domingo, 11 de dezembro de 2011

SETH - ESQUIZOFRENIA




 Tradução: Amadeu Duarte


Antes de mais, o termo “esquizofrenia” serve basicamente de mito. Muita gente rotulada como esquizofrénica não devia sê-lo. Existem os chamados casos de esquizofrenia - os casos extremos - conforme são chamados, mas em todo o caso o rótulo sugere negatividade e conduz a interpretações deformadas. Aquilo com que lidais, em muitos casos, é a exibição de vários padrões comportamentais – por vezes bem diversificados – padrões esses que são, todavia, não tão assimilados ou que deixam de operar com a suavidade com que operam na pessoa que designais por “normal”.


Tais padrões são encarados de um modo exagerado, de forma que em certos desses casos pelo menos podereis obter vislumbres de processos mentais, emocionais e psíquicos que geralmente permanecem psicologicamente invisíveis e abaixo da personalidade enquanto “produto social acabado” exibida pelo indivíduo comum.


O indivíduo que é rotulado de esquizofrénico, carece por períodos variáveis de tempo ou temporariamente de um certo verniz psicológico. Isso não representa tanto uma carência básica de um acabamento psíquico quanto a adopção de um certo disfarce psicológico. Tais indivíduos – de certo modo – brincam ao jogo bastante sério das escondidas com eles próprios e com o mundo. Acreditam no ditado: “Dividir para reinar”. É como se, por razões que espero vir a discutir, se recusassem a ordenar-se adequadamente e com isso se recusassem a formar um Eu suficientemente íntegro. A ideia que prevalece por detrás de tal atitude é: Se não conseguir descobrir-me, deixarei de ser responsabilizado pelos meus actos – actos esses, que estão destinados de um de outro modo, a trair-me.”


O Eu torna-se disperso ou dividido em termos operativos, de modo que se uma porção dele for atacada, as outras possam erguer-se em sua defesa. Tais indivíduos utilizam os vários elementos da personalidade como espiões ou soldados dispersando as suas forças e forçam-se sob tais condições por estabelecer um elaborado sistema de comunicação para manter essas porções do Eu em contacto umas com as outras. Quando sentem stress estabelecem um isolamento entre uma parte e a outra do Eu, o que imprime stress no sistema comunicativo, é claro, de modo que precisa de ser utilizado continuamente.


As próprias comunicações constituem frequentemente um tio de código psicológico ou simbólico, como aqueles utilizados pelos serviços secretos militares. Se as mensagens forem para ser decifradas e compreendidas, nesse caso é claro que o jogo terminaria, porque aquele que entendesse a mensagem seria o Eu unificado que para começar, teria sentido necessidade de tal camuflagem. O uso de uma língua estranha pode representar o excelente exemplo as mensagens codificadas que mencionei. É suposto permanecerem secretas mas ainda assim, tornam-se num símbolo do conhecimento todo-poderoso do eu superior exagerado, ao mesmo tempo que tornam o conhecimento impraticável. Uma pessoa assim sente-se cercada.


Frequentemente, tais indivíduos revelam-se altamente criativos e possuem boas reservas de energia, só que se deixam prender vítimas de crenças altamente paradoxais, quer em termos de bem como de mal, de poder como de fraqueza. Geralmente são extremamente idealistas, mas por várias razões não sentem que as capacidades do eu idealizado possam ser actualizadas.

Estou a generalizar, claro, mas cada caso deveria ser encarado á luz da singularidade. Por regra, tais pessoas possuem todavia uma noção exagerada de si próprias, de tal modo idealizada que a sua própria existência intimida a acção prática. Temem cometer erros, apavorados que se sentem por traírem o sentido superior psicológico íntimo que têm. Geralmente, um eu ideal desse tipo procede da aceitação de crenças altamente distorcidas – uma vez mais relativas ao bem e ao mal. Acabais com o que poderá equivaler a dois pólos antagónicos interiores principais: um eu superior e um eu degradante. As qualidades consideradas como boas são atraídas para o eu superior como se fosse um magneto. As qualidades que pareçam más, são do mesmo modo atraídas ao eu degradante. Ambas, enquanto polaridades psicológicas isoladas dominam duma forma mais ou menos igual.


Todas as outras evidências psicológicas ambíguas ou que não sejam entendidas com clareza por nenhum desses lados, agrupam-se sob os seus estandartes psicológicos próprios. Essa é uma forma de ordenação circular mais do que linear, todavia, para o referir em termos psicológicos. Tais indivíduos temem a sua própria energia. São designados, por um lado como possuídos pelo eu superior – em cujo caso devem ser usados para grandes aventuras e feitos heróicos. Por outro lado, a pessoa sente-se incapaz de utilizar a energia de um modo normal, dado que no mundo comum nenhuma aventura fazer jus aos ideais exagerados do eu superior.


O indivíduo sente-se aterrado com a acção de se apoiar em si próprio contra o mundo ou de se comprometer com actos banais por sentir que à luz de tais comparações só se poderá degradar. Requer indevidas doses de louvor e de atenção por parte dos outros, uma vez que obviamente não se sente capaz de suprir isso pela sua parte, e obtém muito pouco disso. De certo modo e numa certa extensão recusa-se a responsabilizar-se pelos seus actos, pelo que os assume de um modo desenquadrado da moldura de juízo ou discernimento em que as outras pessoas precisam operar. Desse modo poderá evitar ter que testar os talentos e as capacidades superiores, situação em que pareceria que acabaria por falhar. Em parte percebe que tanto o seu eu superior com o seu eu degradante constituem ambos o produto duma fabricação psicológica. As capacidades que possui não são assim tão grandiosas e os fracassos nem chegam a assomar o desastre. Mas a crença nesses elementos altamente paradoxais da personalidade deixam-no num estado tumultuoso, pelo que se sente impotente para agir de um modo concertado.


