domingo, 18 de setembro de 2011

SHODOKA




Canto da realização Súbita



Caro amigo, não vês este seguidor do Caminho
Que abandonou todo o saber e não pratica qualquer disciplina?
Nem rejeita a ilusão nem se esforça por encontrar a verdade
Mas percebe que a natureza da ignorância é, em si mesma o Despertar
E que o corpo vazio das transformações constitui a Verdade


Pela compreensão de que a Verdade reside no Vazio de tudo
Descobre-se a fonte de todas as coisas
E que a nossa verdadeira natureza
É a consciência desperta e una de todas as coisas


Os agregados dos sentidos que formam a consciência
Surgem e dissipam-se sem objectivo preciso
O efeito que exercem sobre a mente dissolve-se como espuma no mar
Quando compreendemos aquilo que "é como é"
As noções de homem e Verdade deixam de existir
Por serem desprovidas de todo sentido de todo sentido de objectividade
E de imediato o encadeamento da causalidade é anulado (causa e efeito)


Se algo disto que vos transmito for menos verdadeiro
Que a língua me seja arrancada


Se alguém despertar para a compreensão da verdade
Tanto a perfeição da virtude como a essência das diversas práticas
Serão alcançadas e desenvolvidas no seu verdadeiro sentido
Os diferentes estados da existência têm base na diferenciação do "sonho"
Porém, se despertardes vereis que nenhum existirá
Para lá do imenso Vazio



Não existe nem pecado nem felicidade; nem perda nem ganho
Na paz dessa perfeição absoluta nada nos falta nem existe em separado
Tendo desistido de limpar a poeira que cobre o Espelho da Mente
Agora é possível vislumbrar o seu resplendor.


Porque dizem que esse estado é inato e isento de pensamentos?
Se o "não-nascido" for condição verdadeira
Então também não pode chegar a existir (pela realização)
E a realidade dos fenómenos não comporta nenhuma afectação


Poderá o espantalho atingir a perfeição do Buda pela prática do não-pensar?
Se não mais retivermos os elementos vitais do corpo
Empreendamos tudo o que tivermos de executar na paz da Perfeição
Quando todas as aparências são vazias e tudo é relativo e impermanente
Então percebemos a Iluminação Perfeita do Despertar Espiritual


Estas palavras revelam o coração do seguidor do Caminho
Se não concordardes com elas examinai-as com confiança e serenidade
E a sua doutrina se revelará por si mesma
Avançar directamente para a raiz das questões
É a marca de uma consciência desperta
Sem ficar a juntar as folhas (evidências) e à procura dos galhos (meios)


A jóia preciosa da Lei passa despercebida ao reconhecimento dos homens
Mas permanece profundamente incrustada
No coração da Consciência Pura de todos os seres
Os cinco sentidos e a consciência tanto são como não são ilusão
Mas procedem da luminosidade da Perfeição
Não estão na forma nem deixam de estar


Se purificarmos a percepção obteremos o poder
Da compreensão da Verdade insondável
Não é difícil perceber a forma reflectida no espelho
Mas seremos capazes de capturar a lua que se reflecte nas aguas?


Nós sempre vivemos sós contudo,
Aquele que toma consciência da libertação
Esse atingiu a Unidade e possui a atitude contida
 Vivacidade e abertura de espirito, ânimo leve e aparência distinta
Possui fineza de trato, firmeza de porte e vigor


Os filhos de Sakya (Buda) são pobres mas a sua pobreza é aparente
O seu espirito não conhece a pobreza
As suas vestes advertem a sua condição mas eles possuem o Bem Precioso
Que se acha além de toda a medida
 Que podem usar sem hesitação para benefício dos outros
 De acordo com as circunstâncias


O seu corpo assume a realização do verdadeiro Gozo da Transformação
E atinge a percepção, o Conhecimento e a Intuição
As percepções subtis da mente
Que conquista as diferentes formas de libertação (do desejo e da ilusão)
Da identificação (com certo e errado), da dor (e da alegria)
E da consciência (de eu) fazem parte da sua realização


O homem superior vai directo à fonte e atinge a compreensão súbita
O de compreensão média e inferior experimenta demasiadas dúvidas
E hesitam a tomar consciência das suas perspectivas comprometidas
 Orgulhoso na sua realização



