terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

CHUANG TZU - AFORISMAS



CHUANG TZU

AFORISMAS

"Existirá, debaixo deste céu alguma felicidade perfeita que seja capaz de contentar o homem?
Mas, para a conseguir que será necessário observar? Que deveremos evitar? Em que poderemos depositar a esperança? De que nos deveremos afastar?
O mundo preza as riquezas, as honrarias, a longevidade, as vantagens da reputação, deleita-se com o bem-estar físico, a boa comida, os belos adornos; e despreza a pobreza, a obscuridade, a morte prematura e a má fama, considerando como experiências amargas todas as privações do que atrás é  referido. Quando não consegue tais coisas aflige-se e preocupa-se. Todavia tal atitude não passa de pura insensatez!”

~~~

   “O rico amarga uma vida de trabalho intenso, acumulando mais dinheiro do que poderá gastar. As suas acções alienam-no do bem-estar corporal. Dia e noite os nobres pensam no que os seus actos têm de bom e de ruim. Desse modo prejudicam o próprio organismo. O nascimento é concomitante com as suas dores; quando se vive demasiado, tornamo-nos caducos e angustiamo-nos com a aproximação da morte. Isso é completamente distinto do verdadeiro bem-estar.

O herói que se sacrifica pelos seus semelhantes é considerado bom, porém, a sua bondade não é suficiente  para lhe conservar a vida. Não sei se a bondade que lhe atribuem é verdadeiramente boa ou má. Se é boa, como poderá ser que não lhe conserve a vida? Se tal não for bom, como se poderá admitir que o herói  seja capaz de salvar a vida  do semelhante?

Há um ditado que diz: “Se os teus concelhos não forem escutados, serena o espírito, deixa as coisas correrem e abandona toda a disputa.” Todavia Zi Xu lutou a tal ponto que foi supliciado; não tivesse lutado e a sua glória não teria sido perfeita. Terá sido um bem? Terá sido um mal?

A massa é sempre impelida a uma certa felicidade coagida. Porém, não sei quando se trata de uma felicidade autêntica ou patológica. Aquilo que torna a massa feliz, aquilo por que se esforça a maioria - como se não pudesse proceder de outro modo - a isso chamam todos, felicidade. Mas não sei quando se tratará de felicidade ou não. Existirá mesmo essa felicidade?

Na não acção (não afirmar), segundo o meu parecer, reside a felicidade; todavia, todos consideram a não acção como o maior dos padecimentos. Por isso se diz que a Suprema Felicidade desconhece a consciência do que seja, assim como do oposto; a glória suprema carece de objecto.
O verdadeiro e o falso não podem ser definidos com exactidão, mas o não-afirmar é justamente o que permitirá determinar e distinguir, com toda a segurança, o verdadeiro do falso. Se a felicidade está no fazer viver, só a não acção comporta a  conservação da vida. Entre os homens, contudo, quem estará em condições de não agir?"


Prólogo

Traduzir um autor tão prolífico, variado e intenso como Chuang Tzu constitui uma tarefa e tanto! Ao aproximar-se de um texto tão antigo e fascinante quanto o de Chuang Tzu, qualquer tradutor necessita de todo o auxílio de que puder dispor! Chuang Tzu encara toda a tentativa de imposição da "civilização" sobre a natureza inata do mundo – e em especial sobre o homem - como um enorme erro capaz de contribuir para a distorção da sua condição natural - o livre fluir com a vida. Desse modo opõe-se firmemente a tudo aquilo que os seguidores de Confúcio preconizavam como sendo a ordem, o controle e o poder hierárquico, razão porque o seu livro permaneceu ignorado e desprezado nos círculos confucianos, à semelhança de outros clássicos taoístas, que nunca foram formalmente reconhecidos nos anais clássicos da academia da China Imperial. Este homem era subversivo e sabia-o. Ele foi um dos primeiros iconoclastas.

Martin Palmer
(Tradutor)

Prefácio

   O Taoísmo formula princípios psicológicos duma natureza universal de  tal forma abrangente que podem ser aplicados a toda a humanidade. Mas, por outro lado, exactamente por serem tão universais, os princípios do taoísmo carecem de uma retradução e uma atenção especial sempre que a sua aplicação prática for posta em questão. Evidentemente, os princípios gerais são inegavelmente dotados da maior importância, mas é igualmente importante conhecermos o caminho que conduz à sua compreensão real, e nos mínimos detalhes. O perigo da mente ocidental está na simples aplicação das palavras em vez de factos. O que a mente ocidental precisa é da experiência concreta de factos, experiência essa que não pode ser substituída pela palavra. Por isso me interesso sobretudo pelos caminhos e métodos que possam conscientizar a mente ocidental dos factos psicológicos subjacentes ao conceito do Tao - se é que este pode ser chamado de conceito. Se alguém pudesse chegar à verdade por meio da simples questão da apreensão de palavras de sabedoria, então o mundo já teria sido salvo desde os tempos remotos do Taoísmo. Mas, como refere, e muito bem, Chuang Tzu, o problema está em que os velhos sábios não conseguiriam iluminar o mundo por não existirem mentes suficientes que pudessem ser iluminadas!

   O ensino da sabedoria possui muito pouca importância; em todo o caso, a sabedoria não pode ser ensinada pelo recurso ao uso da palavra. Ela só é passível de o ser pelo contacto pessoal e pela experiência do imediato. A maior e quase insuperável dificuldade reside na questão dos meios capazes de induzir as pessoas a fazerem as experiências psicológicas indispensáveis que abram os seus olhos para a verdade subjacente. A verdade é uma só e a mesma em toda a parte e devo dizer que o taoísmo consiste numa das suas formulações mais perfeitas que jamais conheci.

Carl Gustav Jung 
Em carta datada de:  26-06-50


"Deixai a vossa mente vaguear pelo que é puro e simples;
Tornai-vos um com o infinito,
Permitindo que todas as coisas sigam o seu curso.
Não procureis tornar-vos inteligentes;
Desse modo havereis de conquistar a vós mesmos  e ao mundo..."



Apresentação


    Movido pelo imperativo dum carácter que se prende com a actualização e a preservação de textos de um cunho primordial indispensável à realização humana - instrumento precioso para a libertação das consciências - elegi este empreendimento como signo da necessidade imperiosa de  disseminação do conhecimento para fins de esclarecimento individual  recorrendo a um máximo de fontes originais possível como forma de apuramento da verdade por detrás dos aspectos sempre limitativos da cultura e da época. Talvez a razão de ser da motivação subjacente se prenda com a própria necessidade intrínseca do tradutor, contudo o seu objectivo não deixa de apelar a um sentimento actual e objectivo.

   No que toca à presente edição, somos inevitavelmente levados a interrogar-nos sobre quem é este homem que num tom tão altivo se nos dirige? Que valores poderá representar para a presente civilização decadente, tão distante no tempo, daquela em que supostamente viveu?
Historicamente viveu cerca de 300 anos a.c. e está para Lao Tzu como São Paulo está para Cristo, ou seja, foi o discípulo do afamado fundador do Taoísmo que melhor soube sintetizar o seu pensamento sem cair no ardil da imitação. Contudo, parece não ter desempenhado maior papel para além desse porquanto socialmente não assumiu qualquer função representativa, escusando-se a abdicar da sua modesta condição "a troco de uma mão cheia de ilusões efémeras".

   Chuang Tzu depura como ninguém o estilo do velho mestre ao acentuar a relatividade de todo o conhecimento e mostra-se enfático e contundente ao apontar os subterfúgios e os ardis inerentes à presunção do saber. Avesso a todas as tendências submissas, a todo eufemismo e correntes de pensamento que visam - em maior ou menor grau - redecorar meramente os cenários do eterno drama humano, este homem trata as coisas pelo nome, antes mesmo de preparar o seu auditório para o acto, sem qualquer tipo de falsa comiseração nem parcialidade. Mas, referirá ele alguma coisa escandalosa ou seremos nós quem, embevecidos por este ritmo intoxicante de vida viciosa e complacente, simplesmente se recusa a aceitar a franca exposição que nos estende?

   Reza um velho ditado que: “Quando o aluno está pronto, o mestre aparece”... Quanta verdade velada em tão curta declaração! Sem  mistificações, exprime unicamente o significado da condição do trabalho sobre si-mesmo, porquanto ao predispor-se a alcançar o esclarecimento também acaba por descobrir não comportar este quaisquer definições de carácter exclusivo nem alimenta suposições de separação ou de natureza estritamente espaço/temporal, não tendo, por isso mesmo, qualquer assento na imagem, mas apontando para a essência. Porém, não devemos incorrer na presunção de nos tomarmos pelo que não somos, “colocando o carro na frente dos bois”; o pé constitui a medida do que devemos calçar; não obstante, frequentes vezes o conhecimento adquirido define a justa medida daquilo por que nos tomamos, criadores que somos da nossa realidade.
 Tendemos a avaliar os objectivos conseguidos e o próprio desempenho com a mesma métrica com que avaliamos os nossos oponentes, ou seja, a subjectividade da “nossa medida”, todavia isso pode levar-nos a subestimar o poder da natureza daquilo que tem por costume desabrochar só na altura apropriada. Mas não, definitivamente não se trata de exigir qualquer confirmação da própria evolução porquanto toda a confirmação radica no terreno escorregadio da suposição gratuita e parcial.

   O livre arbítrio compreende um aspecto primordial da liberdade; a compreensão da problemática implícita constitui como que a pedra de toque da realização. A liberdade de escolha constitui a mais elevada garantia da nossa estrutura holística. Contudo, engloba uma enorme responsabilidade, pois assim como escolhemos também definimos o grau de compromisso com a evolução ou retrocesso  relativamente à realização da essência. Tal é o dilema inerente à escolha porquanto assenta na dicotomia do “bem” e do “mal”. Porque sempre que julgarmos limitámo-nos. Quando, por acção da premência dos desafios da vida, somos confrontados com a necessidade imperiosa da escolha, torna-se-nos subitamente claro em que termos precisamos responder, porquanto sempre se nos estendem dois caminhos: o caminho amplo e o caminho estreito; qual dos dois será  o quê - o serviço por si mesmo e (entenda-se) pelos outros, ou o caminho do proveito próprio e do ganho fácil, da resposta fácil e da solução rápida? Qual deles assenta na segregação do temor e em anseios fúteis e qual na justiça (aplicável em qualquer situação)? A tal questão me escusarei eu de responder, por assentar na base das crenças, tanto individuais como colectivas, e depender da consideração de cada um. Requer-se, para o efeito, uma resposta obtida em termos claros e inequívocos, o que, em última análise descarta  meras noções de distinção e arbitrariedade que tanto têm de superficiais como de convenientes.

   Esta é a encruzilhada que inevitavelmente se nos apresenta sempre que nos contentamos com o produto da discriminação superficial e nos deparamos com a crise. Este é o desafio a que temos, mais cedo ou mais tarde, que responder em consciência e sem possibilidade de subterfúgios, porquanto a consciência é o mais recto censor. Só aí percebemos o que está verdadeiramente em jogo nesta questão completa do viver! O problema está, talvez, em que mascaramos a necessidade da responsabilização (ou consciência) com um apelo ao juízo gratuito e á imitação, e tornámo-nos facilmente vítimas neste jogo da poderosa sedução de sujeição ao tempo (ser e vir a ser) e ao espaço da separação eu/mundo e eu/outro inerentes à comparação e ao desejo; ao vazio da solidão e à dor. Sem dúvida que viver de “coração aberto” é algo de verdadeiramente arriscado; contudo, considerado sob que ponto de vista? Muita coisa precisa ser “derrubada” antes que se chegue a poder “edificar de novo”; Mas, que fará descerrar o véu da ilusão dos nossos olhos se não atendermos? Haverá realmente necessidade de tomarmos qualquer premissa à letra num acto de precipitação que compromete a natureza do “original”? Não será de todo inadequado viver segundo desígnios podem ser tido em conta de louváveis mas que não nos pertencem? O supremo propósito da vida exige que avancemos passo a passo, sem recorrermos à negação nem à rejeição condicionada a fim de nos capacitarmos a vislumbrar o real significado de “O Que É”. E “O Que É Como É”, numa última instância, constitui expressão da verdade e do sagrado. Essa será porventura a resposta cabal que poderemos encontrar para tal dilema, ao invés de recorrermos a clichés e a lugares-comuns tão caros a um uso gratificante. Não incorramos no risco de subverter a percepção holística da vida, porquanto nada pode substituir a singularidade de existirmos num todo infinito e indissolúvel, destituído de fronteiras e sem começo nem fim. A responsabilidade disso assenta justamente sobre nós, uma vez que somos os construtores do nosso destino e o fazemos com base na percepção que cultivamos da vida, de nós e dos outros.

Amadeu António


                                                          Texto


Chuang Tzu era casado, mas muito pobre
Vestia uma  túnica de pano grosseiro, muito remendada
E trazia os pés envoltos em andrajos

Na sua juventude estivera empregado numa manufactura de laca
Posteriormente retirou-se a fim de escrever e viver
Em harmonia com o Tao

Desempenhar as funções de um funcionário
Ou o cargo importante de ministro
Não lhe podia convir, por ser contrário ao seu pensamento
E à liberdade natural que preconizava

"Pobreza não é aflição"  costumava dizer
"Quando um letrado não consegue pôr em prática a sua doutrina
Isso sim, é que se torna  aflitivo"

Possuidor duma túnica remendada e sapatos esburacados ele é pobre
Porém, não se aflige
Isso significa apenas que não encontrou a época favorável.