Contudo, o termo “esquizofrénico” abrange uma multiplicidade de experiências – algumas com as quais se sentem bastante satisfeitos pela condição que acarreta e em que descobrem pequenos redutos em que são capazes de se suportarem a si próprios, ou possuem meios de sustento. Outros vivem numa atmosfera de constante temor pela própria condição que vivem, enquanto ao mesmo tempo se excitam, como se fossem soldados em combate. Alguns podem revelar-se duma forma bastante funcional na sociedade, mas em todo o caso a condição é altamente variável e estende-se àqueles que não passam de simples desenquadrados sociais e àqueles que se encontram em profundos apuros psicológicos. N caso da maioria existe um percurso pavimentado do tipo que os impulsos percorrem antes de intersectarem a mente consciente, que aí passa a determinar se o impulso será ou não obedecido ou posto em prática.


Todavia, nos casos do tipo que estamos a debater, em vez duma via pavimentada deparais-vos com um percurso pedregoso perigoso que pode estar repleto de minas prontas a ser detonadas a todo o instante. Tenham presente que estamos a lidar com uma força dispersada, vários elementos da personalidade destinados a diferentes tarefas de tal modo que se vêm presos entre o eu superior e o eu degradante. Num caso desses não existe uma linha distinta de acção a seguir. Também precisa ser camuflada. Em vez de impulsos claros no sentido no sentido da acção, que intersectem directamente a consciência, dispõem de erupções de impulsos que emergem quais ordens a obedecer provenientes de outras fontes. Elas podem assemelhar-se a vozes que dizem ao indivíduo para “fazer isto ou aquilo”, ou ordens automáticas transmitidos por via da escrita automática, ou formas de percepção que seriam consideradas como alucinações. Desse modo, o indivíduo precisa assumir a responsabilidade por tais actos. Eles não parecerão provir de si próprio. A terrível possibilidade de fracasso, numa situação e extensão dessas é momentaneamente aliviada.


Existe sempre uma ordem geral para a personalidade, ainda que permaneça em segundo plano, pelo que num dado caso qualquer todos os segmentos separados do Eu ou “fontes” com que o indivíduo se sente em contacto, haveriam de apontar constantemente a totalidade ou a unidade que permanece subjacente a elas. Por isso, o ilustre fenómeno mental revela por vias isoladas aqueles elementos da personalidade que não são para ser assimilados nos moldes estáveis comuns.


Existem inúmeros casos da ocorrência de “episódios de esquizofrenia” em personalidades que de outro modo seriam consideradas normais em que com propósitos de aprendizagem e em períodos de crescimento a personalidade separa as suas partes e ajuda-as a alargar as suas estruturas. A personalidade é de facto capaz de se ordenar por diversos meios. Existe uma enorme liberdade de movimento na utilização das percepções interiores e externas e nos modos como elas são misturadas e combinadas para formarem um quadro aceitável da realidade em qualquer altura.


As percepções de carácter físico facultam-vos um tipo de resposta necessário; mas também se baseiam em processos de aprendizagem, pelo que desde tenra idade aprendeis a unir as “peças” do mundo por formas aceitáveis. De certo modo e sob certas condições,  algumas situações de esquizofrenia são capazes de vos conferir vislumbres e mobilidade psicológica, uma mobilidade que terá sido focada e direccionada à medida que crescíeis a partir da infância. A esquizofrenia representa um tipo de impotência na aprendizagem com respeito a isso.

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Uma vez mais, surgem comunicações dispersas por entre as várias porções do eu que operam através de situações com a da escrita automática, a fala, o escutar de vozes, ou do que o próprio acredita serem mensagens telepáticas oriundas de outras fontes. Essas supostas mensagens telepáticas podem ser atribuídas a contemporâneos – inimigos, deuses, demónios, assim como ao que quiserdes. Os homens do espaço constituem uma adição recente. Na maioria dos casos, porém, o que temos são fortes porções do eu que são mais ou menos mantidas em isolamento duma forma propositada. Apresentam um tipo de encadeamento hierárquico que, todavia, em geral não permanece por um período de tempo muito longo. Particularmente quando as vozes ou o que é comunicado comporta ordens a serem obedecidas, representam imagens poderosas que de outro modo seriam reprimidas, imagens e desejos suficientemente fortes para moldarem ao seu redor as próprias personificações.


Algumas poderão parecer relativamente genuínas por apresentarem uma representação razoavelmente distinta duma personalidade normal. Contudo, isso representa uma ocorrência bastante rara. Geralmente, aquilo com que vos deparais é, digamos, semi-personalidades, ou versões ainda menores – expressões fragmentadas de impulsos e de desejos que são dramaticamente apresentados somente por pequenos trechos que são escutados pela pessoa com uma voz, ou percebidos como uma presença. Em muitas situações, as personificações são, ao invés, de uma natureza ritual, e tiram vantagem dos padrões psicológicos já presentes na arte, cultura, ou ciência da cultura. Acabais por ter Cristos, homens do espaço, vários santos ou espíritos ou outras fabricações da personalidade cujas características e capacidades são do domínio do conhecimento comum.


Por outras palavras, tendes modelos esquizofrénicos, e o modelo particular escolhido em cada caso e em cada altura – porque os modelos mudam – forma uma indicação muito clara dos contornos e dilemas básicos do problema. Tais modelos culturais acham-se, para início de conversa, presentes na sociedade, porque, de um ou de outro modo, eles expressam de uma forma exagerada porções da realidade psicológica do homem que ela ainda não compreende. Isso aplica-se aos casos de esquizofrenia ditos “benévolos” do mesmo modo que aos “malévolos” – ou seja, aos deuses do mesmo modo que aos demónios.


Tais “comunicações” com demónios ou deuses, São Paulos ou Hitleres – representam nesses casos personificações dramáticas exageradas da porção da personalidade que se encontrar à cabeça da cadeia hierárquica na altura. Antes de mais, a realidade consiste primariamente num fenómeno mental em que as percepções dos sentidos são organizadas e conjuntadas de uma modo que imitam na perfeição em termos físicos uma experiência não física primária.

