domingo, 18 de setembro de 2011

HAN SHANG






POESIA DE HAN SHAN

Tradução: Amadeu António


O autor deste trabalho foi um leigo budista que viveu como eremita no monte Han-Shan (montanha gelada), no maciço de T'ien-t'ai, local renomado por albergar numerosos eremitas tanto pertencentes à corrente budista como taoísta. Ainda que as datas referentes à sua vida não sejam do nosso exacto conhecimento, supõe-se que tenha vivido lá pela metade do século VII, na China da Dinastia Tang. Os poemas que gravava pelos arredores da sua ermida, sobre penedos, árvores, muros, e casas, segundo a lenda, celebravam o modo de vida libérrimo que levava, não regido por regras de moral profana nem por qualquer tipo de ortodoxia religiosa. Posteriormente, esses poemas foram reunidos numa antologia intitulada "Poemas da Montanha Gelada".

Depreende-se dos seus poemas, em que abundam referências ao Tao te Ching e a Chuang Tzu, Han-shan (Kanzan, em japonês) era mais um taoista que viva em reclusão do que um monge do Ch'na, não obstante parecer ter sido um adepto deste último movimento, pois de tempos a tempos prestava visita ao mestre Feng-kan, a fim de obter dokusan, no mosteiro de Kuo-ching que se situava não muito distante da montanha fria.
A lenda refere que, por vezes, passeava-se durante horas pelos corredores do mosteiro, vez por outra deixando escapar um grito de entusiasmo ou alegria, ou então desatando a rir ou a falar lá para com os seus botões. Quando lhe ordenavam alguma tarefa ou o conduziam ao exterior, costumava permanecer imóvel ou desatar a rir-se e a bater palmas, e por fim lá desaparecia de vista. O que, na maior parte se sabe sobre ele tem origem na estranha intuição partilhada por aquilo que em cada um de nós tem de livre, além do escrito por um determinado oficial da dinastia Tang chamado Lu chin, para o prefácio da sua obra de poemas:

"Ele assemelhava-se a um vagabundo, com um rosto e corpo muito envelhecido e um ar abatido. No entanto, em cada palavra que pronunciava deixava antever um sentido que se aferia pelo princípio subtil das coisas, se o quisermos entender como uma coisa profunda. Tudo aquilo que dizia possuía um sabor a Tao e a profundos arcanos secretos. Usava um chapéu feito de casca de bétula, um traje esfarrapado e gasto e sapatos de madeira. Assim ocultam os seus passos aqueles que se realizam: interpretando as coisas através de uma união de diferentes categorias."

Han-shan soube realizar o Dharma de Buda melhor que a maioria dos monges daquele mosteiro e desse modo tornou-se em toda a literatura Zen um arquétipo do leigo iluminado que se apoia unicamente na experiência pessoal de seguir o Caminho de Buda, sem se ligar a nenhuma escola em particular nem qualquer disciplina severa. A alegria serena que emanava tornou-se expressão de uma fé inquebrantável inerente à experiência da Verdadeira Natureza.
Entre os muitos exemplos existentes na sua poesia, destaca-se, por exemplo, o seguinte:

"Eu escolhi viver neste lugar distante: T'ien-t'ai; que mais será preciso dizer?
Os macacos urram, aqui onde o nevoeiro é gélido. O meu portal de relva difunde-se por entre o colorido dos penhascos. Colho folhas para cobrir o abrigo que construí entre os pinheiros, escavo um lago e faço encaminhar para ele o regato a partir da fonte. A apanhar fetos vou passando os anos que me restam."


O Texto


1

Quando se prega a verdade junto daqueles que atingem somente o mundo ilusório do ego, prega-se em vão. Como são tolos os que voltam as costas ao real, ao verdadeiro e duradouro, e em vez disso perseguem as sombras fugazes do mundo aparente, sombras essas que não passam de meros reflexos no espelho do ego.
Descuidando-se de perscrutar por baixo da superfície, aqueles que assim se deixam enganar, satisfazem-se com o mero arrebatamento que as imagens proporcionam. Pensam que a energia eterna decorrente do mundo físico seja passível de ser moldada em termos de carácter ou forma definitivos- carácter ou forma que possam nomear e valorizar, para depois, como senhores delas, as poderem dominar.
As coisas materiais não possuem vida própria que o ego possa revivificar. Do mesmo modo como aquele que é senhor sobre as coisas, e devido à natureza do seu propósito, se torna apegado àquilo que domina- o ego- quando se apega aos objectos materiais torna-se regente de todo um reino de fantasmas.
A verdade é para aqueles que querem viver. Aquilo que é permanente não poderá ser suportado pelo efémero. Não podemos encontrar uma alegria duradoura nem autentica no mundo do ego, feito como é de ilusões cambiantes. Ninguém poderá saciar a sua sede numa fonte feita de uma miragem.



2

Há também aqueles que, pretendendo ter alcançado a iluminação, insistem que são capazes de perceber a natureza da realidade degenerada, gabando-se de serem imunes à afectação do mal do materialismo e depois procuram fazer provar essa imunidade afastando-se cuidadosamente de todas as formas de satisfação terrena. Porém, também eles se acham nas trevas


3

Tampouco estão correctos aqueles que se dedicam a expor a fraude com relação a todo o objecto dos sentidos com que se deparam. Na verdade, a percepção dos objectos materiais dá lugar ao surgimento do desejo insaciável, no coração. Em boa verdade, uma vez que compreendamos o quanto tais objectos aparentes são essencialmente destituídos de valor, esses mesmos desejos serão reduzidas a tímidas expressões do pensamento. Todavia, podemos não limitar a nossa prática espiritual à disciplina de dissiparmos a ilusão. Há mais no Dharma da Verdade do que a compreensão da natureza da realidade.


