sexta-feira, 13 de outubro de 2017

LIE-TZU - 2ª PARTE



Lieh-tzu
2ª PARTE
Tratado dA PLENITUDE DO Vazio
o caminho sem caminhos
(Sutra of fulness and emptiness)
Tradução de Amadeu António
duartfil@gmail.com
(Com base no original das traduções de Eva Wong e Lionel Giles)

livro quinto
As Questões de Tang
INTRODUÇÃO
Muitas coisas no mundo não são tão estranhas como pensamos que sejam. Costumes e tradições de outras culturas poderão no início parecer chocantes, mas quando as pessoas de outras culturas nos olham, elas provavelmente têm a mesma reação inicial.
Para Lieh-tzu, mesmo os acontecimentos mais estranhos não são anómalos, porque todas as coisas seguem a ordem natural do universo. As pessoas podem adquirir habilidades incríveis e realizar feitos inacreditáveis por entenderem como as coisas funcionam.
A chave para entender a ordem natural das coisas está em dissolver as barreiras existentes entre sujeito e objecto; conhecedor e conhecido, aquele que vê e o que é visto. Se estiverem a aprender o tiro ao arco, a pescar, a dirigir, a cantar, a criar um artefacto, a tocar um instrumento musical ou a comunicar-se com um amigo, o nível mais elevado de conquista só pode ser alcançado quando as dualidades forem dissolvidas e nada os separa de tudo e de todos.
47 De onde é que vêm as coisas?
O Imperador Tang perguntou ao sábio: "As coisas sempre estiveram aí desde o começo intemporal?"
O sábio respondeu: "Se as coisas não tivessem estado aí desde o começo, como elas poderiam estar aqui agora? O que você acha das pessoas do futuro que se interrogam se existem coisas agora?"
"Nesse caso, você diria que não existe coisa tal como antes ou depois?"
"É difícil dizer quando as coisas começam ou quando elas terminam. O começo de uma coisa pode ser o fim de outra. Desde os primórdios até o nosso tempo, as coisas estão continuamente a ir e a vir. Não há como saber o que surgiu primeiro. "
"Então, existirá um limite para o universo?"
"Eu não sei."
O Imperador Tang apertou ainda mais. "Tem que haver um limite em algum lugar."
O sábio então respondeu: "Nada é ilimitado. Como hei-de saber onde estão os seus limites? Como saberemos se, além desse universo, não existirá outro universo? Só posso dizer que as coisas são ilimitadas, mas não posso dizer se existem alguns limites.
48 O homem que tentou mover as montanhas
Num vale rodeado por duas altas montanhas, morava um velho homem. Ele foi apelidado de Velho Tolo pelos seus vizinhos por pensar constantemente em projectos impossíveis.
Um dia, o Velho Tolo ficou cansado de ter que dar uma longa e caminhada ao redor para sair do vale. Ele reuniu a família e apresentou-lhes a proposta de que eles removessem as montanhas que lhe bloqueavam o caminho.
O filho e o neto ficaram muito entusiasmados com a ideia e quiseram dar início ao projecto de imediato. Contudo, a esposa do velho, não ficou nada entusiasmada. Ela balançou a cabeça em reprovação e disse ao marido: "Tu estás com noventa anos de idade. Tu nem forças tens para remover um pequeno montículo de esterco. Como poderás nivelar duas montanhas tão altas? Não estarás a ser um pouco ambicioso? De qualquer forma, onde colocarias o entulho depois de derrubares as montanhas?"
O velho não ficou desanimado. "Nós podemos despejar as pedras no mar," disse ele. O filho e o neto concordaram.
No dia seguinte, o Velho Tolo, com o filho e o neto, pegaram em pás e picaretas e dirigiram-se para as montanhas. No caminho, foram acompanhados por um menino de sete anos de uma família vizinha. Os quatro trabalharam do nascer ao pôr-do-sol e não voltaram para casa a fim de descansar até que o inverno chegasse.
Um homem sábio na aldeia que tinha ouvido falar da tentativa que o Velho Tolo estava a fazer por nivelar as montanhas veio falar com o velho sobre seu projecto tolo. Ele disse-lhe: "Na sua idade você devia ser sensato o suficiente para saber que o seu projecto é impraticável. Você está velho e fraco. Não pode nem tirar as ervas daninhas do seu jardim. O que o leva a pensar que possa mover uma montanha?"
O Velho Tolo suspirou e disse: "Tem a mente tão fixa quanto uma pedra. Até mesmo uma criança de sete anos de idade é mais inteligente do que isso. Não consegue ver que, se eu não terminar o projecto, o meu filho e o meu neto dar-lhe-ão continuidade? E se eles não conseguirem terminar de mover a montanha, os filhos e os netos deles continuá-la-ão, e assim por sucessivamente. A montanha, por outro lado, não cresce. Assim, se cada geração continuar a removê-la, então um dia a montanha irá ficar nivelada."
O homem sábio não conseguiu rebater a lógica do Velho Tolo, e assim ele foi-se embora.
O tempo passou, e o Velho Tolo e os filhos continuaram a escavar na montanha. Enquanto todos riam de seu projecto impossível, os espíritos da montanha ficaram preocupados, por verem que o Velho Tolo estava determinado, e não havia dúvida de que a montanha seria nivelada, mesmo que em algum momento do futuro distante.
Alarmados, foram aos senhores do céu e relataram a sua preocupação. As divindades ficaram curiosas e divertidas com a tentativa do Velho Tolo de mover as montanhas, mas quando apuraram a sua paciência e determinação, decidiram ajudá-lo. Uma noite, eles enviaram dois gigantes para transportar a montanha, um para o leste e um para o sul. Na manhã seguinte, quando as pessoas olhavam pelas janelas, as montanhas que lhe tinham bloqueado o caminho tinham milagrosamente desaparecido.
49 O homem que tentou perseguir o sol
Havia um homem que se orgulhava de ser um óptimo corredor. Um dia, ele decidiu competir com a jornada descrita pelo sol através do céu, e assim perseguiu o sol até ao crepúsculo.
Por essa altura ele sentiu-se extremamente sedento. Procurou água e encontrou o rio Amarelo e o rio Wei. Depois de ter bebido a água toda, ele ainda estava com sede, pelo que se dirigiu a um excelente pântano no norte. Antes que ele pudesse alcançá-lo, morreu de sede e caiu ao chão. A vara que ele tinha carregado absorveu a carne empapada do seu corpo em decomposição e transformou-se numa grande floresta.
Aqueles que têm orgulho das capacidades que têm tendem a querer levá-las até ao limite. Se as levarmos até o limite, então você tentaremos competir com tudo. E se competirmos com tudo, um dia, como o homem que perseguiu o sol, perderemos.
50 O País do Norte
Yu, o Rei-Shamane, disse: "Dentro do céu e da terra e das quatro direcções, dentro dos quatro mares, tudo é iluminado pelo sol e pela lua, circundado pelas estrelas no céu, regulado pelas quatro estações e governado pela Estrela do Ano. As coisas que vêm do Grande Espírito diferem na forma e tamanho. Alguns vivem vidas longas e alguns morrem de acidente. Somente os iluminados compreendem o modo natural das coisas e vêem o seu lugar no universo."
O sábio Hsia Chi disse: "Há coisas que não exigem que o Grande Espírito as crie e ainda assim existem. Elas não requerem que as energias de yin e do yang as alimente, nem que o sol e a lua as ilumine. Elas não precisam de protecção para viver uma vida longa, nem sofrem mortes acidentais. Mantêm-se quentes sem roupas, são cheias sem precisar de arroz, e podem viajar sem barcos ou veículos. Esta é a maneira natural das coisas."
Mais tarde, quando Yu estava a ajudar a lutar contra o Grande Dilúvio, ele saiu do caminho e foi dar a um país muito a norte. Quando perguntou aos habitantes onde se encontrava, eles disseram que ele estava no País do Norte, a milhares de quilômetros do seu lar.
Yun logo descobriu que havia um monte de coisas incomuns nesse país. As pessoas não faziam ideia de onde ficavam as fronteiras do país. Onde viviam, não havia tempestades nem neve, animais selvagens nem florestas. Eles moravam numa enorme planície com quilómetros de pastagens. No meio da planície havia uma montanha em forma de um cântaro. No topo da montanha havia uma nascente. As águas da nascente eram doces e perfumadas e escorriam pela montanha em quatro córregos claros e espumantes. A sua corrente carregava a água por toda a terra. Eles regulavam o clima e neutralizavam o gás venenoso.
As pessoas eram gentis e amigáveis. Os seus corpos eram suaves, tinham um coração aberto e clareza de ideias. Todos viviam juntos em harmonia. Não havia brigas, nem ciúmes, nem orgulho. O velho morava com os jovens. Não havia políticos nem líderes. Homens e mulheres misturaram-se livremente, e não havia convenções sociais, como cortejar ou casar. Todos viveram junto à água. Não era necessário plantar nem tecer para fazer peças de roupa. As pessoas morriam naturalmente depois de viverem cem anos. Ninguém era acometido de enfermidade nem morria de doença, e ninguém era morto acidentalmente. As pessoas viviam na felicidade e no contentamento e não conheciam a ansiedade, a tristeza, a decadência, a morte nem a dor.
As pessoas dessa terra também adoravam a música e o canto. Eles dançavam e cantavam o dia todo. Quando estavam cansadas ​​ou quando tinham fome, tudo o que elas precisavam era beber a água doce da nascente mágica e sentiam-se de novo repletos de energia. Se bebessem demais, dormiriam durante dez dias. Se elas se banhassem nas águas, os seus corpos veriam o seu vigor renovado e carregariam a fragrância das águas por muitos dias.
Quando o imperador Mou de Chou seguiu na sua jornada espiritual, visitou essa Terra do Norte e lá viveu por três anos. Depois que voltou para casa, ele pensou com frequência nessa terra e sentiu-se de tal modo acometido com os pensamentos de que não conseguia comer nem dormir.
Essa terra era tão incomum que Kuan Chung, o conselheiro do rei de Chi, encorajou o seu senhor a visitá-la. Os dois homens estavam prestes a partir para essa terra lendária quando outro ministro aconselhou o rei dizendo: "Meu senhor, por que viajar para uma terra estrangeira quando você tem tudo no seu próprio país? Olhe ao redor do reino de Chi. As nossas montanhas e rios são lindos, as nossas planícies são amplas, e nossa gente sente-se feliz. A nossa terra produz colheitas abundantes e não nos falta nada. A sua corte está repleta de esplendor, os seus ministros são leais, os seus soldados fortes e os seus súbditos são cultos. Tudo o que você pode querer existe aqui em casa. Por que você quererá viajar para terras que ficam nos limites da nossa civilização? Kuan Chung deve estar a fantasiar de novo."
Quando o rei informou isso a Kuan Ching, o conselheiro simplesmente respondeu: "Isso não é nada que o nosso amigo venha a entender. Receio que, se não mantivermos a busca do País do Norte viva, nunca o encontraremos. Quanto à prosperidade do nosso país, por que apegar-nos àquilo que temos? Quanto às palavras de nosso amigo, você realmente acha que eles sejam um bom conselho?"
51 Costumes estranhos em países estranhos
Nos reinos do sul, as pessoas usam o cabelo curto e andam nuas. Nos reinos do norte, as pessoas embrulham turbantes em torno das cabeças e usam peles. Nas terras do centro, elas usam chapéus e saias. As pessoas do reino do meio sabem como dar melhor uso aos recursos da terra. Têm fazendeiros, comerciantes, caçadores e pescadores. Portanto, as pessoas das terras do meio são bem alimentadas e andam bem vestidas. No inverno, elas têm peles para mantê-las aquecidas e, no verão, eles usam algodão para se manter refrescadas. Elas viajam por barco e em carruagens, e não precisam esforçar-se para obter o que querem.
Numa terra distante do sul e do leste há um país onde é costume as pessoas matarem os seus primogênitos e ofereçam a sua carne e sangue a todos na comunidade para que a comam. Eles dizem que isso trará fertilidade às mulheres. Além disso, quando um pai morre, os filhos amarram a mãe nas costas do homem morto e abandonam ambos no deserto. Eles afirmam que não é adequado viver com a mulher de um fantasma. Quando um parente ou membro familiar morre, os filhos demonstram os seus deveres filiais cortando a pele do morto antes de enterrarem os seus ossos. Numa terra muito para o sul é um país diz-se que os filhos só cumprem os deveres filiais apenas se queimarem os corpos dos seus pais falecidos. Quando a fumaça sobe da pira, diz-se que a alma dos mortos subiu ao céu.
Todos esses costumes são tradições estabelecidas nos países onde são praticados. Elas são observados por todas as pessoas e nada têm de estranho. Nós os chamamos de bárbaros e ficamos chocados com eles apenas por termos costumes diferentes.
52 As perguntas de uma criança
CERTA VEZ, QUANDO CONFÚCIO caminhava por um mercado, viu duas crianças que pareciam estar a discutir acaloradamente por causa de algo. Confúcio sentiu-se curioso e perguntou-lhes qual a razão da contenda. Uma das crianças disse: "Eu digo que o sol se encontra mais perto de nós quando se ergue e se distancia mais ao meio dia." A outra criança imediatamente disse: "Eu digo que o sol está mais distante quando se ergue e mais próximo do meio-dia."
Aquela que falara primeiro disse: "O sol parece maior quando está no horizonte e fica mais pequeno quando atinge o meio dia. As coisas não parecem menores quando estão longe e maiores quando estão perto?" A segunda criança não se sentiu desencorajada. Ela disse: "O sol está mais quente ao meio-dia do que quando ele sobe pela manhã. Não será algo mais quente quando está próximo e mais frio quando está mais longe?"