Expressar isto constitui um ardil, porque a aplicação de uma percepção psicológica pelos auspícios da carne automaticamente torna necessárias certas transformações de dados. Os demónios e os diabos não possuem uma existência objectiva. Uma vez mais, eles sempre representam porções da realidade psicológica da humanidade que, em certa medida ela não assimilou – mas nenhum tipo esquizofrénico de expressão, projectada, ao invés, fora dele Por isso, não parece que ele seja responsabilizável por actos que ele considera aviltantes ou cruéis. Ele isola-se de tal responsabilidade pela imaginação de outras forças – os diabos ou os demónios do mundo dos mortos.


Numa base individual, o esquizofrénico realiza com base nesses padrões culturais. Os contrastes existentes entre, digamos, o eu superior e o eu ideal, e o eu degradante podem variar. Tanto podem tornar-se brilhantemente notórios como embaçados. Em muitos casos desses também haverá um curto surto duma intensa actividade mas misturada e truncada, pela qual o indivíduo procure reconhecer esses vários elementos, tal como a humanidade tentou muitas vezes na criação criativa e por vezes ilegível da própria religião.


Aqui podemos extrair qualquer coisa desde o lixo banal ao produto mais excelente e criativo, só que no contexto esquizofrénico isso terá curta duração, experimentado fora do âmbito do viver habitual do dia-a-dia de uma forma concentrada. A imagem do Cristo é frequentemente utilizada por representar de um modo tão perfeito a combinação do eu grandioso como o filho de Deus e a vítima e o mártir que é crucificado justamente por causa da sua majestosa posição. A figura do Cristo representa a versão exagerada e idealizada do eu interior em relação à qual o indivíduo é incapaz de se sentir à altura.


Ele sente estar a ser crucificado pelas próprias capacidades. Ele – ou ela, é claro – noutras ocasiões receber mensagens provenientes do diabo ou da parte de demónios, que da sua parte representam os sentimentos que a pessoa tem em relação ao seu eu físico, que, em contraste com a imagem idealizada, parece ser mau e contraditório. Uma vez mais, isso comporta uma enorme variedade de comportamentos.


Tais indivíduos, contudo, a seu modo, recusam as versões estandardizadas da realidade. Mesmo que se sintam na incerteza com respeito a eles próprios, e tenham dúvidas quanto ao facto dos padrões psicológicos acompanharem os da cultura, da religião, da ciência ou seja lá do que for, eles tentam usar esses padrões à sua maneira individual. Na realidade encontram-se nu processo de congregarem as suas personalidades num todo muito tempo após as pessoas terem estabelecido uma versão oficial ou outra – pelo que o comportamento que assumem dá sinais de um tirar e pôr em constante mudança por entre os vários elementos da personalidade humana.

A maioria dos exemplos declarados de telepatia ou de clarividência que ocorrem com os esquizofrénicos são, ao contrário, tentativas individualizadas para provar a si próprios que as qualidades idealizadas de omnipotência ou poder se encontram ao seu alcance – isso, é claro, no sentido de compensar o sentimento básico da impotência em meio aos mais ordinários esforços.


Contudo, em certas situações, representam exemplos definitivos e bastante válidos de telepatia ou de clarividência, de experiências vívidas de projecção fora do corpo e outras excursões para além do reino oficialmente aceite da realidade. Isso geralmente é complicado, todavia, uma vez que os padrões de crença que o indivíduo tem são de tal modo exagerados, tais episódios são geralmente acompanhados por figuras espectrais oriundas da religião ou da mitologia. Os indivíduos podem sentir-se forçados a ter tais experiências, simplesmente, uma vez mais, por não quererem fazer frente á responsabilidade pela acção, pelas razões apresentadas anteriormente.


Nos vossos termos de tempo, o homem sempre projectou elementos psicológicos não assimilados da sua própria personalidade no exterior, mas em épocas mais vetustas, ele fez isso recorrendo a uma variedade multitudinosa de imagens, personificações, deuses, deusas, demónios e diabos, bons e maus espíritos. Antes dos deuses Romanos serem objecto completamente formal, existia uma gama espectacular de deidades boas e más de uma ordem que abrangia todos os graus que representavam mais ou menos de uma forma democrática o desconhecido mas pressentiam características esplêndidas e tumultuosas da alma humana, e que se faziam valer, por esses vislumbres pressentidos mas desconhecidos da sua própria realidade, que o homem estava de um modo ou de outro determinado a explorar.


Era compreendido que todas essas “forças” tinham a sua cota parte na representação dos eventos humanos. Algumas eram tidas na conta de forças da natureza que bem podiam por vezes revelar-se vantajosas assim como, noutras alturas, podiam representar uma desvantagem – como por exemplo o deus das tempestades, que podia ser muito bem-vindo numa certa altura, como em períodos de seca, enquanto os seus poderes podiam ser bastante temidos se ele satisfizesse excessivamente os seus.


Não existia lacuna alguma de polaridade entre os deuses “bons” e os “maus”. Javé e a versão do Deus dos Cristãos produziram um conflito directo entre as chamadas forças do bem e as chamadas forças do mal ao cortarem todos os deuses intermédios, e desse modo destruírem a permuta e o intercâmbio psicológico que se dava entre eles, e ao polarizarem a percepção do homem na sua realidade psicológica. No tempo dos pagãos não existiam esquizofrénicos, por os sistemas de crença deles não suportarem esse tipo de interpretação. O que não quer dizer que certos comportamentos não ocorressem, que não fossem passíveis de ser interpretados em termos de esquizofrenia. Quer dizer que no geral. Tal comportamento se enquadrava no quadro psicológico da realidade.


