quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

MORTE - UM RITO DE PASSAGEM


 




Traduzido por Amadeu António 
Ilustração original de John Singer Sargent

John
                              
   Para poderdes compreender aquilo que designais por ”vida após a morte” deveríeis primeiro compreender que não existe essa coisa chamada morte, porquanto tal acontecimento consiste apenas numa passagem de um plano para outro. A perda do corpo físico que vos serve neste plano não passa da troca de uma velha vestimenta, ao penetrardes num plano e nível de existência diverso. Quando começais a entender que sois um espírito ou uma alma, e a compreender a personalidade como uma memória ou expressão dessa mesma alma, também vos desdobrareis numa revelação e numa vida mais plena.

   A vida consiste numa meditação. É a contemplação que a alma faz das actividades que exerce neste plano. Do mesmo modo que mergulhais num estado de meditação que vos acalma e vos afasta o medo de retornar à corrente do vosso padrão normal de vida, assim também ocorre quando passais desta vida para a seguinte. Para poderem compreender a morte e o processo do morrer devereis primeiro entender-vos como seres constituídos por mente, corpo e espírito. Encontrais-vos aqui a fim de compreender que a morte faz parte do ciclo natural da vida; quando não a aceitais desse modo tomais-vos por muito menos do que aquilo que na verdade sois. Porque, sendo constituídos de mente, corpo e espírito, a mortalidade do corpo físico representa apenas uma questão pertencente ao foro da vossa verdadeira natureza.

   A passagem do corpo físico não representa um abandono do corpo; ao invés, é o corpo que vos deixa, por vos afastardes da dimensão espaço/temporal, rumo a um nível crescente do espectro da consciência. A forma como experimentais essa expansão da consciência por altura dessa passagem tem sido descrita como uma revisão de todas as questões da vossa vida, para de seguida passarem em revista as questões inerentes às vossas vidas anteriores em aproximação a uma ordem superior e crescente de seres. Trata-se de um “cilindro de iluminação” o qual percorreis, eventualmente na direcção de uma ordem superior de seres celestiais. Tudo isso não passa duma realidade perceptível à medida que a vossa mente se expande, porque eventualmente a mente “recorda” e vós tornais-vos semelhantes ao divino.
 
    Subsiste, muitas vezes, na personalidade um pressentimento da altura dessa passagem. Muitas vezes subsiste temor, e sintonizais as forças do corpo (instintos vitais). Frequentemente ocorre uma revisão das vidas passadas, (alusão à senilidade) o que representa a desactivação do factor DNA no interior do corpo físico (subconsciente) e a libertação da energia por meio dos meridianos para a mente consciente, onde essa energia passa a ser examinada, inter-relacionada e armazenada naquilo que é conhecido como o corpo astral. Sucede em seguida um fechar de todos os diversos pontos meridianos do organismo físico e por fim sobrevém um certo sentido de calma e a tranquilidade sobrevém em meio a toda e qualquer actividade consciente.

Por esta altura não se trata tanto de penetrardes na escuridão ou num vazio mas antes numa crescente iluminação que parecerá inundar o aposento onde vos encontrais, de modo que aqueles que se encontrarem ao vosso redor parecerão dissolver-se, entrelaçando-se lentamente num padrão singular de luz. Porque, à medida que iniciais a transição para fora do corpo físico, a aura existente ao redor de cada indivíduo torna-se-vos mais iluminada e distinta à percepção. Por essa altura o perdão sobrevém com facilidade, não tanto pela razão de não mais terdes de vos relacionar com essas pessoas mas por atingirdes o esclarecimento de um estado de consciência mais elevado - do mesmo modo que sobrevém com maior facilidade quando tomamos consciência de que, ao perdoarmos também somos perdoados.*
 *(Nota do tradutor: Por sermos quem inflige toda a culpa e juízo tanto sobre nós como nos outros).
     
