sábado, 2 de julho de 2011

A EXPERIÊNCIA É O CONHECIMENTO DO SOFRIMENTO






Sessões de Kevin Ryerson

Reduzi a iluminação da minha sala de estar. O mar murmurejava suavemente, lá fora. Liguei o gravador e perguntei a Kevin se precisava de alguma coisa.
- Não – respondeu ele. – Acho que a vou deixar agora.
- Está bem. Aguardarei.
- Muito bem. Voltarei daqui a pouco.
Ele recostou-se, pôs as mãos sobre o peito, cruzando-as. Fechou os olhos. Aproximei o gravador dele um pouco mais. Lentamente, a sua respiração foi-se tomando mais profunda. Eu esperei. Ele permaneceu imóvel cerca de três minutos, a respiração cada vez mais profunda. Depois, suavemente, deixou descair a cabeça para o peito, e escapar um suspiro da garganta. Tomou a levantar a cabeça, inclinando-a para um lado. Cerca de 30 mais segundos se passaram. Depois, abriu a boca, o corpo estremeceu. A respiração mudou de ritmo. Lentamente, a boca esboçou um sorriso. As sobrancelhas arquearam, fazendo com que a sua expressão se tomasse de surpresa momentânea. As mãos subiram para os braços da cadeira. Eu ouvi-o falar num sussurro gutural, que não parecia condizer com o tom vocal de Kevin:
- Salve! Sou John. Os meus cumprimentos. Apresente-se, por favor. Qual é o objectivo deste encontro?
Limpei a garganta e mudei de posição no chão, junto à cadeira de Kevin.
- Está bem. O meu nome é Shirley MacLaine. Sou de Richmond, Virgínia, nos Estados Unidos, mas estou-lhe a falar de Malibu, Califómia. Sou uma actriz que também escreve, não sei explicar porque me encontro verdadeiramente aqui.
- Tal e qual – disse a Voz.
“Tal e qual”... Calculei que isso significasse que estava bem. Lembrei-me que Kevin dissera que uma das entidades espirituais se pronunciava numa linguagem bíblica.
- Somos levados a concluir que tem dúvidas. Sentimos o seu estado vibratório como tal e com ele estamos familiarizados.
Seguiu-se uma pausa, como se ele esperasse que eu colocasse uma pergunta ou dissesse alguma coisa. Eu não sabia por onde começar.
- Poderia, por favor, dizer-me a quem se refere quando diz “nós”?
- Tal e qual, nós somos aqueles que a conheceram em vidas anteriores
Fiquei aturdida.
- Já me conheceram em vidas anteriores?
-Tal e qual.
- Serão então os meus guias espirituais? Será por isso que me encontro aqui?
-Tal e qual.
-Ah bom ...
- Para se compreender a si mesma agora, deve compreender que é mais do que parece agora. A soma dos seus dons, a soma dos seus sentimentos é o produto do que já experimentou antes... e tudo o que é parte da unidade do todo. Estará isso de acordo com a sua compreensão?
Contorci-me no tapete. Não possuiríamos todos determinados dons, sentimentos e pensamentos que não correspondiam à experiencia da nossa vida presente?
- Desculpe, mas em que baseia as suas informações, em mim ou em algo cósmico?
Praticamente sem qualquer pausa, ele respondeu:
- Naquilo que designaria por Registos Akáshicos.
Ele parou de falar, como se eu devesse ter um conhecimento total das suas referências. Parecia distante, pseudo bíblico. Eu sentia-me neutra.
- É levada a considerar que Akasha é o que poderia classificar de inconsciente colectivo da humanidade, acumulado sob a forma de energia etérea. Essa energia pode ser classificada como o espírito de Deus. É levada a considerar que a comunicação das referidas ideias é difícil, tendo em vista a dimensão limitada da linguagem.
- Posso entender o que está a querer dizer. Mas já que estamos a tratar disso, porque é que fala desse modo?
Seguiu-se uma pausa, antes que ele retrucasse:
- Vou tentar usar uma linguagem mais actualizada, como preferiria. – Ele continuou de imediato – Essa energia acumulada, chamada Registos Akáshicos assemelha-se a vastos pergaminhos alojados em vastas bibliotecas. Você, como um indivíduo, seria considerada como um indivíduo singular nessas bibliotecas ou como uma alma única dentro do espírito de Deus.
- Desculpe, mas o que está a dizer não será um tanto simplista?
- Toda a verdade é não só simples como é destinada a ser facilmente revelada.
- Se é tão facilmente revelada, porque é que não a conhecemos?
- O homem recusa-se a aceitar que está na posse de toda a verdade e assim acontece desde o início do tempo e do espaço. O homem recusa-se a aceitar a responsabilidade por si mesmo. O homem é co-criador com Deus do cosmo.
Não, pensei, a igreja ensina-nos que Deus criou tudo.
Mas John já estava a prosseguir:
- Somente quando o homem aceita que é parte da verdade de que anda à procura é que as verdades se tornam patentes.
- Está a querer dizer que compreenderei tudo se me compreender a mim mesma e de onde venho?
-Correcto.
Nunca tive a certeza de que existisse algo como Deus até recentemente. E com o que está a acontecer no mundo, porque acreditaria alguém em Deus?
- Está a dizer que precisa duma prova para a sua própria existência?
- Não entendo onde está a querer chegar. Mas é claro que tenho a certeza de que existo.
- Possui um espírito.
-Claro.
- O espírito é um reflexo da alma. A alma é um reflexo de Deus. A alma e Deus são eternos e unos.
- Então devo conhecer-me a mim mesma para poder conhecer a Deus?
- Correcto. A sua alma é uma metáfora de Deus.
- Como? Espere um pouco. Não posso provar qualquer dessas grandezas... Tanto a alma como Deus. Não tenciono ser irreverente, mas essa é uma maneira insidiosa de confirmar que existe uma alma.
- Isso é a actuação da humanidade e não de Deus.
Eu sentia-me estranhamente embaraçada.
- Poderia tornar-me muito arrogante se realmente acreditasse ser uma metáfora de Deus.
- Jamais confunda o caminho que segue com a própria verdade.
Fiquei um tanto envergonhada e esperei que ele dissesse mais alguma coisa. E foi o que aconteceu:
- Pausa. Outra entidade está a querer falar.
Como assim?
Kevin mudou de posição na cadeira. Os braços acomodaram-se de outra forma. Virou a cabeça para o outro lado. Cobriu o rosto por um momento e em seguida cruzou as pernas.
Fiquei de joelhos, tentando compreender o que se estava a passar.
- Tiro o meu chapéu para si – disse uma voz completamente diferente. – McPherson a falar. Tom McPherson. Como tem passado?
O sotaque era cómico. Não pude conter uma risada. Kevin inclinou a cabeça, como se ele não estivesse realmente a fazer aquilo. A expressão do seu rosto fazia-me especular sobre o motivo pelo qual o achava tão engraçado.
- Essa não! – disse a voz de McPherson. – Eu não esperava uma reacção assim tão cedo. Geralmente demora um pouco para se chegar a esse ponto.
Kevin tinha dito que aquele McPherson era engraçado. Tive a impressão de que podia sentir a sua personalidade a aflorar. Não era apenas o tom de voz, era quase a presença de uma energia nova e distinta na sala. Era extraordinário como ele parecia tão diferente de Kevin. Sendo uma actriz, eu não podia deixar de ficar impressionada com Kevin. Se ele estava a representar, tratava-se duma transição espectacular.
- A sua caixa de zumbido está a funcionar? – perguntou McPherson.
- A minha o quê?
- A sua caixa de zumbido.
Olhei para o gravador.
- Ah, isto... Está, sim. Há algum problema?
- De modo nenhum. Eu queria apenas ter a certeza de que está a captar os detalhes.
- Os detalhes?
- Absolutamente correcto.
Kevin tossiu. Limpou a garganta e tomou a tossir.
- Desculpe, mas poderia dizer-me o que se está a passar com a garganta de Kevin?
- Não há nada – respondeu McPherson, - Estou apenas a ter um pouco de dificuldade para me ajustar às vibrações do instrumento.
- Ah... Está a querer dizer que está a tentar ajustar as suas vibrações de energia às vibrações de energia do Kevin?
- Absolutamente correcto. Operamos aqui com frequências vibratórias. Tem por aí um pouco da sua infusão?
- Da minha infusão?
- Isso mesmo. Não tem por aí uma infusão de ervas?
- Está a referir-se ao chá?
- Absolutamente correcto.
- Tenho sim. Gostaria de tomar um pouco?
- Claro.
- A chávena é muito pequena. Devo colocá-la na mão de Kevin? Conseguirá segurá-la?
- Claro.
Enchi a chávena e estendi-a a Kevin. Ele não fez menção de levantar a mão. Os olhos permaneceram fechados.
- Basta por na mão do jovem. Obrigado.
Ergui a mão direita de Kevin e entreguei-lhe a chávena.
- A chávena não é apenas pequena, é minúscula.
Soltei uma risada. Também não gostava daquelas chávenas demasiado pequenas.
- Não tem uma caneca? – perguntou McPherson. – Por acaso não há canecas de vidro no seu armário?
Olhei para a minha cozinha. Ele tinha razão. Eu tinha canecas de vidro. Só que nunca servia chá nelas.
-Eu gosto de canecas – comentou McPherson, - Um pouco do velho sentimento de pub. Ajuda-me a pensar com clareza.
Levantei-me, fui até a cozinha e trouxe a caneca. Continuei a falar com McPherson enquanto o fazia:
- Então é mesmo irlandês? Os irlandeses pensam todos melhor com canecas?
- Absolutamente correcto – disse McPherson, enquanto me encontrava de costas.
Voltei e servi mais chá na caneca, trocando-a pela chávena.
Kevin levou a caneca aos lábios e tomou um gole. Os olhos continuavam fechados. Ele engoliu o chá. Não pude deixar de perguntar:
- Consegue sentir o sabor do chá?