As duas crianças então assediaram Confúcio a responder às suas perguntas. Confúcio ficou perplexo. Ele disse que não podia dizer qual deles estava correto. As crianças riram e disseram: "Olhe, é suposto ser um homem instruído, mas você não pode nem responder às nossas perguntas!"
53 A arte de pesca
Muitas coisas neste mundo dependem do equilíbrio. Por exemplo, um único cabelo pode suportar um peso se o equilíbrio for correto. O cabelo só se quebra se o equilíbrio se perder. A maioria das pessoas não entende esse princípio de equilíbrio, mas eis um exemplo de alguém que o entendeu.
No país de Chu vivia um homem que gostava de pescar. Ele fez a sua linha de pesca de seda, o seu gancho a partir da casca de um grão de trigo e a sua cana de uma tira delgada de bambu. Para isca, ele usou meio grão de arroz. Um dos seus pontos de pesca favoritos era um trecho de águas profundas num rio de corrente rápida. Lá ele podia lançar a sua isca e sempre retornar com um peixe tão grande quanto o seu carrinho. Mas para cúmulo disso, a sua linha não crepitava, a sua vara não dobrava, e o seu gancho não quebrava.
O rei de Chu ficou muito curioso com o modo como esse homem pescava peixe. Ele convidou o pescador para a corte e perguntou-lhe: "Como é que você consegue pegar um peixe tão grande com essa estranha variedade de material?"
O pescador respondeu: "Ouvi os sábios do passado falar sobre um arqueiro que usava um arco feito de uma tira de madeira muito fraca e uma corda de arco feita de uma fina corda de algodão para derrubar dois pássaros com uma flecha. Ele conseguia fazer aquilo por ter a atenção concentrada e entender o equilíbrio do puxar e do ceder. Admirei a sua façanha e decidi usá-lo como um exemplo para aperfeiçoar a minha habilidade na pesca. A partir desse momento, pus tudo de lado e passei o tempo todo a aprender a arte da pesca. Por fim, após cinco anos, eu conseguia lançar a minha linha sem distracção. Quando me sento junto ao rio, a minha mente fica completamente concentrada na pesca e nada mais. Eu gozo de tal proficiência entre o puxar e o ceder da linha que os peixes nem sequer percebem quando o gancho e a isca entram na água. Para eles, a isca não é diferente de um grão de areia ou uma bolha, e eles engolem-na sem suspeitarem. Este é o princípio de usar a suavidade para vencer, a força e a leveza na seguração do pesado.
"Meu senhor, se você conseguir governar o seu país dessa maneira, então tudo no mundo estará ao seu alcance. Não será isso mais eficaz do que usar a força?"
O rei ficou muito impressionado com o conselho do pescador.
54 Intercâmbio de mente e coração
Dois homens que tinham adoecido foram consultar o mesmo médico. O médico curou-os aos dois, mas antes de partirem, disse: "Vocês os dois contraíram uma doença que lhes atacou os órgãos internos. Isso é bastante comum e pode ser cuidado pela acupuntura e as ervas. No entanto, existe um vírus que os está a atacar, o que lhes afecta os corações e as mentes. Vocês querem que eu lhes cure esse mal?"
Os dois homens disseram: "Fale-nos sobre isso, primeiro."
O médico disse então a um deles: "Você tem ambições fortes, mas a sua força de vontade é fraca. Embora seja bom no planeamento, você raramente consegue levar a cabo esses planos. Voltando-se para o outro homem, o médico disse: "Consigo, por outro lado, é ao contrário. As suas ambições são fracas, mas a sua força de vontade é forte. Portanto, você cai nos problemas ao fazer as coisas de forma imprudente, e sem pensar nelas." De seguida, dirigindo-se a ambos, disse: "Se vocês dois podem mudar o vosso coração e mente, vocês sereis perfeitos. Agora, você quer que eu faça isso por vós?"
Ambos os pacientes concordaram.
O médico deu-lhes uma droga que os deixou inconscientes por vários dias. Então, cuidadosamente, ele removeu-lhes os corações, trocou-os e aplicou uma erva mágica para que, quando ambos os homens despertassem, não houvesse sinais físicos da cirurgia.
Quando os homens chegaram a casa, sentiram-se encantados, mas no momento em que entraram em suas casas, começaram os problemas. O primeiro homem tinha-se dirigido à casa do segundo homem e não era reconhecido pela esposa nem pelos filhos. O segundo homem tinha-se dirigido à casa do primeiro homem e o mesmo aconteceu. Ambas as famílias ficaram furiosas e frustradas. Elas recorreram à corte para resolver o assunto e só aceitaram as circunstâncias quando o médico lhes explicou toda a situação.
Ninguém nasce perfeito, e mesmo que ciência ou tecnologia possa operar maravilhas, ao resolver um problema criará outro. Portanto, o melhor é que aceitemos aquele que somos e que não queiramos ser outra pessoa, porque cada pessoa tem o seu valor.
55 O Músico Wen aprende a tocar o alaúde
Há muito tempo atrás havia um músico que conseguia encantar os pássaros e os peixes e levá-los a dançar com a sua música. Um tocador de alaúde chamado Wen do reino de Cheng ouviu a história e quis adquirir essa habilidade. Assim, ele deixou a sua família e foi estudar com o mestre músico Hsiang.
Durante muito tempo Wen não conseguiu tocar nada. Tinha os dedos amarrados a nós, e toda vez que pegava no alaúde, não conseguia tocar. Passados três anos ainda não tinha aprendido nada. "Bem que podes voltar para casa," disse o mestre.
Wen pousou o alaúde, fez um sinal e disse: "Não é que não tenha aprendido nenhuma música ou que não consiga ajustar o meu instrumento corretamente. Eu não consigo motivar-me a tocar de cor, de modo que a música não chega a fazer parte de mim. É por isso que não consigo motivar-me a tocar. Deixe-me descansar um pouco a ver o que acontece."
Pouco tempo depois, Wen voltou para o mestre.
"Como estás a dar-te com a sua música?" perguntou-lhe o mestre.
"Eu acho que consegui fazer progressos. Deixe que lhe mostre."
Wen pegou o alaúde e tocou suavemente a corda chamada Outono. Embora fosse primavera, soprava um vento frio, as folhas crepitavam na brisa do outono, e o céu estava claro e sem nuvens. Então, no outono, ele tocou a corda chamada Primavera, e sucedeu um vento suave. Caíram chuvas quentes e as flores floresceram. No meio do verão, Wen tocou a corda chamada Inverno, e de repente caiu neve e os rios congelaram. Quando chegou o inverno, ele tocou a corda chamada Verão. Imediatamente o sol brilhou ferozmente, a neve desapareceu e o gelo derreteu-se nos rios.
Finalmente, quando tocou a última corda e as tocou todas juntas, soprou um vento refrescante, flutuaram nuvens azuis sobre a cabeça, e caiu um doce orvalho e fontes perfumadas brotaram do chão.
O mestre músico Hsiang bateu no peito e exclamou. "Sua música supera tudo quanto pode ser descrito por palavras. Os melhores músicos precisarão aprender contigo agora."
Wen já era um músico consumado quando foi estudar com Hsiang, mas percebeu que o aperfeiçoamento da técnica por si só não torna música excelente. Quando por fim conseguiu dissolver a dualidade entre ele e a música, as músicas que tocava não só tinham o poder de criar humores, mas alteravam literalmente a realidade.
56 Quando Erh de Han cantou
Havia um músico que se fez aprendiz de um mestre-cantor, mas antes de terminar o treino, ele decidiu que já dominava todas as habilidades que o seu mestre poderia oferecer. Confiante, ele pediu para obter a formatura para ele poder voltar para casa.
O seu mestre não contestou o pedido, e no dia marcado ele decidiu dar um banquete para o graduado depois da cerimônia. Quando todos se encontravam sentados ao redor da mesa, o mestre-cantor começou a cantar uma música triste, que fazia acompanhar de um ritmo com um pequeno tambor. A sua voz sacudiu as folhas nas árvores e deteve as nuvens que passavam a correr. O jovem e impetuoso jovem então percebeu o quão pretensioso estava pensando ter aprendido tudo com o seu mestre. Rapidamente ele se desculpou e pediu para ser novamente aceite. "Eu ficarei como seu aluno pelo resto da minha vida," disse ele ao professor.
O mestre-cantor então contou uma história para todos ouvirem, e disse:
"Certa vez existiu uma mulher chamada Erh de Han que ficou sem dinheiro enquanto viajava para o país oriental de Chi. Não teve escolha senão cantar numa taberna local para ganhar a ceia. Depois que ela saiu, o som de sua voz reverberou na sala por três dias, e as pessoas pensaram que ela ainda estava por perto.
"Mais tarde, Erh ficou em uma pousada onde o dono ridicularizou os seus modos estrangeiros. Isso fez Erh ficar com saudades de casa, e ela irrompeu num canto de tristeza e saudade. A sua voz propagou-se pela aldeia e levou todos às lágrimas. As pessoas da aldeia foram de tal modo afetadas pela tristeza da música que não puderam comer durante três dias. Eles enviaram alguém atrás de Erh e convidaram-na de volta.
"Erh soltou uma nota alongada e depois cantou uma canção de alegria. Logo as pessoas da cidade começaram a dançar e a rir e esqueceram que haviam estado tristes justamente havia pouco. Erh ficou com essa gente por um tempo e quando partiu, a cidade enviou-lhe muitos presentes ricos. Até hoje, as pessoas daquela cidade são famosas pelo seu canto, por terem captado uma certa arte de Erh enquanto ela lá viveu."
57 Espíritos afins
PO YA E CHUNG TZU-CH'I eram bons amigos. Po Ya era um bom tocador de alaúde e o seu amigo era um ouvinte intuitivo. Quando Po Ya tinha o pensamento nas altas montanhas enquanto tocava, Chung Tzu Chi disse: "Eu posso sentir a grandeza das Altas Montanhas!" Quando Po Ya pensava em águas correntes enquanto tocava, o seu amigo disse: "Quão profundos e amplos são os Rio Amarelo e o Yang Tze!" Parecia que não importava o que Po Ya tivesse na ideia, que ele expressava na música que tocava, pois o seu amigo partilhava de imediato desses sentimentos.
Certa vez os dois amigos andavam a vagar pelas encostas norte das Grandes Montanhas quando rebentou uma tempestade. Eles encontraram abrigo numa caverna, e, enquanto aguardavam que as chuvas diminuíssem, Po Ya pegou no seu alaúde e tocou. Vendo que a névoa e a chuva ocultavam as montanhas, Po Ya invocou um sentimento de tristeza e compôs uma peça sobre a chuva interminável e a névoa crescente. Então, ele mudou de humor e improvisou uma música que retractava o esplendor de uma avalanche a cair pelos montes abaixo. Em todas as peças que ele tocava, Chung Tzu Chi conseguia entender a sensação da música de Po Ya sem falhar. O seu humor e estado de espírito eram idênticos aos do instrumentista.
Po Ya baixou o alaúde e suspirou: "Isto é mais do que as minhas mais ousadas expectativas. Você consegue ler-me o pensamento ao ouvir a minha música. De agora em diante, como poderei esconder algo de si?"
Po Ya e Chung Tzu Chi não eram apenas bons amigos, mas espíritos afins. Eles conseguiam alcançar a mente um do outro não apenas por um ser um excelente músico e o outro um ouvinte intuitivo, mas por dissolverem as barreiras que os separavam um do outro e a música ser simplesmente uma ponte que lhes permitia comunicar o que sentiam no íntimo e o que tinham no pensamento.
58 Artificial ou real?
O REI MU DE CHOU estava de visita à região ocidental do seu país, e foi até as montanhas Kunlun antes de regressar. A caminho de casa, os seus oficiais apresentaram-lhe um homem que era considerado um artesão muito qualificado.
O rei recebeu o artesão na sua tenda e disse: "Fale-me sobre as suas habilidades."
O homem respondeu: "Consigo fazer o que quiser, mas deixe que lhe mostre algo que já concluí."
"Bom," disse o Rei Mu. "Traga isso da próxima vez que vier."
Dois dias depois, o artesão pediu para ver novamente o rei. O rei viu que o artesão trouxera alguém com ele, pelo que lhe perguntou: "Quem é esse homem que você trouxe consigo?"
"Ele é criação minha," disse o artesão com orgulho. "Ele consegue falar, ele consegue cantar, e ele consegue dançar."
O rei ficou fascinado e espantado. A figura diante dele caminhava ligeira e certamente tinha todas as características de um ser humano.
O artesão pressionou as bochechas do seu companheiro, e imediatamente a figura começou a cantar. Quando ele lhe apertou a mão, começou a dançar ao ritmo da música. Então o artesão levou a sua "criação" a fazer todo o tipo de truques, de que o rei desfrutou imensamente. Os movimentos e maneirismos da figura eram tão reais que o rei achou que era uma pessoa real.
O rei arranjou com que esse "homem" talentoso desse um espectáculo e convidou a sua cortesã favorita e outras assistentes para participarem. Quando o espectáculo estava prestes a terminar, o homem artificial lançou uns olhares sugestivos na direcção das mulheres que se encontravam sentadas ao redor do rei.
O Rei Mu viu aquilo e ficou indignado. Ele convocou o artesão e gritou-lhe enraivecido: "Como se atreve a mentir-me dizendo-me que criou esse homem! Ele teve a coragem de lançares olhares atrevidos às minhas cortesãs. Eu vou mandar executá-lo por isso."