    Quando passais deste plano e penetrais outros planos dimensionais, dais início a um período de reorientação em que começais a compreender inteiramente aquilo que vos aguarda nesses planos, enquanto ainda permaneceis inseridos nas vibrações do plano terreno. Porque não passareis deste plano ** até que todas as coisas vos sejam reveladas por intermédio dos níveis da alma, pois que “ninguém se eleva ao Pai senão através do Filho (ou Filha), que em vós reside,” ou seja, através da vossa própria alma, por meio das expressões da vossa alma. Portanto, dessa forma transitais de corpo em corpo e nesse ínterim passa a ter existência aquilo que designais por “sobrevivência” ou vida após a morte.
**(Nota do tradutor: Aqui faz uma alusão a uma continuidade da experiência objectiva mesmo posteriormente ao desenlace da carne, no chamado plano “astral”)

Após esse período de reorientação ocorre a verdadeira transição do plano físico para os reinos espirituais. Ocorre uma permanência temporária ao longo de um vórtice de luz em turbilhão, bem como o testemunho e fenecer de muitas das vibrações oriundas deste plano. Essas vibrações são por vezes percebidas como personalidades em vários estados de progressão, alguns mais elevados que outros; estados múltiplos de iluminação e de ignorância. Sois então guindados aos mais elevados níveis da vossa consciência alcançada nessa vida particular, pelo que podereis rever os vossos guias e mestres espirituais e residir em níveis de consciência e de paz que não tereis conhecido neste plano.
     
   Nessa altura tereis decidido romper o “cordão” que vos liga ao corpo físico. Em seguida dá-se o total abrandamento de todas as actividades - desde a actividade cerebral até à do batimento cardíaco e por fim o corpo físico é abandonado para permanecer prostrado e imóvel.

   Àqueles que se encontram neste plano parecerá que tereis falecido mas na verdade tereis penetrado num estado superior de luz e de supremo esclarecimento - um estado de consciência expandida. Porque nesse exacto momento, a vossa consciência mergulha num estado de sintonia na compreensão de todas as coisas – todas as coisas que sofrestes e experimentastes. Porque, nesse estado, o próprio padrão do Livro da Vida desdobra-se diante de vós. A configuração dos mistérios do Espírito torna-se-vos clara – porque estais de retorno a casa a fim de obterdes o esclarecimento que já vos pertence.
                                                 
   Quando a passagem deste plano é feita de forma rápida, é frequente o indivíduo nem sequer tomar consciência de ter cruzado o “umbral da morte”. Nesse caso requer-se um certo período de reorientação para que uma pessoa perceba ter passado desta vida. Isso é particularmente verdadeiro no caso da experiência de quantos possuam pouca ou nenhuma consciência, ou vontade de conhecer os padrões de toda uma existência que se estende para além dos seus corpos físicos. Eles preservam aquele nível de consciência que detinham anteriormente, por ser tudo quanto tiverem conhecido durante muitos anos. Condicionaram-se a si mesmos e à sua personalidade por intermédio desse fraco padrão de receptividade, de modo que possuem muito pouco ou nada por que possam esperar, além de um estado de existência física tridimensional.
   
    E quando dão por si mesmos como tendo atravessado tal umbral, sobrevém-lhes um grande temor, por eventualmente tomarem consciência dessa passagem sem que saibam o que esperar. Assim, esses indivíduos necessitam de um maior período de tempo de orientação a fim de serem capazes de perceber a existência de entidades espirituais.
    
    Essa não é propriamente uma condição como a descrita em termos de "alma perdida" mas consiste apenas numa limitação do espírito - num tipo de personalidade de apego à Terra - porquanto a alma acha-se em constante iluminação e jamais poderá perder-se; a personalidade, que em si mesma não passa de uma memória, é que se debate na confusão. Exactamente como acontece quando a vossa mente se afasta continuamente das coisas em que desejais concentrar-vos, também por seu turno ocorre o mesmo com a personalidade, no seu todo. Porque a personalidade é totalmente constituída pela mente, e somente quando se torna integrada nos níveis da alma se torna capaz de conseguir verdadeiros avanços.
   
   Existem aqueles que, ainda detentores de uma existência biológica neste plano - como se designa nos vossos círculos médicos ou clínicos - libertaram as energias da mente e do espírito a fim de alcançarem uma expressão independente do corpo físico. Isso é o que designais como experiências de quase morte. Após uma experiência dessas um indivíduo torna-se tanto mais esplendoroso quanto isso lhe permite obter o conhecimento do ser imortal que é, de modo que a mundanidade da sua vida anterior sai transformada. Porque, do mesmo modo que uma pessoa pode partilhar convosco um pensamento positivo que os fortifique e eleve, quanto mais não será com o facto absoluto e positivo de serem um espírito que transcende todo o tempo e espaço!