- Sinto mais do que saboreio. Uso os órgãos do instrumento para sentir.
Ele tomou outro gole.
- Se estivesse quente demais, sentiria ou seria Kevin quem sentiria?
- Eu reagiria para proteger o instrumento. Não sentiria a dor, mas resultaria numa sintonia da minha parte.
- E se estivesse realmente quente, o que faria?
- Provavelmente usaria um comando melhor do organismo do instrumento para atenuar a dor.
Seguiu-se um silêncio. Pude sentir que McPherson esperava que eu falasse.
- Posso tratá-lo por Tom?
-Muito bem.
- Soube que foi um ladrão.
- Absolutamente correcto. Embora o roubo fosse mais o que classificaria como um ofício de fachada.
- Ofício de fachada?
- Absolutamente correcto, Na verdade, eu era o que consideraria um espião diplomático.
- Um espião diplomático? A soldo de quem?
- Da Coroa Inglesa, lamento dizer.
- Era um espião para a Inglaterra, sendo irlandês?
- Absolutamente correcto. Eu era irlandês, embora o nome McPherson seja escocês. Assumi o nome de McPherson para disfarçar a minha identidade irlandesa, já que naquele tempo havia um preconceito maior contra os irlandeses do que contra os escoceses. A situação não mudou muito desde então.
- Mas porque é que espiava para os ingleses, se eles tinham tanto preconceito contra o seu povo?
- Gosto de pensar em mim mesmo como um espião independente. A Coroa simplesmente contratava-me para surripiar documentos importantes dos diplomatas espanhóis. Eu era muito bom nessas coisas. Por isso é que me intitulo de ladrão. Torna-se mais divertido para mim.
Ingeri um gole de chá tentando entender as coisas, mas sem conseguir ir muito longe.
- E agora utiliza o seu conhecimento mais positivamente, a fim de ajudar os outros por aqui?
- Absolutamente correcto. Equilíbrio, carma e tudo o mais.
- Não terá arrecadado nenhuma situação ingrata por ter sido um ladrão... Diplomático ou não?
- Absolutamente correcto. Estou a libertar um pouco do meu carma ao prestar-lhe este serviço.
Entendo...
Eu sentia-me alternadamente divertida e céptica.
- Tem mais um pouco dessa infusão?
- Tenho, sim.
Despejei mais chá quente na caneca.
- Gostaria de colocar outras perguntas? – interrogou Tom.
Servi-me de mais chá, pensando no melhor meio para aprofundar a coisa.
- Conversei certa noite com uma pessoa sobre a existência da alma, usando o déja vu como um exemplo duma existência anterior. Quando a pessoa sente que está num lugar que já visitou antes, mas sabe que isso seria impossível. Ou quando sente no fundo de si que certa experiencia já lhe aconteceu antes.
- Absolutamente correcto.
- Algumas pessoas dizem que a memória celular ou memória ancestral (como alguns cientistas também lhe chamam) seria a verdadeira explicação. Acreditavam que apenas herdamos geneticamente a memória das coisas que os nossos antepassados poderiam ter experimentado. Mas como poderia abordar a questão da existência da alma?
Gerou-se um momento de silêncio.
- Como trataria você o problema, agora que já teve tempo de reflectir a esse respeito? – perguntou Tom.
- Acho que poderia referir que a existência de casos de pessoas... Como nas sociedades tribais da África... cujos antepassados jamais deixaram o ambiente em que viviam. Contudo, tais pessoas têm memórias da América do Norte, da Índia, etc.
- Eis aí um excelente argumento – disse Tom. – Mas também tem conhecimento da sua telepatia e das experiências de saída do corpo. Muitas pessoas do seu tempo já se pronunciaram publicamente quanto às experiências de saída do corpo. Estavam na verdade a experimentar as suas almas como algo separado do invólucro físico.
Lembrei-me de quantas pessoas já haviam de facto descrito tal experiência, após terem passado pelas portas da morte. A maioria descrevia a mesma luz branca a atraí-los com um sentido compulsivo de amor e de paz, enquanto olhavam o corpo agonizante. Algumas não sentiam vontade de voltar ao corpo. Muitas dessas experiências encontram-se registadas na obra do Dr. Raymond Moody, intitulada Vida Após a Vida. Nos termos do meu conhecimento pessoal, havia uma quantidade espantosa de pessoas que diziam ter passado por essa experiência. Tom prosseguia.
- Quanto ao facto do dejá vu constituir simplesmente uma forma de memória celular, existem muitos que possuem padrões de memória de lugares em que os seus antepassados jamais terão estado.
- Foi o que eu respondi. Mas talvez alguns dos seus antepassados tivessem estado na África... como os romanos, por exemplo... e a memória celular registasse as reacções e a sua prole herdasse essas memórias celulares.
- Possivelmente, se não fosse por uma outra coisa – disse Tom – o dejá vu também ocorre no contexto moderno. Por exemplo: pode sentir um dejá vu ao entrar numa casa cuja construção tenha apenas uns quantos anos. Isso dificilmente denotaria a memória celular herdada.
- O que será, nesse caso?
- É o resultado da alma a projectar-se astralmente para a casa nova. Algo do tipo da experiência que designaria como sonho flutuante que tanto amava. Lembra-se dessa experiência?
Ele fez-me parar abruptamente. Jamais eu mencionara aquilo a alguém.
- Como teve conhecimento disso?
- Ora, um pouco do velho vudu espiritual, por assim dizer. Eu senti precisar dum momento para me ajustar ao que acabara de acontecer. Poderia ter-se tratado duma adivinhação previsível? Eu diria o mesmo a todos a quem se dirigia? Reprimi a vontade de tossir.
- Dê-me um instante, por favor.
- Está bem. Uma coisa que temos é tempo de sobra.
Eu sentia-me completamente aturdida. Seria possível que determinados sonhos fossem projecções astrais da alma?
- Tem mais dúvidas? – perguntou McPherson.
Tratei de me controlar.
- Porque é que se gera tanta resistência ao estudo da alma como um facto real? Porque razão não se investe tanto tempo e dinheiro na pesquisa da existência da alma como se aplica à cisão do átomo ou à energia nuclear?
- Por um lado, o material não se acha disponível. A alma não é uma coisa material. Além disso, o campo do estudo da alma tende a atrair o desdém e o escárnio, e torna-se demasiado fácil as reputações profissionais irem cano abaixo, por assim dizer.
- Mas porque será uma coisa tão desprezada?
- Porque é considerado um desperdício de tempo absurdo, superstição e tudo o mais. Pessoas sérias que admitem tais investigações são ás vezes levadas a sentir-se ridículas. Mas é o que um amigo seu disse recentemente: “Para se colher a fruta, é preciso trepar ao galho.”
Fiquei em silêncio... atordoada. Ele usara a mesma analogia que o meu amigo Gerry (que na realidade era Olaf Palme). Eu tomava todo o cuidado para jamais mencionar Gerry a quem quer que fosse, muito menos o que ele dizia. Mas McPherson prosseguia:
- Você precisa ser muito paciente com o seu Gerry. Nós estamos a ser pacientes consigo. Eu estava espantada. Como é que aquele sujeito podia ter conhecimento do nosso caso? Mas não apenas denotava conhecimento em relação ao Gerry como igualmente do que ele tinha dito.
- Estaremos aqui perante uma revelação? – Perguntou Tom.
- Santo Deus!
- Absolutamente correcto – acrescentou ele, jovialmente.
Tomei mais um gole de chá e procurei controlar-me. Passado um instante:
- Gostaria de continuar? – perguntou Tom.
Deus do céu, pensei, aquilo podia ser verdadeiro. Tinha tantas perguntas a formular. Mas murmurei:
- Muito bem... Diga-me uma coisa: porque razão existirá uma lacuna tão grande entre a ciência e a religião?
- Porque a ciência só muito recentemente (em termos cósmicos, é claro) sentiu ter-se livrado dos grilhões da superstição religiosa e se encontra actualmente a desfrutar da sua liberdade e era áurea. A atitude é compreensível. Pesquisar os domínios da Igreja, a antiga carcereira da ciência, seria reconstituir a base de poder da antiga e tradicional algoz.
- Mas a alma encontra-se apenas sob o domínio da Igreja?
- Absolutamente correcto. Isto é, é considerado desse modo, no sentido ortodoxo. Na verdade, a alma é... uma questão altamente pessoal, por assim dizer.
- Mas a prova da existência da alma não alteraria radicalmente a atitude da ciência?
- Claro que sim. Mas, sinceramente, a ciência acha que não existe fundamento para a investigação da existência da alma. Além disso, não há muito dinheiro para esse tipo de pesquisa.
- O que está a querer dizer é que se pesquisarmos a electricidade podemos ser conduzidos à luz eléctrica. Ou sermos conduzidos à bomba se pesquisamos o átomo?
- Absolutamente correcto.
- Mas que não existe qualquer proveito material ao pesquisar-se a alma?
- Absolutamente correcto. Pode-me dar mais um pouco da sua infusão?
Servi mais chá. Estava quase no fim.
- Mas e então esses grupos de pesquisa que se dedicam exclusivamente à alma?
- Bem referido.
- Porquê?
- Dedicados exclusivamente à alma! Muito bem.
Perguntei muito séria:
- Sabe aquilo que está a representar para mim neste momento?
- Para ser absolutamente franco, devo dizer que sou sensacionalmente divertido em todas as ocasiões. Esta é a minha natureza natural. Eis outra muito boa: “natureza natural”.
- Gosta de joguinhos de palavras, não é mesmo?
- Não, acho que não estou a ser tão banal, por assim dizer. Trata-se apenas duma extensão natural da minha personalidade.
Permaneci em silêncio por um momento, a pensar naquele chá absurdo. Interroguei-me se seria tão crédula a ponto de engolir até mesmo uma baleia. O gravador girava em silêncio.
