terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

KRISHNAMURTI - DEBATES COM JOVENS ESTUDANTES





Tradução e ilustração original de:

                    Amadeu Duarte



                                                         1º Diálogo realizado em Saanen, 21 Julho 1970


K-  É suposto isto ser um encontro com os mais jovens. Gostaria de os ver sentados á frente... Começaria por lhes perguntar (aos mais jovens, e não aos da minha idade) sobre o que gostariam de conversar nesta manhã, a fim de o podermos empreender juntos.

P-  Será que o estado de completa atenção implicará uma total indiferença por tudo aquilo que nos rodeia à excepção daquilo com que nos defrontamos?

K-  Se a atenção implica indiferença total para com todas as coisas que ocorrem ao nosso redor...

P-    Não, para com todas as coisas com que não nos defrontamos no momento.

K-  É sobre isso que querem conversar? Está bem, não importa. Deixemos que sejam colocadas uma meia dúzia de questões e depois logo veremos o que daí resultará.

P-    Penso que uma grande parte de nós se preocupa com problemas sociais, não somente o problema da fome mas igualmente muitos outros de carácter urgente- pessoas capazes de construir bombas para destruir os outros, a atitude dos homens com relação aos negócios e á indústria... Todos esses problemas, necessitam de soluções urgentes, penso eu. Mas será que podemos realmente esperar até que todos passem por uma revolução pessoal, a fim de procedermos a um outro género de revolução?

K-  Há demasiada necessidade de reformas a nível social. O mundo dos negócios completamente corrupto, a injustiça social e variados outros problemas da sociedade que se espera possam aguardar até que cada indivíduo- vós- seja livre das suas próprias limitações, tristezas e sofrimento... Mais alguma questão?

P-    Bem, será que um indivíduo completamente diferente, quer dizer, um indivíduo completamente íntegro, poderá perceber um mesmo facto, do mesmo modo, ou essa sua percepção será diferente?

K-  Se um indivíduo  livre será diferente de outro, ou se diferirá nas suas actuações. Mais alguma?

P-    Há um problema com que alguns de nós se debatem: o que fazer das nossas vidas.

K-  Alguns de nós preocupam-se com o que fazer das nossas vidas. Somos novos e começamos a ter noção das dificuldades e da corrupção, das várias formas de luta que ocorrem no mundo, etc. Que havemos de fazer? É isso?

P-    O senhor fala em destruir a brecha existente entre nós e o mundo a fim de anularmos a distinção entre o observador e o observado, ou o pensamento, que por natureza é divisivo. Além disso falou sempre em termos de visão,  que penso pretender referir os sentidos- aquele que mais propicia a distância. Encontramo-nos muito perto de determinada coisa e se pudermos tocamo-la ou cheiramo-la, ou provamo-la, ou então olhamo-la. Porém, interrogo-me se poderemos encurtar também a brecha, excepto na actuação- quando compreendemos o mundo da acção- ao invés de nos retirarmos para olhar essa coisa. Olhar obriga-nos sempre a uma retirada.

K-  Corrigi-me  se repito a questão de modo errado, por favor: Se a anulação da brecha existente entre o observador  e o observado não implicará um certo tipo de retiro do mundo. Se não será muito mais fácil e mais exacto, determinante,  envolver-nos com uma acção que nos conduza face a face com essa divisão? Além disso podemos observar- já que a minha visão é mais difícil - se não será mais fácil estabelecer uma ponte entre o observador e o observado quando existe contacto directo do que pela acção directa. Exactamente, não será? Haverá quem queira colocar mais questões?

P-    Não existirá perigo na questão da cessação do pensamento? Não poderá falar sobre isso do ponto de vista da funcionalidade biológica?

K-  Se não poderemos discutir a questão da cessação do pensamento e das suas actividades, na relação que tem com o funcionamento biológico, ou seja com a  actual existência física. Certo?

P-    Por vezes, quando sinto ter conseguido alguma consciência, quase parece que as relações sociais perdem o  sentido... (Inaudível)

K-  Peço desculpa mas não compreendi a pergunta.

P-    Eu simplifico. Quando por vezes me sinto desperto e consciente, tenho noção de que as inter-relações sociais são bastante destituídas de sentido...

K-  Ou seja, quando sinto ter uma maior consciência ou atenção- diz o interlocutor- sinto que as inter-relações sociais são destituídas de sentido. Já não chega?

P-    Tratemos da questão daquilo em que consiste a benção. Gostaria de saber se, neste mundo com toda a sua brutalidade, não será possível vivermos o tempo todo nesse estado de consciência.

K-  Se uma pessoa poderá viver neste mundo, com toda a sua brutalidade, violência, contradição, desordem social, etc. em completo estado de benção. Certo? Não poderemos começar, antes de mais, por essa questão e deixar que o resto seja considerado a seu tempo? Não poderemos começar por:  "O que havemos de fazer da nossa vida" e deixar que gradualmente as demais questões venham à discussão, o que procurarei fazer à medida que formos avançando?

P-    Não poderemos também conversar sobre a natureza dos relacionamentos?

K-  Ah, ele deseja falar acerca das relações entre os seres humanos, e entre ele e a natureza. Comecemos então.
Que coisa vou fazer da minha vida, sendo novo como sou? À medida que vejo o estado em que o mundo se encontra, e a necessidade de ganhar a vida- pois não posso simplesmente ir por aí a pedir esmola- talvez na Índia pudessem, se envergassem um robe de sannyasi, de monge, pois lá é tradição andar de terra em terra e ser alimentado, vestido e tratado por caridade...

P-    Mas porque razão não poderemos viver de esmola?

K-  Porque não? Se gostarem, não vejo porque não possam! Não há nada que os possa proibir disso ou que possa evitar de o fazerem. Com excepção da lei de certos países onde não permitem a vagabundagem, etc. Mas isso é lá convosco. Isso não é certo nem errado. Na Índia é tradição comum ir de casa em casa a pedir esmola. Mas nem por isso alguém pensa mal; antes pelo contrário, faz parte da tradição religiosa.

P-    E aqui?

K-  Ah. Venham-me falar disso aqui na Suíça; experimentem  fazê-lo!

P-    Eu já vivi durante quatro anos de esmola.

K-  Muito bem, senhor. Perfeito!

P-    Porque razão não o poderemos fazer?

K-  Esperem lá. A questão será a de apurarem porque não o faço, porque não ando por aí a pedir? Como sabeis que não o faço? (risos) Esperem lá. Olhem, não façam disso uma questão de diversão. Não possuo dinheiro próprio, as pessoas dão-me roupas ou seja o que for. E já vivo assim há quarenta e cinco anos ou mais. O que é que estou para aqui a dizer? Há já sessenta anos. Exactamente. Portanto continuemos.
Que farei, sendo novo como sou,  cheio de vida, fisicamente bastante activo e algo inteligente- que hei de fazer neste mundo? Esta questão tem sido colocada por todo o mundo; deverei tornar-me num homem de negócios, um juiz, um médico, ou adoptar alguma profissão dependente das exigências da sociedade? A sociedade exige tantos ou tantos engenheiros, médicos, negociantes, políticos, vigaristas, isto e aquilo. Portanto, será que devo encaixar numa dessas categorias? Essa é a questão. Que hei de fazer da minha vida? Certo?

Vocês não sabem o que significa uma vocação, pois não? Um chamado- vocare em latim- como quando um indivíduo diz ter tido um chamado divino para integrar a Igreja- isso é uma vocação. Não quero dizer que devais juntar-vos à Igreja. O desejo de fazermos algo da nossa vida, até ao fim, algo que corresponda à verdade do que sentimos, algo completamente valioso e significativo, isso jamais trará amargura nem frustração nem ansiedade pois será algo que faremos por vocação. Isso será toda a nossa vida.
Por favor, acompanhem-me com cuidado porque ao responder a esta questão estarão a responder às restantes questões que aqui forem colocadas. Verão num curto espaço de tempo como tudo está relacionado. Não necessitam ter uma vocação definitiva, nem quer necessariamente dizer que devamos mudar, mas fazer alguma coisa  momento a momento, alguma forma de ocupação. Tornem-se jardineiros por um ano, e depois a seguir outra coisa qualquer, não procurem muito dinheiro mas prossigam assim. Mas parece que não acham que uma vocação seja importante para a vida. Entenderam o significado da palavra- o chamado- que não é necessariamente o da Igreja, ou o dos negócios, mas o sentimento de que temos de fazer na vida determinada coisa, sem que nada mais importe? Quando se vive desse modo, não sobra lugar para a frustração nem para a preocupação com o amanhã, porque o que fizerem será  completo, e será tudo aquilo que quereis fazer; será o vosso chamado. Entendem?
Provavelmente nunca pensaram nestes termos, nem sequer tiveram tempo para se debruçar sobre a questão do que fazer da vossa vida. Mas é muito importante colocarmos essa questão e descobrirmos a resposta, porque de outro modo podemos desperdiçar a nossa vida. E como podeis observar, há tanto desperdício na nossa vida- não só nos campos de batalha, como também no viver diário. Por isso, devemos descobrir- pelo menos eu penso assim- em que consiste a nossa vocação; existe uma palavra perfeita em sânscrito  que me sinto tentado a empregar, mas que foi  mal utilizada, e que significa fazer algo profundamente verdadeiro que corresponda à nossa vocação, à nossa vida, vocês sabem, ao nosso trabalho.
E, como se trata da nossa vocação, do nosso dever e responsabilidade, jamais nos desviamos disso. Poderemos fazer alguma outra coisa porém, será sempre nessa direcção. Se fordes um artista, no sentido de pintar quadros, etc., essa será a vossa vocação. Um artista de verdade não se preocupa se vai produzir muito dinheiro com o que faz ou não. Trata-se da sua vida, entendem, e nada o levará a distrair-se disso. Desse modo não haverá de tirar prova de qualquer sentimento de frustração, nem de amargura, nem cinismo, falha. Penso que é muito importante que se compreenda isso.
Portanto, conheceis a vossa vocação? Ireis tornar-vos engenheiros, pedintes, pessoas religiosas que não pertençam a nenhuma Igreja, grupo nem seita- no verdadeiro sentido religioso- e talvez passar o resto da vossa vida a ensinar os outros, e não a questionar com eles? Portanto, se responderem a essa questão descobrirão em que consiste a vossa relação com os demais. Estou a responder à vossa questão sobre as relações humanas.
Em que consiste o vosso relacionamento- escutem isto, por favor- quando se encontram entregues a uma vocação, vocação essa que não dependa  das exigências da sociedade, em que consistirá a vossa relação com os demais? Vamos lá, respondam a isso, senhores.

P-    Como pode falar de uma vocação que não seja imposta pela sociedade? Como haveremos de saber se se trata da nossa vocação?