É preciso que vos liberteis das tendências corrompidas
De querer resistir pela argumentação
Se vos difamarem e caluniarem, aceitai-o!
Isso é como se tentassem incendiar o céu com uma tocha
Logo acabarão cansados


Se lhes prestarem atenção, as suas palavras constituirão um néctar
E revelar-vos-ão que a natureza das circunstâncias
É livre de toda a contingência de existência e tempo
Se compreenderdes isto as palavras ofensivas tornar-se-ão bênçãos
E os seus autores, excelentes mestres


Se, abertos às criticas e ofensas, elas não vos magoarem
E não despertarem noções de amizade ou inimizade
Tornar-se-ão causa de compaixão (amor e humildade)
E perseverança (paciência) resultantes da inexistência de causa


O ensino  enquadra-se correctamente na compreensão
A sabedoria está em conjugação com a meditação
 Livres das noções de vazio


Não sou o único a atingir essa compreensão
Que foi dispensada por Budas incontáveis como grãos de areia
A doutrina assemelha-se a um rugido de leão
Que rouba a dignidade dos poderosos
E erradica o medo do coração das feras


Somente os que são dotados de discernimento e livres de toda a causalidade
Podem escutar esse rugido com contentamento
No passado percorri  montanhas e viajei por mares
Em busca de mestres e da Verdade
Mas após ter encontrado o caminho do monte Sokey
Pude obter conhecimento de que a vida e a morte não são diferentes


A meditação zen pode acontecer tanto sentado como a caminhar
Quer nos pronunciemos, quer permaneçamos em silêncio
Quer nos movimentemos, quer permaneçamos em repouso
Façamo-lo em paz, do mesmo modo
Ainda que nos encontremos diante de uma espada afiada
Permanece calmo e a clareza de espírito não sairá afectada


O nascimento e a morte sucedem-se ininterruptamente
Despertai directamente na compreensão súbita da Realidade Incriada
E tornai-vos livres da alegria (da fama) e da tristeza ( da perda)
Experimentai o retiro do mundo numa gruta de montanha
Ou entre os pinheiros na floresta
Abandonai-vos ao lazer da tranquilidade
Vivei uma vida simples e serena
 E tal retiro terá o efeito de uma purificação


Despertai para a compreensão do Real
E nada mais empreendereis com esforço, como o homem vulgar
A caridade praticada com a ideia de mérito pessoal
Assemelha-se ao arremesso de uma flecha ao ar- ela cairá de novo!



É preferível viver na Realidade
Porque assim se acede imediatamente ao "reino da Verdade"
Tratar de alcançar directamente as raízes
Ao invés de vos perderdes com a rama
Isso será como o reflexo da lua brilhante num cristal
Agora podeis compreender essa jóia da verdadeira liberdade
Inesgotável tanto para vós como para os demais


A lua brilha por sobre o regato
O vento sopra por entre os pinheiros
Reinam na noite o silêncio e a calma. Porque que acontece isso?
O tesouro dos preceitos da Unidade do Buda
Aloja-se nessa iluminação


Aquele cujo robe se compõe de brumas e orvalho
E cuja tigela pacifica os dragões ariscos e separa os tigres em combate
Pode escutar a melodia do seu bastão
E sabe que isso não são relíquias do passado
Nem fábulas sem conteúdo
Mas expressões dos ensinamentos preciosos da Verdade


Não procureis a Verdade nem eviteis o engano
Mas compreendei que ambos esses aspectos da dualidade
São vazios e destituídos de forma
Não possuir qualquer realidade significa ausência de parcialidade
Não "ser vazio" nem deixar de o ser
Essa é a verdadeira forma do Si Mesmo



O espelho do Espirito é puro e nada do que reflecte o ofusca
Reflecte inumeráveis realidades e o seu brilho inunda mundos sem fim
Tudo o que existe, as dez mil coisas manifestam-se nessa Jóia Perfeita
Como uma luminosidade sem diferenciação ( de interior ou exterior)


Não procureis alcançar o Vazio e recusai a causalidade
A sua imprudente confusão só conduz ao sofrimento
Rejeitar a Verdade agarrando-nos aos seres é erro
E assemelha-se a atirar-se ao fogo para evitar afogar-se na água


Rejeitar a ilusão e procurar alcançar a Verdade, acompanha de perto
A mente da preferência e da rejeição
Contém a discriminação, o artifício e a mentira
Os estudantes que adoptam essa via
Assemelham-se àquele que toma erradamente um ladrão por seu filho


