domingo, 18 de setembro de 2011

SONHOS, EVOLUÇÃO E SENTIDO DE VALOR (1ª PARTE)




Tradução: Amadeu Duarte
SETH
Dedico este trabalho ao Pr. Agostinho da Silva

Antes do começo

Ora bem, o universo irá ter início ontem. O universo começou amanhã. Ambos estes enunciados parecem ambíguos. Os tempos verbais encontram-se erradamente colocados e em razão disso talvez vos sintais completamente ultrajados no vosso sentido de tempo. Contudo, o enunciado: “O universo teve início em algum passado distante”, soa, em termos básicos, igualmente ambíguo.

De facto, ambas as declarações iniciais, apesar de não fazerem qualquer sentido lógico indiciam uma fenomenologia que releva que o próprio tempo não passa duma idealização criativa.
O tempo e o espaço, de certa forma fazem parte da mobília do vosso universo.
A própria experiência da sucessão dos momentos diz respeito aos vossos espaços psicológicos do mesmo modo que os relógios são colocados numa parede.

Sempre que a ciência ou a religião buscam a origem do universo, fazem-no no passado. Mas o universo está agora a ser criado. A criação ocorre a cada momento que passa, segundo os termos que empregais. A própria ilusão do tempo está agora a ser criada. Por isso, torna-se de todo em todo fútil procurar as origens do universo por meio dum esquema temporal que em si mesmo é, no mínimo, tremendamente relativo.

O vosso instante presente constitui uma plataforma psicológica. Perecerá que o universo terá tido origem numa erupção inicial de energia de algum tipo (big bang). Os defensores do evolucionismo não conseguem apresentar nenhuma explicação para a sua causa. Muita gente religiosa acredita na existência de um deus numa dimensão mais vasta da realidade, enquanto criador do universo, ao mesmo tempo que situado fora dele – e que o terá posto em movimento. Muita gente, levada por ambas essas formas de persuasão acreditam que, seja a origem o que tiver sido, o universo deve assentar numa base de energia.

A ciência estabelecida está absolutamente certa de que nenhuma energia poderá ser criada ou destruída mas tão só transformada (tal como declarado na primeira lei da termodinâmica). A ciência percebe a energia e a matéria como basicamente a mesma coisa, assumindo um aspecto diferenciado sob variadas circunstâncias.

Sob determinados termos, tanto a ciência como a religião lidam com a ideia de um universo criado em termos objectivos. Ou Deus o “criou” ou a matéria, por meio de algum processo inexplicável foi formada após a explosão inicial de energia, de cuja matéria inicial morta terá brotado a consciência, num modo ainda por explicar.
Ao invés, a consciência formou a matéria. Tal como referi previamente, cada átomo e molécula é dotada da sua própria consciência. A consciência, a energia e a matéria perfazem uma só coisa, mas a consciência dá início à transformação da energia em matéria. Nesses termos, o “início” do vosso universo constitui um triunfo na expansão da consciência, à medida que aprendeu a traduzir-se para a forma física.

O universo surgiu como facto do mesmo modo, mas num sentido diverso que qualquer ideia emerge do que pensais ser subjectividade, na expansão física.
A consciência de cada leitor deste livro existiu antes do universo ter sido formado (segundo os termos que empregais) porém, essa consciência estava por se manifestar.

A aproximação mais exacta – trata-se de uma aproximação apenas – do estado de existência que existia antes do universo ser formado é o estado de sonho. Nesse estado anterior ao começo, a vossa consciência existia livre do tempo e do espaço, consciente de imensas probabilidades. Isto é extremamente difícil de colocar em palavras, no entanto é bastante importante que tal tentativa seja empreendida. A vossa consciência faz parte dum processo criativo original infinito.

Evitarei deliberadamente utilizar o termo “Deus” devido às conotações de que se acha imbuído, por acção da religião convencional. Tentarei explicar as características desse processo divino ao longo desta obra. Chamo a esse processo “Tudo-o-que-Existe”. Tudo-o-que-Existe é de tal modo intrínseco às suas criações que se torna quase impossível separar o “criador” das suas “criações”, devido a que a criação contenha igualmente no seu íntimo as características indeléveis da sua origem.

Se pensastes que o universo seguiu um modelo mecanicista então teríeis que defender que cada porção dessa “máquina cósmica” se terá criado a si própria, conhecedora da posição que teria dentro da inteira “estrutura futura”. Teríeis que defender, além disso, que cada porção tenha surgido de livre e espontânea vontade e individualmente da sua própria fonte, talhada de forma elegante para a sua posição, enquanto, ao mesmo tempo essa fonte individual terá sido igualmente a fonte íntima de cada uma das outras porções individuais.

Não estou a sugerir que o universo tenha resultado dalgum “mecanicismo psicológico” tampouco, mas que cada porção da consciência constitui uma parte de Tudo-o-que-Existe, e que o universo se reúne numa ordem espontânea e divina (proferido com intensidade) e que cada porção de consciência contém indelevelmente o conhecimento do todo (implícito).

O nascimento do mundo representou um despertar psicológico divino. Cada consciência que toma parte no universo físico sonhou com tal existência física, segundo os termos que empregais, antes da terra ser formada. Em termos mais vastos que os vossos, será bastante acertado afirmar que o universo ainda não está formado, ou que já se desvaneceu. Em termos ainda mais alargados, contudo, o facto é que num ou noutro estado, o universo sempre existiu.

A vossa mais exacta aproximação do propósito do universo pode ser vista nessas adoráveis emoções que sentis em relação aos vossos filhos, imbuídos do objectivo de os verdes desenvolver as suas plenas capacidades. As vossas aspirações mais refinadas podem dar-vos uma pista esbatida quanto ao enorme ímpeto criativo que existe por detrás do vosso acto mais insignificante, porque esse acto insignificante só é possível porque o vosso corpo já ter sido provido para o efeito, no mundo físico. A vossa vida é-vos dada e renovada a cada momento. Dirigis esse ímpeto da energia da vida de tal modo suave e sem esforço que de algum modo obtendes uma noção bastante escassa disso. Não vos achais munidos de uma certa quantidade de energia que se desgasta e feneça. Em vez disso, repito, vós sois renovados a cada instante.

Não sois capazes de provar por termos científicos que o vosso mundo tenha sido criado por um deus que o tenha posto em marcha, ao mesmo tempo que permaneceu, contudo, fora desse domínio. Tampouco podeis provar em termos científicos que a criação do mundo tenha resultado de uma ocorrência fortuita – nem sequer sereis capazes de provar aquilo que vos vou dizer. Não, pelo menos, nos termos habituais. Contudo, junto com as mimnhas explicações, espero apresentar, fazer certas insinuações e fornecer certas pistas que vos mostrarão a direcção em que vos deveis voltar em busca de evidências subjectivas.

Vós viveis as vossas vidas desde logo através do vosso conhecimento subjectivo, mas procurarei desencadear na vossa própria consciência recordações de eventos com os quais a vossa psique interior tenha estado intimamente envolvida quando o mundo foi formado – e não obstante isso poder sugerir a aparência de eventos passados, eles estão ainda agora a decorrer.

Anterior à existência do universo postularemos a existência de uma fonte criativa e omnipotente. Esperamos mostrar que essa divina subjectividade se acha tão presente no mundo da vossa experiência quanto o estava antes do começo do universo. Uma vez mais me refiro a essa subjectividade original como Tudo-o-que-Existe. Esforço-me por verbalizar conceitos que chegam mesmo a desafiar os limites do intelecto, a menos que esse intelecto seja exaustivamente reforçado com a força da intuição. Por isso precisareis utilizar a vossa mente e as vossas próprias intuições à medida que fordes lendo este livro.

Tudo-o-que-Existe continha em si mesmo, antes do começo, o ímpeto infinito de todas as possíveis criações. Tudo-o-que-Existe possuía uma criatividade de uma tal magnificência que as mais subtis idealizações da imaginação, do sonho e do pensamento, do sentimento e da disposição atingiram uma certa realidade, vivacidade e uma intensidade que quase exigiram liberdade – liberdade do quê? Liberdade para fazer o quê? Liberdade para ser o quê? A experiência, o universo subjectivo, a mente de Tudo-o-que-Existe era de tal modo brilhante, tão distinta, que Tudo-o-que-Existe quase se perdeu, passando a vagar mentalmente nessa prosperidade e expansão crescentes desse panorama interior. Cada pensamento, cada sensação, cada sonho ou disposição, juntamente com todos os atributos dessa infinita subjectividade eram indelevelmente marcados, e cada um estremecia e cintilava com a sua própria criatividade e com o próprio desejo de criar, do mesmo modo que tinha sido criado.

Antes do começo existia um universo interior que não tinha começo nem fim, por eu empregar o termo “antes do começo” para vos facilitar as coisas em termos de assimilação. O mesmo universo infinito existe actualmente. Tudo-o-que-Existe continha em si mesmo o conhecimento de todas as existências junto com as suas infinitas probabilidades e tão prontamente Tudo-o-que-Existe imaginou essas inumeráveis circunstâncias elas passaram a ter existência no que designais como facto divino.

Tudo-o-que-Existe só tinha conhecimento de si. Estava absorto nas suas próprias experiências subjectivas e até divinamente espantado pelo modo como os seus próprios pensamentos e imaginação alcançaram uma vitalidade própria e herdaram a criatividade do seu criador subjectivo. Tais pensamentos e imaginações começaram a dialogar com o seu “criador” (tudo deliberadamente enfatizado).

Pensamentos dotados de um vigor de tal magnitude começaram a formular os próprios pensamentos, e isso em cadeia, num processo sem fim, como se, em divino espanto e surpresa Tudo-o-que-Existe tivesse começado a escutar e a responder a esses “produtos gerados” do pensamento e do sonho, porque os pensamentos e os sonhos achavam-se igualmente relacionados entre si.

Não existia tempo, pelo que tudo isso “ocorria” em simultâneo. A ordem dos acontecimentos está a ser simplificada. Entretanto, e uma vez mais nos vossos termos, Tudo-o-que-Existe pensou de modo espontâneo novos pensamentos e sonhou novos sonhos e deixou-se envolver em novos produtos da imaginação – e tudo isso agora também em relação aos infinitos “produtos gerados” de pensamentos e sonhos entrelaçados e relacionados entre si, que já existiam. (Com uma acentuada ênfase e uma profusão de gestos).

Por isso, para além desta criação espontânea, desta “corrente” de divina excitação, Tudo-o-que-Existe começou a observar as acções interiores que tiveram lugar por entre a sua descendência subjectiva. Escutou, começou a responder e a reagir a um sonho ou a um pensamento, e começou propositadamente a produzir as condições mentais que eram exigidas por aquelas gerações da descendência mental. Se antes se tinha sentido só, agora já não se sentia mais.

A linguagem humana provoca alguma dificuldade a este nível, pelo que vos peço que aceiteis o pronome “ele” de forma tão inócua quanto possível. “Aquilo” soa demasiado neutro para o propósito que empreendo e eu pretendo reservar o pronome “ela” para algumas diferenciações que apresentarei mais à frente.

Em termos básicos, é claro, Tudo-o-que-Existe encontra-se muito para além de qualquer designação que tenha que ver com qualquer espécie ou género sexual. Então, Tudo-o-que-Existe começou a sentir um crescente sentido de pressão à medida que realizava os pensamentos que se multiplicavam e os sonhos começaram eles próprios a ansiar pela apreciação desses enormes dons criativos de que tinham sido dotados de forma inata.

Torna-se bastante difícil tentar atribuir qualquer coisa à semelhança entre a motivação humana a Tudo-o-que-Existe. Só posso referir encontrar-se possuído pela “necessidade” de criar com ternura e, a partir do seu próprio ser, transformar com ternura a própria realidade de tal forma que a mais leve consciência provável é capaz de chegar a manifestar-se; além da necessidade de procurar que cada uma e todas as possíveis orquestrações da consciência tivessem a oportunidade de emergir, de perceber e de amar.

Mais tarde discutiremos as conotações do termo “amar” tal como aqui é empregue, mas este capítulo constitui uma espécie de esboço do material subsequente.

Então Tudo-o-que-Existe tornou-se consciente de uma forma de tumulto criativo, à medida que cada um dos seus pensamentos superlativos e sonhos, disposições e sentimentos se expandiam até aos limites do seu ser, à procura do desconhecido (na altura) por descobrir, e de algum desprendimento ainda por pensar.

Estou a referir que esta descendência mental incluía a consciência toda que alguma vez surgira ou alguma vez venha a surgir à superfície da vossa terra – tudo com carinho aninhado: o primeiro ser humano, o primeiro insecto – tudo com o conhecimento último das possibilidades que assistiam ao seu desenvolvimento. Tudo-o-que-Existe, com amor pela sua descendência, buscou no seu íntimo pela resposta para esse dilema divino. (Com intensidade e olhos bastante arregalados e pupilas dilatadas, a profusão de gestos)

Quando essa resposta surgiu, ela envolvia saltos de divina inspiração previamente não imaginados, e ocorreu do seguinte modo: Tudo-o-que-Existe procurou por entre a infinita variedade da sua incrível descendência as condições necessárias para este sonho ainda mais magnífico, este sonho de liberdade e de objectividade. Que porta poderia abrir a fim de deixar a realidade material emergir de um reino interior como esse? Quando, nos vossos termos Tudo-o-que-Existe reuniu todas essas condições percebeu, é claro, a criação mental desses mundos objectivos que seriam necessários – e quando os imaginou, nos vosso termos, eles passaram a ser materialmente criados.

Contudo, Tudo-o-que-Existe não se separou desses mundos, porque eles foram criados pelo seu pensamento, e cada um é imbuído de conteúdo divino. Os mundos são todos criados por esse conteúdo divino pelo que, se por um lado são exteriores, por outro são também compostos por esse conteúdo divino e cada ponto hipotético do vosso universo acha-se em contacto directo com Tudo-o-que-Existe, nos mais básicos dos termos. O conhecimento do Todo acha-se em todas as suas partes constituintes – e ainda assim Tudo-o-que-Existe é mais do que as suas partes.

A subjectividade divina é efectivamente infinita e jamais poderá alguma vez ser objectivada. Quando os mundos – tanto o vosso como outros, foram desse modo criados, deu-se efectivamente uma explosão de proporções inimagináveis, quando a fagulha da inspiração divina explodiu na objectividade.

O primeiro “objecto” consistia numa massa quase insustentável, apesar de não conter peso, e essa massa explodiu dando instantaneamente início a processos que formaram o universo – mas sem o menor envolvimento de tempo. O processo que podíeis imaginar ter levado eras a ocorrer, ocorreu num piscar de olhos e a materialização objectiva inicial do pensamento massivo de Tudo-o-que-Existe irrompeu na realidade. Nos vossos termos isso terá consistido numa explosão física – porém, nos termos da consciência envolta nessa erupção isso foi experimentado como um “primeiro” frenesim de inspiração – a abertura de uma brecha rumo a outro género de existência (com ênfase).

A Terra que tinha então surgido como consciência transformou-se nas múltiplas facetas da natureza. Os átomos e as moléculas possuíam vida e consciência – tinham deixado de ser uma parte da sintaxe divina e passaram eles próprios a falar através da própria natureza do seu ser (gesticulando) e tornaram-se vogais vivas e sílabas conscientes por meio das quais a consciência era capaz de formar a matéria. Mas, nos vossos termos, ainda se tratava em larga medida de um mundo de sonho, apesar de inteiramente requintado.

Em termos globais, continha todas as espécies que actualmente conheceis. Tudo se achava relacionado com a multiplicidade de tipos de consciência que tinham clamado por libertação, e essas formas de consciência foram espantosamente endossadas pelo “Tudo-o-que-Existe, àquelas formas que preenchiam os seus requisitos. E assistiu-se ao nascimento do âmbito material. Essas consciências eram individuais antes do começo, porém, não manifestas. Mas consciência individualizada não era arrojo por aí além e no início não se agregava inteiramente às suas formas terrenas, permanecendo frequentemente no seu divino legado “ancestral”.

Nos vosso termos era como se a Terra e todas as suas criaturas estivessem mergulhadas num sonho parcial e não tão focadas na realidade física quanto o estão agora. De certa forma, enquanto a consciência individualizada se achava inserida na massiva subjectividade de Tudo-o-que-Existe, também desfrutava - para além da singularidade que a caracterizava, da sensação de suporte da unidade – de um conhecimento confortável de ser um com a sua fonte.