4

Qual será o melhor método para podermos romper o apego pelas coisas materiais? Antes de mais, necessitamos da lâmina bem afiada do espírito crítico - de modo a abrir caminho por entre as aparências, e expor o real. Começamos por fazer questão de tomar consciência pelo modo como rapidamente nos tornamos insatisfeitos com as coisas materiais e pela forma breve como os nossos prazeres sensoriais se desvanecem de igual modo, para dar lugar ao descontentamento. Dotados de uma persistente atenção afiamos e aguçamos essa lâmina. Em pouco tempo perceberemos como raramente necessitaremos de a utilizar e teremos eliminado todos os velhos desejos de forma que não mais seremos incomodados por nenhum outro.


5

Aqueles que buscam a verdade e habitam no mundo secular utilizam as suas actividades diárias como ferramenta de polimento. Exteriormente podem aparentar estar demasiado ocupados, à exacta semelhança do aço a bater na pederneira e a provocar faíscas por todo o lado. Contudo, interiormente, eles desenvolvem-se em silêncio. Porque, conquanto possam esforçar-se no seu trabalho, eles empreendem o que fazem pelo próprio trabalho e não pelo proveito que dele possam obter. Desapegados dos resultados do seu labor, transcendem todo o frenesim movido com o fim de alcançar a tranquilidade essencial do Caminho. Mas, será que o ribeiro acidentado e agitado tão cheio de cascatas também não faiscará nem cintilará como pedras de pederneira a bater- enquanto vai polindo toda a pedra que encontra no Caminho, até alcançar o polimento?


6

Para o mundo ilusório do ego, todas as coisas se acham num fluxo constante. Todavia, a mudança contínua significa um caos constante.
Quando o ego se perspectiva como o centro de uma imensa actividade em tumulto, torna-se incapaz de experimentar a harmonia cósmica.
Por exemplo, aquilo que o ego considera ser um furacão devastador é, tanto quanto concerne ao próprio universo, um evento perfeitamente natural, e um elo na cadeia interminável da causa e efeito. Por ser destituído de qualquer forma de ego, o universo preserva a própria existência sem formar juízos de "furacão" ou "brisa marítima".
Quando nos esvaziamos do ego, também nós somos capazes de prosseguir na serena aceitação da variação dos acontecimentos da vida. Quando deixamos de estabelecer distinções que nos prejudicam, tais como amável ou rude; belo ou feio; bom ou mau- então a nossa mente será permeada por uma tranquila imobilidade. Se não comportarmos nenhuma forma de ego, então não resultará agitação nenhuma.


7

Tanto a nossa mente como o corpo são, por natureza, puros; contudo, nós conspurcamo-los através da prática de pensamentos e obras ímpios. Para podermos restabelecer-nos na nossa pureza original precisamos somente de desembaraçar-nos de toda a poeira acumulada. Mas, de que modo haveremos de proceder a tal higiene? Colocando uma barreira entre nós e a ocorrência dos nossos maus hábitos? Será que nos afastamos dos locais de tentação? Não.
Por evitarmos simplesmente o combate não podemos reclamar vitória. O inimigo não está ao nosso redor mas em nós mesmos. Temos que confrontar a nós mesmos e procurar compreender as nossas fraquezas. Temos de olhar com honestidade para nós próprios, para as nossas relações e posses e interrogar-nos de que forma a nossa auto-indulgência nos beneficiará. Trará ela felicidade? Com certeza que não.
Se formos escrupulosamente honestos, teremos de admitir que o nosso egotismo tolo é o que nos mancha. Mas tal assunção é difícil de admitir. Bom, se quisermos derreter o gelo temos de fazer uso do calor; quanto mais fizer calor, mais rápido o gelo se fundirá. O mesmo ocorre com a sabedoria; quanto mais intenso for o nosso escrutínio, mais depressa atingiremos a sabedoria. Quando, em termos de sabedoria crescermos em vantagem, mais diminuiremos o nosso eu egotista. Desse modo deverá ter fim toda a disputa.


8

Alturas há em que agimos com posse de uma fé inabalável na Verdade, ainda que não compreendamos a situação em que podemos encontrar-nos. Já noutras Obtemos compreensão com relação à nossa situação e, ainda assim, temos receio de ser completamente fiéis. Num caso usamos do coração; no outro fazemos tão só uso da mente. Porém, devemos juntar ambos esses aspectos! Compreensão e fé!


9

Com um pequeno fulcro, um carregador pode mover uma carga de toneladas. Com um único pensamento de cobiça se pode arruinar anos de integridade. O pensamento de cobiça é a raiz do medo e da confusão; deverá crescer sempre de modo selvagem e o proveito material que produzir será na realidade pequeno. Agir destituídos de cobiça e perder desse modo algum proveito material, constitui perda de pouca monta. Mas perder a própria integridade, isso sim, é, verdadeiramente, uma perda irreparável! Todo o indivíduo esclarecido mantém respeito e temor por esse "fulcro".


10

Porque se esforçam as pessoas? Quer pelo dinheiro ou pela fama, por obter relações bem-sucedidas ou então pela busca da verdade.
Bom, um homem pode tornar-se muito rico e ainda assim tornar-se objecto do ódio da família. Um outro pode receber a estima de toda a gente e não ter um centavo em seu nome. Já um terceiro pode ser saudado pelos seus concidadãos como um herói, e descobrir que não possui provisões nem o carinho que a família pode proporcionar. Geralmente temos tanto empenho por conseguir determinado objectivo isolado que os demais deixam de se tornar uma possibilidade.
Mas, que dizer do indivíduo que luta por alcançar a verdade? Se ele for bem-sucedido, terá conseguido por meio dessa única realização, muito mais do que os outros três juntos. Àquele que atinge a verdade não faltará nada.


11

Ponha-se um peixe fora de água e ele sentirá saudade do mar até morrer. Ponha-se um pássaro numa jaula e apesar disso ele não se esquecerá jamais do céu. Qualquer deles permanecerá saudoso com relação ao seu verdadeiro lar- o local que a sua natureza decretou dever ser seu.
O homem nasce no estado de inocência. A sua natureza original é o amor, a graça e a pureza. Ainda assim peregrina de tal modo ao acaso que nem mesmo preserva um pensamento com respeito ao seu velho lar. Não será isso muito mais triste do que aquilo que se dá com os peixes e os pássaros?