~~~

Numa altura em que ele pescava à linha, no rio,
O imperador enviou dois oficiais com uma proposta de ofício
Sem levantar a linha nem sequer voltar a cabeça, respondeu-lhes:

"Ouvi contar que existe no palácio uma tartaruga sagrada
Morta há três mil anos. Não é verdade?
O vosso rei conserva a sua carapaça envolta num pedaço de tecido
Sobre o templo dos seus antepassados
Dizei-me: essa tartaruga não teria preferido
Viver a arrastar a cauda na lama?"

"Sim, com certeza", disseram eles
"Pois então ide-vos embora!" Declarou Chuang Tzu
"Também eu prefiro arrastar a minha cauda na lama!"

~~~

Foi através de uma consciência livre, imediata e luminosa
Que Chuang Tzu descobriu a fonte da clareza que em vão buscava.
Até então seguia a via da "auto preservação".

Um belo dia passava ele por uma floresta de castanheiros
Quando notou a aproximação de um estranho pássaro
Com asas de sete pés de comprimento e olhos esbugalhados
O pássaro roçou a sua cabeça e foi pousar um pouco mais adiante

Que pássaro seria esse que não lhe dava atenção nem fugia?
Arregaçou o seu manto, armou a besta e apontou-lha
Estava prestes a arremessar-lhe uma flecha
Quando notou uma cigarra que fruía da sombra a um canto
Esquecida de tudo o mais.

Um louva-a-deus pousado numa folha preparava-se para a devorar
Esquecendo assim de velar pela própria segurança
E  ele percebeu que o pássaro bizarro tinha feito o mesmo
Para se apoderar do louva-a-deus
Ai de mim! disse ele
Os seres precipitam-se uns sobre os outros
Como a perda sobre o ganho!

Perturbado arrumou de lado a besta e voltou para trás
O guarda florestal  viu-o e repreendeu-o

Chuang Tzu fechou-se em casa, sem sair, durante três dias
E respondeu a um discípulo que o interrogou
Sobre a razão desse procedimento:

Por atender às formas exteriores das coisas
Perdi a minha verdadeira natureza
Quem contempla águas lamacentas
Não pode vislumbrar  formas distintas com clareza

Meu mestre ensinou-me que se lidarmos com o vulgo
Acabaremos por nos tornar como ele.

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Nascemos e morremos;
Essa é a ordem das coisas!
Aqueles que a aceitam encontram-se ao abrigo
Tanto da alegria como do sofrimento.

A vida segue-se à morte
A morte é antecessora da vida.
Começa com o primeiro alento
À medida que este se desenvolve torna-se vida
Quando se dispersa torna-se morte.

Aqueles que cultivam o Caminho
Não prezam o dever nem a justiça social (como primordiais)
Mas desenvolvem diligentemente as  próprias qualidades

Porque aquele que acusa os outros
Sem ter a correcta perspectiva de si mesmo

E que percebe os outros sem entender a si próprio
Perde a clareza da sua visão
E torna-se alguém que não ele próprio.

~~~

O recolhimento do homem sensato
Não é aquilo que o mundo costuma chamar de inacção.
O seu recolhimento é resultado de uma atitude mental equilibrada

A criação inteira não seria capaz de alterar o seu equilíbrio
Daí resulta o seu recolhimento

Quando a água se encontra num estado de imobilidade
Assemelha-se a um espelho capaz de conferir a precisão do nível
O filósofo toma-a como modelo

Ora, se a claridade da água deriva da imobilidade
Que dizer das faculdades da mente?

Através da meditação a mente do sábio
Torna-se espelho do céu e da terra
E espéculo de toda a criação.

Meditação, tranquilidade, silêncio, naturalidade:
Tudo isso constitui o "nível" do Universo
E expressão última da perfeição

O sábio encontra nisso o seu repouso
Nesse repouso sucede o vazio
Pelo vazio sobrevem o que não é condicionado
Daí, procede todo o condicionamento e individualidade

Assim, do vazio do sábio surge a tranquilidade
Da tranquilidade, brota a acção
A acção origina a realização

Da sua tranquilidade sobrevem a ausência de interferência
Que constitui um tipo de acção determinante
E, portanto, a sua realização

Porquanto tranquilidade é alegria e a alegria é isenta de preocupações
A alegria tudo empreende sem abrigar qualquer preocupação
Porque o vazio, o silêncio e a serenidade
São a raiz de todas as coisas.

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Diz-se que a água é algo que possui as faculdades mais completas
Por se achar tanto no céu como na terra

A razão pela qual todas as criaturas desenvolvem as suas capacidades
E chegam a alcançar equilíbrio
Deve-se a uma equilibrada regulação da água existente no organismo.

De entre todas as coisas
Não há uma só que não se produza graças a ela.
Só ela sabe como confiar em seus princípios
E  funcionar correctamente.

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A mente do homem perfeito assemelha-se a um espelho
Que a tudo responde sem hesitação nem favor.

Ela não agarra  nem repele coisa alguma
Nada recebe e nada conserva.
De modo que é capaz de lidar com as coisas sem lhes trazer dano.
A luz do céu e a sombra das nuvens espelham-se na sua superfície.

De onde procede  a claridade do lago?
Ele reflecte a condição de pureza.