Era assim porque muitos dos padrões psicológicos associados actualmente à esquizofrenia constituírem “distorções” e reminiscências degradadas de padrões comportamentais que são parte e parcela da herança humana que redundavam nas actividades e capacidades que a um tempo tinham um sentido social preciso e serviam objectivos definitivos.


Incluíam elas a capacidade que o homem tem de se identificar com as forças da natureza, projectar porções da sua realidade psicológica no exterior a partir de si próprio, e em seguida de perceber essas porções por meio duma transformação revitalizada – transformação essa, que pode de facto alterar a realidade física. O passo natural seguinte será voltar a assimilar essas porções de si próprio, reconhecer as suas origens e capacidades ancestrais, e faze-las regressar a si de modo que formem um novo revestimento, por assim dizer, ou uma versão renovada da pessoa.


É como se o homem não pudesse compreender os próprios potenciais a menos que os projecte no exterior numa divindade, pela qual as consiga perceber por meio de uma forma pura, como que isolada, reconhecê-los por aquilo que traduzem e em seguida aceitar - os potenciais - como parte da sua realidade psicológica. Enquanto espécie, contudo, não destes o passo derradeiro. A ideia que fazeis do diabo representa o mesmo tipo de processo, à excepção de prevalecer como a ideia que atribuís ao mal ou às trevas, assim como às capacidades que temeis. Também representam elementos inerentes ao vosso próprio potencial; não me refiro às possibilidades maldosas, mas ao facto do homem precisar perceber que é responsável pelos seus a actos, quer sejam levados na conta de serem bons ou maus.


Vós moldais a vossa própria realidade. A maldade do Homem tem existência por causa da incompreensão que ele tem dos próprios ideais, por causa do fosso que parece instaurar-se entre o ideal e a sua actualização. Os aspectos do mal, por outras palavras, resultam da ignorância e do equívoco. O mal não constitui uma força em si mesmo.

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É pois, vital que qualquer terapeuta convença o cliente de que, enquanto o seu eu não passa de uma construção dele próprio e, ou, essas vozes são alucinações – isso não significa que o cliente se encontre insano. Um esforço deve ser empreendido no sentido de ajudar o cliente a entender que erros de crença e pensamento são responsáveis pela condição – e que a remoção dessas crenças erróneas pode aliviar a situação. O terapeuta deve deixar claro que compreende que o cliente não esteja a mentir, em termos comuns, quando ele refere escutar vozes provenientes do diabo.


De acordo com o caso particular em questão, o terapeuta deve, nesse caso, tentar apontar os erros de pensamento e de crença envolvidos e explicar o seu matiz mais ou menos habitual. Em primeiro lugar, as ideias devem ser desembaraçadas a seguir ao que, o comportamento habitual começará a desintegrar-se. 


O terapeuta deve também garantir ao cliente que, em muitas questões e tópicos de pensamento e conversação, o cliente opera perfeitamente bem. O próprio tema é tão vasto, obviamente, que toda uma publicação poderia ser-lhe dedicada, pelo que se torna impossível abranger aqui todos os problemas que pode envolver. Alguns desses erros dizem respeito à interpretação errada dos eventos físicos. O indivíduo – convencido de estar a ser perseguido por uma organização qualquer secreta – uma vez mais – pode escutar sirenes ou um carro-patrulha da polícia bastante real. O erro assenta na presunção de que o carro esteja a persegui-lo ao invés de um outro qualquer. O terapeuta pode ajudar o cliente a instruir-se pelo questionamento da interpretação pessoal que faz de tais eventos.


Todos esses casos podem apresentar as suas complicações peculiares. No caso de personalidades secundárias, a porção principal em operação que geralmente dirige a actividade pode ser masculina e exibir todas as características usuais masculinas. A segunda personalidade pode apresentar a aparência feminina, contudo, e mesmo falar com uma voz efeminada. Assim como pode dar-se o contrário. Também é possível que o indivíduo se vista com trajes masculinos, enquanto a personalidade secundária enverga roupas femininas, ou o contrário.


Aquilo com que estamos substancialmente envolvidos, contudo, são os períodos característicos de aparente amnésia que costumam ocorrer de modo involuntário, e geralmente sem qualquer transição, excepto a de uma dor de cabeça. Por detrás de todos esses exemplos que debatemos, contudo, subsiste uma necessidade de realização de sentido de valor, que terá em grande medida sido bloqueada por crenças conflituosas ou mesmo opostas. Independentemente do quão inacreditável possa parecer a certos leitores, é verdade que até os eventos mais destrutivos se baseiam num erro de interpretação da realidade, nas crenças opostas, e na incapacidade para acolher ou expressar amor. De facto, esse tipo de raiva constitui a marca de um perfeccionista preso no que parece a compreensão de um mundo não só imperfeito como também mau. Isso acarreta-nos uma outra crença extremamente perigosa – a de que os fins justificam os meios.


A grande maioria dos actos destrutivos são cometidos no alinhamento dessa crença. Conduz ela a uma excessiva rigidez disciplinada que gradualmente corta a extensão da expressão humana.


Devíeis ser capazes de perceber, de facto, que os problemas que temos vindo a discutir começam a delimitar o campo das escolhas disponíveis e a cercear a extensão que a expressão pode alcançar. O indivíduo tentará expressar-se pelo melhor de que for capaz, e desse modo, cada um começará a exercer um esforço concentrado para descobrir esses modos de expressão ainda facultativos. O indivíduo deve sentir-se seguro e protegido o suficiente para procurar o seu próprio desenvolvimento e ajuda pelo cumprimento dos outros. Um dos desenvolvimentos mais raros e extraordinários que pode ocorrer no comportamento esquizofrénico é a criação de um aparente super ser dotado de um poder extraordinário – que é incapaz de convencer os outros da divindade que o caracteriza. A maioria dos casos disso historicamente envolveu homens que reivindicavam o poder da clarividência, da profecia e da omnipotência. Obviamente que, no caso desses indivíduos afectados, pensava-se que deus falaria por eles sempre que traçassem ordens ou directivas. Estamos a lidar com a concepção de Deus, ou da religião, o que preferirdes.


