quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

KRISHNAMURTI - DIÁLOGOS





Tradução: Amadeu Duarte

Tradução Integral de: "Conversations "

    A meditação é uma forma de transformar completamente as taras e obsessões do homem. O homem acha-se enredado em princípios e ideologias que o impedem de pôr termo ao conflito existente entre ele próprio e o outro: a ideologia da nacionalidade, a ideologia da religião e a sua própria vaidade obstinada tem vindo a destruí-lo. E esse processo destrutivo está a ter avanço por todo o mundo.
Ele tentou pôr-lhe cobro por intermédio da tolerância, da conciliação, pela troca de palavras e planos para salvar as aparências porém continua entrincheirado no seu próprio condicionamento.
A bondade não está no dogma nem na vaidade do princípio nem da fórmula; tais aspectos negam o amor. A meditação consiste no florescimento desse amor.
Ainda era manhã cedo e o vale estava muito sossegado. Até mesmo o mocho tinha parado de chamar o seu par; o seu pio profundo tinha cessado de se fazer ouvir uma hora antes. O sol ainda não se tinha erguido no horizonte e as estrelas ainda brilhavam; uma delas colocava-se por entre as colinas do oeste, enquanto a luz do leste se espalhava lentamente. Quando o sol se ergueu as pedras reluziam cheias de orvalho e os cactos e folhas tornavam-se prateadas de tão polidas que pareciam. A beleza da terra começou a despertar.
Os macacos achavam-se agora na varanda, dois de cabeça vermelha com pelo castanho e caudas não muito compridas. Um catava o outro à procura de insectos e quando os encontrava, tirava-os cuidadosamente e ingeria-os. Não tinham sossego constantemente a saltar da varanda para um ramo de uma árvore grande e a vaguear pelo barranco.
Apesar da aldeia ter acabado de despertar ainda se percebia a quietude da noite; tratava-se de uma quietude peculiar; não era ausência de barulho, nem se tratava da quietude produzida pela mente, concebida a partir da sua tagarelice. Era uma calma que sobrevinha sem ter sido convidada, sem qualquer causa. As colinas, as árvores, as pessoas, os macacos e os corvos que grasnavam, todos faziam parte dela. Essa calma haveria de continuar até á noite. Só o homem parecia não estar ciente disso. Essa calma estaria lá ainda quando sobreviesse a noite e as pedras e a bananeira recentemente plantada haveriam de a testemunhar, bem como aquele lagarto por entre as pedras.


Estavam  quatro ou cinco pessoas na sala. Alguns eram estudantes e outros, empregados com formação universitária. E um dos estudantes disse:

   "Eu escutei-o no ano passado e novamente neste ano. Bem sei que nos encontramos todos condicionados. Estou consciente das brutalidades da sociedade e da minha própria inveja e cólera. Conheço igualmente a história da Igreja com as suas guerras e actividades sem escrúpulos. Estudei História e as guerras infindáveis das crenças entrincheiradas e das ideologias que estão a criar tanto conflito no mundo. Esta loucura do homem- que também me engloba- parece sustentar-nos e parecemos condenados a ela para todo o sempre, a menos, claro, que produzamos uma mudança em nós próprios. É a pequena minoria que verdadeiramente importa- que tendo efectivado uma mudança real- pode fazer algo por este mundo homicida. E alguns de nós viemos, em representação de outros, discutir este assunto consigo. Penso que alguns de nós são sérios mas desconheço até onde nos conduzirá essa seriedade. Por isso, e antes de mais, considerando-nos tal qual somos- meio sérios e algo histéricos e injustos, entusiasmados com as nossas suposições e vaidade- considerando-nos tal qual somos, poderemos realmente mudar? Em caso negativo, haveremos de nos destruir uns aos outros e a nossa própria espécie desaparecerá. Poderá alguma haver reconciliação em todo este terror mas sempre subsistirá o perigo de algum louco atirar a bomba atómica para então nos metermos todos no assunto. Desse modo, percebendo tudo isto- que é bastante evidente- e que tem vindo a ser objecto de atenção de autores, professores, sociólogos, políticos etc., não será possível mudar radicalmente?"

   Alguns de nós não estão muito certos de querer a mudança porque parece que gostamos desta violência, de modo que para alguns chega a ser até proveitoso. E com respeito a outros, tudo o que desejam é permanecer nas suas posições entrincheiradas. Há ainda aqueles que através da mudança procuram alguma forma de hiperexcitabilidade ou sobrevalorização  da expressão emocional! A maior parte deseja o poder, de uma forma ou de outra; poder sobre si, poder sobre outro, o poder que sobrevem com novas e brilhantes ideias, o poder da liderança, fama, etc. Mas o poder político é tão danoso quanto o religioso; nem o poder do mundo nem o da ideologia modificarão o homem. Tampouco a vontade de mudar, o desejo de nos transformarmos, produzirá essa mudança.

   "Posso muito bem  entender isso", disse o estudante. "Mas então, qual será a forma de mudança- se o desejo, os princípios e as ideologias não são o caminho para a mudança? Qual haverá de ser o poder motivador? E mudar para o quê?"

   Os mais velhos presentes na sala escutavam com bastante seriedade, completamente atentos, sem que nenhum voltasse o olhar para ver além da janela o pássaro verde e amarelo pousado num ramo ao sol a lavar-se, a tratar das penas e a olhar o mundo do alto daquela arvore branca, de manhã ainda tão cedo. Um dos mais velhos disse:

   "Não estou completamente certo de desejar mudar. Podia ser que fosse para pior. É preferível esta desordem ordeira do que uma ordem que implique incerteza, insegurança total e caos. Por isso, quando fala de mudança não tenho a certeza de estar de acordo consigo, meu amigo. Aprecio isso como uma ideia especulativa. Todavia uma revolução que venha privar-me do meu trabalho, da minha casa, da minha família, etc. parece-me uma ideia desagradável que não estou certo de querer. Você é novo e pode entreter-se com tais ideias.  Ainda assim pretendo usar de toda a tenção para descobrir qual será o resultado deste debate."

   Os estudantes encararam-no com aquela superioridade da liberdade proveniente do sentido de não se entregar a uma família nem a um grupo nem partido político ou religioso, e responderam que nem eram capitalistas nem comunistas; nem se achavam preocupados com actividades políticas de nenhum tipo. Sorriam cheios de tolerância e certo sentimento de embaraço. Subsistia um certo abismo, uma distanciamento entre a gerações mais velhas e as mais novas, sem que nenhuma procurasse  estabelecer uma ponte entre ambas.

   "Nós somos independentes" continuou o estudante "e portanto não somos hipócritas. É claro que não sabemos o que queremos fazer, mas conhecemos aquilo que não está certo. Não queremos diferenças raciais nem sociais nem estamos preocupados com toda esta crença religiosa pateta, cheia de superstições; nem queremos líderes políticos- muito embora deva haver um género muito diferente de política que impeça a guerra. Assim, estamos verdadeiramente preocupados e queremos envolver-nos numa possibilidade de transformação total do homem. Desse modo, e para colocar de novo a questão: mudar para quê?"

   Seguramente, a segunda questão está envolvida na primeira, não será? Se já soubermos para o que estamos a mudar, isso será, de todo, mudança? Se soubermos o que seremos amanhã então, "aquilo que formos" situar-se-á já no presente. O futuro é o presente; o futuro conhecido é o presente conhecido. O futuro é a projecção, embora modificada, daquilo que é conhecido agora.

   "Sim, percebo isso com toda a clareza. Nesse caso existe somente a questão da mudança e não a definição verbal daquilo para que mudamos. Por isso devemos limitar-nos à primeira questão: como haveremos de mudar? Qual haverá de ser o impulso, a motivação, a força que nos fará quebrar todas as barreiras?"

   Somente a completa inacção; só a completa negação do "que é". Nós não percebemos a enorme força que reside na negação. Se rejeitarmos a estrutura completa do princípio e da fórmula, e do poder que disso deriva, a autoridade, essa mesma rejeição dar-nos-á a força necessária para rejeitar todas as demais estruturas do pensamento. Por via dessa razão obteremos a energia para mudar! A rejeição constitui essa energia.

   "É a isso que chama morrer para a acumulação histórica que constitui o presente?"

   É. Esse acto verdadeiro de morrer significa nascer de novo. Aí têm o completo movimento da mudança- morrer para o conhecido.

   "E essa rejeição consiste num acto positivo definido?"

   Quando os estudantes se revoltam, trata-se de um acto definido e positivo, porém tal acção é bastante parcial e fragmentária. Não consiste numa rejeição total. Quando perguntam se esse morrer, essa rejeição, é um acto positivo- bem, é, e não é. Quando positivamente saem de uma casa para entrar noutra, a vossa acção positiva deixa de ser positiva, completamente, porque abandonaram uma estrutura de poder por outra, a qual terão que abandonar novamente. Assim, esta repetição constante que aparenta ser uma acção positiva, na realidade é uma forma de inacção. Mas, se rejeitarem o desejo e a busca de segurança interior, então tratar-se-á de uma negação total, a qual consiste no mais positivo tipo de acção. Somente esta acção transformará o homem. Se rejeitardes o ódio e a inveja- sob qualquer forma- estarão a rejeitar toda a estrutura daquilo que o homem criou em si e fora de si. É muito simples. Um problema está relacionado com todos os demais problemas.

   "Então é isso aquilo  a que chama ver o problema?"

   Este percebimento revela toda a estrutura e natureza do problema. O "ver" não é analisar o problema; nem está na revelação da causa e do efeito. Está tudo aí, disposto, como se de um mapa se trate. É isso que devem olhar, mas só o poderão ver se não tiverem posição a partir da qual olhem, e é nisto que reside a nossa dificuldade.
   Nós comprometemo-nos; interiormente "pertencer" confere enorme sensação de prazer. Mas quando pertencem a alguma coisa, então torna-se impossível perceber; quando pertencemos tornámo-nos irracionais e violentos- e nesse caso procuramos deter a violência tratando de pertencer a algo mais além daquilo a que pertencemos. E desse modo ficamos presos num círculo vicioso. E isso é o que o homem tem vindo a fazer há milhões de anos, ao que vagamente chama de "evolução".
   O amor não se encontra no fim do tempo; ou existe agora ou não existe. Mas quando não existe vivemos no inferno; mas a reforma desse viver consiste num mero adorno do mesmo.


II


      Na Europa a Primavera começava a dar lugar ao verão. Começava com um vento morno do sul e com o surgimento da mimosa para depois acabar por surgirem as árvores de fruto em flor e o lilás acompanhado do profundo azul do céu. Nós seguíamos em direcção a norte onde a Primavera tardava. Os castanheiros começavam justamente a expor as suas folhas mas ainda não tinham flores. O lírio estava ainda em botão.
E à medida que olhávamos as flores do castanheiro pareciam tornar-se maiores e mais fortes e cobriam a estrada e as vistas através da campina. Achavam-se agora completamente em flor ao longo das avenidas nos bosques e o lilás, que já tinha desbotado no sul, encontrava-se em flor. Havia um lilás branco a uns poucos metros e algumas folhas mas o horizonte parecia coberto de flores brancas. E à medida que avançávamos para norte percebíamos a Primavera a despontar. As tulipas- campos cheios delas- estavam em flor e os patos eram acompanhados pelos seus primeiros pintainhos amarelos, a nadar com rapidez atrás da mãe, na água calma do canal. O lírio ainda se achava em flor e as árvores nuas, e, à medida que os dias decorriam, a Primavera amadurecia. E a terra plana, o  horizonte  vasto e nuvens tão baixas que sentíamos poder tocar-lhes, estendia-se de um lado a outro. Aqui, a Primavera estava em plena glória; não existia separação. A árvore, nós, e aqueles patos com os seus pintos, as tulipas e a vasta expansão do céu- não existia separação. A intensidade da coisa respondia pela cor da tulipa, do lilás e da folha verde delicada, tão vívida e de tal modo que os nossos sentidos eram essas flores, o homem e a mulher que passavam nas suas bicicletas e o corvo a esvoaçar.
   Na realidade não existe separação entre a erva nova, a criança e vós. Não sabemos olhar mas olhar é meditação.