Os patos bravos atravessam a imensidão do céu.
As suas cabeças reflectem-se na água trémula.
Não é propositadamente que eles projectam o seu reflexo na água.
Não é de propósito que esta reflecte a sua imagem.

~~~

Só o homem perfeito pode viver entre os seus pares
Sem aceitar os seus preconceitos
E adaptar-se a eles sem perder a dignidade pessoal.

Contudo, nada tem a aprender com os seus ensinamentos
E pode mesmo admitir as suas aspirações sem, contudo,  as adoptar.
Conquanto andem constantemente á procura de melhores dias
E de uma  segurança pueril

Andando constantemente em busca de melhores dias
E de uma vã segurança
As pessoas deixam-se cegar pelas cinco cores
Ensurdecer pelos cinco sons
E adulterar o paladar pelos cinco sabores
Sem perceber que desse modo
Estão em vias de se acorrentar e perder a sensibilidade da alma.
Desse modo surgem as dissimulações e os pensamentos reservados
A inquietude, as apreensões e a agitação febril
Que os levam a desperdiçar a sua energia
E a obscurecer a mente.

Quando empreendem algum tipo de acção
Visam o seu semelhante como a balestra visa o alvo.

Quando se põem a meditar
Vigiam o alvo a conquistar, á laia de conjurados.
Mas assim, enfraquecem-se diariamente
E declinam tal qual o Outono e o Inverno.

Embrenham-se sem remissão nos maus hábitos
Atabafando neles e degradando-se com a idade
O seu espirito caminha em direcção á morte.
E nada parece permitir-lhes recobrar a luz.

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Aquele que pretender corrigir a sua natureza
Por meio de estudos vulgares
A fim de conquistar a condição original

Aquele que pretender regular os seus desejos
Por meio de pensamentos vulgares
A fim de assim poder chegar á clarividência

Não passa de um trapalhão cego.
Os antigos que cultivavam o Caminho alimentavam a inteligência
Com base na serenidade.

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A glória do homem reside na compreensão de que
Todos os seres são um único Complexo Universal
Que a morte e a vida são duas modalidades de uma mesma grandeza
Todas as coisas são uma só; idêntica a si mesmo

Agrada-nos tudo o que é vivente
Mas tememos o que atinge a decomposição
Contudo, aquilo que neste instante se encontra em vias de apodrecer
Renascerá de novo para a vida e por sua vez, essa vida estiolará de novo.

É o alento que, ao condensar-se gera a vida
E o mesmo alento que ao dispersar-se produz a morte...
Onde percebereis em tudo isso um findar?

Algo de fugidio e imperceptível  transforma-se  em alento
O alento transforma-se em forma, a forma em vida
E a vida transforma-se em morte.

A natureza é assim,  tal qual se revela.
Aquilo que é curvo dispensa o arco
O que é direito não necessita de linhas
As coisas arredondadas prescindem de compasso
As rectangulares passam bem sem esquadrias.
As coisas que podem ser unidas  não necessitam de argamassa
As que se podem consolidar não precisam de amarras.

Todas as coisas eclodem de forma espontânea
Sem que pareçamos saber da sua proveniência nem a razão para se produzirem

Cada qual possui qualidades intrínsecas à sua pessoa.
Esse aspecto da natureza acontece desde tempos sem memória.

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Impassíveis diante de toda a perda e em face de toda a mudança
Podemos entrar no puro céu que é a consciência original.

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O homem  espiritual  assemelha-se ao céu  na sua relação com os outros.
Por isso se diz que o humilde no céu é superior sobre a terra
E que o humilde sobre a terra é superior no céu.

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Aquele que repousa no silêncio aperfeiçoa-se.

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A vida e a morte; a existência e a não existência
O sucesso e o infortúnio; a riqueza e a pobreza
A virtude e o vício; a sabedoria e a ignorância
O louvor e a censura; a sede e a fome; o calor e o frio

Tudo isto sucede por essa ordem
E transforma-se sem cessar
Moldando desse modo o destino.
Da mesma forma que se sucedem os dias e as noites
Sem que saibamos muito bem desde quando.

Todavia tais ocorrências não devem
Perturbar-vos o corpo nem o espirito.
É suficiente preservar a  serenidade dia após dia
E viver em paz com os outros
Adaptar-se às circunstâncias
E desenvolver, desse modo, os dons naturais.

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Se nos contentarmos com a atenção pelos factos
Se formos  circunspectos e evitarmos
Toda a expressão supérflua de sentimento
Reduziremos todo o risco na negociação

Porquanto sob a capa de aparente cordialidade,
Em toda a relação humana, se oculta o antagonismo
E o seu poder tende a crescer

À semelhança de uma festa de beberrões,
Em que de início todos se acham calmos
E gradualmente se  deixam excitar
Acontece o mesmo com relação a todos os afazeres humanos

A palavra é como o vento sobre as vagas
Pela acção do vento se elevam as vagas

A acção conduzida pode ser desviada do seu alvo
A cólera pode fazer aumentar a divergência
E dar lugar a palavras inúteis e argumentos falsos
Que só atiçam paixões
Sem que nos apercebamos, levam-nos a esquecer o alvo


Não é preciso querer forçar resultados
Todo o excesso ultrapassa a justa medida

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O método de purificação do espirito consiste nisto:
Antes de mais, concentrar a atenção.
Procurar não escutar com o ouvido mas com a mente.

Não se trata de escutar com a mente mas com a energia original
O ouvido escuta
A mente molda
Mas só a energia pode ajustar-se  a toda a situação
Da forma como procede do Vazio

O Todo cavalga o Vazio.
O vazio purifica a mente.
A luz penetra no silêncio do espirito
Como a paisagem penetra pela janela de um quarto vago.

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Confúcio disse a Yen Hui:
O Caminho não pode cindir-se
Sem perder a própria unidade

Se perder a sua unidade torna-se incerto
E desse modo torna-se causa de preocupação para o espirito
À qual não se escapa

Em verdade, os Antigos diziam ser necessário primeiro
Que o homem alcançasse firmeza
E encontrasse o Caminho em si mesmo
Antes de o encontrar nos outros ou por intermédio deles

Porquê expor-se aos ataques dos outros
Antes de ter  alcançado esse estágio?
Na melhor das hipóteses arriscámo-nos a que toda a eficácia
Acabe no vão desejo de reconhecimento
E a que toda a sabedoria se perca em disputas.

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A nossa vida é limitada
Porém o saber não tem limites

Querer atingir o ilimitado
Com o que é objecto da limitação, é danoso.
Assim procurar o esclarecimento
Com um tal conhecimento, conduz ao erro

Quem ajuda os outros atrai o reconhecimento
Quem se ocupa de si é desventurado
Não pratiquem o bem com vista a alcançar fama
Se procederem de forma incorrecta
Procurai evitar a punição

Somente aquele que segue o caminho do meio ordena a sua vida
Cumpre os seus deveres e atinge os seus limites naturais.

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Em que consiste, então, o Caminho?
Há o Caminho do céu e o Caminho do homem

No agir sem esforço que se requer
Reside o Caminho do Céu (de não-acção)
Na acção e nas suas consequências
Reside o Caminho do homem (de causa e efeito)

O Caminho do Céu é essencial
O Caminho do homem é complementar
Bem preciso é que tenhamos isso em atenção.

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É preciso aceitar o que sobrevem - por mais humilde que seja
E levar em conta os outros

Executar a própria função mesmo que destituídos de preparo
É preciso formular leis por mais que resultem imperfeitas
E realizar os próprios deveres
Ainda que pareçam desprovidos de atractivos

Respeitar o semelhante e nutrir amor por todas as criaturas
Cumprir as normas a despeito dos obstáculos
Conhecer a justa medida da compreensão
E estender a unidade à mudança
Eis no que reside o Caminho

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A Doutrina Perfeita está tão próxima quanto a existência
Tão próxima, quanto a sombra está da forma
E o eco está para o som

Clamai por ela e ela responderá
Imparcial e pronta na sua função de auxílio

Sem objectivo no seu movimento, silenciosa
Conduz ela ao alvo.

Livre para ir e voltar por toda a eternidade
Através do aparecimento e do desaparecimento
Por entre  uma miríade infinita de fenómenos.

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Ts'ui Kin perguntou a Lao Tzé:
Como melhorar os homens sem os governar?
"Sede atentos  a fim de não lhes perturbar o espirito", respondeu-lhe

Porquanto o espirito humano é de tal ordem sensível
Que se ressente diante de toda a opressão e  premência
E exalta-se por toda a acção de incitamento.

Oprimido, sente-se aprisionado
Exaltado, é capaz de provocar devastações

Flexibilidade e gentileza vencem a dureza e a violência

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A visão demasiado aprimorada perverte as cores

O ouvido apurado em demasia deforma os sons
E leva-nos a procurar o agradável

A caridade demasiado exaltada perverte a virtude
E a bondade natural perde-se

A justiça exacerbada distorce o seu princípio
E perde o justo sentido da correcção

A cerimónia demasiado esmerada perde o seu verdadeiro objectivo
E torna-nos péssimos actores

A música sobremodo afinada conduz à moleza
E torna-nos mal-humorados

A sabedoria demasiado requintada desenvolve a acção mecânica
E move a tendência para engendrar planos

A perspicácia mais refinada torna-se  viciosa
E conduz à crítica

Contudo, quando nos adaptamos às condições da existência
Esses oito tipos de atitude tornam-se  prática natural
Desse modo, quer cheguemos a libertar-nos ou não, pouco importa

Porém, se  nos deixarmos restringir pelas disposições naturais
Esses oito tipos de prática perturbarão o entendimento
E estabelecerão a confusão

Por conduzirem a existência para lá do que é natural
Sem preservarmos o justo equilíbrio
As oito razões de júbilo transformam-se em tumores malignos

Desde que os homens passaram a honrar isso
O mundo tornou-se completamente cego

O sábio, por conseguinte, quando tem de governar
Conhece o modo de não fazer nada (de modo intencional)
Se deixar tudo ficar como estava, há de permanecer na sua natureza original

Aquele que:
 Procurar governar,  respeitando o governado
Na justa medida em que se respeita a si próprio,

Preservar a própria dignidade
 Deixando-a permanecer na sua verdade original,
Também governará os outros sem os lesar

Deixar-se-á ficar imóvel como um cadáver
Com a força viva do "dragão" ao seu redor, em perfeito silêncio.
E o seu bramido assemelhar-se-á ao trovão

Seus movimentos tornar-se-ão tão imperceptíveis quanto os de um espírito
Mas as forças celestes irão em seu auxílio

Despreocupado, sem nada perturbar na sua ordem
Assistirá ao desenvolvimento de tudo, ao seu redor

Desse modo, onde encontrará tempo e vontade de governar?

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Quando o homem se alegra demasiado
Gravita em torno do pólo positivo (da bipolaridade)
Quando se sente desolado gravita em torno do  negativo

Se não tiver equilíbrio entre luminoso e obscuro
A sucessão das estações
E a harmonia entre quente e frio sai perturbada

Quando padecemos em demasia
Perdemos  o nosso centro de gravidade
Desregramos os nossos humores
E tornamo-nos incapacitados.
Para conduzir a bom termo os próprios pensamentos e acções

Desse modo todo o mundo se torna presa da hipocrisia e da instabilidade.

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O aprendiz de ladrão perguntou ao mestre:
O Caminho também estará do nosso lado?

Certamente, respondeu-lhe ele
Pelo saber se dá com o gato
Pela coragem se chega em primeiro
Pelo heroísmo nos retiramos em último

Pela prudência calculamos se o empreendimento é ou não possível
É com justiça que se deve dividir os despojos

Um bom ladrão deve possuir essas cinco qualidades
Interiorizar-se sem exagero e exteriorizar-se sem excesso
Saber manter o justo meio-termo

Eis aí três elementos de franco desenvolvimento

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Se a partida for jogada com fichas
Todo o acto de jogar será feito com gosto

Se  for às próprias custas
O jogador sentir-se-á nervoso

Se for com ouro vivo
Ele perderá toda a compostura

A habilidade é sempre a mesma porém,
A sua inquietação procede do valor do lanço

Aquele que se apega aos bens exteriores
Torna-se desajeitado no íntimo

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Viajar por mar sem temer tempestades nem infortúnios
Eis no que reside a coragem dos pescadores

Viajar por terra e não temer espectros nem feras
Eis no que reside a coragem dos caçadores

Quando no confronto se desembainham espadas
E se considera a possibilidade da morte de ânimo leve
Eis no que reside a coragem dos guerreiros

Saber que todo o destino tem o seu revés
E que o sucesso possui a sua hora
E permanecer destemido diante da catástrofe
Eis no que reside a coragem do sábio.

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Aquele que conhece o Caminho
E compreende a ordem do Universo
É capaz de ponderar as circunstâncias e discernir os perigos

No seu discernimento guarda-se do fogo
Da água e das bestas  ferozes


O seu sangue frio permite-lhe perceber
Tanto as situações críticas como as  favoráveis

Equânime na alegria e no infortúnio
Atento tanto para com aquilo que recusa
Como para com aquilo que aceita
Nada o consegue atingir!

~~~

Chouai, o artesão, traçava à mão círculos
Tão perfeitos como com o compasso

Os seus dedos acomodavam-se de tal modo
Á forma das coisas  que elaborava com naturalidade
Sem que tivesse de fixar a atenção
Esse dom vinha-lhe da  liberdade de espirito com que se ligava às formas

Sapatos de qualidade levam-nos a esquecer os pés
Uma  cintura adequada evita  dor de rins
Esquecer a distinção entre "favor" e "contra"
Permite ao espirito adaptar-se na perfeição

Tanto com relação às influências interiores  como às exteriores
Esquecendo-nos de nós mesmos no acto.

~~~

Quando carece de sentido
A forma deixa de possuir vida

Se não formos inteligentes não revelaremos eficácia

Preservar a sua forma e viver a própria vida
Estabelecer as suas qualidades e alcançar consciência do Todo
Não será isso realizar-se?

Aquele que se realiza adquire espontaneidade
Move-se sem premeditação
E as pessoas seguem na sua esteira

Ele consegue perceber onde só reinam as trevas
E escutar no silêncio

Só ele percebe a claridade na obscuridade
Só ele detecta a harmonia no silêncio

Torna-se capaz de mergulhar nas profundezas que envolvem a realidade
E elevar-se aos cumes do Espirito
E tudo porque permanece na unidade de todas as coisas.

~~~

Imenso como é,
O Caminho suporta e encobre todas as coisas
Cada uma deverá conciliar-se com ele

Para que possamos compreendê-lo
Preciso é que esvaziemos o espírito

Devemos praticar a acção destituída de propósito (não-interferir)
E  silenciar as palavras e os pensamentos

Desenvolver amor e bondade por todos os seres (justiça)
Considerar todas as diferenças com equanimidade
E alargar os horizontes da mente

Não estabelecer distinções arbitrárias
Mas tornar-nos abertos

Abraçar os contrários significa opulência
Na realização da sabedoria reside a verdadeira força
Aquele que segue o Caminho adapta-se aos acasos da vida
Não se opor ao movimento natural das coisas conduz á perfeição

Aquele que realiza em si  esses dez preceitos
Atrai para si toda a Criação
Esse devolverá o ouro à terra e as pérolas ao mar

Não se baterá pelo poder nem pela fama
Não se regozijará por ser sábio
Nem se lastimará em caso de morte prematura

Não encontrará nenhum prazer no sucesso
Nem sofrimento no revés
Mesmo que o trono do império lhe caiba por sorte
Disso não retirará glória nem vantagem nenhuma

Pois sabe que todas as coisas voltam á Unidade
E que a vida e a morte são fases de uma existência Una.

~~~

O Caminho não pode ser enunciado nem apontado
O discurso perfeito não pode ser formulado
A caridade desmedida não chega a ser revelada
A coragem suprema ignora toda a crueldade

Porque o caminho que resplandece não é o Caminho
Todo o discurso e escrita são parciais
A caridade ostensiva é falsa
A pureza desvelada é maculada
A eficácia que se faz acompanhar de crueldade
Não atinge o seu objectivo

Essas cinco expressões são como um círculo
Que se quer fazer passar por quadrado


Saber que o saber é limitado
E que constitui um obstáculo ao conhecimento
Torna-se um conhecimento superior.

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A transformação de si mesmo é essencial
De modo a podermos consumar a Felicidade Suprema

Os antigos teriam um indivíduo assim
Na conta de verdadeiramente feliz

Hoje em dia, crê-se que a alegria se alcança
Através duma função importante ou dum cargo oficial
Mas, em meio a tudo isso, como fica a natureza do homem?

Os seus títulos honoríficos, provisórios são
Não se pode evitar isso, mesmo preservando-os na sua nobreza

É inútil exaltar-se acerca da própria função elevada
Assim como é inútil humilhar-se por se ser pobre
É suficiente conservarmos a equanimidade de espirito
Em todas as condições, a fim de se ser feliz

Actualmente, porém, possuir ou não possuir funções
Tornou-se causa de vãos cuidados

Por isso se diz:
Deixar-se abater pelos afazeres
Ou corromper pelas palavras
Conduz à inversão de todo o sentido
E é caminhar por rumos contrários.

~~~

Aquele que visa adquirir posses torna-se lascivo e concupiscente
Aquele que procura honras torna-se ávido por títulos

Aquele que deseja o poder dá-se mal ao cair na divisão
Treme diante da sua posse e desolado fica com a sua perda
Tais homens não refreiam os próprios desejos
E tombam devido à própria conduta
Desgraça, favor, confiscação, benesses
Troça, ordens, penas e condenação
Seguem-se num cortejo, sem  fim

Assim se diz que para se poder dirigir os outros
Se requer que sejamos rectos
As portas da Liberdade não se abrem
Para quantos  não praticam tal preceito.

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Como poderá aquele que não participa na Transformação Universal
Esperar que os outros sejam transformados?

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Se macho e fêmea são membros da mesma espécie
A sua união desenrolar-se-á segundo a sua natureza

A natureza segue o seu curso
E isso determina o seu destino

Não podemos deter o tempo
Nem obstruir o caminho da Unidade

Mas uma vez atingida esta última
Nada haverá que não se cumpra
Sem ela, nada poderá ser verdadeiramente levado a efeito.

