o egoísmo nasce em si- que forma toma e sob que máscara se dissimula. Eis aí um trabalho que é preciso empreender pessoalmente.

- De facto a nossa abordagem deve ser quase científica e até mesmo impessoal.

K- Exactamente.


Conformismo


- A crer nas suas palavras, o senhor liga o sentido do conformismo ao da violência.

K- O homem conforma-se, por natureza, com as coisas, e o mundo exterior impõe-lhe um modelo específico. A violência provém do facto de ele tentar desesperadamente adaptar-se a esse meio.
Imagine que fez carreira na política; se quiser ter sucesso deve ajustar-se ás exigências desta sociedade, quer sejam ou não justas. Mas cada decisão será para si uma fonte de conflitos sem fim.
Assim, a violência exerce-se a um só tempo sobre o indivíduo e sobre a sociedade.




Terrorismo


- Conhecendo os delitos do nacionalismo que devemos pensar do supra-nacionalismo que utiliza as acções terroristas para atingir os seus objectivos?

K- Qual é o alvo do terrorista? É o de nos apavorar, simplesmente. Qualquer que seja o método empregue- tomada de reféns, assassinato, sabotagem, etc., o terror é um meio muito mais rápido de se chegar aos fins desejados. Porque é que um indivíduo se liga a uma organização terrorista? Porque ele não pode atingir o seu objectivo pelos seus meios habituais. Se me encontro em posição de incapacidade de convencer, imponho-vos as minhas ideias pela força...




Sobre a Censura na União Soviética


- Os seus livros não têm o direito de circular na União Soviética, ainda que as autoridades pareçam tolerar a difusão de outros textos religiosos. Será por que representaria um perigo maior?

K- Estou a par dessa censura. Se o poder autoriza a publicação dos chamados livros religiosos isso deve-se simplesmente a que os considerem como inofensivos. Com relação aos meus escritos eles falam muito de liberdade, e isso nenhum regime ditatorial poderia, naturalmente, suportar. A esse propósito, não resisto ao prazer de lhe contar uma dessas histórias em que os russos são... simplesmente demais!
     Um bêbado percorre a Praça Vermelha a gritar a plenos pulmões: "Brejnev é um louco furioso". A polícia prende-o imediatamente e conduz o homem diante do tribunal. O juiz, após escutar as acusações de que o homem é alvo condena-o a vinte e dois anos de prisão. Aquando da leitura da sentença o pobre homem tenta contestar a sua causa: "admitiria a rigor que me fossem aplicados dois anos por tal delito. Mas assim uma pena tão grande, isso passa dos limites". Você tem razão, replicou o magistrado. Por embriagues na via pública condeno-o efectivamente a dois anos... Quanto aos restantes vinte anos, é a pena que comummente se aplica àqueles que revelam um segredo de Estado!

- Não serão eles sensíveis á clareza e á luz que os seus escritos transmitem?

K- Não querem ser. O seu único desejo é que o seu sistema se perpetue até ao infinito.




O Espirito Humano no Século XXI


- Aproximámo-nos a passos largos do terceiro milénio e, para além das previsões económicas e políticas que tipo de abordagem espiritual deveríamos adoptar para resolver os problemas deste país e do mundo?

K- As dificuldades que a Índia conhece são imensas- pobreza, a explosão demográfica, etc. O nosso governo parece incapaz de os dominar. Por outro lado entramos na idade da informática, e não será de excluir que o ordenador um dia possa vencer o homem. Ele já está mesmo a rivalizar com o cérebro humano; o seu pensamento desloca-se de modo indiferenciado tanto ao passado quanto ao futuro. Que será, então, do cérebro humano? Irá atrofiar-se e desaparecer? E que devemos pensar do nosso sistema pedagógico?
Porque educamos os nossos filhos? Para que eles se tornem bons técnicos e se ocupem exclusivamente em ganhar dinheiro e levar uma vida baseada no prazer? Se a educação não vos ensinar a observar a vida e a compreendê-la, que utilidade, pois, terá?
Você encontra-se todos os anos comigo e depois publica estas entrevistas. Mas haverá mesmo alguém que as leia com profundo empenho?

- Sem dúvida os mais conscienciosos...

K- Mas eles não prestam atenção nenhuma ao que digo. Na verdade ninguém mais quer aprender.




Uma Saudação Final


A última conferência de Krishnamurti em Madras teve lugar a 4 de Janeiro de 1986, á tarde. No dia seguinte, depois do almoço, os professores de Rishi Valley, aos quais nos tínhamos juntado, despediram-se do mestre. No final do encontro destaquei-me do grupo  e dirigi-me a K. Endereçando-me um sorriso, disse: "Ah, estou certo que estava escondido por detrás de todo o mundo". Perguntei-lhe se lhe podia pegar nas mãos. "Naturalmente" respondeu, tomando imediatamente as minhas. Então inclinei a minha cabeça- pelo menos é o que a minha mulher testemunhou mais tarde- até tocar as nossas mãos reunidas, e não tive consciência de mais nada.
K deixou a Índia e foi para a Califórnia onde chegou a 17 Fev. de 86. A pedido da All India Radio, prestei-lhe uma última homenagem pela rádio, no dia seguinte.