12

Aqueles que perseguem o dinheiro acham-se constantemente apressados e ocupados com questões de urgência. Aqueles que perseguem a verdade avançam lentamente e com toda a facilidade. "Aborrecedor" direis vós? Talvez. Talvez seja definitivamente maçante deter-se e cheirar uma flor ou escutar um pássaro. Talvez o cintilar do ouro seja realmente mais deslumbrante do que a visão do nosso Rosto Original. Ou talvez aquilo que precisemos seja uma melhor definição do conceito de "tesouro".


13

A atmosfera do coração devia ser sempre clara, soalheira e calma. A única altura em que o tempo pode ficar pior é quando se formam nuvens de cobiça e de apego. Essas sempre acarretam tempestades de preocupação e confusão.


14

Uma única mancha no olho pode fazer desbotar a visão perfeita e levar-nos a perceber imagens a dobrar ou a triplicar. Um único pensamento sujo confunde a mente racional. Muitos erros de julgamento podem originar-se disso. Removei essa mancha e vereis com toda a clareza! Removei esse pensamento impuro e podereis pensar com toda a clareza!


15

Uma grande realização compõe-se de minúcia detalhes. Aqueles que são bem-sucedidos no atingimento da Realidade, tiveram de dar atenção a cada parcela diminuta. Aqueles que falharam, ignoraram ou então consideraram com bastante ligeireza aquilo que julgaram insignificante. O indivíduo esclarecido não deixa passar coisa nenhuma em claro.


16

Porque prezam as pessoas tanto os objectos? Uma pedra preciosa é virtualmente inútil e um sabre dourado não é melhor do que um simples. Mas o homem valoriza mais o ouro por ser raro, duradouro e brilhante. De modo que é levado a pensar que, se o possuir, também ele, por sua vez, se tornará raro e único e que o seu valor pessoal perdurará, de forma que assim possa também ser considerado uma pessoa brilhante. Mas pode tornar-se de tal forma obcecado com tais noções tolas que, ao procurar obter ouro ele pode destruir a própria vida que tenta embelezar.
Presas das trevas do engano, os não-iluminados crêem poder glorificar-se se reflectirem as qualidades do que puderem designar como propriedade sua.
Aqueles que levam uma vida de esclarecimento, prontamente serão capazes de discernir que as qualidades de um objecto não se transferem para o seu possuidor. Nem uma pilha de tesouros amontoados no seu caminho conseguirá obstruir-lhes a percepção, e são mesmo capazes de discernir através dela.
Ouro na carteira não é o mesmo que ouro no carácter.


17

Observai aqueles que tratam os tigres como animais de estimação. Até mesmo enquanto se riem e brincam com eles temem, nos recessos das suas mentes, que os seus bichinhos de estimação se voltem contra eles, e jamais se esquecem do perigo que representam.
Mas, o que dizer das pessoas que cobiçam posses e se tornam indulgentes pela aquisição sistemática? Esses permanecem completamente inconscientes de todo o perigo.
No entanto, o tigre só pode ofender-lhes a carne, ao passo que a cobiça pode devorar-lhes a alma.


18

É fácil fazer a coisa acertada, quando se sabe o que fazer. Todavia, não podemos confiar no instinto como meio para se descobrir a verdade; precisamos ser conduzidos por ela.
Uma vez que o caminho nos tenha sido revelado, e tenhamos empreendido a sua escalada, descobriremos que a cada passo crescemos em sabedoria e força interior. Se olharmos para trás, perceberemos quantos dos nossos velhos desejos terão ficado à margem. Parecer-nos-ão tão débeis, ali deixados de lado que até nos admiraremos da razão porque chegamos a sentir falta de coragem para lhes resistir.
A escarpa da sabedoria não se assemelha a nenhuma outra coisa. Quanto mais subirmos mais fortes nos tornamos.


19

As pessoas procuram constantemente o caminho fácil. O difícil- aquele que se aprende através da experiência das dificuldades e da consciência da dor- esse não lhes inspira qualquer interesse. Aquilo que procuram é um atalho qualquer.
Os autênticos buscadores da verdade temem tais atalhos. Eles sabem demasiado bem que se não se esforçarem não poderá resultar nenhum sentido de realização. E é esse sentido que os mantém no caminho. Aqueles que não conseguem apreciar os esforços da escalada, têm falta de compreensão quanto à consciência do que foram, do que são, e da determinação para continuar essa escalada. Razão por que, jamais chegam a atingir a verdade.


20

Quais serão os dois objectivos comuns a todos quantos habitam este mundo? Fama e riqueza. As pessoas dispõem-se a perder tudo a fim de conseguir tais objectivos, incluindo a saúde corporal, da mente e do espírito. Não é lá grande coisa essa troca- será? A riqueza e a fama mundanas esvaem-se com tal rapidez que nos chegam a fazer interrogar sobre qual das duas chega a perdurar mais- se o dinheiro, a fama ou o homem...
No entanto, considere-se o objectivo da iluminação- o alcance da riqueza da verdade. Aqueles que alcançam tal objectivo, adquirem vigor corporal, vivacidade de espírito, penetração e serenidade...
Por toda a eternidade!


21

Existem aqueles que, conquanto nada tenham realizado, se tornam coniventes do acto de receber honras próprias de posições de elevada autoridade. Bom, aqueles que obtêm prestígio sem que tenham trabalhado para o merecer, assemelham-se a árvores que não desenvolveram raízes, e que vivem no temor de que uma pequena rajada de vento os derrube.
A honra não merecida constitui um prenúncio de desgraça.


22

Os ricos são considerados com admiração por pouparem dinheiro; todavia, tudo aquilo que foi amealhado pode ser sempre ser gasto, e a admiração esvair-se juntamente com o dinheiro. O rei recebe da parte dos seus súbditos lealdade, por o considerarem estes possuidor de nobreza. Mas, se decidirem que ele procede mal, pode muito bem acontecer que venha a perder muito mais do que o seu trono. Aqueles que obtêm riqueza junto da Verdade e nobreza no cumprimento do Caminho, esses sempre preservarão essa sua riqueza e a fidelidade por parte das pessoas.