Assim, no começo do vosso mundo, a consciência flutuava em larga medida, focando-se suavemente no início, mas não tão ansiosa por se tornar independente, tal como o seu objectivo inicial poderia ter parecido. Surgiram os “Caminhantes-do-Sonho”, membros ancestrais da vossa espécie cuja principal concentração ainda se achava encoberta por essa vetusta subjectividade, e nesses termos, eles formaram os vossos antepassados.

Por um lado, o homem inicial necessitava confiar no imenso conhecimento interior que possuía...

Imaginai a existência imbuída de uma consciência corporal completamente funcional, isenta de doença ou de defeito, mas destituída da consciência dirigida pelo ego que possuís. As capacidades físicas desses Caminhantes-do-Sonho suplantavam as vossas. Eram tão ágeis quanto animais e o único propósito de que se achavam imbuídos consistia em existir. O objecto das suas consciências situava-se numa outra parte qualquer e os focos primordiais que exerciam tinham escassa consciência dos corpos que tinham criado.

Contudo, aprendiam “por meio da experiência” e começaram a “despertar” e a tornar-se conscientes de si próprios, e a descobrir o tempo ou a criá-lo. Em si mesmos não se achavam adormecidos, apenas do vosso ponto de vista. Existiam diversas raças de tais seres humanos. Para eles a realidade era o sonho que se achava imbuído do mais elevado estímulo. Isso constitui o lado oposto da vossa experiência.

Essas raças abandonaram a Terra material tal como a encontraram. Naquilo que designaríeis como estado desperto ou de vigília, esses indivíduos dormiam, contudo, comportavam-se com uma enorme graciosidade física natural. Não domaram o corpo com crenças negativas de doença ou limitações nem envelheciam na medida em que envelheceis...

Eu utilizei o termo “antes do começo” e por isso falarei sobre os eventos terrestres por determinadas sequências. Contudo, no mais profundo dos termos, e de modos que francamente escandalizam o intelecto, quando este procura fazer-se valer sozinho, o começo é agora. A explosão crítica da subjectividade divina para a objectividade está a acontecer constantemente, e recebeis o dom da vida “a cada passo” devido à natureza simultânea dessa subjectividade divina.

No entanto intitularemos o capítulo seguinte como “No Começo” colocando ao vosso dispor certos eventos por sequência, e esperando que noutras porções deste livro certos exercícios mentais vos possibilitem saltar a tradição do enquadramento temporal e apreender com o intelecto e as intuições a própria parte individual que tendes no presente espacial que é suficientemente amplo para poder conter todos os diferentes segmentos temporais.


No Começo

Uma vez mais, nos termos das vossas equações, tanto a energia como a consciência e a matéria formam uma só coisa. E “nesses” termos, a consciência é o agente que dirige a transformação da energia na forma, e a forma na energia. Todas as partículas visíveis ou invisíveis que vós descobris ou imaginais – quer dizer, as partículas hipotéticas – possuem consciência. Elas consistem em consciência dotada de energia.

Existem certas características inerentes à própria energia bastante distanciadas de qualquer característica que lhe atribuís, dado que é claro que até à data não considerais que a energia possua inteligência. A energia é, acima de tudo, infinitamente criativa, inovadora e original. A energia é imaginativa. (Qualquer cientista que possa estar a ler este trabalho bem que será capaz de se deter a esta altura)

Não estou a atribuir características humanas à consciência. Ao contrário, as vossas características humanas resultam das características da energia – uma diferença significativa. O espaço, tal como o objectivais, nos vossos termos, acha-se repleto de partículas invisíveis que consistem na porção não declarada da realidade física. O meio manifesto por meio do qual o vosso mundo existe.

A esse respeito, contudo, os átomos e as moléculas patenteiam-se – apesar de as não conseguirdes ver a olho nu. As partículas mais diminutas que as compõem tornam-se “progressivamente mais pequenas” e que finalmente acabam por desaparecer no exame efectuado por parte de qualquer instrumento material, ajudam a preencher o vazio entre as realidades manifesta e a não manifesta.

Para os termos desta discussão acerca do começo do vosso mundo por ora lidarei apenas com as qualidades conhecidas – os átomos e as moléculas. No começo elas imaginavam as miríades de formas fisicamente possíveis, e imaginaram as inúmeras células que podiam resultar da sua própria cooperação criativa. A energia é ilimitada. É exuberante. Não conhece limites.

Nesses termos, os átomos sonharam tornar-se células físicas – e no novo começo ou limiar da actividade física e da consciência celular sonharam com as miríades de organizações que podiam emergir desta indescritível aventura.

Uma vez mais, e na realidade, isto ocorreu a um só tempo. No entanto, a profundidade da experiência psicológica que isso contém não poderá jamais ser medida, porquanto envolveu um género de realização de valor com que cada consciência se acha imbuída. Essa característica da realização de sentido de valor é talvez o elemento mais importante na existência do Todo, e constitui uma parte da herança de todas as espécies. A própria realização de valor é a coisa mais difícil de descrever, pois combina a natureza de uma presença terna – uma presença dotada do conhecimento inato da sua própria complexidade divina com uma capacidade criativa de proporções infinitas que busca trazer à realização até a mais pequena e a mais distante porção da própria complexidade invertida.

Traduzido em termos mais simples, cada porção da energia vê-se endossada de um inato alcance de criatividade que busca preencher os próprios potenciais em todas as variantes possíveis – e de tal forma que esse desenvolvimento lhe concede igualmente as capacidades potenciais de cada uma das porções da realidade. Assim, e nesses termos, existiu no princípio um quase inimaginável tempo no qual a consciência dotada de energia, no uso das suas capacidades criativas e da sua própria imaginação, experimentou, com uma turbulência triunfante, a experiência de uma forma a seguir à outra.

Nos termos em que estais habituados a pensar, nada era estável. A consciência, tal como a objectivais, tornou-se matéria, e em seguida em energia pura e retrocedeu de novo. A subjectividade governava ainda em larga escala. Tal como um adolescente que abandona a casa pela primeira vez, também a consciência individualizada sentia, de algum modo, saudades do lar, e voltou com frequência à herança familiar – mas gradualmente ganhou confiança e por fim partiu para a formação de um universo.

Ora bem; devido a que o Todo contenha em si próprio uma tal omnipotência das características criativas, férteis e divinas, todas as porções da sua experiência subjectiva alcançaram dimensões de uma actualidade impossível de descrever. Os pensamentos do Todo, por exemplo, não representavam meros pensamentos tais como aqueles que podeis ter mas eventos multidimensionais e mentais de uma natureza superlativa. Esses eventos em breve descobriram que uma transformação devia ocorrer se quisessem completar o trajecto rumo à objectividade – pois nenhuma objectividade por si só poderia conter a realidade inteira de eventos subjectivos que existiam na divina subjectividade.

Somente nesse contexto poderia a sua perfeição relativa ser preservada. No entanto ansiava, antes do começo, por outras experiências e até por realizações de uma natureza diversa. Eles pressentiram um género de realização de sentido de valor que requeria deles a utilização das suas próprias capacidades criativas. Ansiavam por criar tal como tinham sido criadas, e o Todo, nume espécie de perplexidade divina tomou, não obstante, consciência disso como o propósito que sempre tinha tido. O Todo tomou consciência que uma separação dessas também vos permitiria produzir um género de arte divina, em que os criadores criaram e as suas criações procederam à criação de outros actos, trazendo à actualidade existências que eram possíveis precisamente porque parecia existir uma diferença entre o criador e as criações. O Todo, pois, em cada uma das mais diminutas porções da sua consciência.

No entanto, cada uma dessas diminutas porções da consciência é capaz de criar de forma única e de trazer à existência versões excêntricas do Todo, que em certos termos o Todo, sem essa separação, não seria capaz de criar de outro modo. O suporte e o encorajamento adoráveis por parte da mais leve consciência e manifestação prováveis – esse é o propósito do Todo.

O Todo sabe que até mesmo esse propósito constitui uma porção de um propósito mais vasto. Em termos de tempo, a realização desse propósito emergirá em conjunto com outra explosão momentânea da inspiração subjectiva na objectividade ou noutra forma. Em termos mais profundos, no entanto, esse objectivo também é actualmente conhecido e num ou noutro sentido todo o universo sonha com esse objectivo, tal como uma vez a consciência celular sonhou os órgãos que podia “formar”. Quero deixar claro que não estou aqui a falar tanto em uma evolução espiritual mas numa expansão.

Mas por ora, iremos restringir-nos à consideração da consciência existente no começo do mundo, realçando que a primeira base da vida física foi largamente de uma ordem subjectiva e que o estado dos sonhos não só ajudou a moldar a consciência da vossa espécie como, nesses termos, serviu para prover uma fonte segura de informação ao homem com relação ao seu ambiente físico, e serviu como uma malha interior de comunicação entre todas as espécies. De certa forma – de certa forma – o universo teve início no desejo de criar a partir da alegria e não de um sentido de responsabilidade.

Muitas das ideias planeadas nesta obra deverão ser aceites de modo mais dúbio pelos cientistas, ainda que alguns, é claro, consigam captar aquilo que eu for dizendo. Torna-se-vos, claro está, muito difícil, devido a que as verdades mais profundas não possam ser fisicamente provadas.

A ciência é usada para formular questões bastante específicas e geralmente termina com respostas bastante específicas – mesmo que sejam erradas. Respostas “erradas” são susceptíveis, todavia, de apresentar um retracto perfeito, uma idealização excelente delas próprias – e porque não? Porque toda a resposta que não encontre cabimento nessa idealização é simplesmente descartada de vez. Por isso, de certo modo, nós estamos a lidar com o que a ciência deitou fora. O retracto que acabaremos por apresentar deverá, nesse caso, não encontrar cabimento no quadro da ciência convencional.

Contudo, se a prova objectiva dessa natureza for considerada prioritária em termos de factos, nesse caso, como sabeis, a ciência tampouco poderá provar a sua versão acerca da origem do universo. Apenas avança uma hipótese, a qual reúne informação que condiga, uma vez mais ignorando aquilo que não encaixa.

Além disso, as teses científicas deparam-se sem uma resposta afirmativa ao nível do coração do homem – e na verdade despertam a mais profunda antipatia, porque no seu íntimo, o homem conhece bem o seu valor e está bem ciente de que a sua consciência não resulta de nenhum acidente. A psique, então, possui em si mesma uma profunda afirmação, uma afirmação que proporciona um ímpeto para um emergir físico, uma afirmação que impede o homem de ser completamente cego pelas suas edificações mentais.

Existe, além disso, um padrão profundo de subjectividade imaculadamente inteligente na consciência do homem por meio do qual ele, no final avalia todas as teorias e crenças do seu tempo, e mesmo que o seu intelecto se veja momentaneamente atolado por doutrinas ignóbeis, ainda assim esse ponto de integridade íntima jamais se deixa enganar.

Existe uma parte do homem que Conhece, com um "C" maiúsculo. Essa é a porção dele, é claro, que brota e amadurece ainda que os pulmões ou o processo digestivo não leiam tratados eruditos sobre o “mecanismo” do corpo, pelo que no nosso livro esperamos despertar no leitor, seja qual for a forma de persuasão a que esteja afiliado, um tipo de evidência subjectiva, uma ressonância entre as ideias e a existência. Muitos escrevem dizendo que sentem já conhecer, de algum modo, o nosso material – mas claro que conhecem, porque ele representa o conhecimento íntimo de todo indivíduo.

De certo modo, o desempenho criativo constitui-se na versão humana possuidora de muito mais vastas características a partir das quais o vosso próprio universo foi formado. Existe toda a sorte de evidências definitivas, subjectivas e até mesmo específicas, para a natureza da vossa própria realidade – evidências que se tornam prontamente aparentes assim que começais efectivamente a procurá-las, particularmente se comparardes o mundo dos vossos sonhos com a vossa vida diária.

Por outras palavras, o desempenho subjectivo constitui a base de toda a criatividade, é claro – mas é muito mais responsável pelo grande desempenho interior da realidade subjectiva e objectiva.

Com todo o devido respeito, o vosso amigo (psicólogo) encontra-se, animado das melhores intenções, a “ladrar” para a “árvore” psicológica errada. Ele está bastante entusiasmado com os testes de valor e o seu entusiasmo é o que mais conta. Contudo, a natureza da mente subjectiva, jamais se exporá a tais testes, que representam, mais do que qualquer outra coisa, um tipo de psicologia mecânica, como se pudessem desempenhar valores humanos numa espécie de alfabeto lógico composto por átomos e moléculas psíquicas. Uma boa tentativa, mas representativa do melhor de que a psicologia é capaz, por fazer valer uma hipótese pobre. Podeis fazer o que desejardes, é claro,  mas a intenção que nos anima é a de vos conduzir para além dos limites da psicologia e não andar com "pezinhos de lá" por entre os actuais “lírios do campo” psicológico...

No começo não existia Deus pai, Alá, Zoroastro, Zeus nem Buda. Em vez disso, existia no início, uma vez mais, uma gestalt, uma sinergia – e com isso refiro-me a uma existência cuja realidade escapa à definição do “ser”, já que constitui a fonte a partir da qual toda a existência emerge.

Esse ser tem existência numa dimensão, num presente espacial em que tudo o que existiu ou existe ou venha a existir (nos vossos termos) é mantido imediatamente na atenção, preparado que é num contexto divino que é caracterizado por uma concentração de um brilho tal que o grandioso e o ignominioso – o vasto e o diminuto são igualmente mantidos num foco constante e terno e multifacetado.
A concepção que fazeis de inícios e términos tornam a explicação de tal situação dificílima por nos vossos termos o começo do universo não ter significado – ou seja, nesses termos, não ter existido começo nenhum.

O universo, tal como expliquei, está constantemente a ser criado, e cada momento presente trás o seu próprio passado integrado consigo. Vós concordais somente com a aceitação, por via de facto, de uma porção pequena de toda a vasta informação disponível que compõe cada instante tanto individual como globalmente. Vós aceitais somente aqueles dados que encaixam nas vossas ideias de movimento no tempo. E em resultado disso, por exemplo, a vossa evidência arqueológica geralmente apresenta um quadro bastante conforme aos moldes das ideias que tendes da história, das eras geológicas, e por aí adiante.

A mente consciente tem um alcance espectacular, porém limitado, pois falta-lhe a visão periférica. Utilizo o termo “mente consciente” tal e qual como o definis, porque permitis que ela aceite como prova apenas aquela informação física disponível aos cinco sentidos – quando os cinco sentidos representam, é claro, apenas um panorama plano da realidade que lida com a superfície mais palpável.
Os sentidos físicos constituem as extensões dos sentidos interiores que são, de um ou de outro modo, parte de cada espécie física, a despeito do seu grau.
Os sentidos interiores dotam todas as espécies de um método íntimo de comunicação. As células, nesse caso, possuem sentidos interiores. Os átomos pressentem a sua própria posição, os seus movimentos, a sua velocidade assim como a natureza do que os rodeia, o material que eles compõem.

O vosso mundo não se compôs por obra da acção de átomos irracionais em formações espelhadas por aqui e por ali, nem por elementos em fusão a partir de gases estúpidos – tampouco o vosso mundo, recordem uma vez mais, foi criado por algum Deus distante e objectivo que tenha criado bocado a bocado como numa linha de montagem cósmica, com alguns defeitos incorporados, e modelos mais perfeitos a surgir com cada estação geológica.

O universo formou-se daquilo que Deus é composto, e constitui a extensão natural da criatividade e do propósito divinos, voltadas do avesso, de dentro para fora, pelo que existia consciência antes da existência da matéria, e não ao contrário. De certos modos básicos e vitais, a vossa própria consciência é uma porção dessa gestalt divina. Nos termos da vossa experiência terrena, constitui um erro científico, metafísico e criativo distinguir a matéria da consciência porque a consciência materializa-se sob o aspecto da vida física.

A vossa consciência há-de sobreviver à morte do vosso corpo mas assumirá um outro tipo de forma – uma forma composta por “unidades de consciência”. Vós possuís uma inclinação para pensar em termos de hierarquização da consciência, com a humanidade no topo da lista, em termos gerais. A Bíblia, por exemplo, diz que foi concedido ao homem o domínio sobre os animais, pelo que parecerá que a promoção da consciência animal de algum modo possa degradar a vossa.