Em quase todos esses casos, é incutida uma disciplina nos crentes através do uso de uma persuasão por meio do medo. Colocado de uma forma vaga, o dogma diz que deveis amar a Deus, ou ele vos destruirá. Os aspectos mais incríveis de tais dogmas deviam, segundo parece, fazer com que facilmente percebessem. Todavia, em muitos casos, quanto mais ridículas as lendas o os dogmas forem, mais aceites tendem a tornar-se. De um modo estranho qualquer, os seguidores acreditam em tais histórias por não conterem qualquer verdade.


Os começos de quase todas as crenças estiveram envolvidos de um ou de outro modo com episódios esquizofrénicos desses. A pessoa envolvida desse modo deve encontrar-se de tal forma perturbada, para começo de conversa: em pé de guerra com as questões sociais, nacionais ou religiosas, e capaz de servir como ponto de focagem para um número incontável de outros indivíduos afectados da mesma maneira.


De certo modo, Adolf Hitler assentou numa classificação dessas. Apesar de lhe faltar a marca característica do falar de um super-homem, isso devia-se frequentemente ao facto dele se considerar o próprio super-homem. O problema é que, enquanto tais religiões podem inspirar as pessoas a grandes actos de compaixão, de heroísmo e de compreensão, a sua existência assenta em interpretações equivocadas da natureza da realidade.


Se as religiões principais foram abordadas, há, por uma lado, um incontável número de pequenos cultos e seitas ao longo da história e até ao presente que apresentam as mesmas marcas de um enorme poder psicológico e energia, juntamente com uma tendência inata para a auto-destruição e a vingança. Em grau variado, outros casos individuais menos notáveis podem apresentar o mesmo sentido de magia e de mistério. Não há qualquer necessidade de romantizar comportamentos esquizofrénicos, por os seus elementos romantizados há longo tempo foram associados na mente do público de um modo desafortunado, parecendo que posiciona o louco e o génio num mesmo tipo de relação indefinida. Tais crenças tornam-se aparentes em afirmações do género: “A loucura constitui o outro extremo da sanidade”, ou, “Todo o génio possui um quê de louco”.


Por detrás de tais ideias reside o próprio medo da mente, a crença de que as suas capacidades sejam óptimas e fiáveis até certo ponto – mas se for demasiado além, nesse caso terá problemas. Que significado assentará na base desse “ir demasiado além”? Em geral significa que o próprio conhecimento é um tanto perigoso. Em certos casos, contudo, a concepção desse super-homem é capaz de transmitir comentários astutos sobre condições nacionais, sociais ou religiosas. A maioria de tais personagens, contudo, começa a profetizar o fim do mundo, e que os escolhidos – sejam eles quem forem – serão salvos. Já apresentaram mais datas específicas do que aquilo que se pensa sobre esse término antecipado – datas que sucederam e passaram. Muitos continuam ainda a seguir os mesmos dogmas que parecerão ter-se provado um fracasso; as personagens surgem com uma nova desculpa, ou com uma nova data e as coisas decorrem nos mesmos moldes dos anteriores. Todavia, uma vez mais, até mesmo nos casos mais simples, a personagem criada geralmente fará previsões que, por acaso, não prevêem – e quase sempre dão ordens e traçam directrizes destinadas a ser cumpridas sem questionar.


Poucos são aqueles que se interessam a nível pessoal pelas situações esotéricas mencionadas. Contudo, muitos são os que se acham envoltos em tais ideias religiosas e filosóficas cujos efeitos se tornam bastante infelizes na experiência pessoal. A maioria dos indivíduos sofre, vez por outra, surtos de saúde precária, de que recuperam - de modo que um meio bastante confortável é alcançado.


É frequente e infelizmente verdade – embora não sempre – que aqueles que carregam um sentimento religioso marcado sejam com frequência mais incomodados do que o habitual por situações de saúde precária e dilemas pessoais. O facto é que as religiões têm sido o veículo de algumas das melhores ideias que o homem já entreteve – mas também se tem atido teimosamente aos conceitos mais perturbadores que têm afligido a humanidade.


Não podeis divorciar a filosofia do viver porque os vossos pensamentos e opiniões conferem-vos à vida ímpeto e significado. Alguns há que acreditam que a vida não faça sentido e não possua qualquer objectivo, e que as suas numerosas partes encaixam juntas por meio do funcionamento movido unicamente pelo acaso. Tais ideias estão destinadas a tingir quaisquer ideias que os seguidores também tenham com relação a outros assuntos: a sexualidade, a economia, e por certo conceitos ligados à guerra e à paz. Uma vez mais, cada porção da natureza é impelida pela energia e vitalidade interna e pela força vital dentro dela. 


O corpo físico não poderá desabrochar se o indivíduo acreditar que ele e os seus modos de funcionamento não façam sentido. Tais filosofias não facultam ao homem uma participação na natureza, nem no universo. A vida é toda vista como direccionada à extinção, em todo o caso. O completo conceito da alma, da vida após a morte, ou mesmo da vida de uma para a geração seguinte tornam-se em larga medida duvidosos, para dizer o mínimo. Num mundo filosófico desses pareceria que o homem não possuísse qualquer poder.


Conforme mencionado anteriormente, esses conceitos podem ter uma mão no desenvolvimento dos eventuais suicidas, particularmente numa idade tenra, por parecer que bloqueiam efectivamente um futuro. Tais ideias são, todavia, tão destituídas de saída que frequentemente despertam um tipo de resposta completamente diferente, na qual um cientista que tenha mantido crenças que tais, de súbito volta atrás. Isso pode impeli-lo a ele ou a ela a uma reacção severa de esquizofrenia, através da qual o cientista defende agora de modo bastante fanático as mesmas ideias que rejeitava de modo mais veemente apenas algum tempo antes.