K-  Vejam bem, como haveremos de saber se se trata de um chamado ou de uma vocação? Como? Pode muito bem ser alguma coisa imposta inconscientemente pela sociedade, e vocês pensarem que se trata da vossa vocação, do vosso chamado. Podeis enganar-vos e dizer que "isso constitua a vossa directriz, a vossa linha de orientação, a vossa vocação, que havereis de seguir até ao fim"- e isso não passar de um acto de puro auto-engano,
       E no final de uma dezena de anos, podem dizer: "Meu Deus, que asneira eu fui fazer, quando aquilo que devia ter feito era ser talhante, soldado, ou ter-me unido à Igreja". Assim, investiguem bem esse problema. A pergunta foi: " como haverei de saber se estou a seguir a vocação certa, que não seja uma imposição da sociedade, nem seja uma resposta ao meu condicionamento inconsciente?



Portanto, têm de ser activos, sensíveis e suficientemente livres para poderem investigar, e procurar a vossa própria estrutura, descobrir se aquilo a que chamam de vossa vocação poderá ser uma imposição da sociedade, ou se será a vossa inclinação pessoal. Têm de investigar. Mas vocês dizem que não possuem tempo! Antes pelo contrário, vocês possuem  tempo suficiente para poder investigar, para procurar e descobrir, e se forem verdadeiramente sérios e honestos poderão fazê-lo de forma a descobrir a vossa orientação num só dia, se aplicarem toda a vossa atenção ao assunto. Observem todo esse  condicionamento, e as influências que vos foram impostas, os vossos próprios desejos e inclinações, tudo. Porque, só aquele que for sério poderá descobrir a sua vocação e não o indivíduo que se deixa levar pela corrente e diz: "Bem, vou fazer isto ou aquilo".


P-    Tenho dúvidas que se trate realmente de uma questão séria porque eu não sou talhante, nem um artista nem político, eu sou um homem, e tudo isso constituem restrições.

K-  Não, espere lá. É um homem, e não um talhante, isto ou aquilo. É um homem, porém tem de fazer algo na vida.

P-    Porquê?

K-  Porquê?, Porque terá de fazer alguma coisa na vida e não limitar-se apenas a viver? Espere lá. Escute, que significa isso? Viver de acordo com os padrões da sociedade, ou de acordo com a vossa própria inclinação, de acordo com o próprio prazer; de acordo com os variáveis estados de espirito, diversão, imaginação, suposições e formulas?

P-    Porque não?

K-  Porque não? Vejamos porque não. No final, o que será de vós? Ficarão ao sabor da corrente, não é?

P-    Como o sabe?

K-  Como o sei? Eu mostro-lhes. Não estou a procurar convence-los, esclareça-se bem isso; não estou a tentar persuadi-los a aceitar aquilo que digo. Mas que coisa  acontecerá ao homem que diz: "Não me importo com o que possa acontecer, mas tratarei de viver a vida dia a dia, ao acaso"? Isso pode estar muito certo enquanto se é novo e nos divertimos. Mas á medida que  começamos a envelhecer, começamos a perceber. Não é assim? Os dentes começam a cair-nos. Vejam se não é assim. Olhem, a maior parte das pessoas vive desse modo, ao sabor da corrente- ficam presos num emprego, e quando esse emprego deixa de os satisfazer mudam para outra coisa qualquer. É assim com a maioria.

P-    E o senhor, não anda a vaguear pela vida?

K-  Eu diria que sim. O cavalheiro pergunta se me encontro a vaguear ao sabor da corrente.

P-    Não, eu estou a perguntar com toda a seriedade. Será que vive ao sabor da corrente?

K-  Porque faz essa pergunta?

P-    Porque talvez não exista diferença.

K-  Diferença entre o quê?

P-    Entre mim ou outra qualquer pessoa.

K-  Mas eu não sei nada a seu respeito, senhor. Estamos a falar do tipo que vive ao sabor da corrente, e que leva uma vida muito superficial, certo? Trata-se de um tipo de pessoa bastante insatisfeito, que se divorcia e volta a casar e a divorciar novamente- para voltar a casar de novo; os filhos, as responsabilidades, o sustento, e Deus lá sabe o que mais. É o que a maior parte das pessoas faz; perfeitamente frustradas, infelizes, amargas. Que coisa farão, portanto?

P-    Temos de decidir isso já?

K-  Sim, se puderem decidi-lo, tudo bem. Não é decidir, porque não se trata de decidir mas de perceber.

P-    Certo. Mas existirá vocação aparte da vida humana?

K-  Penso que não escutou o que estive a dizer. Perdoe-me por o dizer.

P-    Mas não atendeu à minha pergunta.

K-  Eu ouvi a pergunta porém ela já foi respondida.

P-    Aquilo que foi dito foi que talvez as pessoas andem à deriva e o que o senhor faz seja introduzir algum tipo de disciplina. Algo do género: "para eu não me desviar tenho que impor a mim mesmo certa disciplina".

K-   Penso que não compreendeu aquilo que estive a dizer. Absolutamente. Mas, olhe senhor, não é vantajoso estar a repeti-lo outra vez. Nós explicamos cuidadosamente toda a questão da disciplina no outro dia. Explicamos aquilo que ela envolve. Não vamos voltar ao mesmo neste momento.
       Devemos prosseguir. Não vamos recuar por uma coisa que discutimos uma dezena de vezes. Vamos lá.
      
      Que havemos de fazer? Que é que farão? Perguntaram como haverão  de decidir já, sendo ainda tão novos. Não é que tenham de decidir, mas temos de ter consciência do que está a ocorrer no mundo, e da vossa função, da vossa responsabilidade para com o mundo. Devem ter consciência de vós e do vosso relacionamento com o mundo, e das vossas relações com os demais, certo? E em que consiste esse vosso relacionamento com os outros, como é ele de facto? Será que possuímos um relacionamento com os outros? E se possuímos, o que significa o termo relacionamento? Aprofunde isso, por gentileza.
       Estão em relação com a vossa esposa, com a vossa namorada, ou seja lá quem for. Mas para vós, o que é que significa- na pratica e não na teoria- esse relacionamento entre vós e a outra pessoa? Estará essa relação baseada no prazer? Estará baseada no sentimento de solidão, e desse modo não constituirá uma exigência de companheirismo? Será essa relação fundada com base num sentimento de frustração e portanto de dependência do outro por uma questão de realização? Pode ser que tenham uma conclusão e ajam de acordo com essa conclusão, ao se relacionarem. Ou podem possuir uma imagem de vós mesmos e do outro, e agir e sentir por intermédio dessa imagem. Tudo isso está envolvido no processo de relacionar-nos, não será? Mas, de que  aspecto se tratará?
       Relacionar-se significa estar em relação, em contacto, não somente sentindo no sangue como no nível físico de  igual modo, estar em contacto íntimo, as mentes a trabalhar juntas, a criar e a trabalhar juntas. Isso implica uma comunicação constante entre si, e não o isolamento da pessoa, que procura tentar estabelecer uma relação com o outro. Portanto, temos de descobrir por nós mesmos, pelo questionar, em que consiste o nosso relacionamento, e se, nas nossas actividades não estaremos a isolar-nos. Compreendem? Se tiverem a ambição de alcançar determinado objectivo ou posição, prestígio, então o vosso relacionamento será como que inexistente, porque todo o vosso propósito estará no voltar-se numa só direcção. Aquele que for ambicioso e competitivo provavelmente não poderá manter um relacionamento, e pode até ser que case e tenha filhos e tudo o mais, porém isso não passará de uma convenção social. Assim, quando falamos da questão do relacionamento humano, tudo isso está envolvido:  a busca do amor-  porque em vós mesmos não possuem amor- a busca de companheirismo- por não conseguirem suportar a vossa solidão- a procura de realização no outro- por não saberem viver por vós mesmos com inteireza e de modo completo. Todas essas coisas estão implicadas quando se falamos sobre o relacionamento.
       Portanto, estarão em relação com o mundo e com outra pessoa? Tendo presente que o relacionamento implica ausência de todas as barreiras, sejam intelectuais ou emocionais, a inexistência de qualquer barreira ou separação, divisão- vós com os vossos problemas, as vossas ambições e preocupações e desespero, e ela ou ele com os dele ou dela. Só então estareis em relacionamento.
     
       Vêm como é difícil, senhores? E por isso ser difícil, satisfazemo-nos com uma forma de relacionamento superficial que nos conduz a uma imensa tristeza. Não concordam?

P-    Mas, parece que quando nos ocupamos ou sentimos uma vocação qualquer, ficamos presos numa espécie de conflito, em que uma parte diz que temos de nos libertar primeiro para podermos fazer aquilo que quisermos, enquanto que uma outra parte diz que devemos fazer o que tivermos de fazer porque nos libertaremos através disso.

K-  Existem estas duas partes em mim; uma que diz que devo libertar-me primeiro e depois actuar, e a outra parte diz que o próprio fazer constitui o verdadeiro acto da libertação. Mas prestem atenção à questão. A primeira diz: libertem-se de todo o caos desordem e confusão em que se encontram; e a outra diz que a libertação se acha na própria compreensão da confusão, da tristeza, da luta, do conflito, do desespero; diz que se acha na compreensão disso. A própria compreensão disso é essa libertação. Mas, porque dividimos ambos esses aspectos?

P-    A compreensão é a acção.

K-  Eu entendo isso. Mas vejam, por que dividem isso? Será que libertarmo-nos em primeiro lugar constitui algum tipo de acção, ou seja, existirá nisso algum tipo de acção? Porque vós só vos estais a preocupar convosco.

P-    Mas a acção não é somente compreensão.

K-  E isso significa o quê? Que só posso obter compreensão na relação e não no isolamento. Não posso esperar ir até ao cume do monte, sentar-me de pernas cruzadas e obter a compreensão de mim mesmo, pois só posso compreender-me em meio à acção, no relacionamento e no avanço do movimento. Porque aí então posso observar as próprias reacções, não será? Posso observar o modo como penso, sinto e actuo. Portanto, o isolamento, ou seja, dizer para comigo que antes de mais devo libertar-me, está de parte porque isso conduz a um isolamento crescente e, portanto, à exclusão. E além disso, no isolamento e na exclusão não podereis com certeza compreender o relacionamento, nem a vós mesmos, pela observação das vossas reacções. Essas reacções produzem certas acções, e desse modo vós podeis observar essas mesmas acções. Assim, trata-se de um movimento constante das oscilações do cérebro e da mente- que é o pensamento. Observais os vossos sentimentos  e dessa forma isso torna-se a única via para a libertação da mente, do seu próprio condicionamento.  A libertação é isso.
Agora, em que consiste essa vossa relação? Isso é muito importante porque se colocarem essa questão tornar-se-ão conscientes. Estão a perceber? Conscientes daquilo que fizerem, do vosso próprio estado, daquilo que a mente estiver a experimentar.