Contudo, a gestalt divina (de modo semelhante a uma melodia que é composta por algo mais do que as notas separadas que a compõem, este fenómeno da consciência constitui uma grandeza autónoma que depende dos elementos e da sua estrutura – do conjunto) expressa-se de tal forma que a sua qualidade não é diluída. Ela não pode ser misturada, pelo que em termos básicos, um segmento da existência acha-se de algum modo acima ou abaixo na escala, em relação a outro. É tudo primeira classe (com humor).

Ao recusardes que a vossa mente consciente utilize um alcance mais amplo de atenção vós limitais-lhe a capacidade, e em resultado permanecestes fechados e ignorantes em relação às existências diversificadas, diversificadas mas ricas da vossa espécie. Elas parecem situar-vos num nível inferior. Permitistes que um certo espírito liberalista e de teimosia vos fornecesse definições que mais serviram para categorizar do que para esclarecer outras realidades além da vossa.

Assim, no começo existia todo um mundo subjectivo que se tornou objectivo. A matéria, nos vossos termos, ainda não era permanente, porque a consciência ainda não encontrara estabilidade. No começo, pois, existia um mundo de sonhos, através do qual a consciência moldou um sonho de realidade física, e gradualmente despertou para esse mundo. Montanhas ergueram-se para desabarem em seguida. Formaram-se oceanos e marés retumbaram sob a forma de ondas. Surgiram ilhas. Mas as estações ainda não tinham estabilidade. Nos vossos termos, os campos magnéticos ainda se encontravam em flutuação – mas todas as espécies se encontravam presentes no começo, ainda que em igualdade de circunstâncias, porque à medida que o mundo do sonho irrompeu através pela realidade física, também passou a existir toda a excitação e confusão com que um evento da natureza colectiva é alcançado.
Existia uma maior plasticidade, movimento, variedade e permuta à medida que a consciência experimentava as próprias formas. As espécies e o meio ambiente em conjunto formaram-se em concerto, numa combinação gloriosa, de forma que cada um preencheu os requisitos da própria existência enquanto contribuía para a realização de todas as outras porções da realidade física.

Esse tipo de evento simplesmente não tem cabimento nos conceitos que geminais em torno do “começo do mundo”, com a consciência a espontar a partir da matéria quase como um produto duma reflexão, nem com um Deus exteriorizado a dar início a um mundo natural divino, porém, mecanicista. Tampouco pode tal conceito encaixar nas vossas noções de bem e de mal, tal como explicarei mais tarde, no decorrer desta exposição.

Deus, ou o Todo, acha-se completo no mais profundo dos sentidos, e no entanto, incompleto. Uma vez mais, tenho consciência da contradição que parece patentear-se nas vossas mentes. Num certo sentido, contudo, um produto criativo é capaz, digamos, de completar o artista, enquanto, é claro, este jamais poderá sentir-se completo. O Todo, ou Deus, de certa forma, agora - e isto é condicional – aprende na medida em que vós aprendeis, e procede aos ajustamentos de acordo com o conhecimento que alcançais. Temos de usar de extrema cautela aqui, porque ilusões de divindade sobrevêm por vezes com imensa facilidade, mas num sentido básico todos vós carregais no vosso íntimo a marca inegável do Todo – bem como uma capacidade intrínseca – para vislumbrardes nos vosso próprios termos evidência inegável da vossa existência própria mais elevada.

Situais-vos tão perto do começo do vosso mundo quanto o estavam Adão e Eva, ou os Romanos, ou os Egípcios, ou os Sumérios. O começo do mundo constitui apenas um passo fora do instante. Com este livro encontro-me imbuído de um propósito – por constituir um ditado – propósito esse que consiste em alterar as ideias que tendes sobre vós próprios, por intermédio da apresentação de um quadro verdadeiro da vossa história tanto em termos da vossa consciência imortal como da vossa herança física.

Quando me refiro ao mundo do sonho, não quero dizer nenhum reino imaginário mas o tipo de mundo das ideias, dos pensamentos, das acções mentais, a partir do qual emergem todas as formas que podeis conceber. Na realidade trata-se de um universo interior ao invés de um mundo interior. A vossa realidade física não passa da materialização dessa organização interior. Todas as civilizações possíveis existem antes de mais nesse reino da mente interior.

Assim, no começo, as espécies não dispunham das formas que actualmente apresentam. Possuíam antes pseudo formas, corpos de sonho, se preferirdes – e não eram capazes de reprodução física. A experiência que tinham do tempo era amplamente diferente e no começo toda a Terra operava numa espécie de tempo de sonho. Nos vossos termos, isso significa que o tempo podia ser encurtado ou distendido. Era uma espécie de tempo psicológico.

Uma vez mais, surgiram e desvaneceram-se formas. Nos termos em que concebeis o tempo, contudo, os corpos de sonho assumiram formas físicas. A reprodução física era impossível. Contudo isso não aconteceu com todas as espécies de uma vez, e durante algum tempo a Terra teve uma população mista composta por espécies que tinham assumido formas físicas completas e espécies que não as tinham assumido. Contudo, as formas quer físicas ou não, eram completas em si mesmas. As aves eram aves e os peixes, peixes. No começo existiam ainda espécies de vários outros géneros: combinações de animal e homem, além de muitas outras espécies híbridas, algumas possuidoras de uma duração bastante prolongada, para o referir nos vossos termos. E isso aplica-se a todas as áreas. Existiam árvores de sonho, com folhagem de sonho, que finalmente tomaram consciência em meio a esse sonho, tornando-se físicas, focando a sua consciência gradualmente na realidade física, até que as suas sementes de sonho por fim fizeram brotar árvores físicas.

Podem existir outros termos que pudia utilizar, em muitos casos de forma mais vantajosa do que “o mundo do sonho”. Contudo, estou a realçar esta associação com o sonho por o estado de sonho ser um estado com que todo o leitor se acha familiarizado e representar o critério para o tipo de realidade subjectiva a partir do qual o vosso mundo físico emerge. O estado onírico aparenta ser caótico, sombrio e suspeito ou mesmo carente de sentido precisamente por vos achardes focados de forma tão brilhante na realidade de todos os dias, em resultado do que os sonhos aparentam não passar de ruído objectivo de estática de fundo, restos do período de sono. Mas esse é o aspecto que a experiência física há-de aparentar para alguém não focado nela, ou sem experiência na sua organização.

Uma vez mais, o mundo veio a existir do mesmo modo que qualquer ideia. E expande-se exactamente da mesma maneira. Refiro-me, para vossa edificação, ao mundo que conseguis reconhecer, à Terra que conheceis, mas existem Terras prováveis, é claro, tão reais quanto a vossa. Elas coexistem com a vossa Terra e acham-se todas ligadas de um ou outro modo. Cada uma comporta alusões e pistas em relação às demais. Nos termos empregues pela ciência, não existiu qualquer evolução em termos lineares mas sim vastas explosões de consciência, expansões da capacidade e desdobramento por parte de todas as espécies e isso ainda tem continuidade e traduz-se pelas manipulações com que a consciência se apresenta a si própria.

Mais para a frente discutirei isso mas isso representa saltos intuitivos de novas formas de compreensão. Os padrões de conduta animal, por exemplo, não se acham de todo tão estabelecidos nem concluidos quanto podeis supor. A vossa experiência física consiste na combinação de eventos oníricos entrelaçados com o que designais por actos objectivos. Não fosse devido aos vossos mitos e não teríeis descoberto nenhuns factos. Vós só conseguis localizar ou precisar um evento que se precipita de um ou de outro modo no campo da vossa percepção. Não podeis realmente localizar ou apontar eventos microscópicos ou macroscópicos com nenhuma precisão. Não conseguis localizar eventos “invisíveis” porque mesmo apesar dos vossos instrumentos sofisticados os poderem perceber, não os confrontarão num mesmo plano. Pretendo lidar a breves trechos com tais ideias, de molde a podermos, mais tarde, discutir a localização do universo.

Qualquer evento com que vos depareis constitui apenas uma porção da verdadeira dimensionalidade desse evento. O observador e o objecto percebido constituem parte do mesmo evento, cada um alterando o outro. Tal relacionamento sempre se faz presente em todo o sistema da realidade e em qualquer nível de actividade. Em determinados termos, por exemplo, até mesmo um electrão tem conhecimento de estar a ser observado através do vosso instrumento. Os electrões no interior do próprio instrumento mantêm um relacionamento com o electrão que os cientistas podem procurar “isolar” a fim de examinar.

Bastante aparte disso, todavia, existe aquilo que designaremos por ora como o "inconsciente colectivo" de todos os electrões que compõem todo o aparente evento separado dos cientistas que observam o electrão. Dentro do campo de alcance da actividade podeis adequadamente identificar eventos, projectá-los no tempo e no espaço, somente por intermédio do isolamento de determinados porções de eventos mais vastos e mais estreitos, e pelo reconhecimento de uma ordem altamente específica de eventos tidos na conta de reais.

A luz pode ser definida como uma onda ou como uma partícula, e o mesmo é verdadeiro em relação a muitos outros exemplos. A consciência, por exemplo, pode ser definida como uma onda ou como uma partícula, por ser capaz de funcionar do mesmo modo que cada um desses aspectos, assim como aparecer como um deles, ainda que a sua verdadeira definição teria que incluir a capacidade de ser criativa para se poder moldar sob tais formas.

Podeis localizar o começo do universo – porque esse começo é simultaneamente demasiado vasto e demasiado ínfimo para poder encaixar em qualquer das vossas especificidades. Conquanto tudo aparenta ser arrumado e limpo e coeso em tais especificidades, vós operais com um brilhante desapego no teatro do tempo e do espaço. Tanto o tempo como o espaço resultam ambos de propriedades psicológicas. Quando questionais quão velho será o universo ou o mundo, então estais a assumir como facto que tanto o tempo como o espaço sejam de algum modo qualidades absolutas. Pedis respostas que apenas poderão ser encontradas passando para o exterior do contexto da experiência usual porquanto no interior dessa experiência sempre sois conduzidos de volta a princípios e fins, momentos consecutivos e um mundo que parece não conter em si nenhuma evidência de qualquer outra fonte.

O mundo material, tal como o conheceis, é único e vital para a importância do próprio universo. Faz parte integral desse universo e, contudo, consiste bastante na sua própria realidade. Essa realidade é dependente das percepções de cada tipo de vida que a compõe. Consiste numa criação da consciência que se eleva a um tipo único de expressão a partir dessa gestalt de existência – e essa gestalt divina de existência comporta uma multidimensionalidade de tal forma incomportável que a sua realidade inteira não consegue tornar-se aparente em nenhuma das suas realidades nem em nenhum dos seus mundos. O espaço, uma vez mais, consiste numa propriedade psicológica. O mesmo se pode atribuir ao tempo. O universo não surgiu, pois, em nenhum ponto específico do tempo nem em nenhuma localização no espaço – porquanto é verdadeiro afirmar que todo o espaço e todo o tempo surgiram em simultâneo, e surgem em simultâneo. Não podeis localizar a consciência.

Quando sonhais não conseguis localizar o vosso sonho do mesmo modo que sois capazes de determinar, digamos, a cadeira ou a cómoda que pode situar-se junto à cama em que repousais. Contudo, a localização interior é real, e nela pode ocorrer uma actividade significativa. O espaço físico existe do mesmo modo, à excepção de consistir numa massa psicológica de propriedade partilhada – mas a um “tempo”, no começo, isso não era assim.

No começo, o espaço físico possuía as qualidades que o espaço do sonho contém no vosso presente conceito. Parecia possuir uma natureza mais privada, e somente de forma gradual, nesses termos, ele se tornou publicamente partilhado. A que se assemelharia tal mundo e de que modo podereis relacioná-lo com o mundo que conheceis?

Vós fostes ensinados a responder a certos padrões neuronais e a ignorar outros, alternos, que actualmente operam simplesmente num tipo de actividade de fundo. Essa actividade de fundo, contudo, suporta um milhão de forças: o estímulo neuronal que aceitais como biologicamente real. Esses outros estímulos de fundo tornam-se-vos agora bastante difíceis de identificar, mas encontram-se sempre aí, no interior da vossa consciência de vigília semelhante a uma tagarelice onírica, assim como por debaixo das vossas associações usuais.

Em termos neurológicos vós sintonizais somente uma porção da realidade do vosso corpo e permaneceis ignorantes das enormes comunicações diminutas, embora tumultuosas, que sempre esvoaçam para a frente e para trás no mundo microscópico mas vital. Os electrões, nos vossos termos, são precognitivos, e o mesmo se passa com a vossa consciência celular. A permanência relativa do vosso corpo no tempo depende do comportamento magnificente dos electrões ao lidarem com as probabilidades. A estabilidade das células e a fiabilidade que encontram na ambiência corporal depende das suas capacidades inatas de comunicação instantânea e de decisão instantânea, porque cada célula acha-se em comunicação com as demais e unida a elas por meio de campos da consciência em que cada entidade, seja qual for o grau a que pertença, representa a sua parte.

A um certo nível, as vossas células obedecem às regras do tempo, mas noutros níveis elas desafiam-vos. Todas essas comunicações fazem parte da parcela humana da realidade, e têm todas a sua existência sob aquilo que pensais ser a consciência normal. Os eventos não são inicialmente povoados por partículas físicas mas resultam da actividade psicológica.

No início vocês eram somente conscientes dessa actividade psicológica. Essa actividade ainda não se tinha condensado sob forma nenhuma. A analogia não me agrada particularmente mas é útil. Em vez de pequenas partículas vocês dispunham de pequenas unidades de consciência a erguer-se sob a forma de unidades mais amplas – mas uma pequena unidade de consciência, entendam, não é “inferior” a uma maior, porque cada unidade de consciência contém em si mesma a herança intrínseca do Todo.

Vós pensais na mente consciente tal como a conheceis, como no único tipo de consciência que possui um propósito deliberado, consciente de si própria enquanto aquilo que é, e possuidora de uma capacidade para a lógica e a apreciação do simbolismo. Isso parece somente verdade devido ao alcance da vossa actividade particular, e por só conseguirdes localizar eventos num espectro psicológico particular.

Eu designo os “tijolos” da matéria como unidades de consciência que compõem a matéria física tal como existe na vossa compreensão e experiência. As unidades de consciência formam também outros tipos de matéria que não vos é dado perceber. As unidades de consciência podem igualmente operar tanto como “partículas” como “ondas”. Seja qual for a forma como operam, elas têm consciência da sua própria existência.

Quando as unidades de consciência operam como partículas, nos vossos termos, erguem uma continuidade no tempo, assumem as características da particularidade e identificam-se a elas próprias pelo estabelecimento de limites. Assumem determinadas formas, pois, quando operam sob a forma de partículas e experimentam essa realidade a partir do “centro” dessas formas concentrando-se ou focando-se na singularidade das suas especificidades. Nos vossos termos, tornam-se individuais. Quando operam na qualidade de ondas, contudo, deixam de estabelecer quaisquer limites em torno da consciência que têm de si próprias - e quando operam como ondas as unidades de consciência conseguem efectivamente permanecer em mais do que um local a um só tempo.

Eu entendo que isto resulte um bocado difícil de compreender, contudo, na sua mais pura forma, uma unidade de consciência é capaz de residir em todos os lugares ao mesmo tempo. Por isso, não vem ao caso dizer que quando opera na qualidade de onda seja precognitiva ou clarividente, já que possui a capacidade de permanecer em todo o lugar e em todos os tempos em simultâneo.

Essas unidades de consciência constituem os tijolos utilizados na construção material do vosso corpo, das árvores e das rochas, dos oceanos, dos continentes, e até da própria manifestação do espaço tal como o entendeis. Essas unidades de consciência podem operar como entidades de pensamento, com identidade, assim como podem mover-se em conjunto, numa ampla onda de actividade harmoniosa, como uma força. Na verdade, as unidades de consciência operam o tempo todo sob ambas as formas. Nenhuma identidade, uma vez “formada” é aniquilada porque a sua existência é uma parte indelével de toda a “onda de consciência” a que pertence.

Contudo, cada unidade que se torna partícula participa no impulso contínuo criado pelos campos de consciência a que ambas – onda e partícula – pertencem. Cada unidade de consciência tornada partícula comporta em si o conhecimento inerente das demais partículas – porque noutros níveis, uma vez mais, essas unidades operam como ondas. Basicamente essas unidades movem-se mais rápido que a luz, para depois abrandarem, nos vossos termos, a fim de comporem a matéria. Essas unidades tanto podem, uma vez mais, ser consideradas como entidades ou como forças e são capazes de funcionar de ambos os modos. Em termos metafísicos, podem ser encaradas como o ponto em que o Todo actua de forma a moldar o mundo – o contacto imediato duma inspiração infinitamente criativa a alcançar o foco mental, a metamorfose de origem certamente divina que conduz à eclosão do mundo físico, a partir da realidade mais vasta do facto divino.