   Tratava-se de um homem jovem, brilhante, de olhos claros e insistentes. Disse ter trinta e cinco anos ou isso e possuir um bom emprego. Não estava preocupado com nacionalismos nem distúrbios raciais nem conflitos de crenças religiosas. Dizia possuir um problema e esperava poder discuti-lo sem se tornar vulgar nem escorregar em expressões ordinárias. Era casado e tinha uma filha adorável e esperava que ela pudesse crescer num mundo diferente.  O problema que carregava era, segundo dizia, sexo. Não se tratava do relacionamento com a mulher nem da existência de uma outra na sua vida. Dizia estar a tornar-se um problema por estar a sentir-se consumido por isso. O seu trabalho- que desempenhava bastante bem estava a ser afectado pelos pensamentos sexuais. Cada vez ele desejava mais- o prazer e a satisfação, a beleza e a suavidade do sexo. Não queria que isso se tornasse um problema, como ocorria com a maior parte das pessoas que, ora se tornavam frígidas ou faziam da vida uma questão de sexo. Amava a sua mulher e sentira estar a começar a usá-la para seu prazer pessoal; e agora o apetite crescia com os anos, sem se deter, tornando-se um fardo.

   Antes de entrarmos nesta questão penso que deveríamos entender em que consiste o amor e a castidade. O voto de castidade não é castidade, absolutamente, porque por detrás das palavras continua a existir a ânsia, e a tentativa de supressão disso, por múltiplas formas, religiosas ou não, constitui uma forma de fealdade que, na sua própria essência não é casta. A castidade do monge, com os seus votos e desafios, é essencialmente mundana- o que é uma coisa impura. Todas as formas de resistência erguem um muro de separação que torna a vida num campo de batalha. E desse modo a vida torna-se completamente impura. Portanto, temos de compreender a natureza da resistência. Afinal, porque razão resistimos? Será isso resultado da tradição, do medo de agir mal ou de  sair da linha? A sociedade imprimiu a sua respeitabilidade de tal modo profundo em nós que só procuramos conforto. Se não resistirmos de todo tornar-nos- hemos desequilibrados? Os nossos apetites aumentarão? Ou essa mesma resistência cria conflito e neurose?
   Caminhar pela vida sem resistência significa liberdade e com liberdade, faça-se o que se fizer, sempre será pura. Os termos castidade e sexo são brutais e não representam a realidade. As palavras são falsas e além disso o amor não reside na palavra. Quando o amor se torna prazer passa a existir dor e medo, mas dessa forma o amor desaparece e a vida torna-se um problema.
Porque será que fizemos do sexo uma questão de tão elevado interesse- não só nas nossas vidas pessoais como também através dos magazines, dos filmes, das fotos e das religiões que o condenaram? Porque deu o homem tão elevada importância a este facto ao invés de outros factos da vida como o poder e a crueldade?
   Negar o sexo constitui uma outra forma de brutalidade; ele está aí; é um facto. Quando nos tornamos escravos intelectuais e repetimos interminavelmente o que os outros disseram; quando seguimos e obedecemos, imitamos,  então toda uma avenida de vida se nos fecha. Quando a acção não passa de uma mera repetição mecânica ao invés de um movimento livre então deixa de existir libertação. Quando passa a existir este impulso incessante de preenchimento, para sermos, então tornamo-nos emocionalmente contrariados e instauramos um bloqueio. Dessa forma o sexo torna-se a questão central, o qual se torna no nosso problema, sem, apesar disso, deixar de se tornar um problema de menor importância. E através do acto sexual dá-se o esquecimento de nós próprios, dos nossos problemas e dos nossos medos. Nesse acto não existe nem mesmo um "eu". Este auto-esquecimento não está só no sexo mas vem também com a bebida, com as drogas, ou com o assistir aos jogos. É este auto-esquecimento que procuramos, identificando-nos com certos actos ou certas ideologias e imagens, razão porque o sexo se torna um problema. Nesse caso a castidade torna-se uma coisa da maior importância bem como a satisfação do sexo- ruminar tudo isso de modo interminável e as imagens intermináveis- isso torna-se igualmente importante.
Quando percebemos toda esta coisa- o que  fazemos do amor, do sexo, da auto-indulgência, os votos que erguemos contra isso- quando percebemos todo este quadro, não como uma ideia mas como um facto actual, então o amor, o sexo e a castidade, tornam-se uma única coisa. Não são distintos. A separação no relacionamento é o que corrompe. O sexo pode ser tão puro quanto o céu azul sem uma nuvem; todavia, a nuvem surge e obscurece o céu, com o pensamento.
O pensamento diz: " Assim, é ser puro;  assado, é indulgência". "Isto tem de ser controlado" ou "Vou me entrega a aquilo". Portanto, o pensamento é o verdadeiro veneno- não o amor, não a pureza, não o sexo. Aquilo que é inocente- o que quer que faça- é sempre puro; mas a inocência não é um produto do pensamento.


III


   "Em que consiste a acção?" perguntou o homem. "E  que coisa é o amor?" Existirá alguma ligação entre eles ou tratar-se-á de duas coisas diferentes?
Era um homem de um porte enorme com um cabelo comprida quase até aos ombros, o que realçava um certo formato de rosto quadrado. Usava calças de veludo e tinha um ar de aspereza. Era suave na fala, de sorriso pronto e mente ágil. Não se achava particularmente interessado em si mas entusiasmado em colocar questões e encontrar as respostas correctas.
   O amor e a acção não são distintos; eles são separados pelo pensamento. Onde existir amor, existirá acção. Mas por si só, a acção possui muito pouco significado. A acção é a resposta ao desafio, mas, essa resposta provém sempre dos antecedentes culturais, das influências sociais e da tradição, pelo que sempre é velha. O desafio é sempre novo, pois de outro modo não poderíamos chamar-lhe desafio. A menos que a resposta seja adequada ao desafio terá de ocorrer conflito, e, portanto, decadência. Ao provir do passado, as nossas acções devem sempre conduzir à desordem e à decadência.

   "Existirá então uma acção que, em si mesma, não seja causa de decadência? E tal acção será possível neste mundo?" perguntou.

Só é possível quando compreendemos a natureza do desafio. Existirá um desafio somente ou antes desafios múltiplos? Ou será que nós traduzimos este desafio por múltiplos desafios fragmentados? Certamente que existe somente um, porém, a nossa mente, sendo fragmentada, traduz aquele desafio em múltiplos e procura responder-lhes por múltiplos fragmentos. E assim, as nossas acções tornam-se uma fonte de contradição e conflito e causa de infelicidade e confusão em todas as nossas relações.

   "Isso posso eu compreender" disse, "a nossa mente é fragmentada; percebo-o com toda a clareza mas, em que consiste este desafio singular?"

É que o homem deve ser total e completamente livre. Não livre de uma dada questão em particular ou uma forma qualquer de escravidão, mas de todas as formas de escravidão e todas as questões. Quando aceitamos o desafio, possivelmente não poderemos interpretá-lo de acordo com qualquer condição cultural ou social. Negar a liberdade é retroceder. Não poderemos aceitar esse desafio- não intelectualmente- mas com o impacto, com a intensidade de uma doença aguda e perigosa? Se não o aceitarmos então estaremos meramente  a agir de acordo com o nosso prazer pessoal ou idiossincrasia, o que escraviza, ou servidão a um padrão particular de pensamento. Se não aceitarmos este desafio- desafio de nos tornarmos completamente livres- então negaremos o amor. Então a acção tornar-se-á uma série de ajustamentos a exigências do meio e da sociedade, com as suas agonias, desesperos e temores.

   "Mas, poderemos ser completamente livres, vivendo como vivemos neste mundo homicida?"

Essa é, certamente, uma questão errada, mera inquisição intelectual detentora de muito pouca validade. Torne-se livre e então amará, seja em que sociedade ou cultura for. Sem liberdade o homem murcha, por mais grandioso que o seu trabalho seja, quer na arte, na política ou na religião. A liberdade e a acção não são distintos. Ser livre é agir; não quer dizer que tenhamos que agir para sermos  livres, procedendo com vista a esse fim. Ame, e o ódio deixará de existir. Porém negar o ódio com vista a poder amar faz parte daquele prazer que foi estabelecido pelo pensamento. Desse modo, liberdade, amor e acção estão interligados, e não temos por que os desligar, nem incluir na actividade política ou social, etc. Estando estabelecida na liberdade, a mente age. E essa acção é amor.





IV


     Passamos aquela aldeia muito conhecida, que se situa ao longo de um ribeiro, que se tornara ponto de procura tanto de inverno como de verão. O carro desfez a curva pela direita e encaminhou-se por um vale de colinas escarpadas de ambos os lados, cobertas de pinheiros. Ocasionalmente percebíamos os pássaros a brincar lá no alto, no topo dos pinheiros. A estrada, que seguia ao longo da corrente, a determinada altura  subia de modo pouco acentuado. Mas podíamos ter subido a ladeira a pé com toda a facilidade.
   Após o que penetramos numa rua sem pavimento, muito empoeirada e acidentada, com enormes buracos com uma corrente azul esverdeada de água a seguir ao longo do percurso. O carro via-se impossibilitado de avançar e o caminho prosseguia através de um pinheiral pouco denso onde muitas das árvores tinham sido desenraizadas recentemente pela tempestade. Esse caminho através do pinhal tornou-se cada vez mais solitário e sossegado. Ali não havia pássaros mas só o som da água a cair de encontro aos rochedos e árvores caídas sobre os grandes pedregulhos. Esse era o único som; aqui e ali a água estava silenciosa em profundos lagos onde podíamos ter-nos banhado, não fosse tão gelada.
   Havia imensa quantidade de flores bravias, amarelas, violetas e cor-de-rosa. Era verdadeiramente um lugar maravilhoso cheio do ruído do riacho a cascatear mais abaixo. Por sobre tudo isso havia aquele estranho silêncio que existia onde o homem não pisou antes. Sentíamos musgo sob os pés e uma árvore meio inclinada estava coberta dele; á luz do sol era bastante brilhante, verde e amarelo. No outro lado da ravina podia-se perceber a luz do sol ao entardecer e o verde brilhante de um prado que se estendia para o céu, intensamente azul. Éramos envolvidos por esse silêncio e permanecíamos ali, tranquilos, a observar a luz, e a prestar atenção à água e ao silêncio intenso que nenhuma brisa perturbava. Era um entardecer encantador e parecia uma pena termos de retornar.
   Era um homem muito novo que, provavelmente, tinha estudado um pouco a natureza humana, não só através de livros como pela observação, e conversando com muita gente. Tinha viajado intensivamente e disse ter encontrado muita gente e achar-se interessado em todo este assunto das relações do homem consigo mesmo. Tinha testemunhado os distúrbios dos estudantes em diferentes partes do mundo, essa explosão espontânea contra a ordem estabelecida, e aparentemente conhecia alguns líderes tanto no sul como no norte.
Importava-se com a descoberta do eu que se acha oculto tanto no inconsciente como nas camadas superiores da consciência, e disse:  "Percebo a necessidade de explorar todo este campo e morrer para ele., de forma a que possa surgir uma coisa nova, porém, não posso morrer por uma coisa que não conheço- o subconsciente, as camadas profundas que permanecem secretamente escondidas que constituem um depósito abismal de coisas desconhecidas ou semi- esquecidas, que respondem ou contraem de uma fonte que permanece encoberta. Muito embora tenha referido que o subconsciente é tão trivial quanto o consciente e que, portanto, é de muito pouca importância; muito embora o tenha comparado a um computador e tenha salientado ser mecânico, apesar de tudo este subconsciente é responsável por toda a nossa conduta e todas as nossas relações. Como poderá chamar a isso trivial? Tem noção do que está a dizer?"

Para podermos compreender tudo isto- que é um problema bastante complexo- é importante olhar toda a estrutura da consciência sem a decompor em consciente nem oculto. Aceitamos esta divisão como sendo natural mas será natural, ou isso é a observação de um fragmento? A nossa dificuldade está em perceber o todo e não o fragmento. Então surge o problema de quem é o observador que observa o todo. Não será também ele um fragmento que só poderá, portanto, olhar de forma fragmentada?

   "Somos nós sempre o todo ou somente fragmentos que agem separadamente e em contradição?"

Devemos ser muito claros neste ponto da questão do todo e do fragmento. Alguma vez poderemos perceber o todo, ou ter um sentimento dele, através desse fragmento? Percebemos a árvore toda ou só um ramo da árvore? Podemos perceber a totalidade da árvore se estivermos a uma certa distância- não demasiado longe nem muito próximo. Se estivermos muito próximos percebemos somente os vários ramos separados.
Desse modo, para percebermos o todo de algo deve existir espaço- não o espaço que o mundo cria- mas o espaço da liberdade. Somente com liberdade poderemos ver o todo. Como o senhor disse, nós estamos sempre a agir sob  a forma de fragmentos, em oposição uns com os outros, ou num fragmento que está em harmonia com um outro fragmento.

   "Toda a nossa vida está dividida em homem de família, homem de negócios, cidadão, artista, sensual, homem bom, etc. Conhecemos unicamente esta acção fragmentada com suas tensões e encantos terríveis."