23

Por mais que tenha sido bem-sucedido na idealização dos seus crimes, ninguém se poderá considerar honrado por os ter cometido, pois que possui consciência de ter procedido mal. Por mais que se gabe, ninguém pode pretender possuir fama, ainda que seja capaz de escutar o seu nome mencionado por todo o lado por onde passe. Se adoptarem os modos dos santos, os monges poderão chegar a ser alvo de veneração, porém, um comportamento piedoso jamais fez de alguém um santo. Em que consiste a verdadeira honra, reconhecimento e piedade? Trata-se de qualidades internas, ao invés de actos ou aparências exteriores.
Quando a consciência de um homem é preservada de toda a mácula, ele torna-se honrado. Quando a reputação de integridade o antecede, ele torna-se famoso. Quando a humildade e a reverência pela verdade fluem com naturalidade através do seu carácter, ele torna-se alvo de estima.


24

Se nem mesmo um homem pode escapar às exigências decretadas por pai ou imperador, que poderão fazer se a morte os sentenciar? Podem protestar com amargura e bradar aos céus, contudo, terão de obedecer.
Aquele que berra mais alto é o que acha que atingiu os pináculos do sucesso mundano. Aquele que obtém esclarecimento espiritual, alcança compreensão sobre a vida e a morte. Esse sempre vive bem e jamais se queixa.


25

As pessoas pensam que lá por possuírem conhecimentos mundanos, já conhecem tudo. Todavia, isso não corresponde à verdade. Mesmo que dominemos um assunto, subsiste sempre uma margem para o erro. E quando até os melhores arqueiros erram o alvo, em certas ocasiões, que dizer dos medíocres?
Quando conhecemos a verdade, passamos a dispor de toda a informação de que necessitamos. Pouco importa que obtenhamos conhecimento adicional de factos adicionais, porque, a nossa reserva de conhecimento- conquanto possa ser bastante profunda e ampla- já se encontrará completa!..


26

Tudo, na vida, está sujeito à mudança. Existe somente uma excepção: A morte sempre segue a vida de modo inexorável. Não será estranho que as pessoas o não tenham notado e por isso assumam condutas de vida tal como se vivessem para sempre, sem sentir razão para se preocuparem com a morte?
É claro que, se realmente sentirem vontade de viver tanto quanto obviamente anseiam, é melhor que sigam a verdade.
Tanto a vida como a morte, e até mesmo a mudança, são transcendidas através da consumação da verdade.

27

Eu colho aquilo que os cultivadores menosprezam e rejeitam. Mas então, porque razão levarão eles os cestos vazios uma vez que o meu vai a transbordar de tanta comida boa? Eles simplesmente não reconheceram a sua Natureza Verdadeira quando a contemplaram.
Tudo na vida depende da escolha que fazemos.


28

Numa sociedade culta e refinada, se alguém anda com as mãos sujas logo será notado e encarado com desdém. Mas por que razão? O pobre tipo deverá sentir-se infeliz até que as vá lavar.
Mas, não será curioso que um indivíduo possa ser dotado de um carácter vincado pelo ódio e pela cobiça e ninguém preste a isso a mais pequena atenção, e a despeito disso pareça mover-se com todo o à-vontade?
É evidente que um carácter corrupto não é menos digno de nota que a mera sujidade das mãos. É tão simples restabelecer a limpeza de umas mãos sujas; basta lavá-las. Mas, o que dizer com relação à corrupção do carácter? Isso é outra questão inteiramente diferente.


29

Se uma pessoa carrega demasiadas preocupações mundanas, cedo o seu corpo se desgastará. Se ela se preocupa com demasiados problemas mundanos, em breve a sua mente entrará em colapso. Deixar-se ocupar desse modo com coisas materiais, constitui uma forma perigosa de viver e um desperdício insensato de energia. Uma pessoa deve simplificar as suas necessidades e fazer uso das suas forças a fim de poder alcançar objectivos espirituais.
Nunca ninguém arruinou a saúde ou o espirito por fazer uso da contenção no seu viver.


30

No final, qual será a diferença existente entre a dureza e o prazer? A dureza é um obstáculo, e um obstáculo é um desafio, e um desafio constitui uma possibilidade de exercitar a autenticidade de carácter. Que coisa será mais prazerosa do que isso?
As pessoas sempre temem a dureza, e atravessam a vida procurando evitar o difícil e abraçar o fácil. Comigo, passa-se justamente o contrário. Não faço distinção absolutamente nenhuma entre a dureza e o prazer. Quer o caminho diante seja fácil ou difícil, não hesito em empreendê-lo


31

As pessoas indignam-se e condenam os ladrões por atentarem contra os bens materiais. Eu preocupo-me com aqueles que atentam contra a alma. As pessoas actuam de forma a proteger as suas propriedades; erguem muros e sistemas de segurança, e no final enforcam os ladrões que apanham. Mas, que medidas tomarão para proteger o espírito de toda a corrupção e perda?


32

Um indivíduo dotado de um carácter franco e libérrimo há de ser amável no trato, humilde e desprovido de vontade e desejos. Um indivíduo imbuído de mau carácter sempre será rude, orgulhoso e presa da cobiça.
A amabilidade é um indicador de poder mais efectivo do que a rudeza. A humildade é mais digna de admiração do que a insolência. A liberdade é sempre preferível a toda e qualquer forma de escravidão. É óbvio que um indivíduo dotado de carácter leva melhor vida.


33

Existe proveito material e proveito espiritual. Para poder obter os objectos materiais do desejo, a mente busca o mundo exterior. Quando procura o ganho espiritual, volta a sua atenção para o coração.
Aquele que ignora o coração reforça o apego pelo mundo material. Aquele que busca a verdade atende ao seu íntimo e ao coração, pois é justamente aí que busca criar anelos.