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Se o vosso corpo se tornar  como um ramo de árvore ressequido
E a vossa mente se assemelhar à cinza apagada

Como podereis ser atingido por uma catástrofe,
Ou prevalecer sobre vós a dor?

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Aquele que dominar toda a cólera jamais se achará sob a sua acção
A sua cólera será  destituída de afectação

Se actuarmos pela acção plena
(não-agir; não pensar) *
Estaremos acima de toda a agitação humana

Se pretendermos permanecer  calmos
Em face a todas as circunstâncias
Devemos controlar a respiração

Aquele que procura a inspiração correcta
Segue o seu coração

Todo o que procurar agir com justiça
Deve agir somente com base na necessidade

Tal é o caminho do sábio!

* (Acção livre dos pressupostos da dualidade inerente ao pensar)

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Aquele que professa o verdadeiro
Sem ter consciência do  falso; (em si próprio)
E prega a ordem sem ter noção da desordem

Nada compreende sobre a Ordem  do universo
Nem da realidade una das coisas

Idêntico se torna àquele que professa os caminhos do Céu
Sem perceber os caminhos do mundo
E a escuridão sem perceber a luz

A sua acção está necessariamente votada ao malogro
Porque ambos estão em viva relação

Conhecer um é conhecer o outro
Recusar um é recusar ambos

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Por detrás de toda a divisão subjaze algo de indivisível
Por detrás de toda a discussão há algo de indiscutível

Ora, o Santo abrange o Todo
Mas os homens altercam para fazer valer as suas opiniões

Assim se diz que toda a discussão implica  parcialidade de visão
O caminho tornado explícito não mais será o Caminho
O raciocínio discursivo torna-se falho no alcance da verdade
A benevolência obstinada torna-se falha
A pureza exclusiva não converte

Aquele que sabe que  o Caminho não pode ser enunciado
E que as palavras não O podem descrever
Esse detém o tesouro do Céu.

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Se a tranquilidade da água permite reflectir a forma das coisas
O que não poderá a tranquilidade do espirito reflectir?

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Eis o Caminho do amor: aquilo que é uno, é Uno.
Aquilo que não é uno, é igualmente uno, (pelo Não-Ser) *

O Caminho consolida-se na prática
Todas as coisas se tornam naquilo em que as tornamos
É assim quando é; e deixa de  ser, quando não é

Tudo se caracteriza pelo que lhe é inerente
E possui o que necessita

Nada é coisa nenhuma
Mas coisa nenhuma não é nada

Tomai uma espiga de trigo ou um esteio
Um leproso, uma beldade
O poderoso e o inseguro; a destreza e a esquisitice

Tudo isso se deve aferir na Totalidade
Na sua diferença reside a inteireza do seu ser
Na sua condição completa reside a sua diferença.

Quando olhamos as coisas à luz do Absoluto
Nada aparenta ser melhor ou pior
Cada coisa, encarada à própria luz
Se manifesta a seu belo modo

Pode parecer "melhor" do que lhe não seja comparável
Nos seus próprios termos
Porém, nos termos do absoluto, nada se torna "melhor"

Se considerarmos as devidas diferenças,
Aquilo que é maior que outra coisa, é "grande"
Portanto, nada há que não seja grande (pela comparação)
E o que é menor que o outro, é "pequeno"
Pelo que não existe nada que não seja pequeno

Desse modo o Cosmos inteiro não passa de um grão de arroz
A ponta de um cabelo
Tão grande quanto uma montanha

Tal é a relatividade das coisas.

(*qualidade do que essencialmente não possui distinção conceptual)

~~~

O murmúrio das águas revela aquilo que penso
Quanto à paz facultada pelo que se acha conturbado
Isso não é paz nenhuma

A prova  que aquilo que não tem prova pode fornecer
Não é probatória
A visão simplista das coisas é subjugada por elas

Só a compreensão pode dar prova da  verdade
Que o entendimento não possui o mesmo valor que a compreensão
Já nós o sabemos

Mas o tolo fica-se por aquilo que percebe
Nas suas relações com os demais
Quanta tristeza!

O sábio não discute acerca do que ultrapassa a esfera desta vida
Nem tampouco nega a sua existência
E, conquanto trate das coisas deste mundo, todavia abstém-se de as julgar.

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Diz o preceito que a verdade se acha na sinceridade
Quem  é insincero não age sobre outrem

Somente a verdade interior permite ao espirito agir sobre o exterior
É aí que reside a sua autenticidade

A sua utilidade prática está em colocarmos cada coisa no seu lugar:

Toda a existência possui a sua qualidade de absoluto
Toda a busca é conduzida pela  sua luz
Toda a comunidade possui o seu eixo
Todo o começo compreende o objectivo.

Aquele que sabe decifrá-lo parece não o compreender
É inútil interrogá-lo sobre o finito ou sobre o infinito
Por detrás dos fenómenos que se alteram existe a Imutabilidade
Porque não consultá-la?

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É dito que o silêncio assegura a serenidade do sábio
E a calma,  o seu sentido de moderação
O desapego confere-lhe a justa medida de liberdade

Lançando fora angustias, pesares e influencias perniciosas
Pode manter límpida a mente e  irradiar serenidade.

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O Universo é maravilhoso mas inexpressivo
As quatro estações sucedem-se segundo as suas leis
Porém fazem-no sem discussão

A inteira Criação baseia-se em princípios absolutos
Que permanecem ímpares.

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A bem dizer dá-se o mesmo com todos os seres

Aquilo que achamos belo parece-nos maravilhoso e extraordinário
O que achamos feio parece-nos corrosivo e nauseabundo

A verdade é que, sempre e por todo o lado
Aquilo que parece  nauseabundo e corrosivo
Transforma-se em maravilhas extraordinárias (iguarias da terra)
E o que parece extraordinário e maravilhoso
Metamorfoseia-se em putrefacção nauseabunda

Assim se diz que no universo  existe apenas um hálito
Desse modo o sábio venera a Unidade de todas as coisas.

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O Caminho não tem começo nem fim
Tudo o que permanece vivo ou morto é regido pela impermanência
Tudo muda, de forma incessante

O tempo não pode ser detido
Entretanto o corpo transforma-se

A sucessão de estados é infinita
E cada final é seguido de um novo começo

O devir de cada um encontra consistência
Na consolidação dos princípios universais

A vida do ser humano pode ser comparada a um cavalo em galope
Que  modifica o movimento a cada instante

Nesse caso que fazer- ou deixar de fazer?
Seguir o curso das transformações!

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O que é a ordem cósmica? O que é a ordem humana?
Perguntou o  da banda do rio

O do mar do norte, respondeu-lhe:

O cavalo e o boi têm ambos quatro patas
Eis aí a ordem cósmica
Passa-se a brida sobre o pescoço do cavalo
E introduz-se um anel no focinho do boi;

Eis aí a ordem humana.

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Um saco pequeno não pode transportar grande coisa
Uma corda muito curta não atinge o fundo do poço
Cada coisa tem seu próprio valor

Como saberei se o amor pela vida não é uma ilusão?
Como poderei saber se aquele que teme a morte
Não se assemelha ao garoto que chora perdido
Por não encontrar a sua casa?

Como saberei se, uma vez mortos
Não nos rimos do apego à vida?

~~~

Toda a gente enuncia opiniões e discute opiniões contrárias
Gostaria de encontrar um discurso
Que não preencha nenhuma categoria

Se existiu um começo do mundo
Então existiu um tempo anterior ao começo
E um outro, anterior a esse mesmo tempo

Se a existência consiste em existir
Então também  consiste em não existir
Num tempo antes do vazio.

Nada existe de mais vasto sob o céu
Do que a ponta de uma espiga outonal
Diante do firmamento

Até a rosa diminuta se assemelha à montanha
Nada é mais idoso do que uma criança morta.

~~~

Como se há de avaliar o possível e o impossível?
Cada coisa tem sua própria verdade
Cada coisa tem as suas possibilidades

Somente a Justa Medida permite compreender a realidade
E realizar a unidade do Caminho (do meio)

~~~

Nada existe de objectivo nem subjectivo
O objectivo emana do subjectivo
O subjectivo provem do objectivo

Na vida existe a morte
Mas na morte existe também vida! (putrefacção)

O possível pode tornar-se impossível
E o impossível possível

Adoptar a afirmação conduz á negação
Adoptar a negação chega a possibilitar a afirmação

Assim, o sábio não toma  nenhuma opinião  como sua
E desse modo é capaz de despertar para o Caminho

Que cessemos de opor-nos
Eis o ponto essencial do Caminho
Que se pode aplicar à multiplicidade de possibilidades.

~~~

Não peçam opinião acerca da pintura a um cego
Nem convidem um surdo para um concerto

A cegueira e a surdez não são apenas aspectos físicos
Mas podem afectar o espirito

Temo que por  causa delas não chegueis
A conseguir concentrar a atenção.

~~~

Os verdadeiros homens de outrora nada sabiam do amor á vida
Nem da aversão á morte

Adentrar a vida não lhes proporcionava alegria
O seu término não lhes despontava resistência
Calmamente vinham e voltavam


Não questionavam qual tinha sido o começo
Nem indagavam sobre  o seu término

Aceitavam a vida e com ela se regozijavam
Esqueciam todo o temor á morte
E retornavam ao estado anterior á existência.

Ninguém dava atenção aos "homens dignos"
Nem seleccionava os "capazes"

Os soberanos eram apenas como os galhos mais altos das árvores
E o povo assemelhava-se a cervos, na floresta

Eram honestos e correctos
Sem imaginar que "cumpriam o seu dever"
Amavam-se mutuamente desconhecendo o que fosse "amor ao próximo"

Não enganavam ninguém e no entanto
Não sabiam ser "homens de confiança"
Podia-se contar com eles; no entanto ignoravam que isso fosse "boa-fé"

Viviam juntos, dando e recebendo livremente
Desconhecendo ser "homens de bom coração"
Por tal motivo os seus feitos não foram narrados
Porque não se constituíam em História!

~~~

Se quisermos purificar-nos
Não devemos escutar com o ouvido mas com o coração
Não escutamos com a mente mas com o espírito (intuição)

Deixa que a audição se detenha na atenção
E que o espirito se detenha sobre o pensar
Então a mente atingirá o vazio que tudo abrange

Mas apenas o Caminho inclui o Vazio
Nisso reside o jejum do coração.

~~~

O conhecimento dos nossos ancestrais era perfeito
De que forma?

Em primeiro lugar
Nada sabiam da existência das coisas (distinção subjectiva)
Eis nisso o conhecimento superior
Nada lhe pode ser acrescentado!

Em seguida obtiveram conhecimento da existência das coisas
Mas ainda não estabeleciam distinções entre elas

Por fim, estabeleciam distinções
Porém ainda não faziam julgamento
Quando passaram a julgar, perdeu-se o Caminho.

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O bebé passa o dia a contemplar objectos
Sem os encarar fixamente nem franzir o olhar
Porque os seus olhos nada focalizam  em particular

Ele não sabe aonde vai e detém-se sem ter consciência do que faz
Funde-se no meio que o rodeia e acompanha-o

Estes são os princípios da higiene mental.

~~~

Existe algo descrito como:
"Deixar a humanidade em paz"

Jamais existiu algo como
"Governar a humanidade com sucesso"

Deixá-la em paz tem origem no medo de que
As suas disposições naturais sejam pervertidas
E a sua virtude posta de lado

Mas caso não sejam pervertidas
Nem a natureza das coisas destroçada
Que  espaço restará à acção do governo?

Se quisermos que os homens não se transformem naquilo que não são
Não devemos interferir

Quando eles não deformam a sua natureza nem a pervertem
O objectivo do governo é alcançado!

Demasiada felicidade ou infelicidade
Fora do seu tempo adequado
Leva a que os homens percam o seu equilíbrio
Então surge a concorrência, a ideia de perfeição e os ladrões

Mas, desde logo o mundo inteiro não é bastante
Para uma recompensa para os "bons" nem castigo para os "maus"

Todavia, correndo em todas as direcções
Como poderão achar tempo para serem completamente humanos?

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Quando o homem de perfeita virtude se recolhe à meditação
Deixa de alimentar pensamentos

E quando se acha em acção não sofre ansiedade
Nem reconhece certo ou errado; bem nem mal

Que tudo se beneficie nos quatro cantos
Constitui o seu recolhimento

Os homens agarram-se a ele como crianças que perderam as mães
Reúnem-se ao seu redor como viandantes que se perderam no caminho

Possui riquezas sem saber de onde provêm
Tem alimento e bebida mais que suficientes
Mas desconhece quem os fornece

Numa era de comprovada virtude
Os homens "justos" não serão enaltecidos
E a sua habilidade evidente não se tornará

Os governantes não passam de faróis
Enquanto  o povo é livre como cervo selvagem

Os homens pretendem tornar-se honrados
Sem ter consciência do dever para com os vizinhos

Amam sem ter consciência da caridade
São verdadeiros sem ter consciência de lealdade
São honestos sem serem conscientes do espírito de boa-fé
Agem livremente em cada coisa
Sem reconhecer compromissos com quem quer que seja

Desse modo os seus feitos não deixam traço
E os seus assuntos não são legados á posteridade.