P-    Com respeito a essa questão da relação, penso que isso fez parte de todas as eras. Esteve presente na preocupação pela estrutura da família, da aldeia, e da tribo, mas hoje em dia a sociedade está a tornar-se anónima  devido às cidades se terem tornado tão grandes. O que é lamentável, porque perdemos uma certa qualidade de relação. Devíamos descobrir um novo aspecto da sociedade e recriar essa condição.

K-  Senhor, voltemos atrás. Houve uma altura em que a família era importante, assim como a nação e  o grupo. Mas depois, que é que aconteceu?

P-    As cidades cresceram demasiado.

K-  Então as cidades cresceram para lá da medida e o indivíduo tornou-se anónimo e acabou por ser suprimido. E por isso temos de achar um modo de viver que não seja tribal nem anónimo, que não seja suprimido pela sociedade, anónimo. Encontrar um modo de vida que não seja nem uma nem outra coisa.

P-    Uma nova forma de sociedade.

K-  Primeiro, tentem perceber como estão mais interessados na sociedade nova. Mas a nova sociedade só surgirá quando descobrirem o correcto relacionamento com os demais. Porque a sociedade é relacionamento. Mas baseia-se na forma de se relacionar de cada um, no desespero, na contradição, nos propósitos, nas ambições, no conflito e tudo o mais. Portanto, a sociedade como existe agora, é corrupta. Mas para se criar uma sociedade nova, têm de descobrir o relacionamento entre vocês e o outro, e a partir daí surgirá essa nova sociedade. Concordam? Uma sociedade que não seja burocrática e tudo mais. Portanto, ao colocar essa questão, percebam onde isso conduz. Primeiro formularam a questão do que havemos de fazer. Eu sugeri aquilo que poderá ser a vossa vocação; descubram isso sem se desviarem, e investiguem-no despendendo o vosso tempo nisso. Empenhem-se com toda a vossa energia e vitalidade, com toda a vossa paixão por descobrir. Não significa isso que se disciplinem- nem sequer que possam tornar-se alguma outra coisa. Despertem a consciência disso, descubram-na. A partir desse ponto terão consciência de que precisamos ter atenção para com o nosso relacionamento, e portanto tornam-se conscientes. Portanto, começam a descobrir o significado de ser consciente, não só nas vossas relações como também na forma como se comportam, como pensam, como se evadem, etc., começam a compreender-se em meio à relação, e por seu intermédio. Certo? Por isso, a atenção não é uma questão de prática nem de seguir um sistema particular com o fim de obter consciência, mas termos atenção por aquilo que fazemos, o modo como cortamos o pão, como se olham ao espelho, a vossa consciência diurna, como observam o próprio rosto, os vossos gestos, os movimentos do pensar- olhar isso somente, sem o corrigir, de modo que essa atenção se torne extraordinariamente vigorosa, certo?
Agora, a questão que daí deriva é: será que podemos viver neste mundo providos dessa atenção? Esta foi uma das questões colocadas, que implica a interrogação sobre se poderemos obter essa estranha forma de benção- e para tal devemos aprofundar toda a questão da benção e do prazer.

P-    Desviemo-nos simplesmente do aspecto da benção.

K-  Se podemos viver neste mundo com essa qualidade de atenção. Mas, quem lhes dirá se o poderão ou não fazer? Eu digo que se pode. Digo que é possível que  outra pessoa possa possivelmente viver desse modo, mas vocês não precisarão de o descobrir por vós próprios?

P-    Com certeza. Mas não- procurar tentar consegui-lo ao mesmo tempo que nos tornamos insensíveis com os outros. Como que supondo que sejamos completamente diferentes, pelo que passamos a tentar ver algo que não somos.

K-  Nesse caso, que hei de fazer? Veja senhor, que hei de fazer com relação à guerra que ocorre no Médio Oriente, no Vietnam e as outras guerras? Que hei de fazer enquanto ser humano que possui consciência e é sensível, e que observa o fenómeno da carnificina das duas últimas terríveis guerras. Que hei de fazer? Diga-me!

P-    Que foi que fez durante a última guerra?

K-  Que é que fiz durante a última guerra? Se isso lhe interessa eu digo-lhe, senhor. Viajei por todo o mundo, como de costume, indo de um lado para o outro.  Quando eclodiu a guerra estava na Califórnia. E como era estrangeiro, fui chamado diante de um Concelho, ou o que quer que fosse- que procurava gente apta para o combate- mas como tivessem percebido que eu não passava de um pobre pagão que nem sequer era capaz de empunhar uma espingarda, nem sabia por que razão haveria de matar outro indivíduo, mandaram-me embora. E assim eu... Mas será que isto vos interessa?

Audiência-  Claro.

K-  Ordenhava as vacas, olhava pelas galinhas, cuidava do jardim e tudo o mais, até poder afastar-me da Califórnia, e recomeçar a viajar de novo para todo o lado. Mas lavei pratos, esfreguei soalhos, etc.
Mas esperem lá. Vejam onde isso nos conduziu. Estávamos a interrogar-nos sobre o que será esse percebimento, sobre essa qualidade de atenção, essa qualidade de consciência que por si só constitui uma grande benção- porque significa liberdade; uma pessoa assim livre e atenta pode cometer um erro, mas corrige-o sem arrependimento, e sem dizer: "Deus meu, que coisa horrível eu fui cometer. Que hei de fazer?" Prossegue-se, entendem? Se for possível corrigimos ou eliminamos os erros, mas prosseguimos. Portanto, perguntávamos se não poderemos viver neste mundo com uma  consciência, e  uma qualidade de benção assim. Claro, senhores. Eu digo-lhes que podem. Todavia para vós isso não vale como uma resposta. De que valerá que outra pessoa lhes diga que podem comer, quando estão com fome? É óbvio que precisarão comer! Não adianta leva-los a um restaurante e mostrar-lhes a comida, quando não podem comer. Entendem? Há de ser a vossa vocação- ora aí está! Há de ser a vossa vocação a descobrir de que forma viver neste mundo com uma consciência  assim atenta.

P-    Isso é bastante encorajador.

K-  O cavalheiro aqui diz que isto é muito encorajador. Não se deixem encorajar por ninguém, porque, nesse caso também qualquer pessoa os poderá desapontar. Mas se perceberem aquilo que é possível então isso libertará uma tremenda energia, compreende senhor? O que for possível. Portanto, a partir dessa qualidade de consciência, ou atenção, que não consiste em seguir um método nem sistema nem disciplina, mas observação- observar como nos sentamos, observar a inquietação do corpo, o nervosismo dos dedos a tamborilar, etc. Certo? Além disso há a investigação biológica, a observação do corpo, compreende senhor? Observar o corpo, não quer dizer orienta-lo nem dizer que se deve ou não, mas observá-lo, porque quando observarem o vosso corpo de forma tão desperta verão que o corpo se torna muito calmo.

P-    Mas isso só é possível principalmente se vivermos  num grupo religioso.

K-  Só será possível se vivermos no seio de um grupo religioso?

P-    Não só, mas principalmente, porque  se tivermos de viver em sociedade deve ser bastante difícil.

K-  Se não será muito difícil se tivermos de viver em sociedade, de tal modo corrupta e irreligiosa ela é, para o conseguirmos. Tudo é difícil, senhor!

P-    Não, senhor, eu pratiquei isso durante muito tempo.

K-  Eu acabei de lhe dizer que não  pratiquem nada. Imploro-lhe, senhor, não pratique coisa nenhuma. Escute aquilo que estou a dizer. Não pratiquem nada. Porque se praticarem a vossa mente tornar-se-á mecânica.

P-    Eu estava só a fazer emprego da palavra, não quer dizer que seja exactamente assim. As palavras são muito limitativas.

K-  Eu sei senhor.

P-    Se a própria estrutura da sociedade confunde, devemos ir em frente  e tentar...

K-  Olhe, senhor, conheço tão bem como toda a gente, a tremenda carga que a sociedade nos impõe. A sociedade é o vosso pai, a vossa mãe, o vizinho, o político e todo o resto. Eu estou ciente dos perigos disso e todos temos consciência disso; da criminalidade de tudo isso. Mas pergunto a mim próprio o que haverei de fazer numa sociedade assim. Fugir disso? Juntar-me a algum grupo religioso? Evadir-me em alguma fantasia ou tornar-me simplesmente comunista ou socialista, e sabe-se lá o que mais? Eu expliquei isso tudo.

P-    Porque identifica a mudança da sociedade com o tornar-se comunista?

K-  Eu não o faço. Eu não identifico a mudança da sociedade com os comunistas, nem com os Católicos, nem com o partido Trabalhista, ou o que quer que seja. Porque quando nos identificamos com um grupo não podemos mudar a sociedade.
No outro dia alguém veio ver-me sem que saiba bem porquê, e disse que finalmente se achava livre por se ter ligado à Igreja Católica. Verdade! Porque para eles a liberdade é sinónimo de liberdade de escolha. Acompanhem isso. Investiguem isso, senhores. Liberdade de escolha, certo? Quando é que escolhemos? Quando nos achámos confusos e indecisos e dizemos: "eu escolho assim", certo? Porém quando vemos a coisa com toda a clareza não se trata mais de uma questão de escolha. Somente quando a mente está confusa escolhe, pois quando possui clareza não há escolha. Mas investiguem.

Assim, estavam a perguntar se não poderemos viver neste mundo com clareza e sem escolha alguma,  com total conhecimento ou consciência, certo? Façam-no, senhores, façam-no. Verão assim a imensa possibilidade da coisa. Somente quando pensam que têm de mudar de acordo com um padrão determinado, de acordo com um determinado objectivo, de acordo com um certo princípio, é que estão perdidos. Mas se se observarem, sabem- experimentem isso enquanto conversam ou vão a conduzir, observem o modo como conduzem, ou estão com a boca aberta. Observem-no enquanto estiverem a conversar ou a bisbilhotar. Sabem, essa é uma das melhores maneiras de desperdiçar o nosso tempo, bisbilhotar acerca de A ou B. Observem isso de forma que a vossa mente se torne surpreendentemente sensível pois essa inteligência sensível é que actuará. Certo?

P-    Será que o pensar é compatível com a  consciência?

K-  Se o pensar e a consciência são compatíveis? Tem consciência de estar a pensar? Coloquem esta questão a vós próprios, p. f. Estou a colocar-vos essa questão. Quando estão a pensar têm consciência? Não me respondam. Investiguem-no porque  essa é uma questão verdadeiramente interessante. Pesquisem-na. A questão que tinha sido colocada era se haveria compatibilidade entre o pensar e  ter consciência. Mas a minha pergunta é se têm consciência de estar a pensar. Sendo essa consciência observar sem distorção nenhuma, sem correcção nenhuma nem justificação.  Observar somente.

P-    Por um momento.