Aterrorizado, o artesão imediatamente se aproximou do homem artificial e rasgou-lhe o corpo. Ele desmontou a cabeça, os braços e as pernas e mostrou as peças ao rei. O rei examinou-os e achou que elas eram feitas de madeira e que se encontravam ocultadas e reunidas por cordas e cola. O artesão então esvaziou o interior do robot, e o rei viu que, embora os órgãos internos parecessem reais, eles também eram feitos de materiais e eram inertes e pintados com as cores apropriadas. Dentes, ossos, músculos, tendões, articulações, pele e cabelos eram todos artificiais. No entanto, quando essas peças se encontravam reunidas, ele via uma pessoa real.
O rei ficou então ainda mais curioso. Ele reexaminou o robot e experimentou torar-lhe o coração. Quando removeu o coração, o robot perdeu a fala. Em seguida, o rei removeu-lhe o fígado, e o robot perdeu a visão. Quando ele lhe tirou os rins, ele não pode andar mais. Por fim o rei ficou satisfeito. Suspirou e disse: "Será possível que a destreza humana produza algo que possa equiparar-se ao que é criado pelo céu e pela terra?"
O rei mandou carregar o robot num carrinho e convidou o artesão a retornar com ele à capital. As pessoas costumavam considerar que a escada de Kung Shu Pan atingia as nuvens e a máquina voadora de Mo-tzu como criações de grande engenho. Mas quando as notícias do homem artificial se espalharam, esses dois talentosos artesãos não ousaram vangloriar-se mais das suas invenções.
Se examinarmos o robot do Rei Mu, poderemos realmente dizer que seja artificial? O robot foi feito de materiais encontrados na natureza: couro, casca e cânhamo. Os seres humanos são igualmente feitos das mesmas coisas que a natureza, pois todas as coisas emergiram da reunião dos vapores yin e yang e devem sua existência ao sopro primordial do Tao. Se algo é real ou artificial depende da forma como visualizamos os materiais a partir dos quais é feito. Se esse for o caso, então, enquanto pessoas "reais," o que nos tornará mais privilegiados do que as outras coisas na criação?
59 Aprender a arte do tiro
FEI-WEI APRENDEU O TIRO AO ARCO com um dos maiores arqueiros. Dizia-se que, quando seu mestre puxava o arco, os animais ficariam deitados no chão e os pássaros desapareciam no céu. Fei Wei aprendeu tudo o que o seu mestre conseguiu ensinar-lhe e acabou superando o mais velho em habilidade.
Um homem chamado Chi-Chang ouviu falar no domínio de Fei Wei com o arco e implorou para se tornar seu aprendiz. Ele esperava que um dia ele também conseguisse superar o seu mestre com a sua habilidade.
Fei Wei disse ao futuro estudante: "Primeiro, precisa treinar o olho a não piscar em circunstância alguma. Volte quando tiver conseguido isso."
Chi-Chang gravou essas palavras na mente e voltou para casa. Dia após dia, ele se debruçava debaixo do tear da sua esposa com os olhos ao lado das agulhas que subiam e desceram quando ela pressionava o pedal com o pé. Volvidos três anos, ele treinara-se a não piscar mesmo que as agulhas parecessem furar-lhe o globo ocular.
Excitado com o sucesso conseguido, Chi Chang correu para Fei Wei e relatou o progresso que fizera. Fei Wei disse apenas: "Você ainda começou a aprendizagem. A próxima coisa que precisa fazer é treinar os seus olhos para ver objectos pequenos até que pareçam grandes, e objetos difusos até que pareçam claros. Volte e pratique. Quando tiver conseguido fazer isso, você poderá vir ver-me."
Chi Chang voltou para casa e começou a fase seguinte do treino. Ele pegou uma pulga e pendurou-a de uma janela voltada para sul. Todos os dias ele fixava a vista na pulga com o sol a brilhar-lhe nos olhos. Dez dias depois, a pulga parecia ter crescido em tamanho. Três anos depois, a pulga parecia tão grande quanto uma roda num carrinho. Por essa altura, quando Chi Chang olhava para outras coisas da mesma forma, via montes e colinas. Pegando num arco feito do chifre de animal de Yen e numa flecha feita de capim selvagem do norte, Chi Chang apontou e atirou. A flecha perfurou o coração da pulga sem quebrar o fio de cabelo que a pendurava.
Quando Chi Chang contou o sucedido a Fei Wei, o mestre arqueiro bateu palmas e disse: "Maravilhoso. Você entendeu do que trata o tiro ao arco. Você está pronto para aprender."
Pouco tempo depois, Chi Chang aprendeu tudo o que Fei Wei tinha a ensinar-lhe. Ele foi para casa e pensou: "Neste instante, a única pessoa que pode rivalizar com a minha perícia é o meu mestre. Se eu o matar, então eu serei o maior arqueiro vivo."
Certo dia, Chi Chang encontrou Fei Wei numa estrada deserta. Ao ver aí a sua hipótese de matar o seu ex-professor, ele puxou do arco e arremessou uma flecha na direcção de Fei Wei. Quase ao mesmo tempo, o mestre puxou do seu arco. As duas flechas atingiram-se à mesma distância entre os dois homens e caíram no chão sem levantar qualquer pó. Rapidamente Chi Chang disparou várias flechas em direção a Fei Wei, e toda vez as setas foram interrompidas me pleno voo.
Finalmente, Chi Chang ficou com uma flecha e a aljava de Fei Wei ficou vazia. "Esta é a minha chance de o matar," pensou Chi-Chang consigo mesmo. Assim, ele puxou do arco e soltou a última flecha. Fei Wei calmamente pegou num ramo espinhoso, e, usando-o como uma flecha, parou a flecha de Chi Chang em pleno ar.
Ao ver isso, ambos os homens lançaram fora os seus arcos. Com lágrimas nos olhos, eles se curvaram um para o outro. Tão grande foi o respeito que sentiram um pelo outro que prometeram naquele exacto local tornar-se pai e filho. Não querendo que a sua destreza se tornasse causa de ciúmes e de traição para as gerações futuras, eles fizeram cortes nos seus braços e juraram nunca revelar os segredos da sua técnica a ninguém.
Chi Chang era orgulhoso e ambicioso e queria ser o melhor. No entanto, ele ficou emocionado com o domínio de Fei Wei e percebeu que o que ele havia visto era o maior feito do tiro ao arco. Fei Wei, também, ficou impressionado com a inteligência de Chi Chang e sua obstinação de realizar o que ele havia tentado. Dizem que o pináculo da conquista é um local solitário e que por vezes os rivais podem chegar a entender-se e a apreciar-se mais do que os amigos. Assim, não é incomum que os maiores rivais possam se tornar nos melhores amigos.
60 Tsao Fu aprende a conduzir
TSAO FU FEZ-SE APRENDIZ DE UM FAMOSO cocheiro de habilidade lendária. Durante muitos anos, Tsao Fu serviu humildemente o seu mestre, mas não recebeu qualquer instrução. Isso não desanimou o aprendiz. Na verdade, Tsao Fu mostrou ainda mais respeito e diligência no atendimento das necessidades do seu mestre.
Finalmente, impressionado pela sinceridade de Tsao Fu, o mestre cocheiro disse ao seu aluno: "Os antigos dizem que um mestre arqueiro começa por fazer cestas e um mestre de ferreiro começa por fazer martelos. Agora, observe-me com atenção. Se conseguir chegar ao mesmo estado de corpo e mente em que eu me encontro, então estará apto a dirigir uma carruagem."
"Eu seguirei cuidadosamente as suas instruções," disse Tsao Fu.
O mestre, em seguida, pegou em várias estacas, grandes o suficiente para se manterem e se segurarem no chão. As estacas foram organizadas de modo a ficarem a um passo de distância umas das outras. Então, o cocheiro mestre saltou para as estacas e saltou de uma estaca para a outra, correndo de um lado para o outro com facilidade.
"Pratique a corrida sobre as estacas," disse ele a Tsao Fu, "e quando conseguir dominar isso, eu lhe darei mais instruções."
Após três dias, Tsao Fu conseguiu correr pelas estacas sem tropeçar nem cair. O mestre suspirou e disse: "Você é ágil e aprende rápido. Agora, deixe-me falar sobre a arte de cocheiro. Todos os cocheiros precisam começar por aprender como correr sobre as estacas. Embora pareça que está a treinar para ser ágil no seu trabalho de pés, você realmente está a treinar o seu corpo para responder aos comandos da sua mente. Isso é chave no comando de uma carruagem.
"A aplicação e libertação de pressão nas rédeas deve ser de acordo com a sua intenção. Se os seus dedos e as suas palmas responderem naturalmente à sua vontade, você poderá transferir a sua intenção directamente para cada cavalo da guarnição. A equipe responderá ao menor puxão ou folga para voltar para qualquer direcção, e você poderá guiar a carruagem para frente ou para trás e virar à esquerda ou à direita sem qualquer esforço. O seu corpo responderá à sua mente, as rédeas responderão aos movimentos do seu corpo, e os cavalos responderão à pressão das rédeas. Dessa forma, sem gastar energia, você poderá dirigir uma carruagem por longas distâncias sem se sentir cansado. Quando isso acontecer, você saberá que atingiu o domínio dessa arte."
Passado um tempo, o mestre cocheiro continuou: "Deixe-me explicar aquilo que disse. Cada cavalo que puxe a carruagem usa um freio e um arreio. Assim, a sensação de movimento do cavalo é comunicada por meio do freio ao arreio, do arreio às rédeas, das rédeas às suas mãos, das mãos ao resto do seu corpo e do seu corpo à sua mente. Quando comunica a sua intenção aos cavalos, isso simplesmente adopta essa sequência de comandos pelo inverso. Assim, o controle da sua guarnição e a obtenção de uma resposta dos movimentos dos cavalos podem ser totalmente feitos apenas por meio da intenção. Dessa forma, você pode dirigir sem empregar os olhos e nunca precisará usar o chicote. Quando a sua mente atinge a clareza e o seu corpo se encontra relaxado, você pode controlar seis freios sem confusão, e vinte e quatro cascos irão pisar onde você quiser. Assim, as rodas do seu carro irão avançar e recuar, e virar à esquerda e à direita com precisão e controlo. Você poderá dirigir nas estradas da montanha com a mesma facilidade que o faria nas planícies. A sua condução não será diferente quer os seus cavalos estejam perto de um precipício ou a correr pelas pastagens planas. Isso é tudo o que tenho a ensinar, por isso recorde-o bem!"
A agilidade do corpo e a quietude da mente são necessárias para que a intenção seja comunicada naturalmente. Um corpo rígido cujas partes não cooperem não poderão responder à intenção, independentemente de quão clara e imóvel se encontre a mente. Do mesmo modo, um corpo ágil só encontrará confusão se a mente não se encontrar imóvel. Portanto, para atingir o nível mais elevado de toda destreza, o corpo e a mente devem ser treinados simultaneamente.
61 A vingança de Lai Tan
O pai de LAI TAN foi morto por Hei luan numa disputa acesa. Lai Tan jurou encontrar o assassino e vingar a morte do seu pai.
Embora Lai Tan tivesse uma disposição destemida e uma intensa perseverança, ele era tão magro quanto um espectro. O seu estômago só podia conter uma mão cheia de arrozeiros, e ele estava tão fraco que uma rajada de vento mais forte poderia arrancá-lo do sítio. Por conseguinte, apesar da intenção que tinha de vingar a morte de seu pai, Lai Tan era incapaz de lidar com qualquer tipo de arma. No entanto, Lai Tan possuia sentido de honra e não contrataria ninguém para o fazer por ele. Assim, envergonhado pela fraqueza e furioso por de não poder fazer nada, ele atormentava-se dia e noite.
Como se as coisas não estivessem suficiente más, Hei Luan, o assassino do pai de Lai Tan, era um homem muito forte e violento. Hei-Luan conseguia empunhar a espada mais pesada e lutar com uma centena de homens com as mãos. Além disso, o homem tinha pele semelhante a casca incapaz de ser penetrada por espada ou lança. Ele exibia as suas capacidades impedindo espadas com o pescoço ou travando as flechas com o peito descoberto. As espadas e as flechas esbarravam sem deixar cicatriz ou arranhão no corpo dele. Assim, ele provava e ria de Lai Tan, chamando-lhe fraco e garotinha indefesa.
Um dia, um amigo de Lai Tan disse-lhe: "Hei Luan comporta-se como se tu fosses um pedaço de estrume. O que vais fazer em relação a isso?"
Lai Tan ficou ainda mais deprimido e disse ao seu amigo: "Eu não sei o que fazer. Tens alguma sugestão?"
O amigo respondeu: "Ouvi dizer que na região de Wei há um nobre que possui uma espada mágica. Esta espada é tão poderosa que pode afastar todo um exército mesmo quando empunhada por uma criança. Por que não vais perguntar se podes usar essa espada emprestada?"
Lai Tan acatou o conselho do seu amigo e viajou para a terra de Wei. Ele implorou ao nobre para o ajudar e ofereceu-se para os trabalhos forçados. Em seguida, ele explicou a sua situação, pediu emprestar a espada mágica e prometeu deixar a sua esposa e filhos como reféns na propriedade do nobre enquanto ele ia procurar o assassino.
O nobre escutou as súplicas de Lai Tan e ficou impressionado com a determinação que o jovem demonstrou para superar dificuldades aparentemente insuperáveis. E assim, disse: "Eu tenho três espadas mágicas, mas nenhuma delas consegue matar. Vou-te deixar usar uma delas de empréstimo para vingares a morte do teu pai. Mas antes de escolheres, deixa que te descreva as características de cada uma dessas espadas.