Com algumas variações, o mesmo tipo de súbita conversão pode dar-se quando uma pessoa que tenha censurado o mesmo tipo de conceitos e crenças religiosas, de súbito dá meia volta num estilo diferente, acabando num caso de um indivíduo nascido cristão duas vezes. Ambos os mecanismos passam repentinamente a alinhar os sistemas de crença de uma maneira particular pondo de lado todas as dúvidas e aceitando em vez disso uma obediência estrita para com o novo sistema de crença, e uma nova reorganização da própria vida sob essa nova causa.


Durante séculos foi aceite como dado adquirido que Deus estava do lado das nações fortes e ricas. Seguramente, parecia que, se uma nação fosse pobre ou oprimida, isso se deveria ao facto de Deus a ter deixado nesse estado. Tais ideias deixavam literalmente as pessoas acorrentadas e favoreciam a escravatura e outras práticas desumanas. O mesmo se aplica infelizmente ao conceito oriental do Nirvana e ao conceito cristão do céu. Ambos esses conceitos foram utilizados por aqueles que se encontravam no poder para controlar as massas, para justificar condições de vida inferior e inadequadas com promessas de bênçãos futuras no mundo pós-vida. Existem muitas diferenças entre as ideias do Nirvana e do Céu, mas cada uma delas foi usada não só para justificar o sofrimento como para ensinar as pessoas a procurar a dor. A ideia intrínseca assenta no facto de quanto mais uma pessoa se sentir perseguida e caluniada, maior será a recompensa que terá numa existência futura. 


Quero evitar concentrar-me nas práticas esotéricas neste livro mas por vezes elas são incidem sobre a questão que estamos a considerar. As ideias de penitência, do excesso de jejum, do abuso pessoal do corpo tipo auto-flagelação – todas essas práticas são levadas a cabo sob o efeito da crença de que o sofrimento tenha algo a desejar. Desse modo, a dor torna-se num objectivo procurado e o prazer é subvertido à dor. As pessoas comuns passam assim a considerar que o sofrimento seja um modo que conduza ao conhecimento espiritual.


Nas questões de saúde, ais crenças podem ter os resultados mais infelizes. Frequentemente são responsáveis por sacrifícios desnecessários de órgãos físicos por meio de operações imprudentes. Certos indivíduos tornam-se ansiosos e preocupados caso pensem serem demasiado felizes – por parecer que não estejam a pagar o suficiente pelos seus pecados. Podem ver-se ameaçados por um perigo inegável qualquer, até por fim, de um ou de outro modo, buscar a própria punição de novo – sempre a interrogar-se sobre a razão para estarem constantemente cercados por uma saúde precária ou pela doença. Esse tipo de síndroma é capaz de afectar indivíduos, famílias e, em certa medida, nações inteiras. Elas ajudam a prevenir directamente a saúde do Homem, a sobrevivência e a exuberância.


Os receios constantes acerca da destruição nuclear ou de outras catástrofes que tais também se enquadram nesta categoria. Uma vez mais, eu acelero aquelas coordenadas que vos activam a paz de espírito e do corpo e vos encorajam os vossos próprios processos de cura. Vastas massas de pessoas deixaram-se de tal modo convencer da eventual vingança e da retribuição por parte de Deus que começaram a fazer planos para isso. As suas vidas transformaram-se num modo de evitar a dor em vez buscarem o prazer e a satisfação. Isso é verdadeiro no caso dos indivíduos mas também se aplica aos chamados grupos de sobrevivência que se congregam nesta parte ou noutra da vossa nação e recolhem víveres para utilizarem depois no holocausto e para defenderem as suas famílias daqueles que lhes tenham usurpado as provisões. Muita dessa gente espera por um tempo de caos em que todas as leis sejam derrubadas. Uma outra versão reforça a área económica prevendo o colapso da economia, a anarquia e outras condições que leve o indivíduo a opor-se ao seu semelhante. Essa gente acredita, é claro, que qualquer dessas situações se agravará, e que será conduzida a um fim catastrófico.


Essa atitude tinge todas as suas outras crenças e acções. Alguns fazem uso do dogma religioso para fazerem prova da situação, mas em todo o caso vêem-se confrontados com um mundo de engano e de vingança. A saúde mental e física dificilmente poderão florescer sob tais condições. Surgem, em vez disso, grupos de acção benéfica nesta nação e noutras, que realmente de uma forma activa mas ainda assim pacífica, se juntam numa acção que visa o desarmamento nuclear mundial e enfrentar questões como a do lixo nuclear. Os seus esforços são dirigidos por outros modos também, à medida que procuram convencer todas as áreas do globo a uma partilha da riqueza e de comestíveis equalitaria. Eles podem representar altos voos, todavia são imbuídos duma natureza positiva e visam a realização e o empreendimento e reúnem as energias das pessoas de um modo que reforça a cooperação e a compreensão.


Uma vez mais, os fins não justificam os meios – pelo que nenhuma qualidade de guerra virá jamais a produzir uma paz significativa. Tais ideias afectam todos os níveis do viver, desde o mais microscópico. Não é que as plantas compreendam as vossas ideias em termos habituais – mas de facto captam o propósito que tiverdes, e na arena da sobrevivência mundial, elas têm participação. Eu não pretendo romantizar a vida não humana tampouco, nem sobrevalorizar os seus recursos, mas a natureza tem os seus próprios meios – e através desses meios opera constantemente em prole da vida no geral. A natureza não vos pode salvar, mas sempre se achará presente a acrescentar a sua própria vitalidade e vigor pelo bem global e saúde do planeta.


Recorda aquilo que anteriormente mencionei sobre a ligação que existe entre a doença e os estados de não doença. Desencadeia-se uma comunicação entre os vírus e os micróbios, e eles podem sofrer uma alteração num piscar de olhos.