Estes fragmentos têm os seus próprios ocultos opostos a outros motivos, diferentes e contraditórios, enquanto as camadas superiores da consciência respondem de acordo com estes elementos subterrâneos da oposição do condicionamento. Logo seremos um feixe de motivos e impulsos contraditórios que respondem ao desafio do meio.

   "A mente de todos os dias consiste neste tipo de respostas da presente acção e de conflito, coisa que é realmente perceptível."

Então qual é o problema? O que quer o senhor solucionar ou compreender?

"O problema está em que eu tenho que perceber a totalidade destes motivos todos ocultos e condicionamentos que são responsáveis pelo conflito visível. Por outras palavras devo perceber o chamado subconsciente. Ainda que não me achasse em conflito- e eu estou- mesmo que eu não estivesse em conflito então eu teria de conhecer todo este subconsciente de modo a conhecer-me completamente. Mas alguma vez poderei conhecer-me?"

Ou conhece o que ocorreu ou o que realmente está a acontecer. Para ter consciência do que realmente está a ocorrer olha com os olhos do passado, pelo que não tem consciência do que está a ocorrer. Olhar o presente com os olhos do passado significa deixar de o ver. Assim, o termo "conhecer" é uma palavra perigosa; da mesma forma, todas as palavras são perigosas e falsas. Quando refere querer conhecer-se isso envolve duas coisas. De quem  trata a entidade que diz: "Tenho que me conhecer?", e quem existirá separado dela para poder ser conhecido? Desse modo isso torna-se uma questão absurda! Portanto o observador é a coisa observada. O observador é a entidade que sonha e que se acha em conflito, que deseja conhecer e ser conhecido, a ilusão e a exigência para terminar com a ilusão, o sonho que interpreta uma vez acordado e essa interpretação, que procede do condicionamento. Ele é tudo isso- o analista e o analisado, o experimentador e a experiência. Ele é a coisa toda. Ele é o criador de Deus e o seu adorador. Tudo isso consiste no facto do que realmente tem lugar, o que qualquer pessoa com um pouco de capacidade de observação pode perceber. E assim, em que consiste a questão? Consiste está em sabermos se existirá alguma acção que se ache enquadrada nesta moldura que deixe de criar mais conflito, mais infelicidade, mais confusão e mais caos- não será mesmo, senhor? Ou se existirá algum tipo de acção que seja externo a toda esta acumulação histórica.

   "Está a questionar se não haverá uma parte de mim que opere nesta acumulação que não seja sua acção?"

Está a referir que estou a apontar algum Atman, ou alma, divindade, etc., que exista em min e não seja alcançável?

   "Parece que sim."

Com certeza que não senhor, nem nada que se pareça. Ao colocar semelhante questão na verdade está a repetir toda uma velha tradição de fuga. Porém, devemos pensar em tudo isto de modo renovado ao invés de repetir qualquer superstição gasta pelo tempo. É óbvio que não existe liberdade nenhuma dentro desta moldura do "eu", do ego,  e portanto, gera-se constantemente infelicidade social, pessoal, etc. Alguma vez será possível ver-nos livres disso? Mas nós gastamos as nossas energias com discussões sobre política, sobre religião, sobre a liberdade social, o fim da pobreza e da desigualdade, etc.

   "Eu estou de acordo consigo. Despendemos o nosso tempo com interrogações sobre ser livre para agir ou para alterar a estrutura social e acabar com a desordem social, com a pobreza, a desigualdade, etc., e por isso não estou suficientemente certo de chegarmos a querer ser livres."

 A liberdade residirá dentro desta estrutura do acúmulo do passado ou fora dela? Necessitamos de liberdade porém não pode ser encontrada dentro dessa estrutura. De forma que na verdade, o senhor está a interrogar-se da possibilidade do homem alguma vez poder transcender esta estrutura de modo a tornar-se livre- ou seja, de modo a agir sem ser com base nessa estrutura. Ser, agir e viver fora desta "armação", não é?
Essa liberdade existe mas só poderá suceder somente quando negarmos completamente- sem resistência- negarmos completamente o que realmente existe, sem abrigar nenhum anseio secreto de liberdade.

   "Mas, de que forma poderemos negar isso?"

Não podemos negar isso! Se dissermos que o negaremos encaminhamo-nos de volta para essa "armação". Mas na simples observação daquilo que É reside a liberdade disso mesmo, facto a que podemos chamar "negação" ou outro termo qualquer que quisermos usar. Portanto, perceber torna-se sobremodo importante e não todo este palavreado sem sentido nem astúcia subtil nem as explicações intricadas. A palavra não pode traduzir a coisa não obstante nós deixámo-nos cativar pela palavra ao invés do percebimento.

   "Mas, assim voltamos ao ponto de onde partimos! De que forma poderei perceber a totalidade de mim próprio, e quem o há de perceber, já que o observador é o observado?"

Como já tivemos ocasião de referir anteriormente, o senhor não pode perceber. Só pode existir o perceber, e não o "senhor a perceber". Aquilo que "É" está aí diante dos olhos. Isso é ver; isso é a verdade.

   "Torna-se importante perceber a estrutura que opera ou o conteúdo dessa estrutura?"

Aquilo que importa é perceber o todo- não em termos de estrutura e conteúdo porém perceber que a estrutura consiste no conteúdo e o conteúdo consiste  na estrutura; um não poderá existir sem o outro. De modo que o que é importante é perceber.



V


   O pensamento jamais poderá penetrar suficientemente fundo qualquer problema do relacionamento humano. O pensamento é coisa gasta e superficial e consiste no resultado do passado. E o passado não pode meter pé em coisa alguma que seja inteiramente nova. Pode tentar explicar o "novo" e organizá-lo, comunicá-lo etc., porém a "palavra" não tem essa qualidade de "novidade". O pensamento reside na palavra, no símbolo e na imagem. Mas sem esse símbolo poderá suceder algum pensamento? Nós temos vindo a usar o pensamento para recondicionar e alterar a estrutura social, e sendo uma coisa gasta, reformará a sua estrutura em moldes diferentes baseados no que é gasto. Basicamente, o pensamento é divisivo e fragmentário, pelo que, o que quer que empreenda deverá resultar em separação e ser contraditório. Conquanto possa muito bem explicar a nova estrutura social filosófica ou religiosamente, sempre deverá conter em si a semente  da destruição, da guerra e da violência. O pensamento não consiste no caminho para essa "novidade". Somente a meditação poderá abrir a porta para isso que é perpetuamente novo. Mas a meditação não é nenhum truque que o pensamento possa mover mas sim a percepção da futilidade do pensamento e do funcionamento do intelecto. Tanto o intelecto como o pensamento são necessários para podermos operar qualquer mecanismo, contudo a percepção intelectual é fragmentária para o todo, ao passo que a meditação é essa percepção da totalidade. O intelecto pode operar somente dentro do campo do conhecido e por isso é que a nossa vida se tornou numa rotina monótona de que tratamos de escapar por via da revolta e da revolução- justamente para voltar a cair, uma vez mais, num campo diferente disso que conhecemos. Essa mudança não é uma mudança de todo, uma vez que se trata do produto do pensamento, que é sempre velho. E a meditação consiste no alçar voo do que é sabido. Só existe um tipo de liberdade, que está justamente em ser-se livre do saber. E nessa liberdade residem toda a beleza e amor.

   Tratava-se de um pequeno compartimento sobranceiro a um vale encantador. Ainda era manhã cedo  e o sol começava a irromper por entre as nuvens e a clarear as colinas, os prados e a água corrente por aqui e por ali. Provavelmente choveria mais tarde; talvez viesse a ventanejar porém, por ora o vale encontrava-se sossegado e imperturbado. Os montes pareciam-nos bastante próximos, quase como se pudéssemos tocar-lhes, apesar de se encontrarem lá ao longe, fora de alcance. Percebia-se que nevara por lá, mas agora a neve derretia com o surgimento do sol de verão. Quando o sol  se ergueu as colinas enchiam os vales de sombras intensas e os dentes-de-leão e as viçosas flores silvestres do campo despontariam. Não era uma vale lá muito extenso mas por entre os seus prados corria um veloz ribeiro, carregando o ruído da montanha. Por ora a água achava-se límpida e de um cinzento azulado mas á medida que a neve fosse derretendo ela tornar-se-ia enlameada e veloz. Andava por ali um esquilo de pelo avermelhado e ele sentou-se nas relva a olhar-nos cheio de curiosidade porém, sempre em guarda, pronto a pôr-se em fuga para um ramo alto da árvore. Logo que  o fez, deteve-se e voltou-se para baixo para se assegurar da nossa presença, e continuou com a sua ocupação.

   O compartimento era pequeno; havia por ali umas quantas cadeiras desconfortáveis e no chão havia uma carpete barata. Ele sentou-se na cadeira mais confortável, um homem grande e importante, um grande burocrata, bastante bem colocado. Mas havia alguns estudantes, a anfitriã e mais alguns convidados. O funcionário sentou-se em silêncio, por se sentir cansado. Percorrera um enorme caminho, passara bastantes horas em pleno voo, e agora estava radiante por poder sentar-se numa cadeira mais ou menos confortável.

O estudante começou: "Vocês criaram um mundo péssimo feito de sangue e lágrimas. Tiveram todas as chances de construir um mundo diferente. Foram altamente educados, detêm posições importantes, porém, a despeito de tudo isso são incapazes de fazer o que quer que seja. Na verdade sustentam a ordem estabelecida, com as suas brutalidades e desigualdades e toda a porca confusão social a que presentemente assistimos, ao passo que nós, da geração mais nova desprezamos tudo isso e revoltamo-nos contra isso. Nós estamos cientes de serem todos vocês hipócritas. Recusamos pertencer a qualquer grupo que seja ou a qualquer partido político ou grupo religioso. Não exercemos supremacia de raça nem adoramos deuses, porque vocês nos privaram daquilo que a realidade podia ter representado. Vocês dividiram o mundo em nacionalidades. Mas nós somos contra tudo isso, a despeito de não sabermos o que queremos. Não sabemos para onde nos estamos a encaminhar, mas sabemos muito bem que não queremos aquilo que nos oferecem. E esse abismo que existe entre nós e vocês é na realidade bastante grande; provavelmente nunca poderemos estabelecer uma ponte. Nós somos novos mas acautelamo-nos para não cairmos na armadilha do que está gasto."

   "Mas haverão de cair nela " respondeu-lhe o homem, "só que tratar-se-á de uma nova armadilha. Pode muito bem acontecer que não se matem uns aos outros, e espero que tal não aconteça, porém tratarão de se agredir num diferente nível, talvez não físico mas intelectual, através da palavra, do cinismo e da amargura. Esse tem sido o velho clamor de todas as eras contra as gerações mais velhas, mas actualmente é mais articulado e melhor efectivado. Podem chamar-me burguês pois eu sou-o. Trabalhei duro para produzir um mundo renovado, acalmei todo o antagonismo e  oposição, porém, não é fácil, porque quando duas  posições antagónicas, crenças ou ideologias opostas se debatem, isso dá lugar a sermos odiados, á guerra e á criação de campos de concentração. Nós também estamos contra tudo isso e pensamos mesmo poder fazer alguma coisa quanto a tudo isso mas na verdade sobra-nos muito pouco que possamos fazer."

Ele não estava a defender-se mas simplesmente a denunciar factos simples tal qual os percebia. Todavia, esperto como era, o estudante percebeu isso e sorriu, em desacordo.

   "Não estamos a acusa-lo; não temos nada que ver convosco e aí é que reside a questão. Nós queremos criar um mundo diferente, um mundo de amor; queremos que os assuntos de governo sejam decididos pelos computadores ao invés de o serem pelos interesses e ambição pessoais nem por nenhum grupo, sejam eles religiosos ou políticos. De modo que subsiste este abismo. Tomamos esta posição e dessa forma alguns de nós, pelo menos, não cederemos nessa questão."

    O nosso homem importante deve ter sido novo outrora e cheio de zelo e possuído uma viva curiosidade, porém, agora tudo isso se fora. Que coisa torna a mente embotada? Em breve o clamor das exigências  da geração mais nova acalmar-se-á e eles casarão, terão filhos e passarão a assumir responsabilidades. E o seu espírito perspicaz dará lugar a um embotamento. A seu turno também eles se tornarão burgueses. Talvez alguns escapem a tal agonia- se não se tornarem especializados nem surpreendentemente capazes.

   "Talvez a minha mente tenha perdido alguma da sua elasticidade, da sua chama " disse, "porque não possuo uma verdadeira razão para viver. Costumava ser religioso mas foi-me dado perceber o comportamento de muitos sacerdotes bem posicionados e isso dissipou todas as esperanças que ainda possuía. Depois fartei-me de estudar e de trabalhar e encontro-me ainda a tentar conciliar todos os elementos contraditórios; porém, isso agora faz tudo parte de uma rotina, á medida que me vou tornando ciente de me estar a desvanecer."