- Bom...
- Absolutamente correcto – disse Tom.
- Eu gostaria de saber alguma coisa a respeito das minhas vidas anteriores. Haverá algum problema nisso?
- Muito bem. O instrumento ingeriu algum álcool?
- Não, ele disse que inibe a recepção. Acho por isso que não bebeu nada.
- Muito bem, então. Só um momento, por favor. Poderia pegar na caneca, por favor?
Levantei-me, tirei a caneca da mão de Kevin, verifiquei o gravador e tornei a acomodar-me. Um tremor percorreu o corpo de Kevin. Ele sacudiu a cabeça até reassumir a personalidade de John.
- Saudações – proferiu. – Tem algumas perguntas a colocar sobre as suas vidas anteriores?
- Tenho.
O telefone tocou.
John reagiu inclinando a cabeça. Eu esperei.
Conseguia sentir John a “ajustar as vibrações”, tal como McPherson dissera. O telefone tornou a tocar. Não atendi. John disse:
- Vai descobrir que para compreender a alma dentro de si hoje, deve também compreender alguma coisa das civilizações anteriores que conheceu.
- Será mesmo verdade? – murmurei, sentindo-me meio ridícula e atordoada.
- Você esteve encarnada várias vezes durante o período de quinhentos mil anos da civilização mais desenvolvida que o homem já conheceu. Foi o que a Bíblia simbolizou como o Jardim do Éden. Eu gostaria agora que compreendesse um conceito da maior importância. O nível de realização de qualquer civilização é avaliado pela evolução espiritual. O progresso tecnológico é importante e atraente, mas se detiver, subtrair ou desviar a compreensão espiritual, lança as sementes da sua própria destruição. Está a testemunhar esta verdade simples na civilização actual da Terra. A compreensão espiritual está muito para além do conhecimento tecnológico; consequentemente, instala-se uma progressiva insanidade, depressão, confusão de objectivos, total desigualdade e desespero humano.
- Então onde residirá a esperança para nós? Se estamos a andar para trás e não para a frente, então para que estaremos a viver?
- Uma pergunta sensata e importante que nos conduz de volta ao assunto do carma, tornando necessário que tome conhecimento da sua identidade básica e compreenda o poder do seu livre-arbítrio, a fim de compreender a sua divindade e a sua associação com Deus.
- Desculpe, mas posso perguntar onde se enquadrará a religião em meio a tudo isso?
- Há muito por entre o que estou a referir que seria contestado pelas religiões terrenas. As religiões ensinam religião... não espiritualidade. A religião tem explorado o homem, de um modo geral. As religiões do mundo estão basicamente no caminho certo mas não ensinam que cada indivíduo é fundamentalmente o criador e o controlador do seu próprio destino. Ensinam que Deus assume esse papel. Aquilo que estou empenhado em explicar é que cada indivíduo é um co-criador junto com Deus. Isso não é aceite pelas igrejas nem pelas religiões, que preferem deter o controlo sobre a humanidade, em vez de ajudar a ensinar que a humanidade só se pode controlar através do autoconhecimento e do conhecimento do seu passado, assim como do seu objectivo no presente e no futuro.
Eu sabia perfeitamente como tal conceito seria explosivo. Mas não existiriam muitas pessoas dentro da Igreja que buscavam o autoconhecimento? Não haveria um imenso número de pessoas que, mesmo seguindo os preceitos da Igreja, ainda procuravam incessantemente pela verdade além desses preceitos?
Olhei pela janela na direcção do mar escuro. As luzes de um barco de pesca piscavam na escuridão. Interroguei-me sobre quantas das grandes verdades da vida jamais poderiam ser vistas, provadas ou confirmadas. Era algo inquietante, e que despertava ansiedade. A verdade só se tornaria verdade quando pudéssemos “prová-la”? Eu não conseguia enfrentar aquilo que estava a pensar. Tornei a olhar para o Kevin e a “entidade espiritual encarnada” que ele estava a receber.
- Quer dizer que eu já vivi numa civilização antiga? – indaguei ansiosa, descobrindo-me um pouco ofegante.
- Já sim... e várias vezes. Duas vezes como homem e uma como mulher.
Recebi calmamente, uma vez mais a informação sobre uma das questões mais importantes da reencarnação.
- Todos experimentamos a vida sob diferentes sexos, a fim de podermos estabelecer uma ligação com o sexo oposto?
- Correcto. É exactamente isso. Como poderia a humanidade alcançar a compreensão de si mesma e das suas identidades sem as experiências físicas diversificadas?
Tornei a inclinar-me para a frente, perguntando:
- Isso poderia equivaler a uma explicação metafísica para a homossexualidade? Talvez uma alma efectue uma transição hesitante de um corpo feminino para um masculino, por exemplo, permanecendo um resíduo emocional e uma atracção pela encarnação anterior?
- Assim é - disse John. A preferência sexual de tal indivíduo desempenha um papel importante na necessidade de compreensão de que somos basicamente os mesmos, porque todos experimentamos ambos os sexos. As nossas almas, digamos assim, são basicamente andróginas.
- Andróginas?
- Isso mesmo. A elevada compreensão espiritual não conhece diferenças de sexualidade, porque os elementos de ambos os sexos se acham simultaneamente presentes. As polaridades são igualmente opostas. Os vossos profetas antigos como Jesus, Buda e tantos outros, não eram tão celibatários assim, pois vibravam numa frequência regular e perfeitamente equilibrada. Os cromossomas X e Y achavam-se tão bem distribuídos que a sexualidade não lhes interessava: Não havia qualquer conflito e por isso não resultava qualquer tensão. Não era uma coisa que precisasse ser sublimada nem reprimida. Simplesmente não lhes interessava, por causa do seu sereno nível espiritual de realização.
- Não sei se percebo bem isso.
John fez uma pausa.
- Não recomendamos a abstenção de sexo. De modo nenhum. O sexo, em termos humanos, constitui igualmente um caminho para Deus, se for desfrutado espiritual, além de fisicamente.
Olhei para o gravador.
- Desculpe, mas não nos estaremos a afastar do assunto?
- Estamos, sim. – admitiu John. – Mas o sexo é um assunto fascinante, até mesmo para mim.
Soltei uma risada.
- E quem é você? Isto é... já se encontrou alguma vez num corpo físico?
- Claro que sim. Já encarnei muitas vezes, tanto num corpo feminino como num masculino, mas ultimamente tenho permanecido na forma astral.
- Ah...
Eu sentia-me curiosa mas aquilo que queria mesmo era saber tudo o que fosse possível a meu respeito.
_ Mas quem terei eu sido nas minhas vidas anteriores?
- De acordo com os Registos Akáshicos, esteve encarnada com uma alma gémea.
- Mas o que é exactamente uma alma gémea?
- Tal pergunta exige muita explicação, que lhe fornecerei mais tarde. Por enquanto permita-me que comece por explicar o que são almas companheiras (consortes).
- Almas companheiras?
Eu já ouvira essa expressão algumas vezes, geralmente em referência a pessoas que diziam ter encontrado a sua outra metade.
- As almas companheiras ou consortes foram na verdade criadas uma para a outra, no começo dos tempos, isto é, o que vocês chamam de momento da Grande Explosão (Big Bang). Vibram exactamente na mesma frequência electromagnética por serem equivalentes, idênticas uma à outra. Almas gémeas são mais comuns de se encontrar, porque já experimentaram muitas vidas juntas, de uma forma ou de outra. Mas as almas companheiras foram na verdade criadas no começo dos tempos como pares que se pertenciam... Como poderá ver, há mais na teoria da Grande Explosão do que vocês imaginam... É bastante romântico, não acha?
Emiti um ruído neutro e John continuou:
- Portanto, deixe-me começar por a altura em que nos conhecemos.
- Ah?
- Isso mesmo. Fomos mestre e discípulo. Você foi um dos mais... o que designaria hoje de “discípulo dilecto”.
Corri os olhos pela sala, desejando ter alguém com quem partilhar tudo aquilo.
- Então já nos conhecemos?
- Correcto. Não é por acaso que aqui se encontra hoje. Nós achamos que amadureceu para a compreensão de que não acontece uma coisa destas por acaso.
- Quem são “nós”?
- Os seus guias espirituais, entre os quais me incluo.
- Está a querer dizer que terei sido atraída a este momento de algum modo por si e por esses guias?
- Correcto.
- Como?
- Pela própria necessidade que sente de explicar o seu comportamento, dúvidas e busca da verdade, por meio da orientação psíquica daqueles de entre nós que consideram que esteja preparada para ir além da sua própria verdade.
- Será isso o que significa a orientação espiritual?
- Correcto.
Seguiu-se uma pausa, enquanto John, a Voz, parecia estar a ordenar os seus pensamentos, talvez em busca da definição duma informação. Ou as duas coisas. A Voz voltou a manifestar-se um instante depois:
- Isolamos a sua vibração durante uma das vidas que passou com uma entidade com quem também se encontra envolvida actualmente. Cremos que essa entidade esteja a viver nas Ilhas Britânicas (Nota do autor deste texto: na realidade vivia na Suécia e a sua identidade verdadeira era Olaf Palme).
 
- Gerry – murmurei num tom um tanto estridente – Está a referir-se ao Gerry?
- Assim é. Também isolamos a informação dele e constatamos que vocês foram marido e mulher numa vida anterior.
- Oh, Deus! – exclamei, entre divertida e espantada. – E nós demo-nos bem nessa outra vida? A comunicação entre nós terá sido melhor do que é agora?
Seguiu-se outra pausa.
- O seu Gerry era então igualmente devotado ao trabalho. E devemos admitir que isso acontecia em detrimento da vossa união. Contudo, ele realizava um trabalho importante, que envolvia o intercâmbio cultural com os extraterrestres que se empenhavam em prestar ajuda tecnológica e espiritual.