K-  Não façam isso num momento ou noutro. Olhe isso, senhor. Tem consciência de estar a pensar? Ou será o pensar imediato? Vocês pensam. Eu pergunto-vos alguma coisa e surge uma resposta imediata. Mas se investigarem isso um pouco verão algo interessante. O cérebro "velho", que se acha cheio de lembranças conhecimento e experiência, esse cérebro "velho" responde de modo instantâneo a qualquer desafio. Não é? Eu digo-vos que sois feio e vós dizeis que não. Entendem? A resposta é instantânea, a resposta que procede do cérebro "velho", certo? Porém se tiverem consciência de haver um hiato de tempo, um intervalo entre a resposta do cérebro "velho", talvez assim possa ocorrer uma resposta nova. Entendem aquilo que estou a dizer? Estão a acompanhar isto tudo? Não? Está bem.
       Olhem, vocês podem observar isso tudo em vós próprios se  simplesmente se derem ao trabalho, pois isso é melhor que qualquer livro alguma vez escrito por um indivíduo qualquer, incluindo a Bíblia ou outro qualquer. Se se observarem perceberão que o cérebro possui uma qualidade que pertence sempre ao que é "velho", à velha tradição, ao condicionamento velho; a que qualquer desafio- que é sempre novo, tem de ser porque de outro modo não seria um desafio- o cérebro "velho" responde com rapidez. Certo? "Eu sou Cristão"- isso imprime luta. Entendem? "Eu sou comunista" ou o que for- isso responderá de acordo com o meu condicionamento. Agora, se tiverem consciência verão que o cérebro "velho" não precisa necessariamente responder de imediato. Há uma brecha, um intervalo.
E nesse intervalo a mente nova pode responder. Experimentem-no, e verão. Entendem o que estou a dizer? Não estão demasiado cansados? Se o penetrarem verão que isso é muito importante. Espantoso.
       Porque o nosso cérebro "velho", que se encontra nos bastidores- eu não estou muito familiarizado com isso- o cérebro "velho" responde sempre de acordo com o prazer, com a dor, etc. etc. E como está sempre a responder não pode haver nenhuma resposta nova. Está certo? A resposta do "novo" só poderá ocorrer quando o cérebro "velho" estiver suficientemente imóvel. Mas para que essa imobilidade possa surgir tem de haver uma consciência em que não haja nenhuma justificativa nem condenação nem identificação. Entendem? Uma consciência em que o cérebro velho se torna um pouco mais dormente, de modo que o novo possa actuar. Vejam se não será assim.
       Essa é a razão porque toda a questão do sono e do sonho, e tudo isso faz parte disto. Talvez investiguemos tudo isso numa outra altura, agora não.

P-    Eu estava a pensar se o senhor não poderia traçar um retracto verbal daquilo que o mundo poderia ser se todos fossem indivíduos por inteiro.

K-  Ele gostaria que eu trace um quadro verbal de como seria o mundo se todos os seres humanos fossem indivíduos por inteiro. Mas receio que eu não seja a pessoa indicada para poder dar-lhe uma imagem verbal, porque isso é pura perda de tempo. O modo como possa vir a ser não tem importância, o que é importante é aquilo que é.

P-    Mas, tão logo tomo consciência de mim próprio, procuro fugir a essa consciência. Assim que tomar consciência do meu pensar, ou o que for, trato de o alterar, e mudo-o.

K-  No momento em que me torno consciente eu tenho o desejo de mudar – seja a minha expressão facial, ou o meu modo particular de pensar- no momento em que tomo consciência há uma resposta instantânea de mudança, ou exigência de mudança. É o que estou a dizer. A resposta instantânea para a mudança faz parte do cérebro "velho" que diz: "isto não está certo, devia ser daquele modo". Aquietar o cérebro "velho" significa ficar atento sem escolha nenhuma. Ter consciência das arvores, senhores. Olhem, vocês têm consciência daqueles montes, mas será que podem fazer alguma coisa com respeito a eles? Podem? Eles estão acolá, a sua silhueta, a sua altitude, a sua beleza, os vales- têm simplesmente consciência disso. Do mesmo modo tenham consciência de vós mesmos, sem querer alterar essa consciência. Então, a resposta do cérebro novo produz uma qualidade de mudança totalmente diferente, algo completamente novo.

P-    (Inaudível)

K-  Não, senhora, no momento em que surge a divisão entre o cérebro velho e o novo- oh, meu Deus, não acredito que estou  novamente às voltas com isto. Olhe somente para isso, senhor. Existe uma divisão entre nós e o outro, entre nós e a arvore, entre nós e o monte, entre nos e o marido, a esposa, os filhos e tudo mais. Essa divisão existe. Mas ela existe por existir permanentemente um censor- vocês já sabem, o censor que diz que "isto está certo", ou "está errado", "isso devia ser assim" ou "não devia", isso faz parte do nosso condicionamento, faz parte da nossa estrutura, da nossa sociedade,  esse ajuizar de imediato faz parte da nossa cultura. Agora, ter consciência desse juízo...  Se tivermos  consciência dele sem o emprego de  nenhuma forma de escolha, deixará de existirá divisão nessa atenção.

P-    A própria especulação disso...

K-  Não se trata de especulação nenhuma, senhor.

P-    (Inaudível)

K-  Também já o dissemos, senhor. Se se aproximarem de todo esse problema de modo intelectual, então isso torna-se um pesadelo. E, se se abeirarem dele tal como ele é... Vejam, se se aproximarem dele como ele é, isso significa que foram condicionados pela cultura em que vivem. Não será? Isso é um facto, não?

P-    Quando faço a experiência da liberdade isso nunca decorre da observação, nem de nenhuma forma de incitamento nem esforço. (Inaudível)

K-  Ah, isso é somente...

P-    Bem, isso está constantemente a ocorrer à maioria das pessoas a cada passo.

K-  Olhe, senhor. Eu não sei o que acontece à maioria das pessoas a cada passo. Mas o que digo é que, como seres humanos, nos achamos completamente condicionados no padrão do êxito, seja dos negócios, seja da religião ou qualquer outra coisa; estamos condicionados pelo êxito. Agora se tomarem consciência desse condicionamento, poderão descobrir – por intermédio dessa atenção- se estão a escolher, ou se dizem que não devemos procurar o êxito, porque nesse caso estaremos a bloquear-nos, e isso provocará um conflito enorme.

P-    (Inaudível)

K-  Eu sei, senhor. Se tivermos consciência desse processo de modo definitivo, então essa atenção, essa consciência, modificará o padrão. Não posso dizer-lhes mais nada. Estou sucessivamente a repetir-me. E já só faltam dez minutos para o meio dia.

P-    Não poderia pronunciar-se com relação à cessação do tempo, e simultaneamente quanto à chama do descontentamento?

K-  Olhem, já só falta um quarto de hora para as doze. Mas esperem. Não está um outro encontro marcado? Não desejam?

Audiência:  Sim.

K-  Vêem o quanto tenho estado a trabalhar?

P-    Terá disposição para  outro encontro?

K-  Se terei disposição? Eu perguntei-lhes se vocês queriam e vocês  perguntam-me se eu quero, e se eu tenho disposição? Se  forem verdadeiramente sérios eu estarei disposto

P-   E nós não somos?

K-  Isso cabe a vós decidir! Se forem sérios de verdade e quiserem penetrar com profundeza toda esta matéria eu posso dispor de um dia convosco. Compreende senhor? Temos a próxima sexta feira, às dez e um quarto.






2º Diálogo


31 de Julho de 1970 em Saanen


K-    Que querem debater esta manhã? Suponho que cabe a vós, geração mais jovem a tarefa de colocar as questões. Além disso espero que perdoem ao orador, que é bem mais velho, de se sentar aqui em cima (plataforma). Então, de que querem falar? Penso que seria bastante interessante e proveitoso destacarmos um assunto que fosse de matéria vital para todos aqui presentes e que passássemos a explorá-lo juntos e expuséssemos todos os detalhes, se possível sem tropeçarmos em conclusões (o que seria péssimo) e expuséssemos tudo o que essa questão encerrar, de modo a podermos perceber por nós próprios todas as implicações envolvidas. E quando a tivermos percebido na sua inteireza, com todas os seus aspectos intrincados e questões então não formularemos nenhuma escolha nem decisão e seremos capazes de perceber a sua natureza toda, exposta diante de nós. Ou o empreendemos ou não; não podemos dizer para connosco: "será que devo ou não?" enquanto ficamos à espera que isso produza a decisão esperada. Se perceberem a coisa com bastante clareza, poderão sempre dizer para convosco: "Eu não vou empreender tal coisa porque não sinto interesse." Porém, se para vós isso tiver um significado vital, então não podereis evitar empreender o que isso exige, porque fará parte intrínseca da vossa vida. Isso seria o mesmo que decidirmos deixar de utilizar o braço direito.
Portanto sobre que querem conversar esta manhã, de forma que não só exponhamos os aspectos intrincados do problema como pela compreensão do problema possamos expor-nos através dele? Um assunto ou questão pode representar uma coisa externa, verbal, o que possuirá muito pouco sentido, porém, se nos deixarmos envolver por ela e deixar que se torne parte de nós expondo-nos dessa forma ( não aos outros mas a nós próprios) nesse caso penso que valerá a pena investigarmos com toda a facilidade e satisfação possíveis esse problema, se ele for vital e do interesse geral.

P-      Nós comunicamos não só através do uso da palavra e do símbolo mas também por meio das roupas que envergamos e pelo nosso modo de ser. Mas esses símbolos e até mesmo o modo como comunicamos através das nossas roupas prevalece como um meio de verdadeira comunicação. Não poderíamos tratar a questão da comunicação?

K-    O interrogante pergunta se podemos debater a questão da comunicação. Nós utilizamos palavras, gestos, símbolos e vez por outra ficamos em silêncio mas de qualquer modo isso não deverá parecer muito apropriado nem muito significativo, nem sequer conseguirá dar a entender o sentido pleno daquilo que queremos transmitir. Não é mesmo?

P-     Certo. Mas com respeito aos símbolos de que falou, nós fomos condicionados por eles, condicionados a usá-los.

K-    Somos condicionados pelos símbolos que usamos e condicionamos esses mesmos símbolos de acordo com o nosso próprio condicionamento. Todos sabemos disso. Mas vocês querem debater isso? De certeza?

P-      Ontem afirmamos possuir dificuldade para tomar decisões, o que dá a revelar o quanto estamos confusos. Assim, gostaria de saber como se instalou em nós tal confusão e de que forma poderemos sair dela.

K-    Ontem, afirmaram que uma decisão significa escolha mas pretendem saber como chegamos a ficar confusos no início. É isso que pretendem saber.

P-      E de que forma haveremos de sair da confusão.

K-    Pois, como poderemos sair dessa condição. É isso?

P-      Será que o ser humano pode alcançar a liberdade, a não dualidade, a benção ou é suposto não deixarmos de oscilar entre os altos e baixos da vida?

K-  Será que podemos manter-nos o tempo todo no domínio da liberdade, da benção e da não-dualidade ou não deixaremos de oscilar entre os altos e baixos da vida?

