sexta-feira, 5 de agosto de 2011

O TRATADO DA CONFIANÇA NA MENTE





O tratado da Confiança na Mente (ou Fé no Espírito) fica a dever-se, segundo alguns historiadores, ao patriarca chinês do Chan Budismo, Seng T'san (Sosan, em japonês). Nele se descreve a transmissão da iluminação característica do Zen (que ocorre mente-a-mente) transmissão essa que se operou entre o seu autor e o patriarca Hui'ko.

   Neste pequeno esboço poético, a Não Dualidade afirma-se como tema predominante, procurando criar uma alusão ao facto de que, se a união Mente/Coração constituir uma função conjunta e equilibrada em meio à nossa experiência comum de vida, sem apelar à distinção entre sujeito e objecto, então dela poderá surgir uma confiança natural, genuína e auto imanente, que dispensará toda a confirmação externa acessória, de forma que a experiência  e a natureza das coisas manifestar-se-ão  tal como são.

   Decorrente desta, resulta uma outra impressão subjacente ao espírito de esclarecimento, concisa, que, permeada de uma subtil compreensão intuitiva, representa uma condição de despertar intemporal e destituída de medida. Conquanto alguns dos conceitos aqui apresentados pareçam desconhecidos, apropriam-se, todavia, de forma pertinente a uma eclosão de sentido, se nos libertarmos de toda a condescendente subjectividade. Desse modo, expressões como semelhante, unidade de espírito, e não dualidade, procuram aludir directamente àquilo que, por intermédio da verbalização pura -  por meio do recurso a conceitos gastos por séculos de uma cultura unilateral - se não conseguiu substituir à realidade e, desse modo permanece  além do domínio do prazer, de algum modo acessível e inteligível somente pelo estabelecimento de uma condição de abordagem correcta, por uma compreensão interior equilibrada e consolidada.

A confiança constitui a mais elevada forma de conquista que podemos realizar, pois reúne as bases de consolidação do Real. Dito isto, cumpre definir o que ela não é, primordialmente, a fim de não “metermos os pés pelas mãos” e investirmos energias (falsas esperanças e credulidade) à toa no terreno do mutável e inevitável que subentende a vida e suas transformações. Nós somos o resultado de um fenómeno colectivo; o produto de um sem-número de acções e condicionantes estabelecidas e cimentadas no terreno da dor pela separação, do apego pela materialidade, do temor pelo desconhecido, e nesse sentido, tendemos a apegar-nos a concepções estreitas e limitadas condicionadas pela experiência da identificação com os sentidos e com as impressões que da sua acção resultam.
                                                                                                                                                                                                          
                     Amadeu Duarte




O Texto




O Caminho Perfeito não conhece dificuldades
Mas recusa, tão só, preferências e escolhas
E reside na acção destituída de amor e ódio;
Assim, permanece claro e destituído de artificialidade.




Contudo, à mais pequena distinção,
Céu e Terra separam-se em grande extensão;
Se quiseres perceber a Verdade com clareza,
Afasta tanto as opiniões favoráveis quanto as adversas.



Quando aceitação e rejeição entram a competir entre si,
Isso representa um autêntico padecimento para a mente;
Se não apreenderes o significado de modo profundo,
Em vão lutarás para acalmar os pensamentos.



O Caminho é perfeito como o vasto Universo;
Nada lhe falta e nada lhe é supérfluo.
 Certamente, porém, é por se fazerem escolhas
Que a sua igualdade acaba perdida.



Não persigas as qualidades contrárias à realidade!
Quando o espírito permanece sereno na unidade das coisas
A dualidade dissolve-se por si mesma.



As tentativas que empreenderes para deter a actividade da mente,
 Só te encherão de actividade.
A mera preservação do vazio pode resultar na contradição;
Enquanto persistires nos dois extremos,
De que forma poderás compreender a unidade?



Quando falhamos na realização plena da Unidade 
Ambos os contrários perdem o seu mérito.
Nega a realidade opressora e afirmar-lhe-ás o carácter;
Procura a afirmação da Perfeição e negá-la-ás.