Desse modo a vossa vida deixa de ser vivenciada segundo a perspectiva de serem uma energia que supostamente acumula experiência para posteriormente morrer, mas de serem, ao invés, uma entidade que permanece continuamente consciente e num estado de permanente progressão, de uma vida para a seguinte. Para conquistardes a morte tudo o que precisais fazer é morrer, porque isso subentende básica e simplesmente a morte do ego. A mente, o corpo e o espírito são somente os perímetros definíveis do ser humano, de vós próprios enquanto seres constituídos de energia.

   Ao vos projectardes além do corpo físico e passardes pela experiência de prognosticarem o futuro antes de ele ocorrer - ao cavardes fundo nos recessos da alma e do espírito e recordardes as vossas vidas passadas, também vos tornais instruídos acerca do facto de serem uma totalidade composta por mente, corpo e espírito, e de que sobreviveis à morte, e de que a morte não passa de uma ilusão.
  Fazei da morte um aliado. Morrei a cada dia para que se possa dar uma fusão de mente, corpo e espírito; porque então podereis tornar-vos seres humanos completos. Pois que, toda a vez que vos tomais por menos que um ser humano, escravizais-vos.

   Ide junto daqueles que estão a morrer e inspirai-os com o vosso sopro de vida, porque eles não estão a morrer, mas apenas a transitar. Não derrameis lágrimas de luto mas sim de alegria, de modo que ao observardes profundamente o seu íntimo e restaurardes desse modo os seus traços de humanidade e ao lhes removerdes a dor, eles possam expirar e - não morrer - mas sim inspirar um alento de luz e passar para um plano mais elevado. Ponde um término no sofrimento e na tristeza por meio da partilha de vós próprios, e pelo recurso ao vosso mais profundo sentimento de humanidade - ao vosso espírito e ao vosso amor. Nada há que possam empreender de mais útil do que o trabalho feito com um amor incondicional.
  
    A morte representa o limiar do quê? Do facto da sua pura inexistência. Só existe vida, e mais vida. Pois do mesmo modo que despis vestes velhas que não vos servem nem vos aquecem mais, também acontece com o corpo quando ele é deixado de lado - com graciosidade e delicadeza.
   Não é que expireis o último alento mas que esse último alento seja expirado de modo tão intenso que possa inundar-vos de luz, e possais deixar esse tumulto de morte e essa veste que vos serviu e vos providenciou calor humano durante todos estes anos, permitindo-vos tocar-vos mutuamente neste momento particular do tempo e do espaço.

   Assim, que desafio apresenta o plano terreno? E que mistério reservará a sobrevivência? O de poderdes manifestar neste período de vida o padrão que permeia ambas as formas de existência. Por possuirdes a distinta vantagem de dispordes de um corpo físico, tal situação confere-vos a possibilidade de poderdes focar-vos. E cabe a vós restituir à vida que actualmente estais a viver a clareza de percepção de serem verdadeiramente um ser espiritual.
   
   Descrever-se-ia melhor a morte como uma transição porque, na verdade, ela não passa do fenecer de cada uma das fibras limitadoras do ego.
O carma - ou acções empreendidas em vidas anteriores - e o ego são sinónimos. Mas carma é igualmente sinónimo de compreensão e toda a vez que o ego morre e a verdadeira natureza brota, também sois instruídos acerca das dimensões mais profundas e mais vastas do vosso ser, como parte do Conhecimento do Todo.

Porque ao vos agarrardes à vossa identidade limitada, também provais da verdadeira morte porque nesse caso deixais morrer em vós a centelha da vida.
Não existe coisa alguma como morte. E também não existe coisa tal como tempo ou espaço; existe somente o amor dentro de cada um e de todos vós. Voltai-vos para aqueles que se reúnem num espírito de amizade pois é aí que encontrareis o espírito do amor.