Em termos científicos, uma vez mais, as unidades podem ser encaradas como os tijolos que formam a matéria. No sentido ético, as unidades de consciência representam as fundações espectaculares do mundo em termos de realização de sentido de valor, uma vez que cada unidade de consciência se acha em relação com cada uma das demais, e faz parte dela, e cada uma participa no completo gestalt da experiência mortal.

Iremos ver como isso se aplica em relação às atitudes que tendes com respeito à espécie, assim como se aplica ao relacionamento que o homem com outras entidades conscientes e com o planeta que partilha com elas. Assim, no início, as unidades de consciência que existiam numa gestalt psicológica divina, dotadas da inimaginável criatividade dessa identidade sublime, começaram elas próprias a criar, a explorar e a realizar esses valores inatos porque eram caracterizadas. Operando tanto como ondas e como partículas e dirigidas, em parte, pela sua inquietação e insaciável criatividade do Todo, empreenderam o projecto que trouxeram o tempo e o espaço e todo o vosso universo à existência. Aí tornaram-se nas primeiras unidades.

Quero levá-los a imaginar a situação de uma força psicológica que inclua nas suas capacidades a habilidade de operar em simultâneo tanto no menos microscópico como no mais macroscópico dos níveis, capaz de formar em si mesmo um milhão de identidades singulares separadas e invioladas, e ainda capaz de operar como parte dessas identidades bem como parte de uma unidade mais ampla que é a sua fonte – caso em que consiste numa onda a partir da qual emergem as partículas. Essa descrição preenche as nossas unidades de consciência. Elas constroem o vosso mundo a partir de dentro. Como criaturas físicas, elas focaram-se no que pensais como sendo identidades físicas; diferenças individuais separadas a dotar cada consciência física das suas variações originais e potenciais criativos, a sua própria oportunidade para uma experiência completamente original, e um ponto de vista ou plataforma para participar na realidade – um que nesse nível não podia ser experimentado nos mesmos moldes por mais nenhum indivíduo. Essa é a experiência directa e privilegiada, sempre renovada, privada e imediata de cada indivíduo pertencente a qualquer espécie ou a qualquer grau, à medida que enfrenta o universo objectivo.

Noutros níveis, enquanto toda a individualidade é preservada, ela move-se com as formações em forma de onda de consciência e acha-se em todo o lado ao mesmo tempo, e as unidades de consciência que compõem as vossas células conhecem as posições de todas as outras unidades, tanto no tempo como no espaço.

No início, pois, essas unidades tanto operavam como identidades como partículas, ou mesmo ondas. A concentração primordial não era ainda física, nos vossos termos. Aquilo que actualmente pensais ser o estado de sonhos, era aquele em que se achavam despertos, por ser a forma reconhecida da actividade intencional, da criatividade e do prazer. O estado dos sonhos continua a ser um elo de ligação entre ambas as realidades, e vós enquanto espécies, aprendestes literalmente a caminhar tendo antes começado como sonâmbulos. Vocês moviam-se no vosso sono. Sonhavam com as vossas línguas e falavam nos vossos sonhos e posteriormente tomaram nota dos alfabetos – e o vosso conhecimento e o vosso intelecto sempre foram exaltados, aguçados, impelidos pela grande realidade interior a partir da qual emergiram as vossas mentes.

A matéria física, por si só, jamais poderia criar consciência. Por si só, nenhuma mente poderia passar a existir por mero acaso; nenhum pensamento seria capaz de transpor o número infinito de terminais nervosos se inicialmente a matéria não fosse dotada de consciência viva nem acondicionada no propósito de passar a ter existência.

Um indivíduo que crê que a vida possui pouco sentido rapidamente a abandona – e além disso uma existência destituída de sentido jamais poderia produzir vida. Tampouco foi o universo criado unicamente para uma espécie, obra de um deus que procede à supervisão dessa mesma espécie – tão voluntarioso e destrutivo quanto o homem no seu pior. Em vez disso sois dotados duma dimensão interior de actividade e de um vasto campo de actividade multidimensional, um criador que se torna em cada porção da sua criação, contudo um criador que é maior que a soma das suas partes: um criador que é capaz de se reconhecer enquanto o rato do campo ou o próprio campo que é, ou mesmo o continente onde o campo se situa, ou o planeta que engloba o continente, ou como o universo que comporta o mundo – uma força una que no entanto se divide e que se torna na unidade e na inconcebível multiplicidade, uma força eterna e mortal ao mesmo tempo, uma força que mergulha de cabeça na própria criatividade, e que forma as estações e as experimenta do mesmo modo glorificando-se na individuação e no entanto permanentemente ciente da grande unidade que se situa no íntimo, por detrás e em todas as experiências inerentes à individualidade: Uma força que a todo instante direcciona passados e futuros em cada direcção imaginável.

Contudo, nos termos de tempo que empregais referir-me-ei a um começo, e nesse começo foram os sonhos do homem inicial que lhe permitiram lidar com a realidade física. O mundo dos sonhos constituía o seu terreno original de aprendizagem. Numa altura de seca, ele sonhava com locais onde havia água; em épocas de fome ele sonhava com locais onde existia comida. Quer dizer, os seus sonhos permitiam-lhe perceber, por meios clarividentes uma extensão de terreno fértil. Ele não perdia tempo com tentativas que actualmente assumis como garantidas. Nos sonhos a sua consciência operava na sua qualidade de onda.

Nesses tempos primevos, todas as espécies partilhavam os sonhos de um modo que actualmente permanece inconsciente para a vossa espécie, de modo que através dos sonhos o homem inquiria igualmente os animais – muito antes de aprender a seguir-lhes o rasto, por exemplo. “Onde se encontra o alimento ou a água? Qual é a configuração do terreno?” O homem foi capaz de explorar o planeta por os seus sonhos lhe terem revelado a existência de terra. As pessoas não se achavam tão isoladas quanto actualmente vos parecerá porque nos seus sonhos, o homem vetusto transmitia as suas variadas posições, os símbolos da sua cultura e compreensão e a natureza das suas artes. Todos os inventos que frequentemente julgais terem ocorrido devido ao factor sorte – desde a descoberta de algo como o primeiro utensílio até à importância do fogo ou à eclosão da Idade do Ferro – toda essa capacidade inventiva resultou da inspiração e da transmissão proveniente dos sonhos.

O homem sonhou o seu mundo e em seguida passou a criá-lo, e primeiro as Unidades de Consciência sonharam o homem e todas as demais espécies que conheceis.
Há aqui uma questão que gostaria de enfatizar antes de nos alongarmos mais, que é a seguinte: o mundo dos sonhos não é um campo de actividades destituído de sentido ou de lógica e de intelecto. Apenas a vossa perspectiva encerra a maior parte da vasta realidade que a comporta, porque o intelecto que sonha é capaz de ridicularizar os vossos computadores. Não estou pois, a situar as vossas capacidades intelectuais nos bastidores mas a dizer que emergem, tal qual as conheceis, devido ao uso ininterrupto que o sonhador faz do pleno poder de união da intuição e do intelecto. As capacidades intelectuais tal quais as conheceis não se podem comparar a essas enormes capacidades que fazem parte da vossa realidade inata.

As unidades de consciência servem de suporte para a formação de diferentes tipos de realidade física. Existem muitas dimensões que são quase tão físicas, por assim dizer, quanto o vosso próprio mundo, porém, se não vos focardes nelas não lhes podereis perceber a existência mas espaço vazio tão só. Nada, alguma vez se perde, extravia ou é desperdiçado no universo, pelo que a energia dos vossos próprios pensamentos, enquanto forma os pensamentos que vos preenchem a mente, ajudam a formar os atributos naturais da realidade física que ficam por perceber. Do mesmo modo é o vosso mundo formado por unidades de consciência. Os seus elementos naturais formam os vestígios cintilantes de outras unidades de consciência que não percebeis.

Este universo interior consiste numa gestalt (realidade maior que a soma das partes constituintes) composta por campos de energia dotada de consciência e que contêm aquilo que por ora chamaremos de “informação” - mas acrescentaremos alguns comentários mais tarde, por não vos achardes habituados a este tipo de informação. Cada unidade de consciência possui a totalidade da informação disponível ao todo, de modo inerente, e quando opera na qualidade de partícula, a sua natureza específica assenta nesse grande corpo de conhecimento interno. Cada partícula dessas é capaz de permanecer onde se encontra ou ser aquilo que é sempre que o for, apenas por as posições, que são relativas, e as situações de todas as outras partículas que tais, serem conhecidas. No sentido mais lato, uma vez mais, o vosso mundo físico está a começar em cada momento que essas unidades de consciência se decidem formar a realidade física.

De outro modo, a vida não poderia ser transmitida de geração em geração. Cada unidade de consciência intensifica e magnifica o seu propósito de passar a existir e – podereis dizer – cria, pouco a pouco, a partir do íntimo, uma centelha explosiva ou desejo essencial que “explode” num processo que provoca a materialização física e se torna no que designei como uma unidade de energia electromagnética, em cujo caso embarca no seu tipo de experiência física. Essas unidades de Energia Electromagnética também operam na qualidade de campos, ondas ou partículas – como as unidades de consciência fazem – só que nos vossos termos elas acham-se mais próximas da orientação física.

Os seus dados estão lançados, por assim dizer: eles deram já início ao tipo especial de processo de examinação necessário à produção da forma física. Começam a lidar com os tipos de informação que ajudarão a formar o vosso mundo. Existe literalmente um número incontável de passos a ser dados antes que essas unidades de energia electromagnética se combinem a seu modo a fim de formarem as partículas físicas mais microscópicas, e aqui até mesmo o processo mais elevado e brando de arrumação ocorre à medida que essas unidades se desprendem a si próprias, em certos níveis operacionais dos seus campos maiores de “informação”, para se especializarem em vários elementos que possibilitarão a produção de átomos e de moléculas apropriados ao vosso tipo de mundo.

De novo, primeiro tendes várias fases, digamos, de pseudo matéria, de imagens oníricas que apenas de forma gradual - nesses termos – se coligam e se tornam fisicamente viáveis, porque existem infindáveis variedades de “matéria” entre aquela que conseguis reconhecer e a anti-matéria das teorias dos físicos.

A forma existe em muitos outros níveis além daqueles que reconheceis nos vossos termos. As formas que reconheceis através dos vossos sonhos são tão reais quanto as físicas. Elas apenas se enquadram no próprio ambiente num outro nível de actividade mas lembram bastante os tipos de formas de que dispúnheis no começo do vosso mundo. Enquanto vós e todas as demais espécies permanecíeis naquele estado que chamei de sonambulismo, os vossos corpos nessa altura achavam-se fisicamente capacitados . De certa forma ainda não sabíeis como utilizá-los de forma apropriada.

Agora, a partir do ponto de vista do estado de vigília não conseguis compreender de que modo os vossos corpos de sonho parecem conseguir voar pelos ares, desafiar o espaço e até mesmo o tempo, manipular todo um mundo de objectos e respirar - muito simplesmente – enquanto digere os alimentos e a desempenha todas as formas de manipulação biológica que actualmente assumis como um dado adquirido. Não vos sentistes capazes de vos identificar completamente com tais corpos até terdes aprendido a sobreviver neles, por isso os verdadeiros processos da vida tiveram início no estado de sonho, quando estes novos corpos e consciência em sinfonia com a Terra deram por si a exercitar mentalmente todas as porções do corpo.

Por detrás de tudo aquilo que compunha a compreensão e cooperação brilhantes de todas as unidades de consciência que compõem o corpo, cada uma a acrescentar a sua própria informação e conhecimento específico às organizações gerais do corpo, e cada uma mais envolvida em campos mais intrínsecos de relação, porque o milagre que compõe a eficiência do corpo resulta das relações que subsistem por entre todas as suas partes, ligando-as a outros níveis de existência que não surgem em termos físicos.

As unidades de consciência, ao se transformarem em unidades de energia electromagnética formaram o ambiente bem como todos os habitantes no mesmo processo, pelo que poderíeis designar como um processo circular, ao invés de "em série". E nesses termos, é claro, existem apenas variados tipos de manifestação física da consciência, não um planeta que comporta os seus habitantes, mas uma completa gestalt de consciência. Nesses termos, cada porção da consciência orientada para o físico encara a realidade e a experiência a partir do seu ponto de vista privilegiado em torno do que, tudo o mais parece girar, ainda que isso possa envolver um campo generalizado mais alargado que o vosso, ou um mais diminuto.

Assim, para as rochas, digamos, podeis ser considerados como uma porção do seu ambiente, enquanto que pela vossa parte as podeis considerar como uma porção do vosso ambiente. Apenas não sintonizais a frequência da consciência da rocha. Mas na verdade, muitos outros tipos de consciência têm muito mais conhecimento – mesmo enquanto se acham concentradas nas suas formas específicas de consciência - do que o homem, em relação ao conhecimento da natureza unificada da Terra – mas o homem, a seu modo, também contribui para o cumprimento de sentido de valor de todas as outras formas de consciência por processos que se situam bastante além dos sistemas habituais de conhecimento.

Se recordardes que, de forma subjacente, cada unidade de consciência possui conhecimento da localização ou posição de cada uma das outras unidades e que todas essas unidades formam a matéria física, então talvez vos sintais capazes e acompanhar aquilo que estou a dizer, porque seja qual for o conhecimento que o homem atinja, seja qual for a experiência que alguém acumule, sejam quais forem as artes ou ciências que produzirdes, toda essa informação será instantaneamente percebida noutros níveis de actividade, por cada uma das demais unidades de consciência que compõem a realidade física – quer essas unidades moldem o formato do rochedo, ou de uma gota de chuva, de uma maçã, de um gato, de uma rã ou de um sapato. Os produtos manufacturados são também compostos de átomos e de moléculas que sobre montam unidades de consciência transformadas em unidades de energia electromagnética, e portanto, em elementos físicos.

Aquilo de que dispondes verdadeiramente é de uma consciência manifesta e não manifesta, mas apenas em termos relativos. Não percebeis a consciência dos objectos – e ela também se não vos manifesta porque a extensão das vossas actividades requer limites a fim de enquadrar o quadro que fazeis da realidade. Todos os vossos objectos manufacturados tiveram igualmente origem nos vossos sonhos, tendo sido primeiro concebidos mentalmente, e foi do mesmo modo que o homem produziu os primeiros utensílios. Ele nasceu dotado de todas essas capacidades – capacidades essas por meio das quais ele é actualmente caracterizado – e com outras capacidades que permanecem, nos vossos termos, a aguardar por desenvolvimento.

Não que as não tenha usado até agora mas porque não se tenha concentrado nelas pelo que considerais como as linhas primordiais da continuidade da civilização. Insinuações dessas capacidades acham-se sempre presentes no estado do sonho, e nas artes, nas religiões, e até mesmo nas ciências. Elas aparecem na política e nos negócios, mas como um fundo intuitivo não manifesto, que permanece grandemente ignorado.

Os sonhos forneceram sempre ao homem um sentido de ímpeto, de propósito, de significado e a matéria-prima a partir da qual ele foi capaz de moldar as suas civilizações. A verdadeira história do mundo consiste na história dos sonhos do homem porque eles foram de um ou de outro modo, responsáveis por todos os desenvolvimentos históricos.

Eles foram responsáveis pelo surgimento da agricultura, tanto quanto pelo da indústria, da ascensão e queda das civilizações; pela “glória” que foi Roma assim como pela sua destruição. Os vossos presentes avanços tecnológicos quase podem ser datados a partir da invenção da impressora de Gutenberg e até às invenções de Edison, que se resumiam a flashes de intuições inspiradas nos sonhos. Mas, se aquilo que vos revelo for verdade, nesse caso torna-se óbvio que quando afirmo que o vosso mundo teve origem no mundo dos sonhos, isso deverá implicar algo bastante distinto da habitual definição que dais à realidade dos sonhos. Uma vez mais, eu podia ter escolhido um outro termo mas pretendo enfatizar o contacto íntimo que cada um tem com essa outra realidade que ocorre no que pensais ser o estado do sonhar.