Quanto mais palavras e reflexões usares,
Menos capaz serás de enfrentar os factos.
 Se não perceberes as coisas como fáceis nem difíceis,
Como haverás de favorecer uma em detrimento da outra?
Se retornares à raiz,
Encontrarás o significado de todas as coisas; 
Na verdade, não haverá lugar por onde não possas passar.




Se te votares a perseguir as aparências,
Perderás de vista a fonte original.
Quando nos voltamos para a raiz realizamos o significado;
Despertar é ir além do vazio, do mesmo modo que da forma,
E superar o confronto existente entre nós e o mundo.



As transformações que sucedem
Num mundo vazio, em oposição ao nosso ser,
Parecem-nos reais por causa da ignorância;
Deixem somente de perseguir a verdade
E abandonai as opiniões, ingénuas.



Não permaneças na dualidade
E abstém-te de ir no seu encalço;
Enquanto subsistir um só traço de justo ou falso,
Certo ou errado, deverá reinar a confusão
E o verdadeiro Espírito perder-se-á, conturbado.



A dualidade existe por causa da Unidade.
Contudo, não deves nem mesmo tentar preservar essa unidade.
Quando o espírito da Unidade permanecer imperturbável,
Todas as coisas manifestarão ausência de ofensa e erro.



E quando coisa alguma constitui ofensa
Então todas as abstracções se esvaem.
A visão parcial, o preconceito e o sujeito pensante
São aniquilados com a cessação do objecto do pensamento,
E o sujeito cessa com a inexistência do objecto.


Porque, as coisas são aquilo que são, por causa do espírito,
Do mesmo modo que o espírito é o que é, em função das coisas;
Se quiseres conhecer a relatividade desse encadeamento,
Percebe o quanto ambos constituem, fundamentalmente,
O Vazio da Unidade.



No vazio eles não são dois, e desse modo,
Em cada aspecto desses estão todas as formas contidas;
Se não tiveres percepção das coisas como boas ou más
Nem perceberes o grosseiro e o subtil
Como poderás tomar partido
Ou suceder uma visão preconcebida?




A essência do Caminho Perfeito é imensa;
Nada é fácil nem demasiado árduo.
Vistas estreitas são irresolutas
As mais eficazes são aquelas que tardam mais.



O apego implica a incapacidade
De nos libertarmos dos limites estreitos.
Abandona tão só o pensamento, que tende a dissociar,
E todas as coisas serão simplesmente o que são.
Torna-te estranho para com a toda a preocupação
E as coisas seguirão a sua natureza espontânea;
No fim, não haverá avanço nem retrocesso.



Obedece à natureza das coisas
E achar-te-ás em perfeito acordo com o Caminho;
Calmo, desarmado e livres de paixões.
Uma vez tornado presa das associações dos pensamentos
Encontrar-te-ás a rumar contra a verdade,
E isso pesa como um autêntico fardo.
Porque continuar a ajuizar em termos de bem e de mal?



Se seguires o Caminho da Unidade
Jamais rejeitarás o domínio dos sentidos.
Toda a dúvida e inquietação serão purificadas
Pela harmonia e rectidão da verdadeira fé.
Nada haverá a pensar ou a recordar
 Pois tal como é,
O mundo dos sentidos constitui perfeito esclarecimento.



O homem sensato, sábio, não procura nenhum alvo,
Nem executa acção alguma especial.
Os néscios tornam-se por si mesmos dependentes
Dos objectos particulares da ignorância.
O Caminho não conhece qualquer diferenciação nem individuação
É a tua mente que cria tal ilusão.



Procurar a Imensidão da Mente por meio do pensamento,
 Doutrinar o espírito para dele te servires;
Isso certamente constitui um erro colossal.
A tua luz brilha na clareza da singularidade do Vazio!
Para lá de todos os cálculos
Que brotam do domínio cognitivo e sensorial.