~~~

Deixai a vossa mente vaguear no que é puro e simples
Tornem-se um com o infinito
Permitam que todas as coisas sigam o seu curso
Não tenteis ser inteligentes
Desse modo nos conquistamos a nós mesmo e ao mundo.

~~~

Aquele que se preocupa com a essência das questões
Não nutre interesse pela fama

Aquele que se concentra nas aparências
Conduz a intenção de alcançar ganho

Aquele que empreende tarefas que não trazem proveito
Resplandece vivamente em tudo o que faz

O que procura colher proveito a qualquer preço
Não passa de um mero comerciante
Que acredita estar acima dos outros
Porém mantém-se em bicos de pés

Aquele que se esforça pelo sucesso expõe-se ao desgaste

Pelo desinteresse se está ao abrigo de todas  essas acções
Excluir os outros é falta de respeito
E significa desinteresse e desconhecimento

Não há arma mais letal do que a vontade
Até mesmo Mo Yeh lhe era inferior

Não existe maior adversário que Yin e Yang*
Pois nada no céu nem na terra lhes escapa

Porém isso não é obra dos contrários
Mas do vosso coração, que opera tal acção.

*Pares de contrários psicológicos que governam a lei da causalidade

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O avarento nutre desejo de riqueza
O fidalgo, desejo de fama

Nos modos como ambos afectam a sua vida
E modificam a sua natureza inata
São eles diferentes

Porém, no modo como põem de lado aquilo que possuem
Uma vez no encalço do que não possuem
São eles idênticos

Por isso se diz que não sejamos presunçosos
Mas persigamos o Caminho Interior

Seja arqueado ou aprumado
Vejam tudo à luz do Céu

Aprendei a encarar as quatro direcções
E movei-vos com a maré das estações

Quer seja certo ou errado
Apoiai-vos com firmeza nesse ponto central íntimo
E cumpri apenas as suas determinações

~~~

Movei-vos unicamente em afinidade com a Verdade
E não vos extravieis do Caminho

Não procureis ser perfeitos na correcção
Porque desse modo falhareis em tudo o que fizerdes


Não vos apresseis em tornar-vos ricos
Nem vos arrisqueis pela fama
Ou perdereis a pureza  interior.

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À acção destituída de esforço se chama Céu (não-acção)
As suas palavras são tidas na conta de Virtude

Ao sentimento de amor por toda a humanidade
E promoção da boa fortuna se chama Benevolência

Unir aquilo que deve ser unido é tido como Generosidade
Transcender barreiras e limites é chamado Grandeza

À posse de uma vasta multiplicidade de coisas se chama Riqueza
Desenvolver e sustentar plena virtude chama-se
Possuir Orientação e Estabilidade

Aferir-se pelo Todo é chamado Realização
Recusar todo o factor externo, passível de nos distrair, é Perfeição.

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O homem que com clareza percebe todas essas coisas
Será também magnânimo nos seus empreendimentos

As suas atitudes beneficiarão toda a vida
Ele deixará o ouro permanecer enterrado no monte
E as pérolas no fundo do mar
Porquanto não vê que no dinheiro nem nos bens
Resida o verdadeiro proveito

Não se deixa atrair pela fama nem pela fortuna
Nem pelo gozo de vida longa
Nem  pela tristeza por morte prematura

Não valoriza a riqueza como uma bênção
Nem se envergonha da pobreza

Não cobiça os proventos de toda uma geração como seus
Não tem desejo de governar o mundo pela posse

A sua honra reside na clareza de entendimento
De que a vida no seu todo constitui um tesouro
E de que morte e nascimento são intrinsecamente a mesma unidade.

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O Mestre disse: Como é profundo e tranquilo o Caminho
E pura a sua claridade!
Sem ele, nem o ouro nem o metal ressoariam

O ouro e as pedras contêm som
Mas se não forem tinidos, nenhum som emitirão
Todas as criaturas possuem dimensões para lá da medida!

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O indivíduo de régia virtude move-se sem complexos
E envergonha-se de se imiscuir nos assuntos de Estado

O seu conhecimento acha-se profundamente enraizado
Nas origens do "eu"

A sua virtude é amplamente abrangente
E o seu coração não se envolve com aquilo que o transcende

Não existisse a Totalidade e o seu corpo seria destituído de vida;
Não existisse virtude e o seu ser seria destituído de radiância

Aquele que preserva o próprio corpo
E vive em pleno

Aquele que estabelece a virtude em seu viver
E clarifica a totalidade da vida

Acaso esse não será impregnado de régia virtude?
Avança subitamente em tropel, e expõe-se sem restrições

Move-se de forma imprevista e toda a vida o segue
É isso que significa a virtude régia!

~~~

Ele é capaz de vislumbrar por entre as mais negras trevas
E escutar onde não existe o mais pequeno ruído

Em meio às trevas só ele vê com clareza
Em meio ao que é inexpressivo, só ele escuta a harmonia

Penetra com o seu profundo discernimento
E percebe correctamente o Centro
Diante da sucessão de mundos aparentes

Assim, nas relações com a multiplicidade dos seres
É capaz de cumprir as suas exigências, a partir do nada

Constantemente em busca
Sempre regressa, porém, ao recolhimento interior:
Grande e pequeno, cumprido e curto, distante e próximo...!

~~~

Diz-se que nos tempos antigos aqueles que governavam sob o céu
Nada exigiam para si próprios
E o mundo cumpria-se

Praticavam a inacção e toda a vida se transformava
Eram incomensuravelmente profundos na sua quietude
E as múltiplas famílias humanas sossegavam
E permaneciam em paz

Os escritos testemunham:

Permanece fiel à unidade
E toda a sorte de tarefas se realizará
Permanece livre de emoções
E até os ânimos contrários sucumbirão.

~~~

A compreensão profunda é vasta e firme
A compreensão superficial torna-se indolente e vaga
As palavras de sabedoria são claras e precisas
Palavras vãs soam insignificantes e mesquinhas

Quando estamos desatentos
O nosso espirito deambula por todo o lado
Quando nos achamos vigilantes sempre podemos despertar

Aquilo com que nos deparamos
Tende a capturar a nossa atenção
E dia a dia vivemos na confusão e no conflito
Isto geralmente é simples, profundo e íntimo

Os cuidados com as pequenas coisas
Tornam-se  incertos e objecto de ansiedade
Os cuidados com as grandes coisas são simples e acessíveis
Mas são arremessados qual flecha
Pela presunção de certo e errado
Tal como quem jura a pés juntos.

~~~
O Céu e a Terra possuem enorme beleza
Porém, não pode ela ser exprimida por palavras
As quatro estações seguem o seu curso sem debate
Todas as formas de vida possuem um carácter distinto
Porém isentam-se de o discutir

O sábio contempla a beleza do céu e da Terra
E apreende o Princípio que se acha por detrás de toda a vida

Assim, o homem de virtude opera sem agir
O homem sensato não empreende nada, porque, como ficou dito
Obtém o clarão da compreensão da Totalidade de Céu e Terra

~~~

Aquele que se contenta com o que é
Não se imiscuirá na perseguição do ganho

Aquele que verdadeiramente compreende o Bem
Não se deixará apoquentar pela perda

Aquele que possui autoconhecimento
Não se preocupará com a ausência de posição externa.

~~~

A quietude e o silêncio constituem uma cura
Para todos quantos se acham enfermos

As massagens constituem um benefício para os idosos
A contemplação tranquila é capaz de acalmar toda a angústia

Mas na verdade, só aquele que se achar perturbado
Necessitará de qualquer desses cuidados

Aquele que se achar sereno e não for perturbado por tais coisas
De tudo isso prescindirá

O espírito sagaz é capaz de tudo reformar, debaixo do céu
Porém, o homem espiritual não se interessa por tal coisa

O homem de posição aperfeiçoa a sua geração
Porém o espírito sagaz não se ocupa de tal tarefa

O governante legisla sobre toda a nação
Porém, o homem de valor autêntico não tem interesse por tal coisa

O homem comum é capaz de empreender qualquer dessas coisas
Porém não quer saber de o fazer adequadamente

~~~

Tal devia ser o cuidado mais precioso:
Não se deixar conduzir pelas convenções
Não se preocupar com adornos
Não se tornar irreflectido no trato com os demais
Não opor resistência à vontade da maioria
Procurar que todo o mundo viva em paz e equilíbrio
E zelar pelas necessidades dos demais como próprias
Para o bem da unidade dos povos

~~~

Assim era o espírito dos Antigos que seguiam a Perfeição:
Abrangente e imparcial
Flexível e aberto, sem seguir exemplos
Pronto a acompanhar os outros, sem segundas intenções
Destituído de angústia e uso para o saber, tendente a tecer conspirações
Sem preferências,  tudo acompanhando
Tais eram os seus modos.

~~~

A vida do homem entre  Céu e  Terra
Assemelha-se a um potro
Vislumbrado por um orifício na parede
E logo parece findar

Ela corre a passar, avança a correr e destrói-se sem sentido
Porém nada há que não surja de novo
Alonga-se e revolve-se
Contudo não há nada que não retorne à origem
Tanto a vida como a morte consistem na transformação

Todas as criaturas podem sentir tristeza e lamento
No entanto, trata-se unicamente
Do arremesso do arco do Céu
E do esvaziar da sacola da Terra

A criação de uma mudança que liberta a alma
Enquanto o corpo segue novamente
Para a Preservação do retorno

Aquilo que não possui forma procede da forma
Aquilo que a possui procede do Informe
Toda a gente sabe disso
Aqueles que possuem correcta compreensão não o debatem
Ao passo que qualquer um pode argumentar sobre como alcançá-lo

Aqueles que  alcançam a sua compreensão não o discutem
Aqueles que o discutem, não a alcançam

Aqueles que a buscam com olhar penetrante
Desejosos de a alcançar, não  conseguem discernir

Permanecei em silêncio, sem discutir
A Totalidade não pode ser escutada
Por isso, preferível será tapar os ouvidos a esforçar-se por escutá-la.
A isto se chama Sabedoria de Grande Alcance!

~~~

O brilho do que é radiante procede da escuridão
Tudo o que possui ordem procede da ausência de limites
Tudo o que é espiritual procede da Totalidade

As formas corporais procedem da essência do sémen
Todas as formas de vida conferem essa forma umas às outras
Através do nascimento

Os mamíferos nascem de um ventre
Outros animais nascem de ovos
De onde provêm não nos resta qualquer pista que o revele
Nem sinal do local para onde partiram
Tampouco de qualquer passagem por onde vão a habitar noutro lugar
De tal forma estão expostos a todos os quadrantes da vida

Aqueles que percorrem a via da perfeição tornam-se
Vigorosos sinceros e profundos no pensamento
E obtêm clareza de percepção

Aplicam o coração e cada coisa, sem freima nem preconceito
Em resultado disso o Céu torna-se elevado e a Terra ampla
O sol e a lua movem-se e tudo floresce
Assim é a Vida!

~~~

Certa vez, sonhei que era uma borboleta esvoaçante
Despojado e satisfeito com o meu destino
E ignorante da minha condição humana

Bruscamente, porém, acordei e dei por mim surpreendido
Por ser eu mesmo

Agora, não sei mais se se trataria de
Um homem que sonhava ser uma borboleta
Ou se sou uma borboleta que sonha ser um homem


Entre a borboleta e eu existe uma diferença
É aquilo a que chamam a mutação perene.