   Foi-vos dito: “Amai o Senhor vosso Deus com todo o vosso coração e com toda a vossa mente, e o vosso semelhante como a vós próprios, e nenhum outro mandamento violareis.” E se fizerdes exactamente isso, estender-vos-eis sobre águas da vida infinita, as águas vivas que brotarão de cada um e de todos vós.
     Contemplai o rosto do indivíduo que se acha diante de vós. Nele vos encontrais vós também. Quanto mais vastos não se tornarão, pois, os vossos recursos se comungardes uns com os outros!
    Assim, se vos dais e vos partilhais a vós próprios, como havereis de entender a morte? A morte não existe como um término, mas como o início de cada novo sopro de vida que inspirais. Esse é o verdadeiro significado da experiência de morte, seja ela física, mental ou espiritual. É apenas a oportunidade de conhecer, até mesmo enquanto o cenário se acha em fase de preparo.
        
   Não pergunteis por quem dobram os sinos pois eles dobram por vós. A morte não é um término mas sim um começo, por meio do que saireis mais enriquecidos e vos aprofundareis no conhecimento de vós e do semelhante, em quem Deus reside.


Tom McPherson

Eu gostaria de salientar que ninguém morre. Por exemplo, se se referissem a mim como morto, eu sentir-me-ia extremamente ofendido. Eu não me encontro morto, eu apenas “passei” do plano físico.

Frequentemente, a nossa passagem do físico é bastante rápida. Assemelha-se a um rugido nos ouvidos e de súbito estamos a transpor um túnel de iluminação. Em breve percebeis estar entre muitos amigos, e experimentam um nível extra de consciência e de iluminação. Todas as outras realidades que alguma vez tenham percebido e todos os pensamentos que tenham alguma vez tido terão sido completamente transformados. Então atravessam um outro nível de iluminação para a presença de seres superiores. Geralmente conseguem pressentir presenças que vos tenham sido bastante queridas, e todas as coisas adquirem clareza. Então experimentam de imediato um padrão incomum de tempo e de espaço e por vezes têm consciência do local onde se passará a desenrolar a vossa encarnação seguinte. Uma sensação verdadeiramente fascinante.

A forma como a minha própria passagem do físico sucedeu foi assim: Antes de mais, eu era um carteirista que foi enforcado pelos Ingleses. Isso resulta um tanto embaraçante – a menção de que um irlandês pudesse ser apanhado pelos Ingleses – mas foi o que aconteceu. Eles propuseram-me a escolha entre os dedos das mãos ou o pescoço, e eu decidi que queria que fosse o pescoço, pois que, sem dedos eu não conseguiria transacionar muito de qualquer modo. 

Assim, eles puseram-me sobre um barril, puseram-me uma corda ao pescoço, e deram-me a oportunidade de fazer um longo discurso. Foi bastante estranho porquanto sempre enforcavam os carteiristas para desencorajar o furto, mas como os enforcamentos eram eventos públicos nesses dias, juntar-se-iam enormes multidões e dar-se-ia mais furtos por entre essas multidões do que em alguma outra ocasião.

Assim, o discurso inflamado que proferi durou cerca de trinta ou quarenta minutos, o suficiente para conceder aos meus amigos um tempo extra exercerem o seu ofício. Eu senti-me um tanto satisfeito ao assistir ao furto das carteiras daqueles que gritavam para que o barril me fosse retirado debaixo. Foi uma espécie de derradeira satisfação do plano terreno.

Eles retiraram o barril debaixo, deu-se um estalido de rachadura e aquilo de que tomei consciência a seguir foi que estava de pé atrás a assistir aos aplausos de alegria de toda a gente e vi o meu corpo a balançar para a frente e para trás. Não abandonei o plano terreno de imediato. Recuei, olhai para o meu corpo e achei que tinha sido tão bonito quanto sempre pensara ser. Não receava propriamente a morte, por ter estudado a Wicca (NT: Religião politeísta pré-cristã de culto basicamente dualista que envolve as artes do poder sobrenatural e da magia, geralmente associado à bruxaria e que hoje é considerada um culto neopagão), uma religião muito antiga, e por a ideia de espíritos e de santos não ser nova para mim. Eu sabia que haveria de transpor o físico e que de qualquer jeito a extremidade da corda seria bastante rápida.