"A primeira espada chama-se Luz Invisível. Não possui forma, pelo que não conseguirás vê-la. Não possui peso, pelo que não conseguirás senti-la quando a usares. Não deixa qualquer marca ao cortar, e pode retalhar o corpo de uma vítima sem que ele mesmo saiba disso.
"A segunda é chamada Espada Sombra. Se pegares nessa espada e a segurares contra a luz suave do amanhecer ou do entardecer, quase não conseguirás vê-la. Se cortar qualquer coisa, denota-se-lhe um ligeiro brilho. Quando perfura um corpo, a vítima não sente dor.
"A minha terceira espada chama-se Espada da Noite. À luz do dia, só consegues ver a sua sombra, mas não o seu brilho. À noite, podes ver o seu brilho, mas não a forma. Quando corta algo, ouve-se um som contundente. A ferida que ela provoca fecha imediatamente e nenhum sangue é derramado. A vítima sente apenas uma ligeira dor onde a espada tiver golpeado.
"Estas três espadas foram-me transmitidas ao longo de treze gerações da minha família. Elas jamais foram usadas ​​e ainda se encontram seladas dentro de seus sacos especiais."
Lai Tan pediu que lhe emprestasse a Espada da Noite.
Então, o nobre disse a Lai Tan que precisavam fazer um ritual especial para quebrar o selo que trancava a espada. Ele jejuou durante sete dias, praticou os rituais apropriados de purificação e tirou a espada do seu saco a meio da noite. Entregou a espada a Lai Tan e disse-lhe que não era necessário deixar a esposa e os filhos como reféns. Lai Tan prostrou-se em sinal de gratidão e partiu à procura Hei-Luan.
Quando Lai Tan chegou à casa de Hei-Luan, ele encontrou o homem sozinho e bêbado. Ao vislumbrar a sua hipótese, Lai Tan empunhou a espada e golpeou Hei-Luan sem esforço por três vezes do pescoço até a cintura. Como Hei Luan não se agitasse, Lai Tan pensou que ele havia matado o homem, de modo que se apressou a sair. Na porta, ele encontrou o filho de Hei-Luan. Rapidamente ergueu a Espada da Noite e o atingiu três vezes. Mais uma vez, ele sentiu como se estivesse a cortar o ar.
O filho de Hei-Luan sorriu cordialmente e perguntou a Lai Tan, "Você é um homem engraçado. Por que agita a mão assim em torno de mim?" Lai Tan sabia que a sua espada não podia matar, pelo que suspirou e foi embora. Quando Hei-Luan acordou, gritou para a mulher: "Por que não me cobriste quando desmaiei? Agora estou com dor de garganta e dor na cintura."
O filho de Hei Luan então disse: "Pai, quando cheguei a casa ontem eu conheci Lai Tan à porta. Ele acenou com a mão para mim de uma maneira engraçada e depois afastou-se. Agora, tenho o corpo a doer um pouco, assim como os braços e as pernas. Você acha que ele nos pregou alguma maldição?"
Lai Tan não matou Hei-Luan, mas vingou-se. Não importava que Hei-Luan não morresse. Para Lai Tan, tudo o que importava era que ele tinha empunhado a espada e atingido o assassino do pai com as próprias mãos. A Espada da Noite foi de facto uma espada poderosa. Não só não matou nem feriu, como ajudou Lai Tan a dissipar a raiva e fez com que ele sentisse que tinha conseguido o seu objectivo. Se Lai Tan tivesse usado uma espada menor para se vingar de seu pai, ele teria matado o filho de Hei Luan junto com o pai. A família de Hei Luan então iria procurar Lai Tan para se vingar, e a matança prosseguiria, família a vingar familiar, por muitas gerações.

LIVRO seXTO
Esforço e destino
INTRODUÇÃO
O agricultor depende da mercê do clima, o comerciante da economia, o artesão na aplicação atempada das competências e o político da opinião pública. Na agricultura há épocas de abundância e épocas de seca. Nos negócios e no comércio, há picos de crescimento e de recessão. O sucesso na concepção e fabricação depende da demanda no mercado. A popularidade do governo depende da preferência política. Não existe uma profissão que garanta o sucesso. O sucesso e falha dependem da oportunidade, que não conseguimos controlar nem prever. É o que Lieh-Tzu quer dizer com "destino."
A oportunidade pode gerar ou dar cabo de uma carreira. Uma pessoa talentosa talvez nunca realize o seu potencial se não tiver oportunidades apropriadas. Por outro lado, alguém com capacidades medianas poderá erguer uma enorme fama e fortuna se os tempos forem apropriados. Por isso, fortuna e infortúnio dependem do destino.
Ser afortunado ou infeliz também depende de uma avaliação da situação. Assim, algo que possa agora parecer desafortunado pode realmente vir a ser benéfico a longo prazo, e vice-versa. Como não sabemos quanto tempo esse "longo prazo" engloba, é impossível dizer se algo seja afortunado ou desafortunado.
Além disso, para que alguma coisa seja considerada auspiciosa ou desafortunada depende da perspectiva da pessoa. Normalmente, as pessoas que estiverem menos ligadas às circunstâncias externas terão menos ansiedade para rotular algo como boa sorte ou infortúnio. A empatia que sentirmos em relação ao infortúnio de outra pessoa baseia-se no pressuposto de que, se as mesmas circunstâncias nos acontecessem, nos sentiremos mal e quereríamos lastimá-lo. Por conseguinte, a empatia pode estar baseada na autocomiseração, em vez de na compaixão pelos outros.
Dado tudo isso, Lieh-Tzu pergunta: por que deveremos apegar-nos tanto ao sucesso e ao fracasso, à fortuna e à desgraça? Por que gastar tanto esforço buscando o que consideramos actualmente ser sucesso ou fortuna? O que poderá ser benéfico agora poderá vir a ser prejudicial mais tarde. E caso se revele prejudicial, quem poderá dizer que possa não ser benéfico no futuro?
62 O Esforço Discute com o Destino
UM DIA O ESFORÇO DISSE AO DESTINO: "As minhas conquistas são maiores que as tuas."
O Destino não concordou. E desafiou imediatamente o Esforço: "O que fizeste tu para que as tuas conquistas superem as minhas?"
O Esforço disse: "Viver muito tempo ou morrer jovem, ser rico ou pobre, ter sucesso ou fracasso depende de mim."
O Destino respondeu de imediato: "A inteligência do velho Peng não se equiparava à dos imperadores Yao e Shun, mas ele viveu uma vida longa e saudável. Por outro lado, Yen-Hui, o melhor aluno de Confúcio, morreu quando completou dezoito anos. A virtude de Confúcio ultrapassou a dos príncipes, mas, comparada com ela, ele encontrava-se desamparado. O imperador Shang Tsou foi cruel e imoral, mas viveu uma vida próspera e longa. Por outro lado, os seus ministros virtuosos tiveram mortes violentas. Houve um homem que sacrificou a própria fortuna para permitir que o seu irmão fosse empregado pelo senhor de Cheng. Ele permaneceu pobre e desconhecido pelo resto de sua vida. Depois, havia um outro homem que não possuía virtude nem habilidade que se tornou o senhor de Chi. E que dizer de Po Yi e Shu Chi que morreram de fome na montanha por não quererem comprometer a sua integridade e honra para servir um senhor inimigo? Que se poderá dizer dos funcionários corruptos que enriquecem ou das pessoas honestas e trabalhadoras que permanecem pobres?"
O Esforço não estava à espera dessa barragem de evidências contra a sua afirmação. Franziu a testa, mas o Destino prosseguiu: "Se és tão eficaz como dizes, então, por que não tornas as pessoas trabalhadoras ricas? Por que não concedes às pessoas virtuosas uma vida longa e próspera? Por que não se encontram as pessoas inteligentes e capazes empregadas, e por que ocupam os estúpidos lugares importantes no governo?"
O Esforço nada mais teve a dizer diante a tais desafios, de modo que timidamente lá disse ao Destino: "Tens razão. Eu não exerço tanto efeito assim, afinal. Mas diria que muitas coisas sucedem como sucedem, por teres feito asneira, e teres distorcido o destino das pessoas e teres tido prazer nisso!"
Então, o Destino disse: "Eu não posso forçar o rumo das coisas. Eu simplesmente abro-lhes as portas. Se algo estiver a correr em ordem, deixo que siga o caminho correcto; Se algo sofrer uma reviravolta, não o impedirei. Ninguém, nem você nem eu, pode rumo o caminho das coisas. Vida Longa ou curta, rica ou pobre, sucesso ou fracasso, fortuna ou infortúnio, tudo ocorre por si só. Como posso direccionar os acontecimentos ou mesmo saber onde pararão as coisas?"
63 A Sorte e o Mérito
UM DIA PEI KUNG TZU FOI visitar Hsi Men Tzu. Os dois eram amigos, mas devido a coisas diferentes que tinham sucedido nas suas vidas, eles não se viram durante algum tempo.
Quando Pei Kung Tzu viu o amigo, a primeira coisa que disse foi:
"Nós crescemos juntos. Vivemos na mesma época. Por que tudo parece estar a correr-te de feição, e eu sempre me deparo com obstáculos? Nós procedemos do mesmo clã, mas as pessoas respeitam-te e a mim desprezam-me. À semelhança de ti, eu tenho olhos, ouvidos e uma boca, mas as pessoas saúdam-te e afastam-se de mim. Às vezes, temos opiniões convergentes e falamos até mesmo da mesma maneira, mas tu és escutado e eu sou ignorado. Quando somos vistos juntos, tu é tratado como um homem honesto e eu não tenho fiabilidade. Quando os dois assumimos o poder no governo, tu foste promovido e eu fui demitido. Quando os dois trabalhamos a terra, ela cooperou até mesmo contigo e comigo não. Quando negociamos juntos, tu ganhaste lucros e eu perdi. Isso é verdadeiramente injusto!"
Pei Kung Tzu continuou a lamentar os seus problemas.
"Eu uso roupas velhas e como a comida que o porco come. Vivo numa barraca arruinada e não posso pagar uma carroça. Tu, por outro lado, usas sedas e trajos finos. Comes da melhor carne e arroz. Moras numa enorme mansão e viajas numa carruagem puxada por excelentes cavalos. Ignoras-me nas ruas e nunca me convidas para os teus banquetes ou passeios. Será essa a maneira de tratar um amigo? Ou achas que és mais virtuoso e digno do que eu?"
Hsi Men Tzu não se sentiu lá muito feliz com o ataque de Pei Kung Tzu. Assim, foi brusco no que disse: "Eu não sei quem é mais virtuoso, se tu ou se eu. Tudo o que sei é que as coisas sempre me correm bem e a ti sempre te correm mal. Talvez eu seja mais virtuoso e, por conseguinte, mais digno aos olhos dos outros. Em qualquer caso, tens a fantasia de comparar o teu valor com o meu! Não tens sentido de vergonha?"
Pei Kung Tzu não esperava tal bofetada no rosto. Ofendido e abatido, ele saiu sem dizer uma palavra.
A caminho de casa, Pei Kung Tzu acorreu ao sábio Tung Kuo. Ao ver o olhar desanimado de Pei Kung Tzu, Tung Kuo perguntou-lhe: "Onde esteve? Por que está tão deprimido?"
Pei Kung Tzu contou a Tung Kuo o que lhe acontecera durante a visita que fizera a Hsi Men Tzu. Tung Kuo disse-lhe com gentileza: "Não se sinta tão mal. Nós iremos até Hsi Men Tzu e iremos conversar com ele."
Assim que Tung Kuo viu Hsi Men Tzu, disse: "Por que insultou o seu amigo e lhe ofendeu os sentimentos?"
Hsi Men Tzu disse: "Pei Kung Tzu disse que o tempo dele, os antecedentes e a educação que teve foram iguais aos meus, mas enquanto eu sou rico, bem-sucedido e respeitado, ele é pobre, desprezado e um fracassado na vida. Eu disse-lhe que isso se deve a que não seja tão digno quanto eu."
Tung Kuo disse então a Hsi Men Tzu: "Você parece pensar que o valor possa ser medido pelo sucesso social ou político. Eu encaro isso de forma diferente. Parece-me que você tem mais sorte e Pei Kung Tzu realmente possui mais virtude. Você é bem-sucedido na sociedade, não porque seja particularmente sábio ou virtuoso, mas porque tem sorte em tudo o que faz. Por outro lado, o fracasso que Pei Kung Tzu tem em ser reconhecido não é devido à estupidez nem à falta de virtude, mas ao facto de não ter sorte em tudo o que faz.
"Que tenha sorte ou não, não é algo que possa controlar. Você não deve ser presunçoso por ter mais sorte. Por outro lado, ele não deveria sentir-se inútil, embora ele possua mais virtude. Ambos são igualmente cegos pelas próprias ideias que têm da dignidade."
Quando Hsi Men Tzu ouviu aquilo, ele disse: "Você não precisa falar mais. Nunca mais me vangloriarei do sucesso de que gozo."
Quando Pei Kung Tzu voltou para casa, já não sentia mais vergonha de ser indigno. Ele usou as suas roupas e sentiu como se fossem sedas e peles luxuosas. Ele comeu comidas simples e achou-os tão saborosas quanto os melhores alimentos dos epicuristas da cidade. Ele morou numa cabana e sentiu como se estivesse a habitar numa grande mansão. Quando viajou na sua carroça arruinado, ele achou que era a melhor. Ele não via mais a diferença entre honra e desgraça, reconhecimento e anonimato. Desta forma, ele passou o resto da sua vida no contentamento.