- Extraterrestres?
John pareceu sentir o meu espanto, pois respondeu com mais firmeza do que antes:
- Assim é. Havia extraterrestres a visitar este planeta naquela ocasião, tal como agora.
- Deus do céu! – Respirei fundo – Pode revelar-me mais sobre isso? O que está realmente a querer dizer-me? Recebemos visitantes do espaço exterior desde o começo dos tempos?
John respondeu de imediato:
- O único conhecimento importante é o conhecimento espiritual de Deus dentro do homem. Todas as outras formas de conhecimento fluem daí.
- Todas as outras formas de conhecimento?
- Correcto. O vosso conhecimento científico, por exemplo, depende da compreensão das frequências vibratórias e do modo como pertencem ao universo. Deus é amor... que é a mais elevada de todas as frequências vibratórias. No vosso mundo físico, a luz constitui a frequência mais elevada e mais rápida. Mas para os seres que possuem mais conhecimento e maior controlo, o pensamento tem uma frequência muito superior à da luz. O pensamento faz parte de Deus, assim como faz parte do homem. Portanto, quando o pensamento se traduz por amor, as suas frequências vibram num elevado nível de energia. Era isso que os extraterrestres estavam a ensinar, tal como vós do plano da Terra ensinarão um dia a outros. Compreende?
Eu não sabia como responder.
Limpei a garganta e tentei alargar a mente para compreender. Não conseguia estabelecer um relacionamento pessoal com o que John estava a dizer, de um modo compreensível, detalhado ou específico. As implicações do que ele dizia eram tão assombrosas que eu não con­seguia encontrar nenhuma boa pergunta. Queria voltar a mim. Era algo que podia absorver.
— Desculpe, por favor, mas será que eu poderia ape­nas colocar perguntas sobre mim? Já estou a encontrar bastante dificuldade em me relacionar com isso.
— Claro. Você precisa seguir no seu próprio ritmo.
— Óptimo — murmurei, aliviada. — E obrigada. Então Gerry e eu fomos marido e mulher. Isso significa que éramos almas gémeas?
— Não. Mas você era e é uma alma gémea da entidade a que chama David.
— Também tem conhecimento do David?
— Correcto. Você teve diversas vidas com a entidade David naquele período antigo, para além de muitas outras ao longo da mar­cha do tempo.
Talvez fosse por isso que eu me sentia agora tão à vontade na companhia de David. Mas John continuava a falar:
— O seu David é um bom mestre e você pode confiar nele. Mas sentimos que você já sente isso. Deve aprender a confiar mais nos seus sentimentos e a abster-se de encarar tantas questões na vida de uma perspectiva rigorosamente intelectual. O intelecto como uma maravilha é limitado. Os sentimentos são ilimitados. Confie no seu coração... ou na sua intuição, como lhe chama.
Confiar na minha intuição? Era algo que eu podia compreen­der. Recordando a vida que levara, verificava que sempre tivera proble­mas toda vez que fora contra a minha intuição.
— Está dizendo que todos estaremos bem se seguirmos os nossos corações?
— Não. Não necessariamente. Há sentimentos errados ou prejudiciais a superar.
Mas a humanidade, toda a vida, é basica­mente boa. Você deve aprender a dar-lhe uma chance. A vida re­presenta o pensamento de Deus e Deus é amor.
Para ser franca, toda aquela conversa sobre "Deus" estava me deixando constrangida.
– Mas o que chama Deus?
– Deus ou a força-Deus, de que todas as coisas são partes, é a Energia Divina que criou o Universo e o mantém harmoniosamente unido.
— Descreveria o que está acontecendo por aqui como harmo­nioso?
— No plano supremo da vida é harmonioso, no sentido em que há equilíbrio. Mas precisa-se compreender o processo de pro­gresso de cada alma, a reencarnação e a purificação, para se com­preender a harmonia.
— Espere um pouco. A Bíblia não é a Palavra de Deus?
— É, sim, de um modo geral. Mas muita coisa que está em sua Bíblia hoje foi reinterpretada.
— Reinterpretada por quem?
— Por várias pessoas, ao longo dos tempos e de diversas línguas. Ultimamente, pela Igreja. Era do interesse da Igreja "proteger as pessoas" da verdade real.
— E qual era a verdade real?
— A verdade real é o processo da progressão de cada alma ao longo dos tempos. A verdade real consta da responsabilidade de cada alma pelo seu próprio comportamento, na consecução de sua própria divindade.
— Está a referir-se à reencarnação?
— Correcto. É essa a palavra que vocês usam. Essa é a realização da Justiça Cósmica rumo à suprema harmonia.
— E a Igreja nos negaria essa verdade?
— Claro que sim, porque tal verdade tornaria o poder e a autoridade da Igreja desnecessários. Cada pessoa, isto é, cada entidade, torna-se responsável pela sua conduta. Não precisa de uma igreja. Não precisa de rituais, estratificações nem cubículos onde se ajoelhar para obter a absolvição concedida pela Igreja. Digamos sim­plesmente que as autoridades da Igreja desejam "resguardar" a hu­manidade de uma verdade para a qual acham que as pessoas não estão preparadas.
— Está querendo dizer que é algo parecido com o espírito que os governos adoptam hoje?
— Assim é.
Estendi-me no tapete. Não sabia o que pensar, mas também não conseguia imaginar mais perguntas. Kevin continuava sentado na ca­deira, impassível. O chá na mesa estava frio.
— Terá mais perguntas? — indagou John.
Olhei para as luzes tremeluzentes dum barco pesqueiro.
Pensei em algumas das pessoas com quem conversara e que me achavam ingénua e crédula por sequer admitir a possibilidade de mestres espirituais desencarnados falarem por intermédio de um médium. Era inadmissível que eu caísse em tais esparrelas, diziam tais pessoas. Eu sempre respondera que estava apenas a aprender. Não sabia direito o que realmente significava, mas de alguma forma podia confirmar que havia mais dimensões na vida do que se podia compreender... da mesma forma que as dimensões das nossas personalidades que constituíam um mistério até começarem a explorar aqueles aspectos com os quais não estávamos familiarizados e de que não tínhamos percepção, por não podermos "vê-los".
Mas por que eu me sentia mais à vontade do que outros em me permitir explorar dimensões de possibilidades não comprováveis? Eu não sabia. Apenas sentia que era certo. Era tudo o que podia dizer. Não me ameaçava. Não transtornava a minha aplicação emocional ao que já tinha certeza de ser real; não parecia destruir a imagem que tinha de mim mesma. Toda aquela exploração, ao contrário, parecia estar expandindo as percepções que tinha da realidade. Mas então por que alguns dos meus amigos, Gerry em particular, achavam que aquela busca de um novo conhecimento, por caminhos espirituais, através de médiuns e reencarnação, era tão ameaçadora em termos da minha própria credibilidade? Por que estavam tão preocupados comigo? Certamente por amor e um desejo de pro­tecção. Não queriam que eu caísse no ridículo... tal como eu também não queria. Mas era mais do que isso. Também se sentiam ameaçados. Por quê? Por que não formular indagações a sério e investigar as áreas e as possibilidades que não eram necessariamente "comprováveis"? Que mal "real" isso poderia causar? Destruiria as imagens condicionais que tinham de si próprios? Confundiria as percepções que tinham da "realidade"? Continuei de joelhos.
— John, por que tantas pessoas consideram inaceitável este fenómeno de um mestre desencarnado como você se manifestar por intermédio de um instrumento humano?
Houve uma pequena pausa antes que ele respondesse:
— Porque não se lembram da experiência de terem sido desencarnados. As pessoas pensam que a vida se traduz pela totalidade de tudo o que vêem. Estão convencidas de que o homem é apenas um corpo e um cérebro. Mas a personalidade é mais do que isso.
— Como assim?
— A personalidade é o aspecto intangível da percepção que só se acha alojado no corpo por um breve período de tempo cósmico.
— Mas as pessoas não acreditam que esse conceito seja real.
— Real? Um pensamento não será uma coisa real? Mas como se poderá pro­vá-lo cientificamente? Pensamento é energia. Aqueles que contestam a existência física de um pensamento ou da energia-pensamento es­tão contestando com profundo cepticismo as suas próprias identidades.
– Mas não será bom questionar as coisas? A certeza absoluta sobre qualquer coisa cria a ego mania e o poder corruptor.
– Isso é correcto. Mas é lamentável quando o cepticismo se torna tão profundo e desmoralizante que passe a restringir o potencial de aprender verdades gloriosas que seriam altamente favoráveis.
– Mas como poderei eu transmitir às pessoas que manter a mente aberta seja a atitude mais sensata?
– Você não tem de fazer isso. Você, que tem a mente aberta, deve dizer simplesmente que o é do seu ponto de vista. Conceda aos cépticos a liberdade de serem cépticos. Se não o fizesse, eu a acusaria de escravizar. Conceda-lhes o privilégio de continuarem na dúvida. Chegará um tempo em que também vão querer saber e serão atraídos a dimensões que são mais verdadeiras. Procurarão um plano superior quando estiverem prontos para isso. Se as pessoas insistem em permanecer nos seus sistemas de convicção "lógica", sentem-se seguras na realidade que percebem. Com isso, sentem-se seguras na posição de poder que ocupam, qualquer que seja esse poder. Não mudarão a percepção que têm, pois isso implicaria mudarem a si mesmas ou crescerem para uma percepção expandida de si mesmas.
— Mas onde está a segurança do próprio ego, John?
— A maioria das pessoas está sofrendo de ego alterado... alterado pela sociedade, pela Igreja e pela educação. O verdadeiro ego conhece a verdade. Sou tão passível de ser objecto de crédito quanto qualquer um. Não me pode ver, mas há muitos aspectos de si mesma que também não pode ver. As pessoas estão à procura desses aspectos em si mesmas todos os dias. Só que enquanto buscam, exigem que os seus mundos permaneçam seguros. Acreditar que sou tão real quanto elas seria afastá-las de suas zonas de segurança... as zonas que compreendem e podem controlar. E quando se começa a compre­ender mais, sempre se chega à compreensão essencial de que há muito mais para se compreender além do nosso alcance.