   "Claro," disse o estudante, "alguns de nós são muito espertos, aguçadamente inteligentes e capazes de articular as coisas de forma brilhante, porém, posso pressentir perigo no facto de eles se tornarem líderes de sucesso. Passa a existir toda essa veneração pelo herói e a percepção perspicaz e a vivacidade da juventude gradualmente desvanecem-se. Também já me interroguei ocasionalmente da razão por que tudo se torna embotado, murcho e destituído de sentido- o sexo, o amor e a beleza da manhã. Todo o artista deseja poder expressar alguma coisa nova, porém, trata-se sempre de um corpo e uma mente gastos por detrás das pinturas."

   Esse é um dos factores comuns do relacionamento entre os jovens e os velhos- o progressivo contágio do tempo e da tristeza, a ansiedade e a pílula amarga da auto-compaixão. Que coisa torna a mente embotada- esta mente tão extraordinariamente capaz de inventar coisas novas, de ir à lua, de construir computadores; tantas coisas verdadeiramente surpreendentes e quase magicas? Está claro que foi a mente colectiva que produziu o computador e compôs uma sonata. A mente colectiva, o grupo, estão no pensamento comum que tanto pode representar o único como os variados. Por isso não existe nem colectivo nem singular mas somente pensamento. O indivíduo luta contra o colectivo e este contra aquele, porém, aquilo que está numa base comum é o pensamento. E o pensamento é que torna a mente embotada, seja o pensamento pertinente aos interesses do único ou dos muitos, o pensamento do auto-aperfeiçoamento ou da convulsão social. O pensamento segue sempre em busca da segurança- a segurança que uma casa ou a família, uma crença proporciona ou a segurança que negue tudo isso. O pensamento é segurança e a segurança não está somente no passado a partir do que toda a segurança futura pode ser criada, mas também a segurança que procura estabelecer para lá do tempo.
Ficaram todos em silêncio. Pousou um pardal na varanda, onde tínhamos deixado algumas migalhas de pão, e debicou-os. Logo os seus filhotes também vieram a bater as asas para a mãe os alimentar, coisa que fez a um atrás do outro. Para lá da colina esverdeada podíamos perceber um pedaço de céu intensamente azul.

   "Todavia não o podemos empreender sem a acção do pensamento", disse o estudante. "Todos os nossos livros e tudo o que foi escrito no papel é resultado do pensamento. Como pode pretender que isso seja tudo desnecessário? Pelo que refere qualquer educação  seria impossível. Será assim? Isso soa a uma coisa bastante estranha e fantástica. Ainda à pouco parecia tão inteligente, e já está a enveredar por uma forma de primitivismo?"

   De modo nenhum. De qualquer modo, para que somos educados? Pode tornar-se um sociólogo, um antropólogo ou um cientista possuidor de uma mente especializada e trabalhar de modo infatigável sobre um segmento do campo total da vida. Podeis encher-vos de palavras e conhecimento, argutas explicações e racionalização. E até talvez no futuro o computador seja capaz de fazer tudo isso infinitamente melhor do que vós. Por isso, a educação deve possuir um sentido completamente diferente- e não simplesmente transferir o que foi impresso numa página para o cérebro. Pode representar a abertura das portas da percepção para o vasto movimento da vida. Pode significar o aprender a viver de forma feliz e livre, sem ódios nem confusões mas em beatitude. E a educação moderna está a cegar-nos; aprendemos cada vez mais a guerrear-nos, a competir e a guerrear uns aos outros. Mas a educação correcta certamente está em descobrir uma forma diferente de vida, e libertar o espirito do seu condicionamento. Talvez então possa ocorrer o amor, através de cuja acção poderá resultar um relacionamento verdadeiro entre os homens.



1



  -  Eu gostava de dar por mim, subitamente, num mundo completamente diferente, um mundo que fosse supremamente inteligente e possuísse um grande sentido de amor e felicidade. Gostava de passar para a outra margem do "rio" sem ter de lutar para o atravessar nem perguntar aos especialistas como faze-lo. Perambulei por muitas partes diferentes do mundo e pude observar o esforço que o homem empreende nos mais variados campos da vida. E nada exerceu sobre mim alguma atracção excepto a religião. Eu daria qualquer coisa para alcançar a outra margem e penetrar uma dimensão diferente e poder ver tudo com clareza como se pela primeira vez. Tenho um forte pressentimento de que tudo aquilo que não tem valor na vida tem de sofrer uma ruptura brusca. Tem de ser!
   Quando me desloquei recentemente à Índia escutei o sino de um templo a tocar e isso exerceu um efeito muito estranho sobre mim. Fui subitamente acometido por uma extraordinária sensação de unidade e beleza tal como nunca tinha sentido. Isso ocorreu de forma tão súbita que fiquei bastante aturdido como facto; tratava-se de uma coisa real e não um capricho nem uma ilusão. Após o ocorrido surgiu um guia e perguntou-me se me podia mostrar os templos e nesse mesmo instante vi-me de volta ao mundo do ruído e da vulgaridade. Eu queria recuperar isso de volta mas, como diz, é claro que isso não passa de uma lembrança morta e como tal destituída de valor. E sendo assim, que coisa poderei fazer ou deixar de fazer para alcançar essa outra margem?

Krishnamurti-  Não existe caminho nenhum para essa outra margem; não existe acção nem conduta nem remédio que abra a porta para essa outra margem. Nem compreende ela processo nenhum de evolução. Não reside no fim de nenhuma disciplina, nem pode ser obtido por preço nenhum,  ser dada ou convidada. Se isso resultar claro ao entendimento- se a mente se tiver esquecido de si e deixar de se referir à outra ou a esta margem- se a mente se detiver de andar às apalpadelas em busca dela; se a mente possuir um vazio completo e espaço- nesse caso e só nesse caso ela passará a existir.

- Verbalmente, eu compreendo aquilo que me está a dizer, todavia não consigo conter a ânsia que sinto e parar de andar às apalpadelas devido a que bem lá no fundo não possa acreditar que não existe nenhum caminho ou disciplina, acção que me leve para a outra margem.

Krishnamurti-  Que quer dizer com isso de "não acreditar que não haja um caminho"? Quererá dizer  que espera que algum professor o conduza pela mão e o faça transpor esta margem?

- Não. No entanto tenho esperança que alguém que seja dotado de compreensão ma aponte directamente, porque a ser real, ela tem de existir o tempo todo.

Krishnamurti-  Com certeza tudo isso não passa de uma suposição. O senhor teve essa sensação súbita da realidade ao escutar o sino do templo, porém, como disse atrás, isso não passa de uma lembrança a partir do que  é levado a tirar conclusões de que por se tratar de uma coisa autentica, tem de existir, o tempo todo. Mas a realidade é coisa bastante peculiar; ela torna-se presente quando não a encaramos, mas quando tentamos vê-la- com base no anseio  da cobiça- aquilo que captamos é somente um sedimento dessa cobiça e não essa realidade.   O Real é uma coisa viva que não pode ser capturada, de modo que não podemos afirmar que exista, o tempo todo. Existe unicamente caminho para aquilo que está estacionado, como um ponto fixo, estático. Mas como poderá haver um guia ou um caminho para uma coisa que é vivente, que está em constante movimento e não possui pouso? A mente acha-se de tal modo ávida para o atingir e o entender que faz disso uma coisa inerte. Por isso, não poderá pôr de lado toda a lembrança desse estado por que passou? Consegue deixar de lado o mestre, o caminho, o alvo- deixar isso tudo tão completamente de lado que a sua mente se esvazie de toda esta busca? Porque presentemente a sua mente encontra-se de tal forma ocupada com essa exigência esmagadora que a própria ocupação se torna uma barreira, e o senhor não pára de buscar, questionar, ansiar por percorrer a outra margem. Mas a outra margem implica  a existência "desta margem", e para alcançarmos a outra margem a partir desta exige-se tempo e espaço. E é isso que o está a prender e a produzir toda a dor que sente por essa outra margem que não é capaz de alcançar. Nisso consiste o verdadeiro problema- o tempo que se torna divisivo e o espaço que separa; o tempo que leva a alcançá-la e o espaço que circunscreve a distância entre si e ela.
Isto deseja tornar-se aquilo mas percebe que a empresa se torna impossível devido à distância que compreende e ao tempo que leva a percorrer essa distância. Nesse processo existe não só comparação como também medida, mas a mente que tem tendência de empregar uma medida torna-se igualmente susceptível a toda a ilusão. E essa divisão que sofre, de tempo e de espaço, entre isto e aquilo, é o único procedimento que a mente pode assumir, que é constituído de pensamento.
Não sabe que quando sentimos amor a sensação de espaço e de tempo desaparece? Unicamente quando o pensamento ou o desejo se imiscuem  é que sucede a noção da existência de um período de tempo a ser transcendido. Mas quando percebemos isso, então isto torna-se aquilo.

-  Mas, eu não percebo isso assim. Pressinto que o que me está a dizer seja verdade, porém, isso cria-me ilusão.

Krishnamurti-  Olhe senhor, você está tão impaciente! Essa mesma impaciência comporta a própria agressividade, e o senhor não pára de atacar e opor afirmações à questão; não se detém para poder encará-la, para a poder escutar e sentir a coisa bem no íntimo. Prefere procurar alcançar essa outra margem a qualquer custo e para isso nada com todo o frenesim, sem saber onde essa outra margem se situa. Pode ser que ela seja esta mesma margem, e desse modo se esteja a afastar dela. Se me permite que o sugira: pare de nadar. Não quero dizer que deva tornar-se embotado sem fazer nada, num estado vegetativo, antes que deve desenvolver uma atenção passiva destituída de toda escolha e medida- e esperar para ver o que acontece. Pode ser que não ocorra nada, mas se ficar à espera que esse sino volte a tocar, se ficar à espera que essa sensação de deleite volte a acometê-lo de novo nesse caso conduzir-se-á- a nado- no sentido da direcção oposta. Ficar em silêncio requer enorme energia; ao passo que nadar leva a dissipá-la. Para alcançar o silêncio da mente necessita de toda as suas energias; mas somente através do vazio absoluto é que toda a coisa nova pode eclodir.


2


   Interrogante-   Todas as pessoas ditas religiosas possuem uma coisa em comum e eu posso perceber isso na maioria das pessoas que o vêm escutar. Todas elas estão à procura de algo que, de modo variado, chamam de nirvana, libertação, iluminação, auto-realização, eternidade ou Deus. O seu objectivo é definido e tornado real para elas através dos mais variados ensinamentos ou sistemas, cada qual com a sua colecção de livros sagrados, disciplinas, mestres, moralidade, filosofia, promessas e ameaças- o que forma um caminho estreito e directo que exclui o resto do mundo e promete um certo tipo de céu ou outra coisa qualquer, no final. A maior parte destas pessoas que se encontram em busca deslocam-se de um sistema para outro, e substituem os ensinamentos mais recentes por aqueles que recentemente abandonaram. Movem-se de uma orgia emocional para outra sem terem noção de que, através de toda a busca se faz presente o mesmo processo. Alguns permanecem num dado sistema com um grupo e recusam-se a mexer-se. Outros, eventualmente acreditam ter realizado o que quer que acreditavam querer realizar e passam a despender os seus dias em alguma espécie de retiro de beatitude e atraem, por seu turno, um grupo de discípulos que vão, por sua vez, uma vez mais iniciar o ciclo todo. Mas em tudo isso se torna presente uma cobiça compulsiva a fim de atingir algum tipo de realização e, habitualmente, o desapontamento amargo e frustração do fracasso.
Tudo isso parece bastante doentio. Essas pessoas sacrificam a sua vida ordinária por um objectivo qualquer imaginário de modo que nesse ínterim isso provoca a sensação mais desagradável: fanatismo, histeria, violência e estupidez. Surpreende-nos que encontremos nas suas fileiras alguns bons escritores, que de outro modo pareceriam bastante saudáveis. E chama-se a tudo isto religião. Mas isso tresanda tudo até á sua quintessência. Isso é o incenso da piedade. Já pude observar isso por toda a parte. Esta busca pela iluminação provoca grande caos e as pessoas sacrificam-se ao próprio despertar. Mas eu gostava de lhe perguntar se na verdade existirá alguma coisa como iluminação, e a existir em que consiste.