Quando o sábio Tung Kuo viu a transformação que Pei Kung Tzu sofrera, disse: "Por muito tempo, esse homem esteve enterrado nas ilusões de valor e valor estabelecidas pelas normas sociais. Mas é igualmente notável que ele só tenha precisado de uma lição para cortar com essas ilusões. Se apenas mais pessoas pudessem ser como ele!"
64 A amizade de Kuan Chung e Pao Shuia
KUAN CHUNG E PAO SHUIA foram os melhores amigos. Ambos cresceram no país de Chi e ambos serviram na corte real como professores de príncipes.
Nessa altura, o reino de Chi estava em tumulto político. Reinava muita intriga na capital em torno da rivalidade entre os príncipes que aspiravam a tornar-se herdeiros do trono. Kuan Chung aconselhou o seu protegido a encontrar apoio no reino de Lu, e Pao Shuia aconselhou o seu príncipe a ficar longe da capital e a aguardar pela sua hora.
A política da corte em breve tornou-se viciada. O rei de Chi foi assassinado em um golpe de estado por um general que, por sua vez, foi morto por rivais. O país estava no caos. Tanto Kuan Chung quanto Pao Shuia aconselharam os seus respectivos príncipes de que era hora de fazerem as suas reivindicações ao trono.
Numa batalha fora da capital, os exércitos dos dois príncipes bateram-se. Kuan Chung disparou uma flecha contra o príncipe rival que saltou ao bater na fivela do cinto do príncipe. Enfurecido e insultado, o príncipe voltou ao seu campo. Porém, no final, o exército de Kuan Chung saiu derrotado, e ele e o seu senhor tiveram que fugir para o reino vizinho de Lu. O príncipe de Pao Shuia entrou na capital e tornou-se o rei de Chi. Imediatamente, o novo rei conduziu um exército até Lu, onde matou o seu irmão. Kuan Chung rendeu-se, mas o outro conselheiro optou por morrer com seu o senhor.
Quando o rei voltou à capital, Pao Shuia, que agora era ministro, disse ao seu senhor: "Agora que a guerra acabou, podemos voltar a nossa atenção para a reconstrução do país. Kuan Chung é um homem muito capaz. Ele pode ajudá-lo a tornar Chi o estado mais poderoso entre os reinos feudais."
O rei disse: "Ele insultou-me no campo de batalha. Eu planeava mandar executá-lo. "
Pao Shuia disse: "Um rei sábio não deixa que os rancores pessoais lhe obscureçam o juízo acerca das habilidades das pessoas. Além disso, um bom governante pensa sempre no bem-estar do seu país primeiro e nas suas necessidades pessoais em segundo lugar. Se quiser que Chi se torne poderoso e próspero, precisa da ajuda de Kuan Chung."
O rei teve um enorme respeito pelo seu ex-tutor, d modo que aceitou o conselho de Pao Shuia. Ele ordenou que Kuan Chung fosse libertado do campo de prisioneiros que se situava fora da cidade e fosse levado a tribunal. Pao Shuia foi pessoalmente ao encontro do amigo e acompanhou-o até à capital.
Kuan Chung impressionou tanto o rei que imediatamente recebeu o cargo de primeiro-ministro, que o deixou classificado acima de Pao Shuya. Com o tempo, a confiança que o rei tinha em Kuan Chung cresceu e, eventualmente, ele atribuiu-lhe o homenageante título de estadista mais antigo. Kuan Chung tornou-se assim o homem mais poderoso no reino de Chi, secundado apenas pelo rei. Pao Shuia não sentiu nem ciúme nem ressentimento pelo sucesso de Kuan Chung. Eles permaneceram os melhores amigos, por ter um enorme respeito pelas capacidades de Kuan Chung e por saber que, se o senhor de Chi fosse um governante sábio, ele haveria de confiar as maiores responsabilidades a Kuan Chung. E Kuan Chung não decepcionou o rei. Sob a sua orientação, Chi tornou-se o estado mais poderoso entre os reinos feudais.
Kuan Chung não deixou que seu sucesso afectasse a amizade que tinha por Pao Shuya, e muitas vezes dizia: "Se não fosse Pao Shuia, eu não estaria onde estou hoje. Quando éramos crianças, sempre fiquei com uma porção maior de tudo o que encontrávamos. Ele não discutia comigo e nunca me considerou ganancioso por saber que eu vinha de uma família pobre que nunca gozara do suficiente em coisa nenhuma. Quando fazíamos planos juntos para as nossas pequenas empresas, Pao Shuia aceitava o meu conselho, mas quando as coisas não acabavam bem, ele nunca me culpou por estupidez, pois sabia que o sucesso e o fracasso geralmente dependem mais da sorte do que do esforço. Em jovem, servi no serviço civil três vezes e de cada dessas vezes fui demitido do meu trabalho. Pao Shuia não me considerou um inútil por saber que as oportunidades de que eu gozava não eram as ideais. Três vezes entrei na guerra, e três vezes escapei sem enfrentar a captura. Pao Shuia não pensou que eu fosse covarde por saber que precisava cuidar da minha mãe envelhecida. Na batalha final, quando os príncipes se guerrearam pelo trono, quando o meu conselheiro companheiro optou por morrer com o seu senhor e eu me rendi, Pao Shuia não considerou as minhas ações vergonhosas, por saber que por vezes o heroísmo é uma loucura. Por conseguinte, embora os meus pais me tenham dado vida e me tenham alimentado, é Pao Shuia quem realmente me entende."
A verdadeira amizade não é simplesmente cuidar de nossos amigos e ignorar as suas falhas. Pao Shuia não recomendou Kuan Chung ao rei por querer fazer um favor aa seu amigo. Foi por ele entender o gênio que Kuan Chung era na gestão dos assuntos de estado e não deixar que as suas próprias ambições pessoais impedissem que o seu amigo assumisse o cargo. Se Kuan Chung não tivesse sido capaz, Pao Shuia não o teria recomendado, e Kuan Chung, por sua vez, não teria implorado ao seu amigo para não o apoiar. Quando Pao Shuia se tornou súbdito de Kuan Chung, ele não sentiu qualquer ressentimento, mas tampouco Kuan Chung hesitou em aceitar o cargo. Kuan Chung sabia que Pao Shuia não ficaria ofendido. Ambos os homens sabiam que, não importa o que acontecesse na arena política, isso não afectaria a sua amizade. Isto é o que a verdadeira amizade deve ser.
Depois de um longo e distinto serviço como ministro principal em Chi, Kuan Chung caiu gravemente doente. O rei ficou preocupado e angustiado por parecer que Kuan Chung não ia recuperar. Ele visitou o seu ministro, sentou-se à cabeceira da cama dele e perguntou: "Você encontra-se muito doente e não está a melhorar, pelo que eu vou ser sincero e directo consigo. Se um dia você morrer, quem será a melhor pessoa para ocupar o seu lugar?"
Kuan Chung não respondeu. Em vez disso, ele perguntou ao rei: "O senhor tem alguém em mente?"
"Estou a considerar Pao Shuia."
Kuan Chung aconselhou o rei, dizendo-lhe: "Pao Shuia não é adequado para o cargo de primeiro-ministro. Ele tem padrões morais muito elevados e muitas vezes revela-se inflexível. Ele não tolera pessoas que sejam menores do que ele na virtude ou proficiência. Se ele vê alguém cometer um erro, irá desacreditar essa pessoa e recordar o acto para o resto da sua vida. Se usar Pao Shuia como seu primeiro-ministro, haverá desarmonia na corte. As pessoas terão medo de o atender, e os seus súbditos perderão a confiança que têm em si. Mais cedo ou mais tarde, irá achar Pao Shuia ofensivo ou vice-versa, e você terá que o demitir. Não, Pao Shuia será melhor empregue onde se encontra actualmente."
"Então, quem recomendaria?"
Kuan Chung disse: "Se você realmente quer que eu nomeie alguém, eu sugiro Hsi Peng. Hsi Peng é humilde e modesto. Ele pode ocupar um cargo elevado e ainda assim esquecer que detém poder. Ele será respeitado pelos seus súbditos e, ao mesmo tempo, não os intimidará. Ele não se compara com os sábios. Ele reconhece as próprias falhas e é paciente e tolerante. Ele é alguém com quem os seus súbditos se sentirão confortáveis no ​​trabalho.
"Eu acho que concordaremos que aquele que consegue inspirar os outros com a sua virtude é um sábio, e o que homem que pode partilhar da sua sabedoria com os outros é digno de respeito. Hsi Peng é precisamente esse tipo de homem. No entanto, um homem que despreza aqueles que não estão de acordo com o seu padrão não ganhará o respeito dos demais, e um homem que nunca esquece ou perdoa os erros dos demais não lhes consegue conquistar o coração.
"Você não quererá que o seu principal conselheiro seja alguém que seja tão rígido com respeito à virtude que tudo pareça errado aos seus olhos. Você não quer um perfeccionista que só critica e nunca encoraja. De preferência, quererá alguém que seja capaz de apontar os problemas oportunamente e quando olhar para o lado e deixar as coisas passarem em branco. Uma pessoa assim não exigirá a perfeição dos seus súbditos, da sua família ou do seu rei. Tanto quanto posso ver, Hsi Peng está muito próximo desse ideal."
No final, o rei de Chi acatou o conselho de Kuan Chung e empregou Hsi Peng como seu primeiro-ministro.
Muitas pessoas diriam que Kuan Chung foi duro na avaliação que fez de Pao Shuia e não se lembrou do que o seu amigo tinha feito por ele. Mas Kuan Chung não era o tipo de homem que comprometesse a segurança de um país por causa de favores pessoais. Na verdade, Kuan Chung percebeu que a verdadeira amizade não depende de favores nem de uma avaliação positiva. É por isso que ele era sincero em relação às aptidões e ao carácter de Pao Shuia quando o rei lhe pediu conselho. Kuan Chung também estava certo de que seu o amigo entenderia a sua franqueza e não sentiria ofendido com a avaliação honesta que Kuan Chung fizera.
Por que as coisas aconteceram do jeito que aconteceram para Kuan Chung, Pao Shuya e Hsi Peng? Não foi porque Pao Shuia inicialmente favorecesse o seu amigo, nem por Kuan Chung ignorar o seu amigo no final da sua vida, nem por Hsi Peng ter sido favorecido. Foi por causa da amizade que Kuan Chung e Pao Shuia tinham um pelo outro. Nenhum deles poderia ter agido de outra forma. Foi por causa das suas habilidades que Kuan Chung foi escolhido num primeiro caso e Hsi Peng foi escolhido suceder a Kuan Chung. No entanto, se o rei de Chi não tivesse sido um governante sensato e não tivesse escutado as palavras de sabedoria e razão, nenhum deles teria sido escolhido como primeiro-ministro. Se continuássemos a analisar a situação, poderíamos prosseguir indefinidamente e encontrar mais razões por que um foi escolhido e o outro não. E haveríamos de concluir que as coisas aconteceram do jeito que sucederam, em função da ocorrência de outras coisas que as levaram a acontecer. Assim, se alguém é favorecido ou negligenciado, empregue ou demitido, não é uma função do seu esforço nem mesmo do esforço de outra pessoa, mas porque muitos fatores se agrupam para que os eventos não se possam desenrolar de outra forma.
65 Serão a ida e a morte uma questão de esforço ou de destino?
TENG HSI era um oficial proeminente no estado de Cheng, que se deliciava repreensão dos outros e em ser defensor do diabo. Ele gostava de fazer declarações ambíguas que provocassem conflitos e contenção entre os administradores do governo.
Tzu Chan era um ministro que governava Cheng com punho de ferro. Preocupado com o aumento das actividades criminosas no estado, Tzu Chan adotou um código de regulamentos que exigia uma aplicação mais rigorosa da lei e da ordem. Administradores e cidadãos todos aprovaram essa nova legislação, excepto Teng Hsi, que criticou Tzu Chan e o seu novo código de lei. Isso deixou Tzu Chan extremamente irritado. Não só Teng Hsi o criticava, mas, como de costume, as afirmações de Teng Hsi provocaram argumentos e conflitos aos níveis superiores do governo. Logo, os funcionários do governo ficaram divididos em dois campos: aqueles que apoiavam Tzu Chan e aqueles que concordavam com Teng Hsi.
Um dia, sem aviso prévio, Tzu Chan fez com que Teng Hsi fosse preso e executado.
Teria precisado Tzu Chan de executar Teng Hsi? Teria Teng Hsi cometido um crime severo por que merecesse ser executado? Sob aquelas circunstâncias, Tzu Chan não teve outra escolha por saber o quão perigosa era uma influência perturbadora para um país que sempre fora ameaçado pela invasão e atormentado pela desordem interna. Por outro lado, conhecedor da resoluta regra de ferro de Tzu Chan, por que fez Teng Hsi de defensor do diabo e atraiu problemas a si mesmo? Também podemos dizer que Teng Hsi não teve escolha por lhe ser natural criticar tudo e mais alguma coisa. Assim, não foi Tzu Chan quem matou Teng Hsi, nem Teng Hsi quem trouxe a morte sobre si próprio. As coisas não poderiam ter acontecido de outra forma, dadas as circunstâncias e as disposições naturais em que os dois homens se encontravam.
Na ordem natural das coisas, a vida e a morte não são algo que possamos controlar. É uma bênção poder viver e morrer no momento certo. Viver quando não é apropriado viver e morrer quando não é hora de morrer é castigo. Da mesma forma, não poder viver quando se deve viver e não poder morrer quando se deveria morrer é sofrimento. Mas, se vivemos e morremos no momento certo não é algo que possamos controlar. Em vez disso, é algo que acontece no contexto e em consequência de muitos outros eventos.