Essa analogia ajudá-los-á, pelo menos, a compreender intuitivamente a existência de situações tais como a do sofrimento e a da pobreza, que de outro modo parecerão não ter explicação. Espero também explicar o comportamento apresentado pela natureza, que certamente parecerá implicar na sobrevivência dos mais aptos de um modo combativo ou os actos punitivos de um deus vingativo, por um lado, e do triunfo de uma força negativa, pelo outro. Por ora, nesta nossa narrativa subordinada ao começo, vamos ainda na consideração de um universo espasmódico que surge e desaparece, e que gradualmente – nesses termos – se manifesta por períodos de tempo mais prolongados. Aquilo de que dispunham de facto no início eram imagens desprovidas de forma, num lento processo de consolidação da forma, a surgir e a desaparecer, para por fim estabilizarem em moldes ainda não completamente físicos. Posteriormente assumiram todas as características que actualmente considerais como a base da formação da matéria física.

Como tudo isso aconteceu, a consciência passou progressivamente a assumir orientações específicas e uma maior organização, no vosso lado. Por seu turno, desembaraçou-se de campos de actividade a fim de possibilitar esse comportamento específico. Todos esses elos de consciência, uma vez mais, operam na qualidade de entidades (ou partículas, ondas ou forças). Nesses termos a consciência formou a experiência do tempo – não foi, evidentemente, ao contrário.

O tema desta noite: “Expectativas Auspiciosas”. Refiro-me ao livro (de Dickens) Bom; o ano de 1980 existe em todas as suas versões potenciais neste exacto momento. Devido a que os eventos de massas se acham relacionados, não existe um ano inteiramente diferente, é claro, para cada pessoa existente à face da Terra – mas existe um número literalmente infinito de mundos partilhados colectivamente correspondentes a 1980, nos bastidores, por assim dizer. Não se trata de assunto tão simples quanto a decisão ou os eventos que pretendais materializar em termos reais, já que vos assiste, nos vossos termos, um leque de probabilidades de um ou de outro tipo já estabelecidos como matéria-prima para o ano que vem. Seria bastante improvável que tu, Joseph, (conforme Seth trata o marido da autora) te tornasses num alfaiate, por exemplo, porquanto nenhuma das tuas escolhas conduziu a tal acção, em termos de probabilidades.
Do mesmo modo, a Inglaterra não se tornará subitamente numa nação maometana, com toda a probabilidade.
Mas no âmbito das probabilidades viáveis, respeitantes a escolhas tanto privadas como colectivas, a população do mundo está a escolher o seu ano provável de 1980.

Estou a levar algum tempo, por existirem algumas questões que gostaria de esclarecer, e que são difíceis de explicar. Qualquer das noções prováveis que uma pessoa considere, faz parte da esfera do pensamento consciente dessa pessoa. No entanto, as pessoas consideram igualmente outros grupos de probabilidades subjacentes, que podem ou não alcançar o nível consciente, somente por serem colocados de lado, ou por parecerem não receber qualquer reconhecimento consciente.
Quero que tenteis imaginar eventos actuais tal como os concebeis, como a representação revitalizada de probabilidades, quer dizer, como versões físicas de probabilidades mentais. As probabilidades com que vos preocupais conscientemente permanecem psicologicamente periféricas: elas estão aí, mas também não estão, por assim dizer.

A vossa mente só é capaz de aceitar uma certa sequência de probabilidades em termos de experiência reconhecida. Tal como disse, as escolhas entre diferentes probabilidades prosseguem continuamente, tanto ao nível consciente como inconsciente. Eventos que não reconheceis como experiência consciente fazem parte da vossa experiência inconsciente, ainda que até certo ponto. Isso aplica-se ao indivíduo, mas é claro que colectivamente também. O mesmo se aplica aos eventos mundiais. Cada acção busca todas as suas possíveis realizações. Tudo-O-Que-Existe (termo empregue para designar o conceito que fazemos de deus) busca toda a experiência possível, só que por intermédio de tal moldura que, neste caso, questões, digamos, de morte ou de dor simplesmente não encontram aplicação, apesar de seguramente isso se aplicar ao nível físico.

Basicamente, as grandes expectativas nada têm que ver com graus porque uma haste de relva acha-se repleta de expectativas auspiciosas. Expectativas auspiciosas são erguidas com base na fé da natureza da realidade, uma fé na própria natureza, fé na vida que vos é dada, seja em que grau for - e todas as crianças, por exemplo, nascem imbuídas de tais expectativas. Os contos de fadas são frequentemente, de facto – porém não sempre – veículos de um tipo de conhecimento subjacente, como no discurso que fizeste sobre a Cinderela, e os maiores contos de fadas são sempre aqueles nos quais as mais auspiciosas expectativas acabam por vencer: os elementos do mundo físico caracterizados por um cunho desafortunado são passíveis de serem alterados num piscar de olhos por meio de expectativas auspiciosas.

A vossa educação diz-vos que tudo isso não passa de contra-senso e que o mundo apenas é alterado pelos seus aspectos materiais. Quando pensais em poder, pensais, digamos, em energia nuclear, ou energia solar – porém, poder é a energia criativa que subjaz na mente dos homens e que lhes permite utilizar essas energias e essas forças.
O verdadeiro poder acha-se na imaginação que ousa especular sobre aquilo que ainda não existe. A imaginação sustentada por expectativas auspiciosas, é quase capaz de produzir qualquer das realidades dessa vasta gama de probabilidades. Todas as possíveis versões de 1980 acontecerão. Esperai por aquelas periféricas, nos bastidores da vossa experiência consciente – mas todas as possíveis versões se acharão ligadas, de um ou de outro modo.

As lições importantes jamais surgiram realmente nas vossas sociedades: o uso mais benéfico da vontade directa e das expectativas auspiciosas - e isso a par com o conhecimento das actividades das Estruturas 1 e 2. É muito simples: vós quereis algo e pensais nisso de forma consciente durante um certo tempo, e imaginais isso conscientemente a chegar-se à linha da frente das probabilidades, próximo da vossa actualidade. Em seguida jogais isso qual seixo na Estrutura 2, esqueceis a coisa tanto quanto possível aí por uns quinze dias, e fazei-lo num certo ritmo.

Eu tracei-vos algumas decisões de Ano Novo no ano passado * e parece-me (com ironia) que elas poderiam ressurgir. Elas são tão boas, diz ao Ruburt, que actualmente não as lê, quanto eram então, por ajudarem a concentrar tanto o pensamento como a imaginação. E essa concentração ajuda-vos na acção e na existência.
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* São tais decisões as seguintes:

Um:
Estabelecerei uma aprovação pessoal, em relação às minhas características, às minhas aptidões, às minhas simpatias e antipatias, às minhas tendências e aversões, com a consciência de que elas formam a individualidade que me caracteriza de forma singular, e de que me são dadas por um motivo.

Dois:
Aprovarei as minhas façanhas e realizações e alegrar-me-ei com elas e inventá-las-ei com imenso vigor – serei tão RIGOROSO com a sua recordação quanto alguma vez o fui na recordação e enumeração dos meus fracassos, das minhas falhas ou faltas na realização.

Três:
Preservarei a consciência do contexto criativo da existência em que tenho o meu ser, pelo que terei presente as possibilidades, os potenciais, os aparentes milagres e toda a alegre espontaneidade da Estrutura 2 da Consciência de modo que as portas de um viver criativo permaneçam abertas.

Quatro:
Perceberei que o futuro consiste numa probabilidade. Em termos da experiência comum, nada existe por enquanto nele. É território virgem que há-de ser semeado pelos sentimentos e pensamentos que sustento no presente, pelo que nele passarei a plantar sucessos e realizações, e fá-lo-ei com consciência de que nada poderá existir no futuro QUE EU NÃO QUEIRA VER NELE.
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Ora bem; no nosso livro procurarei dar o meu melhor a fim de vos explicar a origem do vosso universo, e de tal modo que a maioria das questões pertinentes seja respondida, mas a presente concepção que o Homem tem da realidade é de tal modo limitada que frequentemente me leva a recorrer às analogias. No mais básico dos termos, tal como 1980 sucede, a energia que chega ao vosso universo é tão nova como se, nos vossos termos, o mundo tivesse sido criado ontem – um aspecto que se tornará bastante difícil de explicar. Todas as versões prováveis de 1980 derivam dos próprios passados prováveis, tanto quanto os próprios futuros prováveis, e qualquer consciência que tenha existência em 1980 foi (uma vez mais nos vossos termos) parte do que pensais ter sido o começo do mundo.

(Para mim, Robert Butts) A tua mãe não escolheu simplesmente acreditar, na sua idade avançada, num passado diferente daquele que foi aceite pela família – ela efectivamente alterou as probabilidades; não se tornou alucinada nem se deixou obcecar. A recordação que guarda a respeito disso, na realidade não era deformada; era a recordação da mulher provável em que se tornou.

Do mesmo modo que todo o incidente dos reféns (Irão, 1980), cada evento físico serve de foco de atracção para todas as suas versões prováveis e resultados. O incidente dos reféns (actualmente com 53 dias volvidos) constitui um sonho de massa materializado que tinha a intenção de se tornar importante e vital na plataforma das realidades religiosa e política, e estavam destinados a dramatizar um conflito de crenças e a projectar esse conflito no exterior, no domínio do conhecimento público. Cada um dos implicados foi, consciente e inconscientemente, um participante por livre vontade nos níveis mais básicos do comportamento humano - o que é claro, não é coincidência nenhuma que 1980 seja imediatamente pressagiado com base nesse evento. Que irá o mundo fazer com ele?

Os vossos sistemas de comunicação de notícias e de televisão fazem, é claro, parte do próprio evento. De certo modo, é de longe preferível que esses acontecimentos se dêem agora, e nos moldes em que se deu, de forma que os problemas venham à superfície na arena mundial. Desse modo, eles tornam-se de facto numa natureza de longe menos violenta do que poderiam ter sido por outra via.

As crenças religiosas virão a ser examinadas como o não foram anteriormente, assim como os seus pontos de ligação e afiliação política. O mundo Árabe necessita ainda do ocidente; e uma vez mais, é preferível que esses problemas venham à luz agora, enquanto devem, numa certa extensão, dizer respeito ao resto do mundo.

Não pondereis consciente e pessoalmente, nenhum de vós, em eventos que não pretendeis que ocorram. Qualquer das formas de ponderação, seja em que grau for, atar-vos-á a tais probabilidades; por isso concentrai-vos naquilo que quereis, e no que diz respeito aos eventos públicos, assumi como dado adquirido que por vezes os homens são mais sensatos do que aquilo que podem acreditar ser.

Vós estáveis, pois, presentes – cada um de vós – no começo do mundo, apesar de poderdes achar-vos presentes agora no mundo de um modo ligeiramente diferente. Lembrai-vos de que cada unidade de consciência constitui um fragmento do Todo (Tudo-O-Que-Existe), uma porção divina. Aí, talvez aquilo que vou proclamar faça mais sentido. Durante algum tempo, segundo a concepção que tendes, os Caminhantes do Sonho permaneceram mais ou menos nesse nível de actividade, e durante muitos séculos usaram a superfície da Terra como cenário de fundo para outras actividades. A sua existência verdadeira era o que designaríeis actualmente como o sonho. Eles operavam nas suas mentes enquanto permaneciam no sono e erguiam nas suas mentes individuais e nas tentativas mentais conjuntas todas as imagens resplandecentes que mais tarde se tornariam num reservatório mental a partir do qual os homens puderam emergir.

Nessa disposição multidimensional a consciência aprendeu a tornar-se mentalmente em Unidades de Energia Electromagnética, átomos e moléculas, electrões e cromossomas. Mentalmente isso formou os padrões por meio dos quais toda a vida física poderia fluir. Então, o mundo passou a ter uma existência em termos materiais. Essas Unidades de Consciência são indestrutíveis e vitalizadas, a despeito das formas que assumam, e enquanto as formas que os homens assumiam eram imagens de sonhos, a consciência teceu formas que se tornaram matéria física.

A consciência possuía a agilidade mais inimaginável sem que alguma vez deixasse de perder potência. Essas Unidades de Consciência, por exemplo, conseguem misturar-se e combinar-se a outras para formarem um milhão de sequências de memória diferentes e de desejo, realizações neuronais e de reconhecimento, estrutura e concepção. Actualmente vós fazeis uma leitura da vossa consciência de um modo vertical, e identificais-vos apenas com certas porções dela, e parece-vos que qualquer outra organização da percepção, qualquer outra forma de reconhecimento da identidade vos negaria necessariamente bastante a vossa ou a tornaria inoperante.

No começo do mundo existiam inumeráveis agrupamentos contudo, e afiliações da consciência, muitas organizações de identidade que foram reconhecidas, assim como o tipo de orientação psicológica que actualmente possuís – mas o vosso tipo de orientação não era supremo. Apesar de, em termos gerais, as espécies terrenas terem existido desde o começo, nas formas por meio das quais actualmente as reconheceis, a consciência das espécies era bastante diferente, e todas elas se achavam muito intimamente relacionadas por meio de vários tipos de identidade, que desde então se desvaneceram no subsolo do conhecimento.

Inicialmente, pois, o mundo não passava de um sonho, e aquilo que pensais ser a consciência de vigília, representava a consciência adormecida. A esse respeito, todo o ambiente terreno era construído mentalmente, átomo a átomo conscientemente – cada átomo, uma vez mais, inicialmente formado por Unidades de Consciência. Eu referi que essas unidades podiam operar como entidades e como forças, pelo que não estamos a falar de nenhuma mecânica mental mas de entidades no verdadeiro sentido do termo: entidades dotadas de propriedades psíquicas e criativas de uma magnitude inimaginável, fragmentos propositadamente animados pela mente infinita, à medida que essa mente se enchia da inspiração que veio a conferir luz ao mundo.

Essas entidades tão antigas, segundo a vossa concepção, deixaram fragmentos seus em transe, como quem diz, que formaram as rochas e as colinas, as montanhas, o ar e a água, assim como todos os elementos que existem à superfície da Terra. Essas entidades encontram-se em transe, nesses termos, mas a sua potência não sofre qualquer diminuição e existe uma constante comunicação entre si, permanentemente. Também se gera uma comunicação constante entre elas e vós, a outros níveis para além daqueles que reconheceis, pelo que existe uma interminável acção recíproca entre cada espécie e o meio ambiente em que se acha inserida.

Não existe ponto algum em que a consciência encontre término e o meio ambiente encontre início, ou vice-versa. Cada forma de vida é criada junto com cada uma das outras formas de vida – meio ambiente e organismos “vivos” a criar uns aos outros, nesses termos. Após as formas se terem tornado completamente físicas, contudo, todas as espécies operaram como Caminhantes do Sonho por muitos séculos, apesar de na escala da altura, a passagem do tempo não ser considerada da mesma forma. Durante esse período, o trabalho de fusão da consciência etérea com a matéria foi alcançado. Efeitos de gravidade, por exemplo, foram estabilizados. As estações assumiram o ritmo mais apropriado às criaturas dos mais diversos locais. O meio ambiente e as criaturas acomodaram-se mutuamente.

Até essa altura, as formas principais de comunicação tinham seguido os padrões característicos das Unidades de Consciência, cada uma conhecedora da relação que tinha com todas as demais, à face do planeta. As criaturas confiavam nos sentidos interiores enquanto aprendiam a operar os sentidos novos e altamente específicos que precisavam a percepção no tempo e no local. Esse determinar exacto da percepção era de importância vital porque, com o completo despertar da consciência no corpo, as intersecções que ela estabelecia com o espaço e o tempo tinham de ser impecáveis.

Os corpos dotados da textura do sonho tornaram-se físicos e por meio da sintonia dos sentidos com as frequências materiais – frequências dotadas de um tal poder e encanto que acabariam por atingir as criaturas de todo o género, desde o micróbio até ao elefante, mantendo-as unidas numa teia coesa de alinhamento espaço temporal. No começo, os sonhos do Homem estavam, de certo modo, relacionados com a sobrevivência física no imediato. Eles forneciam informação – um tipo de necessidade que os novos sentidos físicos não conseguiam comportar. Esses sentidos apenas conseguiam perceber a zona limítrofe, mas os sonhos do Homem compensavam-no nessa falta e preenchiam-lhe a consciência ao lhe fornecer o benefício dessa informação mais vasta e generalizada à qual antes tinha tido livre acesso. Quando adormecia, ele podia obter a vantagem dos bancos de dados contidos nessas Unidades de Consciência que compunham a sua própria carne.