Krishnamurti-  Se se tratar de um escape do viver diário- sendo o viver diário o extraordinário movimento do relacionamento- então essa chamada auto-realização, essa chamada iluminação ou o nome que preferir dar-lhe, não passará de uma ilusão e uma forma de hipocrisia. Tudo o que negue o amor e a compreensão da vida e da acção está destinado a criar enorme confusão e distorce a mente, o que tornará a vida numa coisa horrível. De modo que se tomarmos isto como um axioma então talvez possamos continuar a investigar se a iluminação- com tudo o que queira dizer- poderá ser descoberto no próprio acto de viver. Porque, afinal de contas, o viver é muito mais importante do que qualquer ideia, alvo ou princípio. Mas devido a desconhecermos em que consista o viver é que inventamos estes conceitos visionários que nos oferecem uma fuga. A questão que importa consiste em saber se poderemos encontrar no viver e através das actividades de todos os dias uma iluminação, ou se isso se destina a uns quantos que são investidos de alguma capacidade extraordinária para descobrir tal beatitude. A iluminação significa sermos uma luz em nós próprios, mas uma luz que não proceda de uma projecção pessoal nem seja fruto da imaginação; uma luz que não seja uma idiossincrasia pessoal. Afinal de contas, isso foi sempre o ensinamento da religião autêntica, ainda que não por meio de uma crença organizada nem medo.

-  O senhor referiu o ensinamento d verdadeira religião. Mas isso origina a criação imediata de um campo de especialistas e profissionais distinto do resto do mundo. Quererá dizer que a religião está separada da vida?

Krishnamurti-  A religião não está separada da vida; antes pelo contrário, ela é a própria vida. Essa divisão entre a religião e a vida é que produziu toda essa infelicidade de que está a falar. De modo que voltamos à questão básica de saber se será possível vivermos uma vida diária num estado que, por ora chamaremos de iluminação.

-   Continuo sem saber o que quer dizer com iluminação.

Krishnamurti-  Um estado de negação. A negação constitui o acto mais positivo e forma de asserção. É muito importante que compreendamos isso. A maioria aceita muito facilmente o dogma positivo, uma crença positiva devido a querermos preservar a segurança, ou identificar-nos, ligar-nos, depender de algo. Mas toda a atitude positiva tende a dividir e a produzir dualidade. E então instala-se o conflito entre essa atitude e as demais. Porém, a negação de todos os valores e de toda a moralidade, de todas as crenças, viver sem restrições, isso não pode existir em oposição ao que quer que seja. Uma declaração positiva, pela própria definição, cria separação e a separação consiste numa forma de resistência. É claro, nós estamos acostumados a isto, pois faz parte do nosso condicionamento. Prover à negação de tudo isso não significa um acto imoral; antes pelo contrário, negar toda a divisão e resistência constitui a mais elevada forma de moral. Negar tudo aquilo que foi inventado pelo homem, todos os seus valores, ética e deuses, significa permanecer num estado mental destituído de toda a dualidade, de modo a não subsistir nenhuma forma de resistência nem conflito entre os opostos. Nesse estado não existem opostos, e tampouco ele representa o contrário de alguma outra coisa.

-  Mas então como haveremos de distinguir o que seja bom do que seja mau? Ou será que não existe nem bom nem mau? Que será que haverá de me impedir de toda a criminalidade ou até mesmo de cometer um assassinato? Se eu não possuir uma referência, um modelo ou valor, que me impedirá sabe Deus de que aberração?

Krishnamurti-  Negar isso tudo é negar a nós próprios, sendo que nós somos a entidade condicionada que persegue permanentemente o bem condicionado. Para a maioria de nós a negação perece um vácuo por que só conhecemos a actividade circunscrita à nossa prisão do nosso condicionamento, medo e infelicidade. Encaramos a negação a partir dessa perspectiva e depois imaginamo-la um estado  terrível de esquecimento e vazio. Para todo o que procedeu à negação de todas as formas de asserção da sociedade, da religião, da cultura e da moralidade, aquele que se acha preso no conformismo social representa um homem que vive no sofrimento. A negação é o estado de esclarecimento que funciona através de todas as actividades do indivíduo que se acha liberto do passado. O passado, com a sua tradição e autoridade que tem de ser negado. A negação significa liberdade e só o indivíduo que for livre poderá viver e amar, e conhecer o significado do morrer.

- Até aí tudo bem; mas o senhor não fez nenhuma menção ao aspecto transcendental, divino, ou como quiser chamar a isso.

Krishnamurti-  Só poderemos encontrar uma indicação disso  unicamente em pose de liberdade; mas toda a declaração  que se pronuncie com relação a isso representará uma negação da liberdade e tornar-se-á numa comunicação verbal destituída de sentido. Isso existe porém não pode ser encontrado nem convidado, muito menos aprisionado em sistema algum nem emboscado por meio de nenhum golpe de esperteza da mente. Não está nas igrejas nem nos templos nem mesquitas. Não existe caminho para isso nem guru nem sistema algum que nos possa revelar a sua beleza. O seu êxtase sucede quando alcançamos o amor. A iluminação (entenda-se por esclarecimento) é isso.

-   Será que isso trás algum novo entendimento sobre a natureza do universo ou a consciência e a existência? Todos os textos religiosos estão cheios desse género de coisa.

Krishnamurti-  Isso assemelha-se a fazer perguntas relacionadas com a outra margem enquanto estamos a viver e a sofrer nesta. Quando estivermos na outra margem sentimos ser tudo e nada ao mesmo tempo, mas não formulamos tais questões. Todas essas questões são do foro desta margem e na verdade são completamente destituídas de significado. Trate de começar a viver e poderá descobrir que se encontra lá sem ter de fazer perguntas nem procurar com respeito; sem sentir medo.



3


- Percebo a importância de pormos fim ao medo, à tristeza, à raiva e toda a labuta do homem. Percebo que temos de estabelecer os fundamentos do comportamento correcto, o que geralmente se designa por correcção, e vejo que nisso não pode existir ódio nem inveja nem a brutalidade em que o homem conduz a sua existência. Percebo igualmente que temos de ter liberdade- não relacionada com qualquer questão em particular, porém liberdade em si mesma- de modo que um indivíduo não se sujeite constantemente à prisão das próprias exigências e desejos. Tudo isto eu posso perceber com toda a clareza e esforço-me- embora talvez possa não gostar da palavra esforçar-me- por viver à luz desta compreensão. Em certo sentido eu penetrei fundo sobre mim próprio. Não me apoio em nenhuma das coisas deste mundo, tampouco na religião. No entanto gostaria de perguntar: Se defendermos como certo que o homem seja liberto de toda a confusão e tristeza da vida, não só externamente mas também interiormente, que coisa permanecerá para além desse muro? Quando emprego o termo "muro" refiro-me ao medo, tristeza e a constante pressão do pensamento. Mas que coisa mais existirá que possa ser percebida quando a mente estiver em silêncio e não estiver comprometida com nenhuma actividade particular?

Krishnamurti-  Que quer dizer quando refere: "o que mais existirá"? Refere-se a alguma coisa que se posa perceber ou sentir, experimentar ou compreender? Por acaso estará a referir-se indirectamente ao que seja a iluminação? Ou ao que possa existir no outro lado quando a mente se acha realmente imóvel?

-  Eu quero-me referir a tudo isso. Quando a mente se acha imóvel parece não existir coisa nenhuma. Tem que existir algo tremendamente importante a descobrirmos para além de todo o pensamento. Tanto o Buda como um ou outro indivíduos referiram-se a esse "algo tão imenso" que eram incapazes de  expressar por palavras. O próprio Buda disse: " Não queiram medir i imensurável por palavras". Todos  passam por estados em que a mente se encontra perfeitamente serena, no entanto, não existe nada realmente extraordinário com relação a isso; trata-se unicamente de esvaziamento. No entanto subsiste a sensação da existência de algo mesmo ao dobrar da esquina que, uma vez descoberto, é capaz de nos transformar toda a vida. Aquilo que as pessoas referiram deixa perceber que necessitamos de uma mente serena para o podermos descobrir. Percebo do mesmo modo que só uma mente sem desordem e serena poderá ser eficiente e ter percepção disso. Mas deve existir algo mais além da mente serena e destituída de desordem e confusão- alguma coisa muito para além da mente revigorada, até para além da mente capaz de ternura.

Krishnamurti-  Assim, de que trata a questão agora? Declarou que necessitamos de uma mente serena, sensível e alerta, não somente para se tornar eficiente como também para perceber as coisas ao nosso redor e em nós próprios.

-  Os cientistas e os filósofos estão todos continuamente a desenvolver alguma coisa nova. Alguns são extraordinariamente brilhantes e outros são mesmo justos. Mas se analisarmos tudo aquilo que desenvolveram ou criaram ou exprimiram, na verdade não se trata de grande coisa, e com toda a certeza não contém nenhuma intimação do divino.

Krishnamurti-   Estará a referir-se à questão de descobrirmos se existe alguma coisa de sagrado para lá de tudo isto, uma dimensão diferente em que a mente seja capaz de perceber  algo que não  seja uma formulação proveniente  da astúcia do intelecto, em que possa permanecer? Estará a questionar, com todo esse rodeio, a existência ou não de determinada coisa que seja suprema?

-  Muita gente se referiu já, de modo completamente convincente, á existência de um tesouro magnífico que constitui a séde da consciência. E todos concordam quanto à possibilidade de não poder ser descrito, mas não estão de acordo quanto ao modo de o perceber. Todos eles parecem pensar que o pensamento deve deter-se para que isso se possa manifestar. Outros dizem que se trata daquilo  de que o próprio pensamento é constituído, etc., etc. Mas todos concordam que não vivemos de verdade a menos que o tenhamos descoberto. E aparentemente o senhor refere mais ou menos a mesma coisa. Porém, eu não sigo nenhum método de disciplina nem sistema, guru ou crença. Não preciso de nada disso para me fazer perceber a existência de qualquer coisa de transcendental. Quando observamos um rosto ou uma folha tomamos consciência da existência de algo muito mais elevado do que o que as explicações científicas ou biológicas fornecem sobre a existência. Parece-me que o senhor bebeu nessa fonte. Nós escutamos aquilo que tem referido e percebemos de que modo revela a trivialidade e a limitação do pensamento. Depois reflectimos e alcançamos uma nova serenidade que termina com o conflito. Mas, e depois?

Krishnamurti-  Porque pergunta isso?

-  Está a perguntar a um cego porque razão quer ele ver.

Krishnamurti-  Não formulei a pergunta com o sentido de uma jogada de xadrez nem tampouco para referir que a mente serena não formula pergunta completamente nenhuma mas para descobrir se está realmente em busca de alguma coisa transcendental. Se estiver, que motivo terá por base dessa busca- será mera curiosidade, ou uma premência por descobrir, o desejo de perspectivar tal beleza de um modo como nunca antes terá sido encarado? Não será para si importante descobrir, por si mesmo, se não estará simplesmente em busca de "mais" ou se está em busca de perceber exactamente o que ocorre? Porque ambas as preposições são incompatíveis. Se puder colocar de lado o aspecto do "mais", então nesse caso só nos interessa isso que ocorre quando a mente está em silêncio. Que acontece realmente quando a mente permanece verdadeiramente em silêncio? Será isso que interessa e não o que seja transcendental ou resida para além?

- A minha pergunta centra-se naquilo que residirá para lá.

Krishnamurti-  O que reside para além disso só poderá ser descoberto se a mente estiver serena. Pode ser que exista algo para lá disso, ou nada completamente. Portanto a única coisa que conta é que a mente permaneça serena. Uma vez mais, se nos preocuparmos com o que resida para lá disso, então não terá interesse por esse acesso, conquanto aquilo que importa é o próprio acesso, a própria serenidade. Por isso não deve fazer perguntas sobre o que reside mais além. A única coisa que importa é que a mente permaneça serena e imóvel. Então o que é que ocorrerá? Isso é tudo o que nos interessa, e não aquilo que pode residir para além do silêncio.

-  Tem razão. Na verdade não sinto qualquer interesse pelo silêncio excepto como uma forma de acesso.

Krishnamurti-  Mas como é que sabe que se trata de um acesso e não a própria coisa? Os meios são o fim; não se trata de duas coisas distintas. O silêncio é um facto singular; não se trata do que possa descobrir por intermédio dele. Permaneçamos com o facto para podermos ver em que se constitui de verdade. É da maior importância- talvez seja mesmo a coisa mais importante- que esse silêncio constitua um silêncio em si mesmo ao invés de ser uma coisa induzida como um meio designado para atingir um determinado fim, nem uma coisa induzida por acção de qualquer droga, disciplina ou repetição de palavras.

-  O silêncio procede de si próprio, destituído de motivo e de causa.

Krishnamurti-  Mas o senhor está a utilizá-lo como um meio.

-  Não. Eu já experimentei o silêncio e comprovei que não acontece nada.