P-      Ontem afirmou que o cérebro deve permanecer em silêncio. Eu gostava de saber se ele poderá permanecer nesse estado quando tem de trabalhar.

K-    Ontem dissemos que o cérebro deve estar em silêncio quando tem de trabalhar e tem de usar o pensamento. É isso?

P-      Podemos debater a questão das nossas exigências de segurança?

K-    Se poderemos falar juntos sobre a nossa necessidade de segurança...

P-      Podemos conversar sobre a tirania que a mente exerce?

K-    Sobre a tirania da mente...

P-      Depois da questão da comunicação o senhor disse: "agora vou colocar-lhes a questão de como poderemos chegar junto a uma pessoa que vive de modo completamente insensível, de forma que o yoga de que se fala seja completamente posto de lado". De que forma poderemos chegar junto de tal pessoa?

K-  Como poderemos comunicar com uma pessoa que está completamente em baixo e se mostre desinteressada e insensível para com o que foi debatido; de que jeito poderemos comunicar com essa pessoa? Não podemos!
Mas, esperem lá. Que havemos de fazer? Já foram colocadas tantas perguntas... Por qual devemos começar? Por favor decidam vocês para podermos avançar para a exploração dela e ficarmos bem esclarecidos e daí não resulte nenhum problema e no final não tenham que perguntar: "Eu gostaria de colocar outra pergunta acerca dessa." Certo? Então devemos começar a aprofundar uma questão que importe e se mostre significativa?

P-      A questão da tirania que a mente exerce.

K-    A tirania da mente.

P-      A questão da confusão, que parece ter tido início ontem. Parece que tudo se relaciona com essa questão

K-    Então vamos debater a questão da confusão? Óptimo.
Bom, vamos conversar como dois amigos. Eu lamento ter de me sentar nesta plataforma que confere um certo sentido de autoridade, todavia eu não possuo autoridade nenhuma e sento-me aqui simplesmente por uma questão de conveniência, exclusivamente. Podia muito bem sentar-me no chão e conversar junto convosco; é assim que se faz na Índia. Habitualmente sento-me numa plataforma como esta quando estou diante de uma audiência de umas oito mil pessoas, porque tenho de o fazer, senão de outro modo...
Assim, pois, estamos a conversar juntos como dois amigos que nutrem interesse pelo problema, de modo imparcial, problema que não abandonam por falta de interesse porque vós estais envolvidos e viveis isso; queremos descobrir de que modo surge essa confusão e se será possível ver-nos livres dela.
Quando falamos sobre a confusão, que coisa pretendemos significar com o termo? Ao empregá-la que queremos dizer? Não somente de acordo com o significado do dicionário mas essencialmente para vós, de forma não verbal, entendem? Se tivermos presente que a palavra não é a coisa, nem a descrição corresponde àquilo que é descrito, tampouco a explicação à corresponde à coisa explicada, como é que chegam a ter noção ou a sentir-se confusos?

P-      Quando não sabemos o que fazer, ou aquilo que somos.

K-    Quando não sabemos o que fazer, ou o que somos, nem que relação temos com a sociedade, que comprometimento deveremos empreender, etc. Quando no mundo, entre os políticos, os sacerdotes e os filósofos que nos rodeiam existe tanta confusão, injustiça, infelicidade, neurose,  que coisa poderemos fazer? Não é mesmo? Mas, o que é que despoleta esta palavra "confusão"- de que forma têm consciência de estar confusos?

P-      Provavelmente porque somos incapazes de tomar decisões.

K-    Não, não. A minha pergunta é completamente diferente. Chegarão lá mas primeiro iniciem devagar. Como sabem estar confusos? Não será através da relação com qualquer coisa, ou por quererem fazer algo e dizerem: "eu não sei", desse modo descobrindo por que razão estão confusos? Por favor, avancem bem devagar neste terreno, porque é bastante importante que o compreendam. Querem fazer algo e descobrem que se acham num estado de confusão. Por isso têm noção da própria confusão com relação a determinada coisa. Esperem! Se aquilo com que se relacionarem for divertido e tiverem conhecimento sobre o que fazer, nesse caso haverá confusão? Entendem a minha pergunta?
Eu sinto-me feliz, tenho dinheiro e tudo o que quero faço a meu modo. Assim digo para comigo: "Porque está para aí a falar de confusão quando eu não tenho confusão nenhuma?" No entanto tal pessoa está confusa. Agora, percebem a diferença. Não é com relação a determinada coisa. Eu já toco nesse aspecto. Como saberão se estão confusos se não tomaram nenhuma acção- como a pergunta sobre o que devem fazer? Percebem a diferença? Eu pergunto a mim mesmo se a percebem.

P-      Não será durante a acção que percebemos quando estamos ou não confusos?

K-    Não, senhor. Antes de mais avancemos devagar. Aprofunde esse aspecto de verdade; mas para o podermos penetrar com suficiente profundidade temos de avançar milímetro a milímetro, ou centímetro a centímetro. Não podemos saltar para uma conclusão. Agora, como é que eu tenho conhecimento de me sentir confuso? Como sei que tenho fome? Esperem, esperem. Escutem com atenção, um minuto. Como sabem se têm fome? Não é devido a que a refeição que vou fazer estimule o apetite. Trata-se da sensação de fome. Aí sinto vontade de certos alimentos e digo: "vou comer isto ou aquilo". Antes de mais existe a sensação de fome. Poderão, do mesmo modo, saber se estão confusos? Ou só o sabem com relação a determinada coisa? Devem dizer, à semelhança do homem que tem tudo o que quer- posição, prestígio, etc. – "de que confusão está a falar? Eu não me sinto nada confuso". Mas, por debaixo da pele ele acha-se num estado tremendo de confusão. Todavia, para uma pessoa assim não existe confusão; já convosco, quando querem fazer alguma coisa e se vêem numa confusão, dizem: "Eu estou confuso". Percebem a diferença?
E depois há uma outra coisa. Têm conhecimento de estarem confusos por si só, de per se? Percebem a diferença existente entre estas três categorias?

P-  Eu diria que, em certa medida o conhecemos mas, na verdade, só chegamos a tal conhecimento quando temos de agir, porque aí temos de escolher.

K-  Só têm conhecimento de estar verdadeiramente confusos quando têm de agir, porque nesse caso têm de escolher. Não é mesmo? Além disso, segundo a forma como actuarem, na necessidade de definir o que fazer, é que revela a confusão. Certo? Porém, se essa acção for suficientemente satisfatória, que farão? Dirão: "tudo bem, não me sinto confuso". Não sei se estão a entender. Percebem? Tratemos de explorar esta questão um pouco mais, juntos. Não será que obtêm noção de se acharem confusos por desconhecerem somente o que deverão fazer? Ou melhor, deixem que lhes coloque a questão nos seguintes termos: vocês tomam conhecimento de tudo o que ocorre no mundo- toda a confusão política, nacionalista, económica, a injustiça social, os preconceitos de raça de cada um, e da corrupção que existe na sociedade e no indivíduo- tanto no ser humano como em face a este constante tumulto de guerra- e tudo  isso dá origem á  confusão, não será? Portanto, na relação que mantêm com essa vasta confusão generalizada, será que percebem igualmente que estão confusos ou só percebem o tipo de acção que devem empreender ou o que devem fazer a respeito? Não estou muito certo de o perceberem.

P-  Se me adapto por efeito da confusão ou se não o deva fazer, é isso?

K-  Não meu caro senhor, desculpe-me. Preste atenção somente. Veja bem, o mundo acha-se imerso na confusão e ao observar essa confusão generalizada percebo igualmente que me acho igualmente confuso. Ainda não se trata da questão de agir. Mas, porque a que o mundo se acha neste estado de confusão, eu estou igualmente confuso; porém, no momento em que digo que tenho que fazer qualquer coisa a respeito, ao perceber a minha própria confusão, então nesse caso essa confusão há de ser o resultado de querer descobrir o que fazer. Percebe a diferença? Veja bem, você sente fome e ninguém precisa de lho dar a conhecer, nem tem que sair á procura de restaurantes nem consultar os menus etc.; a única questão é que sente fome. Agora, será que têm conhecimento de se acharem confusos, exactamente nos mesmos moldes?

P-  Por vezes tenho.

K-  Então trate de descobrir se essa confusão não está em relação com a questão da confusão global, porque nesse caso a sua actuação deverá ser completamente distinta. Vamos devagar, senhor. Eu sinto-me confuso- o mundo está uma confusão e como ser humano que tem de viver neste mundo, eu descubro que estou confuso. Não digo: "que hei de fazer com relação à confusão reinante", mas antes: "Também me sinto confuso- não com relação a um procedimento; trata-se unicamente de sentir que estou confuso".
A sua questão era: "Eu só me sinto confuso quando tenho de tomar uma atitude"- o que é completamente distinto de sabermos que estamos confusos.
Pergunto-me se estarei a explorar suficientemente a questão. Não se deixem entediar com esta questão.

P-  Eu também gostava de saber de que forma cheguei a ficar confuso.

K-  Eu já lá chego.

P-  Quero dizer, os psicanalistas - sinto-me confuso porque já passei por inúmeros...

K-  Não, esqueçam os analistas.

P-  Como é que fiquei neste estado de confusão?

K-  Tenha paciência, já iremos descobrir  de que forma caímos neste estado, mas antes de mais, percebam a diferença que existe entre a confusão relacionada com a questão de " como actuar" e a confusão em si mesma, certo? Será que percebem a diferença existente entre ambos os aspectos? Nesse caso direi para comigo não o que devo fazer com relação à sociedade, mas, " de que forma se instalou essa confusão em mim, na qualidade de ser humano. Essa é que é a questão e não o que fazer com relação à sociedade. Porque se eu não estiver confuso poderei agir e dessa forma afectar correctamente a estrutura social. Mas percebam a diferença. Porque, se a perceberem, então formularão a questão assim: “como é que eu caí nesta confusão?”

P-  Trata-se de uma confusão de anos, de forma que o nosso problema actual não deve ser...

K-  Espere aí, senhor. Eu já lá chego. De que forma, enquanto ser humano que sou, caí nesta terrível confusão? É a isso que se está a referir; como pode acontecer que me veja neste estado de confusão?

P-  Não será algum complexo...