— Mas não é isso o que as pessoas me dizem. Alegam que toda a teoria da reencarnação é certinha demais. Falam de ser sim­plista demais para ser real.
— Como eu já lhe disse antes: a verdade é simples. É o ho­mem que insiste em torná-la complicada. E o homem não pode simplesmente aprender a verdade, como se aprendesse uma lição. Ele deve experimentar aspectos da verdade em si mesma, a fim de se­guir adiante. Aprender e experimentar a verdade por si mesmo representa uma luta. Uma luta para rumo à percepção mais simples. Lembre-se de que o habitat natural dos humanos não é a Terra; o habitat natural dos seres humanos é o éter. Cada indivíduo já conhece a verdade Divina. Mas o homem tem de complicá-la e esquecer que a conhece.
— Mas meus amigos intelectuais dizem que acreditar que se conhece a verdade é um acto de suprema arrogância.
— Cada pessoa conhece a sua própria verdade. Isso é correcto. Mas a única verdade que importa é a verdade do relacionamento que se tem com a fonte ou força chamada Deus. E essa verdade se torna limitada quando se aplica o cepticismo intelectual. Porque nin­guém precisa do intelecto para conhecer Deus. Sob esse aspecto, todos os indivíduos são iguais. Os vossos intelectuais procuram apartar-se das massas, a fim de sentirem constituir uma elite. Confiam mais no seu intelecto do que na força-Deus dentro de si próprios. Muitas pessoas, e não apenas os intelectuais, sentem-se embaraçadas com o reco­nhecimento da centelha da Divindade dentro de si mesmas. Mas os intelectuais cépticos são mais propensos a abrigarem conflito, confusão e a serem infelizes. Todas as pessoas procuram a paz. O caminho para a paz interior não é através do intelecto, mas do coração. É dentro do coração que se encontra Deus, paz, e a si mesmo. Os cépticos intelec­tuais evitam-se a si próprios. O ego, no entanto, conhece a verdade Divina, porque é Divino. Isso terá cabimento na sua compreensão?
Pensei por um momento e senti que compreendia tudo. Nada daquilo parecia religioso. Apenas fazia sentido. E eu não podia compreender por que tantas pessoas tinham que se manter intransigentemente contra... ou não conseguiam ou não queriam entender.
— Por que há guerras, John? O que leva pessoas a quererem dominar outras?
— Porque os que sentem a necessidade de dominar e conquis­tar não compreendem a verdade inerente a eles mesmos. Mas se um tirano de mente fechada se expuser ao conhecimento interior, à percepção interior, logo perderá a intenção da conquista. Compreenderá como é realmente vasto, e não precisa garantir a sua própria imortalidade pela conquista dos outros. A mente humana torna-se mais serena e mais satisfeita quando experimenta a expansão das suas dimensões a vários níveis. A postura de conhecimento superior do ego assumida pelo céptico é altamente restritiva. As vossas religiões dogmáticas, por exemplo, são extremamente restritivas para a humanidade, por exigirem uma reverência incontestada para com autoridade... a autoridade exterior. Mas vós sois Deus. Vós sabeis ser o Divino. Mas precisais continuamente recordar a vossa Divindade e, mais importante ainda, agir em conformidade.
— John, você fez uma menção a extraterrestres. Não sei muito bem o que pensar a respeito... mas estarão eles empenhados na mesma luta pelo conhecimento interior?
— Isso é correcto. Talvez estejam operando, pelo menos alguns, num nível superior de percepção, assim como num nível superior de tecnologia. Mas não devem ser reverenciados como deuses. São apenas mestres. Visitaram a sua Terra ao longo dos tempos para trazer conhecimento e verdade espiritual, porque descobriram, através da evolução, que a compreensão espiritual do indivíduo é a única compreensão exigida para a paz. Todos os outros conhecimentos deri­vam dessa.
— E as referências a possíveis extraterrestres na Bíblia eram reais? Pode-se acreditar no que se lê em Ezequiel e todo o resto?
— Isso é correcto. Eles apareceram naquele tempo na vossa Ter­ra, a fim de trazer um conhecimento superior de Deus e de amor es­piritual. Sempre aparecem quando são mais necessários. Servem como um símbolo de esperança e de compreensão superior.
— Chegarei a conhecer algum?
Houve uma pausa.
— Voltaremos a falar dessas questões noutra ocasião. Pense no que lhe disse e no que está disposta a aprender. Isso será tudo por agora?
Eu sentia a mente tão abarrotada que tive de dizer que sim.
— Obrigada, John, quem quer que você seja. Não me ocorre mais nada no momento. Tenho de absorver o que você disse.
— Está bem. Procure ficar em paz consigo própria, com Deus e com o seu trabalho, pois Ele é parte desse trabalho. Deus a abençoe.
Kevin estremeceu, tomo se a vibração do espírito de John tivesse passado pelo seu corpo e em seguida se esvaísse. Levou as mãos aos olhos, cobriu-os. Esfregou-os, como se estivesse a despertar dum sono profundo.
— Olá — disse, sonolento, tentando focar a sala ao seu redor. — Olá!
Levantei-me, espreguicei-me, e comecei às voltas diante dele.
— Olá — respondi. — Estou aqui.
— Que tal correu?
— Foi incrível. Nem sei direito o que pensar.
Kevin empertigou-se na cadeira e depois levantou-se.
— Faça apenas o que julgar certo. Sentiu que aquilo que se manifestou estava certo? Eles disseram-me para simplesmente confiar nos meus sentimentos. Não há mais nada que se possa fazer, a partir do mo­mento em que se começa a formular tais questões.
— Mas eles disseram coisas incríveis!
— Por exemplo?
— Sobre as vidas anteriores. Uma porção de coisas sobre pes­soas que conheço actualmente e que teria conhecido igualmente noutras vidas. E o mesmo acontece com John e McPherson.
— E que mais?
— Você acredita nisso tudo?
— Acredito no que sinto ser certo.
— E sente que a reencarnação seja uma coisa certa?
— Não poderia deixar de ser, não é mesmo? Afinal, não sou um instrumento através do qual tantas entidades espirituais falam? Portanto, a existência da alma em várias dimensões faz sentido para mim. Se não fosse assim, seria um actor ou um doido. E até onde me é dado apurar, não sou nenhuma das duas coisas.
Olhei atentamente para Kevin.
— Tem razão — murmurei, hesitante. — Mas John também mencionou uma porção de coisas sobre os extraterrestres, que terão proporcionado todos os tipos de informação espiritualmente avançada à raça hu­mana. Acredita nisso?
Kevin sentou.
— Claro que acredito. Por que não? Não apenas eles são mencio­nados na Bíblia, como aparecem de uma forma ou outra em quase todas as culturas da Terra. Por que não existiriam, então? Além do mais, conheço uma porção de pessoas que dizem tê-los já visto.
— Você já viu um disco voador?
— Não... ainda não tive esse prazer.
— Mas acredita mesmo nisso?
— Claro. Sinto que é o mais certo. E quem sou eu para contestar todas as autoridades que dizem haver uma boa possibilidade de que realmente existam? Conheço muitas pessoas que negam a existência dos discos voadores, mas também não existe uma prova em contrário.
Distraidamente, Kevin tomou o que restava do chá frio e olhou para a caneca.
— De onde saiu isto?
— McPherson. Ele disse que precisava de uma caneca irlan­desa para poder pensar melhor.
— Eu segurei esta caneca?
— Segurou.
— Interessante...
– Também acho.
– Que horas serão agora?
– Boa pergunta. Falta pouco para as 10.
– Então vou ter com a minha dama.
Ele encaminhou-se para a porta.
– Poderemos voltar a encontrar-nos em breve, Kevin? Sei que anda muito ocupado, mas não poderá arranjar-me um tempo?
– Deixe-me verificar com a minha dama e depois lhe falarei.
Abri a porta e agradeci-lhe.
Numa pose relaxada, ele ajeitou o sobretudo bege nos ombros. Saiu e desceu a escada como um personagem de The Lodger (um filme antigo a que eu assistira na infância). Observei-o a encaminhar-se para o seu “veículo” estacionado na rua e perguntei-me se os médiuns não precisariam ser involuntariamente teatrais, a fim de preservarem a própria identidade...

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Há muito tempo que dava conta ao Vassy das experiências que tive com o John e o McPherson. Realmente, uma das ligações que me unia a Vassy era o conhecimento de poder discutir com ele abertamente, e a consciencialização e as crenças que possuía. Vassy conhecera, na Rússia, médiuns de transe. Contou-me que lá era habitual as pessoas consultarem videntes e médiuns, porque a maior parte da informação pessoal que obtinham batia certa.

Por isso, Vassy, bom conhecedor da condição de médium de transe, aceitou o Kevin como uma pessoa simplesmente dotada de talento para actuar como instrumento de comunicação com entidades espirituais, as quais diferiam de nós por não possuírem corpo físico próprio. Vassy não duvidava que tais entidades espirituais tinham existência no domínio astral. Assim como não questionava que tivesse vivido encarnações anteriormente na Terra. O seu problema era saber se entre elas haveria entidades malignas. Daí que, naquela noite todo o seu interesse estivesse exclusivamente virado para a dicotomia existente entre o bem e o mal. Era, com efeito, assunto que o atormentava, e que desejava verdadeiramente resolver.

Quando Kevin chegou, Vassy e eu comíamos “kasha” russa (espécie de trigo torrado) com alho e cebola. Kevin vestia roupas claras, todo de beije, e não se deteve um instante junto de nós, ante a possibilidade de se manchar ou sujar. No entanto, acompanhou-nos na kasha com energia e entusiasmo, e Vassy nem sequer esperou que o Kevin entrasse em transe e nos trouxesse John e McPherson. Antecipou-se em relação ao Kevin na discussão do seu tema favorito: as forças do mal.