Bom; quando o Homem sonhava, na verdade retornava a um estado anterior ao despertar, do qual a sua própria vida tinha emergido – só que agora ele era uma nova criatura, um novo tipo de consciência, tal como as demais espécies. Nos sonhos, todas as espécies se familiarizavam com as suas velhas afiliações, e eles faziam uma leitura das suas identidades de diferentes modos. Recordavam como tinha sido; recordavam que se tinham formado uns aos outros.

Esta história, admito, é de longe mais difícil de entender do que a simples história da criação do mundo por deus, ou da sua real produção num universo destituído de sentido por meio das instáveis mãos do acaso – e no entanto a minha versão é muito mais sumptuosa porque os elementos da sua verdade virem a criar ressonância nas mentes e nos corações daqueles que forem suficientemente receptivos para a escutarem ou lerem. Porque as próprias mentes dos homens acham-se prenhes do desejo de interpretar correctamente e têm consciência da sua própria herança vasta. Não é somente o facto de o Homem possuir uma alma que de algum modo é abençoada enquanto o resto do seu ser não o é, mas que nesses termos, tudo aquilo que ele conhece, a despeito do tamanho ou do grau, é composto pela “matéria da alma”. Cada porção dele possui a sua própria identidade e validade e nenhuma parte é jamais aniquilada ou destruída. A forma é passível de mudança.

Tenho necessidade de apresentar esta história por fases mas o mundo e todas as suas criaturas surgem juntas como uma composição musical contínua na qual as notas se acham, elas próprias, vivas e se interpretam a si próprias, e em que os músicos e as notas perfazem uma só e mesma coisa, assim como o objectivo e o desempenho, e em que cada nota é continuamente tocada de modo a repercutir todas as suas versões prováveis, formando todas as suas prováveis composições ao mesmo tempo que tomam parte em todos os seus temas, melodias, e notas inerentes às outras composições – pelo que cada nota, ao repercutir, se define a si própria, sem no entanto deixar de existir, em virtude da posição que tem na competição como um todo.

A mente consciente não é capaz de lidar com esse tipo de criatividade multidimensional, e no entanto é capaz de se expandir por um tipo de reconhecimento renovado, quando é conduzida em frente, tornando-se nela própria, em função da própria composição. De certo modo o vosso mundo segue o seu próprio tema na composição da criatividade. Tu pretendes saber onde terás tomado parte na composição sinfónica, por assim dizer. Eu emprego, em relação a isto, uma analogia musical, como se de uma analogia simples se tratasse, para mostrar que também estamos a lidar com frequências de percepção. Vós encontrais-vos em sintonia com a orquestração terrena (poderás dizer) e a percepção que tendes do tempo resulta unicamente do hábito – hábitos de percepção que tinham que adquirir no começo do mundo. E cultivastes tais hábitos à medida que os vossos sentidos físicos se foram gradualmente tornando mais despertos e específicos. “Regulastes-vos” a vós próprios pelo tempo, mas sempre surgiram percepções mais sublimes em segundo plano, na vossa consciência e no estado de sonhos.

É a enorme actividade do estado dos sonhos que vos permite reconhecer, enquanto criaturas psicológicas, que habitais o mundo que conheceis.


Os Antigos Sonhadores
O Mundo no seu Transe PrimITIvo
O Despertar das Espécies

Durante o que vos teria parecido eternidades, de acordo com a vossa escala de tempo, os homens permaneceram no estado de sonho muito mais do que no desperto. Dormiam horas a fio, tal como os animais, e despertavam a fim de exercitar os corpos, obter sustento e, mais tarde acasalarem. Tratava-se na verdade de um mundo semelhante ao do sonho só que altamente encantador e vital, no qual o imaginário onírico representava de forma indisciplinada todas as probabilidades que esta nova aventura implicava: imaginando as várias formas de linguagem e de comunicação possíveis, dando trato a grandiosos contos de sonho de civilizações futuras repletas das suas próprias histórias embutidas – e a elaborar, por agora se terem aliado ao tempo – construções mentais que automaticamente davam lugar a passados e a futuros.

Esses sonhos ancestrais em certa medida eram partilhados por toda a consciência que tinha embarcado na aventura terrena, de modo que tanto as criaturas como o meio ambiente, em conjunto formavam grandiosas realidades ambientais. Vales e montanhas e os seus habitantes juntos sonharam uma existência conjunta. As espécies – do vosso ponto de vista – viviam a um ritmo muito mais lento, nesses termos. O sangue, por exemplo, não precisava percorrer as veias tão rápido e o coração não tinha necessidade de bater tão depressa. E de um modo assinalável, a coordenação que a criatura precisava ter no seu ambiente não precisava ser tão exacta, já que se dava uma permuta flexível em termos de consciência, entre ambos.
Por formas quase impossíveis de descrever, os princípios básicos não se achavam ainda firmemente estabelecidos, a própria gravidade ainda não comportava um domínio difusor pelo que o ar era mais leve.

O Homem tinha consciência do seu amparo de um modo luxuriante e particular. Tinha consciência de si próprio de um modo diverso pelo que, por exemplo, a identificação que comportava consigo próprio não terminava nos limites da pele: era capaz de a estender ao espaço exterior que lhe circundava a forma física e de sentir que ela se fundia com a atmosfera numa experiência dotada de um sentido primitivo que vós esquecestes.

Durante esse período, e por acaso, a característica mais vincada da actividade mental, a variante mais elevada e mais original era a dos sonhos e o conhecimento que ela conquistou foi impresso no cérebro físico: aquilo que actualmente não passa de uma actividade completamente inconsciente e envolve as funções do corpo - as relações que tem com o ambiente, o equilíbrio e temperatura, as alterações íntimas constantes. Todas essas actividades altamente complicadas eram aprendidas e postas em prática no estado de sonho, à medida que as unidades de consciência traduziam o conhecimento interior, do estado de sonho para a forma física.

O Homem começou, pois, nos vossos termos, e junto com as demais espécies, a despertar de uma forma cabal para o mundo material a fim de desenvolver os sentidos exteriores e de intersectar com precisão e delicadeza o tempo e o espaço. Contudo o Homem ainda dorme e sonha e esse estado representa ainda um firme elo de ligação com as suas origens, mas também com as origens do universo, tal como ele o reconhece. O Homem sonhou os seus idiomas; sonhou o modo de usar a língua a fim de formar as palavras e durante o sonhar praticava a conjugação das palavras a fim de lhe dar sentido, de modo que no final era capaz de conscientemente dar início à formação de uma frase sem realmente saber de que modo teria tido início, apesar de o fazer com a confiança de o conseguir e de o completar. Todos os idiomas devem as suas bases à linguagem que era falada nos sonhos. No entanto, a necessidade de um idioma floresceu na proporção em que o homem deixava de ser tanto um sonhador e emergia mais nas qualidades específicas do espaço e do tempo, por no estado dos sonhos as comunicações que estabelecia com os seus companheiros e as outras espécies ser instantânea. A linguagem surgiu, pois, para ocupar o lugar dessa comunicação interior.

Existe uma enorme unidade subjacente a todas as chamadas culturas primitivas do Homem – desde desenhos das cavernas até religiões – porque todos bebiam duma fonte comum, à medida que o Homem tentava transpor o conhecimento inato para as condições reais físicas. O corpo aprendeu a preservar a sua estabilidade, a sua força e agilidade, a fim de alcançar um estado de equilíbrio numa reacção complementar para com as condições atmosféricas e aos elementos, a sonhar com cálculos que a mente consciente, por si só, era incapaz de estabelecer. O corpo aprendeu a curar-se a si próprio durante o sono, por intermédio dos sonhos – e em determinados níveis nesse estado ainda hoje cada porção da consciência contribui para a saúde e a estabilidade de todas as outras porções.

Longe do universo de competição feroz, dispondes de um cujas verdadeiras bases se apoiam numa cooperação terna entre todas as suas partes. Isso é um dado adquirido – o dom da vida carrega em si a actualização dessa cooperação, porque as diferentes fracções do corpo existem como uma unidade devido às relações interiores caracterizadas por uma natureza cooperativa; e elas achavam-se presentes por altura do vosso nascimento, quando sois inocentes em relação a toda a crença cultural que possa enveredar pelo contrário. Se não fosse essa cooperação inicial mais rudimentar e terna que constitui uma certa qualidade da própria vida, a vida em si mesma não teria conseguido prosseguir.

Todo indivíduo de cada espécie assume esse entusiasmo e alegria de viver como medida-padrão. Cada indivíduo pertencente seja a que espécie for, e cada consciência, seja qual for o grau em que se encontre, procura automaticamente realçar a qualidade da própria vida – não só para si mas igualmentepara toda a realidade. Essa é uma característica comprovada da vida, independentemente das crenças que vos possam conduzir a interpretações erróneas das acções da natureza, e levar a imaginar algumas das suas criaturas à luz de uma censura.

De certo modo, esses antepassados sonhadores, por meio da criatividade de que se achavam imbuídos, sonharam todas as criaturas viventes em todos os seus passados, presentes e futuros – ou seja, os seus sonhos abriram as portas do espaço e do tempo a entidades que de outro modo não teriam sido votadas a uma actualização, excatamente como, por exemplo, as Unidades de Consciência certa vez se desprenderam da mente do Todo. Todas as possíveis entidades que alguma vez tenham a possibilidade de ter actualização, têm uma existência imorredoura. Elas sempre terão existido e sempre existirão. Pelas suas próprias características o Todo torna-se tudo o que alguma vez possa ser, e com tal não pode existir qualquer término para a existência – e nesses termos, nenhum começo também.

Mas nos termos do vosso mundo, as Unidades de Consciência, agindo tanto sob a forma de forças como de entidades psicológicas dotadas de um poder massivo, plantaram as sementes do vosso mundo numa dimensão de um poder imaginativo tal que trouxe à luz a forma física. Nesses termos, essas entidades constituem os vossos antepassados – todavia não o são somente em relação a vós, mas os antepassados de toda a consciência que compõe o vosso mundo.

Durante esse período, que classificamos como pertencente aos Sonhadores, sucederam determinadas acções subjectivas enquanto a “estrutura” da consciência sintonizada com a Terra moldou o fenómeno do “Eu”. O que era necessário era um Eu altamente focado e em sintonia precisa que fosse capaz de operar com eficiência num esquema espácio-temporal que estava a ser formado junto com as criaturas físicas – um eu, todavia, que, de um ou de outro modo, pudesse ser suportado por domínios de informação e de conhecimento de um tipo que fosse basicamente independente do tempo e do espaço, um conhecimento indispensável, e ainda assim um conhecimento que não admitisse a possibilidade de distrair o foco físico.

De um ou de outro modo, essa informação interior precisava juntar cada consciência à superfície do planeta. As criaturas terrenas precisavam ser capazes de reagir num dado momento, no entanto os mecanismos interiores que formaram tais reacções eram baseados em cálculos que não podiam ser preservados na mente de uma forma consciente. No vosso esquema temporal, por exemplo, jamais poderíeis mover-vos com a agilidade com que o fazeis, se para tal precisásseis operar cada músculo envolvido nessa locomoção de um modo consciente – ou na fala ou em qualquer forma de desempenho corporal. Certamente que não vos seria possível comunicar em tal nível físico se antes disso precisásseis ter consciência de todos os mecanismos que envolvem a fala e os precisásseis operar de modo consciente antes de poderdes enunciar cada palavra.

Contudo, precisáveis dispor desse tipo de conhecimento e precisáveis de dispor dele de um modo que não incomodasse os vossos pensamentos conscientes. Basicamente não existem divisões reais no Eu, mas para poder explicá-lo, precisamos mencioná-lo nesses termos. Antes de mais, possuís o Eu interior, o Eu criativo e sonhador – composto, uma vez mais, por unidades de pensamento, energia dotada de consciência que molda a vossa identidade e que moldou as identidades dos primeiros habitantes da Terra. Esses Eus interiores formaram os próprios corpos de sonho ao seu redor, tal como previamente vos foi explicado, mas os corpos de sonho não precisavam assumir reacções físicas. Eram livres da gravidade, do tempo e do espaço. À medida que o corpo se foi cristalizando no físico, contudo, o Eu interior moldou a consciência do corpo, de modo que o corpo físico tomasse consciência de si próprio, do ambiente e do relacionamento que tinha com esse ambiente.

Antes disso ocorrer, porém, a consciência do corpo foi instruída para tomar consciência do seu meio interior. O corpo era carinhosamente formado a partir de Unidades Electro-Magnéticas ao longo de todos os estágios, dos átomos às células, aos órgãos, e por aí fora. O padrão corporal descende do Eu interior, do mesmo modo que todas as Unidades de Consciência envolvidas nesta aventura conjunta formaram este tecido do ambiente e das criaturas, cada uma delas adaptada à outra.

Até aqui, neste nosso discurso, já dispomos de um Eu interior, que reside primariamente numa dimensão mental ou psíquica, e que sonha a própria existência na forma física, acabando por moldar essa consciência física. A essa consciência do corpo o Eu interior concede o seu próprio “corpo de conhecimento físico”, o vasto reservatório de consecução física que ele triunfalmente produziu. A consciência do corpo não é “inconsciente”, mas para me fazer entender nos vossos termos, o corpo possui o seu próprio sistema de consciência que em certa medida se acha actualmente separado do que considerais a vossa consciência normal. A consciência do corpo dificilmente deveria ser considerada inferior à vossa, ou inferior à do Eu interior, já que representa um conhecimento pertencente a este último, e faz parte da consciência do eu interior – a parte delegada ao próprio corpo.

Cada célula, conforme tenho frequentemente referido, opera no tempo com perfeição, por ser (nesses termos) precognitiva e ter consciência da posição, da saúde, da vitalidade de todas as demais células existentes à face do planeta. Tem consciência da posição de cada grão de areia existente nas praias de cada oceano, e nesses termos, forma uma porção da consciência da Terra. Ao nível desse meio, tanto as criaturas como os elementos do mundo natural se acham unidas – um aspecto a que retornaremos frequentemente. O vosso intelecto, tal como o concebeis, opera com tal clareza e precisão, de modo tão lógico e por vezes tão arrogante devido ao facto do intelecto cavalgar esse enorme ímpeto de poder “antepassado e inconsciente” codificado – o poder de conhecer instantaneamente que constitui uma característica da consciência do corpo.

Até aqui ainda dispomos de um Eu interior e de uma consciência do corpo. À medida que a consciência do corpo se desenvolve e aperfeiçoa a sua organização, o Eu interior e a consciência do corpo desempenham juntos um tipo de entendimento psicológico duplo. A analogia mais perfeita que posso evocar é a de que até essa altura o Eu se assemelhava a uma fita elástica psicológica que tentava abocanhar o exterior e o interior com uma força e uma vitalidade desmesuradas mas sem nenhum tipo de estrutura suficientemente rígida para manter qualquer postura física. O Eu interior ainda se mantinha em relação com a realidade do sonho, enquanto a orientação que o corpo obtinha e a consciência que o corpo atingia, conforme pretendido, um enorme sentido de aventura física, de curiosidade, de especulação, de assombro – pelo que uma vez mais o Eu interior colocou uma porção da sua consciência numa fracção diferente, por assim dizer. Do mesmo modo que certa vez tinha formado a consciência do corpo formava agora uma consciência sintonizada com a fisicalidade, um Eu cujos desejos e propósitos seriam orientados em moldes em que, por si só, o Eu interior não podia tornar-se.

O Eu interior era demasiado consciente da sua própria natureza multidimensional, pelo que segundo a concepção que fazeis, deu, psicologicamente, origem a si próprio por intermédio do corpo inserido no espaço e no tempo. Passou a identificar-se nos termos de uma criatura física. Essa porção do Eu é a porção que reconheceis como o vosso Eu consciente, normal, que ganha vida por entre o desenrolar das estações, e que é consciente segundo os desígnios do tempo, paralisado por momentos de uma consciência brilhante, com civilizações que parecem surgir do nada e desaparecer. Esse é o Eu que se acha alerta em meio à encantadora precisão dos momentos, cujos sentidos físicos se acham limitados pela luz e pelas trevas, pelo som e pelo toque.