K-  Espere, por ora vamos dar atenção ao seguinte; eu recuso-me a aceitar a possibilidade de se tratar de um complexo, ou uma nova forma de complexo analítico. Já iremos investigar isso um pouco mais adiante. Tomo simplesmente consciência disso, e faço-o não com relação a determinada actuação que deva empregar; logo, a minha pergunta passa a ser: como é que eu- como um ser vivo que habita este mundo, cheguei a cair neste estado? Será culpa da sociedade? Será da educação? Será da estrutura económica, das crenças religiosas, temores e tudo o mais? Ou tratar-se-á da herança de uma confusão que recebemos desde o início? Percorram todas essas interrogações; não varram com elas para o lado. Assim, quando refiro se não se tratará de um erro da sociedade- tomo isso como um início de acção- se não será o resultado da sociedade- sendo que por sociedade entendo a educação, a religião, a cultura geral, os absurdos generalizados, as superstições, as desigualdades, a injustiça social, os preconceitos, o nacionalismo, a falsidade da educação, tudo enfim, o que podemos colocar numa simples palavra- sociedade. Não empreguem mais nenhuma. Portanto, deverá tratar-se da sociedade ter criado este resultado em mim, como um facto- o que implica que eu deva ser diferente dessa sociedade? O que implica que eu seja inocente, uma entidade maleável, meiga, e que essa sociedade me tenha moldado, simples facto esse que me tenha trazido esta confusão? O que implica que eu seja diferente dessa sociedade... Por isso, não posso culpar a sociedade. Certo? Porque, vejam bem, não podem nem culpabilizar o meio nem a alimentação que ingerem. Entendem? Portanto, estava a perguntar se isso não será culpa da sociedade, porque eu sou essa sociedade. Eu criei-a e vejo-me agora aprisionado nela. Mas  não a terei criado? Vejam se estão perfeitamente seguros disso.

P-  Não.

K-  Diz que não. Não a terá criado por meio da sua ambição pessoal?

P-  Ela já existia.

K-  Já existia de antemão, diz ele- criada por outros; foram os meus trisavós que criaram esta sociedade, pelo que não posso ser responsabilizado- prestem toda a vossa atenção- razão porque não posso ser responsabilizado. Ao estivermos bastante certos, não é mesmo- se eu possuir bastante  clareza, então não sentirei qualquer confusão. E, se os meus trisavós e as gerações passadas produziram esta terrível desordem e isso for culpa inteiramente sua- de forma que eu não tenho nada a ver com isso- então nesse caso eu não sentirei qualquer confusão. Não será assim?

P-  Claro.

K-  Mas eu estou confuso!

P-  Mas isso deve-se ao facto de ter sido marcado.

K-  Espere aí; já lá chegamos. Portanto, diz você que eu fui marcado e moldado pela sociedade. Fui marcado, moldado e empurrado para o canto pela sociedade.  Vocês não foram?

P-  Talvez não colocados à margem, mas marcados, seguramente.

K-  Marcados. Portanto, o que significará isso?. Foram marcados, moldados, aprisionados. Mas quem irão culpar? Será que podem culpabilizar alguém?

P-  Não.

K-  Correcto. É isso. Vocês “autorizaram” que os marcassem, antes que soubessem o que quer que fosse a respeito, enquanto eram crianças, rapazes, raparigas, à medida que iam crescendo com as marcas da sociedade- por isso não podem censurar a sociedade. Não culpabilizem ninguém; nem o vosso avô nem avó, tampouco se revoltem contra os vossos pais!

P-   Podemos continuar?

K-  Esperem, eu estou a fazê-lo. Desse modo dirão: "Não há ninguém contra quem eu me possa revoltar, nem sequer contra a sociedade posso invectivar culpabilidade. Eu estou marcado e confuso." Não se trata de saber o que tenha criado essa confusão; o facto é que estou confuso. Posso muito bem arranjar explicações para essa confusão, dizer que foi o meu avô ou a sociedade actual- isso, porém, serão simples explicações, ao passo que o facto é que nos achamos confusos. Agora, podemos continuar? Não culpabilizem ninguém; tampouco adianta dizer: "como é que isso acontece?", nem os complexos- trata-se simplesmente disso. Certo? E assim, a nossa posição torna-se completamente diferente à anterior, em que culpabilizava as pessoas.

P-  Eu posso não as culpabilizar, porém, sinto revolta.

K-  Pode revoltar-se, mas isso é uma forma de culpabilização.

P-  Não.

K-  Ao revoltar-se também está a rejeitar a coisa toda.

P-  Mas eu não o desejo.

K-  Não o deseja... Avancemos bem devagar. Mas se o não deseja, e a despeito disso ainda actua dessa forma, age com base na sua confusão, de modo que incrementa essa mesma confusão. Mas de momento não estamos concentrados em "como agir" mas antes a esmiuçar a consciência de nos sentirmos confusos, e ninguém poder ser culpabilizado, não é? Acontece. Aconteceu eu nascer na Índia, pelo que não posso simplesmente culpabilizar os indianos por lá ter nascido, por não ter um tom de pele mais atractivo- mais claro; mas, de que adianta culpar alguém quando isso é um facto? Posto isto, continuemos.
Assim agora tomo consciência de estar confuso e de que isso não é culpa nem resultado de nenhuma confusão exterior. É um facto. Assim, que hei de fazer?
Vejam a forma como progredimos na investigação do que podemos fazer. Eu tenho consciência de me achar confuso, portanto, que hei de fazer?

P-    Temos que ter a certeza de que não procuraremos escapar ao facto.

K-  Já vamos investigar isso, senhor; avancemos devagar, juntos. Que havemos de fazer? Agora, eu digo de mim para comigo- "quem é que coloca esta questão?" Estou mergulhado na confusão e acho que devo actuar com relação ao facto, mas- quem é que coloca tal questão? Será ela induzida ou referida por alguém que se ache livre da confusão? Respondam a isso; tentem descobri-lo, se fazem o favor. Esta questão estará a ser colocada por um fragmento exterior à confusão? Será? Nesse caso, quem é que a está a levantar?

P-  A própria confusão.

K-  Ao referirem tratar-se da própria confusão, percebam o que estão a dizer; como poderá isso suscitar tal questão: a questão de acabar por sair do problema, ou a questão de actuar sobre ele? Tentem perceber a importância disso; investiguem-no e percebam-lhe a importância.
Tomo consciência de me achar confuso; todavia, se subsistir em mim um lado que diga que eu deva sair desse estado e acabar com esta confusão- de que parte de mim se tratará? Será ainda a parte mergulhada na confusão, ou será algo que não terá qualquer relação com essa confusão: algum agente externo, superior ou inferior? Ou tratar-se-á- por favor senhores, prestem bem atenção- ou existirá alguma parte de mim que se sinta confusa e diga: "Por amor de Deus, saiamos disto para um nível melhor"?

P-  Ainda é a mesma coisa.

K-  Exacto. Assim, ainda é a confusão a levantar essa questão? Não será? Tomo consciência, com toda a clareza, de me achar confuso. E aí surge a questão: devo livrar-me desta confusão.  Mas eu digo cá para comigo- "quem é que coloca tal questão? Será ainda a confusão ou tratar-se-á de algum agente exterior a essa confusão, Deus, ou o que quer que seja?"
Se for levantada pela parte em confusão, então tal questão deverá ser irrelevante e destituída de valor. Por favor, acompanhem isto com toda a atenção. Se a questão for levantada por uma entidade assim, então tal raciocínio deverá estar a ser motivado por algum factor ou agente qualquer.

P-  Não poderemos dizer que se trata da parte de nós que permanece saudável e livre de confusão a levantar tal pergunta?

K-  Nesse caso, ainda que lhe chamem “parte saudável” ainda deverão estar a sugerir a existência de uma parte de nós que não esteja confusa. Não será?

P-  Que é a mesma parte.

K-  Estarão a sugerir a existência de uma parte de nós que se ache livre da confusão, de modo que a questão deva ser levantada por ela. Mas então- vejam só, percebam o que estão a acabar de afirmar: que uma parte de nós não se acha confusa. Isso é o que as religiões têm vindo a dizer. E nós deixamo-nos cativar por isso; todas as religiões referiram a existência desse Deus, desse agente externo,  Eu Superior, Atman, etc.

P-  Não é exterior.

K-  Que existe em nós.

P-  Com certeza.

K-  O que dá exactamente no mesmo. Ou seja, tem existência em nós mas encontra-se ao abrigo da confusão. Vejam de quanto ardil usamos para connosco próprios. Relativamente à existência de uma parte de nós que permanece livre do alcance, de forma a poder colocar tal questão, tomo consciência da forma como nos estamos a trapacear. De modo que, ao tomar consciência disso, digo: "Por Deus, olha só o que estávamos a fazer". Mas o que todas as religiões propuseram é exactamente isso; o que implica a existência de uma dualidade, a existência de um conflito entre a parte ilesa e o resto da confusão. Por isso acho que se trata de um contra-senso, razão porque abandono tudo isso e não levantarei qualquer outra questão.

P-  Mas, desse modo, não me verei incapacitado para sair da confusão?

K-  Espere, espere. Eu vou mostrar-lhe já isso, senhor; vamos devagar. Vocês são muito impacientes.

P-  É que estas interrupções são demasiado confusas.

K-  Não, estas interrupções têm razão para eclodir, do mesmo modo que as questões. Todavia, avancem passo a passo e serão capazes de colocar as questões adequadas. Avance com facilidade e segurança, senhor. Olhe, eu sinto-me confuso e não culpabilizo quem quer que seja. Certo? Eu fui marcado, porém, esta marca não é a marca de sociedade nenhuma, nem de cultura, de ninguém. A seguir, coloca-se a questão de sabermos de que modo haveremos de sair disto. Mas aí, digo de mim para comigo: "quem é que coloca tal questão? Será algum agente exterior ou alguma parte que não constitui qualquer agente externo, que se ache livre de toda essa confusão?" Existirá alguma parte de mim que não esteja sujeita a esta confusão? Se existir, então nesse caso ela deverá actuar e vós não tereis que exercer qualquer tipo de escolha. Porém, se existir realmente uma parte de nós que não deva estar mergulhada nessa confusão, estão deverá existir uma dualidade. E isso implicará a existência de uma sobreposição exercida por essa parte sobre a outra, e sereis levados de volta para a questão do eu superior e do eu inferior; de Deus em oposição ao diabo, enfim...
Por isso, afirmo que tal abordagem, tal questionário está completamente errado, por conduzir a uma conclusão errada, a um fim errado; eu não levantarei esse tipo de questões. Permaneço somente confuso.
Agora, que é que fazem quando subitamente se vêem confusos, perdidos numa floresta, e se esqueceram o caminho? Quando não está lá mais ninguém a quem possam pedir informações, qual será a primeira coisa que fazem?

P-  É parar.

K-  Param, não é mesmo? Avancemos devagar! Agora, eu sinto-me confuso, e deixo que se erga todo o tipo de questões, afirmo isto e mais aquilo, tomei este e aquele rumo- porém, antes de poder compreender o que quer que seja, tem que suceder uma paragem de toda a acção com relação à confusão. Certo? A mente diz: "não vou por aqui nem por ali; antes de mais devo deter-me"! Vocês farão tal coisa?
Vocês estão mergulhados na confusão e não vislumbram nenhuma saída, apesar de terem perspectivado inúmeros caminhos rumo ao exterior dessa condição, de forma que agora dirão: "Que absurdo! Por me achar confuso, toda a acção que empreender deverá resultar dessa confusão". De modo que não agirão nem farão coisa nenhuma mas deter-se-ão unicamente.
Já experimentaram deter todo esse processo?