Com a boca atafulhada de comida, Vassy, russo cristão ortodoxo, perguntava ao Kevin, médium de transe norte americano, não religioso, temente a Deus, acerca do que pensava de toda a questão do bem e do mal. Enquanto os observava e escutava, impressionou-me o amadurecimento do Vassy, na colocação específica dos seus pontos de vista. Perguntou ele ao Kevin:
- Certamente não pensas que, sendo o homem e o próprio plano terrestre resultado da perda de graça de Deus, o mal seja parte sobrenatural da Força Divina, pensas? Sendo assim, será o próprio mal parte de Deus?
O Kevin mastigou calmamente a kasha. Não era a primeira discussão difícil sobre “o bem e o mal”, como era evidente.
- Não acredito – opôs-se Kevin – que exista alguma coisa chamada “mal”.
- Não, não – replicou Vassy – isso, filosoficamente, é muito importante para mim. Não acreditas que o mal tenha sido criado para o suplantarmos?
- Acho que, - arguiu o Kevin - aquilo a que chamas mal é realmente e apenas o desconhecimento de Deus. A questão assenta na ignorância espiritual, e não na existência do mal.
- Não, não, - replicou o Vassy - se o mal é ignorância de Deus, então como explicar as pessoas que, conscientemente se revoltam contra Deus? Destroem deliberadamente Deus no seu íntimo, com um conhecimento consciente. Portanto não ignoram Deus.
- É impossível destruir o Deus existente em nós. Ele é imortal. É por isso que os primitivos, que naturalmente não alcançaram o conceito de Deus, não podem ser consideradas más.
Kevin parecia desfrutar da novidade de alguém se interessar pelo seu ponto de vista, em vez de o utilizar simplesmente como um telefone humano.
- Mas – prosseguiu Vassy – existem pessoas muito inteligentes e conhecedoras que são contra a ideia de Deus.
- Não – opôs-se Kevin – nesse caso na realidade não têm conhecimento de Deus. O conceito que o homem tem de Deus é o reflexo do que ele será. Se uma pessoa inteligente se revolta contra Deus, na realidade está apenas a revoltar-se contra si própria.
Vassy mastigou e pensou durante um pouco.
- Todos nós nos encontramos sob a lei de Deus, não será? - perguntou Vassy.
- Não, espera lá! – objectou Kevin – Nós não estamos sob a lei de Deus. Somos Deus. 
Precisamos aceitar-nos completamente para aceitarmos as leis do eu interior, que são divinas. Desse modo tornamo-nos Deus. E Deus e o si mesmo, individual, são um só... por conseguinte, basicamente somos amor. Concordas que Deus seja amor?
- Com certeza! Mas onde está o lugar do mal, em tudo isso?
- Nem lugar nem mal existem. É aí que reside a questão. Na vida tudo é resultado da iluminação ou da ignorância. São essas as suas polaridades. Não o bem nem o mal. E quando somos completamente iluminados, como Jesus Cristo ou Buda,  ou outros indivíduos desse calibre,  deixa de existir luta.
Vassy levantou-se e começou a andar pela cozinha.
- Não – insistiu – nós somos criados para lutarmos nesta terra. Não há vida sem conflito.
Kevin sorriu.
- Oh!, sou muito facilmente capaz de traçar uma vida isenta de conflitos. Muito facilmente.
- Ah, não – protestou Vassy. – O próprio corpo, sozinho, constitui um terreno de luta. 
Por exemplo, só o comer já envolve luta. Esta discussão é uma batalha.
- Certamente – conformou-se Kevin – mas não foi para isso que fomos criados.
- Não, mas a luta constitui um certo conflito entre duas polaridades. Por exemplo, acredito que a natureza foi criada para não ser perturbada. Acredito que a maça sinta dor quando a comemos, assim como as flores sentem dor quando as arrancamos.
Kevin pousou o garfo e disse:
- Bem, se acreditas nisso, então também te será fácil acreditares que a maçã gosta de ser comida, por saber que existe para alimenta outros seres. Está em perfeita harmonia com Deus, e portanto compreende que o seu objectivo é o de alimentar a vida. Por consequência, comer não constitui necessariamente uma luta, porque todos beneficiam – os humanos, que a comem, e a maçã, que cumpre o seu objectivo.
- Sou teimoso – arguiu Vassy – Tudo o que argumentaste está correcto, até que estejam três pessoas numa ilha deserta e apenas uma maçã. A luta e o conflito é que vão prevalecer.
- Depende das pessoas – retorquiu Kevin. – Se fossem três monges budistas a confrontar-se com o conflito da sobrevivência por uma maçã, provavelmente meditariam e nenhum a comeria até perder a consciência devido à fome, deixando-se simplesmente passar do plano terrestre ao além. Com o conhecimento espiritual que possuem, saberiam estar apenas a perder o corpo e não a alma. Portanto, o seu conhecimento mais elevado prodigalizar-lhes-ia o caminho acertado e jamais se envolveriam em conflitos uns com os outros. Se, porém, fossem três piratas a confrontar-se com o mesmo problema, provavelmente massacrar-se-iam mutuamente, o que apenas manifestaria a sua ignorância quanto à imortalidade da alma. O ponto de vista que defendo é o de que isso serviria de exemplo da ignorância do conhecimento mais elevado, mas o mal em si mesmo, a luta e o conflito, acham-se na directa proporção do conhecimento de Deus. Quanto maior o conhecimento de Deus e da própria imortalidade da alma, tanto menor será a luta. Por conseguinte, não existe mal... apenas falta de conhecimento.
Vassy reflectiu e em seguida afirmou:
- Sim, mas no meu caso, estou unicamente interessado nesta vida, na luta de curto prazo, com os erros e ignorância que comporta. Não procuro compreender nem modificar o cosmos. Desejaria apenas ultrapassar a ignorância que evidencio no conflito actual... não no que toca às futuras encarnações, mas agora. Por isso, para mim, o termo a curto prazo é o que mais importa.
- Bem – conformou-se o Kevin – não estou a ver como poderás abordar a verdade mais profunda num curto prazo, sem compreenderes a natureza do “longo prazo”.
- Com certeza que o conhecimento de Deus se relaciona com o “longo prazo”, mas a prática real da vida é agora. O investimento cármico que faço acha-se de acordo com a vida que levo agora.
- Está bem, mas se o teu conceito de Deus abarcar o bem e o mal, acabarás por manifestar essas duas polaridades na tua vida, por acreditares que sejam reais. Tu és o resultado do teu próprio pensamento. Todos o somos. Aquilo que pensamos é o que somos. Se acreditares que és o bem, e Deus o amor total, Deus está em ti, e os modelos do teu comportamento pessoal exprimirão essa crença.
- Então isso é infindável?
- É.
Não tardou que Kevin colocasse outra questão a Vassy, que jamais me ocorrera.
- Já alguma vez tiveste alguma experiência fora-do-corpo? – perguntou-lhe.
- Queres saber se já experimentei uma projecção astral?
- Exacto.
- Já. Uma vez. Encontrava-me num estado de paz total. Um estado de nirvana, numa altura em que praticava yoga e jejuava. De repente senti-me a sair do corpo e vi-me sentado no chão, a meditar. Foi extremamente assustador para mim.
- Porquê? – perguntou Kevin.
Vassy reclinou-se nas almofadas, tentando encastrar as palavras do pensamento relembrado.
- Perdi o controlo, e fiquei sem saber para onde iria. Não conseguia sentir o chão debaixo dos pés. Sentia-me sem terra e sem restrições. Sentia-me muito assustado. Foi uma experiência marcante, fantástica mesmo. Desde essa altura que sou extremamente cauteloso com a pesquisa espiritual.
Kevin prosseguiu:
- Pensas que te sentirias menos assustado se o experimentasses com outra pessoa?
Vassy olhou-me com a expressão do desejo estampada no rosto.
- Julgo que poderia ter uma experiência dessas com a Sheerlee. Ela sente os meus pensamentos. Não lhe posso mentir. Sente tudo o que sinto. Sinto – continuou – a ligação com a minha mãe. Sinto as suas orações. Sei quando reza, em especial quando reza por mim. E sempre que o confirmei junto dela, nunca falhou. Às vezes, quando ela reza durante a noite, na Rússia, sou capaz de o sentir aqui, de vez em quando, durante o dia.
Kevin estava calado.
Vassy levantou-se.
- Escutem – disse - nós os cristãos ortodoxos russos, estamos convencidos de que quem não professa a nossa fé está dominado pelo demónio, de uma maneira ou de outra.
Kevin despejou açucar no seu café.
- Eu tento educar as pessoas, mas não mudá-las. Se julgam que seja difícil assimilar um conhecimento espiritual mais elevado, por não quererem abdicar dos seus conceitos de bem e de mal, então, de um modo geral, entram para a Igreja. NO seio da Igreja obtêm a confirmação de que o bem e o mal realmente existem e ainda escutam falar de Deus. Mas é igualmente prejudicial que creditem ao mal a mesma validade que ao bem. Mais cedo ou mais tarde, porém, toda a gente se passará a confrontar com algum aspecto do conhecimento mais elevado e, então, mudará voluntariamente.
- Estás a afirmar – retrucou Vassy – que a ausência de luta nos colocaria mais perto de Deus?
- Isso mesmo - respondeu Kevin – por já sermos Deus. A discrepância surge do facto de não acreditarmos nisso. Os seres humanos acreditam que em parte corporificam o mal, e agem em conformidade. E nós somos o produto daquilo em que acreditamos, do que pensamos.
Vassy bateu na cabeça.