Krishnamurti-  É isso que estou a dizer. Não existe nenhum outro facto além do silêncio que não é convidado, nem induzido, procurado, mas que resulta da observação e da compreensão de nós próprios e do mundo ao nosso redor. E isso ocorreu sem a concorrência de nenhum motivo que o tivesse produzido. Se subsistir a menor sombra ou suspeição de motivação, então nesse caso esse silêncio será direccionado e deliberado e não representará verdadeiramente um silêncio. Se puder dizer com toda a honestidade que tal forma de silêncio é livre, então o que ocorrer no seu âmbito representará a nossa única fonte de interesse. Qual será a qualidade e textura desse silêncio? Não deverá ser superficial, passageiro e mensurável? Será que teremos consciência dele quando ele termina ou durante a o tempo em que ocorre? Se tomarmos consciência de termos estado em silêncio, então nesse caso deverá tratar-se de uma lembrança, e por isso, uma coisa morta. Se tomarmos consciência desse silêncio enquanto ocorrer, poderá então tratar-se de silêncio? Se não subsistir qualquer observador- ou seja, nenhum feixe de recordações- nesse caso poderá tratar-se de silêncio? Tratar-se-á de alguma coisa intermitente que sobrevenha e  se esvaia de acordo com a química do nosso organismo? Será que ele sobrevem quando está só ou na presença de pessoas, ou ainda quando procura meditar? Aquilo que estamos a procurar perceber é a natureza desse silêncio. Será ela rica ou pobre? (Não me refiro a uma riqueza de experiência nem pobreza advinda de não ser educada.) Será plena ou superficial? Será uma coisa inocente ou concatenada pela vontade? Pode ser que a mente considere determinado facto sem conseguir perceber-lhe a beleza nem a profundeza, a qualidade desse facto. Não será possível observar o silêncio sem observador? Quando o silêncio ocorre, sucede somente silêncio, sem mais nada. Então, que acontece nesse silêncio? Será isso que está a questionar?

-  Com certeza.

Krishnamurti-  Não poderá suceder uma forma de observação do silêncio levada a cabo por esse silêncio, em silêncio?

-  Essa é uma outra questão.

Krishnamurti-  Não se trataria de nenhuma outra questão se tivesse vindo a acompanhar-me. Tudo permanece em silêncio: a totalidade do cérebro, a mente, as sensações, o organismo, tudo. Será que essa quietude, serenidade, não conseguirá observar-se sem o fazer na qualidade de um observador imobilizado? Será que a inteireza desse silêncio não poderá olhar a própria totalidade? O silêncio torna-se consciente de si próprio- e nesse processo não acontece nenhuma divisão entre o observador e a coisa observada. Essa é a questão primordial. O silêncio não faz uso próprio a fim de descobrir algo para além de si mesmo. Existe somente silêncio. Depois veja o que é que ocorre.



4

-  Adquiri um hábito que se tornou predominante. Possuo outros hábitos, contudo, são de menor importância. Mas este, tanto quanto me posso lembrar, eu tenho tratado de combater. Ele deve ter sido cultivado na tenra infância. Nessa altura ninguém perece ter-se apoquentado o suficiente para o corrigir, e à medida que eu ia crescendo, foi tornando-se gradualmente cada vez mais arraigado. Por vezes desaparece somente para voltar de novo. Pareço incapaz de me ver livre dele. Gostaria de o dominar totalmente e até já se tornou uma mania que adquiri, essa de suplantar a questão desse hábito. Que hei de fazer?

Krishnamurti-  Por aquilo que refere, durante longos anos caiu numa forma de  hábito e agora cultiva outro hábito; o hábito de lutar contra ele. De forma que tenta ver-se livre de uma forma de hábito através do cultivo de outro, que consiste na negação do primeiro. Assim, está a combater um hábito com outro. E quando não consegue ver-se livre do primeiro hábito, sente-se culpado, envergonhado, deprimido e até talvez zangado consigo próprio, devido à própria fraqueza. Mas quer um quer o outro hábito são como os dois lados da mesma moeda: sem o primeiro, o segundo não existiria, de forma que o segundo na realidade é uma continuidade do primeiro sob a forma de reacção. Assim agora tem dois problemas ao passo que antes só tinha um.

-  Eu sei o que vai dizer porque estou ao corrente do que costuma referir acerca da atenção, todavia, eu não consigo estar o tempo todo consciente.

Krishnamurti-  Assim então põe diversas coisas em acção ao mesmo tempo: Antes de mais, o hábito original, depois o desejo de se livrar dele, depois o sentimento de frustração pelo falhanço nesse sentido, e por fim a resolução de estar sempre consciente. Este encadeamento surge devido a que deseje livrar-se daquele simples hábito;  porque se tornou a sua conduta primordial e por estar constantemente a balançar entre o hábito e a luta contra ele. Parece não perceber que o verdadeiro problema reside em contrair hábitos, bons ou maus, e não determinado hábito. De modo que na realidade a questão consiste em saber se será possível rompermos um determinado hábito sem esforço e sem cultivarmos o seu oposto, nem o suprimirmos por meio de uma vigilância ininterrupta, que consiste numa forma de resistência. Porque a vigilância ininterrupta consiste simplesmente num outro hábito, já que é criada pelo hábito que pretende transpor.

-  Refere-se à possibilidade de eu me livrar do hábito sem ter de criar todo este complicado encadeamento de reacções ao mesmo?

Krishnamurti-   Enquanto pretender livrar-se dele, essa complicada rede de reacções estará na verdade a operar. Porque o querer livrar-se disso é, na verdade, esse encadeamento reaccionário. De modo que realmente não terá feito cessar essa reacção fútil ao hábito.

-  Mas, é suposto  que eu faça alguma coisa com relação ao facto, do mesmo modo!

Krishnamurti-  Isso é um indício do domínio que este desejo exerce sobre si. Nem esse desejo nem as suas reacções são diferentes do hábito, e eles nutrem-se uns dos outros. O desejo de ser superior não é distinto de ser inferior, de forma que o superior é  inferior. O santo é o pecador.

-  Será então que não devo fazer coisa nenhuma com respeito ao assunto?


Krishnamurti-  Aquilo que está a fazer é cultivar um outro hábito em oposição ao velho.

- Então se não fizer nada, só me restará permanecer com o hábito, de forma que voltaremos ao ponto de partida.

Krishnamurti-  Estaremos de facto? Ao tomar consciência de que aquilo que faz para romper o hábito consiste no cultivo de outro hábito, só poderá resultar um tipo de acção, que consiste em fazer completamente nada contra tal hábito. Porque o quer que faça  circunscrever-se-á no padrão dos hábitos, de modo que, não fazer nada, com o sentimento de que não tem de lutar com ele, constitui a atitude mais inteligente. Se tomar qualquer atitude positiva voltará ao campo dos hábitos. Se perceber isto com toda a clareza brotará imediatamente uma enorme sensação de alívio e de grande leveza e perceberá então que o combate de um hábito com o cultivo de outro não implica o término do primeiro, de modo que deixa de o combater.

- Nesse caso somente permanecerá o hábito, sem qualquer resistência ao mesmo.

Krishnamurti- Qualquer forma de resistência alimentará esse hábito, o que não quer dizer que o preserve. O senhor toma consciência do hábito assim como do cultivo do seu oposto, o que também constitui uma forma de hábito, e tal atenção revelar-lhe-á que, o que quer que faça com respeito ao hábito, constituirá uma formação de outro hábito.  Assim, após terem observado todo este processo, a sua inteligência dir-lhe-á para não fazer nada com relação a este hábito. Não lhe dê nenhuma relevância. Não se deixe preocupar com isso porque, quanto mais se deixa preocupar com isso, mais activo ele se torna. Então, a inteligência estará a operar e a observar. E tal observação é inteiramente distinta da vigilância de resistirmos ao hábito ou de lhe reagirmos. Se conseguir alcançar o sentimento  dessa observação que a inteligência empreende, então esse sentimento operará e será capaz de lidar com esse hábito ao invés da vigília da determinação ou da vontade. Portanto, o que importa não é o hábito mas a compreensão do hábito, que produz inteligência. E esta inteligência sustenta-se desperta sem o combustível do desejo, que consiste numa forma da vontade. No primeiro exemplo o hábito é confrontado com resistência e no segundo já não é, e nisso reside a inteligência. A acção da inteligência terá feito murchar a resistência ao mesmo hábito, resistência de que esse hábito de nutria.

- Quererá dizer que me livrei do meu hábito?

Krishnamurti-  Avance devagar, não seja tão apressado nessa assunção de ter que se livrar disso. O que é mais importante do que o hábito é a compreensão, que é inteligência. Tal inteligência é sagrada e, como tal, tem de ser tratada com mãos impolutas, ao invés de ser explorada para fins triviais. O seu pequeno hábito é completamente destituído de importância. Se a inteligência operar, o hábito tornar-se-á trivial; se não operar, então nesse caso tudo o que lhe restará será o encadeamento dos hábitos.



5


Pergunta-  Tomo consciência de me tornar terrivelmente apegado às pessoas e dependente delas. E este apego desenvolve-se nas minhas relações para uma espécie de exigência possessiva que produz uma sensação de domínio. Uma vez consciente dessa dependência e percebendo o desconforto e a dor que isso provoca procuro tornar-me desapegado. Sinto-me então terrivelmente só e, incapaz de fazer face à solidão, procuro escapar dessa situação através da bebida e variadas outros modos. Contudo, não me satisfaço meramente com relações casuais e superficiais.

Krishnamurti-  Primeiro molda-se o apego, depois esforçamo-nos para nos tornarmos desafeiçoados, e de todo este esforço resulta um conflito mais profundo, que consiste no temor da solidão. Assim, que tratará a sua questão? Que coisa estará a procurar aprender ou descobrir? O senhor acha-se dependente  tanto do meio como das pessoas. Não será possível tornar-nos livres, não somente com relação ao meio e às pessoas, mas em nós próprios, de forma que não dependamos de coisa nenhuma nem ninguém? Não poderemos fruir de uma alegria que não resulte do meio nem das pessoas? Porque o meio que nos rodeia está sujeito à mudança, do mesmo modo que nós, e depois, se dependermos delas  a elas ficaremos presos, ou então tornamo-nos indiferentes, insensíveis, cínicos e rudes. Portanto, não se tratará de poder viver uma vida de liberdade e alegria que não resulte do meio,  humano ou outro qualquer? È uma questão muito importante. A maior parte dos deres humanos tornam-se escravos da família ou das suas circunstâncias, e depois querem mudar essas circunstâncias e as pessoas, esperando por esse processo poder encontrar alegria e uma vida mais livre e aberta. Mas ainda que consigam criar o seu próprio ambiente ou escolher as suas próprias relações, logo virão a depender de novo do seu novo ambiente ou novos amigos. Mas, será que a dependência poderá de algum modo trazer-nos alegria? Essa dependência assume igualmente os contornos dos impulsos pela expressão própria, ou por nos tornarmos alguém. Aquele que possui determinados dons ou capacidades depende deles, de forma que, quando se debilitam ou se esvaem, ele fica perdido e torna-se infeliz e péssimo. Portanto, depender psicologicamente de algo- seja das pessoas, de posses, de ideias, do talento- é uma forma de convidar a tristeza. Sendo assim, perguntamo-nos: Existirá algum tipo de alegria que não seja dependente de coisa alguma? Não haverá uma luz que não tenha que ser acesa por ninguém?

Pergunta-   Até ao presente a minha alegria tem sido iluminada por algo ou alguém exterior a mim, por isso não tenho condições de responder a pergunta. Talvez nem mesmo me atreva a respondê-la porque nesse caso teria que mudar todo o meu modo de vida. Certamente eu dependo da bebida, dos livros, do sexo e do companheirismo.

Krishnamurti-  Mas é que quando percebe por si mesmo, com toda a clareza, que essa dependência gera variadas formas de infelicidade, não se questionará inevitavelmente, não sobre como se tornar livre com relação ao meio e às pessoas, mas, ao invés, da existência da alegria, de uma benção que constitua uma luz em si mesma?

Pergunta-  Pode ser que o faça, porém, isso é destituído de valor. O facto actual é que me vejo preso nisto tudo.