34

Se tiverdes uma farpa enterrada na carne não podereis sentir-nos confortáveis. Pior do que isso, se não a tirardes, ela pode infeccionar. E toda a carne infeccionada torna-se necrótica.
Com relação ao coração passa-se justamente o mesmo; não nos podemos sentir confortáveis se nele se espetarem as farpas da cobiça. E, se não as arrancarmos, ele infecciona. Que fareis vós se a vossa alma chegar a fenecer?


35

Um desastre natural, ou aquilo a que se chama um 'acto do divino', não discrimina as suas vítimas e arruína todos por igual- seja rico ou pobre, bom ou mau. Sempre que actuam com prepotência sobre os demais, tenham em mente o exemplo dos desastres naturais, e assemelhem-se ao divino, na justiça a que recorrerem.


36

O melhor processo de converter os demais ao caminho da verdade, consiste em converter-nos a nós, primeiro. Tornai-vos um exemplo digno de ser seguido. Um único acto que brota de um carácter benigno torna-se mais convincente do que o discurso mais eloquente.


37

É mais fácil passarmos da pobreza à abundância do que o inverso. Qualquer um sabe disso. A pobreza assemelha-se à condição de nos debatermos em águas revoltas. Todavia, se um indivíduo puder permanecer desperto, sempre poderá achar uma saída. Mas a abundância é como seguir à deriva com toda a suavidade, ao sabor da corrente do rio. Pode acontecer de adormecermos e acordarmos somente quando estivermos no mar.
Acolham a dureza. Encarem a chuvada como uma imensa orvalhada. Temei os dias ensolarados, pois a escalada torna-se difícil quando o sol ardente se faz incutir nas costas.


38

A nossa Natureza Verdadeira permanece eternamente clara e radiante. Se formos incapazes de a distinguir, isso dever-se-á a que os nossos olhos se achem fortemente velados pelas trevas da emoção. Não se pode remover o pó com o pó, nem acalmar as emoções, fazendo uso das emoções. Posto isso, de que forma haveremos de remover esse véu? Através do uso da sabedoria da verdade. O esclarecimento remove o véu e ilumina a nossa Verdadeira Face.


39

A maior qualidade que a sabedoria possui reside em responder precisamente com aquilo que se fizer necessário. À semelhança do gume bem afiado de uma espada- apontada com um bom propósito- ela sempre golpeia o alvo. Quando crescemos em sabedoria, tornamo-nos capazes de compreender e controlar perfeitamente a mente. O indivíduo sensato é sempre generoso e atencioso. Ele sempre perspectiva aquilo que é necessário. É capaz de usar os flocos de neve para arrefecer o corpo sobre- aquecido, e faz uso da água fresca para mitigar a sede atroz.


40

O caminho fácil sempre se torna atractivo. Sendo assim, por que razão prefiro eu a via difícil? É que no caminho fácil tomamos as coisas como certas e definitivas e desse modo tornamo-nos indolentes e presa fácil do aborrecimento. No entanto, isso é receita de preocupação e perda. Já quando seguimos o caminho árduo precavemo-nos contra o desleixo pela atenção (interior), mesmo que só por um instante. Para podermos fazer face aos desafios temos de permanecer despertos. A resolução dos problemas torna a mente penetrante e fortalece-nos o carácter. Isso representa uma realização autêntica! Autêntico proveito!


41

Todos nós temos tendência para gostar daqueles que dão ouvidos aos nossos concelhos, e desgostar daqueles que os ignoram. Contudo, devíamos resguardar-nos de tal tendência.
Se permitirmos que as emoções nos influenciem, seremos culpados por ignorarmos os conselhos da verdade. Tanto o amor como o ódio podem infectar a nossa consciência e deitar a perder a nossa habilidade de perceber com clareza e observar com olhos livres de todo o preconceito. Sempre podemos tropeçar nas trevas, porém, quando controlamos as emoções, preservamos a luz.


42

As pessoas anseiam por toda a sorte de estímulos sensoriais de e apreciam todo o género de excitação externa. Contudo, considero que tal ânsia constitui uma forma de padecimento. Os estímulos sensoriais são auto gerados e proliferam para além da justa medida, acabando por desenvolver uma apetência crescente. Tratando de os satisfazer, as pessoas acabam por se destruir e destruir os outros. O poder da sabedoria constitui igualmente uma excitação interior. A felicidade que confere cresce na justa medida da capacidade que desenvolvemos de a fruir. Quando os esclarecidos são confrontados com a escolha entre formas de satisfação que tais, sempre escolhem a da sabedoria e da verdade.


43

Toda a forma de sucesso mundano possui o seu lado negativo. Quanto mais ricos nos tornamos mais tendemos a ser orgulhosos; quanto mais elevada a nossa posição se torna mais tendência temos a actuar de forma autoritária; quanto maior for a nossa ambição mais destituídos de respeito e atenção nos tornamos. Nos assuntos pertinentes à verdade, o sucesso opera de um outro modo: Quanto mais nos aprimoramos mais nos aperfeiçoamos!


44

As ondas fazem o mar acidentado; o moinho roda pela acção do vento. Retirai o vento e o mar tornar-se-á calmo; do mesmo modo também o moinho voltará ao estado de repouso. Para todo o efeito existe uma causa correspondente.
As vagas do desejo agitam a mente, neste mundo material, e mantêm-na em constante estado de agitação e procura de saídas em todas as direcções. Que coisa pensarão que aconteceria se eliminássemos o desejo?


45

Se a fonte estiver sem água, a corrente do riacho deverá tornar-se insignificante e incapaz de mover as pás de um moinho. Se as fundações de um edifício de cinco andares sofrerem um abalo, ele não poderá perdurar. Se as paredes de uma casa racharem, em breve os tectos entrarão em colapso. Profundidade e firmeza são atributos indispensáveis para que tudo resulte bem feito e possa perdurar. Os santos sempre souberam disso- razão porque, desde sempre se alicerçaram no Caminho da Verdade e se tornaram bastiões de rectidão inabaláveis que nada fará ruir. A sua iluminação há de constituir sempre um farol de orientação e inspiração para os outros, por gerações sucessivas. Por isso, não se contentem com o estudo nem com a memorização da verdade mas mergulhai tão fundo quanto puderdes.