Os antigos dizem que as maneiras pelas quais as coisas acontecem são ilimitadas e incognoscíveis. Seguindo as leis da transformação no céu e na terra, ilimitadas e incessantes, os ciclos de mudança ocorrem por si só. O céu e a terra e todas as coisas não podem ir contra essa ordem natural. A sabedoria dos sábios não pode modificá-la e os demónios não podem escapar-lhe. Todas as coisas vêm e vão sem a necessidade de um criador nem de um causador que faça com que aconteçam. Silenciosamente, a sua presença é reconhecida, harmoniosamente a sua existência é aceite e, pacificamente a sua partida é reconhecida.
66 Um médico medíocre, um bom médico e um médico com engenho
O AMIGO de YANG CHU ficou doente. Os filhos do homem aconselharam o pai a chamar um médico, mas o amigo de Yang Chu recusou. Após dez dias, a doença passou de mal a pior. Os filhos sentaram-se à cabeceira da cama do pai e choraram amargamente.
Um dia, Yang Chu foi visitar o amigo. Encontrando toda a casa de luto, disse: “Que choro todo é este?” O amigo suspirou e respondeu: “Os meus filhos são tão estúpidos! Por que não canta uma música que os desperte?”
Assim, Yang Chu cantou:

Se o céu não o sabe, como poderão mortais saber?
Se o céu não nos abençoar, chorar não vai ajudar.
Se todos chorarmos juntos,
Irá isso prolongar a vida e afugentar a morte?
Nem mesmo os médicos e xamanes operam milagres.
Mesmo depois de Yang Chu ter terminado a sua canção, os filhos ainda não conseguiam entender, pelo que foram e convidaram três médicos para ir examinar o seu pai.
O primeiro médico olhou para o doente e disse: “Você encontra-se doente por o yang e o yin se encontrarem em desequilíbrio no seu corpo. Enfraqueceu o corpo ao deixar de comer e dormir adequadamente, praticar muito sexo, e preocupar-se com muitas coisas. Dado um repouso e cuidados suficientes você deve poder recuperar.“
O amigo de Yang Chu disse: “Este é um médico de capacidade média. Diga-lhe para sair de imediato.”
O segundo médico examinou o doente e fez o seu prognóstico. “A sua doença é resultado de uma constituição fraca devida a uma nutrição insuficiente no ventre de sua mãe. Embora tivesse leite suficiente para o nutrir, depois que nasceu, os estragos estavam feitos. A sua doença não aconteceu da noite para o dia. É algo que se desenvolveu ao longo de um longo período de tempo. Não há muito que possa ser feito em relação a ela, agora.”
O amigo de Yang Chu disse: “Este é um bom médico. Leve-o a jantar.”
O terceiro médico nem sequer examinou o amigo de Yang Chu. Ele simplesmente disse: “A sua doença não é causada pelo céu, o homem, nem pelos espíritos malignos. Cada um é dotado de vida ao nascer e esse curso de vida não é algo que se possa controlar ou dirigir. Dada a forma em que as coisas resultaram, nem mesmo o melhor dos remédios poderá ajudá-lo."
O amigo de Yang Chu foi muito satisfeito com esse médico, e disse: “Dê-lhe um rico presente. Ele é um médico genial!”
Logo depois, o amigo de Yang Chu recuperou sem qualquer tratamento.
Às vezes, se valorizarmos demais a vida, não poderemos preservá-la. Se nos apegarmos exageradamente à saúde, ficamos doentes. No entanto, se não cuidarmos de nós próprios em tudo, perderemos a saúde e a vida. Vida e morte, saúde e doença, benefício e prejuízo vêm por si só. Deixem que as coisas corram de acordo com o seu curso natural. Não tentem fazer com que as coisas aconteçam e não as impeçam de acontecer.
67 Yang Chu fala sobre o Destino
O MESTRE DE KING WEN disse-lhe: "No mundo natural, as coisas que são dotadas de dons do céu não são necessariamente mais aptas do que as que não são favorecidas. Da mesma forma, pessoas inteligentes não são necessariamente mais afortunadas do que as pessoas que não são inteligentes. Portanto, por que tentar estimar as vossas possibilidades de sucesso com base em vossas habilidades e talentos?"
Lao Tzu disse ao seu estudante Wen Tzu: "Não podemos dizer que uma pessoa que não é dotada seja detestada pelo céu. Por outro lado, quem conhecerá a vontade do céu? Talvez, ao deixar de lhe fazer chegar bênçãos, o céu a esteja a ajudar.
O irmão mais novo de Yang Chu descobriu que havia certas coisas que ele não conseguia entender. Assim, ele perguntou ao irmão: "Suponha que haja dois homens de igual idade, inteligência e maneiras. Digamos que eles se parecem mesmo, e que falam do mesmo jeito. Só que um é rico e o outro é pobre; um deles goza de uma vida longa e saudável e o outro morre jovem; um é respeitado por todos e o outro é desprezado. Poder-me-ás dizer por que um é favorecido e o outro não, embora ambos sejam dotados dos mesmos dons ao nascer?"
Yang Chu disse: "Os antigos têm muito a dizer acerca destas coisas. Deixe que tas explique e talvez depois de teres considerado a sua sabedoria, não se sintas tão confuso.
"Que duas pessoas com dotes similares ao nascer acabem com vidas muito diferentes é uma questão do desenrolar natural dos eventos a que se chama destino. Olha o mundo confuso, vê as multidões de pessoas que se esforçam por conquistar, e perceberás que não são nem felizes nem satisfeitas. Também precisarás fazer isso, por todos os outros o estarem a fazer? Se não te quiseres forçar, se não aceitares as normas sociais do sucesso e da realização, quem poderá deter-te? Do nascer ao pôr-do-sol, as pessoas andam numa correria, num frenesim. Será que isso garante que eles estejam mais abastadas do que tu se tu não fizeres o mesmo? O que te acontecer não é determinado pelo esforço, nem mesmo por nenhuma habilidade inata."
Vendo que o irmão ainda estava confuso, Yang Chu continuou: "Se tu aceitares a ordem natural das coisas, não te preocuparás com a possibilidade da tua vida ser longa ou curta. Se tu entenderes as leis do céu e da terra, não te preocuparás com as concepções de “certo ou errado.” Se tu confiares em ti próprio, não importa que as condições sejam seguras ou perigosas. Se fores fiel a si próprio, não serás incomodado com as coisas que acontecem ao teu redor. Ganho ou perda, louvor ou culpa, aprovação ou reprovação, felicidade ou tristeza, raiva ou satisfação não te poderão podem afetar.
"O Imperador Amarelo disse certa vez que as pessoas iluminadas não questionam a razão por que vivem nem o que estão a fazer. Elas não são afectadas pelas acções e opiniões dos outros. Não vão contra a natureza natural das coisas e não fazem coisas que se oponham aos seus princípios. Aceitando o desenrolar natural dos eventos, elas podem ir onde elas quiserem e fazer o que precisar ser feito. Os pensamentos e as acções dos outros não terão qualquer efeito sobre elas."
À semelhança do irmão de Yang Chu, muitas vezes questionamo-nos por que as coisas acontecem da maneira que acontecem. E quando vemos as coisas acontecerem de modo contrário às expectativas que temos, ficamos frustrados ou desapontados. Na nossa ideia, duas pessoas com a mesma inteligência e aparência deverão conseguir realizações semelhantes quanto à carreira e à posição social. E se não conseguirmos o sucesso, onde outros com as mesmas habilidades conseguem, será conveniente arranjar uma desculpa para ficar deprimidos e pensar que somos tratados de forma injusta. No entanto, se pudermos libertar-se desse modo de pensar e reconhecer que existem algumas coisas que simplesmente não podemos controlar, então enfrentaremos menos decepção, frustração, raiva e insatisfação nas nossas vidas.
68 Não podemos conhecer as pessoas diferentes de nós
Havia quatro pessoas que partilhavam da mesma casa. Elas comiam juntas, faziam o trabalho doméstico juntas e até distraíam juntas, porém, cada uma tinha uma personalidade muito diferente. Uma delas era estudiosa e séria, outra era imprudente, outra ainda era despreocupada e por fim a outra era exaltada. Embora tenham passado muito tempo juntas, elas faziam as coisas ao seu jeito e não se entendiam, pois cada uma afirmava ser mais inteligente que as demais.
Havia um outro grupo de quatro pessoas que também viviam juntas e faziam muitas coisas juntas. Elas também eram muito diferentes nas suas disposições. Um deles era loquaz e de conversa fácil, outra era franca e honesta, outra era teimosa e rígida, e a quarta era complacente e dada a ceder. Embora tenham vivido juntas por muito tempo, todas faziam as coisas do seu jeito e nunca se preocupavam por saber o que as outras faziam, pois cada uma delas afirmava ser mais habilidosa do que as demais.
Um outro grupo ainda de quatro pessoas dividiam a casa e passavam muito tempo juntas. Também elas diferiam muito umas das outras. Uma delas era esperta, outra era orgulhosa, outra ainda ficava em silêncio e a final era argumentativa. Elas também se metiam nos seus afazeres e nunca ouviam as outras, pois todas acreditavam ser mais talentosas que os outros.
Quatro outras pessoas viviam juntas. Uma delas era ordinária, outra era instável, outra era ousada e a quarta era tímida. Elas também faziam as coisas ao seu jeito e não queriam aprender umas com as outras. No fim das suas vidas, elas nunca se entenderam e todas se julgavam mais virtuosas do que as outras.
Havia um outro grupo de quatro pessoas com características diferentes que viveram na mesma casa por muito tempo. Uma delas era extrovertida e sociável, outra era confiante, outra era autoritária e a final era solitária. Apesar do tempo que passaram juntas, elas nunca chegaram a conhecer-se, pois cada uma afirmava conhecer a melhor maneira de tirar proveito das oportunidades.
Todas essas pessoas tinham disposições diferentes. À primeira vista, poderá parecer que elas eram snobes por não quererem entender as outras que tinham uma atitude diferente. Mas, por outro lado, se tivessem tentado, tê-lo-iam conseguido? Ou teriam reconhecido mutuamente as diferenças de maneira educada, fingido que se entendiam, e depois voltado a fazer as coisas à sua própria maneira?
Cada indivíduo é diferente e cada um segue o seu próprio caminho na vida. Por que não ser honesto e aceitar as nossas diferenças? Por que fingir que entendemos quando não o fazemos? É uma ocasião rara dois indivíduos poderem comunicar-se directamente de mente e coração, como Po Ya o tocador de alaúde e o seu amigo Chung Tzu Chi, ou o mestre arqueiro Fei Wei e o seu aluno Chi-Chang, e os amigos Kuan Chung e Pao Shuia.
69 Sucesso e Fracasso
Aqueles que são bem-sucedidos muitas vezes não sabem de antemão que virão a ter sucesso. Aqueles que falham, muitas vezes, não sabem de antemão que virão a falhar. Por isso, por que desperdiçar tempo e esforço na antecipação do sucesso ou do fracasso quando isso só causará ansiedade e apreensão?
Se entendermos a natureza do sucesso e do fracasso, não ficaremos tristes se as coisas derem errado nem nos excederemos na alegria quando as coisas correm de feição. Não perturbados pelas oscilações emocionais, poderemos lidar de forma calma e composta com tudo o que vier ao nosso encontro.
Muitas coisas sucedem sem a nossa intervenção activa. Quando o impulso dos eventos é demasiado forte, a melhor coisa que podemos fazer é sair do caminho e não ser varridos por ele. Assim, conhecedores do papel que o destino tem no sucesso e no fracasso, os sábios sabem quando agir e quando deter-se.
Alguém que aceite o fluxo natural de eventos não será incitado pelo que estiver a ocorrer ao seu redor. Não responderá com raiva nem alegria, atracção nem repulsa, medo nem tranquilidade. Por outro lado, alguém que rejeite o fluxo natural dos eventos sempre se preocupará com o sucesso e o fracasso, o ganho e a perda, a aprovação ou a rejeição. Mesmo que vende os olhos ou coloque cera nos ouvidos, ainda sentirá tensão e ansiedade.
A vida e a morte são eventos naturais. As riquezas e a pobreza são o produto dos tempos. Só nos preocupamos se as nossas vidas virão a ser longas ou curtas, ou se seremos ricos ou pobres quando não entendemos que os acontecimentos vêm e vão por si sós e que a preocupação não os pode mudar.
Somente aqueles que aceitam o fluxo natural dos acontecimentos não ficarão preocupados com a vida e a morte nem ansiosos com o louvor ou a culpa. As pessoas inteligentes muitas vezes quererão calcular a probabilidade de sucesso e de fracasso antes de tomarem medidas. No entanto, as hipóteses que têm de sucesso geralmente não são muito diferentes das pessoas que não pensam em tais hipóteses. Portanto, as probabilidades, a possibilidade e momento oportuno são dependentes de outros eventos e das hipóteses de ocorrerem, e assim por diante, numa cadeia interminável. As coisas acabarão do jeito que acabarem, independentemente das previsões que fizermos. Portanto, por que tentar prever e depois ficar preocupado com a precisão das nossas previsões?
Quando não antecipamos o sucesso e o fracasso, estaremos preparados para aceitar qualquer resultado. Não ficaremos extremamente radiantes se as coisas acabarem do jeito que quisermos, mas também não ficaremos a sentir-nos infelizes ​​se as coisas correrem mal.