Por causa da discriminação do conhecimento relativo
Ignoramos o tesouro do Real e os seus méritos
Por isso o zen ensina que é preciso a visão profunda
 E a compreensão da realidade incriada inteligente
Se o praticante despertar subitamente pelo poder desta intuição
Obterá o poder da verdadeira sabedoria
Que corta com toda a confusão do conhecimento
E com a ignorância da erudição e da filosofia


Esse poder semelhante ao rugido do trovão
Faz ressoar o "tambor" dos Ensinamentos
Estende nuvens de compaixão e espalha chuvas de néctar doce como mel
Todos os seres são movidos pelo benefício do seu despertar



Sob as neves das altas montanhas só cresce um musgo sem mistura
Ele dá a essência do gosto que mais prezo
Uma natureza Una inunda todas as naturezas
Uma mesma Realidade abrangente, contém todas as realidades
Uma mesma lua se reflectirá se as águas se acalmarem


O "corpo" da Verdade de todos os iluminados
Acha-se igualmente na minha natureza
Ela confunde-se com o espirito daqueles que São como São
Um estágio de prática ou realização contém todos os demais
Se for destituído de forma, objectivo
Ou acção de diferenciação ou discriminação


Com um simples estalo de dedos alcançamos as mil doutrinas
No espaço de um piscar de olhos extinguimos o mau carma
E aniquilamos o tempo
Nem a designação de categorias nem a sua ausência
Têm nada que ver com o verdadeiro Conhecimento


A luz interior do despertar está além da lisonja e do insulto
Da critica e da ofensa
É ilimitada como o espaço e estará onde estiverdes presentes
Procurá-la é fazer com que escape
É impossível captar a sua essência ou deixá-la de lado
Só assim se pode alcançar o "centro do inalcançável"


É eloquente no silêncio e quando falamos não se pronuncia
Quando o seu portal se acha escancarado
Faz jorrar a Verdade sem qualquer impasse



Se me perguntarem que doutrina ensino
Responderei ser a do Despertar da Verdade
Do que seja "bem" ou "mal" os homens nada sabem
Até os eruditos podem somente especular
Se sois a favor ou contra ele, nem o Céu o pode asseverar


Tendo praticado isto por muito tempo
Só me resta testificar da sua veracidade
Empunhai o "Estandarte da Lei"
E estabelecei os ensinamentos da linhagem que encontrei no monte Sokey
E que não é outro que o de Buda


Nos cômputos da Índia, Kasyapa foi o primeiro a albergar
A chama sagrada transmitida aos vinte e oito Patriarcas
Bodhidarma foi o primeiro a traze-la à terra do meio ( China)
O seu manto foi transmitido a seis patriarcas
Graças aos quais muitos outros puderam alcançar a luz


A Verdade não precisa ser estabelecida nem defendida em disputas
Quando ideias de "ser" ou "não-ser" se desvanecem, tudo reflecte o Vazio
Mas desde logo é preciso resguardar-se das sua múltiplas formas e aspectos
A Unidade eterna da Si mesmo permanece  idêntica
Como idêntica são as existências na multiplicidade


A mente(eu) ergue-se na base da experiência dos objectos
Sujeito e objecto (dualidade) são a poeira que cobre o espelho  da mente
Uma vez translúcido o espelho reflecte o brilho da transparência
"Subjectividade" e "Verdade" desaparecem por completo
e a Natureza Verdadeira revela-se


Mas esta época é marcada pela degenerescência
As pessoas padecem mas resistem à Verdade
Reina a confusão e o engano
E as pessoas são falhas na prática da bondade e da sabedoria
O ódio e o medo grassam, oriundas de falsas perspectivas


Mesmo que ouçam falar da doutrina abrupta
Recusam-se a adoptá-la e assim perdem a ocasião de romper com o erro
Como quem quebra uma telha em mil pedaços
A mente (o eu) é o autor de toda a acção
O corpo é a sede de todo o mal
Não culpeis os outros pelas vossas acções
Se não quiserdes viver no sofrimento
Não critiqueis os ensinamentos dos Iluminados


Numa floresta de sândalo só o sândalo cresce
Os leões permanecem na selva e nas cavernas
Onde reina a paz e a ausência de perturbação
Somente os mais novos podem seguir a via dos mais velhos
Quando atingem a idade de três anos são já capazes de rugir
Ainda que os chacais quisessem imitar o rei do Dharma
Não poderiam impedir  as gralhas de por ali vaguearem