~~~

Se disciplinardes o vosso corpo
E unificardes a vossa atenção
Sobre vós descerá a harmonia do céu

Se assimilardes à vossa a consciência do mundo
E unificardes os vossos pensamentos
O Espírito escolherá residir junto de vós

A Virtude vos adornar-vos-á e a Verdade dar-vos-á abrigo
Os vossos olhos serão como os de um bezerro recém-nascido
Que não procuram o consequente.

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O homem de carácter (virtude)
Não exercita  a mente
Mas executa as suas acções sem preocupação.

As noções de certo e errado
Os louvores ou as censuras dos outros, não o perturbam

Quando, em todos os quatro cantos,
As pessoas se podem divertir
Nisso reside a felicidade para ele...

Pesaroso no aspecto, parece uma criança que perdeu a mãe
Parece estúpido, e vagueia ao acaso
Como alguém que se perdeu no caminho

Tem o suficiente para despender mas desconhece de onde lhe vem
Bebe e come o estritamente necessário
E não sabe de onde lhe vem o alimento.

~~~

Quando alguém pisa o pé de um estranho
Desculpa-se com amabilidade
Se o irmão mais velho pisa no pé do irmão mais moço
Pede desculpa, e fica-se por aí mesmo
Quando um pai pisa o pé do filho
Não lhe diz nada
Isso é natural

A perfeita sabedoria não é premeditada
A mais refinada delicadeza é livre de toda a formalidade
A conduta mais aperfeiçoada é livre de preocupação
O amor-perfeito dispensa todas as demonstrações
A perfeita sinceridade não oferece garantias.

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Hui Tzu queixou-se a Chuang Tzu:
"Todo o teu ensinamento está baseado no que não possui utilidade."

Mas se não apreciarmos o que não tem utilidade
Não poderemos falar sobre o que é útil!

A terra é vasta e extensa
Mas de toda a sua amplitude
Utilizamos apenas umas poucas polegadas
Sobre as quais nos mantemos de pé

Suponhamos que se tire tudo aquilo que realmente não se usa
E, ao redor dos próprios pés, abriremos um golfo
E ficaremos em pé sobre o vazio, sem nada sólido ao redor
Por quanto tempo poderemos utilizar o que estivermos a usar?

"Cessaria de servir para qualquer finalidade", disse Hui Tzu

"Então, isso prova a absoluta necessidade do que não possui utilidade!"

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Tudo o que é limitado pela forma, aparência, som, cor,
É chamado objecto

Mas entre tudo o mais que existe
Só o homem é mais  que simples objecto

Conquanto, à semelhança dos objectos, possua forma e aparência
Ele não está limitado a isso mas é muito mais
E pode atingir a ausência da forma

Quando se acha além da aparência  e da forma,
Além "disto e daquilo"
Onde se poderá estabelecer nisso uma comparação
Com  outro objecto?
E onde haverá conflito?
Que mais poderá permanecer no seu caminho?

Ele poderá descansar no eterno recesso da existência
Que é destituído de todo o lugar
E esconder-se no seu insondável segredo
Que a sua natureza afundar-se-á até às raízes da Unidade
E o seu poder e vitalidade ocultar-se-ão na Unidade secreta

~~~

Se persistirdes em tentar atingir aquilo que não pode ser atingido
Se persistirdes em vos esforçardes por obter
Aquilo que o esforço não pode obter
Se persistirdes em ajuizardes
Com relação ao que não pode ser compreendido

Sereis destruídos  pelo próprio objecto da vossa busca
Saber quando devemos deter-nos
E quando não devemos passar além, pela própria acção
Aí reside justamente o Começo!

~~~

Se não parardes de procurar a felicidade, jamais a encontrareis
A minha maior felicidade consiste precisamente em nada fazer
Que seja calculado para atingir a felicidade

Mas receio que, aos olhos da maioria das pessoas
Tal conduta constitua  o pior coisa que se possa fazer

A perfeita alegria não consiste em estar alegre
O supremo elogio está em não receber nenhum

Se me interrogarem sobre o que devemos, ou não, fazer
A fim de podermos alcançar essa felicidade
Responderei que tais perguntas não têm resposta
Por não haver possibilidade de determinar tal coisa

Contudo, se eu me detiver de lutar pela felicidade
Tanto "certo" como "errado"
Se tornarão imediatamente evidentes, por si só
E o contentamento e  bem-estar se tornarão imediatamente exequíveis

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Assim que nos detivermos de agir com vista à sua obtenção
E passarmos a praticar a acção sem propósito (não-agir)
Colheremos tanto bem-estar como felicidade

A serenidade do céu e o repouso da terra
Residem no não-agir
Da união desses dois modos, procedem todas as acções
De tal união são todas as coisas feitas

Como essa transformação é vasta e imperceptível:
Tudo provém de lugar nenhum!
Como é vasto e invisível:
Nenhum meio de o explicar!

Todos os seres, na sua perfeição, nascem do não-agir
Daí dizermos que: O céu e a terra nada fazem
Porém, nada há que não seja operado.

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O cozinheiro do Príncipe estava a retalhar um boi
E aquele abria-se num ápice, sem esforço aparente

O cutelo reluzente murmurejava como a aragem de uma brisa
Com sentido de ritmo e propriedade!
Como uma dança sagrada...

"Bom trabalho! O teu modo artístico é infalível!"
Disse o Príncipe ao cozinheiro
"Método? Aquilo que respeito é mais elevado que qualquer método ou arte!

Quando principiei a retalhar um boi
Tudo que eu detinha era unicamente
A percepção do boi

Passados três anos deixei de perceber o boi
Agora, porém, não percebo nada com a visão
Mas é todo o meu ser que apreende (espírito)

Os meus sentidos tornaram-se indolentes
E a mente é deixada livre para operar sem planos
E é capaz de seguir o próprio instinto, sem discorrer sobre o modo

Guiando-se pela estrutura natural do boi:
Afastando os tendões e cortando ao longo das grandes aberturas
O meu cutelo encontra a sua própria expressão
De acordo com o corpo do animal

Desse modo, jamais corto ligações nem tendões primeiro
E muito menos os ossos principais!

Um bom cozinheiro adquire um novo cutelo todos os anos
E isto porque o utiliza para cortar
Um cozinheiro fraco utiliza um cutelo fraco todos os meses
E isto porque trucida
Mas o cutelo deste vosso humilde servo,
Está em uso há dezanove anos e talhou alguns milhares de bois
Mas tem um fio tão suave como se tivesse acabado de ser amolado

O fio do cutelo está afiado mas além disso
As articulações contêm espaços entre si
De forma que, como opero sobre esses espaços vazios
Tenho espaço à vontade para trabalhar

Mas, se aparecer um sítio mais intrincado
Avalio as dificuldades, observo atentamente
Suspendo a respiração e trabalho com cuidado, bem devagar

E o cutelo começa a mover-se com bastante subtileza
De repente a peça desarticula-se e espalha-se pelo chão
Depois retiro o cutelo, permaneço sereno
E deixo a satisfação instalar-se

Então, limpo o cutelo e arrumo-o"
"É isso mesmo!", disse o Príncipe
"Ao escutar as palavras do meu cozinheiro  acabo por aprender
O modo como devo viver a vida!"

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Exercer o não-pensamento e serenar o espírito sem objecto
Constitui o primeiro passo para a serenidade da Totalidade
Proceder de ponto nenhum e não seguir via nenhuma
Constitui o primeiro passo para o atingimento da Unidade.

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Se a mente prevalecer na indeterminação do Vazio Supremo
O conhecimento será ilimitado

Aquilo que confere às coisas
O carácter de serem singulares, pelo que são
Por elas não pode ser delimitado

Quando objectivamos "limites" permanecemos confinados às coisas
Aos limites do ilimitado chamamos plenitude
A Totalidade é a fonte de ambos
Em si mesmo, porém, não é pleno nem vazio.

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Se, ao atravessar o rio, um indivíduo com mau feitio
Chocar com uma barca vazia
A despeito disso não se tornará demasiado irritado

Se vir que a barca leva um ocupante
Tratará de berrar para com ele para que tome rumo

Se os seus brados não forem escutados
Voltará a berrar até chegar a amaldiçoá-lo
E tudo isso só por ir alguém na barca

Se puderdes esvaziar a vossa própria "barca"
Na "travessia do rio" que é este mundo
Ninguém se vos oporá, nem  fará mal

Quem será capaz de se libertar de todos os limites da  realização e fama
E deixar-se perder entre a multidão dos homens?

Esse será capaz de se mover com a liberdade da totalidade
Irreconhecível, actuará em relação à própria vida
Destituído de nome e posição

Será simples e isento de distinções
Pela aparência se assemelhará a um tolo
Mas os seus passos não deixarão rastro

Será destituído de poder
Não realizará nada e será despido de toda a reputação
Mas, se não usar de julgamento para com quer que seja
Também não o julgarão a ele
Assim é o homem perfeito;  sua barca segue vazia!

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Aquele que tiver algum respeito pela própria pessoa
Manter-se-á longe do alcance da vista
E dissimular-se-á de modo tão perfeito quanto possa.

Quando estendemos o nosso poder aos objectos (controle)
Eles adquirem domínio sobre nós
Aquele que se deixa controlar pelos objectos
Perde a posse do seu íntimo
Prisioneiros, num mundo de objectos
Deixamos de ter escolha e passamos a submeter-nos
Às exigências da matéria
Pressionados aos limites esmagadores das forças externas
Da moda, do mercado, das ocorrências e das opiniões públicas
E jamais, em toda a nossa vida  recuperamos
A nossa condição original
Quanta perda!

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O elevado apreço pelo saber conduz á esperteza e à trama
O elevado apreço pelo conhecimento torna-nos tendentes à crítica

Se os homens realmente permanecessem como são
Tanto empreendê-lo como deixar de o fazer
Não faria diferença

Mas se não puderem permanecer no seu estado natural
Isso desenvolver-se-á como um tumor maligno
E o mundo cairá na confusão

Porque o homem segue todas as formas de deleite e cobiça
O mundo tornou-se cego
Quando tal deleite é deixado de lado
Ainda assim, não deixam de o procurar...

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O elevado apreço que nutrimos pela cor perturba a vista
De modo que a torna incapaz de vislumbrar correctamente

O elevado apreço que cultivamos pelo som e suas harmonias seduz o ouvido
E leva-o a perder a capacidade real de ouvir

O elevado apreço que mantemos pelos perfumes
Entontece os sentidos e provoca vertigens

O apreço em demasia pelo gosto perverte o paladar
E os desejos agitam o coração
Até nos deixar  num autêntico frenesim

Tudo isso é inimigo do verdadeiro viver
No entanto, é tudo o que os que são "dotados de conhecimento" desejam
Mas, se isso é viver, então os pombos presos na gaiola
Realizaram a felicidade!

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Quando os homens só conseguem compreender apenas um,
De entre os pares de contrários
Ou  se concentram num aspecto parcial da existência
A Totalidade torna-se obscura
Então, toda a clareza de expressão se torna igualmente confusa

Pelo emprego de mero jogo de palavras
E pela afirmação de um aspecto
E consequente negação de todos os outros
O pivô da Totalidade passa pelo centro de convergência
De todas as afirmações e negações
E aquele que é capaz de o apreender
Acha-se no centro  da actividade infinita (essência da serenidade)

De qualquer modo, a vida é seguida pela morte
E a morte é seguida pela vida
O possível torna-se impossível e o impossível, possível
O certo torna-se errado, e o erro  acerto

O fluxo vital altera as circunstâncias
E, em consequência, as coisas alteram-se por si mesmas
Disso brota todo o movimento e oposição
Que pode ser perspectivada na sua justa correlação

Se abandonarmos todo o pensamento de imposição de  limites
E deixarmos de tomar partido
Ele repousará na intuição directa.

O sábio, portanto, em vez de tentar provar
Este ou aquele aspecto através da lógica da disputa
Percebe todas as coisas à luz da intuição directa
E não se prende aos limites do "Eu"
Pois o ponto de vista da intuição directa é tanto "Eu" como "Não Eu"
Daí perceber  que, tanto  um como o outro lado da questão
Contêm  certo e  errado, e que no final ambos se reduzem ao mesmo

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À luz da Unidade nada é melhor nem pior
Cada coisa é percebida à própria luz
E destaca-se de forma singular

Pode parecer "melhor" do que aquilo que se lhe compare,
Dentro do seu próprio contexto
Porém, em termos de totalidade
Nada se afigura como tal

Todas as criaturas detêm dons singulares e múltiplas capacidades
Aquele que pretender colher o acerto sem erro
Ou a ordem sem considerar a desordem
Nada entende sobre os princípios da realidade dos opostos
E desconhece de que modo as coisas se acham encadeadas

Poderá um homem inclinar-se às coisas do céu
Nada sabendo das da terra?
Ambas estão em relação estreita
Conhecer uma é conhecer a outra.

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Uma vez livres de pressões, desejos, compulsões e atracções
Os vossos assuntos estarão sob controlo
E sereis verdadeiramente livres.

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Os verdadeiros homens de outrora
Não sentiam receio quando permaneciam à margem com suas convicções
Não teciam planos nem empreendiam grandes façanhas
Se falhassem, não abrigavam qualquer tristeza
E tampouco se congratulavam com o sucesso

Não sentiam nenhum apreço extraordinário pela vida
Nem se atemorizavam diante da ameaça da morte
O seu avanço era feito sem contentamento
E a sua retirada sem resistência
Com facilidade se manifestavam e com facilidade se retiravam
Sem se esquecerem da sua proveniência nem do seu destino
E sem adoptarem comportamentos menos dignos
A fim de se afirmarem na vida
Aceitavam a vida tal qual ela surgia; com deleite
E a morte conforme esta sucedia; sem cuidados
E iam à sua vida, além, mais além!

Não faziam tenções de forçar a vida
Nem planos para  auxiliar as suas expressões

Assim eram  verdadeiramente homens:
De mente aberta e sem pensamentos
De semblantes leves e rostos radiantes e serenos
Na sua percepção os bens e as posses não tinham qualquer valor
E por isso permaneciam afastados da riqueza e da honra

Uma vida longa não é coisa que sirva à alegria de viver
Tampouco a morte prematura se presta à tristeza
O sucesso não constituía para eles um motivo de orgulho
Tampouco o insucesso motivo de vergonha
Tivessem eles todo o poder do mundo
Que seriam incapazes de o deter nas mãos
Se pudessem conquistar tudo, não o fariam para si próprios

A sua glória estava em saber
Que todas as coisas seguem juntas na Unidade
E vida e morte são iguais.

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O homem que age com Totalidade e sem impedimentos
Não afecta ninguém com as suas acções
E no entanto desconhece qualquer "afeição"
Nem sabe como ser "gentil" nem "bondoso"

Não se ocupa  dos seus interesses
Nem despreza quem com eles se preocupa
Não se esforça por realizar dinheiro
Nem faz da pobreza virtude

Prossegue a sua vida sem se apoiar nos outros
Mas não se orgulha de avançar só
Conquanto não acompanhe a maioria
Não se queixa de os outros a seguirem

Posição e recompensa não exercem nenhuma atracção sobre ele
Do mesmo modo que a desgraça e a vergonha, que  o não desencorajam
Não anda constantemente em busca do "certo e errado"
Nem sistematicamente a decidir entre "sim e não"

Por isso, os antigos já diziam:
O homem que segue a Verdade permanece anónimo
A virtude mais perfeita não produz efeito aparente
A ausência de si mesmo é o verdadeiro Eu
E o maior de entre os homens  é ninguém.

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Se considerarmos as devidas proporções
Todas as coisas se nos podem afigurar grandes

Porém, se dermos destaque à sua grandeza
Apuraremos como pequenas
Aquelas que implicitamente se nos afigurarem como tal

Se  considerarmos a sua eficácia
Ela  sairá realçada
Do mesmo modo, se lhes apontarmos a ineficácia
Todos os seres se revelarão ineficazes

Se valorizarmos os seus pontos de vista
E considerarmos as suas intenções
Todos os seres passarão a ter razão
E todos os seres a perderão se valorizarmos a falta dela.