70 O rei que era ávido em relação à vida e receava a morte
O REI DE CHI andava a fazer turismo pelos Montes Ox. Com ele andavam os seus ministros e assistentes. Olhando para baixo da colina, o rei viu o seu país diante de si - a ampla extensão de campos férteis, as colinas de verde e amarelo, e os rios lentos e sinuosos. De repente, ele foi invadido pela tristeza e pela melancolia e suspirou: "Que bela terra! Que pena que eu tenha que morrer um dia deixar tudo isto! Se a morte não existisse, então eu deveria ficar com estes montes e rios para sempre! "Quando terminou de falar, as lágrimas rolavam-lhe pelas faces.
Dois oficiais que assistiam ao rei também começaram a chorar, e disseram ao seu mestre: "Meu senhor, mesmo nós, que apenas comemos arroz inferior e carne dura e viajamos em carruagens antigas, não queremos abandonar aquilo que temos. Quanto mais difícil não será para alguém como o senhor separar-se da sua fortuna!"
Como todos estavam a ficar cada vez mais deprimidos, o ministro principal, Yen Tzu, ria discretamente consigo próprio. O rei dirigiu-se para o seu conselheiro e disse: "Quando vi a beleza da terra diante de mim e percebi que eu tinha que me separar dela um dia, fiquei cheio de tristeza e chorei. Todos os meus subordinados partilharam do meu sentimento e choraram comigo excepto tu. Por que estás a rir?"
Yen Tzu disse: "Se todos vivessem para sempre, então os antigos reis ainda estariam por perto, e eles estariam a ocupar os seus tronos. Você, meu amo, não passaria de um cidadão vulgar que araria o campo e se preocuparia se teria o suficiente para comer. Dado isso, você provavelmente quereria morrer e não viver para sempre. Hoje você é rei de um país próspero, e ainda assim chora como um covarde que tem medo de morrer. Diante da visão de um idiota exortado por outros tolos, não posso deixar de me rir da loucura coletiva que isso representa!"
Quando o rei ouviu aquilo, ficou envergonhado. Pediu desculpas pelo comportamento que tinha adoptado e pela incapacidade de ser um exemplo para os seus subordinados.
Quando somos ricos, famosos e poderosos, não queremos morrer. Por outro lado, se formos miseráveis ​​e sofredores, queremos morrer e abandonar tudo. Mas poderão a alegria ou a miséria durar para sempre? Há um ditado que diz: "Todas as celebrações devem terminar em qualquer altura." Todo desejo de viver para sempre ou de morrer imediatamente não passa muita vez de um capricho do momento. Como saberemos se, embora estejamos felizes neste instante, não viremos porventura a estar tristes no dia seguinte, ou se estivermos tristes agora, virmos a sentir-nos felizes em breve? Dado que o bem e o mal, a fortuna e o infortúnio sobrevêm por si só, não devíamos apegar-nos à vida nem abraçar a morte. A vida e a morte por si só. Por que ser ávido em relação à vida e recear a morte?
71 A morte não é uma perda
Houve um homem cujo único filho morreu vitimado por uma doença repentina. Ele não lamentou a perda do filho, nem ficou triste com o sucedido. Os amigos ficaram curiosos em relação ao comportamento dele, de modo que lhe perguntaram: "O seu filho único está morto. Você deve sentir-se com o coração destroçado. Por que age como se nada tivesse acontecido?"
O homem respondeu: "Antes que meu filho chegasse, eu não tinha qualquer filho. Eu certamente não estava com o destroçado partido nessa época. Agora eu não tenho qualquer filho de novo. Por que eu deveria estar com coração destroçado agora?"

Livro Sétimo
Yang Chu
INTRODUÇÃO
Como não temos controlo sobre a vida e a morte, devemos aproveitar o nosso tempo na Terra. Por que curvar-nos às convenções sociais, por que fazer parte da luta pela riqueza material quando um dia morreremos, nos separaremos de tudo o que temos e seremos esquecidos? Esta é a essência da doutrina de Yang Chu, à semelhança da de Aristipo de Cirene com o seu hedonismo e Epicuro e o seu epicurismo.
Para Yang Chu, tudo é substituível e, por conseguinte, dispensável; Excepto o corpo. Assim, adverte ele que o corpo deve ser preservado a todo custo. Mesmo se alguém pudesse ganhar um reino e perder um cabelo, não valeria a pena. Se um reino não vale um fio de cabelo, então a fama e a fortuna não valem a perda da saúde física e do bem-estar mental.
Nomes, títulos, posição social e reputação é tudo vazio. Não devemos sacrificar o nosso precioso tempo na Terra com conquistas tão vazias. No entanto, Yang Chu não promove o ascetismo. Para ele, não há nada de errado em gozar de abundância e de conforto. Nós só nos destruímos quando escalamos a escada social às custas da felicidade.
72 Um nome não representa nada e os títulos são destituídos de sentido
YANG CHU viajava pelo reino de Lu e foi hospedar-se em caso do amigo Meng.
Um dia, Meng perguntou a Yang Chu: "Por que as pessoas não se satisfazem com aquele que são? Por que buscam elas o reconhecimento social?"
Yang Chu disse com naturalidade: "O reconhecimento social pode ajudá-las a enriquecer."
"Mas, e por que é que depois que elas enriquecerem, ainda não se sentem satisfeitas?"
"Depois de conquistar a riqueza, você quererá o poder político."
"Mas quando elas obtêm poder político, eles ainda não se sentem satisfeitoas."
"Então, querem ter certeza de que as coisas estarão em ordem quando elas morrerem."
"Quando morrermos, iremos abandonar tudo. Qual o uso do planeamento para as coisas que vierem a suceder subsequentemente?"
"Elas preocupam-se com o futuro dos seus netos."
"Como um nome e um título poderão afectar o bem-estar dos seus descendentes?"
Yang Chu explicou: "As pessoas pensam que se deixarem uma boa reputação, então os seus descendentes serão respeitados. No entanto, na maioria das vezes, as pessoas que deixam um bom nome são aquelas que se sentem cansadas de corpo e mente, mas viveram uma vida honesta. A honestidade e a riqueza não costumam andar lado a lado. Assim, o homem honesto que é socialmente reconhecido como uma pessoa virtuosa é muitas vezes pobre. Da mesma forma, uma pessoa humilde pode conquistar o respeito na sua comunidade, mas não será elevada a uma posição nem ao poder político.
"Assim, confrontamo-nos aqui com um paradoxo. Honestidade e humildade não lhes darão poder nem posição, embora possa trazer-lhes reputação. Por outro lado, para ser rico e poderoso, precisam sacrificar honestidade e humildade e talvez perder a vossa reputação de pessoas virtuosas. Muitas pessoas passam as suas vidas presas nesse dilema."
Meng pensou que tinha entendido Yang Chu, pelo que disse: "Eu acho que entendo o que quer dizer. Olhe para Kuan Chung. Quando ele era primeiro-ministro de Chi, ele era devasso quando o rei se mostrava devasso e extravagante quando o rei se mostrava extravagante. O ministro e o seu amo eram afins de mente e coração. Assim, Kuan Chung deu-se muito bem com o rei e tornou-se o segundo homem mais poderoso do país. Mas hoje, os seus descendentes não são mais respeitados que o cidadão comum. Por outro lado, outro ministro chamado Tien Heng era humilde quando o seu rei se mostrava arrogante, generoso quando o rei se mostrava ganancioso. Ministro e amo nunca se deram bem, mas a sua popularidade conquistou o coração das pessoas e elas tornaram-no rei. Agora, os seus descendentes desfrutam da prosperidade do reino dos Chi.
"Portanto, o homem que agora tem poder pode não deixar um bom nome para trás, mas o homem que agora possa ser pobre pode acabar deixando uma boa reputação mais tarde".
Yang Chu disse: "Não chegou ao que eu queria dizer. Não é que por serem humildes e pobres agora venham a obter o reconhecimento mais tarde, nem que por serem poderosos agora venham a deixar um nome ruim. As pessoas pensam que, ou conquistam já o poder e o reconhecimento social e abrem mão de um bom nome para sempre, ou sofrerão e se sacrificarão agora e receberão um bom nome mais tarde. Eu digo que nada disso vale a pena. Os antigos diziam que um nome não significa nada e que os títulos são vazios. Você acha que os imperadores Yao e Shun abdicaram por serem virtuosos? A sua reputação realmente sofreu um incremento depois que eles perderam a realeza. Se não houvesse nada a ganhar, eu aposto que nenhum deles teria abdicado. Agora, acha que ter uma boa reputação ou um bom nome na história tenha que ver com ser virtuoso? Não só não vale a pena perseguir uma reputação, como realmente não faz sentido.
"Observe os eremitas Po Yi e Shu Chi. Eles se recusaram a servir um senhor inimigo e morreram de fome nas montanhas. Ambos tornaram-se heróis e foram considerados homens de integridade e de virtude. No entanto, eles perderam as suas vidas e as suas terras, e os seus descendentes foram destituídos. Nesse caso, a reputação desses dois homens nada fez para ajudar filhos e netos."
Se quiser conquistar um nome e um título, precisa sacrificar a sua integridade e humildade. Se você quiser ser sincero e honesto, você não receberá muito reconhecimento social. Às vezes, ter um nome acarreta ansiedades e encargos de responsabilidade. Assim, as pessoas que têm poder e posição social muitas vezes não são livres para fazer o que querem. Por todos os observarem, eles têm que se comportar da maneira que se espera da sua reputação. Basta um erro para que percam a reputação de que gozam, duramente merecida. Elas não são propriamente as mais felizes das pessoas.
Por outro lado, alguém sem posição social e sem reputação para defender pode ser uma pessoa mais livre e feliz. Porquê, pois, trabalhar tão duro para merecer o reconhecimento social quando só diminuirão a vossa liberdade e felicidade?
73 Vida – Permanência temporária no mundo; Morte - Saída Temporária
YANG CHU DISSE:
"Se você viver até os cem anos, será considerado que viveu uma vida longa. No entanto, apenas uma em cada mil pessoas é sortuda assim. Mas se pegarmos numa pessoa que tenha vivido cem anos e olharmos o tempo que tenha gasto na sua vida, perceberemos que cem anos não é uma vida longa. Desses anos, a infância e a velhice levam pelo menos metade do tempo. Além disso, metade do dia ela passa-o a dormir. Sem mencionar as horas durante o dia que ela passa na ociosidade. O que deixará isso? Além disso, se reduzirmos os momentos em que ela fica doente, triste, confusa, a sofrer e em que não se sente bem, não terá muito tempo para que possa desfrutar ou ser livre.
"Algumas pessoas pensam que podem encontrar satisfação na boa comida, nas roupas finas, na música animada e no prazer sexual. No entanto, quando conseguem todas essas coisas, elas não ficam satisfeitos. Eles percebem que a felicidade não está simplesmente em ver as suas necessidades materiais atendidas. Assim, a sociedade criou um sistema de recompensas que vai além dos bens materiais Ele inclui títulos, reconhecimento social, posição e poder político, tudo embrulhado por um pacote chamado realização pessoal. Atraídos por esses prémios e estimulados pela pressão social, as pessoas passam as suas curtas vidas a cansar corpo e mente na perseguição desses objectivos. Talvez isso lhes dê a sensação de terem conseguido algo nas suas vidas, mas, na realidade, eles terão sacrificado muito na vida. Elas não conseguem mais ver, ouvir, agir, sentir ou pensar com base nos seus corações. Tudo o que elas fazem é ditado pelo que lhes possa angariar ganhos sociais. No final, eles terão passado as suas vidas a seguir as demandas dos outros e nunca terão vivido uma vida própria. Que diferença fará isso da vida de um escravo ou de um prisioneiro?
"Os antigos entenderam que a vida não passa de uma estadia temporária neste mundo, e a morte é uma partida temporária. No curto espaço de tempo que permanecemos aqui, devemos dar atenção às nossas próprias vozes e seguir os nossos próprios corações. Por que não ser livre e viver a sua própria vida? Por que seguir as regras de outras pessoas e viver para agradar aos outros? Quando algo agradável vem a vós, vocês deviam apreciá-lo por completo. Não se deixem aprisionar pelo nome nem pelo título, pois as convenções sociais podem levá-los para longe da ordem natural das coisas. Não importa que venham a ser lembrados pelas gerações futuras, porque vocês não irão estar lá para o ver.
"Por que gastar a vossa vida a deixar que os outros os manipulem apenas para obter um nome e reputação? Por que não deixar que a vossa vida seja guiada pelo vosso próprio coração e viver sem os fardos da fama e do reconhecimento?"
74 Na vida pode haver diferenças; Na morte, tudo é o mesmo
Muitíssimas coisas poderão ser diferentes na vida, mas na morte elas serão o mesmo.
Algumas pessoas nascem em famílias ricas; outras nascem pobres. Alguns nascem inteligentes; outros nascem estúpidos. Alguns nascem na nobreza; outros nascem como cidadãos comuns. Enquanto eles vivem, eles são diferentes. Mas quando eles morrem, todos se reduzem a uma pilha de ossos e de carne em decomposição.
Viver ou morrer, ser inteligentes ou estúpidos, não é algo que possamos controlar. Não podemos escolher nascer, nem poderemos escolher não apodrecer quando morrermos. Nós não somos responsáveis ​​pela nossa inteligência ou estupidez, nem temos qualquer voz no tipo de ambiente em que nascemos. Tudo isso vem por si só e é uma questão de destino. Assim, na vida, somos diferentes por causa dos diferentes destinos que temos.