- Tenho uma verdadeira dificuldade no que tange a isso – afirmou exasperado. Isso está muito afastado da compreensão cristã de Deus. Para mim é-me difícil fazer parte deste mundo, onde sei que a luta com o mal é requerida ,e em simultâneo acreditar que,  se desistir dessa luta com o mal, possa estar mais próximo da compreensão de Deus.
- Esse é o conflito – disse Kevin – O conflito reside no próprio conflito. Na minha opinião encontrámo-nos neste mundo para aprendermos que não precisamos lutar. Esse é que é o verdadeiro conhecimento. Aprender que o conflito não existe, existe sim a luta, mas que a vida, em si mesma, não é luta nenhuma.
- Mas estou a tentar escrever um argumento, e isso traduz uma luta – disse Vassy. Quando produzo um filme vivo uma luta permanente.
- Sim - disse Kevin – todavia, se te descontraíres e deixares a criatividade fluir, verás que a necessidade de lutar diminui. Mas se acreditas precisar dessa luta criativa para obteres um bom argumento, então crias lutas em vez do argumento. Ou talvez cries luta e um bom argumento. – acabando sem saberes se te terias saído melhor se não tivesses lutado...
Kevin preparou-se para entrar em transe.
- Kevin, já te ridicularizaram por incorporares entidades? – perguntou Vassy.
Kevin sorriu pacientemente.
- Às vezes. Mas geralmente, as pessoas estão interessadas num conhecimento espiritual mais elevado, ou então não viriam a mim.
- Mas – perguntei – essas pessoas não pensarão que estejas unicamente a representar, quando recebes entidades espirituais?
Minha querida Sheerleee – informou Vassy – posso dizer-te que as entidades espirituais existem. Na Rússia sabemos disso. E como realizador, também te posso dizer que os médiuns não estão a representar. Não, não representam!
- Está bem – retorqui – mas já pude ler montes de coisas sobre o assunto e penso que talvez o médium esteja a assimilar aquilo que Carl Jung chamou de inconsciente colectivo. Talvez não sejam verdadeiramente entidades espirituais o que incorpora, mas relatos daquilo que o seu inconsciente distingue.
- Talvez – afirmou Vassy – mas a informação é geralmente a mesma, onde quer que a incorporação ocorra. Porexemplo, a reencarnação traduz a verdade básica e tudo o mais se origina dela.
Kevin escutou calmamente Vassy e eu discutirmos a autenticidade daquilo a que ele, Kevin, dedicara toda a sua vida e acenava afirmativamente a cada ponto de vista e pergunta com a cabeça. Não se sentia obrigado a defender-se, mas encontrava-se interessado no modo como cada um de nós se referia ao fenómeno.
- Esta noite posso questionar os teus guias sobre o mal?
- Certamente, – respondeu Kevin – pergunta o que quiseres. É para isso que aqui me encontro. Vamos começar?
Vassy perguntou a Kevin se se sentia confortável e passou-lhe uma almofada para se recostar. Fui buscar um copo de água à cozinha, por me lembrar que McPherson apreciava o ambiente de bar. Kevin colocou os braços suavemente sobre a cadeira e, silenciosamente, começou a respirar fundo. Desliguei o telefone e liguei o gravador. O que se segue é uma versão ligeiramente alterada do que aconteceu. A cabeça de Kevin pendeu para o lado, quando entrou em transe. A sua respiração sofreu uma alteração. Aproximadamente cinco minutos depois, o seu corpo estremeceu e a cabeça reergueu-se Os olhos permaneciam fechados. A boca abriu-se e, momentos depois, saíram dela as seguintes palavras:
- Salve! Declarem o objectivo da reunião. 
Era a entidade John que viera até ele.
- Estamos aqui duas pessoas – disse eu – Gostaríamos de colocar algumas perguntas. 

Na verdade, não as temos preparadas. Pode ser?
- Tudo bem – disse a voz - Avancem a pergunta.
Dei sinal a Vassy. Ele indicou-me que devia ser eu a primeira.
- John, és tu? – perguntei.
- Sim – veio a resposta, sem floreados.
- É bom falar de novo contigo. Tenho aqui um amigo junto comigo, que conheci depois da última vez que conversamos, e ele está tão interessado neste assunto quanto eu.
- Muito bem – aquiesceu John
- A primeira coisa que gostaria de saber é se a humanidade necessita dum esclarecimento espiritual. Quero dizer, se mais pessoas compreendessem as suas próprias dimensões espirituais, isso diminuiria o sofrimento e a dor humanos?
- Correcto. – respondeu John – A consciência colectiva de toda a raça humana exprime a realidade, ocasiona perturbações na natureza, e, evidentemente nas actividades humanas.
- Queres dizer – disse eu – que a mente humana é capaz de influenciar a natureza, como nos casos de tremores de terra, inundações e outras coisas que tais?
- Correcto. A influência gravitacional e a harmonia planetária são afectadas pelas mentes dos seres de cada planeta. No vosso planeta estais a sentir perturbações naturais porque o estado de consciência da raça humana precisa elevar-se.
- É por isso que se faz necessária a iluminação espiritual?
- Sim, a mente dos homens é mais poderosa que a natureza. Vocês sofrem pelo atraso da vossa mente, que influencia os padrões da natureza no plano terreno...
- Está bem. – disse eu – Com tudo o que de mal está a acontecer neste mundo, dirias que existe uma forma negativa aqui a operar, igual à de Deus? Quero dizer, o mal também fará parte de Deus?
- Estás a referir-te às influências Satânicas? – perguntou John.
- Estou.
- O conceito de Satanás, tal como é interpretado na vossa Bíblia, teve a sua origem do seguinte modo. Adão e Eva significam simbolicamente a criação da alma, e foram originalmente criados como energia espiritual pura, como os demais. Quando se tornaram prisioneiros do plano material, ou plano terrestre tal como o conheceis, deram consigo encarnados nos corpos dos primatas inferiores, por terem sido seduzidos nas atracções da existência física. Devido à caída que tiveram em desgraça, activaram a lei do carma. As suas origens espiritual e divina foram apenas ligeiramente recordadas, por causa das restrições limitativas dos seus corpos físicos. A luta pelo regresso à divindade original é o que a vossa Bíblia denomina de Satanás. O significado hebraico do termo “Satanás”, como o instrumento Kevin vos referiu, é luta, ou aquilo que incomoda o homem. O que vocês denominam de Satanás é unicamente a força do estado inferior da consciência na luta que empreende para reencontrar e conhecer Deus, que foi a vossa origem. O sentimento a que chamam de mal resulta da luta do homem consigo próprio.
John parou de falar como se se empenhasse na nossa resposta...
- Mas como é que nos enganamos tanto sobre este assunto? – perguntei.
- A luta do homem para se conhecer a si mesmo não seria uma luta se amasse a Deus de corpo e alma ou ao próximo como a si mesmo. O próximo é ele próprio. Mas o homem criou a dualidade entre o bem e o mal de modo a julgar os outros em vez de se descobrir a si próprio. Dessa forma possibilitou guerrear o semelhante. Da falta de conhecimento de Deus resultou o conceito do mal. Mas, quando o homem compreender que ele próprio é um ser colectivo e representa a força divina, então ser-lhe-á impossível fazer guerra a si próprio. Compreendes isto?
- Compreendo. Posso colocar-te outra pergunta, actual e específica?
- Sem dúvida.
- Estará a Rússia consciente da necessidade de iluminação espiritual?
- Não tanto no domínio político, mas muitíssimo no domínio dos investigadores médiuns. Esses indivíduos espiritualizaram o intelecto e chegaram à percepção de que talvez exista uma mente universal.
Vassy levantou o braço.
- Queres perguntar alguma coisa, querido? – perguntei.
- Sim. - respondeu – Devo apresentar-me a mim próprio?
- Se o desejares – afirmou John.
Vassy aliviou a garganta.
- Sou Vassily Okhlopkhov-Medvedjatnikov e nasci na Rússia. Encontro-me actualmente nos Estados Unidos e gostaria de trabalhar aqui. A primeira pergunta é como poderei, na minha vida privada e social, obter resultados positivos na luta contra as forças do mal?
Por um momento fez-se silêncio. Em seguida, John afirmou:
- Consideras-te uma alma?
- Sim.
- Consideras-te nascido de Deus?
- Sim.
- Consideras todos filhos de Deus?
- Sim.
- Por conseguinte, na vida privada e nas aventuras pessoais, reconheces-te como filho de Deus, dotado de alma. Com isso, vais ensinar outros, através do teu reconhecimento pessoal.
- Sim, vou.
- Não tens de resistir ao que consideras de mal. Se procuras a luta contra o mal, descobrirás que ele te terá cativado e ficarás perdido na batalha. Deixa-te iluminar integralmente. Procura dar amor e conhecimento para que os outros à tua volta progridam. Se eliminares a ignorância com o exemplo da tua vida, as forças satânicas, como as denominas, também serão destruídas. Porque a luz está sempre presente e as trevas, que nada mais são que a ignorância, vêm a luz e não a compreendem. é melhor acender uma única vela, do que amaldiçoar as trevas. As trevas são o que defines com a força satânica. Descobre o amor e a luz que se encontram no teu íntimo, como no íntimo dos outros. Aceita o sofrimento. Depois, na volta, servirás os outros. Consegues compreender?
Vassy debruçou-se e perguntou:
- Então queres dizer que o sofrimento é necessário nesta luta?
- A definição hebraica da experiência é o conhecimento do sofrimento. Portanto, o sofrimento é unicamente experiência. O sofrimento é o que denominarias de longa experiência. Porque não existe tempo nem espaço. Há apenas experiência. Por exemplo, se um indivíduo chegasse junto de ti e te batesse e magoasse, que farias? Responderias à agressão ou tomarias a dolorosa experiência e tornar-te-ias paciente com ele? Eu desejaria que falasses com esse indivíduo, de modo a conduzi-lo a um maior esclarecimento. O choque e a surpresa que sentiria seriam enormes. Porque a reacção que esperaria em relação à agressão inicial seria a de que lhe batesses de volta. Por conseguindo, suportando a agressão com bondade, dar-lhes-ias o maior contributo para pensar e vencer a sua ignorância, com base no teu sofrimento pessoal. E assim talvez ele também regressasse a Deus. É isso o que queremos significar com sofrimento.