O Verdadeiro Ensinamento escapa à inteligência humana
Se prevalecerem dúvidas isso dará origem a toda a sorte de debates
Aquilo que defendo não procede da minha vaidade
Nem se destina a criar disputas nem dissensões
Mas procede de anseios porque a vossa disciplina
Não vos conduza nem à impermanência nem ao "positivismo"
Nem à negação nem à afirmação



"Certo" não é necessariamente certo
Errado não quer dizer precisamente erro
Porém, se nos enganarmos ainda que por uma pequena diferença
Isso nos desviará para longe
Quando "Sim" ou "Não" constituem verdadeiramente uma confirmação
Até a jovem filha do demónio pode tornar-se Buda
E o mais erudito seguidor do Zen cair nos infernos


Durante a minha juventude acumulei  erudição
Com a leitura de discursos e comentários
Reflecti sobre os nomes e as formas
O que faz tanto sentido quanto contar os grãos de areia do mar
Que benefícios trará falar dos bens dos outros?


Tomei noção de que a minha consciência passada
Não passava de esforços vãos e mal aplicados
Porque temos inclinações deficientes e perspectivas erradas
A percepção directa do Si mesmo não é compreendida
Os indivíduos de realização estreita carecem de compaixão
Os eruditos possuem conhecimento mas falta-lhes sabedoria intuitiva


Tolos, dotados de interpretações falsas
Não percebem a lua que é apontada pelo dedo da mão vazia
Tomando o dedo pela lua permanecem na confusão
 E criam noções complexas de realidade
A partir dos seus sentidos e dos objectos



Quando não se compreende uma via como única
Trata-se então do "Reino" da Realidade,  Presença de Espirito contínua
Com a compreensão da Verdade
Todos os obstáculos do Carma são esgotados e tornam-se inexistentes
No desconhecimento  dessa Verdade em vão nos perturbamos
Com débitos e ofensas
Isso  assemelha-se a um esfomeado diante de um banquete real
Que se recusa a comer
Ou alguém doente que  recusa medicamentos. Como poderão curar-se?


Praticai o zen neste mundo de desejo e o poder autentico
Da intuição manifestar-se-á como um lótus entre as chamas
Mesmo quando Pradhanasura transgrediu os preceitos mais importantes
Pôde despertar para o Incriado e alcançou o Esclarecimento de Buda
A doutrina intrépida é um ensinamento que vence todo o medo
Que será daqueles espíritos obstinados
Que flutuam na falta de cumprimento da sabedoria
E ignoram a porta escancarada da Verdade da Unidade


Dois monges haviam praticado a luxúria e cometido o crime
E foram condenados ao remorso
Contudo, ambos foram resgatados pela compreensão de Vimalakirti
E as suas faltas e erros foram anulados tão rápido quanto o gelo ao sol
O poder de libertação da compreensão é capaz de empreender milagres como esse
Ao lado disso nenhuma oferta nem ouro tem qualquer valor


Os ossos podem ser reduzidos a pó e o corpo feito em pedaços
Mas uma só palavra justa está além de mil!
Esta é a Realidade Suprema
A experiência de incontáveis Iluminados
Compreendo o que esta Jóia Preciosa da Mente é
E transmito-a a todo o que a receber


Percebo com clareza a inexistência de coisa nenhuma nem Buda
Os universos assemelham-se a bolhas no Oceano
Os sábios e veneráveis são como relâmpagos no céu
Ainda que uma roda de metal aquecido me queime a cabeça
O estado de Perfeição e Intuição Espiritual não se apagará nunca
Ainda que o sol se apague e a lua se esquente
Isso não será capaz de obstruir a verdade destas palavras


Uma carruagem puxada por um elefante
Transpõe com segurança uma encosta escarpada
O elefante não percorre as vias dos pequeno coelho
O Esclarecimento Espiritual não pode ser circunscrito pelo intelecto
Parai de medir o céu com uma ponta de fio (perspectivas estreitas)
Se ainda não realizaram a compreensão
Eu a confirmarei mais profundamente agora!


                                                          



Traduzido por A. Duarte -2002

Obras de Referência: 
"Anthologie du Bouddhisme Soto Zen"-   Eric Rommeluére
" Manuel de Boudhisme Zen"-   Daisetz Teitaro Suzuki