46

A vista pode facilmente contemplar a vasta Terra e o Céu ilimitado, mas uma simples palha de linho é suficiente para obstruir a visão ocular. Um coração repleto de amor é capaz de se expandir por todo o universo, porém, um só pensamento detestável pode inibir-nos o coração e drenar todo o sentimento de amor que possuirmos. Jamais subestimeis o poder das coisas insignificantes. Os santos sempre manifestaram enorme consideração pelos pensamentos irrisórios.


47

Ainda que uma centena de eruditos vaticinem o fracasso, aquele que mantiver a confiança nas próprias capacidades, preservará e acabará por ser bem-sucedido. Ainda que enunciem o sucesso, aquele que dispuser de conhecimento ao invés duma confiança que brote da sensatez, falhará. O saber livresco por si só conduz à dúvida- o que por sua vez se tornará causa de confusão acrescida. Em tais condições, não poderemos desenvolver nenhuma autoconfiança. Todavia, a sensatez conduz à confiança e por sua vez inspirará o insight e a clareza de pensamento. Aqueles que se orientarem pela verdade, seguem pelos caminhos de sabedoria a fim de eliminar a dúvida e poderem empregar adequadamente o conhecimento.


48

Há não muito tempo atrás, quando uma pessoa ficava na sarjeta, havia de sentir uma tal vergonha que acabaria por se devotar, com todo o seu ser, a emendar os seus procedimentos, para não mais ter de voltar a tal situação. Hoje em dia, quando uma pessoa dá por si na sarjeta, ainda assim convida os outros a juntar-se-lhe. Isto é verdadeiramente triste, não será?


49

A única coisa de que podemos ter certeza é de não haver certeza de coisa nenhuma. O único facto que na verdade não muda é o facto de todas as coisas estarem sujeitas à constante mudança. Os santos cultivam a paciência; não importa em que situação se achem, eles aguardam com calma. São igualmente prolíferos no entendimento de que, em questões do coração, não é somente o objecto que sofre mudança mas também o sujeito se mostra inconstante. Por fim, o desejo pode muito bem ser a mais inconstante de todas as coisas.


50

Cultivai o hábito de vos deitardes cedo pois nisso reside o melhor regime para preservação de uma mente firme e serena. Aqueles que ficam a pé até tarde, gostam de se exibir e de entreter os amigos. De outro modo, sentir-se-ão aborrecidos e necessitarão de excitação. E mesmo que durmam até tarde, hão de sentir-se na mesma cansados e preguiçosos ao levantar-se, tanto corporal como mentalmente e não serão capazes de pensar nem de trabalhar com eficiência. Aqueles que seguem a verdade, levam uma vida plena e rica, e não carecem de ninguém que os suporte. Hábitos saudáveis assemelham-se a músculos que, quanto mais exercitados, mais firmes se tornam.


51

Todos os rios- grandes ou pequenos, de águas límpidas ou barrentas, correm para o mar e o oceano responde evaporando a água, que se torna nuvens, e chuva que cairá a encherá os rios. Isto forma um ciclo.
Os santos nutrem compaixão e veneração por todos, sejam ricos ou pobres, bons ou maus. Diante desse sentido requintado de justiça, as pessoas respondem devotando-lhes veneração eles e cumulando-os de honrarias. E isso forma igualmente um ciclo.
Contemplai a Verdade do mesmo modo como o rio contempla o Mar; e a forma como a sua fonte e natureza, e como o seu destino se renova incessantemente. Observai a Verdade do mesmo modo como os santos contemplam as pessoas, como objecto do seu amor e recompensa por tal sentimento.


52

Se tratarem os demais com base em noções de separação, ou como distintos de vós, não tereis inclinação a abrigar justiça nem misericórdia nos julgamentos que formularem. Porém, se os tratardes como uma versão diferenciada de vós próprios, então usareis de compreensão para com os seus erros, e apreciação pelas suas qualidades. Não será por de tal forma que o Céu contempla a Terra?


53

Se procurarmos unicamente perceber as formas superficiais da matéria, e não penetrarmos a natureza verdadeira da realidade visual, permaneceremos espiritualmente cegos. Se escutarmos somente a função do ruído e não penetrarmos a verdadeira natureza da realidade escutada, devemos permanecer espiritualmente surdos.
Forma e som não passam de ilusões. Mas nós fazemos uso do ver e ouvir a fim de determinarmos a sua essência e compreendermos a verdadeira natureza da realidade.


54

A corrente inabalável dos pensamentos conscientes, não pode permanecer tranquila por tempo suficiente de forma que nos permita compreender a verdade. No entanto, as pessoas esforçam-se constantemente por engendrar uma barreira contra esse fluxo, e fazem uso do pensamento para deter todo o pensar. Mas o pensamento assemelha-se a um lince; e nós jamais usamos um lince para amansar outro.
De que modo, então, haveremos de penetrar o estado de não-pensamento?
Compreendendo a natureza não substancial de ambos- tanto daquele que pensa como o próprio pensamento. Compreendendo que na verdade não existe nem um único pensamento, por mais irrisório que seja, nem pensador tampouco.
Quando pudermos testemunhar tal coisa como uma realidade, esse facto liberta-nos de toda a escravidão do pensar sobre o não-pensar.


55

A essência mesma da mente e do corpo é clara e serena e não possui um único pensamento. É o ego que pensa, da mesma forma que é o ego que deseja não pensar. Ele é o causador dos problemas que depois procura resolver. O vazio do ego representa o som sem som, a percepção do invisível e o pensar sobre o pensamento, destituído de pensamento.


56

Quando alcançamos o estado de ausência de pensamento, pensamos ter despertado para a verdade; imaginamos a experiência de meditação e a forma como ela transformará os nossos pensamentos com relação ao meio. Pensamos como é absolutamente maravilhoso que tenhamos conseguido controlar a mente. Seria incorrecto dizer que se tem mais sobre o que pensar. Na verdade possuímos menos sobre o que pensar.