É o Eu que contempla o exterior. É o Eu que chamais de egotisticamente consciente. O Eu interior tornou-se no que refiro em termos de ego interior. Ele observa essa realidade interior, essa dimensão psicológica da consciência da qual ambos, a vossa consciência e a consciência do corpo emergiram. Nesse caso vós sois um Eu, só que em termos práticos diremos que sois constituídos por três partes: o Eu interior ou ego interior, a consciência do corpo e a consciência que conheceis. Essas partes, todavia, acham-se intimamente ligadas e assemelham-se a três sistemas diferentes de consciência a operar em consonância, formando um todo. As divisões – as aparentes divisões – não são estacionárias mas estão sujeitas a alterações constantes. De um ou de outro modo, esses três sistemas de consciência operam de qualquer forma em todas as espécies e em todas as partículas, no universo físico. Segundo a concepção que tendes, isso significa que as proporções desses três sistemas possam sofrer variações, mas que estão sempre em operação, quer estejamos a referir-nos ao homem/mulher ou a uma pedra ou mosca, estrela ou átomo. O Eu interior representa a vossa identidade primordial.

“A Terra é um sítio estupendo, mas eu não desejaria viver nela.” Uma inversão de uma velha máxima, creio – mas o facto é que sois criaturas físicas por gostardes de viver na Terra, gostardes das suas condições e apreciardes sobretudo os desafios e as formas particulares de percepção, conhecimento e compreensão que o meio terreno vos providencia. (Pronunciado de modo assertivo) Esse ambiente, nos vossos termos, certamente inclui o sofrimento. Se a alegria sempre foi uma das características da experiência terrena, então também o sofrimento, e essa matéria deverá ser abordada neste livro. Aqui, todavia, quero somente fazer menção a uma faceta, que é a importância da sensação física, seja de que género for – porque a vida do corpo vos proporciona, por entre todas as coisas, uma vida de sensações, de sentimentos, todo um espectro que deve incluir a experiência de tudo o que é possível em termos de sensações na gama generalizada que proporciona.

Agora, como havereis de ver, todas as criaturas, independentemente do seu grau, podem escolher - e fazem-no, nas suas respectivas esferas de realidade - aquelas sensações que virão a experimentar; mas numa ou noutra medida, todas as sensações são incorporadas. Mais tarde iremos discutir a parte da mente e a interpretação que faz, por exemplo, do estímulo da dor, mas quero deixar bem claro que aqueles (estímulos) que são atraídos à vida física são acima de tudo os que exploram as sensações. Fora disso, existem basicamente todos os tipos de distinções mentais estabelecidos por entre o estímulo. O corpo é feito para reagir; para sentir a vida e ter vitalidade por intermédio da reacção para com o ambiente que não seja ele próprio, por intermédio do que podereis designar por tensão natural. O corpo mantém o seu equilíbrio por meio da reacção contra a gravidade, pelo contacto que estabelece em relação a outros corpos, pela alteração que confere às próprias sensações, e pela glorificação que estabelece no balanço que estabelece entre o equilíbrio e o desequilíbrio.

À consciência do corpo é, portanto, atribuído um requintado sentido da sua própria realidade, um sentido de segurança em relação à própria identidade, um sentido de segurança e de defesa interior, que lhe permite não somente funcionar como também desenvolver-se no mundo físico. É investido de um sentido de audácia, atrevimento, um sentido de poder natural. Acha-se perfeitamente moldado para ter cabimento no seu meio ambiente – e o ambiente acha-se perfeitamente formado para comportar tais criaturas.

As entidades, ou unidades de consciência – esses ancestrais fragmentos que irromperam na objectividade a partir dos vastos e infinitos reinos psicológicos de Tudo-O-Que-Existe – todos eles se atreveram, por todos se terem abandonado a si próprios de uma forma jovial no campo do tempo e do espaço. Deram lugar à criação de novas entidades psicológicas, abriram uma área caracterizada de uma criatividade divina que até então tinha estado encerrada, e por isso, nessa medida estenderam a experiência e a imensa existência de Tudo-O-Que-Existe. Porque, ao se abandonarem desse modo, não foram abandonadas, é claro, uma vez que continham em si mesmo a relação implícita que tinham com o Tudo-O-Que-Existe. Nesses termos, o Todo tornou-se igualmente carnal, animadas na sua profunda dimensão divina pelo germinar de cada pequena folha de relva, e pelo ímpeto de cada nascimento e de cada instante da existência de cada criatura. O Todo acha-se, pois, imerso no vosso mundo, presente em cada aspecto hipotético, e forma o próprio tecido a partir do qual cada parte da matéria é criada... Durante muitos séculos a estrutura da Igreja Católica Romana manteve a civilização ocidental unida, tendo-lhe conferido significado e passado os seus preceitos. Esses sentidos e preceitos fluíram pela sociedade inteira como um todo, e serviram de molde para todos os modos estabelecidos de conhecimento, comércio, medicina, ciência, etc.

A perspectiva que a Igreja tinha da sociedade era a vigente. Eu não conseguiria salientar suficientemente o facto de que as crenças desses tempos estruturaram a forma de vida humana do indivíduo, de modo que até os eventos de carácter mais privado da vida pessoal eram interpretados em conformidade, tal como eram, é claro, os eventos das nações, das plantas e dos animais. A opinião que se tinha do mundo era de cunho religioso, especificada pela Igreja, e a sua palavra prevalecia como verdade e facto ao mesmo tempo. As enfermidades de que se padecia, eram enviadas por Deus a fim de purificar a alma, limpar o organismo, ou eram simplesmente destinadas a mostrar ao homem o seu lugar, ao apartá-lo dos pecados do orgulho. O sofrimento enviado por Deus era considerado um dado adquirido, nesse caso, assim como uma verdade religiosas.

Algumas civilizações tinham acreditado que a doença era enviada por demónios ou espíritos maléficos, e que o mundo estava repleto de bons e maus espíritos, invisíveis e misturados com elementos da própria natureza, e que o homem precisava manter-se numa linha estreita de cuidado para não perturbar a mais perigosa e perniciosa dessas entidades. Na história humana existiram toda a sorte de encantamentos destinados a acalmar os espíritos do mal que se acreditava serem reais e que constituíam um facto e uma verdade religiosa.

Torna-se demasiado fácil considerar essas estruturas de crença e encolher os ombros, e assombrar-vos com respeito às perspectivas distorcidas que o homem tinha da realidade. Toda a perspectiva científica da doença, porém, se acha igualmente distorcida (enfatizado de modo divertido). É igualmente laboriosa na concepção em que assenta, e composta de “absurdos”. É tão factual quando o “facto” de Deus enviar a doença a título de castigo, ou o facto de a doença constituir uma dádiva indesejada da parte de algum demónio pernicioso. Bom; Os clérigos da Igreja da Idade Média eram capazes de traçar  diagramas das várias porções do corpo humano que eram afligidas em resultado da indulgência em determinados pecados. As mentes lógicas, a determinada altura acharam esses diagramas bastante convincentes, e pacientes que apresentavam determinados sintomas localizados em determinadas áreas do corpo haveriam de confessar ter cometido os vários pecados que isso envolvia. Toda a estrutura de crenças fazia sentido por si só. Um homem devia nascer deformado ou dotado duma propensão para a doença em resultado dos pecados do seu pai.

A estrutura das crenças científicas actual é igualmente insensata, apesar de, no que lhe diz respeito, os factos frequentemente também parecerem provar-se por si próprios. Existem vírus, por exemplo. As vossas crenças tornam-se numa realidade que se passa a evidenciar por si só. Seria impossível debater a natureza do sofrimento humano sem levar isso em consideração. Ideias são transmitidas de geração em geração – e tais ideias são portadoras de toda a vossa realidade, das alegrias e agonias que a compõem. A ciência, todavia, constitui, de todo em todo, um pobre antídoto. Os conceitos da Igreja pelo menos atribuíam ao sofrimento um tipo de dignidade: provinha de Deus – uma dádiva indesejada, quando muito – mas que apesar de tudo consistia numa forma de punição atribuída da parte de um pai firme, pelo bem do filho.

A ciência dissociou o facto da verdade religiosa, claro está. Num universo formado ao acaso, caracterizado pela sobrevivência dos mais aptos como regra principal do bom comportamento, a doença tornou-se numa espécie de crime cometido contra a própria espécie. Significava que eram inadequados, e como tal sugeriu toda a sorte de indagações que não tinham anteriormente sido colocadas. Teriam aqueles que eram geneticamente inferiores, por exemplo, o direito de se reproduzirem? Pensava-se que a doença ocorresse como uma tempestade, ou o resultado de forças físicas contra as quais ao indivíduo restava pouco ou nenhum recurso. As “novas” ideias freudianas de um inconsciente insípido conduziram a um novo dilema, por na altura – conforme ainda se aplica – constituir crença amplamente difundida que, em resultado de experiências tidas durante a infância, o subconsciente, ou inconsciente, podia muito bem passar a sabotar os melhores interesses da personalidade consciente, e enganá-lo conduzindo-o à doença ou ao desastre.

De certo modo, tal conceito substitui o diabo metafísico pelo psicológico. Se a própria vida for cientificamente encarado como destituída de sentido real, nesse caso, o sofrimento, claro está, também precisará ser visto como carente de sentido. O indivíduo torna-se numa vítima do acaso na medida e que o seu nascimento, os incidentes que lhe sucedem na vida e a sua morte estarem em causa. A enfermidade torna-se no encontro directo com essa falta de sentido da existência pessoal.

Vós afectais a estrutura do vosso corpo por meio dos vossos pensamentos (sugestão).Se acreditardes na hereditariedade, nesse caso a hereditariedade tornar-se-á num forte factor de sugestão na vossa vida, e pode ajudar a produzir precisamente a doença no corpo que acreditáveis ter lá estado sempre, até que por fim os vossos instrumentos científicos descobrem o “mecanismo defeituoso”, ou seja lá o que for, e surge a comprovação à vista de quem a quiser ver.

Existem certas condições óbvias que nos termos que empregais são produto de uma hereditariedade, que se evidenciam quase instantaneamente após o nascimento, mas essas são bastante limitadas em número, em proporção com aquelas doenças que acreditais pertencerem ao foro da hereditariedade – vários tipos de cancro, problemas cardíacos, distúrbios artríticos ou reumatóides. E em vários casos de dificuldades herdadas, uma mudança poderia ser levada ao efeito no sentido de uma melhoria, por meio da utilização de outros métodos mentais que certamente algum dia obterão.

Existem tantas formas de sofrimento quantas as formas de alegria que existem, e não existe uma razão simples que possa ser dada. Enquanto criaturas humanas, vós aceitais as condições da vida e dessas condições moldais as experiências do dia-a-dia. Emergis nas crenças do mesmo modo que nasceis nos séculos físicos, e parte do quadro mais vasto é composto pela liberdade de interpretardes as experiências da vida por múltiplas formas. O sentido, a natureza, a dignidade ou a ignomínia inerente ao sofrimento serão interpretadas de acordo com os sistemas de crença que tiverdes. Espero poder dar-vos, ao longo do caminho, uma imagem da realidade que coloque o sofrimento na respectiva perspectiva, apesar de ser um assunto dificílimo de abranger por tocar profundamente as esperanças pessoais e esperanças que tendes em relação á humanidade, assim como os medos pessoais e os medos que sentis em relação á humanidade.

Incutistes em vós próprios a consciência e a directiva de seguir unicamente certas porções da vossa própria consciência, de modo que mentalmente considerais certos temas um tabu. E pensamentos sobre a morte e o sofrimento pavimentam esse corredor. Para uma espécie movida acima de tudo pela sobrevivência dos mais aptos, e pela competição patente entre as espécies, pois, qualquer mancha de sofrimento ou de dor, ou de pensamentos de morte, torna-se desonrosa, biologicamente vergonhosa, cobarde e quase insana. Deve-se lutar pela vida a todo o custo – não porque se ache prenhe de um significado inato, mas por ser a única escolha possível, e uma escolha que, na melhor das hipóteses se deverá ao acaso. Tudo aquilo de que dispondes é de uma só vida, e essa vida singular é em toda a parte assediada pela ameaça da doença, do desastre e da guerra – e se escapardes a tais circunstâncias drásticas, ainda vos vereis na posse de uma vida que resulta de não mais do que um conjunto de elementos destituídos de vida que alcançam a luz da consciência e da vitalidade por breves instantes por estar destinada a terminar.

Nessa medida, até mesmo as emoções do amor e da exaltação são vistos como nada mais do que a errática actividade de neurónios a acender-se, ou de químicos a reagir a outros químicos. Só por si, tais crenças suscitam sofrimento. Toda a ciência dos vossos dias, tem sido estabelecida no sentido de estabelecer a promoção das crenças que concorrem para a directa contradição com o conhecimento interior que o homem possui. A ciência negou, como havereis notado, a verdade emocional. Não é o simples facto da ciência negar a validade da experiência emocional, mas de ter acreditado tão firmemente no facto de que o conhecimento só poderá ser adquirido a partir do exterior, ou da observação exterior da natureza. Eu pronunciei-me em relação à qualidade de vida, e é verdadeiro afirmar que, pelo menos em muitos séculos do passado, se homens e mulheres puderam morrer cedo, eles também terão vivido vidas plenas e de uma qualidade mais satisfatória – e não quero ser mal interpretado quanto a isso.

Agora; é igualmente verdadeiro que em certos dos seus aspectos, a religião glorificou o sofrimento e o elevou à categoria de uma das suas virtudes primárias – e noutras alturas degradou-o, ao referir que os enfermos estariam possuídos por demónios, ou ao conceituar os insanos como inferiores ao humano. Por isso, a questão envolve muitos problemas. A ciência, contudo, ao perceber que o corpo não passa de um mecanismo, promoveu a ideia de que a consciência se acha presa num modelo mecânico, e que o sofrimento humano é, a esse respeito, mecanicamente provocado: vós conferis ao mecanismo simplesmente peças melhores por, desse modo, tudo vir a ficar bem (com ar divertido). A ciência opera igualmente à semelhança de uma magia, claro está, pelo que em certas ocasiões a própria crença na ciência aparentemente opera milagres: um órgão cardíaco novo habilitará o indivíduo, por exemplo, a ter um coração novo.

A enfermidade é utilizada como parte das motivações do homem. Aquilo que quero dizer é que não existe motivação humana que não possa numa ou noutra altura estar envolvida com a doença, por frequentemente consistir num meio para alcançar um fim desejado – um método para a obtenção de algo que o indivíduo poderá pensar não conseguir atingir de outro modo. Um homem poderá utilizar a enfermidade para atingir o êxito. Poderá utilizá-la para alcançar o fracasso. Uma pessoa pode utilizá-la como meio de mostrar orgulho ou humildade, obter atenção ou escapar a essa mesma atenção. A enfermidade constitui frequentemente um outro modo de expressão, mas em parte nenhuma menciona a ciência que a doença possa estar imbuída do seu objectivo, ou grupo de objectivos, e o que quero dizer é que os próprios objectivos são eles próprios depreciativos. Frequentemente, as enfermidades não passam de tentativas mal conduzidas para atingir algo que a pessoa acha necessário.

A doença pode representar uma medalha de honra ou desonra – mas parece não resultar dúvida nenhuma, quando olhais o retracto humano, que em certa medida, mas em certo grau de importância, o sofrimento não só possui os seus objectivos e fins, como também é activamente buscado por uma ou por outra razão.

A maioria das pessoas não busca uma experiência extrema de sofrimento, mas por entre esses extremos existem múltiplos graus de estímulo que poderiam ser considerados como dolorosos, e que são procurados de uma forma activa. O envolvimento que o homem tem com os desportos constitui um exemplo imediato, claro está, em que as recompensas da sociedade e a promessa de resultados corporais espectaculares conduzem os atletas a actividades que seriam consideradas como bastante dolorosas pelo indivíduo comum. As pessoas escalam montanhas, dispondo-se de boa vontade a submeter-se a uma boa medida de sofrimento na persecução dos seus objectivos. Não quero que nada disto soe demasiado simplista, mas temos que começar por algum lado, num tipo de debate destes... Isto está longe de abarcar a história toda (da enfermidade) mas é suficiente para a saga desta noite. Quando puderes, incentiva a tua fina esposa a seguir o teu exemplo de determinação no sentido de não se preocupar. Esse devia ser o primeiro mandamento.

Continuando o debate acerca do sofrimento.

Por vezes sinto como se esperassem que eu justifique as condições da vida, onde claro está que elas não necessitam de nenhuma justificação dessas.