~~~

Uma viga é capaz de servir para rachar uma parede
Mas é incapaz de reparar o buraco que abrir

Cada coisa possui a sua utilidade:
-
Correios velozes são capazes de percorrer dez quarteirões num dia
Porém, incapazes de apanhar um rato
Isso deve ser deixado para o gato

Cada coisa possui a sua capacidade:
-
A coruja é capaz de apanhar uma pulga na noite
E vislumbrar um pelo de cavalo
Porém, durante o dia,  não enxerga
Nem mesmo uma mão cheia deles

Cada coisa possui as suas próprias aptidões
Por isso se diz que aquele que decide do verdadeiro
Sem levar em consideração o falso
E que fala da ordem sem perceber o corolário da própria desordem
Nada compreende dos grandes princípios do universo
Nem da realidade que conduz os seres.

~~~

Existirá, na terra, alguma plenitude de alegria, ou não? Existirá algum processo de se fazer com que a vida seja plenamente digna de se viver, ou será isso impossível? Se existe, como encontrá-la? Que deveremos tentar fazer ou procurar evitar? Em que deve concentrar-se a nossa actividade? Que deveremos aceitar ou recusar? O que deveremos amar ou odiar?

Aquilo que o mundo  valoriza é o dinheiro, a fama, a vida longa, o sucesso. Para ele a alegria é representada pela saúde e pelo conforto do corpo, a boa comida, as belas roupas, coisas apreciáveis ao olhar, harmonias agradáveis ao ouvido.

O  que ele condena é a falta de dinheiro, um nível social baixo, fraca reputação e morte prematura. O que considera infelicidade é o desconforto e o trabalho físico e falta de oportunidades e meios. Se sentirem falta de todo isso as pessoas podem cair no desespero e na aflição e ficar tão perturbadas com a própria vida que a angústia a torna insuportável, mesmo quando possuem tudo o que pensam desejar. A própria preocupação com o prazer, torna-as infelizes.

Os ricos tornam intolerável a vida e agitam-se incessantemente para obter uma cada vez maior fortuna, fortuna essa que, na verdade, não podem utilizar. E procedendo assim, alienam-se de si mesmos, chegando à exaustão em meio ao labor, como se fossem escravos dos outros.

Os ambiciosos correm noite e dia em busca de glórias e em constante  desassossego com o sucesso dos seus planos e o evitar dos erros, ameaçadores. Assim, alienam-se de si mesmos exaurindo sua vida real a serviço da sombra criada pela insaciável esperança.

O nascimento de um homem é o começo da sua tristeza. Quanto mais vive, tanto mais estúpido se torna, devido a que a sua angústia para evitar a morte inevitável se torne cada vez mais intensa. Que amargura! Ele vive pelo que está sempre fora do seu alcance! A sua sede de viver no futuro, torna-o incapaz de viver no presente.

Quem são os representantes da autoridade e os eruditos que se sacrificam a si próprios? São elogiados pelo mundo por serem bons, correctos, dignos de se sacrificarem; mas, apesar disso, o seu bom carácter não os preserva da infelicidade, nem mesmo da ruína, da desgraça e da morte. Gostaria de saber se, nesse caso, a sua "bondade" é realmente boa, apesar de tudo! Não será, talvez, uma fonte de infelicidade? Vamos supor que digam que eles sejam felizes; será ser feliz possuir um carácter ou uma carreira que irá, necessariamente conduzir à sua própria ruína?
Por outro lado, pode chamá-los de "infelizes" se, ao se sacrificarem, salvam as  vidas e as fortunas dos outros?

Não posso afirmar se, o que o mundo considera ou não "felicidade", é de facto. Tudo o que sei é que, quando medito nos meios de que eles se servem para obtê-la, percebo-os estonteados, tristes e obcecados, incapazes de se refrearem ou mudarem de rumo. E durante todo esse movimento, eles afirmam estarem no justo ponto de atingirem a felicidade.
Na minha opinião, não posso aceitar as suas teorias, quer digam respeito à felicidade ou infelicidade e chego a questionar-se se o conceito de felicidade possui qualquer significado

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No Estado de Cheng vivia um xamane que era capaz de revelar tudo sobre o nascimento e a morte, ganhos e perdas, infortúnios e felicidade, além do tempo de vida de qualquer homem, chegando mesmo a dizer-lhe qual o ano, o mês, a semana em que morreria, como se fosse um deus. O povo de Cheng tinha o hábito de fugir à sua simples aparição.

Mas Lieh Tzu foi consultá-lo e ficou fascinado. No regresso disse a Hu Tzu:
"Mestre, eu pensava que o teu conhecimento da vida fosse perfeito, mas agora conheci alguém que possui um conhecimento ainda mais perfeito."

Hu Tzu disse-lhe: "Aquilo que te transmiti foi apenas a letra e não o espírito do Absoluto. Mas na verdade pensavas que dominavas o conhecimento? Se não houver galo na capoeira, como poderão as galinhas pôr ovos? Contigo, passa-se o mesmo quando procuras afrontar o mundo sem esse conhecimento. É por isso que as pessoas conseguem distinguir com precisão todo o teu ser. Procuras ostentar conhecimento para fazer as pessoas crer nele como um facto. Trás cá esse homem e deixa que me veja. Também quero ver se também será capaz de penetrar o meu ser."

No dia seguinte, Lieh Tzu conduziu o xamane a casa de Hu Tzu. Quando saíram para o exterior este comentou: "Lamento muito, mas o teu mestre está à beira da morte; não viverá nem dez dias. Contemplei nele uma coisa muito estranha...cinzas humedecidas."

Como Lieh Tzu regressasse para dentro banhado em lágrimas e relatasse o acontecido a Hu Tzu, este respondeu-lhe:
"Acabei de lhe revelar a terra imóvel e silenciosa, sem nada a mover-se nem a afirmar-se. Ele deve ter julgado que via a minha força vital a desligar-se de mim. Trá-lo cá outra vez!"

No dia seguinte, ambos foram visitar Hu Tzu de novo. Mal saíram, o xamane  disse: "Que sorte o teu mestre ter-me encontrado. Está a ficar melhor, pois já revela todos os sinais de vida. Pude pressentir dentro dele tudo aquilo que anteriormente se havia desligado."

Quando Lieh Tzu relatou esse comentário a Hu Tzu, ele respondeu: "Desta vez revelei-me como céu e terra- sem substância parcial e com a energia vital a ascender a partir dos calcanhares. Ele deve ter sentido em mim a acção desse impulso vital."

Após a visita seguinte, o xamane disse:  "O teu mestre está sempre a mudar. Não consigo caracterizá-lo. Esperarei que estabilize e voltarei para o examinar de novo."

Lieh Tzu voltou a relatar o sucedido ao mestre, mas este respondeu-lhe: "Acabei de revelar-lhe a Harmonia Suprema onde só impera o perfeito equilíbrio sem vantagem de particularidade nenhuma. Provavelmente aquilo que vislumbrou foi a energia vital reunida na sua perfeição. Quando as vagas entram numa torrente em redemoinho ou as águas plácidas estão completamente imóveis ou ainda quando fluem com liberdade, dão lugar a uma espécie de abismo ou vazio. Amanhã trá-lo cá de novo."

No dia seguinte, ambos voltaram lá de novo mas, antes mesmo de se sentar o xamane perdeu a compostura e desatou a fugir.

"Corre atrás dele", disse Hu Tzu. Contudo, apesar de o ter feito Lieh Tzu não conseguiu alcançá-lo: "Não consegui encontrá-lo. Sumiu!"

Hu Tzu disse-lhe:  "Acabei de mostrar-lhe o que existia antes do começo das coisas. Completamente exposto e rendido revelei-me sem preocupações à semelhança das hastes de relva que se dobram ao vento ou as ondas a rebentar nos rochedos. Foi disso que ele fugiu."

Por tudo isto, Lieh Tzu depreendeu o quanto não tinha, de facto, começado a aprender. Meteu-se em casa e dali não se ausentou nos três anos seguintes. Passou a substituir a mulher no fogão e tratou dos porcos com tal zelo como se fossem humanos, sem mostrar aborrecimento por executar tarefas tidas por menos dignas. Perdeu o interesse pelas questões do mundo, deixou de complicar as coisas e regressou à simplicidade. Deixou o seu ser inteiro afirmar-se qual torrão isolado de terra, em meio a todas as distracções e confusões da vida, e manteve-se resguardado nesse Absoluto até ao final dos seus dias.

Não vos deixeis dominar pelas diferenças de designação nem vos troneis presa de actividade sem fim... Não presumam saber mas tomai consciência de tudo quanto não tem fim e vagueai por onde não se vêm trilhos... Sede tudo o que o céu vos tiver dado porém, agi como se nada tivésseis recebido ou conseguido...
Ficar vazio é tudo! O homem perfeito possui uma mente semelhante a um espelho que tudo acolhe sem nada reter e tampouco tomar como seu; que tudo reflecte sem reter coisa alguma. É desse modo que se pode dominar as coisas sem sermos por elas dominados.

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Confúcio foi fazer uma visita a Lao Tzu. Este tinha acabado de lavar a cabeça e achava-se exposto ao sol, a secar o cabelo. Dizia-se que, quando ele permanecia nesse estado imobilizado, o seu corpo parecia estar morto.
Confúcio aguardou um pouco enquanto observava, mas por fim aproximou-se dele e disse: "Estarei a ver mal ou aquilo que contemplo é verdadeiro? Tens o aspecto de uma árvore abatida, nesse estado, e não apresentas nenhum sinal que revele vida."

"Eu estava a recrear-me no não-nascido" respondeu-lhe Lao Tzu.
"Que queres dizer com isso?" perguntou-lhe Confúcio.
"O meu espírito tornou-se completamente exposto e não sei mais o que diga. Fiquei sem fala e não sei o que possa expressar. Todavia, vou procurar aproximar-me da verdade: O perfeito princípio negativo (Yin) é majestosamente passivo. O perfeito princípio positivo (Yang) é poderosamente activo. Um procede do céu, o outro procede da terra. Mas a osmose que existe entre ambos cria a harmonia através da qual todas as coisas são produzidas. Provavelmente existirá uma causa original, porém, jamais lhe perceberemos a forma, que inunda o espaço. Existe a luz e a obscuridade; sucedem os dias e decorrem os meses sem fim. A criação não cessa de operar. A vida provém não se sabe de onde e a morte conduz-nos para lugar incerto. Começo e fim seguem-se interminavelmente sem que consigamos apurar até quando. Se isso não resultar de uma causa original, de que será, então?"
"Mas", disse Confúcio, "Que queres dizer com isso de- te recreares no não-nascido?"
"Significa a bondade e a quietude magnânima. Todo aquele que atinge esse estado torna-se um ser humano perfeito."

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Aquele que se acha além do alcance da cólera, jamais se verá acometido por ela. Porquanto a sua cólera procede da "não-cólera". (cólera sem intenção)
Aquele que está livre da agitação humana, actua sem alterar o que quer que seja (não-agir).
Aquele que pretender permanecer calmo diante de qualquer circunstância, deve regular a respiração e adequá-la com atenção.
Aquele que procura a inspiração correcta, deve seguir o coração.
Aquele que pretender agir com justiça, não o fará com base no desejo.

Tal é o caminho do sábio!

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Pesco na margem deste ribeiro, porém, sou mais feliz do que um rei. De cabelos ao vento, sigo a cantar- e o mundo inteiro canta comigo o refrão da minha canção: "Que os vossos pensamentos prospectem o grande vazio!"

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A rã vive no fundo do poço e não faz a menor ideia do que possa ser o mar. O insecto que nasce e morre no Verão, desconhece o que seja o gelo, pois só conhece a sua estação. O letrado, na sua presunção, nada sabe do conhecimento superior do Absoluto, limitado que se acha pela estreiteza do conhecimento adquirido.
A vós, se já tiverdes saído da vossa toca, e tiverdes vislumbrado o mar imenso, capacitado assim da própria ignorância, poder-se-á falar da ordem universal?

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Interiorizar-se sem exagero, exteriorizar-se sem excesso e saber preservar o justo meio termo; eis aí os elementos indispensáveis à evolução!

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O absoluto não conhece começo nem término tudo o mais que vive ou permanece sem vida é regido pela impermanência. Tudo muda de forma sem cessar. Não podemos deter a sucessão do tempo. E, entretanto, o nosso corpo transforma-se. A sucessão de estados é infinita e cada findar é seguido de um novo começo.
O dever de cada um encontra consistência nos princípios universais. A vida do ser humano pode ser comparada ao galope de um ser humano. Que fazer, ou deixar de fazer, entretanto? Seguir o curso das transformações!

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Quando um indivíduo ébrio cai de uma carroça em andamento, não se mata, muito embora possa vir a padecer de sofrimento disso decorrente. A sua constituição não difere da dos outros, porém, ele sofre o acidente de modo diverso, por se achar num estado de espírito de segurança. Não tem consciência de viajar num veículo e tampouco de sofrer uma queda. As ideias de vida, morte e medo são-lhe completamente estranhas, de modo que o contacto brutal com a realidade objectiva não o confunde.
Se o álcool pode facultar-nos uma tal segurança, a espontaneidade pode proporcionar-nos muito mais ainda.

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Na hora da morte, Chuang Tzu haveria de demonstrar uma derradeira vez a profunda aceitação da natureza de ser das coisas e da vida, de forma simples, sem fazer transparecer sinais de humildade, desespero nem angústia.
Encontrando-se moribundo, os discípulos manifestaram-lhe a vontade de lhe fazer um funeral sumptuoso.
Mas o agonizante disse-lhes: "É inútil, porquanto o céu e a terra formam um duplo túmulo. O sol e a lua formam dois discos de jade e a estrela polar e as outras servem-me de pérolas. Todos os seres vivos compõem o meu cortejo. Não estará, porventura pronta a minha pompa fúnebre? Que mais lhe acrescentaríeis?"
"Mas", disseram eles, "tememos que os corvos e os milhafres vos devorem."
"Lá em cima", replicou ele, "arrisco-me a ser devorado pelos corvos e milhafres; cá em baixo, pelos ratos e formigas. Quanta imparcialidade em querer poupar o meu corpo aos primeiros para o dar aos segundos!"

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Preservem a unidade do espírito
Cessai de escutar com o pensamento e escutai com a mente
A função do ouvido limita-se à audição
A do pensamento limita-se a formar imagens e ideias
Quanto ao espírito, ele é um vazio que responde a todas as coisas

O Absoluto reside nesse vazio
Tal vazio consiste no jejum do pensamento.