57

Quanto mais o corpo preservar a sua pureza, mais radiante será o brilho da nossa Natureza Verdadeira. No começo ainda carecemos de um corpo; é como uma candeia, em que a Natureza Verdadeira é representada pela chama. Porém, podemos de igual modo ter consciência de sombras. À medida que progredimos começamos a sentir que o corpo é o próprio universo e que a nossa Existência Real brilha através desse Universo exactamente como o sol brilha no espaço.


58

Não existe nenhum começo para tudo o que ocorre, nenhum fim para o que sucede a seguir. È o pensamento que interrompe o fluxo do tempo e o procura aferir. É o pensamento que decide que a noite sucede ao dia e que a morte se segue à vida; que algumas coisas são diminutas enquanto outras são enormes. Mas, o quê, em relação ao universo, poderá ser grande ou vasto, radiante ou obscuro, futuro ou passado?


59

Os actos possuem um significado de menor sentido; o Caminho é grande. Os actos variam, enquanto o Caminho prevalece uno. Aqueles que incorporam o Caminho e permitem que o seu significado flua através da corrente sanguínea, jamais actuam em desacordo com ele. Em tudo aquilo que empreendem cumprem esse Sentido. Quer se achem atarefados ou não, jamais se decepcionam nem deixam manipular. Não possuem motivações ocultas nem delas carecem.


60

Nada na vida se pode obter sem recurso ao desejo e à motivação. Podeis tomar o curso da honestidade e adoptar a sinceridade na persecução dos vossos desejos, ou então tomar o curso da decepção e obter o que quiserdes, sob falsos pretextos. Mas, quer de um ou outro modo, quando adquiris o objecto do vosso desejo tornais-vos apegados a ele- pelo menos enquanto não desejardes outra coisa. Mas, por entre as vias da sinceridade e da astúcia existe uma, em que dispensa toda a estratégia. É a via que conduz à compreensão dos desejos mundanos, por aquilo que eles são. No decurso dessa via, as vossas motivações fenecem ao longo do seu rasto, à medida que nos movemos em frente e avançamos.


61

Quando pensais numa casa conferis-lhe existência. Os objectos que fazem despertar o desejo, desaparecem tão logo o olho da mente se fecha para eles, e misturam-se com o cenário.
Passa-se o mesmo com as emoções; as esperanças, os temores, os juízos de certo e errado e sentimentos de prazer e de infelicidade desvanecem-se do mesmo modo quando a mente deixa de se envolver com os eventos mundanos que os ocasionavam. Quando se vê livre do ruído e da desordem, pela recusa do que é mundano, a mente assim tornada vazia é capaz de comportar o espaço infinito. A paz inunda-lhe a pureza, o céu revela o seu brilho e sucede o ressoar da harmonia das esferas.


62

Quanto mais as pessoas procuram aplicar o poder da vontade, a fim de neutralizarem um desejo qualquer, mais reforçam esse desejo. E toda a força adicional que utilizem só servirá para os confundir e torná-los obcecados com a questão. Quanto mais as pessoas falam da verdade sem conhecimento de causa, mais reforçam a ignorância. Depois desenvolvem essa ignorância e cedo começam a considerar-se bastiões de rectidão. Assemelham-se a peixes fora de água que tentam ensinar os outros a nadar, ou aves de gaiola a dispensar lições sobre vôo.
Se pretenderdes conquistar o desejo, tirem-lhe a máscara da pretensão e olhem-no por aquilo que ele representa. Desse modo ele se tornará instantaneamente insignificante e não merecerá um segundo pensamento.
Se pretenderdes discorrer sobre a verdade deixai que ela se torne o vosso habitat natural e senti-vos confortáveis com ela. Familiarizai-vos com a natureza humana por meio do reconhecimento dos vossos erros e desejos básicos, e instantaneamente perdoareis os outros pelos seus. Sede humildes e amáveis e senti amor por toda a humanidade. É esse o modo de estabelecer um exemplo a ser seguido pelos demais. A inflexibilidade do orgulho não é rectidão, mas tão só o rigor-mortis do espirito.


63

Aqueles que se mantêm sérios com relação à verdade buscam o insight da sabedoria em tudo aquilo que empreendem. Quer se achem atarefados ou em repouso, quer se achem sós ou rodeados por uma multidão, em todas as situações em que se achem, esforçam-se por permanecer conscientemente atentos. Tal vigilância, porém, está longe de ser fácil. Mas tão logo se habituam à sua prática ela torna-se tão natural como actividade que ninguém sequer suspeitará daquilo que estará a obter.


64

Se subtrairmos uma única folha de relva ao universo, não mais poderá ele incluir tudo. Se macularmos o puro espirito com um único pensamento de cobiça ou luxúria, não mais poderá manter-se não-profanado. Sejam cuidadosos com as pequenas coisas. A sua manifestação ou não pode alterar tudo.


65

A mente é capaz de se expandir até ao infinito; o corpo é capaz de definhar até assumir uma dimensão irrisória. Ser iluminado significa apreciar a dinâmica da Verdade. Enquanto a mente ruge através do espaço ilimitado, o corpo permanece confinado aos seus habitats terrenos. Geralmente corre ao redor das trevas.


66

Quanto desperdício de energia esforçarmo-nos pela obtenção dos objectos materiais do desejo... Nenhuma satisfação duradoura poderá resultar da sua aquisição, dado que, por intermédio dessa aquisição deixam de ser objectos do desejo... Consomem-se como lenha ou oferendas depostas no fogo. Cuspimos as cinzas da boca e passamos a procurar outra árvore para abater.
Os santos esforçam-se por obter intuição espiritual e questionam devidamente o sentido da vida. Alcançando esse insight, eles obtêm o universo. Não tendo mais o que desejar, deixam de erigir fogos sacrificiais assim.