P-  Uma parte de mim já o fez.

K-  Não, nenhuma parte o fez. Veja bem, você já rumou a norte, depois a noroeste, a sul, a oeste, este, etc. Você já tomou cada um desses rumos com base nessa sua confusão. Mas aí, você diz: "Por Deus, eu continuo no mesmo lugar; ainda me sinto confuso". De forma que, eu afirmo que a primeira coisa que devo fazer é deixar de avançar, seja em que direcção for.

P-  Mas, parar é uma acção exterior.

K-  Não é. Já o fez?

P-  A maior parte de nós ficou à espera, desprovido de energia.

K-  Não, senhor. Tentem perceber uma coisa, por favor. Vocês possuem imensa energia. Quando se perdem na floresta e experimentam descobrir o caminho de volta, somente para voltarem ao ponto de partida, dizem: "Pelo amor de Deus, eu tenho de parar para ver o que sucede" não será? Vocês detêm-se. Mas, por acaso já detiveram o processo de procurar eliminar essa confusão?

P-  Quando nos detemos, deixa de haver confusão.

K-  Detenha-se, senhor, e descobrirá algo completamente diverso. Eu desejaria que o fizessem. Ou seja, a mente percebe que, estando confusa, o que quer que faça só deverá conduzir a uma maior confusão, de modo que, ao perceber tal verdade, ela detém-se e deixa de perambular para cá e para lá. Assim, entenderá que qualquer movimento que brote do seu interior a fim de procurar uma saída só fará aumentar a confusão; percebê-lo-á como um facto. Do mesmo modo que percebemos que o sol se ergue a cada novo dia também percebemos a verdade disso, pelo que a mente passa a deter-se. Já experimentaram fazer isso? Deter todo esse processo sem qualquer conflito, essencialmente por perceberem que essa via não conduz a lado nenhum. Percebem? Meu Deus, por que razão hesitam tanto?

P-  Estará a referir-se a deixarmos de agir ou a pararmos de procurar um rumo para o exterior desta confusão?

K-  Ambas as coisas: de agir, e de procurar um rumo para fora. Porque, agir a partir dessa confusão só fará aumentar a confusão; procurar uma saída da confusão implica a existência de uma entidade que não se ache confusa e, portanto, dualidade, etc. Assim, todo o movimento se detém.

P-  Senhor, tenho que lhe perguntar o seguinte: Suponha o senhor, Krishnamurti, que se achava confuso; agora, iria manter um solilóquio nos mesmos moldes em que está a fazê-lo, ou simplesmente reconheceria o facto de se deter e mudar de rumo- olhar o "que é" e continuar, simplesmente?

K-  Eu não me sinto confuso, e percebo com toda a clareza e simplicidade que uma pessoa que se ache confusa deve, antes de mais, deter-se.

P-  Mas, o deter-se não constituirá outra forma de acção?

K-  Não. Veja bem, vocês estão a verbalizar ao invés de empreenderem a coisa.

P-  E isso, para si, não constituirá uma acção?

K-  Não, nenhuma. Veja bem, eu tenho andado a vagar e a tentar  uns e outros rumos, mas agora percebo a futilidade de tudo isso, de modo que me detenho.

P-  A auto-compreensão elimina a confusão.

K-  Não, não têm que usar de auto-compreensão; nós já estamos a fazê-lo, à medida que vamos avançando. Isto, o auto-conhecimento, a percepção da forma como a mente prega estas partidas sobre si própria ao dizer que estamos confusos, que devemos sair disso, etc., faz parte da auto-compreensão. Senhor, quando um invisual procura uma saída, experimenta várias, depois magoa-se de encontro à mobília e acaba por tomar consciência de ter que se deter; primeiro procura orientar-se e parar e logo será de novo capaz de achar o caminho de volta, sem ter de avançar de encontro às coisas. Nós achámo-nos cegos e confusos, mas eu digo-vos: Olhem, detenham-se, por um minuto que seja, e tentem perceber ao vosso redor. Não digam que têm de fazer ou deixar de fazer isto e mais aquilo, revoltar-se, etc. Entende, senhor?

P-  Mas algumas pessoas fazem uma paragem, só que em toda a linha do seu viver.

K-  Isso é igualmente estupidificante. Algumas pessoas referem não saber o que fazer, de forma que se detêm e ficam prostradas, inertes. Porém, aquele que disser: "olhe, deve existir um caminho de saída, vou descobri-lo; já tentei isto e mais aquilo e não funcionou, de forma que, antes que faça alguma coisa mais, não efectuarei nenhum movimento". Vocês procederão desse modo? Se não, a questão que puserem a seguir, deixará de fazer qualquer sentido.

P-  De que forma uma mente confusa obterá consciência da saída?

P-  Não; como saberá se existe uma saída?

K-  Eu estou a mostrar-lhes, senhor, exactamente de que modo a mente confusa deverá conhecer a saída.
  Portanto, antes de mais deve deter-se. Vocês descobrirão! Mas, por Deus, vocês abstêm-se de o fazer.

P-  Ainda acho que existe uma entidade separada que não se acha confusa.

K-  Você não pode afastar-se dessa sensação de existência de uma entidade distinta que se ache livre da confusão- o que significa a existência de uma entidade que possui clareza de espírito, impoluta, intocada e imaculada. Mas agora prestem atenção, por favor. Uma vez que tenham compreendido isso, não mais voltarão a levantar tal questão.
Agora, quando têm noção da existência de uma entidade separada, de que forma terão noção disso? Tratar-se-á duma sensação? Será o resultado do vosso pensamento, do vosso desejo da existência de algum tipo de saída, de forma que o tempo passe a inventar essa entidade distinta, que deverá achar-se intocada? Se conhecessem uma saída não haveria necessidade nenhuma de qualquer entidade separada, não é? Mas, devido a que não conheçamos saída nenhuma é que inventamos tal entidade. Vamos lá, senhores. Olhem, lamento que se sintam cansados e estejam a bocejar.

P-  Eu não estou.

P-  Diria que as privações provocadas pelas diversas tentativas constituam um pré-requisito  necessário?

K-  Entendo. Ou seja, se será necessário que passemos por todas estas diferentes tentativas para chegarmos ao ponto de nos determos. Teremos de passar por tudo isto? Escutem com atenção. Tereis de vos embebedar para poderdes conhecer a sobriedade? Tereis de experimentar drogas para poderdes conhecer a sua inutilidade? Ou percebereis a coisa?

P-  Penso que isso é um pouco mais óbvio. Mas, no caso de uma pessoa que se torna adepta de uma sociedade, ou Igreja, etc. não constituirá isso um pré-requisito?

K-  Olhe, senhor, eu declarei que os seres humanos experimentam essas coisas- não pela adesão a uma delas- eles experimentam-nas e tomam consciência de que uma tentativa é suficiente porque, cada parte é similar ao resto das partes; de forma que desse modo dirá: "rua"!

P-  Tinha referido que, antes de mais se devia parar - mas e depois?

K-  Eu coloquei-lhes a questão, senhor; vocês pararam?

P-  Sim, por vezes.

K-  Pararam de colocar a questão ou de procurar uma saída desta confusão? Agora, esta questão que se segue é realmente bastante importante, se o tiverem empreendido. Se não, então estarão meramente a entreter-se com simples palavras. Eu parei por perceber a existência de múltiplos caminhos e por ter reconhecido a futilidade de passar sucessivamente por todas essas coisas. Foi por isso que parei. Agora, o próximo passo: de que forma terão conhecimento de terem feito uma paragem? De que forma terão consciência- por favor, prestem muita atenção pois isto é verdadeiramente importante- de terem feito uma paragem?

P-  Devido a que observemos os sentidos tornarem-se silenciosos, depois de nos termos detido.

K-  Sim, senhor, Eu só estou a perguntar. Compreendo. Olhem, de que forma saberão que se detiveram?

P-  Só teremos conhecimento de que não nos detivemos se nos percebermos a nós próprios no relacionamento. Então saberemos que não nos detivemos.

K-  Exactamente, senhor.

P-  A mente torna-se silenciosa.

K-  Claro. Olhem, escutem com atenção e descubram. Não se precipitem a afirmar que a mente se torna silenciosa. Há muita coisa envolvida nessa questão.

P-  Eu podia afirmar não me importar de me encontrar sempre na confusão.

K-  Bom, pode dizer isso, tudo bem, não tem problema. Do mesmo modo que aquele que põe de lado toda a conversa sobre a confusão quando possui tudo aquilo de que necessita. È similar ao caso daquele que refere estar sempre em confusão sem se importar - não tem com o  que se ralar.

P-  O senhor está a tratar a questão da confusão, passo a passo. Mas recorrerá a algum padrão mental que esteja a tentar estender-nos e que possamos seguir?

K-  Nenhum.

P-  Porque isso parece demasiado extenso e abstracto.

K-  Mas não é nem longo nem abstracto; é como subir a colina, em que temos que avançar passo a passo. Não podemos subitamente chegar ao topo, temos de avançar progressivamente. Pode até parecer extenso, porém, não o é porquanto tereis chegado a um determinado ponto em que tereis posto de lado todas as coisas inventadas pelo homem, a fim de escapar da confusão- os seus deuses, as suas sociedades, as suas diferentes culturas, as suas análises; tereis posto tudo de parte. É uma coisa espantosa. E então, direis- por favor, prestem atenção: "De que forma poderei saber se deixei de estar confuso?" Esse estado de se deixar de sentir confuso compreenderá todo o meu ser? Compreendem? Toda a minha existência ou somente um aspecto superficial? Porque se for superficial, não deverá passar de uma conclusão intelectual, e nesse caso voltaremos ao mesmo. Porém, se se tratar de ambos os casos, tanto ao nível consciente como a todos os níveis mais profundos, dar-se-á um completo cessar de todo o movimento, tanto neurológico como emocional, tanto verbal como no âmbito do pensamento. Dar-se-á uma completa cessação de todos os movimentos procedentes da confusão.

P-  Mas, lá por cessarem, não creio que possamos aliviar o estado de confusão.

K-  Vocês vão descobri-lo.

P-  Mas, isso é um argumento contra o facto de se tratar de uma questão de escolha, de uma ou de outra forma.

K-  Não, meu amigo. Já analisamos isso. Ficou dito que, onde houver questão de escolha, deveremos estar mergulhados na confusão. Olhe, senhor, quando não sei que rumo tomar, sinto-me confuso; porém, se souber, deixo de sentir essa confusão. Acabemos com isso porquanto estamos de volta à velha questão de: "enquanto subsistir a confusão, deverá existir a escolha, do mesmo modo que decisão". Ponto final. Já falamos disso ontem, mas é possível que cá não tenha estado.

P-  Será que se eu detiver todo o movimento em mim próprio, isso significará também a paragem de toda a acção?