Uma vez mais, ideias caracterizadas por uma natureza optimista são as que biologicamente se revelam as mais pertinentes. Não me refiro a um interesse natural e saudável na pureza dos alimentos mas à preocupação exagerada por uma natureza preocupante. Geralmente isso é lavado a ponto de parecer que nenhuma comida seja perfeitamente satisfatória, e a concentração centra-se no medo em relação aos alimentos, em vez de se centrar nos seus benefícios. Por detrás de muitas dessas atitudes acha-se a ideia de que o próprio corpo seja desprezível e que de algum modo o passar fome atenue os apetites da carne. Habitualmente acabais agitados em relação a diferentes tipos de dieta.


Algumas concentram-se quase em exclusivo nas proteínas, outras nos carbohidratos – em particular o arroz – mas em qualquer caso o leque natural de escolhas alimentares e de nutrientes disponíveis é eliminado. Outros, numa tentativa bem-intencionada de controlar o peso, deixam de tomar o pequeno-almoço por completo; uma maneira de agir muito pobre. È muito melhor comer alimentos em quantidades moderadas de toda a natureza e consumir ainda mais vezes doses reduzidas.


Eu compreendo que os vossos costumes sociais também ditam os hábitos alimentares que tendes – mas quatro refeições reduzidas ao dia, no geral, adequam-se-vos optimamente, e nutrem o corpo de uma forma mais regular e segura.


Estas ideias inerentes à alimentação têm importância, por serem passadas de pais para filhos, e os pais em geral usarem a alimentação como forma de compensação para o bom comportamento das crianças desse modo iniciando a criança para condições de excesso de peso.


O termo “realização de sentido de valor” torna-se bastante difícil de explicar, mas é muito importante. Evidentemente, lida com o desenvolvimento de valores – não morais, porém, mas valores para os na verdade quais não tendes termos adequados. Pura e simplesmente, esses valores têm que ver com o aumento da qualidade de qualquer das vidas em que o ser se sinta no centro. A qualidade dessa vida não deve simplesmente ser enunciada nem experimentada, por exemplo, mas deve ser criativamente incrementada, multiplicada, de uma forma que nada tem que ver com quantidade…


Existem comunhões de consciência de que não tendes consciência. Conquanto acrediteis em teorias como a da sobrevivência dos mais aptos, contudo, e nas grandiosas fantasias na evolução, então deveis agregar as percepções que tendes do mundo de modo a que pareçam suportar tais teorias. Não vereis qualquer valor na vida de um rato sacrificado no laboratório, por exemplo, haveis de projectar batalhas com unhas e dentes na natureza, perdendo por completo a enorme ventura de cooperação que envolve.


O homem pode tornar-se demente caso acredite que a vida não possui significado. A religião cometeu crassos erros. No mínimo, propôs uma existência futura, uma esperança de salvação, e preservou – por vezes a despeito de si mesma – a tradição da alma heróica. A ciência, incluindo a psicologia, segundo o que disse e negligenciou dizer, chegou quase a afirmar que a vida em si mesma é destituída de sentido. Constitui uma contradição directa em relação ao profundo conhecimento biológico, nada proferir sobre a verdade espiritual. Nega ao homem o uso prático dos próprios elementos de que necessita enquanto criatura biológica: o sentimento de se situar no centro da vida, de poder agir com segurança sob o seu ambiente, de que pode confiar em si mesmo, e de que o seu ser e as suas acções possuem um sentido.


Os impulsos proporcionam um guia da vida para a acção. Se vos for incutido que não deveis confiar nos impulsos que tendes, então desafiais a própria integridade física. Se acreditardes que a vossa vida não possua qualquer sentido, então tudo fareis para lhe conferir significado, ao mesmo tempo que actuais como um rato que se vê apanhado num dos labirintos da ciência – por a vossa directriz principal, por assim dizer, ter sido adulterada.


Estou a tentar contemporizar com as declarações que estou a proferir aqui, mas a vossa psicologia dos vossos últimos cinquenta anos ajudou a fomentar insanidades mentais ao procurar reduzir a enorme pulsão de vida individual que tem lugar no íntimo de todo o indivíduo a uma massa caótica generalizada de impulsos e de químicos – uma mistura, uma vez mais, de ideias Freudianas e Darwinianas, mal empregues.


As agonias de carácter mais privado de uma alma passaram a ser atribuídas a uma fonte mais ou menos comum nos movimentos do “inconsciente” primitivo do homem. Os impulsos menos reprimidos no sentido da criatividade foram percebidas como um conglomerado desequilibrado de substâncias químicas a actuar na esfera mais privada do ser – como um toque da perversão. O génio passou a ser visto como um erro produzido pelos cromossomas, o resultado afortunado do ódio que o homem sente pelo seu pai. O sentido da vida viu-se reduzido à natureza acidental dos genes. A ciência pensou em termos de médias e de estatísticas, e toda a gente supostamente devia encaixar nesses domínios.


Em certa medida, isso aplica-se igualmente à religião do mesmo período de tempo. As Igrejas buscavam uma enorme quantidade de pecadores mas esquivavam-se dos santos, e de todas as formas de conduta extravagantes que não falassem da duplicidade inerente ao homem. 

Subitamente, as pessoas que apresentavam características paranóicas, assim como esquizofrénicas, passaram a emergir do papel de parede do estilo astuto desta civilização. As características de cada uma foram devidamente notadas. Uma pessoa que sente que a vida não possui significado, ou que a vida dele ou dela em particular não possui sentido, preferia ser perseguida do que ignorada. Até mesmo o peso da culpa era preferível à ausência de todo o sentir. Caso o paranóico precise sentir que ele ou ela é perseguido, quer pelo governo ou pelos poderes ímpios, então pelo menos ele sentirá que a vida deva ser importante: por que caso contrário, por que razão procurariam os outros tentar destruí-lo? Se ouve vozes que lhe dizem que deve ser destruído, então elas pelo menos servem de vozes de conforto, por o convencerem de que a vida deve possuir valor.