67

Vasto quanto o universo possa parecer, ainda assim encontra amplo cabimento na mente. Tão pequeno quanto o corpo possa parecer, nada parece existir em toda a criação que se revele suficiente para o satisfazer.


68

Tudo, no Universo, possui uma natureza Una e Singular. As pessoas que vivem em meio à natureza encontram tudo aquilo que possivelmente podem desejar. Enquanto o iluminado possui, aquele que não é iluminado deseja...


69

Aquele que se considera superior aos outros, formula sistematicamente juízos de distinção e diferença e lida com toda a rigidez com os opostos tais como bom e mau e certo e errado. Se ele seguir os próprios padrões de justiça que defende, terá, pelo menos, de rejeitar metade da criação.
Aquele que segue a verdade esforça-se por seguir o resto da humanidade; não discrimina mas torna-se indiferente para com todas as distinções qualitativas. Sabe que a Natureza Verdadeira é uma só e indivisível Realidade. Aquele que seguir a Verdade esforçar-se-á por se preservar permanentemente consciente da sua inclusão nessa Unidade.


70

A Unidade inclui os montes, os rios e a própria Terra. A mente que possui clareza torna-se transparente; toda a existência poderá ser percebida através dela. O espírito enevoado pelas ilusões do ego não é capaz de perceber nada além de si próprio. Esforçai-vos por alcançardes a consciência de estardes incluídos na Unidade! O vosso corpo pode permanecer no mundo material, todavia, a vossa mente perceberá não existir nada à parte de si própria que possa tornar-se alvo do desejo.


71

Na perfeita tranquilidade da Verdade, o coração é capaz de perceber e compreender tudo. Não poderão subsistir palavras a proferir nem som algum a escutar e tampouco vistas a vislumbrar. Aqueles que vivem na Verdade habitam no coração. Todavia, é estranho que, enquanto por um lado o seu corpo esteja sujeito à decadência, o seu hálito seja sempre semelhante à fragrância de uma brisa fresca. Como é maravilhoso permanecer na sua companhia!


72

Eu aprendi muito com as pessoas que a sociedade marginalizou... Sim, é verdade! Tomem o meu concelho. Se quiserem descobrir mestres de comprovada autenticidade, procurai aqueles que tiverem sido rejeitados sob a acusação de serem "cegos", "surdos" ou "ignorantes".


73

Os objectos do mundo material são as escoras, os instrumentos e o carácter de um drama onírico. Quando despertamos, o palco em que se apoiavam desvanece-se, do mesmo modo que os figurantes e a audiência. Despertar não é morrer. Aquilo que no sonho ganha vida, também no sonho pode dissipar-se. Porém, o sonhador possui uma existência real que não pode perecer com o sonho. Tudo isso é necessário para que pare de sonhar e deixe de se fascinar com imagens oníricas, de forma a poder tomar consciência do quanto estava unicamente a sonhar.


74

A maioria das pessoas só é capaz de perceber a mudança. Para eles, as coisas chegam a existir e a perder essa existência nos mesmos moldes. Mais cedo ou mais tarde, aquilo que era novidade torna-se uma velharia e o que em tempos foi valioso, torna-se destituído de valor. O seu ego determina a natureza do destino de todas as coisas. Quando definimos a existência em termos tão definidos e efémeros, o poder de controlo que é exercido sobre as pessoas e as coisas torna-se naturalmente percebido como uma extensão da acção do ego. Por que razão não haveria de o ser? Não será o ego uma autoridade em matéria de mudança? É claro que, quando o ego se abeira daquilo que não sofre qualquer mudança, torna-se surpreendentemente ignorante. Hoje em dia, as pessoas não apreciam a imutabilidade mas esforçam-se por preservar todo o capricho transitório da moda- exactamente à semelhança dos comediantes que procuram desesperadamente encontrar novas piadas, quando a sua subsistência depende da capacidade de manterem as audiências a rir.
Mas aquilo que realmente tem mais graça é a sua convicção de serem livres, poderosos e de chegarem a exercer controlo efectivo, porque na realidade não passam de escravos desamparados na ilusão.

75

Existem dois modos de percebermos a verdade: o súbito- em que o obstáculo da ilusão é rechaçado por uma atenção contundente; e existe o caminho gradual- através do qual toda a ilusão é dissipada de uma forma incrementada, por um certo espaço contínuo de tempo. Mas tanto por uma como pela outra o obstáculo deve ser rechaçado.


76

A Mente da Universal comporta tudo. Neste universo existe somente uma substância pura e uma verdade absoluta e indivisível. As noções de dualidade não encontram aí existência. A mente diminuta só pode comportar noções de separação e divisão. É capaz de imaginar miríades de objectos e de definir a verdade em termos de contrários relativos. O grande é definido pelo pequeno; o bem, pelo mal; o puro, pelo profano; o oculto, pelo que é manifesto; o pleno, por aquilo que é vazio. Mas, que coisa é um contrário? Não passa de uma arma da hostilidade, do conflito e do tumulto. Quando a dualidade é transcendida chega a reinar a paz. Essa é a derradeira verdade.


77

Conquanto a Verdade não possa ser expressa por palavras, ainda assim os mestres desdobram-se em explicações sem fim. Suponho que faça parte da natureza humana referir que determinada coisa não seja passível de ser explicada, e depois passar horas a procurar explicá-la... Não é de admirar que as pessoas se afastem. Bom, podíamos encontrar melhor entretimento. Podíamos inventar histórias divertidas e depois apelar à audiência por uma presunção de confiança. É claro que estaríamos somente a empilhar ilusão sobre ilusão. Mas o que teria isso a ver com a verdade?


78

Aquele que se acha só não é capaz de manter um diálogo; o tambor tem de ser tinido para deixar reverberar qualquer som. A ausência conta; as palavras limitam e as interpretações diferem. Mas aquilo que é deixado por dizer, é de igual forma relevante. A verdade absoluta não pode ser expressa por palavras; tem que ser experimentada. E então, em meio ao silêncio eloquente, melhor se definirá o despertar da Verdade!



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