Há, no entanto, uma coisa que todos temos em comum: a morte. Alguns poderão viver até os cem anos; Outros poderão morrer após dez anos de vida. Mas, independentemente de quanto tempo vivermos, iremos morrer. As pessoas virtuosas morrem; os criminosos morrem. Quando vivos, os virtuosos podem ser respeitados, mas na morte eles não passam de uma pilha de ossos secos. Da mesma forma, os ímpios podem ser abominados em vida, mas na morte também eles não passam de uma pilha de ossos. As pessoas famosas após a morte são uma pilha de ossos; os desconhecidos são outa pilha de ossos após a morte. As diferenças são vistas ou lembradas no máximo durante cem anos, mas depois disso, uma pilha de ossos é exatamente igual à outra.
Dada a curta e transitória natureza da vida, devemos aproveitá-la melhor. Aproveitá-la enquanto podemos. Por que preocupar-se se irão deixar um bom nome quando tudo o que resta de vós é uma pilha de ossos secos?
75 As Riquezas podem prejudicá-los, mas a Pobreza também
HAVIA UM POBRE HOMEM que acabou por morrer de fome por causa da pobreza. Havia um homem rico que prejudicou o corpo e fatigou a mente porque se forçar demasiado com a tentativa de ficar mais rico.
Assim, as riquezas podem prejudicá-los, mas a pobreza também pode. Qual será, pois, a melhor maneira de viver?
Uma vida boa é uma vida satisfeita com suficiência de meios e prazer adequado. Se forem muito ricos, vocês ficarão sobrecarregados com a riqueza, porque com a riqueza vêm as complexidades da gestão, e da administração vem a ansiedade de ganho e perda. Por outro lado, se forem muito pobres, vocês não terão o suficiente para comer nem roupas que os aqueçam nem lazer. Assim, vocês labutam se forem muito ricos, e vocês labutam se forem muito pobres. Esses são dois extremos que devemos evitar.
Se você não tiverem o suficiente para comer, tratem de obter o suficiente para comer. Se não puderem aquecer-se no inverno, tratem de obter roupas suficientes. Se não tiverem tempo para se divertir, tratem de obter tempo de lazer. Mas quando tiverem o suficiente, devem parar. Se continuarem a trabalhar para obter pratos requintados, um grande guarda-roupa e mais férias, vocês acabarão por não ter tempo para as apreciar, porque sempre estarem a trabalhar para obter o dinheiro para essas coisas.
76 Cuidar de si próprio
YEN-TZU PERGUNTOU A KUAN CHUNG o que os antigos queriam dizer com "cultivar a vida."
Kuan Chung respondeu: "Cultivar a vida é cuidar de si mesmo. Significa viver livremente e não colocar restrições em si próprio."
"Pode explicar melhor isso?"
"Deixe que os seus olhos vejam o que eles vêem, não o que os outros querem que veja. Deixe que seus ouvidos ouçam o que eles naturalmente ouvem, e não o que os outros querem que ouça. Deixe que a sua boca diga o que pensa livremente e não se restrinja com a aprovação ou reprovação dos outros. Deixe que a sua mente pense o que quer pensar e não deixe que as exigências dos outros lhe ditem as ideias. Se os vossos sentidos e a vossa mente não estiverem autorizados a fazer o que querem de forma natural, vocês estarão a negar os ossos direitos. Quando não conseguem pensar, perceber, sentir ou agir livremente, o vosso corpo e mente serão prejudicados. Rompam com essas formas de opressão, e vocês cultivarão a vida. Quando puderem cultivar a vida, então vocês poderão aguardar pacificamente a morte. Ser capaz de escapar dessas formas de opressão por um dia é melhor do que viver cem anos preso a eles."
A seguir Kuan Chung disse a Yen-tzu: "Agora que eu falei sobre o cultivo da vida, o que poderá dizer-me sobre o cuidar da morte?"
Yen-tzu disse: "No que me diz respeito, cuidar da morte não é coisa que exija muita coisa. Ela vem quando vier."
Quando Kuan Chung apertou mais com ele, Yen-Tzu disse: "Quando eu estiver morto, não terei noção de nada. Por isso, na verdade não importa que me jogue no mar, ou que me deixe ao ar livre, que me arraste por uma vala ou que me enterre numa sepultura. Eu não saberei se me terá vestido com roupas caras de enterro ou se me terá embalado em sacos de serapilheira. Por que preocupar-se com o que acontece depois que morremos?”
Kuan Chung voltou-se para o seu amigo Pao Shuia e disse: "Entre Yen-tzu e eu, nós dissemos tudo o que há a dizer sobre o modo de viver e a maneira de morrer."
Enquanto vivem, contentem-se e conheçam o suficiente. Quando morrerem, não haverá necessidade de cofres caros nem de funerais elaborados. Assim, vivam uma vida de satisfação e tenham uma morte simples.
77 Um louco ou um homem iluminado?
TUAN MU SHU era um homem extremamente rico. Era o descendente de Tzu Kung, que foi um estudante de Confúcio e um empresário bem-sucedido. Tuan Mu Shu herdou uma grande fortuna dos antepassados ​​e não estava interessado em trabalhar. Ele gostava da boa vida e seguia onde a sua fantasia o conduzisse.
Ele mandou construir uma grande mansão com os melhores materiais e decorada pelos artesãos mais habilidosos. Ele comia dos melhores alimentos e vestia roupas da mais alta qualidade. Ele viajava em carruagens confortáveis ​​e sempre era acompanhado por belas cortesãs.
Tuan Mu Shu perseguia tudo quanto lhe excitasse seus sentidos, despertasse a curiosidade e estimulasse a mente. Ele colecionava artefactos raros e tesouros de países estrangeiros. Ele viajava para lugares exóticos. Ele era entretido pelos melhores músicos e dançarinos da época. Ele não negaria nada a si próprio. Era rico e extravagante e era invejado por reis e nobres.
Ao contrário da maioria das pessoas ricas, no entanto, Tuan Mu Shu nunca foi avarento com o seu dinheiro. Ele era generoso e gastava livremente com os demais, bem como consigo próprio. Ele dava grandes festas regularmente e convidava centenas de pessoas para desfrutar da melhor comida e do melhor entretenimento. Ele também compartilhava a sua riqueza com parentes, amigos, vizinhos e até pessoas que ele não conhecia. A sua generosidade era tão grande que na cidade onde morava nem nas aldeias vizinhas não havia uma pessoa carente.
Quando Tuan Mu Shu chegou aos sessenta anos e a sua saúde começou a falhar, ele distribuiu todas as suas posses, não deixando nada para os filhos e netos. Dentro de um ano, o homem rico tornou-se pobre e quando adoecia nem se podia dar ao luxo de chamar um médico. Quando ele morreu, os filhos não tiveram dinheiro para o enterrar. Felizmente, para os seus descendentes, as pessoas que tinham beneficiado da generosidade de Tuan Mu Shu recolheram fundos e deram-lhe um enterro digno e devolveram alguma riqueza à família.
Quando um erudito proeminente ouviu falar sobre isso, disse: "Tuan Mu Shu foi um louco. Tzu Kung teria dado voltas na sua tumba se soubesse disso."
Outro filósofo comentou: "Tuan Mu Shu foi um homem iluminado. Ele até superou o seu antepassado Tzu Kung."
Tuan Mu Shu foi um louco ou um homem iluminado? Se o julgarmos pelas normas sociais, então parecerá que Tuan Mu Shu tenha sido realmente um louco. Ele abandonou a família, não se preocupou com o bem-estar de seus descendentes, e desbaratou a sua riqueza. Mas, depois, Tuan Mu Shu foi sincero em tudo o que ele fez. Não usou de pretensões, nem armou intrigas, e as suas ações foram feitas sem segundas intenções. Ele seguiu os ditames do coração e não se deixou restringir pelas convenções sociais. Ele divertiu-se livremente, doou livremente, e nunca fez nada que fosse contra a sua natureza.
78 Que é que prejudica mais a saúde - o prazer irrestrito ou trabalho duro obsessivo?
TZU CHAN, PRIMEIRO-MINISTRO do reino de Cheng, teve dois irmãos. Enquanto ele empregou as suas energias no fortalecimento do país e na redução do crime e da desordem, os dois irmãos entregaram-se a tudo o que lhe satisfazia os sentidos.
Um dos irmãos tinha uma cervejaria e um grande armazém na parte de trás de sua mansão, onde armazenava milhares de jarros de vinho. Conseguia-se sentir o cheiro de fermento a um quarteirão de distância. Ele bebia fortemente, e, quando ficava bêbado, ele ficava inconsciente de tudo o que o rodeava. Ele não se importava se havia paz ou guerra nem que a sua a casa fosse saqueada. Ele não conseguia reconhecer amigos e parentes, e perdia toda a preocupação com a vida ou a morte.
O outro irmão tinha uma dúzia de quartos na casa onde ele mantinha um grupo de jovens lindas. Muitas vezes ele visitava o seu harém e fazia amor a noite toda sem se sentir satisfeito quando a manhã chegava. Quando ele se sentia sexualmente excitado, ele passava meses com as mulheres, nem sequer se dar ao incómodo de sair ao encontro dos amigos e dos parentes ou de cuidar do negócio familiar. Quando ele se deleitava nos seus prazeres sexuais, ele ficava inconsciente do mundo exterior. Não importava que o país estivesse em guerra ou em paz ou se a sua casa fosse vandalizada ou assaltada.
Tzu Chan ficou muito preocupado com o estilo de vida dos seus irmãos. Assim, ele foi conversar com Teng Hsi, um colega que era estadista que, embora por vezes fosse sarcástico e malvado, era conhecido pelas profundas que fazia e pelas observações e capacidade de resolução de problemas que demonstrava.
Tzu Chan disse: "Estou preocupado com os meus dois irmãos. Diz-se que um homem não é digno de governar um estado se ele não conseguir ter ordem na sua família. Como podes ver, as novas leis e reformas estão a funcionar muito bem agora, mas os meus assuntos de família estão numa bagunça. Podes sugerir-me alguma coisa que faça com que meus dois irmãos irresponsáveis ​​se comportem de maneira mais adequada?"
Teng Hsi respondeu: "Eu também notei os comportamentos deles, e eu interroguei-me quando irias fazer alguma coisa em relação a isso. Eis o que eu sugiro. Encontra uma boa oportunidade para lhes falares sobre a necessidade de colocarem as suas vidas em ordem. Diz-lhes que o que estão a fazer é prejudicar a sua saúde. Talvez isso os convença a mudar os seus estilos de vida."
Um dia, Tzu Chan encontrou os irmãos juntos. Aproveitando essa oportunidade falou-lhes sobre as suas vidas.
"O céu talhou-nos acima dos animais com dignidade e inteligência. Por isso, é nosso dever viver de acordo com essas expectativas e comportar-nos de acordo com a posição que temos na sociedade. Se só viverem para satisfazer os sentidos, vocês não serão mais do que animais. Além disso, o vinho e o sexo podem prejudicar-lhes a saúde, e um dia vocês irão dar por vós fracos e gastos em razão dos prazeres. Deixem de se prejudicar, tornem-se cidadãos responsáveis e eu dar-lhes-ei uma posição no governo."
Os irmãos de Tzu Chan disseram:
"Nós sabemos que o vinho e o sexo prejudicam a saúde. Mas também sabemos que a vida é curta, e queremos aproveitar tudo o que pudermos agora. Tu, por outro lado, suprimes o que deseja fazer para manteres a tua posição e o teu poder. Tu afadigas-te de corpo e mente dia e noite. Isso não prejudicará a saúde, não te envelhecerá e não te fará ficar fraco e gasto? Sentes-te está orgulhoso de tuas conquistas e queres que nos conformemos às tuas crenças. Queres seduzir-nos com títulos e poder político, mas sabemos que essas coisas só trazem obrigações e problemas.
“Dizes que os nossos estilos de vida são embaraçosos e que nos queres reformar. Deixa que te digamos igualmente alguma coisa. Podes ser primeiro-ministro, e o país pode parecer que esteja em ordem. Mas olha bem para ti próprio. Está cansado e abatido. Tens danificado o teu corpo e a tua mente, com a ansiedade de manteres o país em ordem. Para manteres a tua reputação, prejudicaste o teu coração por meio da supressão das tuas inclinações naturais. Mantiveste a lei e a ordem, mas não conquistaste o coração das pessoas. As pessoas aceitam as tuas regras por te temerem, e não por te respeitarem. Nós, por outro lado, podemos ser selvagens e indisciplinados, mas somos fiéis a nós mesmos. Nós nunca adoptamos afectação alguma para obtermos respeito. Nós nunca ter nos envolvemos na política suja nem prejudicamos outras pessoas com traição e intriga. Podes dizer isso de ti próprio? Se não puderes, então não somos nós quem deve acatar o teu conselho, mas tu quem deves acatar o nosso!”
Tzu Chan não sabia o que dizer. Mais tarde, ele viu Teng Hsi e contou-lhe todo o incidente. Teng Hsi disse: “Tens vivido com homens esclarecidos e nem sequer sabias disso.”
Conforme a história nos diz, Tzu Chan teve que matar Teng Hsi para silenciar as suas críticas destrutivas. Cheng tornou-se num estado poderoso por um tempo, mas depois da morte de Tzu Chan enfraqueceu e acabou por ser conquistado por um vizinho mais poderoso. Ao próprio Tzu Chan não foi dada uma imagem muito boa pelos historiadores posteriores, mas nada foi ouvido sobre os seus dois irmãos, pois eles não foram nem elogiados nem condenados pela história.