                                      
Epílogo


      Alguns anos se passaram já, desde da extinção de Krishnamurti em Fev. 86, com a avançada idade de noventa e um anos, e sem dúvida o leitor poderá questionar-se sobre a pertinência da sua mensagem, em face de uma existência desenfreada como a nossa, em que a desordem parece ocupar o lugar de todo o sentido de orientação.
Numa época em que vemos afundarem os últimos bastiões do totalitarismo, podemos assistir a um despertar da liberdade por todo o planeta. Contudo, o homem, vitima de um formidável condicionamento tende a encarar essa liberdade somente em termos político-económicos, e isso restringe de forma considerável o seu campo de acção. Ainda se vê incapaz de livrar-se da própria ideia de autoridade e de poder aceder a uma liberdade real, mas conquanto disso não seja consciente, ele busca essa liberdade absoluta, em face do que todas as formas de "liberdade" se assemelham a tristes paródias.
Enquanto o desejo de liberdade continuar a preencher o coração do ser humano, as palavras de K conservarão toda a sua força. Não afirmou ele, desde os seus tempos de juventude estar determinado "a libertar o homem de todas as formas de coerção"? Na verdade o homem moderno não acredita em nada mais nem se dispõe a admitir a existência de um Deus que não possa ver com seus próprios olhos. Também não mais aceita a realidade de um paraíso ou inferno de que não possa fazer a experiência directa. Todavia, á medida que essa sua incredulidade aumenta, desaparecem a pretensa moral e os códigos de boa conduta que, adoptaram sob o domínio do medo, ao longo dos séculos. Por outro lado, revela-se muito difícil convencer os nossos contemporâneos da irrealidade do mundo aparente, e de que, a realidade física que percebemos seja em última instância um conjunto de átomos e moléculas dispostas em ordens específicas. O homem não acredita naquilo que não pode ver e sentir por si mesmo. A seus olhos  "ver é crer". Ou seja, não acredita no que não possa verificar através da sua percepção ilusória. A demanda de fé e crença cegas que as religiões tradicionais exigem antes mesmo que os adeptos possam realmente "ver" parece ser incapaz de responder a esse anseio profundo. E a meu ver, somente K o conseguiu. Para ele aquele que crê e aquele que não acredita navegam ambos nas mesmas águas. Um como o outro não poderiam ter a certeza absoluta quanto á objectividade das respectivas proposições, por sua realidade depender estritamente dos seus pontos de vista. E para tal dilema K apontou uma solução simples: "por mais venerável e ancestral que seja determinada verdade, não acrediteis em nenhuma que vos seja imposta do exterior". Pratique-se a dúvida. Mesmo que se tenha atingido uma etapa avançada do desenvolvimento pessoal, continuem a duvidar. Sim, as nossas experiências devem passar pelo caminho da dúvida, porque assim poderemos atingir um estado de vazio livre de todos os condicionamentos, um estado de perfeito desconhecimento e inocência de que brota precisamente toda a verdadeira compreensão. Para lá das sombras da dúvida poderá nascer em nós uma singular certeza e bem no seu íntimo surgirá um sentido de responsabilidade autentica pela criação inteira.
Mas essa certeza não pode ser a alheia, da mesma forma que o nosso desejo difere do dos outros. Devemos fazer uso da dúvida em lugar de acreditar ou não, porque ambos os aspectos procedem do pensamento- precisamente porque somente o coração pode conhecer com profundeza. Devemos descobrir por nós próprios da existência de uma realidade superior e, uma vez fora desse processo de condicionamento total aprender a observar-nos com toda a vigilância necessária.
 Durante todo o nosso tempo de vida dispomos somente disso como utensílio. Então, tudo aquilo que preenche o nosso condicionamento- opiniões, apego, preconceito, ilusões, etc.,- é como que conduzido á superfície para ser, de seguida, volatilizado pela luz da consciência. Só então o indivíduo acede á autentica liberdade. Para uma pessoa livre todo o problema comporta em si mesmo a necessária resolução, que se apresenta espontânea e automaticamente sem a necessidade da mais pequena premeditação.
 O acto que assim brota no instante surge marcado com o cunho de uma liberdade isenta  de toda a contaminação. Não é propriedade da pessoa, pois ninguém pode apropriar-se disso. Desse modo, desenvolvemos um processo interior de visão e de acção que não cessará de se refinar ao longo de toda a vida. Toda a atitude que nascer dessa percepção será fruto de uma sabedoria libertadora.

                                                                                                                                            
                                                                                
                                     



Sem comentários:

Enviar um comentário