As crenças que sustentais deixam-vos de fora de boa parte de conhecimento de outra forma bastante disponível respeitante à psicologia do homem – conhecimento que serviria para vos responder a muitas questões geralmente equacionadas relativamente às razões do sofrimento. Outras perguntas, é verdade, tornam-se mais difíceis de responder. Todavia, os homens e as mulheres nascem com uma curiosidade em relação a todas as sensações, e em relação a todas as possíveis experiências de vida. Têm sede de experiências de todo o tipo. A curiosidade que sentem não se limita ao bonito nem ao mundano. Homens e mulheres nascem com o desejo de ir além dos limites, a fim de explorarem onde nenhum homem tiver explorado antes.

Homens e mulheres nascem com um sentido do drama, uma necessidade de excitação. A própria vida consta de excitação. O humor mais silencioso cavalga o ímpeto espectacular da actividade molecular. Esqueceis muitas das vossas inclinações bastante naturais, sensações, e fantasias íntimas à medida que vos ides tornando adultos, por deixarem de ter cabimento no retracto do tipo de pessoas, ou experiência, ou espécie que ficastes a saber que sois. Em resultado, muitos dos eventos das vossas vidas que constituem extensões naturais dessas sensações ou sentimentos parecem-vos estranhos, em face dos profundos desejos que tendes, ou quando vos são atiradas para cima, quer por agentes externos ou por um subconsciente travesso. Os pensamentos dos catraios fornecem excelentes pistas quanto à natureza do género humano, mas muitos adultos não recordam quaisquer pensamentos de criança excepto aqueles que encaixam, ou parecerão ter cabimento, nas crenças que têm sobre a infância. As crianças têm brincadeiras em que são mortas. Tentam imaginar com o que se parecerá a morte. Imaginam a que se assemelhará cair de um muro tipo Humpty-Dumpty, ou a partir o pescoço. Imaginam papéis trágicos com um abandono muito mais criativo do que imaginam papéis que os adultos possam aprovar. Frequentemente têm bastante noção de sentirem “vontade” de ficar doentes, de modo a saírem de situações difíceis – assim como de terem vontade para se sentir de novo bons. (Com humor)

Elas rapidamente aprendem a esquecer a parte que assumem em tais episódios, pelo que mais tarde, quando dão por si como adultos doentes, não só esquecem desde logo que foram os causadores da doença, como infelizmente esquecem como voltar de novo a ficar bons. Conforme disse, existe toda a espécie de sofrimento, e eu estou a encetar um debate a que deverei dar, vez por outra, continuidade por entre os ditados regulares que faço do meu livro, de um modo bastante generalizado. Particularmente em épocas passadas, apesar do costume não ter fenecido, os homens purgavam-se, usavam cinzas e batiam a si próprios com correntes, passavam fome ou privavam-se de alimentos. Sofriam, por outras palavras, por motivos religiosos. Não se devia unicamente ao facto de acreditarem que o sofrimento fosse bom para a alma – uma declaração que tanto pode como não corresponder ocasionalmente à verdade, mas eu hei-de abordar isso mais tarde – todavia eles compreendiam outra coisa completamente diferente: o corpo não será acometido por tanto sofrimento quando liberta a consciência. Por isso, esperavam alcançar o êxtase religioso.

O êxtase religioso não necessita do sofrimento físico como estímulo, e tal meio, no total, vai operar contra a compreensão religiosa. Tais episódios, contudo, representam uma das formas pelos quais o homem pode activamente buscar o sofrimento como um meio destinado a um outro fim, e não vem ao caso dizer que tal actividade não seja natural, já que tem existência no quadro da natureza. A disciplina constitui uma forma de sofrimento aplicada, conforme é habitualmente empregue. Não se ensina as pessoas a compreenderem as grandes dimensões da própria capacidade de experimentar. Torna-se natural que uma criança sinta curiosidade em relação ao sofrimento, e sinta vontade de saber em que consiste, e o queira ver – e ao fazer isso ele ou ela aprenda a evitar o sofrimento que não deseja, e auxilie os outros a evitar o sofrimento que não desejam, e a compreender, mais importante ainda, os graus da emoção e da sensação que são seus por herança. Enquanto adulto não infligirá sofrimento nos outros se ele o compreender, por se permitir sentir a validade das suas próprias emoções.

Se negardes a vós próprios a experiência directa das vossas próprias emoções e as suprimirdes, digamos, por meio de uma disciplina demasiado estrita, nesse caso sereis capazes de magoar os outros com muito mais facilidade, por projectardes o vosso estado emocional amortecido neles – como nos campos de prisioneiros Nazis, em que os homens cumpriam ordens, e torturavam os outros – e fareis isso antes de mais ao amortecerdes a vossa própria sensibilidade em relação à dor, e pela repressão das vossas próprias emoções. A vulnerabilidade do homem à dor ajuda-o a sentir simpatia pelos outros, e consequentemente, ajuda-o a aliviar de uma forma activa quaisquer causas desnecessárias de dor que existam na sociedade.

Cada experiência que as pessoas fazem de um carácter doloroso é igualmente registada  por parte do que chamamos de mente do mundo. Cada, digamos, fracasso,  ou problema não resolvido que resulte em sofrimento, torna-se parte da experiência do mundo:  De um ou outro modo” não funciona, ou “de um ou outro modo” já foi tentado e deu péssimos resultados. Consequentemente, desse modo até mesmo as fraquezas  ou os fracassos do sofrimento são resolvidos, ou melhor, redimidos ou são feitos ajustamentos à luz dessa informação. A esse respeito, cada um vive a sua vida de forma privada, e ainda assim, por toda a humanidade. Cada pessoa tenta novos desafios, novas circunstâncias, novas conquistas a partir de um ponto de vista único, por si assim como pela humanidade inteira.

Uma vez mais, o vosso mundo não foi criado, por nenhuma Deus objectivo exterior que o tenha criado a partir de fora, digamos assim, e posto em marcha. Muitos teóricos religiosos acreditam, por exemplo, que um Deus assim tenha criado o mundo desse jeito, e que o processo de decadência tenha começado quase no mesmo momento hipotético em que a criação terminou. Tal ideia assemelha-se bastante a algumas ideias científicas, que percebem que a energia do universo esteja a esgotar-se e a dissipar-se, e que vêm a sua ordem gradualmente a desintegrar-se no caos. Ambas as versões concebem uma criação acabada, apesar duma constar de uma produção divina e da outra resultar de nada mais do que casualidade.

De todo em todo, no entanto, estamos a referir-nos a uma criação constante, apesar de precisar explicá-la por séries. Estamos a debater um modelo de universo em que a criação é contínua, e que ocorre espontaneamente por toda a parte e  em simultâneo, numa espécie de presente espacial, de que todas as experiências feitas no âmbito do tempo emergem. Neste modelo existe sempre uma energia nova, e todos os sistemas se acham abertos, apesar de parecerem operar em separado. uma vez mais, estamos a considerar um modelo que está baseado numa cooperação activa de cada uma das suas partes, que de um ou de outro modo também tomam parte na experiência do Todo.

Sob um tal modelo, as alterações da forma são o resultado de sínteses criativas. Este modelo é encarado como tendo origem no quadro de uma subjectividade divina, infinita e vasta – uma subjectividade que se encontra em cada unidade de consciência, seja em que grau for. Uma divindade subjectiva, nesse caso, que tem lugar na própria criação, uma criatividade multidimensional de proporções tais que é por si só o criador e as suas criações ao mesmo tempo.

Esse processo psicológico divino – mas processo não é o melhor termo a empregar aqui – esse processo divino de relacionamento forma a partir do seu próprio ser mundos dentro de mundos. O vosso universo não é o único. Nada existe isoladamente na natureza, e nessa medida a própria existência do vosso universo pressupõe a existência de outros.
Eles foram e são, e serão, criados do mesmo modo que eu expliquei – e uma vez mais, todos esses sistemas se encontram em aberto, ainda que em termos operacionais pareçam não estar. Existe literalmente um número infinito de sequências, activadas sem qualquer mancha, que tornam a existência do vosso próprio mundo possível. Admito que por vezes seja inconcebível para mim que um ser humano possa imaginar que o seu mundo seja destituído de sentido, porque a própria existência de um corpo humano fala por uma quase inacreditável cooperação molecular e celular que dificilmente poderiam resultar da magnanimidade das mais auspiciosas obras do acaso.

De certa forma, o vosso universo assim como todos os outros brotam de uma dimensão que constitui a fonte criativa de todas as realidades – um universo básico de sonho, digamos assim, um leito psicológico divino onde o ser subjectivo é incentivado, iluminado, estimulado, perfurado por parte do seu desejo infinito de criatividade. A fonte do seu poder é de tal modo vasta que o produto das suas imaginações se torna mundos, mas é dotado de uma criatividade de um tal esplendor que ele busca a melhor realização, por até mesmo o mais insignificante dos seus pensamentos e todos os seus potenciais serem direccionados com um bom propósito que se situa literalmente além de qualquer imaginação. Esse bom propósito torna-se evidente no vosso mundo, e torna-se óbvio nos empreendimentos de cooperação existentes entre, digamos, o reino mineral, o reino das plantas, o reino animal, no relacionamento existente entre a abelha e a flor. Mas nas crenças contrárias que mantendes, fechastes a mente à natureza cooperativa do homem, ao seu desejo de companheirismo, à inclinação natural que tem para tomar conta dos outros, e para com o comportamento altruísta que tem. Mas iremos debater essas questões mais á frente, neste livro.

O estado de vigília tal como o concebeis constitui uma extensão especializada do estado do sonho, e emerge dele para a superfície da vossa consciência, do mesmo modo que os vossos locais físicos são extensões específicas de locais que têm existência em primeiro lugar no domínio da mente. O estado de vigília tem, pois, a sua origem no estado do sonho, e todos os objectos, meio, e experiência que vos são familiares no estado de vigília também têm origem nessa dimensão interior. Todavia, quando examinais o estado do sonho, fazeis isso por regra a partir do enquadramento da realidade de vigília. Tentais mensurar a dimensão da experiência do sonho aplicando as regras da realidade que vos servem de critério usual para o julgamento dos acontecimentos. Consequentemente, não vos habilitais a perceber as verdadeiras características do estado do sonho excepto naquelas poucas ocasiões em que acordais em meio aos sonhos que estiverdes a ter – uma questão que discutiremos mais tarde neste livro. Mas de certa forma, é verdadeiro afirmar que o universo tenha sido criado do mesmo modo que os pensamentos e os sonhos que tendes são criados: de forma espontânea e ainda assim, dotados de uma formidavel ordem intrínseca, e uma organização interior. Vós sonhais os vossos sonhos e pensais as ideias que tendes sem nenhum conhecimento claro dos incríveis processos envolvidos, e no entanto esses mesmos processos são os mesmos que se situam na base da existência do próprio universo.

Além disso, de certo modo, vós próprios sois os antigos sonhadores que sonharam a projecção da existência do vosso mundo. Precisais entender que não estou a referir que sejais sonhadores passivos ou fugazes, perdidos em alguma mente divina, mas que sois as únicas manifestações criativas de uma inteligência divina cuja criatividade é responsável por todas as realidades, as quais são elas próprias dotadas de capacidades criativas próprias e do potencial e desejo de realização – herdeiros, de facto, dos próprios processos divinos. A espontaneidade conhece a sua própria ordem; já o disse muitas vezes. Partes do mundo reúnem-se de forma espontânea, com uma ordem que basicamente desafia as pequenas leis da causa e do efeito ou do antes e do depois. A esse respeito, uma vez mais, o vosso estado do sonho apresenta-vos muitas pistas acerca da fonte das vossas próprias vidas e das do vosso mundo.

Os computadores, por mais complicados e grandiosos que sejam, não são capazes de sonhar, e assim, a par com todos os seus incríveis bancos de dados informativos, eles apresentam uma falta do conhecimento inexpressivo que a mais pequena das plantas ou semente possui. Tampouco poderá qualquer porção de informação que qualquer computador “possua” ou processe comparar-se com esse saber do conhecimento silencioso que é possuído pelos átomos e moléculas que compõem tal instrumento. O computador não se encontra equipado para tal tipo de esforço por não poder sonhar. Nos sonhos, o conhecimento inato dos átomos e das moléculas é combinado e traduzido, e serve como o leito da informação e do conhecimento perceptivo do qual o estado do sonho brota na sua forma física.

Isso serve de leito da informação perceptiva e conhecimento de que o estado do sonho surge na sua forma física. Vós encontrais-vos subjectivamente vivos antes de nascerdes. Haveis de permanecer subjectivamente vivos após terdes falecido. A vossa vida subjectiva é actualmente interpretada por meio do estado especializado de consciência a que chamais desperta, na qual apenas reconheceis como real a experiência que tem cabimento em certas coordenadas de espaço e de tempo. A vossa realidade mais vasta existe fora de tais coordenadas, assim como a realidade do universo. Vós criais vidas para vós próprios, e mudai-las à medida que avançais, tal como um escritor pode mudar de livro, alterar as circunstâncias, e mudar as tramas. O escritor apenas compreende que ele ou ela cria sem compreender a ordem espontânea com que tal criatividade ocorre. O processo dá-se a um outro nível da consciência. Na mais básica das formas, o mundo é formado de dentro para fora, e procede da realidade do sonho para a realidade física – e tais processos ocorrem num outro nível de consciência.

Quando o Homem dispunha apenas do seu corpo de sonho, gozava de uma notável liberdade, claro está, porque esse corpo não necessitava de ser nutrido nem agasalhado. Não precisava sujeitar-se à lei da gravidade. Os homens conseguiam perambular ao longo da paisagem. Ainda não se identificavam em nenhum grau significativo em separado quer do ambiente quer das outras criaturas. Tinham conhecimento de ser quem eram mas as suas identidades não chegavam a aliar-se das suas formas como actualmente acontece. O mundo do sonha estava fadado ao despertar, porém, por ter sido nesse curso que teria sido estabelecido. Tal despertar, uma vez mais, ocorreu de forma espontânea, a ainda assim dotado da sua própria ordem. Para os termos deste debate, as outras criaturas da Terra na realidade despertaram antes de o Homem o fazer, e para falar em termos relativos, os seus corpos de sonho formaram-se a si mesmos em corpos físicos antes dos do Homem o fazerem. Desse modo, os animais tornaram-se eficientes em termos físicos, enquanto em certo grau o Homem ainda permanecia nessa realidade do sonho.

As plantas despertaram antes dos animais – e existem razões para esse grau variado de “despertar” que nada têm basicamente a ver com a diferenciação das espécies conforme definidas pela ciência, a partir do exterior, mas que têm que ver com a filiação interior da consciência, e com as espécies ou famílias da consciência. Tal filiação chegou a tornar-se nas consciências todas que embarcaram na realidade física divididas em criações de uma criatividade inimaginável que viriam a ser responsáveis pelo mundo físico efectivo.

Uma vez mais, o meio conforme o pensais era composto de consciência vivente. As religiões da antiguidade, por exemplo, falam dos espíritos da natureza, e esses termos representam recordações que datam da pré-história. Parte da consciência, pois, transformou-se no que pensais em termos da natureza – na vasta amplitude dos continentes, dos oceanos e dos rios, das montanhas e dos vales, no organismo da terra. O impulso criativo do mundo físico deve brotar dessa estrutura viva.

De certo modo, as aves e os insectos constituem realmente porções vivas da Terra que  voam, tal como, uma vez mais, os ursos e os lobos e as vacas e os gatos representam a Terra a tornar-se nas criaturas que vivem à sua superfície. E de certo modo, uma vez mais, o homem tornou-se na Terra que pensa, e ao moldar os próprios pensamentos, o homem a seu modo especializou-se no trabalho consciente do mundo – um trabalho que depende do trabalho indispensável “inconsciente” do resto da natureza, uma natureza que o sustenta. E quando ele pensa, o homem pensa para os micróbios, para os átomos e as moléculas, para as diminutas partículas que compõem o seu ser, para os insectos e para as pedras, para as criaturas dos céus e para o ar e os oceanos. O Homem pensa de modo tão natural quanto as aves voam. Ele encara a realidade física pelo resto da realidade física: ele representa a Terra a tornar-se viva a fim de se perspectivar através de olhos conscientes – mas tal consciência é agraciada por ser parte de tal modo íntima do quadro da Terra. Como foi quando o Homem despertou do mundo do sonho?

CONTINUA NA PARTE 2