~~~

As coisas produzem-se ao nosso redor
Sem que ninguém lhes conheça a proveniência
Elas desaparecem e ninguém sabe para onde

Os homens valorizam aquela porção do conhecimento que empregam
Mas não sabem como utilizar o desconhecido
A fim de alcançar o Conhecimento
Não será isso um desatino?

~~~

"Diz-me"- inquiriu Lao Tzu
"Em que consiste a caridade e o dever para com o vizinho?
"Consiste", respondeu Confúcio,
"Na capacidade de nos regozijarmos com todas as coisas
E no amor universal sem o elemento da própria pessoa"
"Tais são as características da caridade e do dever para com o nosso vizinho"

"Que baralhada!" bradou Lao Tzu
"O amor universal não será uma contradição em si?
Não será a eliminação da tua pessoa
Uma manifestação positiva da tua própria pessoa?"

"Ah, senhor, se ao menos não fizéssemos com que o império
Perca a fonte do seu sustento...

Contemplai  a regularidade  incessante do universo
Contemplai o brilho inalterável do sol e da lua
Contemplai como os animais se agrupam de forma invariável
Contemplai como as árvores e os arbustos crescem sem exclusão

Para que servem pois essas vãs pesquisas
Sobre a caridade e o dever para com o vizinho
Como quem bate um tambor ao procurar o fugitivo?
Ai de nós, senhor, que muita confusão trouxestes à mente do homem!"

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Eis o verdadeiro conhecimento:
O corpo semelhante a osso seco
A mente como cinzas apagadas
Não se esforçar por conhecer a origem

Nas trevas e na obscuridade
Os destituídos de "mente" vêm-se incapazes de planear
Que tipo de homem é esse?

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Se não tivermos consciência dos próprios pés, os sapatos devem ser cómodos
Se não tivermos consciência da cintura implica que o cinto esteja bem regulado
Se não tivermos consciência de positivo nem negativo
A inteligência deverá estar adequadamente implementada

Se começarmos pela adequação, jamais terminaremos de outro modo
E jamais teremos consciência do "adequado".

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Fosse a linguagem adequada
E bastaria a extensão de um dia para expor o Absoluto
Por não ser adequada
Esse tempo é desperdiçado com explicações sobre experiências materiais
O absoluto está para além das experiências materiais
E não pode ser transmitido nem pela palavra nem pelo silêncio

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Se quisermos resguardar-nos dos ladrões
Devemos prender os objectos e fechá-los e trancá-los a cadeado
Isso é elementar bom senso
Porém, se surgir um ladrão que seja perito
Simplesmente levará bagagens e cofres às costas
E sua única preocupação será a de que os fechos e cadeados não cedam
Nesse caso, aquilo que parecia simples bom senso do proprietário
Seguramente acaba por ser de utilidade apenas para o larápio

Vou procurar expor isto de um outro modo:
Aquilo a que toda a gente chama sensatez
Não será apenas o acto de entesourar coisas para o larápio mais esperto?
Assim, do mesmo modo, não será esse esperto, simplesmente um guardião
Dos interesses do mestre do furto?
Qual, entre os mais espertos não passa o seu tempo empilhando um tesouro
Para o larápio mais eficaz?

Na província de Ki podia-se escutar o cantar dos galos e o latir dos cães
Em todas as aldeias por onde se passava
Os agricultores aravam os campos e os pescadores lançavam as redes
E tudo era definido correctamente por linhas fronteiriças
Por mais de quinhentas milhas quadradas

O emprego de pesos e medidas só justifica o roubo
A implementação de contractos e selos só assegura a usurpação
O ensino do amor e do dever constitui linguagem apropriada
Para provar que a usurpação é realmente para o bem comum.
Se um pobre furtar uma fivela, tem que fugir
Porém, se um rico usurpar todo um estado
Logo é aclamado estadista do ano

Daí que, se quiserem escutar os melhores discursos sobre o amor, o dever, a justiça
Escutem os estadistas
Porém, quando o ribeiro secar, nada mais crescerá nos prados
Quando o monte de areia é nivelado, todas as depressões do terreno  são preenchidas
Mas quando os estadistas, advogados e pregadores do dever se vão
Deixam de haver roubos e o mundo fica em paz

Moral: Quanto mais princípios éticos, deveres e obrigações se observa
A fim de preservar a ordem, tanto maior saque se acumulará
Para um ladrão mais esperto
Sob a justificação do argumento ético e do princípio moral
Cometem-se os maiores crimes, como um sinal benéfico para a humanidade.

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Yang Tzu-chu foi para sul, para  Pei, e quando chegou a Liang ele foi até á extremidade da cidade para saudar Lao Tan que tinha estado viajando para oeste, em direcção a Chin, e escoltou-o. Lao Tzu parou no meio da estrada, alçou os olhos para o céu, suspirou e disse: " No princípio  pensei que  pudesses ser ensinado, mas agora  vejo que não há qualquer esperança"!  
Yang Tzu-chu não deu qualquer resposta, mas quando eles chegaram à pousada,  foi buscar uma bacia de água, uma toalha e um pente e, depois de tirar os sapatos no lado de fora do quarto,  rastejou sobre os joelhos até ao interior e disse: " Até há pouco alimentei esperanças de lhe poder perguntar, Senhor, o que quis dizer com aquela observação que fez, mas  vendo como se encontrava ocupado  não ousei. Agora que  dispõe dum momento livre,  poderei perguntar onde reside a minha falta "?  
Lao Tzu disse: " Alto e poderoso, orgulhoso e altivo - quem quererá viver contigo! 
A maior pureza assemelha-se á vergonha; a virtude abundante parece ser insuficiente.”   
Da primeira vez que Yang Tzu-chu chegou à pousada, as pessoas na pousada saíram a  saudá-lo. O estalajadeiro logo aprontou um tapete e a esposa dele arranjou uma toalha e um pente, enquanto os outros convidados lhe dispensaram polidamente os seus lugares nos próprios tapetes e aqueles que se tinham estado a esquentar ao fogão cederam-lhe o seu lugar. Mas quando Yang voltou da entrevista com Lao Tzu, as pessoas na pousada tentaram mesmo empurra-lo directamente para fora do próprio tapete dele. 

Tradução de Amadeu António - 2002

Obras de Referência:

L' Esprit du Tao,  de Jean Grenier
Tchouang Tseu - Aphorismes - Edição Albin Michel






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