Krishnamurti-  Aquilo que lhe interessa é a dependência com todas as suas implicações, o que é um facto. Depois há um outro facto mais profundo que consiste na solidão, o sentimento de se achar isolado. Ao sentirmo-nos sós apegamo-nos às pessoas, à bebida, e a todas as formas de escape. O próprio apego é uma forma de fuga da solidão. Mas não poderemos compreender tal solidão  e descobrir, por nós mesmos, o que reside para além dela? Essa é a verdadeira questão e não o que fazer com relação ao apego pelas pessoas ou pelo meio. Não poderemos transcender este intenso sentimento de solidão e vazio?
Qualquer movimento que façamos para fora desta solidão só a reforçará, de modo que resultará numa maior necessidade, do que antes, de nos afastarmos dela. E isso faz com que surja o apego, que trás os seus próprios problemas. Os problemas do apego ocupam então a mente de tal forma que chagamos a perder a solidão de vista e deixamos de lhe fazer caso. Desse modo, chegamos a desconsiderar a causa e a ocupar-nos com o efeito. Contudo, a solidão continua a  actuar o tempo todo, devido a que não exista diferença nenhuma entre causa e efeito. Existe somente o que é. E isso só se torna causa quando se move para fora de si mesmo. È importante que compreendamos que este movimento para fora de si é a própria coisa, de modo que é o próprio efeito. Portanto, não existe causa nem efeito nenhuns, não existe nenhum movimento em qualquer direcção, mas somente o que é. O senhor não percebe o que é por se apegar ao efeito. Existe o apego, e o aparente movimento para fora desta solidão no sentido do apego; então, este a pego, com todas as suas complicações, torna-se de tal forma importante e dominante, que nos impede de olhar o que é. O movimento para fora do "que é" consiste no medo, e logo procuramos resolvê-lo por meio de outra forma de fuga. Isto forma um movimento perpétuo, aparentemente para fora do "que é", todavia na realidade, não existe movimento algum. Portanto, somente a mente que percebe o que é e não se afasta disso seja para que direcção for, que se vê livre do que é. Dado que esta cadeia entre causa e efeito consiste na acção da solidão, torna-se desde logo claro que o único término da solidão deverá consistir no término desta acção.

Pergunta-  Tenho que aprofundar isto com maior intensidade.

Krishnamurti-  Todavia isso pode tornar-se igualmente uma forma de ocupação que se torna uma fuga. Se perceber tudo isto com toda a clareza, isso assemelhar-se-á ao voo da águia que não deixa rastro no ar.


6


Pergunta-  Vim a si a fim de o interrogar sobre a razão de existir uma divisão ou separação entre nós e tudo o mais; até mesmo entre nós e a nossa esposa e filhos. Porque, onde quer que vamos encontramos sempre essa separação- não somente em nós próprios mas igualmente com todas as pessoas. Fala-se muito da unidade e da fraternidade porém, eu duvido que alguma vez possamos ser livres de tal divisão, desta separação dolorosa. Posso fingir, intelectualmente, não existir verdadeira separação e arranjar explicações para a causa destas divisões- não somente existentes entre o homem mas também entre teorias, formas de teologia e governos- todavia, tomo consciência da inexistência desta divisão insolúvel, deste vasto golfo que me separo do outro. Sinto constantemente situar-me nesta margem enquanto os demais se situam na outra, enquanto que há toda esta água entre nós. É isso que me incomoda- o porquê deste intervalo de separação.

Krishnamurti-  Esqueceu-se de mencionar a diferença, a contradição existente, o intervalo existente entre um pensamento e outro, entre um sentimento e outro, a contradição entre diferentes acções, a divisão entre vida e morte e o interminável corredor dos opostos. Depois de declararmos tudo isto, a questão é de sabermos porque existirá tal divisão, esta clivagem entre o que é e o que foi ou deveria ser. Interrogamo-nos do porquê do homem vir a viver neste estado dualista, do porquê de ter cindido a vida em vários aspectos. Mas interrogar-nos-hemos  com vista a encontrarmos uma causa, ou estamos a tentar passar além tanto da causa como do efeito? Tratar-se-á de um processo analítico ou de uma percepção, uma compreensão de todo um estado mental destituído de divisão? Para podermos compreender tal estado mental temos de olhar o início do pensamento. Temos de estar atentos para com o surgir do pensamento, bem como daquilo de que procede. O pensamento procede do passado; e o passado é pensamento. Quando refiro que devemos ter atenção pelo pensamento à medida que surge, quero dizer que devemos ter atenção pelo significado actual do pensamento, e não simplesmente pelo facto de ocorrer. É o significado do pensamento que representa o passado. Sem esse significado o pensamento não pode existir. O pensamento é como um fio de linha de um tecido. A maioria não tem atenção pela peça de tecido, que representa toda a mente, e, ao invés, tenta controlar ou moldar,  compreender o significado de um fio, que  representa um pensamento. Mas, em que se apoiará o tecido inteiro de pensamentos? Repousará em alguma substância? A ser assim, em que substância? Repousará num pensamento mais profundo ou em coisa nenhuma? Além disso, de que material será esse tecido feito?

Pergunta-  Está a colocar demasiadas perguntas. Nenhuma delas alguma vez me ocorreu, pelo que tenho que avançar devagar.

Krishnamurti-  Não será o pensamento a causa de toda a divisão e fragmentação existente na vida? De que será o pensamento feito? Qual será a substância desses pedaços de fio  tecidos no complexo tecido a que chamamos mente? O pensamento é matéria- provavelmente mensurável. E procede da memória acumulável- a qual é matéria- armazenada no cérebro. O pensamento tem a sua origem no passado, seja recente ou remoto. Não poderemos ter atenção pelo pensamento à medida que surge do passado- as recordações do passado, a acção desse passado? Além disso, não poderemos ter atenção para além do passado e da sua muralha? Tal coisa não significa ainda mais retrocesso no tempo mas antes o espaço que permanece intocado pelo tempo ou pela memória. Até que descubramos isso a mente não poderá perceber a si mesma em termos do que quer que seja além do pensamento, que é tempo. Não podemos encarar o pensamento recorrendo ao pensamento, do mesmo modo que não podemos encarar o tempo valendo-nos do tempo. Assim, faça o pensamento o que fizer, negue ele o que negar, isso ainda deverá ocorrer dentro dos seus limites mensuráveis.
Se quisermos responder a todas as perguntas que formulamos, devemos fazer uma outra: "Em que consiste o pensador? Será ele distinto do pensamento? Será aquele que experimenta diferente daquilo que experimenta? Será o observador distinto daquilo que observa? Se for, então nesse caso deverá sempre existir divisão, separação, e consequentemente, conflito. Para ultrapassarmos esta clivagem temos de entender aquilo que o observador é, pois é óbvio que ele é a origem de tal divisão, seja entre nós e a nossa mulher, ou a árvore, ou qualquer outra coisa. Mas, que coisa é este observador ou pensador, que experimenta? Este observador é essa entidade vivente que está em perpétuo movimento, e tem noção das coisas e da sua própria existência. Essa existência de que ele tem consciência é a sua relação com as coisas, com as pessoas e ideias. Tal observador é toda a maquinaria do pensamento,  a observação, bem como o sistema nervoso e a percepção sensorial. O observador é o seu nome, o seu condicionamento, e o relacionamento entre esse condicionamento e a vida. Tudo isso perfaz o observador. Ele é também a ideia que tem de si próprio- uma imagem uma vez mais criada a partir do condicionamento, da tradição. Esse observador pensa e actua. As suas atitudes estão sempre de acordo com a imagem que tem de si mesmo e a imagem que tem do mundo. Tal acção no relacionamento gera divisão. Todavia, essa é toda a acção que conhecemos. No entanto ela não é distinta do observador, mas antes o próprio observador. É o observador que fala do mundo e de si mesmo com base nessa relação, e não consegue perceber que a sua relação não passa da sua própria acção, portanto, ele próprio. Assim, a causa de toda a divisão reside na acção do observador. O próprio observador não passa dessa actuação que divide a vida na coisa observada e nele próprio separado dela. Nisso reside a causa básica da divisão, e, portanto, do conflito.
A divisão existente na nossa vida é a estrutura do pensamento, que não passa da acção do observador que se julga distinto. Além disso, enquanto pensador, ele pensa  ser diferente do pensamento. Porém, sem pensamento não pode existir pensador, e se não houver nenhum pensador não poderá subsistir nenhum pensamento. Na realidade, ambos são um só. Ele é igualmente aquele que experimenta, e separa-se uma vez mais daquilo que experimenta. O observador, o pensador, que experimenta, não são aspectos diferentes do observado, do pensamento, nem da coisa experimentada. Isto não é nenhuma conclusão verbal. Se for uma conclusão então tratar-se-á de um outro pensamento que por sua vez criará  distinção entre a conclusão e a acção que é suposto seguir tal conclusão. Quando a mente perceber isto como uma realidade, então tal divisão não mais poderá subsistir. Isto é tudo o que estamos a referir. Todo o conflito se centra nesta batalha que travamos entre o observador e o observado. Isto é o aspecto mais importante que cumpre compreender. Somente então estaremos em condições de responder às questões que colocamos, e de ultrapassar o muro do tempo e da memória, o qual é o pensamento, pois então o pensamento terá chegado a um término. Somente neste ponto o pensamento será inoperacional para gerar tal divisão. O pensamento que se presta à comunicabilidade, à actuação, ao trabalho, esse é outro género de pensamento que é incapaz de gerar divisão no relacionamento. A rectidão consiste num viver isento dessa acção separativa do observador.

Pergunta-  Então o que será; onde será então que se situará essa coisa em que a roupagem do pensamento assenta?

Krishnamurti- Será isso que não é a acção do observador. A tomada de consciência disso representará um enorme sentimento de amor, e tornar-se-á possível unicamente quando compreendermos que o próprio observador é a coisa observada: e isso é meditação.



7


Pergunta-  Encontro-me em conflito devido a variadas coisas, não somente exteriores como também interiores. De algum modo sou capaz de lidar com os conflitos exteriores, porém, desejaria poder saber de que modo poderei fazer terminar esse conflito, essa batalha que decorre no meu íntimo a maior parte do tempo. Desejaria poder acabar terminantemente com ele e tornar-me, de algum modo, livre de toda esta luta. Que poderei fazer? Por vezes parece-me que o conflito é inevitável. Percebo-o por entre a luta pela sobrevivência, na percepção do grande a viver à custa do pequeno, do grande intelecto  a dominar os intelectos mais pequenos, uma crença a suprimir e a suplantar outra, uma nação a governar a outra e por aí fora, sem fim. Percebo-o e aceito-o, porém, de algum modo não me parece correcto, por não possuir nenhuma qualidade de amor; por isso penso que se pudesse terminar pôr cobro a essa luta em mim próprio, talvez desse término pudesse resultar amor. Contudo, sinto-me tão inseguro, tão confuso com relação a toda a coisa! Todos os grandes mestres nos afiançaram que devemos esforçar-nos; que o caminho para descobrirmos a verdade, ou Deus, se processa por meio da disciplina, do controle e do sacrifício. De uma forma ou de outra essa batalha é santificada. E agora vós afirmais que o conflito é a própria raiz da desordem. De que forma poderei saber em que consiste a verdade com relação ao conflito?


Krishnamurti-  O conflito, sob qualquer forma, só distorce a mente. Isso é um facto, e não uma opinião qualquer nem julgamento irreflectido. Qualquer forma de conflito que exista entre duas pessoas impedirá a compreensão por parte de qualquer uma delas, da outra. O conflito impede a percepção. A compreensão do que é, é a única coisa importante e não a formulação do que deveria ser. Tal divisão entre o que é e aquilo que devia ser é a origem do conflito. E o espaço existente entre a ideia e a acção também gera conflito. Tanto o facto como a imagem são duas coisas distintas: a perseguição da imagem conduz a todo o género de conflito, ilusão e hipocrisia, enquanto que a compreensão do que é, que consiste na única coisa de que na realidade dispomos, conduz a um estado  mental bastante diferente.
As condutas contraditórias produzem conflito; uma vontade a opor-se a outra forma de desejo é conflito. A lembrança do que passou, em oposição ao que é, é conflito; e tudo isso é tempo. Tornar-se, alcançar é conflito, e isso tudo é tempo. A imitação, o conformismo, a obediência, fazer voto de qualquer coisa, o arrependimento, a supressão- tudo isso produz mais ou menos conflito. A própria estrutura do cérebro, na sua exigência de segurança, consciente do perigo, é a fonte do conflito. Não existe coisa tal como segurança ou permanência. Assim, todo o nosso ser, ao nossos relacionamentos, actividades, pensamentos, todo o nosso modo de vida engendram luta, conflito, disputa. E vós vindes perguntar-me de que forma poderá isso acabar. Tanto o santo como o monge procuram escapar ao conflito, porém, acham-se perpetuamente em conflito. Como bem sabemos, todo a forma de relacionamento se resume ao conflito- conflito esse que se processa entre a imagem que temos e a realidade. Não existe relacionamento nenhum entre duas pessoas, tampouco entre as imagens que cada um deles detém do outro. Cada um vive no seu próprio isolamento, e esse relacionamento é mero olhar por cima do ombro. Assim, para onde quer que olhemos, superficial ou de modo bastante aprofundado, sempre existe esta agonia da luta e da dor. Todo o campo da mente- nas suas aspirações, no seu desejo de mudança, e na sua aceitação do que é e do seu querer passar além- tudo isso é, em si mesmo, conflito. De modo que a própria mente não passa de conflito, e quando o pensamento refere " dispor-se a não pensar", isso também é conflito. Toda a actividade da mente bem como das sensações, que fazem parte da mente, são conflito. Quando pergunta de que forma poderemos fazer terminar esse conflito, está, na realidade, a perguntar de que forma poderá deter o pensar, e de que forma poderá ser entorpecida de forma a permanecer em silêncio.