Assim, ali estava a balançar para a frente e para trás quando de súbito se deu um bramido ensurdecedor nos meus ouvidos e eu atravessei uma espécie de túnel durante um bocado. Pensei ter percebido alguns rostos, mas foi tudo muito rápido. Aquilo de que me apercebi a seguir foi que me encontrava com co os meus amigos barulhentos dos tascos que tinham passado alguns anos antes pela mesma via, por serem também carteiristas. Dei por mim a conversar com eles, assim como alguns outros companheiros que ocasionalmente tinha encontrado no estado do sonho mas que não conseguira reconhecer muito bem. Eles encontravam-se vestidos de uma forma bastante estranha, e para minha inteira surpresa, descobri que eram os meus guias e mestres espirituais. Não tinha percebido que tinham radicado em diferentes culturas. Mas sempre tinha suposto que os anjos que nos ministravam se vestiam de uma forma bizarra.

Acabei descobrindo que céu e inferno não encerravam muita coisa; que podíamos criar mais ou menos esse tipo de coisa por uma questão do nível de mentalidade que tivéssemos alcançado. Por isso dei por mim a vaguear por um certo número de ambientes tipo tascas, por ser onde sempre me sentira mais confortável. Não era propriamente a vibração mais elevada, mas também não era exactamente a mais baixa. Muita é a gente que se cruza e que troca conversa nos bares com a melhor das intenções.

Após ter andado um pouco por ali, regressei ao plano físico só para ver como era. A seguir emergi de algum modo no espírito e passei a mergulhar num estudo de forma a chegar à situação em que me encontro nesta altura – de um guia espiritual em questões de natureza prática.

Abandonar o corpo físico não é assustador em absoluto, embora o possa ser quando estão mesmo a abandonar a forma física. Diria que é mais desorientador do que assustador – o que me conduz a um outro aspecto. Os guias e os mestres aborrecem-se quando pensam neles em termos de assombração ou algo do género. A coisa não funciona assim. Na verdade, quando se detêm a pensar nisso, somos luminâncias claras e puras, ao passo que vós, por outro lado, sois massas desajeitadas bioquímicas. Estou certo de que se viessem a arrastar-se atrás de mim no passo lento do fluir temporal em que se movem, eu me sentiria assustado e jogado fora do tempo que me cabe.

Existirá alguma coisa como o inferno? Pelos céus – não! Aqui usamos o termo bastante, mas por piada. Não, o inferno é coisa que não existe. Vocês têm muito mais inferno no vosso lado do que nós aqui. É mais com um mito. Não existe aqui ninguém com uma capa vermelha e uma forquilha e com um riso perverso. Não é nada assim. Contudo, há uma espécie de limbo, e um sítio onde as entidades menos esclarecidas do que eu, digamos, habitam por algum tempo.

Portanto, o inferno enquanto local não tem existência. É um termo que é empregue com frequência, por assim dizer, mas depois, também costumavam pensar que o mundo era plano. É mais o facto de as pessoas associarem o sofrimento ao inferno, de modo que chegam a pensar que possua substância. Concordo que vós criais o conceito do inferno na vossa mente e que aí vivereis se o quiserdes, mas será unicamente devido ao vosso livre-arbítrio, caso o desejeis. Portanto, existirá coisa alguma como inferno? Existe, e chama-se Inglaterra. 

Não, absolutamente. Suponho que a existir um local como inferno, eu teria sido habilitado, e estou certo de que teria sido o primeiro a descobri-lo. Não, o inferno é algo que foi inventado há muito tempo atrás, nos tempos medievais, creio bem. O inferno consiste num erro de tradução mais do que qualquer outra coisa. Por exemplo, é utilizado o termo shivat, que significa mais “sepultura.” Diz que hão-de ir para a sepultura. Eles traduziram isso como querendo dizer Hades ou inferno. Com origem no Grego, a palavra Hades significa “lugar dos mortos.” Não quer dizer uma fornalha ardente. Se notarem bem, verão que muitas vezes o termo fornalha ardente era empregue em referência a um lugar em que ardem para sempre. Muitas vezes o fogo é utilizado na purificação. Assim, pois, simboliza o processo simbólico que a alma atravessa, uma purificação antes da sua próxima encarnação. Porquanto a Bíblia também prega a reencarnação.


Athun-Re

Vocês interrogam acerca dos “estertores da morte.” Nós diríamos que não existe nada como estertores da morte. Isso não passa das dores de parto para um estado mais elevado de existência. Vocês interrogam qual a sensação que um ser físico sente ao abandonar o corpo. Que ser físico? Por essa altura vós sois seres espirituais.