K-  Descubram-no!


P- Parece ilógico dizer que  me controlo e faço uma paragem...

K- Espere, senhor. Não, você percebeu que qualquer movimento procedente da confusão conduz somente a mais confusão. Certo? E por isso você diz: deixa-me parar, porque eu não posso avançar de modo nenhum, isto não tem saída, já tentei deste e daquele modo, e isso não conduz a lugar nenhum.

P- Provavelmente eu não reconheço isso como uma paragem.

K- Eu já lá chego, senhor.

P- Como é que havemos de fazer essa paragem? Podemos perceber como este corpo foi deformado desde a infância, e achamos difícil respirar, com todos os tipos de problemas psicossomáticos...

K- Então, eu sinto medo, senhor. A pergunta é: como poderá alguém que sofreu danos psicossomáticos parar de se sentir confuso? Esperem. A actividade psicossomática terá produzido essa confusão? Eu posso estar doente e ainda assim perceber que a confusão não resulta da minha enfermidade. Isso é bastante simples, não será? E posso sentir uma  dor violenta, profunda, e ainda assim perceber que a minha confusão tem prosseguimento. Assim, a enfermidade, a doença, qualquer forma de deformação psicossomática podem ser distintas da confusão. Isso está bastante claro.
Assim, avancemos: Eu percebo que estou confuso, e a partir dessa confusão qualquer escolha só acentuará a confusão. Desse modo não tomo nenhuma decisão. Por me sentir confuso tentei isto e isto e mais aquilo, mas agora percebo a futilidade disso tudo. A percepção da futilidade de todo o movimento procedente da confusão, esse mesmo facto faz com que o movimento inteiro se detenha. Agora, isso ocorreu consigo? Isso ocorreu consigo? Não? Porquê? Esperem. Alguém lhe diz que isto é um microfone – e você diz: eu não vejo isso assim, penso, ao invés, tratar-se duma árvore. Certo? Do mesmo modo, nós passamos quase uma hora a tentar perceber todas as implicações da confusão, que não é  falha nenhuma de quem quer que seja, mas que acontece fazer-se presente, e nós preocupamo-nos com o facto de sabermos se a mente poderá livrar-se disso. Nas suas tentativas para se livrar disso – tente isso, senhor; observe-se a si mesmo - na sua tentativa de se livrar disso, tentou isto e mais aquilo, e disse: “por Deus, isto não adianta nada”, e detém-se. Se você não se deteve - quer dizer, eu não posso estar a repetir isto dez vezes - isso significa que você não se  associou, não se deixou envolver com o que esteve a ser dito, você simplesmente esteve do lado de fora.
Agora, terá a mente percebido que se deteve em absoluto, e não superficialmente? Não de forma verbal, nem experimental – “vou experimentar isto e ver o que acontece” - mas a percepção de que qualquer movimento procedente da confusão só criará mais confusão; portanto, ver o próprio facto põe fim ao movimento. Certo? Você fez isso, de todo em todo? Certo? E se você o conseguiu, você sentir-se-á confuso? Entende? Só  quando nos mudamos nas várias direcções procedentes da confusão é que  temos noção de estarmos confusos. Mas quando vemos tal facto, e toda a futilidade desse movimento, é que o próprio facto livra a mente de qualquer movimento, então a mente deixa de estar confusa. Oh, vocês não estão a perceber.

P- Voltamos à questão da sensibilidade.

K- Não, a mente deixa de se sentir confusa. A confusão não tem volta. Você descobriu algo, senhor. Não é que eu esteja a descobrir isto por si, é você que o está a descobrir por si próprio, a ração é sua. Então é livre. E a partir dessa mente isenta de confusão agimos. Se houver algum engano,  corrigimo-lo. Certo? Pensamos sentir perfeita clareza, e a partir dessa clareza, agimos. Essa acção não é fragmentária, é uma acção total - por favor escutem – trata-se  duma acção total, sem se achar sob o peso da pressão de qualquer cultura, qualquer sociedade, qualquer convicção, ou do seu desejo pessoal; é uma acção total, por isso é acção completa, não fragmentária, não contraditória. Certo? Logo, há liberdade. Mas podemos cometer um engano por se tratar de algo novo que descobrimos e fizemos. Mas esse engano é alterado imediatamente por percebermos isso como um engano. Estão a acompanhar? Existe uma vigilância constante. Entendem? Vigilância constante; se houver um engano, alteramo-lo, e não o levamos na conta dum problema. Assim, quando a mente se deteve por completo, passa a existir determinada acção, devido a que tenha percebido que qualquer movimento procedente da confusão implica mais confusão; por isso nessa mesma paragem da amarra há claridade. E por isso tal acção é inteiramente completa, e nesse caso acção que não produzirá qualquer confusão adicional. Senhor,  olhe o que está a acontecer no mundo, como estão a tentar  reunir os árabes e os israelitas, os russo com os seus próprios interesses conquistados no Egito, e os egípcios, e os israelitas com os seus próprios interesses. Assim, está a ocorrer uma bagunça horrorosa, e eles vão criar ainda mais confusão. Obviamente. Vemos isso, mas não vemos que em nós próprios estamos a fazer exactamente a mesma coisa. Espere, senhor.  Estamos a tentar criar oposição a esta confusão toda por meio da intromissão de outra entidade que diz: “paremos, vamos deitar mão a isto”. É a mesma coisa que eles estão a fazer no Médio Oriente.
Assim, percebemos que qualquer acção procedente desta confusão representará confusão adicional. Então colocamos uma questão verdadeiramente diferente que é: vida é acção. Vida - não se trata de vida e acção. Viver é agir! No viver existe confusão, além disso a acção gera confusão. Assim, agora, você coloca a seguinte questão: poderá existir uma acção que seja sempre completa e não contraditória, que não crie mais problemas? Nós dizemos que existe, somente quando percebemos que qualquer acção procedente da confusão será mais confusa, de forma que a mente o percebe total e completamente. E  da tremenda percepção desse facto simples resulta a existência duma acção total. Sim, senhor, espere um minuto.

P- O medo não terá uma parte preponderante nisso?

K- Claro. Se o medo não representará uma parte nessa confusão? Medo é confusão, certo? Não representa uma parte - o medo produziu a confusão: Eu temo o que podereis dizer, podem dizer que sou completamente tolo, enquanto que, por minha parte, penso que sou um grande homem,  e não quero ser contrariado,  razão porque sinto medo, e assim  estou a produzir confusão tanto em mim como em vós igualmente. Certo, senhor? Assim o temor e a confusão andam de mão dada - não se trata do medo ser algo distinto da confusão, e a confusão ser diferente do prazer - está tudo relacionado, estão a perceber?

P- Eu penso que entendi. Consigo perceber por mim próprio  o que você disse, mas você há pouco falou das pessoas que lutam umas contra as outras; quer dizer, isso é algo que realmente temos que deter.

K- Claro.

P- É perigoso.

K- Claro. Eles estão a tentar pôr cobro a isso. Mas, olhe senhor - os estudantes e os jovens são impacientes,  querem resultados rápidos, e assim dizem que lançando uma bomba poderemos criar transtorno, mas a violência produz mais violência, a violência produz repressão, facto que está a decorrer - a polícia está a adquirir mais força para dominar os outros... E esta luta prossegue sem termo à vista. E há também uma estranha luta, uma coisa estranha que está a ocorrer na América, aquele grupo que se  auto-intitulam “ os freaks de Jesus”,  entendem? Freaks que se dedicam a Jesus, e que são o oposto dos Hippies - vejam o que está a acontecer - que não deixam crescer o cabelo, não são promíscuos, não bebem, não tomam remédios, não fumam e, ao contrário dos Hippies, estão a tentar convertê-los para a sua causa e assim por diante. Estão a acompanhar-me?

P-    Mas não nos encontraremos numa situação de emergência?

K- Claro que estamos. Esperem, esperem. Nós estamos constantemente em estado de emergência? Claro, senhor. Não estamos? Só permanecemos despertos quando a emergência se torna observável, quando a bomba atinge a casa, ou o vosso banco; aí dizemos: “meu Deus!” Mas as bombas estão a explodir o tempo todo ao nosso redor, facto para o qual não estamos atentos. A igreja constitui uma bomba! As religiões organizadas constituem uma bomba. As nações representam uma bomba porque dividem as pessoas. O preconceito contra isto ou aquilo constitui uma bomba. Vocês não percebem estas coisas; só percebem quando uma bomba é lançada como um acto imediato. Por isso temos de estar atentos - eu não vou estender-me sobre isso tudo.

P- Senhor, que raízes terão as  emoções e os sentimentos  que nos assaltam no nosso viver diário?

K- Espere, senhor. Já terminamos com isto? Não.

P- Quem verá a confusão?

K- Senhor, a pergunta é: “quem verá a confusão”. Ninguém. Espere, senhor, avance de modo lento, esta é uma questão realmente importante, observe-a. Antes dizíamos: “estou confuso – “eu” distinto da confusão; quero fazer algo em relação à confusão, quero adquirir liberdade com relação a ela, quero ir além dela, estou satisfeito como sou em meio à confusão, tenho tudo o que eu quero e não estou confuso, absolutamente”. É a mesma coisa. Assim quando  dizemos, “eu estou confuso”, nisso existe uma dualidade. Esperem. Essa mesma dualidade, essa mesma divisão é confusão;  vocês não estão a perceber. Essa mesma divisão é um produto da confusão. A mente percebe essa divisão como uma coisa venenosa,  uma bomba.

P-    O que é a mente?

K- O que será a mente? O que será o cérebro? Senhor, o cérebro, o pensamento diz: “eu estou confuso. E o pensamento diz: tenho que fazer algo com relação a isso. E então passa a haver uma divisão. Certo? Essa divisão é uma tremenda bomba atómica. Certo? Essa divisão é a mais perigosa forma de divisão. Percebam isso, vejam a coisa. Como é que a vêm? Verbalmente, intelectualmente, ou vêm isso como eu vejo e toco este microfone,  quando estou em contacto com ele, e o cheiro? Estão a acompanhar-me? Não fazemos nada disso, por isso dizemos: “meu Deus” - expomos a mesma questão - quem é que irá perceber que eu estou confuso.
Que horas são?

P-    Passam vinte minutos.

K- É melhor pararmos. Vai haver um debate de domingo que vem, um diálogo. Mas não sei durante quantos dias. Alguém fará a gentileza de me dizer?

P-    Nove dias.

K- Nove? Não. Agora mesmo, vejam, observem a confusão que se instalou! Ou sabem, ou não sabem. Se vocês souberem não haverá confusão nenhuma. Como vai ser?

P-    De domingo a domingo.

K- Domingo a domingo? Isso significa oito diálogos. Agora, vocês gostariam que, durante esses diálogos de oito dias, um ou dois fossem completamente dedicados aos  jovens? O que dizem senhores?

P-    Sim, sim.

K- Óptimo!

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