Pergunta-  Mas, eu não quero uma mente entorpecida nem estúpida. Quero que ela seja bastante activa, cheia de energia e tenha paixão. Deverá ter que ser entorpecida e estar conflito?

Krishnamurti- O senhor quer que ela seja activa, e cheia de paixão e energia, e ainda assim quer pôr cobro ao conflito?

Pergunta-  Precisamente, pois que quando o conflito se instala ela deixa de poder ser activa e de ter paixão. Quando o conflito está presente é como se a mente tivesse sido ferida pela própria actividade em decorrência do que perde a sua sensibilidade.

Krishnamurti-  Nesse caso torna-se claro que o conflito destrui toda a paixão, energia e sensibilidade.

Pergunta-  O senhor não precisa tentar convencer-me porque eu sei isso muito bem, no entanto isso não faz com que chegue a qualquer lado.

Krishnamurti-  O que quer dizer quando refere "saber"?

Pergunta-  Quero dizer que a verdade do que acabou de referir é por demais evidente. Todavia, isso não nos leva além disso.

Krishnamurti-  Será que percebe isso como uma verdade, ou somente a estrutura verbal- perceberá o facto como uma realidade ou a explicação? Temos de estar muito certos com relação a isto porquanto a explicação não é o facto, do mesmo modo que a descrição não é aquilo que é descrito. Além disso, quando refere "saber" pode muito bem acontecer o caso de só perceber a descrição.

Pergunta-  Não.

Krishnamurti-  Por favor, não responda com tanta rapidez e impaciência. Se o que é descrito não corresponder à descrição, então nesse caso só existe a descrição. E aquilo que é descrito é o facto, este facto: quando passa a haver conflito perdem-se a paixão, a sensibilidade e a energia. E o conflito é todo o pensar e sentir, o que perfaz o todo da mente. A mente é toda a preferência e aversão, juízo de valor, preconceito, condenação, auto justificação, etc. E a descrição constitui uma actividade primacial da mente, em que se envolve e se prende. A mente percebe a própria descrição e enreda-se nela enquanto por outro lado julga perceber o facto com propriedade, ao passo que na realidade enreda-se no seu movimento. Portanto onde será que isso nos leva, quando percebemos que somente existe aquilo que é ao invés da descrição?

Pergunta-  Estava a dizer que existe o conflito, constituído por todas as acções da mente, e que esse conflito destrui toda a sensibilidade e energia e paixão da própria mente. E assim a mente estupidifica-se por meio desse conflito, e por operar contra si própria.

Krishnamurti-  Agora a sua pergunta passa a ser: " De que forma poderá a mente deixar de operar contra si própria"?

Pergunta-  Com certeza.

Krishnamurti-  Não será mais esta pergunta uma outra forma de condenação, de justificação, escape; mais uma destas actividades da mente que se interferem e a fazem actuar contra si própria? Porque se for, então, isso será gerador conflito. Esta pergunta não subentenderá uma vontade de se livrar do conflito? Porque se for, significará mais conflito, e ver-vos-eis para sempre neste ciclo vicioso. Portanto, a questão correcta não se centra no "como deter o conflito" mas em perceber a verdade de que onde existirem paixão e sensibilidade, o conflito estará ausente. Percebe isto?

Pergunta-  Percebo, sim.

Krishnamurti-  Então nesse caso não tem mais por que se preocupar em pôr cobro ao  conflito; ele desvanecer-se-á. Contudo, tal não poderá acontecer enquanto o pensamento estiver a fortalecê-lo. Aquilo que importa é a paixão e a sensibilidade, e não o término do conflito.

Pergunta-  Eu percebo isso, porém, isso não quer dizer que eu tenha tal paixão; nem quer dizer que tenha terminado com o conflito.

Krishnamurti-  Se realmente perceber isto, esse mesmo acto de perceber será toda a paixão, sensibilidade e energia. Nessa percepção não existe conflito algum.



8


Pergunta-  Eu abandonei o mundo, o meu mundo da escrita profissional, devido a que quisesse levar uma vida espiritual. Desse modo, abandonei todos os meus apetites e ambições de fama, apesar de dispor do talento necessário para isso, e venho procurar-vos na esperança de descobrir, ou realizar, o Absoluto. Há vinte e cinco anos que me acho sob esta enorme árvore  banyan e de repente dou comigo estúpido, pálido, interiormente só e bastante infeliz. Esta manhã acordei para descobrir que não realizei absolutamente nada, e que talvez Há um par de anos estivesse melhor, quando ainda tinha algum fervor religioso forte. Agora não resta nada desse fervor e vejo que, tendo sacrificado as coisas do mundo nesta procura de Deus, sequer as possuo. Sinto-me como uma laranja espremida. Mas que haverei de culpar- os ensinamentos, a vós, ao vosso meio- ou será por não possuir capacidade para tal empresa que não descobri a "fenda no muro" por onde poderia ter vislumbrado o céu? Ou será muito simplesmente que toda esta busca, desde o início até ao fim, não passa de uma miragem, e teria sido muito melhor não ter pensado em religião e, ao invés, ter-me cingido às realizações tangíveis da minha vida anterior? Que terei feito de errado, e que hei de fazer agora? Deverei abandonar tudo isto? E, a ser assim, por que mais?


Krishnamurti-  Terá a percepção de que viver sob esta árvore banyan, ou outra árvore qualquer, esteja a destruí-lo, ao impedi-lo de usar da compreensão e do percebimento? Este meio não está a destruí-lo? Se abandonar este mundo para voltar ao que fazia antes- ao seu mundo da escrita e de todas as coisas do viver do dia a dia – não será destruído, entorpecido e sugado de igual forma pelas coisas desse meio de vida?
O senhor percebe o avanço deste processo destrutivo em todas as coisas e nas pessoas que perseguem o sucesso, seja pelo que for que estejam a fazer ou por que razão? Pode percebê-lo no médico, no político, no cientista bem como no artista. Será que haverá alguém, seja onde for, que escape a esta destruição?

Pergunta-  Sim, posso perceber que toda a gente é drenada desta forma. Podem gozar de fama e riqueza, mas se olharem para si próprios de forma objectiva terão que admitir que não passam de outra coisa além de uma aparatosa façanha de acções, palavras, fórmulas, conceitos, atitudes, lugares-comuns, esperanças e receios. Por debaixo subsiste uma solidão e confusão, envelhecimento e a amargura do fracasso.

Krishnamurti-  Não perceberá do mesmo modo como os chamados religiosos que supostamente abandonaram o mundo ainda são presa dele devido a que a sua conduta seja governada pelas mesmas ambições, pela mesma vontade de realização, de se tornarem alguém, de alcançarem algo, de se realizarem e de conservar? O objecto de tal conduta é ainda chamado "espiritual" e aparenta ser diferente daqueles das condutas mundanas, porém, na realidade não são distintas absolutamente, porque essa conduta perfaz exactamente o mesmo tipo de movimento. Essas pessoas religiosas acham-se igualmente presas em fórmulas, ideais, imaginação, esperança, certezas vagas, o que não passa de crenças- e eles também envelhecem, feios e ocos. Portanto, o mundo A que eles abandonaram é exactamente o mesmo que o mundo B da chamada vida espiritual. O A é o B, e o B é o A. Neste chamado mundo espiritual é se destruído da mesma forma que se é no da vida de todos os dias.
Pensa que este morrer, esta destruição sobrevenha do seu meio ou de si próprio? Procederá ele de outra pessoa ou de si? Será algo que lhe seja feita a si ou algo que esteja a fazer?

Pergunta-  Eu pensava que este morrer, esta destruição era o resultado do meio circundante, mas agora que me apontou a forma como isso ocorre com todos os meios por todo o lado e continua mesmo quando mudamos de meio- ou regressamos ao velho, anterior- começo a perceber que esta destruição não é o resultado desse meio. Este morrer é auto-destruição e é algo que empreendo contra min mesmo. Sou eu que o faço, eu que sou responsável, e não tem nada que ver com as pessoas nem com o meio.

Krishnamurti-  Este é o aspecto mais importante a tomar consciência. Esta destruição procede de si próprio e de mais nada nem ninguém, nem do seu meio, nem das pessoas e tampouco dos eventos nem das circunstâncias. Você é responsável pela sua própria destruição e infelicidade, a sua própria solidão, os seus estados de espírito e pelo seu vazio interior. Quando tomar consciência disso tornar-se-á quer amargurado ou insensível para com tudo, e fingirá que tudo irá bem; ou então tornar-se-á neurótico e vacilará entre A e B, pensando existir qualquer diferença entre ambos, ou então voltar-se-á para a bebida ou para o consumo de estupefacientes, à semelhança de tantas pessoas antes.

Pergunta-  Eu entendo, finalmente.

Krishnamurti-  Nesse caso abandonará toda a esperança de descobrir uma solução trocando simplesmente o meio externo da sua forma de vida, pois saberá que A e B são a mesma coisa.; em ambos eles se acham o desejo de obter, de atingir, de ganhar o prazer absoluto, quer pela chamada iluminação espiritual, Deus, a verdade, o amor, uma gorda conta bancária ou qualquer outra forma de segurança.

Pergunta-  Percebo isso mas, que hei de fazer? Ainda me acho a morrer, a destruir-me, ainda me sinto a ser sugado, vazio, inútil. Perdi tudo o que possuia e não obtive nada em troca.

Krishnamurti-  Nesse caso não compreendeu. Quando ainda sente isso e o diz, ainda está a percorrer a mesma velha rota que estivesses a esmiuçar- essa rota de auto-preenchimento quer através de A ou de B. Essa rota é a auto-destruição, é o factor de auto-destruição. A sensação que tem de ter perdido tudo e obtido nada em retorno é o percurso dessa mesma rota; essa rota é a destruição; a própria rota é o seu próprio destino, o que não passa de auto-destruição, frustração, solidão, imaturidade. Assim, agora a questão é de saber se na verdade chegou a voltar as costas a essa mesma rota.

Pergunta-  Como haverei de saber se voltei costas a isso ou não?

Krishnamurti-  Não sabe, porém, se tomar consciência do que essa rota representa na verdade, não só o seu término mas também o seu começo- que é a mesma coisa que o seu término- então tornar-se-á impossível que a percorra. Poderá, se conhecer o seu perigo, eventualmente desviar-se para ela, em determinado momento de distracção e subitamente tomar consciência de que está a trilhá-la; todavia, se perceber a desolação dessa rota isso representará  seu término, e essa será toda a actuação que necessitará ter. Não diga que "não compreende e, consequentemente, tem que pensar nisso, tem que tratar disso, praticar a atenção, descobrir em que consiste estar atento, meditar e penetrar tudo isso"; ao invés, perceba que todo o movimento de preenchimento, obtenção ou dependência na vida perfaz essa rota. Quando percebe um perigo não faz grande alarido a fim de se decidir a fazer algo. Se, em face do perigo disser "tenho que meditar nisso, tomar consciência disso, penetrar a coisa, procurar compreendê-la" então nesse caso estará perdido pois será demasiado tarde. Portanto, aquilo que tem a fazer é simplesmente perceber esta rota, aquilo que é, onde conduz e o modo como isso aparenta- e já estará a trilhar uma direcção diferente. É isto aquilo a que nos referimos quando falamos de atenção ou consciência. Queremos referir a atenção pela rota e por todo o significado dessa rota, ter consciência dos mil diferentes movimentos que formamos ao longo da vida, que se acham na mesma rota. Se tentar perceber ou trilhar a "outra via" percorrerá a mesma velha estrada.

Pergunta-  Mas, como poderei ter certeza que percebo a coisa a fazer?

Krishnamurti-  Não pode perceber o que fazer, só pode perceber o que não fazer. A negação total dessa rota representará o novo início, a outra via. Essa outra via não vem no mapa, e tampouco poderá alguma vez ser circunscrita em qualquer mapa porquanto todo mapa representa a via errada, a velha rota.


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