Por que experiência passará a mãe ao dar um filho à luz? Dor –mas talvez também alegria e conhecimento de que o pai da criança se acha presente e de que ambos formam um na experiência porque passam, por o pai, que se acha verdadeiramente num estado de empatia, também sentir um enorme dor. Poderão encontrá-lo inclinado a um canto. Através da meditação e do exercício apropriado também se torna possível, dar à luz sem qualquer dor, e a criança deslizar com suavidade para o mundo. Isso constitui igualmente facto que também ocorre entre vós.
Por conseguinte, dá-se o mesmo com a entidade física por altura da passagem do físico. Não morte, mas passagem do físico. E cabe à percepção do ser espiritual tomar um derradeiro fôlego e passar para a eternidade. É isso que devem esperar.

A percepção? Uma percepção de iluminação. Luz. Uma partida para junto dos amados, da mesma forma que a criança sai e se vê cercada por os amados que tendem a cuidar dela e que criam toda uma dimensão nova para ela, uma nova vida. E que vem a herdar todas as coisas da família, toda a sua ancestralidade e nobreza e glória, assim como as lições que tem a proporcionar. Portanto, a vossa passagem do físico assemelha-se a um nascimento que pode eclodir com maior ou menor dor, que poderá ser acolhido com alegria ou medo, caso seja indesejada. Vós só saís lesados na medida em que temerdes, e experimentais alegria na medida em que não ofereceis resistência.

Que é que sucede à alma após a morte? Ah! Vós permaneceis no divino; a alma não morre. A vida jamais termina. Quereis referir-vos ao que sucede quando o corpo físico decide jazer sem “vida?” Jamais confundam a personalidade com a alma. Não, não – esse é o vosso pior erro! A alma permanece radicada no divino, e constitui o Cristo. É aquilo que reside ao lado direito do trono de Deus.

Quando o mestre Jesus alcançou o nível de ascensão que atingiu, a personalidade que ele tinha foi até esse nível, e isso é o que vocês buscam conseguir. Isso representa a vossa ascensão. Ele também foi afortunado ao levar o corpo que tinha com ele em demonstração do facto de que o espírito constitui o controlador do físico. Isso também representa o vosso objectivo final, embora não preciseis necessariamente ascender, dado que a cada instante despendido no físico obtêm o mesmo nível e realização da consciência de Cristo, até eventualmente terem uma personalidade que seja digna de vida eterna. Então, essa representação no plano físico jamais morrerá  ou será alterado – por ser perfeita.


Notas do tradutor:

O termo “rito”, que possui o sentido etimológico de ritual, insere-se numa estrutura de representação que circunscreve quatro categorias distintas inerentes a todo o processo de iniciação, e que se traduzem pelos ritos da puberdade, por intermédio dos quais ao jovem do sexo masculino é reconhecida a maturidade fisiológica, os ritos de entrada, pelos quais se confere ao indivíduo o direito de aceder a grupos fechados ou círculos internos e esotéricos, os ritos de adestramento, por intermédio do que certos indivíduos penetram a condição de xamã, feiticeiro ou mago, e ritos de passagem propriamente ditos, que em determinadas sociedades destacam justamente a passagem de uma classe de idade a outra, à qual corresponde uma hierarquia específica dentro de cada grupo de pertença.

A essas diferentes categorias de iniciação atribui-se o valor comum de um limiar que, ao assinalar o trânsito de um indivíduo de um estágio para outro, o abre à experiência psicológica da “morte” ou “renascimento”. Por isso se circunscreve esse conjunto de fenómenos na categoria de “ritos de passagem” que caracterizaria cada uma das crises fundamentais da vida humana, isto é, o nascimento, a puberdade, o matrimónio e a morte.

A iniciação torna-se na linha de fundo em que se cruzam e definem os valores individuais e os inter individuais que remetem à noção de individuação (“processo” de nos tornarmos num indivíduo - ou integridade do ser,  indivisibilidade da consciência). Nesse sentido, toda a verdadeira experiência que o homem tem com o mundo (tanto interno como externo) entende-se no seu valor de iniciação e análise (com o percurso regressivo que impõe toda a cura da psique pela psique) como uma forma de iniciação, ou seja, a análise torna-se passível de ser descrita como um incessante percurso iniciático que constela, enquanto tal, uma sucessão de mortes e de renascimentos.

Texto baseado nos estudos de Jung

Sem comentários:

Enviar um comentário