Consegues compreender?
Vassy reflectiu nas palavras de John e não voltou a falar na questão do mal.
- Gostaria de colocar um questão mais de ordem pessoal.
- Fazes favor.
- A Sheerlee e eu conhecemo-nos por acaso, ou, de algum modo, estava determinado e planeado?
Houve uma pausa de silêncio. Em seguida John afirmou:
- Espera, por favor. Há uma outra entidade a desejar falar.
Fez-se um novo compasso de espera. Depois chegou McPherson.
- Olá, tiro o chapéu a todos. Como vão as coisas por aí? – falou com a sua familiar e divertida pronúncia. Vassy e eu rimo-nos e nenhum de nós disse nada.
- Vocês estão aí, não estão? – perguntou McPherson.
Rimo-nos novamente.
- Sim, estamos aqui – respondi – Estás mesmo surpreendentemente engraçado, é tudo.
- Absolutamente correcto – respondeu. – Ah! Agora percebo que fui chamado para responder sobre encarnações passadas!
- Sim – disse Vassy.
- Está bem. Um momento. Deixem-me concentrar.
Deu-se outro compasso de espera.
- Desculpem-me – penitenciou-se – não estava de todo aqui. Houve uma pergunta relativa a duas pessoas que se conheceram... Podem colocar a questão novamente, por favor?
- Vassy pretende saber se ele e eu nos conhecemos por acaso ou se faz parte de um plano.
- Só mais um momento, por favor. Deixam-me verificar isso.
Vassy e eu aguardamos, enquanto olhávamos um para o outro.
McPherson voltou.
- Olá novamente. Acabo de consultar uma outra entidade mais conhecedora da informação sobre encarnações. Conforme os seus registos, o vosso encontro foi um pouco planeado, no sentido de que ambos viveram uma encarnação na Grécia. Ambos estudavam para se tornarem oráculos e assim, desenvolveram as capacidades de médiuns, como os talentos teatral e dramático. Por conseguinte, têm um saco cheio de estudos. Evidentemente que,  naquela altura, a arte dramática era considerada dramática, o que hoje não sucede. Os actores e as actrizes eram considerados semideuses. Portanto, naquele período, vocês quiseram espiritualizar ainda mais a vossa arte e começaram a estudar e a praticar uma forma esotérica de arte natural, por meio da qual entravam em transe e incorporavam grandes actores do passado. Naquela encarnação, foram amigos muito íntimos e passaram a vida sempre juntos. Contudo, eram então de sexos opostos, o que hoje poderá estar a reflectir-se na luta das vossas personalidades.
Vassy e eu rimos.
- Estás a ver? Não te disse que me identificava com o feminino!? – comentou Vassy.
- Então, porque é que ele fica preocupado com a minha masculinidade? – perguntei.
- Presentemente acham-se comprometidos – interrompeu Tom – com a compreensão das características Yin e Yang e das tuas tendências passivas e não passivas. Estão a aprender sobre as energias masculina e feminina, e a observá-las mutuamente, aliás, como a maioria das criaturas o faz hoje no plano terrestre. Mas, de qualquer modo, e para responder à tua pergunta, relativa à actual encarnação, é não. Vocês não se encontraram por um acaso. Estava previsto.
- Mas, previsto por quem? – perguntei.
- Por vós próprios, enquanto almas dessa encarnação. Todos nós planeamos as próprias encarnações antes de elas sucederem, de modo a passarmos por determinados conflitos e experiências...
- Nesse caso, que missão teremos considerado realizar em comum?
- Bom, até agora diria que ambos estão a desfrutar a companhia um do outro. Digamos que de um modo bastante íntimo.
Ri-me e Vassy corou, ma também sorriu.
- Mas os dois, sois criativos nas vossas formas de arte. E acreditamos que formam uma boa polaridade, um para com o outro. Um está em bruto enquanto o outro se mostra mais meticuloso e desenvolve a sensibilidade. Por isso, sentimos que a combinação dos vossos intelectos irá produzir formas similares de criatividade, preocupados como estão por introduzir compreensão espiritual na literatura, no cinema e no teatro, tal como já o fazem nas vossas técnicas. Compreenderam bem?
Ri-me e disse:
- Sim, e tu?
McPherson também hesitou e de seguida também riu.
- Não exactamente, visto que a informação veio de outra fonte.
Vassy falou novamente com franqueza.
- Posso fazer outra pergunta pessoal?
- Fazes favor. – disse McPherson – Mas tem em atenção que vós tivestes muitas encarnações juntos. Eu dirigi-me apenas a uma. A seu tempo, tu próprio reconhecerás as outras.
- Gostava de colocar uma questão médica – acrescentou Vassy.
- Vamos, fala.
- Sheerlee tem hipoglicémia. Como é que a poderemos tratar?
- Queres dizer, eliminá-la por completo?
- Sim, se fazes o favor. – disse Vassy, lembrando-se possivelmente de que seria mais fácil curar o açúcar no meu sangue do que as suas teatrices.
- Muito bem – afirmou McPherson – dêem-me as características da alimentação.
Pensei um pouco e mencionei que comia especialmente vegetais crus, fruta, cereais, algumas proteínas, mas não carne mal passada.
- Pretendes uma dieta rica em proteínas?
- Rica em proteínas?
- Sim.
- Bom, gosto de nozes e de coisas semelhantes.
- Já tentaste fazer jejum?
- Isso mesmo – adiantou logo Vassy. – Ela precisa é de jejuar.
- Mas Tom, se eu fizer dieta ou jejuar não vou aguentar e desmaio.
- Isso não importa – afirmou Vassy.
- Está bem – disse Tom, interrompendo o argumento. – Podemos pensar num jejum talvez mais apropriado.
- A sério?
- Certíssimo. Veremos. Um momento, deixa-me consultar outra entidade, especializada nessas coisas... Sim, já me deram uma ajuda.
Tom prosseguiu, dando-me informação pormenorizada sobre uma dieta global, seguida de proteínas de alto teor (sob a forma de tofu) e vegetais crus, tudo isso, diria, para remoção total das toxinas do teu sistema.
Seguidamente Vassy fez perguntas sobre a sua saúde. Mencionou o que comia, mas não referiu as sobremesas, nomeadamente o adorado molho de chocolate. Tom chamou-lho à atenção. Vassy pareceu ficar um tanto embaraçado. Mas os dois rimo-nos quando Tom lhe deu um concelho concreto e pormenorizado. Tom disse-lhe que lhe faltavam no corpo minerais e vitaminas, o que ele se apreçou de imediato a tomar nota.
Ambos tínhamos problemas de artrite, para o que Tom aconselhou massagens com óleo de amendoim e azeite, completando-as com cálcio e cobre... A consulta sobre saúde continuou por cerca de uma hora, até que Tom e Kevin se fatigaram.
- Há mais alguma pergunta? Teremos de ser mais cuidadosos, a fim de não fatigarmos o corpo do jovem.
- Oh, sim! Tens absolutamente razão, desculpa-nos – mostrei-me compreensiva.
- Mais uma pergunta – pediu Vassy - Por favor.
- Muito bem.
- Disseste-nos que Sheerlee e eu nos conhecemos por acaso, e que tivemos uma encarnação juntos no tempo da Grécia antiga.
- Exactamente.
- Bem, que deveremos fazer agora?
- Ambos posuem talento para coordenar certas formas de arte. Por exemplo, podiam ser patrocinadores de determinadas formas de arte metafísica e espiritual.
- Esta encarnação terá sido destinada a completar os aspectos metafísicos da arte? – perguntei.
- Diríamos que sim.
- Bem, de que modo poderemos conseguir isso, se a reacção das pessoas é a de ridicularizar esse tipo de coisa?
- Discordamos. Tem-se obtido sucessos. Por exemplo, 2001: A Odiseia no Espaço e Guerra das Estrelas, com a noção da “Força”. E haverá muitos mais.
- Bem, mas estarias as pessoas relacionadas com os aspectos metafísicos da Guerra das Estrelas ou foram especialmente atraídas para o filme por causa de ser uma novela que versava sobre aventura no espaço?
- Digamos que os artistas captaram a atenção do público e, em seguida, o público ficou em condições de receber mensagens mais subtis. Sim, a maior parte do público reagiu bem à “Força”, percebendo nela uma actividade divina.
- Portanto, queres dizer – perguntei – que lá bem no fundo da mente do público, ficou uma réstia do que estamos a falar?
- Sem dúvida nenhuma. Por exemplo, a forma de arte de 2001: Uma Odisseia no Espaço, constitui uma magnífica expressão da potencialidade metafísica. O simbolismo é inacreditável. Stanley Kubrick é um mestre em metafísica.
- Que é que isso tem a ver connosco? – perguntou Vassy.
- Vocês estão agora prontos para arrancarem com idênticos projectos. Querem mais alguma coisa?
- Não, obrigado, Tom. Ficamos agradecidos.
- Muito bem. Nesse caso vamos embora. Que os santos vos protejam e Deus vos abençoe.
Tom desincorporou, voltando John para se despedir. Vassy e eu permanecemos de mãos dadas, a apreciar a recuperação de Kevin.
- Olá! – exprimiu-se Kevin, como que meio baralhado no espaço e no tempo. – Então, vocês estão aí?
- É verdade Kevin! Aqui estamos, sem arredar pé – respondi.
Ele descontraiu-se e espreguiçou-se
- Estive muito tempo inconsciente?
- Talvez hora e meia – respondi-lhe.
- Às vezes perco a noção do tempo. – Bocejou e esfregou os olhos.



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