A ilusão gera as dualidades.
Os seus sonhos são como pétalas ao vento
Porque te deverás empenhar com ardor a procurar afastá-las?
Ganho e perda, verdadeiro e falso;
Desembaraça-te disso de uma vez por todas!




Se o Olho da Mente não se tornar desatento
Os sonhos cessarão por si mesmos.
Se a mente não usar discriminação
Mas retiver o seu carácter absoluto,
As dez mil coisas serão uma única, similar.
Os sensatos voltar-se-ão para essa fonte
Permanecendo naquilo que são.





A essência da semelhança constitui um profundo mistério
Que nos liberta de todos os entraves.
Quando tudo for Um, com a equidade de espírito de ser o que é,
Retornaremos à nossa origem
E permaneceremos onde sempre estivemos
 Com todas as dez direcções diante de nós.




Esse espírito de simplicidade
Vai bastante além de todas as razões e comparações;
E o menor torna-se um com o maior.

Detém o movimento e ele deixará de existir,

Preserva a quietude e ela desvanecer-se-á. (1)
Quando repouso e movimento deixam de existir
A própria unidade das coisas desaparece
E do mesmo modo a sua razão.




Quando a dualidade não mais for sustentável,
Nem mesmo a própria unidade terá razão de ser.
A finalidade além de todas as leis ou razão
Não pode ser descrita;
 Aí, normas e padrões perdem o seu valor.
Na Mente da Harmonia reside o Princípio
Segundo o qual todas as acções se aquietam.
Quando a simplicidade se torna uma coisa só, com ela,
Isso passa a representar toda a Confiança. (essência da fé)



Quando a Confiança e a mente não perfizerem duas coisas distintas
E a inexistência de dualidade representar Confiança e Mente,
A confusão e as dúvidas desaparecerão.
A verdadeira fé impregnará então a nossa vida e nada se deterá;
Tudo é vazio e iluminado por si mesmo.
Mas não desperdices as energias da mente,
Porquanto nem o pensamento nem a imaginação
 Poderão fazer-te evoluir para tal estado.




Na esfera da Lei,
No mais elevado reino da essência da Verdade,
Não há nem eu nem o outro.
Se a identificação directa for alcançada
Só se poderá referir: não-dois.
A verdadeira Fé significa não dualidade.




Nessa fé tudo se acha incluso e constitui uma mesma coisa 
Sem que nada permaneça oculto.
Os sábios de todos os tempos e lugares
 Despertaram para essa confiança absoluta.



Esta razão absoluta não se situa próximo nem distante
E tampouco possui tempo.
Um instante representam dez mil anos.
Não permanece presente nem ausente mas diante dos vossos olhos,
Em qualquer direcção para que vos vireis.



O infinitamente pequeno
É tão grande como o infinitamente grande;
Aí os limites objectivos não têm lugar.
O mais forte é um com o mais fraco,
E o menor perfaz um só com o maior.



Ser - isso é a mesma coisa que não ser;
Não ser - isso significa o mesmo que ser!
Aquilo que é, é semelhante àquilo que não é;
O que não é, semelhante se torna ao que é.
Se isto ainda não resultar inteligível
Outra coisa não deveis defender.




A Unidade repousa em todas as coisas; tudo perfaz essa Unidade!
Conhecei isso e tudo se fará pleno e perfeito,
E não mais vos lamentareis pela vossa imperfeição.



Quando a confiança e a mente não mais forem separativas

Estareis então no ponto que a palavra não pode traduzir.

Pois isso não pertence ao passado,
 Ao presente, nem ao futuro.


Nota do Tradutor: 1- Deter o movimento ou sustentar a quietude como dois aspectos da mesma acção de distinção entre a acção e o objecto, que dá corpo a toda a vontade, mas que perfazem uma só grandeza subjectiva, objecto cognitivo dos sentidos.     



Tradução de Amadeu Duarte
Obras de Referência:
"Manuel de Bouddhisme Zen"- de Daisetz Teitaro Suzuki- Edições Dervy
"Les Fleurs du Vide"  de Éric Rommeluère-  Edições Grasset