Ao mesmo tempo a pessoa paranóica pode usar as capacidades criativas que aparentemente fazem vacilar as mentes da gente sã – e essas capacidades criativas possuem um sentido, por as fantasias, uma vez mais, servirem para assegurar ao paranóico o valor que tem. Caso ele fosse são, segundo os termos que empregais, não seria capaz de utilizar as habilidades criativas, por sempre se acharem ligadas ao sentido da vida; e enquanto são, o paranóico está convencido de que a vida não tem sentido. De pouco adiantou que no passado as psicologias de Freud tivessem dado ouvidos às associações das pessoas enquanto mantinha uma aparência objectiva, ou fingia que os valores não existiam. Frequentemente, a pessoa rotulada de esquizofrénica sente um tal pavor da sua energia, impulsos e sentimentos, que esses se fragmentam, se tornam objectivos, e vistos como provenientes do exterior em vez do interior.


Ideias de bem e de mal são exageradas, cortadas umas das outras. Todavia, uma vez mais aqui se permite uma certa expressão. A pessoa não se sente capaz de se expressar de outro modo. Essa gente sente medo do impacto das suas próprias personalidades. Ensinaram-lhes que a energia é errada, que o poder é coisa desastrosa, e que os impulsos pessoais são coisa que deve ser temida. Que outra protecção, pois, encontrarão senão efectivamente projectar isso no exterior da pessoa – impulsos do bem assim como do mal – e em consequência disso bloquear a acção organizada?


Coma autoridade da psicologia, o termo “esquizofrenia” torna-se num sobretudo de massas em que a integridade do sentido pessoal adquire a magnitude de uma explicação generalizada. Aqueles que são paranóicos, infelizmente são aqueles que firmemente devem acreditar nas piores idiotices da ciência e da religião. O paranóico e o esquizofrénico procuram descobrir sentido num mundo que lhes disseram não possuir significado, e as suas tendências surgem em forma menor por toda a vossa sociedade.


A criatividade é coisa embutida no homem, muito mais importante do que, digamos, o que a ciência chama de satisfação das necessidades básicas. Nesses termos, a criatividade constitui a necessidade mais básica de todas. Não me estou aqui a referir a nenhuma necessidade obsessiva de descoberta de ordem – caso em que, por exemplo, uma pessoa pode estreitar o seu ambiente físico mental – mas ao estímulo poderoso, latente na espécie, no sentido da criatividade, e da realização de valores emocionais e espirituais. E se o homem não descobrir isso, então os chamados estímulos básicos no sentido do alimento e do abrigo não o sustentarão.


Não estou meramente a dizer que nem só de pão vive o homem. O que estou é a dizer que se o homem não encontrar um sentido na vida não viverá, quer com pão quer sem ele. Não sentirá a energia que o leve a descobrir o pão, nem confiará no impulso que sente para o fazer.

Existem, pois, leis naturais, que guiam todos os tipos de vida, e todas as realidades – leis assentes no amor e na cooperação – e essas são as necessidades básicas de que falo.

...

Kennedy era vosso presidente, não meu. Vós sabeis quem foi o assassino. Claro está que a matança sem sentido não constituiu um arranjo antecipado. Sempre fez parte do domínio das possibilidades, e os acontecimentos trágicos culminaram bastante do mesmo modo que a Jane relatou no seu livro “Idea Construction.”


O próprio Jack Kennedy teve premonições dos acontecimentos e mesmo em meio à acção estava preparado para a morte. A sua mente subconsciente sempre conheceu a verdadeira natureza da morte namorava com ela de uma forma consciente. O bom Jack virá a ser um pedinte na Índia, e nascerá daqui a três anos (1967). Na maturidade atingirá proeminência se a levar a cabo tão bem quanto o fez no passado. O seu nome próprio será Ambum (pronunciado como Ammum). Desta vez ascenderá da pobreza – uma experiência que reforçará enormemente a resistência do propósito da sua entidade.


O Oswald sempre foi um fragmento da personalidade, como todos os psicopatas o são. Como os fragmentos da personalidade irrompem do modo que expus na explicação que dei para os esquizofrénicos, também em certos casos parte de uma entidade reencarna antes do prazo devido, sem carregar consigo o modelo mental genético, em resultado do que provoca sarilhos e confusão. É como se uma das imagens de um pesadelo emergisse com poder físico durante o dia.


Tais indivíduos percebem a deficiência que os caracteriza, contudo, por possuírem um Eu distorcido e aparentemente dominante, tornam-se mais furiosos e confusos. Falta-lhes um factor unificador básico que lhes faculte consistência, nem recordações unificadoras subconscientes que lhes facultem uma verdadeira identidade interior. Essa é uma das razões principais porque atacam personalidades fortemente íntegras, e porque se torna para eles tão fácil deixar-se catapultar pela emoção crua para tragédias desse tipo.


Os pesadelos apresentam unicamente possibilidades de desintegração que raramente ocorrem no quadro da actualidade. Geralmente não representam mensagens, como a maioria dos sonhos, de personalidades do passado para a do presente, apesar de poderem representar mensagens oriundas da personalidade primária para si própria, em resultado da detecção do medo ou do pânico que possa existir directamente abaixo do estrato da personalidade primária. Abaixo dessas, haveis de descobrir os estratos sucessores que têm que ver com as reencarnações pessoais. Abaixo disso haveis de identificar o material que se prende com a raça num todo, e, conforme a Jane supôs, mesmo camadas que lidam com o estado pré-humano.


A entidade (essência) constitui a totalidade dessas camadas, possuindo todo esse conhecimento consciente ao seu dispor em qualquer altura. Contudo, apesar de as mencionar como uma abaixo da outra, elas na realidade não se encontram sobrepostas umas sobre as outras, e isso foi somente por uma questão de conveniência. Elas situam-se em todo o lado e cruzam-se com caminhos que conduzem de uma a outra e com o eco da voz da entidade a ressoar por cada corredor de interligação.

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